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  3. Capítulo II

História The Rapture - Capítulo 3


Escrita por: Psycho-sama e EllieSilva

Notas do Autor


Heyo!!! Psycho-sama aqui!!! Vamos agilizar a postagem dos capítulos, uma vez que queremos receber as fichas logo e dar andamento à estória! Boa leitura ^^

Capítulo 3 - Capítulo II


CAPÍTULO II

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“Esta é a forma com que o mundo acaba. Não com uma explosão, mas com um grunhido."

———— T. S. Eliot

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.ATENA.

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Dia 1.478 p.A

 

O homem encapuzado a conduziu até a parte mais funda do recinto, atrás do balcão metade destruído, e onde as prateleiras com medicamentos ficavam. Ele mancava um bocado, e por alguns segundos se perguntou se havia sido os infectados.

Enquanto o analisava de canto de olho, incapaz de baixar sua guarda, notou que ele se apoiou em uma estante e se sentou no chão, meio desengonçado e com um resmungo rouco. Quando ele baixou o capuz, pôde notar que o homem era mais velho do que julgara no começo. Talvez seria alguns anos mais velho que seu pai.

Ou a vida fora difícil para ele.

Bem, naquela altura, não era difícil para todos?

Seus fios grisalhos se misturavam com alguns dos que ainda pareciam jovens. As rugas eram evidentes, mas nunca julgou isso o suficiente para dizer a idade de uma pessoa.

Se agachou também, um pouco distante. Sabia que ainda havia muitos infectados pela rua, mas se fossem silenciosos, eles logo desistiriam. Esperava.

Limpou a garganta baixinho, olhando-o com óbvia suspeita.

———— Por que me ajudou? ———— Ele não ergueu a cabeça para encará-la, puxando a bolsa das costas e a repousando entre as pernas.

———— Por que será? ———— Ele tinha uma voz carregada, cansada. ———— Provavelmente porque ainda sou humano…

Quando ele a encarou, Atena sentiu como se a estivesse julgando. Talvez por duvidar da sua “humanidade”, ou porque sabia que ela havia apenas o assistido correr dos infectados sem mover um músculo se quer.

Deu de ombros. Duvidava que fosse o último. Ninguém pode ser tão otário a ponto de salvar uma pessoa que o deixaria para morrer. Certo?

———— Eu posso acabar esfaqueando você no segundo que me dar as costas, e levar suas coisas comigo.

Ele riu baixo, zombeteiro. Atena tentou não deixar isso afetar seu ego.

———— Você provavelmente não irá longe.

Estreitou a vista.

———— Eu posso me virar com alguns infectados... Senhor... ———— Conteve sua língua para não deixar jorrar um “velhote” ao invés. O homem estava entrando em sua pele facilmente.

———— Não estava me referindo a eles, child.

Atena estreitou os olhos cuidadosamente.

———— Você não está sozinho.

Ele sorriu.

———— Acha que um velho frágil como eu, estaria andando por aí sozinho?

“Fragile my ass...”

Torceu os lábios, olhando sobre a prateleira, e notando que pouco a pouco os infectados iam se afastando, procurando por sons aleatórios. Voltou-se ao homem.

———— Ousado de você abrir o jogo dessa forma.

———— And what about it? Você vai matar todos que estão comigo, por que você é uma máquina mortífera?

Atena o mirou de canto.

———— Não estou sozinha também. E você não nos conhece.

Ele sorriu, parecendo mais divertido do que qualquer outra coisa. Tentou não se ofender, mas falhou miseravelmente. Homenzinho difícil de engolir.

———— Se você está dizendo…

A loira conteve um rosnado, cruzando os braços e lhe dando as costas. Impediu a vontade de gritar.

———— Whatever, old man! É só questão de tempo até essas coisas irem embora, e nunca mais precisar olhar para essa sua cara enrugada.

Ele a mirou como se as palavras não tivessem sido absorvidas, e ao invés, apenas a julgasse por sua atitude infantil.

O tempo nunca passava rápido quando Atena se aventurava sozinha em incursões do tipo. E na companhia daquele velho abusado — que entre idas e vindas, descobrira se chamar Robert Singer; ou simplesmente Bob —, o tempo pareceu triplicar.

O sol talvez já estivesse no alto, não sabia especificar, uma vez que as nuvens insistentes dificultavam seu trabalho. Mas certamente havia se passado um bom tempo, e se Zarina já estivesse de pé, rezava para que ela não viesse à sua procura. Com a quantidade de infectados que tomou aquela estrada em tão pouco tempo, julgava que esse era terreno minado.

Os únicos humanos ali, talvez, fosse Bob e ela mesma.

Suspirou minguado, ajeitando sua mochila como travesseiro, e o casaco extra que pegara para Zarina, como um acolchoado para as costas. Bob continuava sentado na mesma posição de quando chegaram. Ele mal piscava, Atena ousava dizer. Com seus olhos azuis freados na frente da loja.

Estaria ansioso? Estaria esperando pelos amigos que dissera terem vindo com ele? Ou estaria simplesmente rezando para que eles não viessem também?

