1. Spirit Fanfics >
  2. The Other Side >
  3. Prólogo

História The Other Side - Capítulo 1


Escrita por: Ashmodee

Notas do Autor


Oi oi oi meus amores, eu resolvi lançar o primeiro cap antes de terminar os outros pq vai demorar muito para acabar kakakaka é uma fic que eu fiz inspirada numa fic da PamXV (saudades :/ )
Vai ser uma long fic angst, nesse cap vocês vão ter: auto-mutilação e violência, por favor, se são temas sensíveis para você NÃO LEIA SEM SE SENTIR CONFORTÁVEL.
No mais é isso.
Boa leitura.

Capítulo 1 - Prólogo


"Mil e uma estrelas no céu noturno que tanto amo, contornam a grande lua que se encontra hoje em seu pico, sua forma mais brilhante. Lua cheia. O famoso astro se encontra completo, tão lindo e reluzente.
Queria poder ser como a lua...”

 

Corri o máximo que eu pude, taquicardia e respiração pesada não iriam me parar agora. Minha vida dependia disso e precisava fugir.

Fugir de qualquer situação amedrontadora que me aparecesse.

Palestras, trabalho, família, tudo. Mesmo que estivesse fugindo de mim mesma. O que eu faço e o que eu fiz continua a me amedrontar todos os dias, mas já sei que não posso fugir disso por mais que eu tente.

Você deve se orgulhar de quem você é”, eles dizem. Parece fácil ter olhos de falcão e argumentar sobre o que eu devo ou não fazer, afinal eles não sabem o que acontece na vida dos outros, só veem a ponta do iceberg, mas e o resto, como fica? “Apenas ignore seus problemas e se aceite”, assim é fácil falar, por mais que eu tente não consigo aceitar isso, é difícil admitir para si mesma ser um cataclisma.

Eu passo pela frente de casa, de alguma forma sempre volto aqui contra minha vontade, vontade para fugir não me falta. Passo meus dedos pelos meus bolsos rasos e tiro deles a chave para abrir a porta. Giro ela bem devagar na fechadura e entro a passos leves na sala ouvindo Yuuki esbravejar da cozinha. Ela deve estar bêbada de novo, penso, tiro meus sapatos e ando em direção à sua voz, espreitando pela porta.

— Sua desgraçada, quantas vezes tenho que falar para parar de fazer barulho quando entra em casa, ein Ochako? — ela estava irada, seus olhos castanhos e opacos estavam me encarando friamente através da franja mal cortada. Sua garrafa de uísque pendia na mão esquerda. Yuuki veio em minha direção lentamente e meu coração acelerava a cada passo, temia o que ela podia fazer comigo dessa vez, a mulher tentava manter o equilíbrio e seu bafo de álcool impregnava em minhas narinas conforme ela falava.

Minha mãe já tinha sido uma boa mãe, cuidando de mim, me dando atenção quando criança, mas os tempos passaram tão rápido quando papai foi embora que não me lembro mais como é ser acolhida dentro da própria casa. 

— Garota infernal, você me lembra seu pai, aquele bastardo… — dizia enquanto levantava a mão e a virava contra meu rosto. Senti minha bochecha latejar e meus cabelos bagunçados tapavam minha visão, agora com a cabeça pendendo para o lado, meus olhos se umedeceram.

Yuuki então se virou e tomou pelo gargalo o que restava da bebida.

 



 

            As lágrimas desciam aos montes, encolhida no banheiro sujo daquela casa, sentia o aperto de ter estragado tudo de novo, dessa vez provavelmente sem volta ou justificativa. Soluços saiam pela minha garganta fortemente enquanto tragava mais uma vez no cigarro, meus membros tremiam e minha boca secou, como um deserto sem oásis, mas como eu logo imaginaria, ninguém se preocupou o suficiente para sequer bater na maldita porta. Nenhuma maldita batida.

A noite já havia caído lá fora e a iluminação da rua traziam uma melancolia para aquele cantinho já infeliz. Fiquei trancada lá por um longo tempo remoendo meus carmas e fazeres, testava a sorte com a lâmina nos braços e uma corda na garganta. Ninguém liga. Ninguém se importa. 

