História The Misfits - Capítulo 2


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Categorias Stranger Things
Personagens Chefe Jim Hopper, Dr. Martin Brenner, Dustin Henderson, Eleven (Onze), Jonathan Byers, Joyce Byers, Karen Wheeler, Lucas Sinclair, Mike Wheeler, Nancy Wheeler, Steve Harrington, Will Byers
Tags Finnwolfhard, Mileven, Milliebobbybrown, Sadiesink, Strangerthings
Visualizações 134
Palavras 4.209
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Científica, Fluffy, Mistério, Romance e Novela, Sci-Fi, Sobrenatural, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência
Avisos: Álcool, Linguagem Imprópria, Mutilação, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Curiosidade (?): A tradução de Misfits, é "Desajustados", que seria o nome original da fanfic.

Capítulo 2 - Living Hell


Fanfic / Fanfiction The Misfits - Capítulo 2 - Living Hell

 

 

 


 

"This town has worn thin, everybody knows... Panic in the news and the terror grows"

 

Max ainda estava com os joelhos fincados ao chão, mas agora segurava a ânsia, controlando o impulso do vômito com as duas mãos. Aquilo era coisa de sua cabeça, certo? Não era a mão de Jennifer, jamais seria. Como a mão dela teria parado ali, se ela estava bem? Jennifer estava bem... Jennifer iria voltar. Jennifer não voltou. E nem vai. E o choro da mãe dela é mais uma prova disso.

Jane percebeu as lágrimas rolarem pela face assustada da amiga, e a abraçou, com as mãos sujas de barro. Sem que tivesse percebido, seu rosto também foi inundado por densas cascatas salgadas, despontando de seus olhos. O céu de Hawkins estava escuro, sombrio e coberto por uma névoa densa, como se isolasse a cidade do resto do mundo. Por um breve momento, mesmo abraçada a Max, Jane se sentiu sozinha. Sozinha como nunca havia se sentido antes... Não havia ninguém a sua volta. Todas as pessoas e ruídos desapareceram, simplesmente evaporaram. Ela sentiu como se alguém estivesse a sua espreita. Um vento frio chicoteou seu rosto, e ela virou a cabeça para trás, com lentidão e cautela.

Jane não via nada... Estava tudo borrado, manchado... Empoeirado?

Oh, Jane Hopper, você pode ver o que é isso? Não é um borrão... É a névoa. Acho que é melhor você começar a correr...

 

 

 

Estava tudo muito esquisito na casa dos Byers. Joyce não sabia bem como explicar aos filhos o que estava acontecendo e não sabia, se ela realmente entendia também. De repente, a cidade em que nasceu, cresceu, estudou, casou e teve filhos, era uma espécie de anormalidade sem explicação. Sim, Hawkins estava ficando conhecida como "A macabra cidade de Indiana: Onde crianças são pegas e mortas sem motivo aparente". A crueldade dos atos a assustava, porque além de não compreender a brutalidade dos crimes, era mãe de dois filhos e cuidava deles totalmente sozinha. Estavam os três, Joyce, Jonathan e William, ou melhor, Will, se vestindo para mais um velório. Não era estranho irem para tantos velórios, ultimamente? Estava ficando tão frequente, que Joyce já deixava os trajes pretos devidamente lavados e engomados. Principalmente o seu, que estava sempre com cheiro de cigarro e bebida, afinal, lá pelo fim da noite, alguém precisava fingir que tudo aquilo não era real.

 

- Mãe? – Will entrou no quarto da mãe, cauteloso. – Pode, por favor, dar um nó na minha gravata? - Exibiu o pescoço coberto por um colarinho branco.

 

- É claro, querido... – Ela largou o pente com qual penteava seus cabelos, em cima da cômoda, e foi de encontro a ele, se debruçando, até ficar na sua altura. – Will... Não quero que saia sozinho, nem que vá a lugares esquisitos, certo?

 

- Eu nunca fiz isso. – Ele deu de ombros. Sua mãe assentiu.