Quando abriu a boca para perguntar se ainda estava vivo, Atena ouviu um som vindo do forro da farmácia. Era como se alguém andasse calmamente sobre o gesso encardido. Ergueu-se nos cotovelos, acompanhando o som e profundamente esperando que fosse um maldito gato gigante, quando os passos cessaram.

Atena trocou um olhar nervoso com o homem, e ambos se viraram para o local de onde os passos haviam parado. A moça puxou a faca militar de suas costas, e se apoiou em um joelho, pronta para correr e saltar sobre o que quer que fosse aquilo.

De repente a tampa que levava ao sótão foi colocada de lado lentamente, e então duas pernas longas foram vistas balançando de um lado para o outro, até que o dono delas saltasse graciosamente sobre o piso sujo e enlameado da farmácia.

O rapaz viera do lugar menos esperado naquele momento, e por alguns segundos, Atena ficou sem reação. Cogitou se deveria matá-lo ou apenas observar o que aconteceria, quando o viu se jogar para frente e engatinhar até o homem mais velho.

———— Sr. Singer! Que bom que está aqui. Estou procurando pelo senhor tem pelo menos umas três horas... ———— Ele sorriu nervosamente enquanto o outro não parecia surpreso ou afetado com a sua presença. ———— Não que eu realmente consiga contar as hor-

E foi apenas naquele momento que o rapaz pareceu notar a terceira presença no recinto, voltando seus olhos negros para Bob em um questionamento mudo. Ao ter como resposta apenas um suspiro cansado, se voltou para a garota, um sorriso de covinhas deveras graciosas a recepcionou.

———— Desculpe não ter notado você. Me chamo Park Hansol! ———— Ele estendeu a mão, e sem vontade de ser educada, Atena não a apertou.

Pelo contrário do que achou, o rapaz asiático não pareceu ofendido, apenas recolhendo sua mão e mantendo o sorriso.

———— Eu vim com o Sr. Singer para buscarmos suprimentos, mas acabamos nos separando na entrada da cidade. ———— Ele se acomodou calorosamente ao lado do mais velho.

Atena suspirou, se sentando e acalmando a adrenalina que tinha corrido por suas veias.

———— E você?

Cogitou a ideia de não respondê-lo e ignorá-lo tão piamente quanto seu companheiro de grupo, mas haviam coisas que Atena não conseguia fazer, por mais que quisesse.

———— Atena Jones... Eu estou em incursão sozinha.

———— Oh… Você parece uma lutadora. ———— Franziu o cenho para o comentário. Ele sorriu. ———— Pode se juntar à nós!

———— Ei, kid! ———— Bob não pareceu compartilhar do entusiasmo, se voltando para o asiático com rapidez não comumente em alguém de sua idade. ———— Não pode simplesmente convidar qualquer um para o grupo. It’s not safe!

O rapaz fez careta.

———— Ela parece legal. ———— Pensou melhor. ———— Tirando o ranço. ———— Sorriu. ———— E nós precisamos de pessoas como ela. O senhor sabe que precisamos.

Bob não mudou sua expressão por longos segundos, até que pareceu finalmente soltar o ar pela boca, e se voltar para frente. Hansol sorriu, e ambos não pareceram ainda reconhecer a presença de Atena logo ali.

O rapaz se voltou para ela finalmente.

———— O que acha, Srt. Jones?

———— Atena… ———— Ele anuiu, muito animado para alguém que vivia naquela merda de mundo. ———— E eu preciso pensar sobre isso.

———— Desde que isso não leve muito tempo. A rua está ficando bem movimentada.

Por mais que a ideia fosse tentadora, não sabia se Zarina e ela se habituariam a um grupo. Haviam passado tanto tempo sozinhas, sem confiar em nenhum outro ser humano… Parecia uma tarefa mais difícil do que enfrentar aqueles infectados.

Mas, quem sabe, se pensasse melhor, Zarina podia até achar alguma diversão com essas pessoas.

Coçou a testa.

———— Preciso falar com minha amiga…

Tanto Bob quanto Hansol a miraram com rapidez.

———— Onde ela está? ———— Quando mirou os olhos azuis de Bob, se perguntou se era mesmo inteligente dizer a eles onde Zarina estava.

E se fosse uma armadilha?

E se tivesse mais um bando deles ali em cima, apenas esperando o momento certo para capturá-la e irem até Zarina?

Mordeu o lábio, desviando os olhos.

Bob bufou.

———— Se não pode confiar em nós, não tem o que pensar. Pode continuar apenas com sua amiga, contando com a sorte em cada esquina em que se enfiam sozinhas.

Hansol pareceu incerto das palavras de Bob, mas não disse nada. Um grupo só sobrevive se puderem confiar um nos outros. Não existe meio termo.

“Annoying old man!”

Atena torceu o lábio.

———— Estamos em uma cabana, depois da saída da cidade... Quase uma hora depois.

Bob anuiu, voltando seus olhos duros para o rapaz.

———— Tem como sairmos daqui por onde você veio?

Hansol pareceu animado.

———— Sim, senhor. É só descermos pela escada nos fundos da farmácia, e entramos na floresta. Tem um buraco enorme no telhado.