Ouvi ao longe meu celular, o maldito toque de Foo Fighters tocava estridente, longe, no meu quarto, me obrigando a destrancar a porta e ver quem era. Esfreguei meus olhos com as mangas do moletom e joguei água no rosto. Minha cabeça pesava e ouvia minha mãe murmurar da sala para desligar o som alto. Cambaleei para o quarto e me joguei no colchão para atender a geringonça.

— Filha?

            Dizia a voz no telefone, calma e mansa, quase como algodão, melódica e suave. Senti saudades e mais uma lágrima percorreu pelo meu rosto vermelho e ferido.

            — Pai? — gaguejei a espera de uma resposta positiva, sentia saudades e meu coração apertava fortemente contra minhas costelas. Reprimi um soluço.

            — Sim, sou eu. Ah como estou com saudades da minha garotinha, Chan olha, fiquei sabendo de umas coisas e te liguei para perguntar se você está bem… 

— Bom, estou na medida do possível — funguei de leve e sequei meu rosto que ainda tinha lágrimas escorrendo como uma cachoeira. Ele estava falando comigo, depois de todos esses anos ele resolveu ligar, uma pontada de raiva surgiu de mim, mas ainda era um alívio ouvi-lo tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe.

— Então Chan, tenho uma outra pergunta também — ele deu uma leve pausa em seu tom envergonhado, mas logo retomou sua fala — Você preferiria vir morar comigo? Eu sei que é repentino e não nos falamos há muito tempo, mas me preocupo ainda e…

— Eu vou pensar sabe, foi tão de repente...

Tudo o que eu mais queria era sair daquela casa, não ter que suportar os chiliques de Yuuki, as drogas, as bebidas e ainda mais, queria esquecer Midoriya, mas meu pai nos abandonou faz tanto tempo, é bem difícil dar uma segunda chance tão cedo assim.

— Está tudo bem querida, eu entendo, mas pense com carinho, ah tem que falar com sua mãe também sabe, se você decidir que quer vir, eu não quero parecer estar te roubando assim do nada — ele soltou uma risada suave, minhas orelhas se aqueceram, mesmo que eu não tivesse achado graça alguma — tenho que ir já Chan, estou no meio do trabalho, pensa com carinho e fala com a sua mãe viu, beijo, fica bem.

Ele desliga o aparelho enquanto eu ouvia gritos masculinos ao fundo o apressando para voltar ao trabalho.

— Tchau papai — uma lágrima feliz escorre pelo meu rosto depois de muito tempo.

Peguei o número que me ligou e adicionei aos contatos para poder chama-lo depois. Me larguei na cama com o peito apertado e a cabeça dolorida pelo choro e pelos ferimentos protuberantes, acabo caindo no sono.

 

...

 

Acordei tarde no dia seguinte, a cabeça ainda doía, mas bem menos. Levantei e logo vi a chuva do lado de fora da janela aberta, molhando minha escrivaninha aos poucos, ignorei, afinal nada naquela escrivaninha me importava realmente. Fui para o banheiro e olhei fixamente meu reflexo no espelho, abaixo dos olhos davam para ver as grotescas olheiras que parecia que não dormia a dias, olhei para meus pulsos feridos e ardidos recordando com mágoa de todos aqueles momentos infelizes que me recorri a essa maldita válvula de escape, o que os remédios não apagavam eu pagava em minhas veias.

Era difícil de me abrir com alguém, então a psicóloga não ajudou muito com meus problemas, apesar de ela ter feito várias tentativas para me fazer descarregar tudo em nossas seções. Me sentia envergonhada de me abrir tão livremente para os outros.

            Me troquei, optei por mangas longas para esconder minhas cicatrizes, seria uma merda explicar tudo para Yuuki, isso se ela perguntasse. Fechei a janela da escrivaninha e as gotículas de água se prendiam ao vidro, remexi nos papeis molhados e os joguei no lixo depois, nada de muito importante, a minha escrivaninha sempre esteve praticamente vazia, não gosto de ter muitas coisas além do necessário, nunca nem tive a oportunidade de ter para falar a verdade.

