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História The MeatClub - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Ana e a Trilha


Fanfic / Fanfiction The MeatClub - Capítulo 1 - Ana e a Trilha

 

Manipulável.”

Eu pensava dentro da minha cabeça. “Uma droga de uma sem personalidade, desesperada por atenção, sem um pingo de orgulho e, ainda por cima, completamente manipulável!” Eu sei, é difícil ser a aluna nova, chegar no meio do ano e não conhecer uma viva alma. Acabamos fazendo alguns sacrifícios pelo bem maior – minha vida social, caso não tenha ficado claro, é o bem maior.

De qualquer forma, eu ainda não sei como aceitei participar dessa brincadeira sem pé, nem cabeça. Não estou acostumada a grupinhos compartimentados, de onde eu venho, as pessoas todas conversavam. Não eram todos amigos, claro que não! Mas havia um mínimo contato entre todos nós. Não sei o real motivo disso, ou se essa não passava da minha própria perspectiva do lugar... Enfim, isso já não importa mais. É passado.

Desde o primeiro momento em que coloquei os pés naquela escola, notei o quanto minha experiência estudantil seria diferente. Primeiro, na minha antiga escola, o meu lugar favorito era a piscina, eu amava as aulas de natação e era muito boa nisso. Aqui, nem piscina temos... Acho que meu sonho de ter uma carreira olímpica já era, treinar agora será bem mais difícil. Segundo, as pessoas pareciam não olhar nos olhos. Logo que passei o portão grande de ferro, cheguei ao pátio principal. Antes das aulas começarem, é ali que todos ficam. Eles andavam, como se fossem aqueles zumbis sem cérebro de filmes antigos. Todos eram assim. Todos, exceto um pequeno grupo, escorado em um canto, enquanto esperava o sinal para entrada.

Eu e meu irmão entramos e tínhamos que atravessar o pátio para chegar ao prédio principal, onde deveríamos nos apresentar para nosso primeiro dia de aula. Senti como se fôssemos plantas. Ninguém deu a mínima, ninguém pareceu se importar com a nossa presença. Quando chegamos a, mais ou menos, metade do caminho, o grupo do canto nos olhou. Até aquele momento, eu mesma não havia conseguido tirar meus olhos deles. Pareciam extremamente empolgados com o assunto. Diferente de todas as outras pessoas ali, eles pareciam vivos. Pelo menos, até nos verem. Senti-me como um estorvo, afinal, a última coisa que queria era atrapalhar aquela roda de conversa tão corriqueira, que, para mim, parecia algo único.

Assim que me olharam, baixei minha cabeça e passei a observar meus próprios pés. Nunca me senti assim antes. Era como se eu fosse uma presa frágil e eles caçadores vorazes. Logo que chegamos próximo à porta do prédio principal, o sinal tocou e entramos.

Eu e meu irmão nos sentamos em cadeiras de plástico, ajeitadas como se fossem uma sala de espera provisória, do lado de fora da secretaria da escola. A moça que estava lá dentro levou, no mínimo, 15 minutos para nos chamar. Esses quinze minutos pareceram uma eternidade. A única coisa que conseguia pensar era no olhar predatório daquelas pessoas que ficaram me cuidando no pátio. Eram três: duas meninas, e um menino. Uma das meninas era bem baixa, tinha um cabelo castanho e cacheado, que passava um pouco dos seus ombros, e a pele parda. Seus olhos eram os menos ameaçadores dentre eles, ela usava óculos enormes, que pareciam, sem dúvidas, com os da bibliotecária da minha antiga escola. Sua roupa era essencialmente rosa, mas combinava com sua mochila da Hello Kitty. Não conseguia discernir se ela era uma menina de 7 anos com o tamanho de uma de 16, ou se era uma adolescente meio nerd que esqueceu de amadurecer. Sobre o menino, eu não sabia muito o que pensar, apenas que seus lábios cor-de-rosa eram perfeitos. Ele era alto, loiro e tinha olhos azuis. Seu corpo era meio atlético, mas ele não era enorme, a camiseta branca e a jeans skinny lhe caíram muito bem. Pensando melhor, agora, talvez eu até tenha gostado da forma como ele me olhou, como se fosse pular em cima de mim a qualquer momento. Por último, lá estava ela. Acho que nunca vi alguém tão amedrontador quanto ela. Ela tinha feições meio asiáticas. Seu cabelo era preto como a noite, estava preso em um rabo de cavalo e uma franja caia sobre seus olhos, que mais pareciam dois buracos negros. Assim que ela me olhou, nossos olhares se cruzaram, e a impressão que tive foi de que eles me sugariam para uma galáxia diferente e minha família estaria até agora espalhando cartazes de “desaparecida” pela cidade. Ela era uma das poucas meninas ali que usava salto. Ela não parecia necessariamente alta, mas a sua postura demonstrava o quanto ela estava pronta. Não sei para o quê ela estaria pronta... De repente, para qualquer coisa.

Eu e meu irmão somos gêmeos, mas isso não significa que somos exatamente iguais. Ele tem o cabelo castanho claro e o meu é loiro, ele é meio bobinho e viciado em videogames, eu, por outro lado, sou mais preocupada com o convívio em sociedade. Eu-preciso-de-atenção! Acho que só o que nós temos de semelhanças são os olhos acinzentados e a pele extremamente clara.