———— Então, juntem o que acharem de útil, e vamos dar o fora desse lugar.

 

.

 

.

.ZARINA.

.

 

———— Muito bem, quem dos dois imbéciles tá sendo seguido? ———— Cochichou gritado para o par escondido atrás do sofá da sala, que, além de tudo, tinha arrombado a porta ao entrar novamente na cabana.

De onde estava, escondida atrás da mesa de centro, Zarina tinha uma visão privilegiada da janela e dos infectados do lado de fora. Pelo que podia dizer, os clickers estavam perto o bastante para ouvir o barulho que ela com certeza faria tentando tirar a tralha que havia colocado para bloquear a saída dos fundos, se tentasse fugir por lá. Se quisesse arriscar a porta da frente, o runner a veria. A situação era, sem dúvida, uma bosta.

Pelo menos dessa vez estava vestida.

Por falta de coisa melhor, Zarina amarrou um lenço ao redor do nariz. O par de visitantes indesejados atrás do sofá tinha cada um uma máscara de gás, e parecia muita falta de empatia colocá-la no meio daquela merda quando os dois estavam tão melhor preparados.

———— Você pode argumentar que... Fomos nós dois. ———— Respondeu o tal do Jacob, baixinho, por baixo da máscara. A mulher ao lado dele, porém, estava toda tensa. Não tirava os olhos da porta um segundo.

———— Precisamos de um plano! ———— Ela sussurrou.

———— Pra quê? Tem um infectado pra cada um de nós.

———— Eu fico com o runner! ———— Zarina exigiu, engatinhando para trás da porta da sala. Como não tinha muita proteção contra os esporos, o runner certamente era o alvo menos perigoso para ela.

E ainda assim era uma bosta — uma bosta! — que ela tivesse que lidar com esse tipo de coisa. Preferia mil vezes pular em inimigos pelada, com nada além de uma faca de peixe, se pelo menos eles fossem humanos. Infectados eram loucura. Loucura!

E daí que já tinham se passado cinco anos e ela já devia estar acostumada? No dia em que achasse normal conviver com a chance de virar um zumbi por causa de um arranhão, ela já estaria morta.

Quando olhou novamente, o par de estranhos tinha mudado de posição. A mulher estava de frente para a porta, com a arma apontada, só esperando o primeiro infectado passar para abrir as portas do inferno.

Pelo que já tinha observado de Atena, o primeiro tiro era geralmente o mais garantido. Depois dele os infectados reagiam e tudo ficava caótico, com braços e pernas pra todo lado, e mirar com calma ficava quase impossível. 

Zarina só podia confiar que a gorilona iria derrubar um inimigo.

Um único alvo. 

O resto, pelo visto, iria ficar por conta dela e de um senhor barrigudo de meia-idade que, sinceramente, não inspirava muita confiança.

Mas Zarina não tinha motivos para tomar parte naquela palhaçada. Não conhecia aquelas pessoas, não lhes devia nada, e com certeza não iria morrer tentando livrá-las dos infectados que os próprios idiotas tinham trazido até a sua porta.

O primeiro tiro foi dado.

Na frente da porta, um dos clickers caiu. O outro entrou furioso na cabana, mas o tal Jacob foi até bem rápido em atacá-lo com a lâmina na ponta de seu porrete. Uma única furada não deu conta do recado, porém. O velho e o clicker rolaram no chão, um visando a garganta do outro, enquanto Zarina acertava o taco de baseball no único runner dos três e saía ela mesma correndo pela porta, sem nem se dar ao trabalho de ver para que lado o infectado tinha caído.

———— Filha da puta! ———— Ouviu a mulher gritar atrás dela.

———— Vocês que lutem! ———— Zarina berrou de volta, correndo com um sorriso (e não há outra forma de dizer) bastante filho da puta na cara.

O problema foi que, ao sair disparada pela entrada da casa, a cubana viu outros dois runners vindo pela trilha para a cidade que Atena tinha tomado mais cedo.

E eles também a viram.

Com runners, não dava só para fazer silêncio e esperar passar.

Zarina saiu correndo na direção contrária, largando mochila, taco; tudo o que podia no meio do caminho, na intenção de ser mais rápida. Mas um dos corredores devia ter sido atleta também quando estava vivo, porque conseguia acompanhar seu ritmo.

Desarmada, Zarina chegou a conclusão de que teria de ser criativa para se livrar do problema. Voltou a correr para onde achava que ficava a cabana, dessa vez tomando o caminho em direção à entrada dos fundos. Daí continuou correndo, e correndo — até ouviu outro tiro, mas não parou de correr até ver o quintal da casa surgir na paisagem, e, junto com o ele, o poço artesiano aberto no chão.

Com uma última guinada das pernas, Zarina saltou sobre o buraco do poço. Caiu cambaleando do outro lado, sentindo o joelho na aterrissagem mas dando a mínima porque, por um milagre, o plano tinha terminado em sucesso. O corredor tinha caído dentro do poço, e lá estava. Grunhindo e arranhando as paredes, enquanto a cubana respirava pesado, tentando recuperar o fôlego.