Pensei em tomar um café quente por causa do clima frio, passei pela sala e lá estava Yuuki, deitada no sofá com sua boca arreganhada, o chão estava molhado e tudo fedia a cigarro e bebida. A TV estava ligada num filme qualquer e havia salgadinho espalhado pelo carpete. Cobri minha mãe com uma fina coberta, catei os restos do chão e logo fui para a cozinha procurar a cafeteira por entre os armários sujos.

            Nunca fui muito de tomar café, de qualquer forma. Fiz a bebida e minha mãe apareceu na cozinha com os cabelos bagunçados e apertando suas têmporas, pegou uma latinha na geladeira como se eu não estivesse ali.

— Yuuki, tenho que falar com você

— O que você quer dessa vez? — ela mal olhou na minha cara.

— Queria saber o que você acharia de eu me mudar daqui e...

— Seria uma maravilha

Ela deixa um pequeno sorriso sair enquanto um gole da bebida descia pela sua garganta. Sério mesmo mãe? Ela me olha de canto de olho e parecia quere falar algo, mas seja lá o que fosse ela ignorou e voltou a latinha. Meus olhos lacrimejaram.

— Tá, você tá falando sério?

— Não tenho que mentir para você, vai onde quiser, não ligo — ela sai do cômodo e nem cogitou olhar para trás, senti a primeira lágrima do dia escorrer. Nossas conversas têm sido cada vez mais curtas e frias.

Me tranquei no banheiro, me agachei em meu cantinho escuro, minhas pernas ficaram fracas e o choro veio em rios. Minha existência era tão insignificante assim? Yuuki não queria saber de mim de forma alguma, talvez ir em bora seja a melhor solução, ninguém me queria naquela cidade. Todos me achavam maluca, só um vulto estranho, sem importância. Começo a sentir a falta de ar me atingindo e os demônios sussurravam em meu ouvido, e com o sangue eu os calei.

As gotas caiam e manchavam a pia escura com minha dor eminente.

Me sentia uma escória insignificante, um peso morto para aqueles à minha volta, será que eu seria também na casa de Ren? Será que ir para lá é minha melhor opção mesmo?

Depois de um tempo sai do banheiro com o rosto inchado e pulsos enfaixados. Tinha que fazer uma ligação importante, eu acho.

 

...

 

            Cheguei com minhas malas nas mãos, as rodinhas enferrujadas rangiam horripilantemente conforme eu as puxava pelo chão imundo da estação de trem, os fones em meus ouvidos não tocavam nada, mas me traziam o conforto de abafar os ruídos estridentes do ferro dos trilhos em atrito com a flange da roda levemente enferrujada.

Procuro com os olhos um homem alto com uma barba mal feita, olhos acinzentados e óculos fundo de garrafa, minha mais recente imagem de papai, criada a mais ou menos sete anos e não atualizada desde então.

Eu estava perdida.

Tinha a sensação de que todas aquelas pessoas me encaravam e me julgavam.

Me senti pequena. Insignificante.

Minhas mãos tremiam de leve enquanto minha respiração ficava pesada, olhos lacrimejaram e eu quis fugir daquele lugar. Uma voz familiar veio aos meus ouvidos me trazendo um pouco de paz, pelo menos o mínimo para não surtar.

— Ochako?

Ele havia me encontrado.

Me virei, podendo então ver sua nova face. Aparência limpa, sem álcool, roupas lisas e seus olhos lindos e brilhantes sem olheiras, não parecia o mesmo. Ele com certeza melhorou bastante, diferente de mim.

Estava com um sobretudo marrom que parecia tão quente quanto o abraço que ele me deu em seguida. Eu o abracei de volta, me sentindo meio estranha. Fazia tanto tempo que não nos víamos e de repente ele estava do meu lado de novo.

— Oi, pai — dizer a palavra pai me soou estranho, como se aquilo não fosse real — Como o senhor tem estado?

— Oh, bem, ansioso por te ver depois de tanto tempo, obrigado por me dar uma segunda chance, filha.