 

Will Byers era um garoto franzino, pequeno e com corte tigelinha. Sempre fora tímido e introvertido, preferindo ficar em casa sozinho desenhando, a sair com garotos de sua idade. As brigas constantes de seus pais o afetavam, o deixando cada vez mais quieto e escondido. Tudo melhorou quando fez amizade com Michael, Lucas e Dustin, no clube de ciências. O Byers se sentia a vontade para opinar, para rir e desabafar com os amigos. Ele podia ser ele mesmo e isso era bom demais pra ser verdade. Já Jonathan, era como o irmão, em um grau bem menor. Membro assíduo do clube de fotografia, nutria uma paixão platônica pela irmã de Michael, Nancy Wheeler, que namorava o atleta mais popular da escola, Steve Harrington.

Ele e Nancy nunca haviam tido uma conversa sólida, nem nada do tipo, mas ela sempre dizia “Oi!”, quando ele ia buscar o irmão na casa dos Wheeler. Apesar de todo aquele terror ter acontecido apenas com crianças, até o presente momento, Jonathan não podia negar que aquilo o assustava... e o assustava muito. A casa dos Byers era uma das mais isoladas, no meio de uma floresta. Ele sempre pensava antes de se deitar: “Será que ele está aqui por perto? Será que algo vai aparecer na nossa porta? Algum membro decepado? Será que ele pegaria um de nós?”.

Jonathan não sabia mais o que era uma boa noite de sono. Vivia em estado de alerta, prestando atenção em qualquer ruído e sendo o mais cauteloso que poderia ser. Havia comprado um bastão de ferro e o guardava debaixo da cama, no caso de emergência. E agora, dividia o quarto com o irmão, com a desculpa de que passavam pouco tempo juntos.

Os dois garotos estavam de terno e a mãe num conjunto preto. Todos tinham expressões fúnebres, aflitas, mas fingiam sorrir uns para os outros. Cada um escondendo o que realmente sentia, na tentativa de ignorar o que estava corroendo por dentro. Will, no banco de trás, olhava para as belas abotoaduras, já sabia todos os detalhes de cor, eram abotoaduras caras, que ele sempre usava em enterros, mas ele já havia ido em tantos... E as vezes, elas eram o único lugar para onde ele podia olhar.

Joyce acendia um cigarro, era insustentável permanecer de bom humor sem um deles entre os lábios, e Jonathan ligava o velho carro, que sempre precisava de força, ou apenas um soco mais forte. E quando ele olhou para o céu, pôde jurar que o céu não existia... Era tudo fumaça.

Não, espere um pouco... É névoa. Era a mais densa névoa que ele já havia visto em toda a sua vida.

 

 

 

Bob Newby estava de volta a Hawkins. Depois de passar alguns anos em Illinois, ele finalmente voltou. Mas não era nada do tipo filho pródigo. Ele voltou porque ganharia com isso, ele precisava disso. E afinal, iria ficar num chalé de sua família por um tempo e depois veria o que fazer. Estava pensando em ficar definitivamente e voltar ao seu antigo cargo, no jornal "Acta Diurna", no qual foi um dos fundadores. Tinha casa, família, trabalho, tudo em Hawkins, principalmente aquilo que ele considerava seu passe para o sucesso, um mistério. Ele, o xerife Hopper e Joyce Byers eram amigos de longa data, não só da escola, eram também amigos de bar. Ele não pôde negar que se entusiasmou com tudo aquilo acontecendo em Hawkins, afinal, aquela cidadezinha pacata sendo praticamente devorada por um serial killer de crianças, era tudo o que ele estava procurando. Uma brecha. Uma manchete, uma notícia. Talvez tivesse escolhido o melhor momento de sua vida para retornar a cidade. Aquela tragédia seria sua glória.