Foi quando a porta dos fundos da cabana abriu de supetão, revelando a mulher parruda de antes que, agora, estava com a arma apontada para Zarina.

———— You fucking bitch! ———— Ela berrou. ———— Tudo isso é culpa sua!

Zarina tentou fazer o que lhe pareceu mais lógico: levantar a bunda do chão e sair correndo, de novo. Infelizmente, seu joelho machucado decidiu não colaborar.

———— Ah, você nem tente! ———— A outra mulher avisou, chegando mais perto com o cano da arma. Zarina parou no lugar e até levantou as mãos para cima, dando a entender que não ia tentar nada. ———— A gente tinha a porra de um plano, não tinha? Não tinha?!

———— Sonda, para com isso! ———— Interveio o homem, Jacob, escorado no batente da porta. Mas estava pálido, falava até sem quê de provocação que parecia inerente à voz dele. Além disso, agora ele segurava um dos braços, sangrando, junto do corpo.

Tinha sido mordido, não restava dúvidas.

A única pergunta a se fazer era:

———— Foi o corredor?

———— É, foi o corredor! ———— Gritou a outra mulher. ———— O maldito corredor que você mandou voando para cima do Jacob!

Zarina assentiu com a cabeça. A intenção não tinha sido essa, ela realmente só queria liberar a porta para sair, mas também não era como se tivesse se preocupado com a segurança dos outros em sua fuga.

Mesmo agora, não ligava.

———— Você vai atirar, Sonda? ———— Ela perguntou em um tom cuidadoso, usando o nome que tinha ouvido.

Sonda, obviamente, reagiu ao próprio nome. Pôs as duas mãos em cima da arma e deu um passo à frente, lançando um olhar feroz à cubana.

———— Me dê um bom motivo para não estourar a sua cabeça agora!

———— Yo no tengo ninguno. ———— Zarina respondeu, tentando soar diplomática apesar de suas palavras soarem muito com um desafio. ———— Nenhum além do fato de que eu acho que você não quer fazer isso.

———— Ah, eu não quero?!

———— Não quer não. Se quisesse, você tinha apertado esse gatilho assim que saiu pela porta. ———— Zarina abaixou as mãos. Viu a outra mulher se inquietar com a arma, como se estivesse desconfortável com o peso dela. ———— Eu tenho um palpite. ———— Zarina falou. ———— Você nunca teve que matar um de nós, teve, Sonda? Outro humano, eu quero dizer. Honestamente, eu meio que te invejo...

———— Eu sempre posso abrir uma exceção pra você!

———— Verdade. Mas você vai? ———— A cubana pressionou. ————  Se não for, eu vou entrar naquela mata. Nunca mais vou aparecer na tua frente, e depois de um tempo você vai perceber que isso não faz a menor diferença na sua vida.

Sonda ainda hesitou por um momento, os dedos pairando sobre o gatilho da arma. Parecia furiosa e indecisa, tensa e cautelosa, tudo ao mesmo tempo. Zarina realmente não sabia que estava jogando certo com ela, mas paciência; acabou nem descobrindo. 

Um barulho no interior da cabana alertou o grupo para uma presença próxima. imediatamente, o trio no quintal da casa se agitou.

———— Tem mais alguém com você? ———— Jacob perguntou a Zarina, se empenhando de dar pena para conseguir erguer o porrete por cima do ombro bom. Parecia realmente irritado em ter que fazer esse esforço.

———— Tem. Mas ela não devia ‘tá de volta tão cedo.

———— Shiiiiiu! Estão vindo nessa direção. ———— Sonda gritou cochichado para os outros. Zarina tentou passar por ela, a fim de ver dentro da casa, mas teve o cano da arma encostado diretamente na base de suas costas. ———— Não tão depressa, Forrest. Eu ainda não acabei com você.

A cubana quase agiu no impulso, mas pisou a tempo no freio do krav maga. Ter uma arma nas costas era a posição mais fácil de desarmar alguém — melhor que isso só se fosse uma espingarda —, mas Zarina não queria alertar o possível clicker dentro da casa com o barulho.

Deixou-se então ser conduzida por Sonda para trás de uma caixa d’água enquanto Jacob se abaixava debaixo da janela, os três esperando qual surpresa passaria pela porta dessa vez.

A primeira pessoa que viram foi um rapaz de uns vinte e poucos anos, de grandes olhos puxados. Com ele vinha um velho de expressão rabugenta, e, atrás dos dois, uma garota loira de bochechas grandes e cenho franzido bastante familiar.

———— Tenny! ———— Zarina sorriu, já indo na direção da amiga quando Sonda a segurou pelo pulso e tornou a apontar a arma para as costas dela.

Atena não pensou duas vezes; puxou um revólver do cós da calça e mirou na direção da mulher estranha.

———— Wow, vamos com calma aí! ———— Jacob tentou intervir, e em troca recebeu a atenção da Colt de Atena para ele.

———— Eu não vou falar duas vezes. ———— Ela avisou, com a voz cortante. ———— Soltem a Zara e quem sabe todo mundo sai vivo dessa.

———— Vai ter que fazer melhor que isso se quiser essa filha da puta de volta, querida. ———— Sonda avisou.

