História The New Order, Interativa - Capítulo 13


Escrita por: e roseneath

Postado
Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Interativa, The Mist, The Society
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Palavras 7.232
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Científica, LGBT, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Survival, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Pansexualidade, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Bom dia habitantes de Roseneath! Antes de tudo, eu queria me desculpar pelo atraso, o que aconteceu foi que eu peguei conjuntivite, daí o retardado aqui usou lente de contato mesmo assim, então a tal doença infernal piorou e minha córnea ficou ferida, resultado: não conseguia sequer usar o celular por conta da claridade. Insuficientemente, eu tive outros problemas sociais e de relacionamento. Sim, o bebezão aqui terminou o relacionamento. Fiquei bem mal e não consegui pensar em mais nada além disso. De qualquer jeito, Roseneath ressurgiu das cinzas e eu, enquanto vivo, estou de volta.)

Acho que todos daqui já fizeram coisas de que não se orgulham no passado, não é? Se você for humano (que eu acredito provavelmente que seja), você já fez alguma merda na vida. Porém não devemos nos culpar por isso, somos todos humanos e todos nós, acredite se quiser, erramos. O que eu quero dizer aqui é que, mesmo errando, podemos, de alguma forma, contornar esse erro, seja nos desculpando ou praticando ações benéficas para todos. Bem, isso não ocorreu em Roseneath, parece que o orgulho dominou o pensamento de todos, então, o que sobrou foi somente a discórdia e a merda. Merda, merda, merda. Vocês estão prontos para enfrentarem o seu monstro do passado? (Porque eu juro que ele já está cansado de viver debaixo da cama desta sua mente infértil, pequena garota.)

Capítulo 13 - A expedição e o passado.


(Familiar.)

A expedição e o passado

 

Caso o passado viesse à tona

você seria capaz de domá-lo

ou teria dores de cabeça?

— The Queensland Killer.

1

Havia uma cabana abandonada perto da trilha da floresta dos mortos. Não era muito grande, basicamente um retângulo de seis metros de comprimento e quatro de largura; vinte e quatro metros quadrados de tralhas espalhadas por todo o canto: jornais velhos e usados (um da data de 1998, quando Griffin parou para ler), ferramentas oxidadas e estragadas, panos velhos e engraxados jogados pelos lados e fotos de animais pregados pela parede. Cadernos, livros, papéis, tudo isso amarrotados em um canto. Caixas de papelão dobradas e amassadas e a estranha sensação de que quem estava ali, saiu com pressa pela última vez. Os três mosqueteiros encontraram a cabana em um dia ensolarado das férias de verão do primeiro ano do ensino médio. Ninguém se lembrava exatamente do porquê estavam andando por lá, mas eles a encontraram. Talvez seria apenas uma cabana velha e estragada para alguns, mas para os garotos aquilo soou como um pedaço do céu na própria Terra. Um lugar em que poderiam se encontrar, para fugir da vida real e viverem algo abstrato, mas tangível.

O paraíso dos mosqueteiros.

Nas férias de verão antes do apocalipse, Bill se aconchegou no canto da cabana e soltou um leve suspiro. Não um suspiro de cansaço ou de tédio, pelo contrário, era ali que se sentia em casa. Nunca poderia sentir-se melhor sem estar na presença de Griffin e Elias. Os três mosqueteiros eram únicos, ele sabia disso. E nada, exatamente nada e ninguém poderia separá-los. Este foi o pacto. Quando sentaram-se à margem do rio Clarence, cortaram a palma da mão e deram as mãos. Então Elias disse estas palavras. Nada e nem ninguém pode nos separar. Nada e nem ninguém. Nada. Então era assim que Bill se sentia depois do pacto: poderoso e invencível. Era como se aquilo fosse o oficializador de suas amizades, como um casamento. Estavam comprometidos um com o outro. Ninguém realmente poderia separá-los.

Sua mão se curvou para o lado e entrou em sua mochila jogada ao lado de seu corpo. Remexeu os dedos um pouco até tocar em sua garrafa térmica. Um sorriso escapou de seu rosto e, no meio de cadernos e livros de sua escola, seus dedos agarraram a sua garrafa. Sua mão levantou-se novamente e ele levou a garrafa à frente do corpo. Estava quente. Bill não se lembrava de quando havia ganhado a garrafa térmica. Sua mãe deve ter dado de presente para si. Sabia que seu filho querido não poderia ficar longe de café quente durante o dia.

Ele apressou-se em abrir a garrafa e levar a borda até a boca. Bebericou um pouco do café e sentiu a cafeína pura e quente descer por sua garganta, causando um prazer quase que instantâneo por todo o seu corpo. Ele sorriu novamente a tirar a garrafa dos lábios, deu outro suspiro e fixou os olhos para frente, enquanto seus ouvidos escreviam as vozes dos outros mosqueteiros em sua mente como um homem escreve em seu teclado. “Aqui, aqui e aqui” afirmou Elias, com o artefato em mãos. Ele estava sentado em posição de índio no meio da cabana, à sua frente tinha alguns papéis jogados ao chão, como um manual de instruções. “É assim que manuseia ela” disse ele, novamente. Griffin, o garoto girafa, recusou com a cabeça, pegou o artefato da mão do amigo e puxou um dos papéis para si, apontando para uma informação específica. “Não é o correto. Você tá pegando errado.”

“Eu vi alguns vídeos na internet, eu sei manusear” retrucou Elias, novamente. Bill riu em seu canto, aquela cena parecia como a de duas crianças brigando. Uma se achava a correta e sempre colocava a culpa na outra, mas, na verdade, nenhuma das duas estavam certas. Ninguém ali, de fato, sabia manusear o artefato, eram crianças. E crianças não sabem manusear armas…

...ou artefatos, como Elias se referia ao longo de suas amizades.