Como um bom cidadão, Bob se arrumava para o velório da garota dos Hayes, no cemitério da cidade. Toda a cidade estava trajada de preto e indo para lá, era como uma macabra passeata. Ele não conseguia parar de pensar em como era estranho enterrarem apenas a mão, apenas uma mão dilacerada violentamente, por dentes que pareciam navalhas, foi o que ele ouviu falar. A menina poderia estar viva, mesmo sem a mão, não poderia? É, poderia. Mas a mão já fedia, quando a encontraram. Estava apodrecendo e os vermes já estavam vindo lhe fazer uma visitinha nada agradável. Como nenhuma das outras duas crianças tornou a aparecer, parecia que o destino da garota já havia sido escrito... Morta. “Morre mais uma. Jennifer Hayes, a mais recente vítima do perseguidor de Hawkins” – Essa manchete seria boa? Ou que tal: “Morre Jennifer Hayes. A filha do prefeito é mais uma vítima do serial Killer” ...  Bob penteava o cabelo alegremente, diante do espelho de bordas envelhecidas e enferrujadas que havia sido de sua mãe. No bolso da calça, um pedaço do suéter rosa que Jennifer usava no dia em que sumiu.

 

O cemitério da cidade estava lotado. É claro, além de ser sobre a filha do prefeito, todos queriam saber mais do quê estava acontecendo. Repórteres das cidades vizinhas, curiosos, conhecidos, pessoas importantes da política, familiares de Jennifer, amigos de escola, nem tão amigos assim e todo o resto. Era verdade que estavam enterrando apenas a mão da garota? Era tão bizarro, que isso despertou uma curiosidade a nível nacional. “O Serial Killer de Hawkins ataca novamente!” ou melhor, “O devorador de Hawkins”. Foi assim que os habitantes o batizaram.

 

Hopper não gostava nenhum pouco daquela exposição e de ter que responder perguntas aos jornais. Pela vigésima vez, não, ele não tinha provas e não, não tinha suspeitos. Era duro responder para todas aquelas câmeras que até agora toda sua investigação tinha sido completamente inútil.  Ele e Jane estavam naquele velório desde as nove da manhã. Ele deixou a garota com a família de Max, enquanto respondia perguntas e se comunicava com os outros policiais que faziam uma ronda na cidade, enquanto seus moradores acompanhavam o enterro.

 

- Até agora não temos maiores informações, mas pedimos que protejam suas crianças. Nada de sair sozinhos, nem durante a noite e nada de irem para as florestas.

 

- Xerife, você acredita que há uma criatura estranha nas florestas de Hawkins? – Um sujeito de terno xadrez e óculos fundo de garrafa, o perguntou.

 

- Eu... não sei.  -  Hopper respondeu, cabisbaixo.

 

 

A família de Max estava lado a lado com os Wheeler, e Jane e Michael também, consequentemente. Eles não se olhavam, não se falaram e fingiam que o outro não estava ali. Jane e Max usavam vestidos pretos, e estavam quase iguais, a não ser pelo cabelo. Michael usava terno como o pai, e suas irmãs, Nancy e Holly, usavam vestidos e meia calça. A mãe dos Wheeler, Karen, estava ao lado da mãe de Hayes, eram grandes amigas da faculdade, e participantes ativas da elite de Hawkins. Tudo é perfeito até que sua filha desaparece e a mão dela vem acenar para você. Max se sentia pesarosa, triste e cansada. Lembrava da discussão anterior na qual havia levado um grito do irmão, e por pouco não levou um tapa. Quando chegou em casa, suja de terra, o as bochechas enlameadas, o nariz entupido e escorrendo muco, enfureceu Billy. Aquilo não era forma de uma moça se portar. O que diabos ela estava fazendo com a família deles? Billy a mandou se trocar e a deixou trancada no quarto, de castigo, até o dia seguinte. Será que ela nunca aprenderia a ser gente? Quando os pais de Billy perguntaram a ele sobre Max, ele disse que ela estava dormindo. “Ela estava tão cansada que chegou e dormiu.” Pela manhã, Max apenas confirmou, mesmo levando uma bronca do padrasto por isso.