Com um suspiro entediado, Zarina ligou o botão do krav maga. Virou-se rápido e segurou o cano da arma em suas costas com uma mão, enquanto a outra acertou um golpe ligeiro na parte interna do cotovelo de Sonda, que soltou a arma.

———— Oe! ———— Gritou o velho que tinha acabado de chegar, apontando por sua vez uma arma para Zarina. ———— Será que dá pra explicar que porra tá acontecendo aqui? Jake?

O outro velho deu ombros, na ponta da arma de Atena.

———— Acha que eu sei, Bobby? A gente não devia se encontrar só daqui a dois dias?

———— Espera, então vocês se conhecem? ———— Atena deduziu. ———— Eu estava certa em desconfiar? Isso é mesmo uma armadilha?

———— Armadilha pra quem? A gente não tem porra nenhuma. ———— Zarina chiou, agora também com uma arma na mão.

———— Eu acho que estamos tendo algum... Mal entendido? ———— Tentou o rapaz de olhos puxados, com um sorriso amistoso que fazia muito pouco sentido naquela situação. ———— Por que nós não nos sentamos e resolvemos isso como amigos, hm?

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.ATENA.

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Meter uma bala na cabeça daquela gorila era o que se passava pela cabeça de Atena no momento. Mas ao invés de fazer o que seu cérebro tanto achava ser necessário, a jovem optou por seguir a fala do jovem asiático, e guardar sua arma.

Estavam em clara desvantagem, e mesmo se fosse rápido dar um fim àquela mulher bruta, seria segundos para Bob meter uma bala na cabeça de Zarina, que estava na mira dele.

E esse não seria um risco que Atena estava disposta a correr.

Quando os olhos acinzentados de Bob caíram sobre si, e seu cenho não se franzia mais, ele guardou a arma também. Todos os olhos caíram sobre Zarina então, a única que ainda segurava a arma em gatilho.

Atena caminhou até a amiga e tomou a arma para si, mantendo em sua visão periférica a mulher que à pouco ameaçava sua amiga.

Havia um aviso em seus olhos que a outra claramente espelhou. Mas mais do que uma intimação, era uma promessa. Atena não fazia a menor ideia do que Zarina havia feito, mas não precisava ser um mestre da mente para entender que um mais um era dois, e o braço sangrando daquele homem desconhecido já dizia muito.

———— Sonda! ———— Bob chamou, e em silêncio a mulher se aproximou deles, e depois ajudou Jacob a caminhar para longe da casa, junto de Hansol.

Atena deixou seus olhos caírem sobre Zarina e analisou a mais velha com cuidado. Seus joelhos e pernas estavam sujos de terra, mas além disso, ela parecia novinha em folha. Até tinha roupas novas.

Desenrolou o casaco de sua cintura e a estendeu.

———— Own, você é tão atenciosa, cariño. ———— Julgou que a amiga estava mais do que bem se ficava gracejando daquele jeito.

Fez careta.

———— Dias frios estão vindo, então achei que iríamos precisar. ———— Deu de ombros, vendo Zarina enrolar na cintura também.

Olhou em volta.

———— Onde está sua mochila?

———— Oh... Joguei por aí. ———— Atena a mirou repreensiva. ———— C’mon! Eu precisava correr mais do que o infectado. Empathy, my friend, empathy!

Suspirou.

———— Consegue andar?

Zarina se analisou.

———— Fodi meu joelho, mas sim. Consigo.

Atena ainda trocou um olhar cauteloso com Bob, e em poucos segundos ele pareceu entender o que ela dizia. A cubana ainda o estudou de cima a baixo, mas não pareceu ver nada de perigoso nele.

———— Vá com o velhote ali. Eu pego suas coisas.

———— Certo.

Zarina mancou até o homem e educadamente ele inclinou seu ombro, para que ela se apoiasse nele.

Atena ainda os observou se afastarem um pouco antes de guardar sua arma e ficar com o revólver da mulher gigante em uma mão. Haviam lidado com dois corredores no caminho, e se tivesse sorte, não encontraria mais do que isso por ali.

Precisava se apressar e não deixar Zara sozinha com aquelas pessoas. Sabia que a cubana tinha uma facilidade gigante para fazer “amigos”, e pelo jeito que Zarina havia pisado no calo de Sonda, não seria bom deixá-la falar o que viesse à mente.

Suspirou outra vez.

Estava com um péssimo pressentimento.

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Dentro da mata, o grupo fez uma fila indiana que lembrava muito de como uma alcateia de lobos se locomove.

Primeiro Hansol, que parecia se guiar bem pela trilha de folhas e galhos, seguido por Bob com Jacob, e então Atena que ajudava Zarina a caminhar, e por último Sonda.

Podia sentir algo perfurar sua nuca há cada dois ou três minutos, e sabia que eram os olhos daquela mulher. Não sabia se ela era do tipo lutadora, mas com aquele porte ela não precisaria saber muito para esmagar alguém facilmente. A mais ínfima brecha seria o suficiente para matar.