“Eu não quero ficar aqui só na teoria, temos que ir praticar” afirmou Griffin, depois de um longo tempo de discussão sobre o tipo de pistola que era e o tipo de balas que ela recebia. “Eu não peguei aquelas latas à toa em minha casa. Vamos atirar nelas.” Elias deu de ombros e virou a cabeça para Bill, que estava calado bebericando o seu café desde o momento em que eles entraram na cabana. “Vamos, Billy?” perguntou Elias. O garoto loiro deu de ombros como resposta e apenas guardou a garrafa térmica em sua mochila novamente. 

“É, vamos” afirmou Bill, ao se levantar “...temos que praticar para acertar, senão vamos parecer vesgos quando a verdadeira hora chegar.” Elias riu de seu canto e catou os papéis de manual do chão. “Nós vamos acertar, relaxa.” Griffin também se levantou e se espreguiçou, passou a mão pelos cabelos e sorriu: “Bem, se a gente não acertar vamos estar fodidos, porque eles são fortes e eles sempre andam em bandos.” Elias engoliu em seco e olhou para os olhos de Bill no momento seguinte, estendeu a mão com a pistola (que agora estava consigo) e sorriu minimamente acolhedor. “Toma, você primeiro. Vamos ver se você é capaz de acertar alguma coisa sem tremer.”

O garoto loiro revirou os olhos e pegou a arma de sua mão em um movimento rápido, sentiu o metal gelado se encontrar contra sua pele e, por um segundo, sentiu um flash de medo e desespero invadir todo o seu corpo. Ele realmente estava com a arma em mãos. Ele realmente faria aquilo…

...quer dizer, não faria agora, mas uma hora essa hora chegaria. 

E o tempo não era o seu amigo. Ele estava correndo de si, apertando-o fortemente contra uma parede de ferro e enforcando-o a cada mínimo segundo. Tic-tac. Como em um som de relógio. Elias estendeu a mão novamente e entregou as balas. “Coloca no bolso as reservas. A arma já está carregada com algumas.” Bill assentiu com a cabeça e tirou o dedo indicador trêmulo do gatilho. Soltou o braço direito e deixou-o mais leve, ao lado de sua cintura e com o cano da mão apontada para o assoalho. Griffin abriu a porta e fez o seu último comentário antes de todos irem para o lado de fora da floresta dos mortos: “Temos que ficar bons na mira. Vocês sabem como foi difícil conseguir essa arma com o Avery. Além disso, temos que treinar todos os dias. Se continuarmos assim, a gente pode ficar bom até o final do semestre. Porque temos que atirar nas pernas. Nas pernas. Nunca se esqueçam disso. E se passar desse último semestre, nós nunca mais vamos vê-los juntos assim. É uma oportunidade única.”

Elias gargalhou ao lado de Bill e passou pela porta. Foi o primeiro a sair. Mas, antes, deu um pequeno tapa na cabeça de Griffin. “Você é um louco, Griffin. Vai querer torturá-los, não é? Por isso quer mantê-los vivos.”

“Não! Óbvio que não!” respondeu ao sair da cabana, um pouco exaltado. “Eu vou estudá-los, combinamos isso desde cedo. Vocês dois atiram e eu estudo. É só um cervo. Não vai fazer falta para a floresta. Vamos aproveitar o último semestre de caça, enquanto eles ainda estão perto de Roseneath. Vocês se divertem com essa obsessão que vocês têm de armas e eu me divirto com o corpo do animal.”

“É por isso que nós vamos matá-lo” respondeu Elias, novamente. “É só um cervo, como você disse.” Griffin revirou os olhos e esperou Bill sair da cabana, quando o mais novo o fez, ele iniciou a caminhada pela trilha. Griffin era assim. Ele amava os animais. Sempre que pudesse, não iria machucá-los. Mas também amava o conhecimento e a curiosidade. E, no dia em que um cervo aproximou-se da cabana dos mosqueteiros, Elias deu a ideia de matá-lo. No início, Griffin achou a ideia absurda, mas, depois que Elias o convenceu, a ideia não pareceu tão absurda assim…

...era até interessante e curiosa.

“É o que eu disse. Vocês atiram. Eu não vou participar disso. Só vou querer o cervo na minha frente. Só peço que não o matem, é pedir demais?” Elias riu e se contorceu, respondendo: “É, sim. Essa é a parte legal” Griffin suspirou e deu de ombros “Que seja” contornou. “Aliás, não se esqueçam do que eu disse. Eles sempre andam em bandos. São fortes demais também. Se errar o tiro, eles vão te... 

2

—...comer vivo!

Eles vão te comer vivo! Os pássaros estão atacando! Eles vão te comer vivo, Bill! 

Essas eram as palavras que ele ouvia por toda a sua mente enquanto sentia suas pernas doerem e o seus braços serem esticados para os ombros dos garotos ao seu lado. Noah estava o ajudando a caminhar segurando-o pelo ombro direito e Griffin o ajudava pelo outro lado. Já haviam saído da trilha e já estavam na rua próxima da escola. Bill estava machucado, mas não estava apenas com um machucado, estava sangrando por várias partes de seu corpo. O hematoma mais notável era de um pequeno buraco em seu pescoço. O sangue escorria e, por mesmo que Noah tentasse estancar o local do sangramento, o sangue contornava seus dedos. Então aquilo apenas deixou-o mais desesperado ainda. Haviam outros buracos pelo corpo de Bill causados pelos bicos afiados dos melros e dos corvos, porém ninguém sabia onde eles estavam realmente. 