 

“Sim. Eu apenas dormi.” – Ela disse, receosa, enquanto penteava o longo cabelo ruivo.

 

"Não faça mais isso!” – O padrasto socou a porta – “Sua obrigação é estar acordada e jantar conosco, entendeu, Maxine? Me desobedeça mais uma vez e verá o que acontece!”

 

Max sentiu nojo. Teve repulsa. Na maior parte do tempo, ela só pensava em como seria bom ter uma família normal. Com pessoas normais, ser uma garota normal. Ela vivia com medo. Medo de seu padrasto, medo de seu meio-irmão, medo da névoa... Quem seria o primeiro a apunhalá-la? Ela já havia visto Billy apagar um cigarro em um gatinho uma vez... Mas ela tinha seus próprios truques. O que você faz quando está com medo? Você sorri e assente. Você concorda, entendeu, Max? Não se arrisque. Se feche dentro de você e lide como melhor puder. E é isso o que ela fazia. Mesmo se depois tivesse de se trancar no banheiro e chorar até ficar de olhos inchados, ela colocava bolsas de água nos olhos e abria um sorriso. “Vai ficar tudo bem, se eu me esforçar”. O fato é que nunca ficava. Mas ela continuava tentando.

 

- Max? – Jane cutucou o ombro da amiga. – Está tudo bem?

 

- Sim – Ela sorriu, segurando a mão de Jane. – Eu estou bem... Tudo bem.

 

Michael Wheeler via o caixão perfeitamente polido de Jennifer descer para sua cova, diante de seus olhos. Como aquilo poderia ser verdade? Uma garota de carne e osso, agora se resumia a uma mão em decomposição, entrando para sempre debaixo da terra. A mão da  Hayes já havia puxado seu cabelo, ela já havia o chamado de “bichinha” e dado um jogo de xadrez em seu aniversário. Agora nunca mais veria aquela loira outra vez, e isso era estranho. Mas a morte é uma coisa estranha, não é mesmo, Michael?  Uma hora você está aqui e um segundo depois, o sopro de vida escapa pela sua boca e seu corpo desaba no chão, como uma mortalha vazia. Michael não era mais criança, mas ainda não entendia a morte. Não entendia o que levava alguém a fazer tamanha crueldade com outra pessoa, e ele jamais iria querer entender.

 

Ele era um jovem magro, branco, quase pálido, sardento e de cabelo preto, num corte comprido, quase cobrindo as orelhas. Sempre foi um garoto curioso, amável e estudioso, tanto que  era o líder no clube de ciências. Essa era uma boa palavra para Michael. Líder. Ele era imparcial, paciente e leal, acima de todas as coisas e de como ficaria encrencado. Talvez fosse por isso que aquilo doía tanto. Não era estranho ver o pai de Jennifer, um homem no auge dos seus cinquenta anos, chorando como um garotinho? Ou sua mãe, com a face roxa, chorando desesperadamente, clamando o nome da filha como uma oração? Será que ela acha que isso traria a Jennifer de volta? Michael passou a mão levemente em cima do olho roxo, e olhou para a garota que havia feito isso, Jane. Ela estava de cabeça baixa, todos estavam. Ele rapidamente abaixou a cabeça e fez uma prece:

 

“Deus.

Por favor, Deus. Não deixe isso acontecer de novo. Por favor.”

 

Quando ele levantou o rosto para o céu, a procura de uma reposta, um consolo ou qualquer outra coisa, acabou encarando as duas montanhas que ficavam no horizonte. Ele viu apenas névoa. Uma névoa que parecia zombar do pedido dele. Ela cobria todo o céu, como fumaça tóxica e deixava a cidade ainda mais morta e feia do que já estava.

 

- Senhor Wheeler? – Mike foi desperto pela voz do diretor Brenner, que tinha o cabelo cuidadosamente emplastado de gel e penteado para trás.