Mirando a amiga de canto, diminuiu o passo para ficar mais longe de Bob e o homem que em algumas horas estaria morto; e cochichou:

———— Que diabos você fez, Zara?

A cubana apenas fez careta em resposta, não parecendo realmente lamentosa pelo que aconteceu. Apenas irritada pela comoção que causou.

———— Alguns infectados rodearam a casa, e eu deixei os dois para lidarem com eles. ———— Quando ela ergueu os olhos, não viu julgamento nos de Atena. E de certa forma, aquilo era reconfortante.

Sabia que a amiga a entenderia.

———— Acontece que meus planos não eram que o barrigudo fosse infectado.

———— Eu sei. ———— Atena voltou sua atenção para frente. ———— Nós não somos pessoas cruéis. Apenas não vamos tomar uma luta se não for uma pela outra.

———— Tente explicar isso pra mulher que quer comer o meu fígado com farofa.

———— Não tem nada para explicar. Pessoas morrem todos os dias. ———— Deu de ombros. ———— E esse foi o dia dele.

Zarina anuiu, serena e resoluta.

———— It's just the two of us...

———— It is just the two of us. ———— Atena a espelhou.

A caminhada seguira por quase três horas, se Atena tivesse contado direito. Não era uma das coisas que mais gostava de fazer, mas bem, não é como se tivesse uma lista de opções em suas mãos naquele momento. Apenas uma Zarina que resmungava há cada cinco minutos que seu joelho fodido iria explodir se não fizessem uma pausa logo.

Suspirou quando a morena choramingou em espanhol um palavrão novo para o vocabulário de Atena.

Parou de andar, erguendo a cabeça.

———— Ei... Será que poderíamos fazer uma pausa?

Bob e Hansol lançaram seus olhos para Zarina rapidamente, enquanto Jacob parecia mais morto do que qualquer coisa.

Sonda logo atrás pareceu soltar o ar pelo nariz em zombaria.

———— Qual é, ela nem se machucou tanto assim! Aguenta mais umas horas. ———— Atena rangeu os dentes, olhando para trás com rapidez.

———— Se não quer parar por nós, pare por seu amigo! Ele mal se aguenta de pé.

Automaticamente todos os olhos voltaram para Jacob, mas o homem nem mesmo conseguia manter a cabeça erguida. Aquilo pareceu irritar Sonda de forma descomunal.

———— E de quem é a culpa, afinal? ———— Rosnou.

———— De vocês! ———— Atena se sobressaltou com a raiva na voz de Zarina. Seus olhos faiscando em igualdade com os da mulher gigante.

Provavelmente cansada das provocações.

———— Se vocês não tivessem atraído os runners pra cabana-

———— Como ousa? ———— Sonda deu um passo à frente, e Atena a espelhou, com a mão sobre a cintura onde o relevo da arma era vista.

A cubana cambaleou para a direita quando a amiga já não a apoiava mais, e em dois segundos Bob estava entre elas.

———— Será que podemos dar dois passos sem brigas e provocações, cacete? ———— Era a primeira vez que todos ali viam Bob erguer a voz daquela forma, e por mais que Atena não achasse apropriado a gritaria — não sabiam quem poderia acabar ouvindo —, tinha que concordar que ele era assustador.

Não se deixou abalar, obviamente, mas Hansol evidentemente engoliu em seco.

———— Você viu quem começou!

———— Eu não perguntei quem começou, Sonda! Todos aqui são adultos, pelo que notei. —-— Pareceu zombar. ———— Comecem a agir como tais ou vamos todos morrer, dammit.

Atena trocou um olhar feroz com Sonda uma última vez antes de voltar para o lado de Zarina. Mirou Bob em seguida e o homem apenas suspirou em cansaço evidente.

———— Vamos fazer uma pausa. Todos estamos exaustos, e não é recomendável se caso cruzarmos com runners.

Zarina suspirou.

———— Era só ter dito isso logo, geez. Esta mulher está a buscar cinco pies al gato! ———— Rolou os olhos.

A mais nova a encarou repreensiva.

———— Shiu, caramba!

 

.

 

.

.ZARINA.

.

 

Havia certo alívio em saber que havia pessoas cuidando das suas costas. Uma sensação que falava qualquer coisa sobre confiança, sobre… A necessidade humana de estar em bando para se sentir seguro. 

Logicamente, Zarina não tinha confiança nenhuma naquelas pessoas.

Estava alerta.

Estava também encolhida perto do fogo, fingindo dormir. Sua mochila — a mesma que Atena tinha reclamado horrores para ir buscar no meio do mato — lhe servia de travesseiro, enquanto o casaco que também fora presente dela fazia as vezes de cobertor. Da cabeça aos pés, Zarina estava embrulhada no cuidado ranzinza de sua melhor amiga.

E o que tinha feito por ela nos últimos tempos?

Nada.

Não tinha deixado pra ela nem a porra de um tiquinho shampoo.

Esse foi um dos motivos porque a cubana não ofereceu resistência quando Atena disse que queria se juntar àquele grupo de quem sabiam caralho nenhum. Ia dar merda? Provavelmente. Mas seria bem ingrato da parte de Zarina não fazer pelo menos um esforço.