Assim foi a noite dos quatro adolescentes pelas ruas escuras do norte de Roseneath. Brie estava caminhando na frente e ouvia com clareza os gemidos de Bill e a conversa dos dois garotos. Tentava pensar em algo, porém nada vinha a sua cabeça. Os pássaros ainda estavam no céu, bastava inclinar sua cabeça para cima que ela conseguiria vê-los sobrevoando a sua cabeça em círculos, como urubus esperando a carne morrer para comê-lo. Ora ou outra, um pássaro se aproximava mais que os outros, porém Brie e, até mesmo Noah, levantava sua mão e fazia movimentos bruscos para espantá-los. A reação era quase sempre a mesma: eles crocitavam e batiam as asas com forças, subindo para cima novamente. 

Brie sentia a necessidade que os outros três transmitiam à si. Ela precisava fazer alguma coisa. Quando parou de andar e olhou para trás, lá estavam eles. Bill, com a cabeça abaixada e com o peito acelerado, Noah, com uma mão em volta do ombro de Bill e com a outra mão em volta de seu próprio hematoma, na barriga, de uma semana atrás. Griffin apenas demonstrava o seu medo e a sua confusão em sua expressão. Sabia que estavam muito longe para irem para o centro, os pássaros provavelmente o pegariam no caminho ou pior, outro animal poderia se aproximar.

— Precisamos nos esconder — afirmou a garota. 

Bill levantou a cabeça minimamente ao sentir seus passos cessarem, levantou a cabeça e olhou para os olhos de Brie. Lágrimas escorriam por lá e atravessavam sua bochecha, até despencarem ao chão como bombas nucleares. Brie não se lembrou de quando o barulho alto rugiu e a lanterna falhou, apenas se lembrou de Griffin correr e ela ir atrás. De início, pensou que Noah e Bill estariam por trás de si, mas negou-se profundamente ao chegar na rua e não ver ninguém por trás, apenas a imensa escuridão. Ela queria voltar, mas Griffin a impediu. Um momento depois, os dois garotos chegaram. Bill estava quase caindo ao chão e Noah o segurava com dor. 

Não soube realmente o que aconteceu, mas, pelas roupas sujas e rasgadas de Bill, juntamente com seus hematomas e seu sangue, concluiu que não fora algo bom.

— A escola — afirmou Griffin, depois de alguns segundos de silêncio. — Vamos para lá. 

— Precisamos ir para a clínica! — retrucou Brie.

— Mas não vamos conseguir chegar — afirmou o rapaz. Seu braço esquerdo levantou-se e seu dedo indicador apontou para a escola, há alguns trezentos metros de distância de si. — Vamos para a enfermaria, lá deve ter algo para ajudar.

Mais nenhuma palavra foi pronunciada durante o percurso até o colégio. Brie foi na frente e parou em frente ao edifício: uma caixa de tijolos alaranjados de dois andares pintados por tinta azul-marinha. Tinha uma grande haste em frente com a bandeira de Astralis, à frente de grandes tapetes esverdeados de grama sintética. Pela parte de trás haviam os campos para jogos e as piscinas, depois havia o ginásio, onde ocorreu a formatura de Ty e, mais adiante, começava a trilha para dentro da floresta dos mortos, onde os três mosqueteiros iam basicamente todos os dias depois das aulas.

Para a sorte dos quatro garotos, as luzes estavam acesas, haviam luzes por todo o gramado sintético e pelas paredes externas do colégio. Não estavam mais jogados em uma escuridão profunda, eram no máximo ratos esguichando por uma casa deserta e abandonada. Animais indefesos e solitários, que, no final, não sabiam o que o aguardavam.

Brie não teve dificuldade para entrar. A porta estava trancada, mas era feita de vidro, assim como todas as outras portas e janelas, por isso ela se distanciou um pouco e lançou uma pequena rocha em sua direção. O vidro se quebrou e um som alto ecoou por todos os lados, causando o espantamento de alguns pássaros no céu, mas não completamente a sua dissipação. Brie colocou um cacho de seu cabelo castanho para trás de uma orelha e suspirou fundo, agarrou-se ao próprio corpo e entrou pelo corredor principal do primeiro andar.

— Jesus, Jesus — a voz de Noah acordou-a por trás. — O que foi aquilo, o que foi aquilo?

As vozes dos três garotos entraram em um conflito de suspiros e gemidos, algo desesperador para a mente de Brie.

— Coisas sobrenaturais que acontecem em Roseneath — afirmou Griffin.

— Estamos fodidos! Fodidos! — retrucou Noah. — Eu quero sair dessa cidade!

Os dois garotos entraram e Griffin fez questão de fechar a porta. Andaram por alguns segundos pelo corredor largo da escola e pararam algum tempo depois, encostando sobre os armários nas laterais.

— Merda! — exclamou Griffin. — Eu também queria ir embora! Vivo aqui desde que nasci! Imagina o que eu estou sofrendo então!

— Eu estudei por aqui quando criança — afirmou Noah. — Mas meu pai me mandou para Townsville.

— O seu pai é um homem esperto, faria o mesmo.

Bill elevou a cabeça e mexeu o braço que estava equilibrada sobre os ombros de Griffin, um gemido teimosos escapou de seus lábios gelados e uma de suas mãos trêmulas pararam sobre o seu abdômen. Griffin encarou-o de lado e mordeu os lábios. Estava confuso. Nunca, em toda sua vida, achou que os pássaros seriam capazes de fazer algo assim. Atacar um humano? Estaria totalmente fora de questão. Seria a última coisa que eles fariam em sua lista de coisas para não fazer.

— Como você está, Bill? — perguntou Noah. 

— Mo-Morrendo — respondeu o garoto, em uma respiração profunda. — Eu não consigo sentir as minhas pernas.

— Vai ficar tudo bem, nós vamos te levar para a enfermaria — disse Griffin. — Você deu sorte que o médico está aqui, senão você iria mesmo morrer. 