— Não tem de quê

Fez-se silêncio.

O clima estava estranho, não sabíamos sobre o que falar já que não sabíamos de muita coisa sobre a vida do outro, me deixando uma chance para perguntar mais sobre sua nova família.

— Eu me casei de novo, como te disse na ligação. Mas garanto que você vai gostar da sua madrasta, ela tem uma filha da sua idade, iniciando a faculdade. Por falar nisso, como vai a escola? Tem estudado muito?

— Nem tanto, passei raspando — disse um tanto envergonhada — Mas estava pensando em fazer química...

— Certo.

 O silencio mortal veio de novo para atacar nossa conversa e eu me senti estranha. Era esquisito falar com meu pai de novo, é quase como se estivéssemos nos conhecendo do zero. Querendo ou não era o que estava acontecendo, mudamos muito com o tempo e isso era inevitável.

E agora eu tenho uma irmã, aparentemente.

Viu? As coisas mudam.

— Como tem estado a Yuuki? — perguntou e senti um arrepio percorrer minha coluna, não queria ter que falar sobre como tem sido em casa. — Fiquei sabendo que ela tem saído bastante né

Afirmei com a cabeça, não era muito bom lembrar de quando ela trazia os namorados dela para casa, constrangedor e traumatizante no mínimo. Papai me viu apertando as unhas em minhas mãos e ficou quieto de novo. Ficamos assim por um tempo antes do nosso trem chegar.

Ren, quer dizer, papai parecia estar melhor, não era preciso se preocupar com isso, certo? Eu ia me dar bem com eles, né? Mordia meu lábio inferior com ansiedade.

Nós dois entramos no vagão e nos sentamos, estava bem vazio e eu agradeci por poder ficar na janela. Coloquei os fones nos ouvidos e apoiei o queixo na mão para encarar o exterior pela grossa camada de vidro que nos separava.

— Ainda escuta rock, filha? Nessa altura você vai ficar surda.

Escutar música alta se tornou um costume indesejado, sei que fazia mal, mas era necessário em casa. Mas não estava mais em casa, me esqueci. Abaixei o volume com receio, mas seria o melhor para meus tímpanos, além de que os sons da locomotiva não são tão altos por dentro.

Se passou um tempo comigo ouvindo minha playlist de rock enquanto Ren roncava ao meu lado, seu sono era bem pesado pelo jeito, encarei sua nova face, tentando desvendar quais seriam as coisas que passavam pela sua cabeça. Será que ele está me acolhendo por culpa? Ou realmente se preocupava com meu bem estar?

Acabei cochilando com o tempo. Tive um pequeno sonho em que eu era engolida por uma Yuuki gigante, o que me fez acordar num pulo e levemente desesperada, enquanto Ren dormia tranquilamente.

            Fizemos várias baldeações no caminho da minha nova casa e a cada parada eu pensava se estava chegando, como uma criança num passeio escolar, mesmo que eu não tenha ido a muitos.

            Ren me alertou na última estação, havíamos chegado, finalmente! Senti meu coração acelerar e um nervosismo invade minha cabeça. Como será que vai ser minha casa nova? E minha irmã? Será que vão gostar de mim, mesmo sendo tão falha? Vejo ao meu lado Ren, ou melhor, papai chamando um taxi. Em poucos minutos o automóvel chega na frente da estação com um senhor na direção.

Ele tinha cabelos loiros claros e olhos azuis fundos, o que me deixou meio inquieta, uma aparência meio peculiar, mas tudo bem. Acenei para o senhor e entramos, eu no banco traseiro e papai no do carona. Eles começaram um papo animado, quase como velhos amigos.

— Ochan, esse senhor foi meu professor num curso de mecânica, o senhor Toshinori

— Olá querida, como vai?

— B-bom, vou bem, prazer em conhecer o senhor — dou um sorriso falso e aceno com a cabeça enquanto seus olhos brilhantes me encaravam pelo retrovisor. A primeira pessoa que conheci nessa nova cidade, parece ser bem amigável pelo menos, um bom começo, acho eu.