 

- Pois não? – Ted Wheeler respondeu prontamente. Michael odiava quando ele falava daquela forma. como um maldito sabichão.

 

- Sei que não é o momento mais adequado, mas amanhã teremos uma reunião na escola. Eu, o senhor e o xerife Hopper. Precisamos urgentemente conversar sobre o comportamento de nossas crianças...

 

- Aconteceu algo de errado? - Preocupou-se, enquanto apertava levemente o ombro magro de Michael.

 

- Oh... Não foi nada demais... – Ele deu um sorrisinho cúmplice para Michael. – Mas creio que deveríamos conversar, como amigos que somos. – O Sr Brenner acenou para Jane, que devido a proximidade, ouvia tudo perfeitamente. Ela ficou estática. Já sabia o que lhe aguardava em casa.

 

O caixão finalmente desceu para seu lar, a cova. Na lápide de mármore, o nome de Jennifer escrito com letra cursiva. Ninguém jamais imaginaria tal cena. Como as coisas mudam assim, tão rápido? O choro agudo da mãe de Jennifer angustiava e desesperava Will, que chorava baixinho, ao lado de seu irmão mais velho. Quando a última pá de terra caiu sobre o caixão, uma garoa fina caiu sobre a cidade. Michael sabia que era Jennifer... Ela estava chorando. Isso não podia ficar assim.

Nem todos ali gostavam tanto assim de Jennifer. Michael deduziu que estavam chorando de medo.

 

 

 

Jane estava em seu quarto, após o velório deitada na cama de madeira escura que seu pai havia comprado há apenas um ano. Ele também deixou que ela colocasse pôsteres em seu novo quarto, até comprou uma caveira esculpida em gesso, porque Jane achou realmente de muito bom gosto. Apesar de todo o clima estranho do dia, as coisas pareciam querer tomar um rumo normal. As crianças foram pra suas casas, fazer o que sabiam fazer de melhor: ver tevê. Os pais trabalhavam, ou batiam bolos... Será que existe algo mais que eles façam?

Tinha que tomar um banho, para tirar todo "aquele cheiro de cemitério" como dizia Max. Havia deixado seus sapatos de salto na entrada de casa, porque estavam com o solado repleto de terra e ela teve preguiça de limpá-los. Se espreguiçou e ronronou como um gatinho. Sabia que tinha lição acumulada e queria livrar-se dela, mas procrastinar lhe parecia muito mais gostoso. Ainda estava com o vestidinho acinturado que usara no enterro, e também com a fita vermelha no cabelo, quando ouviu leves batidas na porta.

 

- Jane? Posso entrar? – A voz do pai soou mansa, acolhedora. Ela já sabia o que ele queria, então não respondeu. Ele insistiu. – Tenho waffles...

 

- Pode entrar... – Ela gostava quando ele tentava ser legal e não pressioná-la. E também gostava dos waffles.

 

Hopper entrou no quarto com um prato de waffles cobertos com calda de chocolate. Ele abriu um sorrisinho e sentou na ponta da cama da filha. Viu aquela colcha de retalhos que ele e ela fizeram juntos há anos atrás e sentiu uma pontada no estômago... Ela estava crescendo. Já era precoce, articulada demais para uma garota de sua idade. Deixou o prato em seu colo e ela rapidamente se levantou e sentou ao seu lado, puxando o prato para si.

 

- O que houve com o filho dos Wheeler? – Ele começou.

 

Jane nada respondeu. Ela não queria dizer que brigou por causa do pai, e que Michael havia o chamado de “pedaço de merda”. Era ridículo e ela não iria repetir. Acompanhou o desenho dos waffles com a ponta do indicador e levou um pouco de cobertura a boca. Ela ouvia aquela conversa desde que se entendia por gente. A garota do orfanato. Que era ela mesma, Jane.

 

- Estou falando com você, Jane... Vou te contar uma história... - Não queria mexer naquilo, naquele entulho, na ferida que as vezes era obrigado a cutucar para conscientizar a filha. Mas era um mal necessário.