O garoto riu de canto. Noah também riu e Bill apenas suspirou pelo nariz, também queria rir, mas sabia que se o fizesse sua barriga iria doer mais ainda. No momento seguinte, Brie apareceu no corredor um pouco a frente. Não disse nada, apenas sinalizou para o lado e esperou que os garotos a seguissem. E assim foi feito, Noah entrou por baixo do outro braço de Bill e o equilibrou em seus ombros, os três andaram rápido e Bill gemeu por mais um pouco.

Segundos depois, entraram na enfermaria. Tudo estava — provavelmente — do jeito que os adultos a deixaram. A sra. Middleton não era uma enfermeira muito desorganizada. Griffin notou assim que entrou em seu aposento. As paredes eram brancas, havia alguns armário de vidro do lado direito e uma pequena cama do lado esquerdo, coberto por um tecido branco. Acima da cama havia alguns pequenos compartimentos no teto, onde permaneciam centenas de livros organizados por cores de capas. Para Griffin, foi como entrar em um quarto de um hospital. Já para Bill, foi como entrar no céu. Seus lábios se abriram e um gemido de prazer escapou de sua garganta no mesmo momento em que sentiu seu corpo relaxar sobre a cama.

Naquele momento, aquela cama dura pareceu ser a melhor cama do mundo. Com os melhores colchões que ele nunca encontraria em loja alguma. 

— Você sabe o que fazer, Griffin? — perguntou Brie.

O garoto parou ao lado da cama e analisou Bill por alguns segundos.

— Os pássaros… eles… — O garoto engoliu em seco e virou-se para Brie: — Você entendeu. Ele está machucado. Só precisamos tratar e limpar as feridas para que não infeccione.

— Certo. — Brie virou-se para Bill: — Onde você se machucou?

O loiro se contorceu na cama e virou a cabeça para o lado da parede, expondo seu pescoço com a ferida que mais doía em seu corpo. O sangue ainda escorria, mas não era tanto quanto antes. Bill inclinou seu corpo para cima e sentou-se, tateou o seu torso por alguns segundos e fez uma cara feia ao sentir uma dor aguda lhe atingir pelo abdômen. Tirou a camisa e abriu a boca ao ver o sangue coagulado ao lado de seu umbigo. 

— E… — o garoto segurou a voz fraca. — Tem mais um, aqui. — Colocou a mão sobre a coxa esquerda. — Por isso eu não estava conseguindo andar direito. Está doendo demais. 

— Você vai ter que tirar a calça — afirmou Griffin. 

— O quê? — gemeu Bill.

— As calças! Você quer que eu te ajude, não quer?

3

Alice Roberts nunca poderia se sentir melhor. Grande parte dos sobreviventes de Roseneath estavam perdidos, desesperados e desamparados. Não sabiam o que estava acontecendo e muito menos sabiam o que fazer a seguir, porém Alice não se deixava levar pela onda triste e solitária da cidade. Ela estava bem. Muito bem. Victor Roberts, o seu pai, estava desaparecido, talvez morto — em seus sonhos mais profundos —, e isso era o que importava. Ela estava definitivamente livre do velho e nada mais era relevante.

Victor Roberts a culpava por ter matado a sua esposa, isso porque Melissa havia morrido no parto da pequena garota. Então, desde o nascimento de sua família até o momento em que o próprio desapareceu, Alice foi tratada como uma garota não pertencente à família Roberts. Victor, o seu pai, tornou-se alcoólatra quando a garota tinha apenas seis ou sete anos de idade, ela não lembrava direito, apenas flashes confusos de momentos em que via o seu pai sentando-se sozinho à beira da mesa quadrada da cozinha, com uma garrafa antiga de uísque na mão e alguns papéis de relatório seus do trabalho de xerife. 

“Roseneath não se contenta em ser uma pacata e terrível cidade do norte de Queensland”, dizia Alice, em seus encontros matinais com o seu grupo antigo de amigos: “...ela ainda tem que ter um xerife alcoólatra e corrupto. Não há coisa pior que isso, não?” Ty sempre se aproximava de si nesses momentos de dor e beijava na maçã esquerda do rosto, sempre com uma voz mais meiga e suave que o normal: “Deixa disso, princesa, Roseneath não presta, nem o seu pai. Mas ele ganha aqueles bolos enormes de dinheiro, não é? Então é só isso que importa.”

É claro, Victor Roberts era um corrupto de merda, todos os habitantes da cidade sabiam disso, mas todos também faziam vista grossa, talvez pelo homem ser um velho carismático e simpático demais. Alice lembrava-se de quando o pai de Meghan, Edgar Matthews, sempre ia à sua casa para “tomar um café da tarde”, também lembrava-se perfeitamente do pai de Alex, o grande poderoso de Roseneath, oferecer uma bela quantia em dinheiro para que Victor deixasse seu filho de fora da justiça, pelo que fez com Anna em uma de suas últimas festas. O caso do atropelamento de Delilah Patterson… Tudo, de alguma forma, estava relacionado a Victor Roberts e a sua família disfuncional. Tudo estava corrompido.

E Alice, como uma boa filha, passou os primeiros dias do apocalipse vasculhando as coisas de seu pai, pois sabia que ali haviam segredos.

Foi por isso que, na madrugada ao dia anterior da expedição à usina, Alice entrou na jacuzzi com Alex Parker, em sua casa escandinava no final da rua Lothbury. O garoto, como o habitual, segurava uma garrafa de vinho da coleção de seu pai e mantinha uma caixa de marlboro aberta em uma mesinha ao lado da jacuzzi. Um cigarro em específico dançava em seus lábios meio secos enquanto o vapor da água quente subia entre os seus braços abertos apoiados na borda e as gotas desciam, atingindo a água como um raio atinge a terra.