E ia ser um esforço enorme.

Sonda estava no outro lado do acampamento improvisado, com as costas apoiadas numa árvore. Ao lado dela estava uma bagunça suada de homem, botando os bofes para fora a cada hora, e Zarina simplesmente não conseguia entender como ninguém além dela estava surtando sobre isso.

Jacob era uma bomba-relógio, mas com o que todo mundo parecia preocupado? Isso mesmo, em cercar a fogueira com pedras. Estavam se precavendo contra infectados que talvez pudessem vê-los da floresta quando tinham um bem debaixo do nariz.

Mas Zarina não ia ser uma vadia sobre isso. Não mesmo. Se Atena queria se juntar com aquela gente que gostava de manter amigos capazes de morder a sua cara fora por perto, ela ia fingir que não via problema nenhum nisso.

Dívida histórica o nome.

Nas últimas poucas e infelizes vezes que tinham tentado se juntar a um grupo, sempre tinha sido por insistência de Zarina. Atena no geral era do tipo que preferia ficar sozinha contra o mundo, então se dessa vez era ela levantando pompons pelo time da socialização, devia haver alguma coisa que valesse a pena naquelas pessoas. Até mesmo em Sonda.

A mérito da mulher, é preciso mencionar que ela ainda não tinha estourado uma bala na cara da cubana — mesmo que tivesse os meios e a oportunidade para isso. E principalmente, ela tinha a vontade.

Se Zarina tivesse que fazer um julgamento rápido de caráter, diria que a mulher tinha uma boa-índole, apesar do pavio curto. Era assim que tinha passado as últimas horas, aliás — fingindo dormir para observar os outros em silêncio. 

Sobre Sonda, tinha chegado a conclusão que “gorilona” era um apelido muito maldoso, mas do qual não abriria mão tão cedo. Os outros dois eram os caras que tinham vindo com Atena e ainda estavam com ela ao redor da fogueira: Bob, o velho com ares de líder, e o garoto isso-é-tudo-um-mal-entendido.

É preciso dizer, aliás, que tinha ido com a cara do velho alfa logo de cara — principalmente porque a recíproca não parecia verdadeira. Ele até a tinha ajudado a andar por um tempo na mata, oferecendo o braço como apoio, mas mantinha sempre um ar cuidadoso perto dela — e nada mais justo, já que havia chutado um dos amigos dele pra cima de um runner. Qualquer coisa diferente faria do velho um grande imbecil, e, por consequência, todo o grupo que o seguia.

Era uma característica que todos naquele grupo de estranhos — Bob, com suas rugas sábias, Jacob, com as tiradas ácidas, e Sonda, com seu indisfarçável mal-humor pareciam compartilhar: bons instintos de sobrevivência. Todos, menos Hansol.

O garoto era um tremendo ponto fora da curva. Zarina via isso na forma como ele chamava Atena de “senhorita”, como se ela fosse uma tia solteirona mesmo que a diferença de idade entre os dois não devesse passar de uns quatro anos, ou no jeito como ele andava na frente do grupo sem que ninguém precisasse pedir, carregando nada além de uma barra de ferro.

Pelo que tinha notado, o garoto andava desarmado. Tinha pouco ou nenhum cuidado com a própria segurança, e ainda o tinha ouvido com Atena falando que — pasmem! — facas faziam bagunça demais. 

Zarina não fazia ideia de como ele tinha sobrevivido tanto tempo.

Não fazia sentido.

Ele devia ser um desses filhos da puta sortudos que dão um sorriso fofo e todo mundo quer proteger, em nome da esperança mundial.

Aparência para isso ele tinha, é preciso dizer.

Ainda tentando passar despercebida, Zarina ficou assistindo pelo canto do olho o garoto desejar boa noite ao Sr. Singer e à Srt. Jones, quem quer que seja essa mulher desconhecida. Atena grunhiu alguma resposta mal-criada que fez Bob rir, mas não demorou muito para que fosse o velho quem começasse a dar nos nervos dela.

Os dois ficaram discutindo ainda por alguns minutos — o máximo de atenção que Zarina via Atena dar a um estranho em muito tempo —, até que a loira foi também se deitar. Como aquele descanso tinha sido tudo menos planejado, estava todo mundo espalhado no chão, perto da fogueira.

Bob ainda ficou acordado por uns vinte minutos até ir à árvore onde Sonda estava escorada, perto de Jacob, que agora dormia, sussurrando instruções para a mulher acordá-lo quando quisesse deitar. Se Zarina estava entendendo certo, o plano era que eles dois fizessem a vigia da noite.

Fofos...

Mas nunca, nem em um milhão de anos, que pregaria o olho do meio de estranhos. “Quien tiene culo tiene miedo”, já dizia sua sábia avó.

Então, como a pessoa desconfiada que era, Zarina ficou acordada durante toda a noite, ouvindo os sons da floresta. Em dado momento começou a ouvir uma respiração mais pesada além das outras que ouvia, e quando se virou viu Sonda ressonando tranquilamente perto da árvore.

“Trouxa!”, xingou em pensamento, meio repreendendo meio desejando que a mulher fosse a primeira a ter a bunda mordida quando o fungo finalmente tomasse conta de Jacob. 