Essas foram as únicas palavras que troquei todo o caminho até minha casa, fiquei interagindo com minha música enquanto os dois adultos conversavam a minha frente.

— Chegamos Chan, sua nova casa — ele apontava pela janela de seu banco uma casa com grandes janelas de vidro à nossa frente. Tiro meus fones e os guardo na minha mochila.

Saímos do carro e Ren pagou Toshinori pela viagem, ele fez um sinal com a cabeça para um breve agradecimento. Pegamos as minhas malas e seguimos em direção á porta de madeira escura.

Com um leve giro na maçaneta metálica entramos na casa, as paredes eram de cores claras e nada parecia fora do lugar. Nada de fumaça e cheiro de bebida. Na sala haviam duas grandes caixas de som, uma de cada lado do móvel da TV, ambas desligadas, parecia coisa de gente rica. Encarei cada pequeno detalhe ficando maravilhada. É bem mais confortável do que lá em casa, isso eu posso afirmar.

Havia uma escada caracol do outro lado da sala e um balcão logo á frente que dava para a cozinha. Nas paredes vi alguns quadros alinhados, em alguns tinha Ren, e quase todos tinha uma garota de cabelos negros que eu desconhecia.

Ren estacionou minha mala ao lado do sofá e chamou à mulher que estava deitada no mesmo.

— Err, amor?

— Oh céus, me desculpe, estava tão concentrada que nem percebi a porta sendo aberta. — Ela deu um pequeno sorriso, fechando seus olhos, fechou o livro que provavelmente estava lendo.

Aquela mulher era linda, seus olhos eram negros, mas transmitiam um brilho arroxeado belo e harmônico, mesmo com a franja que cobria parcialmente seu olho direito. Cabelos escuros cobriam suas costas desnudas pelo seu vestuário, um body branco de mangas longas, estava bem colado, dando grande destaque para seus peitos fartos.

Ela parecia uma modelo.

Com certeza era uma modelo.

— Olá, querida. A senhorita deve ser a Ochako, certo? Seu pai falou muito sobre você esses dias, eu me chamo Mika, Mika Jiro, espero que possamos ser grandes amigas.

Ela se levantou para me cumprimentar

— Posso te abraçar, minha cara?

Apenas estendi os braços envergonhada, ela se aproximou e me envolveu em seus braços quentes, ela tinha um fraco perfume de rosas delicioso, era doce, mas sem ser enjoativo. Seus braços finos me acolheram, mais do que eu me lembro de ter sentido em minha antiga vida. Sim, antiga. Quero deixar todo meu sofrimento para trás e começar tudo do zero com minha nova família, só espero conseguir chama-la assim.

Nos afastamos e eu sorri, senti meus olhos se umedeceram, mas segurei o choro para mais tarde, quando estivesse sozinha.

— É um prazer conhecer a senhora, Jiro.

— Ah, por favor, me chame de Mika, posso te chamar de querida? Já comecei te chamando assim, se tiver algum problema pode falar viu?

— Tá tudo bem senhora Ji... perdão, Mika, obrigada por me acolher aqui — fiz uma reverencia com a cabeça, afinal a mulher me acolheu na casa dela sem nem me conhecer.

Não é todo mundo que faz esse tipo de coisa.

Minha mãe não faria.

            — Espero que você se acostume com aqui, sinta-se em casa Chan. Ainda tem que conhecer minha afiliada, ela gosta de música que nem você, pelo que vi hoje.

            Me ver um dia escutando música no caminho pra cá não define muito minha personalidade, pai, mas obrigada por pelo menos reparar em mim, pensei.

            — Ah, filha, sua irmã deve estar no quarto, a Kyouka ainda não se acostumou comigo em casa — ele ri meio sem graça, coçando a nuca.

— Faz quanto tempo que o senhor veio morar aqui?

— Alguns meses já, mas ela é um tanto quieta, digamos assim...

— Querido, não vai mostrar a casa para ela? Ela deve estar querendo descansar

— Claro, claro, vamos lá, filha — Ele dizia enquanto voltava a pegar minha mala.

Então começamos com nosso pequeno tour.