Por cima da mesinha de madeira improvisada e ao lado da caixa de marlboro, haviam duas taças pontiagudas de vidro. A taça de Alex estava praticamente vazia, enquanto a de Alice mantinha na metade. O garoto soltou a fumaça do cigarro pelo canto dos lábios e encheu sua taça, ofereceu a garota mais um pouco, mas ele negou, com o mesmo sorriso malicioso que carregava nos lábios desde o momento que bateu a porta do garoto depois do jantar de despedida no The Pearl.

— Ilhéu achiei… qui vucê gustava maisi do Ty.

A voz do garoto soou embolada e confusa por trás do cigarro dançante de seus lábios. Então ele sorriu minimamente, deixou a garrafa de vinho por cima da mesa e tirou o cigarro da boca no momento seguinte, soprando a fumaça de nicotina para cima. Alice tampou a boca por alguns segundos e desejou que ele não estivesse fumando em um momento como aquele.

— Eu achei que você gostava mais do Ty — repetiu, desta vez com o sorriso confiante no rosto.

— Eu gosto dele — assumiu Alice. — Mas ele gosta mais daquela vadia da Brie. 

Alex riu e pegou a sua taça de vinho, mantendo o cigarro entre o dedo indicador e o dedo do meio. Deveria ter muitos anos de prática com aquilo, pois Alice nunca conseguiria fazer o mesmo sem deixar o cigarro cair sobre a água quente da jacuzzi ou sem derrubar a taça cara de vidro que seu pai provavelmente havia comprado em um país báltico da Europa. 

— Eu achei que você nunca iria perceber isso — disse Alex, após beber o vinho. Ele ofereceu para a garota no momento seguinte, mas Alice apenas recusou com a cabeça e soltou um sorriso tímido. — Eu amo o Ty. Não de uma forma amorosa, mas você entendeu, eu gosto dele mais do que ninguém daquele grupo. Sean, Sebastian… até mesmo a Gwen ou a Brie… ele foi como um irmão pra mim, me ajudou com o meu pai e com os meus problemas. Então assim como eu contava tudo para ele, ele contava tudo para mim. Era como um relacionamento, era tudo recíproco.

— Então ele te contou sobre a Brie.

O garoto deu de ombros.

— Basicamente.

— E o que você contou para ele?

Desta vez a garota pegou a taça de vinho e a levou entre os lábios. Alex gostou de sua atitude, pois levantou levemente as sobrancelhas de surpresa e levou a mão direita com o cigarro novamente para a boca. Tragou a última vez e apagou o toco na mesinha de madeira. 

— Eu contei segredos—

— Como o fato de seu pai prender você no porão?

Desta vez as sobrancelhas do garoto quase saltaram para fora de seu rosto, aquilo provavelmente soou como um baque para si, pois seu corpo desconcertou-se no canto da jacuzzi e seus braços — antes abertos —, caíram para dentro da água quente. Uma gota levada escapou de sua franja branca e desceu pela maçã de seu rosto. Alice não conseguiu saber se aquilo era uma gota de suor ou apenas mais uma gota convencional do vapor.

— Eu não sei—

— Qual é, Parker, todos nós sabemos disso — assumiu a garota. — Você poderia até confiar no Ty, ele poderia te contar alguns segredinhos idiotas, mas saiba que ele contava tudo sobre você para nós. 

As palavras soam como armas, quando usufruídas corretamente. Então, se todos os garotos naquela cidade mimizenta possuíam uma habilidade, a de Alice era de usar as palavras ao seu favor. O jeito que a fisionomia de Alex mudou naquele momento fez o dia da garota. Sua pose era de confiança extrema. Afinal, ele estava em sua casa, em sua jacuzzi, com uma garota gostosa à sua frente com uma garrafa antiga de vinho e um marlboro quase cheio ao seu dispor, mas, acima de todos os bens materiais, Alice sabia que Alex possuía fraquezas, não uma, várias. E, bem, ela pretendia usá-lo para o seu bem, afinal…

...ela aprendera isso com o seu pai.

— O fato do seu pai tratar você como lixo, o fato dele espancar você, te deixar sem comida por dias e, no final, te trancar no porão… ele também contou sobre o seu vício em drogas. Ele estava bem abalado naquele dia, talvez teria acabado de fumar um, mas ele contou. Também falou sobre a sua orientação sexual, sabe? Eu não tenho nada contra sobre você também curtir um pênis, mas… mas ele pareceu bem furioso naquele tempo. E, ah!, ele também falou sobre o seu caso com a Anna, sabe?, ele—

A cada palavra estreada em seus lábios molhados, seu corpo subia cada vez mais e se aproximava cada vez mais do homem que se tornava garotinho. Quando a última palavra foi pronunciada por si, sua face já estava extremamente perto da face do garoto. Seus lábios estavam intactos, um clamando pelo outro, Alice pousou a mão por cima de sua coxa e sentiu, com seus dedos finos, a camada fina da bermuda que ele usava naquele momento. Caso tudo estivesse em seu devido lugar, Alex a pegaria e a beijaria naquele mesmo momento, porém as circunstâncias o levaram a outra decisão, sua mente não estava no lugar e, melhor, seu coração batia tão forte, que parecia explodir o seu peito a qualquer segundo.

— Chega — ele disse, com a voz forte e brava. Seu corpo se levantou e a água escorreu por todo o seu corpo. — Eu não acredito em você. Não.. Não acredito que ele—

— Como não? Eu provei isso tudo agora — retrucou Alice. — O Ty não era, supostamente, o único que sabia de todos os seus segredos?