 

- Não. – Ela sabia que história era aquela. E ela não queria ouvir outra vez.

 

- Era uma vez uma garotinha... E essa garotinha tinha...

 

- Não, pai! Eu não quero ouvir isso. Eu sei que não posso. Me desculpe, okay?

 

- Jane, preciso que esteja ciente. Você tem... dons. E eu nunca escondi nada disso de você. Mas você não sabe usá-los, não sabe controlá-los... Você pode acabar fazendo algo muito...  – Ansiava a palavra certa, mas não a achava – Errado. Poderia até mesmo ter... matado Michael.

 

- Eu não vou! Eu não vou fazer nada de errado, pai...

 

- Me prometa. – Ele lançou, ficando de pé e olhando nos olhos da garota.

 

- Eu prometo. – Respondeu sem hesitar.

 

 

 

 

- O que houve com seu olho, Michael? – Karen Wheeler estava de pé, no meio da sala, em cima de seus saltos de veludo preto, diante do filho, que já estava irritado com o falatório de sua mãe.

 

- Nada!

 

- O diretor insinuou algo entre ele e aquela garota, a filha do xerife, como é mesmo o nome? Jeane! – O pai dele se aproximou, sentando- se ao seu lado no sofá.

 

- É Jane. – Michael corrigiu, não muito à vontade por ter feito isso. Não era como se ele se importasse.

 

- Você apanhou de garotos mais velhos apenas para defender sua namoradinha, Michael? – Ela disse alto, e aquilo o incomodou. Ele engoliu em seco, e negou com a cabeça. – Eles têm raiva de você, não é, Mike? Só porque você é de boa família, de boa índole e...

 

- Não foi nada disso. - Cuspiu, tentando escapar daquela conversa.

 

- Amanhã saberemos de tudo, querida. -  O sr Wheeler confirmou a esposa - E se tiver sido aquele nojento do xerife Hopper, é bom que ele saiba que vai continuar na polícia. Mas atrás das grades... – Ted continuou, se esticando para pegar o controle remoto que estava na mesinha de centro.

 

- Você apanhou do Hopper por causa da Gianna?

 

Michael levantou sem dizer uma palavra. Ele estava triste, perturbado e nervoso. Havia visto uma pessoa que conheceu a vida inteira sumir, e sumir para sempre de sua vista. As pessoas não davam importância, não ligavam em saber como Jennifer estava e ele sim, ele se importava. Por isso, se sentia sozinho. Não era a primeira vez que se sentia sozinho. Aliás, ele estava sempre cercado de amigos, de familiares e de todas as coisas que gostava, mas estava sempre sozinho. E talvez fosse exatamente assim que Jennifer se sentiu também. Como seus pais poderiam não perceber a enorme relevância disso? Como será que eles agiriam se aquilo acontecesse com Nancy... com Holly, ou até mesmo com ele?

 

“Mas logo tudo vai passar e vão esquecer que um dia essa garota sumiu...” – Mike ouviu a mãe dizer da sala. Então um funeral era só isso? E esquecemos depois? E foi assim que Mike teve a absoluta certeza de que estava vivendo num inferno.

 

A outra filha dos Wheeler também não havia se abatido tanto com o desaparecimento de Jennifer, afinal, elas mal se falavam. Mas isso não muda o fato de que Nancy estava com medo. Era esquisito que as pessoas simplesmente achassem que podiam tocar suas vidas sem temer que algo ruim acontecesse outra vez, porque bem, já aconteceu três vezes. Três mortes em Hawkins, e nada de atropelamentos de gatos. Eram pessoas brutalmente assassinadas e mutiladas. Sem ter a quem recorrer, Nancy pensava sozinha, enrolada em seu edredom, depois de um banho quente. Seus pés doíam devido as horas que passou de pé com aquele sapato apertado. Sua cabeça era uma confusão. Steve estava fora da cidade em um campeonato e não sabia de nada. "Talvez seja melhor que ele não saiba..." - Pensou ao olhar para janela e ver uma fumaça serpenteando pelas montanhas.