Ele me apresentou a cozinha, onde tinham duas panelas de comida em cima do fogão. O cômodo cheirava a arroz. Mika me avisou para descer e comer um pouco depois de arrumar minhas coisas.

Subimos as escadas, que agora posso ver ser feita de mármore, e assim que nos aproximamos pude ouvir música alta vinda dos quartos superiores. Deveria ser minha nova irmã. A música era boa, mas o barulho me afligia.

Subimos os degraus, papai com a mala debaixo dos braços.

— Esse é nosso quarto — dizia apontando para a porta enquanto abria levemente.

Tinha uma cama de casal com lençóis brancos e um armário de madeira, cortinas abertas que trazia uma quantidade anormal de luz para o cômodo. Tive que fechar os olhos depois de um tempo.

— A porta do lado é um banheiro, no seu quarto tem um também, não se preocupe.

Só faltava uma porta, supus que teria que dividir o quarto com a garota. Não seria um problema, certo? A garota parece ser legal, a música boa pelo menos me atraiu nela.

— Você vai ficar aqui, com a Kyouka, espero que se deem bem e... — Dizia abrindo a porta branca com um adesivo na porta de “não entre, área 51”, achei bem divertido. Acabou sendo interrompido por uma voz feminina.

— Não abra a porta assim, Ren, eu poderia estar nua, sabia?

Meu pai ficou vermelho de vergonha, afinal ela estava certa. Ouvi ele cochichando para si mesmo se repreendendo por não ter pensado naquela possibilidade, enquanto a garota ria de toda a situação.

Então essa era Kyouka Jiro.

— Por favor se sinta em casa, Chan, estaremos esperando lá em baixao para você comer algo, filha — fechou a porta me deixando com a garota de cabelos violeta.

Olhei á minha volta, aquele quarto tinha uma parede roxa com uns livros empilhados em prateleiras, alguns de Senhor dos Anéis e Hobbit, no chão tinha um rádio que a garota pausou um pouco antes de Ren nos deixar no cômodo. Tinham duas camas, uma de cada lado do quarto.

Uma das camas estava bagunçada e a garota se jogou nela, mexendo no celular.

— Err... oi... você deve ser a Kyouka, né? Eu me chamo...

— Uraraka Ochako, seu pai já nos avisou da sua vinda durante a ultima semana — fui interrompida, mas Kyouka não parecia muito interessada na nossa conversa. Continuou teclando em seu celular, enquanto eu colocava minhas malas apoiadas numa cadeira giratória, ela parecia ser da escrivaninha, mas estranhamente a escrivaninha estava do outro lado do quarto.

A desorganização me deu pequenos arrepios nos braços e senti um pouco de frio.

Eu me sentei na cadeira e me virei para a Jiro, que não mudou em nada sua postura. Comecei a dedilhar em meus joelhos e me sentir estranha. Não era exatamente o que eu esperava. Comecei a sentir que estava a atrapalhando de alguma forma, então tentei sair do quarto para comer alguma coisa, estava faminta.

— Ei.

— A-ah, sim?

— Não se esquece de fechar a porta.

— Hmm... claro.

Fechei a porta um tanto envergonhada e desci as escadas. Essa recepção me deixou incrédula, a falta de educação me incomodou, ela por um momento me lembrou de minha mãe e me senti acanhada. Minha cabeça começou a doer, não era boa coisa.

Na cozinha tinha um arroz japonês servido numa vasilha, tinha também uma tigela de lámen, e um bolo de brigadeiro.

— Ren me disse que você comia muito desse bolo, preferi arriscar.

— Claro, é meu favorito — dei o meu melhor sorriso, aquela comida me dava água na boca, preferi comer só bolo e eles guardaram o resto. Sempre gostei de comer umas porcarias.

Quando terminei, pude sentir minha cara toda melecada de chocolate e tive que me limpar, não tinha reparado no quão faminta eu estava até começar a comer. Tinha saudades desse bolo, realmente comia muito quando criança e nem me lembrava. Senti uma lagrima solitária percorrer meu rosto, mas a sequei antes que alguém perceber alguma coisa.