Nesse momento, Alice já havia também saído da banheira. Ambos estava na parte de trás da casa do rapaz, “o paraíso”, como Alex chamava aquele lugar, era uma sala de jogos, possuía uma mesa de sinuca no centro, a parede repleta de vinhos e outras bebidas antigas, uma mesa circular de pôquer e, no canto, a jacuzzi. As paredes em frente a coleção de bebidas do pai de Alex eram basicamente construídas em vidro, com a visão certeira para a piscina dos fundos, onde, naquele momento, estavam todas abertas, fazendo com que o vento gelado e batesse contra os corpos quase nus dos dois garotos.

Alice usava somente sua calcinha e seu sutiã, ambos brancos e quase transparentes por estarem molhados. Quando ela se levantou, tratou logo de se aproximar do rapaz que mantinha sua taça de vinho nas mãos e virava tudo na boca, como sentisse-se que o álcool pudesse ajudar a sua mente a manter as rodeas no lugar.

— Você tem uma arma não tem? — perguntou Alice.

Ela se aproximou do rapaz e tocou em seu ombro, porém Alex se esquivou e recuou um passo. Deixou a taça de vinho por cima da mesa de pôquer e passou as mãos pelos cabelos molhados.

— E-Eu não a-acredito em você.

— Como não? Eu te disse tudo!

— Mas o Ty nunca seria capaz de contar isso para alguém! — esbravejou o rapaz, aproximando novamente da garota. — Eram nossos segredos! Prometemos um para o outro!

— É por isso que vamos fazer ele pagar — assumiu a garota. — Ele te traiu, assim como me traiu com a Brie. Precisamos dar o troco. Precisamos fazer algo. Não podemos deixar isso barato.

— O que vo-você quer de mim?

— Precisamos de sua arma.

Alex contorceu-se e mordeu levemente a língua. Por um momento, lembrou-se dos momentos que teve com Ty. Poderia soar melancólico ou algo trivial, mas todos os momentos em que passou ao lado de Ty, contando seus segredos e exclamando por alguma sugestão, significava muito para si. Durante o Ensino Médio, Alex e seu grupo sempre voltavam em grupo para suas casas, Alex voltava sempre no carro de Ty (seu pai nunca dera um carro para si, pois não confiava no próprio filho, era como se ele temesse outro caso Delilah em Roseneath, Alex não precisava mais manchar o nome da família, já estava manchado o bastante). Ty dirigia, Alice ia sempre no banco do passageiro e Alex sentava-se ao lado de Bill, quando os irmãos não estavam brigados ou algo do tipo.

Alice era a primeira a descer do carro, pois ela morava em uma das primeiras casas da rua Lothbury. Nas vezes em que Bill ia junto, Alex sentia-se mal, era como se ele torcesse, de alguma forma, para que Bill não estivesse, pois, quando não estava, Ty fazia questão de ir até o fim da rua Lothbury, para deixá-lo em frente a porta de sua casa. Nesses momentos, Ty quase sempre parava o carro e ambos ficavam dentro por alguns minutos, seja fumando alguma espécie rara de marlboro ou contando segredos um para o outro.

Era por isso que as palavras de Alice o atingiram tão violentamente.

— A Taurus está no cofre do escritório do meu pai.

Alice sorriu de despreocupação e encostou novamente a mão pequena nos ombros largos do rapaz. Desta vez Alex não recuou, seus pelos apenas se arrepiaram e seus olhos se levantaram, quase como sem vida ou sem nenhuma cor evidente, por dentro, ele estava devastado. A dor melancólica que atingia os seus pulmões e seu coração. A garota apertou com mais força os músculos do rapaz e arrastou as mãos por sua omoplata, cambaleou por seus bíceps e parou apenas em sua mão trêmula, onde ela segurou e transmitiu um calor antes ofuscado pela brisa que adentrava pela janela.

— Está tudo bem, eu sei como você se sente — ela disse.

Seus dedos se cruzavam a do rapaz e seu corpo se aproximou mais ainda, até que os seus peitos somente cobertos por seu sutiã apertassem contra o peitoral nu do rapaz. Sua respiração pesada e quente soou contra sua face e, em um momento inesperado, ela selou os seus lábios com a de Alex. Ambos se beijaram e o vento soou mais forte por alguns milésimos de segundos.

— Ele vai ter o que merece — ela sussurrou, entre o beijo. — Você sabe a senha do cofre?

4

Caso a incerteza do futuro viesse à tona

você seria capaz de enfrentá-lo

ou teria dores de cabeça?

A noite estava relativamente calma dados as circunstâncias do evento que iria acontecer no dia posterior. Jade Benitez, assim como a maioria dos outros voluntários, estava em seu quarto. Um pouco mais cedo, logo após o almoço no restaurante, ela guiou os voluntários para o supermercado. Exceto por Alex, todos pegaram uma mochila de acampamento no Lawrence Market. Jade não pensava em outra coisa a não ser levar mantimentos e utensílios necessários para a expedição. Então, quando sentava-se na beira de sua cama, seu coração batia mais forte e sua testa doía com o estresse. Um pouco ao oeste, Elias Priest também sentava-se em sua cama, mas, diferentemente de Jade, sua testa não doía, suas pernas mantinham-se cruzadas e o monte de cartas de tarot, espalhadas à sua frente, enquanto um sorriso se formava em seus lábios e seus olhos levantavam-se para encarar a lente de sua câmera acima de sua mesa de estudos.

Do outro lado da cidade, Ty segurou com mais força o pacote de heroína de Brie e sentou-se no chão de sua sala de estar com Sebastian logo ao seu lado, com as agulhas jogadas sobre a pequena mesa no centro do tapete. Ty pegou seu isqueiro e as duas colheres jogadas ao lado da agulha, colocou uma quantia razoável em cada uma e acendeu o isqueiro abaixo de cada, esperando o pó se dissolver para líquido.