Na mesma hora, sentiu um arrepio correr por toda sua espinha, e seu coração quase pulou pela boca. Ela se afastou dos lençóis sutilmente, como se estivesse sendo observada, e colocou os pés para fora da cama. Nancy deu passos lentos, quase arrastados em direção ao janelão de vidro com cortinas em tons de rosa pastel. Quando olhou para as montanhas, no alto da floresta, ela viu. Viu a névoa cair sobre elas como uma maldição, rodopiando como algo vivo e consciente. E pareceu olhar para ela. "Como uma névoa poderia olhar para mim?" - Ela pensou. Talvez Nancy estivesse ficando louca... Mas parte dela acreditava que sim. Aquilo era definitivamente real.

 

 

 

Na manhã seguinte, não teve aula. Afinal, Jennifer Hayes, a filha do prefeito acabou de ter sua mão enterrada, um funeral e tudo mais. Significava uma semana sem aula, e isso parecia ser ainda pior, já que as crianças ficariam sem ter o que fazer em casa. Sabe como é, a névoa poderia ir até elas... As autoridades pensavam em cancelar as aulas até a resolução do caso, mas ninguém sabia quanto tempo a matança poderia durar. Jane Hopper e Michael Wheeler não foram privilegiados com a sorte de dormir até mais tarde naquela sexta feira. Foram ao colégio com seus pais para a reunião marcada no dia anterior. O diretor Martin Brenner os esperava na sala de reuniões, Estava sentado em sua mesa, mexendo em papéis aleatórios, quando Ted Wheeler e Hopper chegaram. Eles entraram na sala com o consentimento de Brenner, e Jane e Michael ficaram do lado de fora, sentados em cadeiras que ficavam de frente da sala. Tinha um espaço de um metro, aproximadamente, entre eles. Jane estava com um macacão jeans e camiseta azul, e Michael com mais um suéter caro. Ás vezes, Jane desconfiava que a mãe dele ainda passasse talco em seu bumbum. 

As mãos de Jane suavam. Ela havia ensaiado a noite inteira como se desculpar com Michael, mas agora a hora tinha chegado e tudo pareceu inútil. Esfregava as mãos nos jeans, olhava para os lados, em desespero. Já Michael fitava a porta de madeira, esperando que o pai saísse logo de lá e pudessem ir embora, talvez desse para assistir o finalzinho de Thundercats.

 

- Ei, Michael... - Ela disse, com muita dificuldade. Michael apenas se virou para ela, curioso. - Me-me desculpe, sabe? Por seu olho e tudo mais...

 

- Ah! Eu acho que não foi muito legal da minha parte chamar seu pai de pedaço de merda... Acho que mereci. - Deu um sorriso simpático, espremendo os olhos. Foi aí que Jane percebeu que não o odiava... Talvez Michael fosse um garoto legal.

 

- Eu não devia ter batido em você, de qualquer forma... Você me desculpa?

 

- Tudo bem, eu já disse. Não é como se você tivesse tentado me matar, nem nada do tipo...

 

"Você pode acabar fazendo algo muito... errado. Poderia até mesmo ter... matado Michael." - Jane ouviu a voz do pai ecoar em sua cabeça. O coração dela bateu rápido como um tambor, e ela se sentiu verdadeiramente arrependida de ter batido no garoto.

 

- Eu jamais faria isso! - Disse afobada. pegando Michael desprevenido.

 

- Eu sei que não. - Ele sorriu mais uma vez, antes de estender a mão. - Pode me chamar de Mike. Amigos?!

 

Jane esfregou a mão no jeans mais uma vez, ao segurar a mão de Mike.

 

- Amigos. - Ela respondeu, olhando-o nos olhos.


Notas Finais


Próximo capítulo em breve, espero que estejam gostando! Muito obrigada pelos comentários, eu leio todos!!! 💜


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