Estudamos praticamente a vida toda na mesma escola e na mesma turma. Para mim, isso sempre foi indiferente, costumávamos ter nossos ciclos sociais bem distintos. Pela primeira vez, eu quis que ele fosse meu colega. De repente, assim, eu me sentiria menos sozinha e menos pressionada a fazer novos amigos rápido. Não era bem o que a secretária tinha em mente. Logo que viu que nossos sobrenomes eram iguais, ela separou nossas fichas e nos colocou em turmas diferentes. Estava mais do que convencida de que as coisas seriam realmente bem diferentes aqui. Quando entrei na minha sala, tive a surpresa mais agradável daquela manhã: o menino loiro do pátio estava na mesma turma que eu. Ele parecia diferente do que estava escorado no muro do pátio, ele parecia ter vários amigos. Eles o chamavam de Tom e ele era ainda mais atraente do que eu havia pensado. O restante da aula eu passei o observando, mas, fora isso, não houve grandes eventos.

Eu achei que o dia de ontem tivesse sido cheio de novidades... Eu não sabia o que me esperava na escola hoje pela manhã. Fui para a escola sozinha, Arthur se atrasou e decidiu que não iria – pessoalmente, acredito que ele queria mesmo evitar ir para a escola, ele não comentou muito sobre o seu primeiro dia, então suponho que não tenha sido lá grandes coisas, já que ele costuma falar bastante comigo em casa. Quando cheguei no grande portão de ferro, tudo parecia estar exatamente da mesma forma como ontem: zumbis sem expressão correndo de um lado para o outro, sem um objetivo claro. Mas uma coisa não estava no lugar, o grupinho do muro não estava lá. Revistei o lugar com uma olhada rápida e não os encontrei, me senti um pouco aliviada, admito, então continuei o caminho até o portão pequeno, que levava até as salas de aula, mas antes que pudesse chegar lá, fui interrompida por um cutucão agressivo nas costas, dei uma pequena tropeçada, mas consegui não cair. Quando olhei para trás, eram eles!

Assim, de perto, eles pareciam muito mais aterrorizantes do que quando ficaram me observando no dia anterior. A menina asiática foi a primeira a falar alguma coisa: “Bom dia!”, disse ela, enquanto me olhava dos pés à cabeça, com um sorriso sinistro no rosto. “Eu sei que você é nova por aqui e não pude deixar de notar o quanto você parece diferente de todo mundo... De certa forma, como nós três...”, acrescentou ela, agora me olhando diretamente nos olhos, como se estivesse me analisando - meu medo de ser absorvida pelos buracos negros era maior do que nunca. “Me chamo Samantha, mas pode me chamar de Sam. Estes são Laura e o meu namorado Tom...”, ela continuou falando, mas não consegui prestar atenção por alguns segundos, afinal o menino por quem passei a manhã passada inteira babando, estava comprometido. “então, acho que poderíamos sair e fazer alguma coisa hoje à noite. O que acha? Dessa forma podemos lhe mostrar um pouco da nossa cidade, enquanto você nos conta mais sobre você.”, os outros falaram nada, apenas concordavam com a cabeça enquanto a Sam falava – Tom manteve um sorriso no rosto o tempo todo, aqueles lábios eram perfeitos! Eu não sabia o que fazer quanto ao convite, mas também não tinha muito tempo para pensar e precisava conhecer pessoas novas e eles pareciam os mais interessantes da escola. Ali mesmo, acabei aceitando e ela me disse que deveríamos nos encontrar em um lugar que era muito especial para eles: no clube. Laura tinha uma espécie de mapa desenhado a mão no bolso da mochila. Ele levava até um rua sem saída, eu não entendi na hora, mas Sam avisou que eu deveria seguir uma trilha no final da rua.

Estou aqui agora. Cheguei na rua marcada no mapa depois de subir uma lomba enorme e agora estou morta. A trilha era estreita e envolta a árvores. Ainda bem que cheguei antes do pôr-do-sol, mais uns trinta minutos e esse lugar estaria um breu total. Segui a trilha por mais alguns minutos e cheguei a uma clareira, consegui ver o céu e o dia estava acabando, já podia ver diversas estrelas brilhando no céu, a noite será linda. À frente, havia mais uma trilha, essa ainda mais estreita e mais coberta por árvores do que a primeira, definitivamente, não era o caminho que eu queria seguir, mas não havia nenhum outro.

Mais alguns minutos adiante, consegui enxergar algo brilhando. Quando cheguei perto, levei o maior susto da minha vida. Era o que parecia uma lápide e, em cima dela, havia uma vela acesa ao lado de um envelope com meu nome escrito com uma caligrafia medonha. “ANA”, estava escrito em letras maiúsculas. Abri e, dentro dele estava uma chave estranha e meio enferrujada e um bilhete: “Siga em frente e logo nos encontraremos! Use a chave na porta da frente. Até mais! - Sam”, dessa vez com uma letra melhor e mais organizada. Segui o meu caminho até a enxergar. Será que aquilo era o clube do qual eles haviam falado mais cedo? Aquilo não era uma casinha na árvore... Era uma mansão! Eu estava morta - cansada, suada e provavelmente fedida. Todas as janelas que eu conseguia ver estavam escuras do lado de dentro, usei umas delas para me olhar. Dei uma breve arrumada no cabelo e retoquei o batom vermelho. Fui até a porta e peguei a chave. Senti um frio na barriga enquanto me sentia a pessoa mais ingênua do planeta por estar ali. Esses são os sacrifícios pelos quais estou disposta a passar para não me sentar sozinha na hora do lanche...



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