— Onde está o seu irmão? — perguntou Sebastian, em algum momento que Ty seria incapaz de lembrar-se no dia seguinte.

Naquele momento, as duas colheres já estavam quentes o suficiente para aquecer o pó e transformá-lo em líquido. Ty pegou as seringas e colocou o líquido por dentro. Entregou uma para Sebastian e permaneceu com a outra sobre o antebraço.

— Eu não sei. — Deu de ombros. — Deve estar com aqueles amigos idiotas dele. — Molhou os lábios e piscou algumas vezes. — Pronto?

— Você nunca gostou de seu irmão. não é? — Sebastian gargalhou e apoiou o braçõ por cima do joelho, mantendo um sorriso bobo no rosto

Ty parou por algum momento e raciocinou. Será que nunca realmente gostou de seu irmão? Bem, talvez a maioria das pessoas pensassem que sim, mas a relação perturbada dos dois nem sempre foi assim. Quando crianças, eles eram exatamente o oposto, até os doze anos especificamente, ambos se escutavam e se ajudavam, mas a verdade é que eles sempre amaram um ao outro. Ty sabia disso, por mesmo que, no Ensino Médio, sua relação tenha mudado drasticamente com o seu irmão.

— Não — respondeu Ty, olhando de relance para o casaco dos Ravens que Sebastian usava naquele dia. — Eu nunca gostei dele. — Expressou todo o seu orgulho. — Nunca nos demos bem, principalmente quando ele fuçou as minhas coisas e descobriu isso — referiu-se às drogas —, então ele falou para os nossos pais, é óbvio, e eles se juntaram em um complô para me enviarem para longe daqui.

— Para a reabilitação — assumiu Sebastian. — Mas você não é um viciado, você já tentou dizer isso para eles?

— Eu disse várias vezes, mas eles não me escutaram, nunca me escutaram.

— Foi melhor que eles tenham desaparecido, então.

Sebastian sorriu minimamente e falou pela última vez:

— Eles nunca iriam te compreender.

Ty permaneceu quieto por algum tempo, refletindo. Conseguiu ouvir o canto de um melro do lado de fora, mas ele apenas se apertou contra a pequena mesa e abraçou-se. Olhou para a seringa em sua mão e arregaçou a manga do seu braço direito. Haviam outros furos por lá. Furos antigos, a maioria de quando entrou no Ensino Médio, pois, depois que Bill descobriu o seu hobby, ele teve de mudar o lugar dos furos, então, para evitar brigas fúteis, começou a se furar nas pernas, afinal, sempre estava de calça e ninguém nunca poderia ver.

Agora, as circunstâncias eram outras. Não existia mais reabilitação, seus pais não poderiam mais encher o seu saco. Ninguém importaria em ver seu braço furado, afinal, grande maioria das pessoas já sabia, aquilo só seria mais uma das confirmações.

— Pronto? — perguntou Ty, depois de um momento calmo.

— Vamos lá.

Então, diante de todo o frio e escuridão que jazia do lado de fora de sua casa, Ty injetou novamente a heroína em seu corpo. Não era algo fácil de se fazer. No começo, ele sentia medo, achava que, em dois dias, se tornaria um viciado compulsivo que dormiria no meio da rua, porém seu pensamento foi desconstruído por Sebastian logo quando a amizade dos dois se iniciou no início do Ensino Médio. Naquele momento, Ty ainda não era o capitão do time dos Ravens, o posto era ocupado por Brian Prescott, um garoto feio e nojento do último ano, ele se formou e o posto ficou vazio. Ty assumiu alguns dias depois, quando o sr. Turner, o treinador, enxergou o potencial em si.

“A parada é boa” Sebastian sempre dizia. “Deixa eu te explicar como funciona.” 

Naqueles dias, Ty se encontrava nos fundos da escola, o lugar que, posteriormente, seria o ponto de encontro do seu novo grupo de amigos, à margem da trilha da floresta dos mortos. Avery também estava lá, afinal, foi ele quem fornecia as drogas. “São três ondas. A primeira é de alívio, vai aparecer que você gozou dez vezes em sua calça. Você vai se sentir poderoso, invencível, vai soar como o efeito da cocaína. Você já cheirou, certo? Ela dura por meia hora, até uma hora, depende de cada corpo. Depois vem a segunda onda, se você achou a primeira boa, é porque você nunca sentiu a segunda. Ela vem mais forte, mais vívida, como um tsunami. Ela vai te deixar louco. Todas as partes de seu corpo vai gritar de prazer, você vai sentir seu corpo voando, como uma borboleta. Vai tudo soar bem, seus problemas vão sumir num piscar de olhos e o seu mundo vai se transformar no mundo de Alice no país das Maravilhas.”

“E quanto a onda três?” 

Avery riu e respondeu desta vez: “Essa onda é o preço que você vai pagar por estar se sentindo desta forma. Você vai apagar, basicamente. Vai dormir por algumas horas, então por isso que é sempre bom você usar de noite, antes de ir para a cama.” Sebastian riu e agarrou com mais força o pequeno saco de pó em sua mão. “No dia seguinte você vai se sentir como se estivesse de ressaca, mas passa muito rápido. Basta usar uma vez por semana e pronto, sua vida vai melhorar cem por cento. Como a minha.”

Ty caiu novamente de seus devaneios, mas não uma caída leve, e sim uma caída brusca. Ele estava voando, é óbvio que estava, mas não se sentia como uma borboleta, sentia-se como uma ave de rapina. Sentia-se forte, poderoso e leve ao mesmo tempo, como se pudesse ver toda a Roseneath por cima. Como se fosse o próprio Deus. Porém os pensamentos impróprios vieram. Uma vez por semana. Uma vez por semana, cara. Ele sabia que não estava obedecendo a regra. Já tinha usado na noite zero, antes disso, usou três dias anteriores, antes disso… antes disso ele não se lembrava mais.