Ha ha ha me sinto patética.

Chorando por causa de um bolo.

Quando terminei resolvi subir os degraus da escada para meu quarto, na verdade, meu quarto compartilhado com uma irmã que me odeia, ou pelo menos é a impressão que tive quando deixei o quarto pela última vez.

Ok ok, eu to exagerando, provavelmente.

Bati na porta e entrei, a garota estava se trocando. Vi suas costas desnudas pouco antes de terminar de colocar sua camiseta larga preta, tinham duas grandes asas angelicais tatuadas em preto e branco. A única coisa que consegui pensar naquela hora foi na dor de ter que escrever em sua pele algo tão grande.

Nunca tive tatuagens, mas tenho muita vontade de ter, por alguma razão mítica.

— Não conta para minha mãe, ela me mata se descobrir.

Aceno com a cabeça e termino de fechar a porta.

— Tem alguma tatuagem? Não vi nenhuma.

— Ha, bem engraçadinha né.

— Nem tanto.

Fui em direção a um armário que tinha lá e dei uma olhada, metade estava vazia, então entendi que era para por minhas coisas. Então foi o que fiz, passei o tempo arrumando minhas coisas enquanto a garota me encarava curiosa. Não sabia pelo que, eu não era uma pessoa interessante a esse ponto.

Terminei depois de uns minutos e ela escutava música em seus headphones pretos sem fio. Com as mãos ela parecia estar tocando uma bateria invisível, seus olhos estavam fechados e ela balançava ao som da musica em seus ouvidos, a franja caía aos olhos. Tomei coragem e sentei perto dela, perguntando o que estava ouvindo.

O som estava alto e ela não me respondeu, mas percebi conhecer a música, Right Left Wrong. Talvez nosso gosto realmente fosse parecido.

Já era tarde e me deitei na cama, mexendo no celular. Esqueci de tomar meus remédios, então demorei para dormir. Nem percebi quando Jiro adormeceu, de qualquer forma não era da minha conta. Acordei diversas vezes durante a noite, a última vez que acordei foi às 7 da manhã, depois não voltei a dormir. Não conseguia, simplesmente.

Levantei com cuidado, ela ainda estava dormindo na cama ao lado, quando nossa janela foi atingida por uma bolinha vermelha, como um presente do próprio Diabo a me dar “bom dia”. Esfreguei meus olhos para tirar a preguiça de mim e olhei para fora da janela, enquanto a morena acordava ao meu lado.

Tinham umas pessoas.

Desconhecidos.

Me assustei levemente, eram quatro meliantes, com aparência questionável. Pareciam bad boys de filmes americanos. Roupas de couro e coisas brilhantes em metal.

O sol mal nascera e eles estavam lá, nos acordando logo cedo.

— Ah eles chegaram... — disse uma voz ao meu ouvido, olhando através da mesma janela entre as duas camas.

— São conhecidos seus?

— São uns caras.

— Você sai com eles?

— Pff, não credo, são só meus amigos.

Conversávamos enquanto ela pegava umas roupas no armário.

Ela começou a se despir na minha frente, como se não fosse nada. Eu fiquei um pouco constrangida. Não me sinto confortável para fazer isso, então vou para nosso banheiro e coloco minhas roupas.

É estranho pensar nisso, “nosso” banheiro. Eu me acostumei a ficar sozinha, de repente tenho uma irmã e divido um quarto. Tirei as faixas de meus pulsos, ensanguentados e marcados com o tecido, lavei as faixas na torneira e preenchi as cicatrizes com grossas camadas de pulseiras, me maldizendo por recorrer a essa merda toda só para me sentir menos desprezível.

— Ei, mana, posso te chamar de mana? — ela dizia através da porta

— Ah... claro, Jiro.

Gaguejei, ainda me sinto desconfortável com tudo isso.

— Certo, mana, quer sair com os caras? Minha mãe me mataria se te deixasse sozinha em casa.

— Ah... claro.

— Belê, a gente já vai sair.

Ouvi os passos dela se afastar e soltei a respiração que nem sabia que estava segurando.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...