O fato que foram tantas vezes, que sua memória estava começando a se embaraçar. Ele podia mentir para si quantas vezes quisesse, mas Brie estava certa. Ele estava viciado, foi por isso que ela terminou a amizade consigo. Ela estava tentando ajudar, ele não aceitou a ajuda, então… 

...então tudo foi por água abaixo, escolheu a heroína ao invés de Brie.

Nos últimos dias antes do apocalipse, ele percebeu que Brie estava conversando com Bill ás escondidas, pior, sabia que o assunto se resumia à si. Algo como “...ele precisa ir para uma reabilitação, o mais rápido possível...” ou “...você não quer que ele se torne um morador de rua, certo? Um viciado?” 

— Essa porra é o máximo cara. 

Ele conseguiu ouvir a voz de Sebastian, mas antes que percebesse a cratera que havia feito ao cair dos devaneios ao chão, sua mente já estava longe, sua cabeça estava jogado sobre o sofá e seus olhos estavam se fechando automaticamente, como se alguém estivesse puxando suas pálpebras para baixo. A terceira onda havia o atingido mais cedo que o normal.

No dia seguinte, a sua mente vagava pelo céu. Não literalmente, mas, seus olhos não paravam quietos. Às sete horas da manhã foi o horário combinado por Jade. E não deu outra, Ty acordou em cima do horário. O despertador que Sebastian colocou soou por toda a sala e Ty abriu os olhos desesperados por cima do sofá. O mais velho estava deitado sobre a poltrona à sua frente, seu corpo estava esparramado e sua cabeça estava curvada para cima, o despertador tocou uma, duas, três vezes, até que Sebastian acordou com raiva e depois bateu com a mão na cabeça de Ty.

— Eles já estão lá fora.

O mais novo gemeu e virou-se no sofá.

— Você tem que estar lá, você é o prefeito.

Ty afundou a cabeça com mais força na almofada e vagou pelos seus pensamentos inquietantes: não existia mais prefeito. O penúltimo fora o pai de Avery, ele foi preso por corrupção e não houve mais nenhum representante legal da cidade depois disso. Talvez, indiretamente, o xerife tenha próprio se candidatado, apesar do vice-prefeito ser um cara desconhecido que nem sequer nasceu em Roseneath.

— Diz que eu estou doente — assumiu Ty, depois de algum tempo. — Estou com febre, dor de cabeça, dor de dente. Não posso ir. 

Sebastian bufou ao seu lado e levou sua mão até a cabeça do mais novo, tirou suas mechas de cabelo ondulados com os dedos grossos e posicionou a palma da mão sobre sua testa. Para a sua surpresa, Ty não estava mentindo. 

— Você tá quente mesmo — retrucou o moreno. — Você está se sentindo bem?

— Não. 

Ty levantou a cabeça da almofada e abriu os olhos com olheiras para o seu amigo. Sua pele estava um pouco mais pálida que o normal, seus lábios tomavam uma coloração branca e seus olhos expressavam todos os efeitos maléficos que a heroína causara em seu corpo. Por um momento, ele abriu a boca para dizer algo, mas fechou-a logo em seguida. Não tinha nada a dizer, sua aparência já expressava tudo.

— Ok — Sebastian levantou as mãos em sinal de rendição. — Eu vou avisar o conselho. Enquanto isso… você quer… você quer algum remédio?

— Não — respondeu prontamente. — Eu não preciso dessas merdas. 

O garoto fechou a cara e soltou a cabeça sobre a almofada novamente. Sebastian sequer disse mais alguma coisa, apenas pegou seu celular sobre a mesinha de centro e o colocou no bolso, já eram sete e dez da manhã, estava atrasado. Por isso apressou-se nos passos e dirigiu-se a praça principal. Demorou cerca de dez minutos para chegar. Quando finalmente o fez, enxergou o pequeno bolo de pessoas abaixo do olmo ao lado da estátua de Marcum. Estavam todos lá, o conselho e os voluntários.

Não foi dito muita coisa, todos estavam conversando sobre assuntos diversos, comida, alimentação, o caminho onde percorreriam e onde dormiriam nesses dois dias em que se manteriam fora. Apenas quando Meghan Matthews perguntou sobre Ty que Sebastian avisou:

— O Ty está doente — respondeu, sem hesitação, virou-se para o bolo de pessoas e gritou um pouco mais alto, para todos ouvirem: — Ele está gripado, nada demais, mas disse que não conseguia vir.

Mais alguns minutos se passaram e o bolo de pessoas que periodicamente ia se aumentando com outros moradores curiosos, dirigiu-se para a rua Steven, a rua que foi construída para o norte, especialmente para a usina nuclear. Ela, antigamente, era mais larga que outras ruas convencionais, talvez para os veículos grandes que necessitavam passar por ali, tinha postes mais fortes de luz e continham um gramado baixo em seu meio, que dividia a faixa da esquerda e a faixa da direita. 

Porém a rua Steven foi tomada pela floresta. Apenas alguns metros estava livre das árvores na entrada, ao caminhar praticamente dez passos, a rua se transformava na floresta. O concreto foi perfurado pelas raízes e os olmos, em conjunto com os oleandros e as gaias, tomaram o espaço que, antes da usina ser construída, já pertencia à si. Quanto todos esbarraram-se com a floresta, um silêncio constrangedor e infernal se fez presente.

A autonomia do grupo voltou apenas quando Jade Benitez deu o primeiro passo à frente.

Lilith Goth a acompanhou.

Depois Meghan Matthews, Sean Watson e, por fim, Alex Parker.

A expedição havia se iniciado.


Notas Finais


Eu realmente peço desculpas se houve algum erro idiota no decorrer do capítulo.


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