Foi então que seu corpo deu um salto em alerta, puxando uma faca escondida no meio da sua roupa, apontando para o homem meio vivo e meio morto à sua frente. Jacob ergueu as mãos em rendição, mas durou poucos segundos, pois logo ele movia os dedos e pedia silêncio à Zarina.

Desconfiada, entrou em posição de combate.

———— Seu nome é Zarina, não é? ———— Jacob tentou sorrir para ela, mas a tentativa saiu estranha no meio de tanto suor. O homem estava pálido, branco feito papel, e tinha que abafar tosses na roupa toda vez que abria a boca.

Zarina o encarou por um momento, sentindo-se culpada pela primeira vez do que tinha feito a ele.

Assentiu fracamente com a cabeça.

———— Então, Zarina... ———— Ele voltou a falar, cochichando e fazendo uma nova pausa para mais tosses. ———— Eu acho que dá pra se dizer que você tá me devendo uma, não é garota?

———— Do que está falando?

Ele se agachou à sua frente. Não soube dizer se foi para que conversassem mais tranquilamente, sem que a cubana ganhasse um torcicolo, ou se ele simplesmente não aguentava mais o peso do próprio corpo.

Pelo suspiro de alívio, diria que o último.

———— Eu preciso que faça um favor para mim... Uma vez que o fato de eu estar morrendo é culpa sua.

Impediu um resmungo.

Só o que lhe faltava era o maribundo lhe pedindo para procurar por sua esposa, filha, filho, irmão perdido ou coisa assim.

Havia se arrependido do que fez a ele, claro. Mas não a esse ponto.

———— E de que tipo de favor estamos falando?

Ele sorriu.

———— Poderia me seguir até um local mais quieto?

A ideia era deveras estranha. Preocupante. Nem fodendo que o faria assim.

Mas bem. O cara mal conseguia respirar sem sentir dor. O que ele faria a uma mulher saudável e com o histórico de atleta que tinha?

Deixou que ele seguisse à frente por um tempo. Lançando seus olhos para os adormecidos uma última vez e se certificando que ninguém era expectador da aventura que estavam preparando.

A floresta era densa, e os anos sem contato humano fizeram o matagal crescer e atingir quase sua cintura. Tentaram caminhar o mais longe possível com a luz fraca da lanterna e sem fazer muito barulho. Mas os galhos e folhas secas dificultavam a tarefa. E o fato da sua perna continuar ferrada, bagunçava seu equilíbrio.

———— Ei, acho que aqui está bom.

Jacob se virou e riu baixo, provavelmente notando o receio e a desconfiança na voz da garota. Nada que ele não estivesse esperando, claro.

Quando ele levou a mão às costas, Zarina ergueu sua faca novamente e dobrou os joelhos, pronta para saltar no pescoço do motherfucker, quando ele pediu calma outra vez. Sem desfazer a pose, ele removeu uma pistola calibre 28, que provavelmente estava escondida na calça. Presa à ela, um silenciador.

Estreitou os olhos, se endireitando.

———— Pegue.

———— Por quê?

———— Porque preciso morrer.

Fez careta.

———— Não sei se você sabe como essa coisa da transição funciona... Mas acredito que você já está morrendo.

Ele anuiu.

———— Eu sei. Mas não é dessa forma que quero terminar. ———— Estendeu a arma e deu um passo à frente. ———— Quero ser humano até o final. Como minha família. ———— Seus olhos se encheram de água tão rápido que Zarina reprimiu um xingamento. ———— Não posso pedir a mais ninguém.

———— Tenho certeza que o velhote de cara azeda toparia.

———— Ele não vai. Nem Sonda. Menos ainda Hansol... ———— Sua voz começava a soar desesperada. Como se seu tempo estivesse acabando. E parando para pensar, estava. ———— Eles são bons demais para isso.

Inclinou a cabeça.

———— Não que você ou a garota mal humorada não sejam. Mas para eles é diferente. Nunca precisaram lidar com humanos antes e... Eu sei que isso torna vocês duas mais fortes. Capazes de sobreviver nesse mundo.

Guardou a faca, levando uma mão ao rosto e pensando à respeito.

Mesmo que ambas realmente conseguissem levantar suas armas contra pessoas, não significava que gostavam ou que não eram assombradas por elas depois. Ainda eram humanas.

———— Mesmo que eu faça... Nenhum deles vai acreditar em mim na manhã seguinte, quando eu disser que você implorou para que eu enfiasse uma bala na sua cabeça.

———— Eles não precisam saber sobre essa conversa.

———— O que quer dizer?

———— Basta colocar a arma na minha mão esquerda-

Zarina aguardou a crise de tosse terminar.

———— Pode ser que Sonda ainda suspeite de você, então vai precisar ser o mais firme possível quando disser que não sabe o que aconteceu. ———— Deixou o braço cair um pouco, cansado. ———— Não tenho mais do que quatro horas... Não vou estar aqui quando amanhecer. Pegue logo, por favor.

Zarina apanhou a arma e se afastou um passo. Mas não a apontou para ele.

———— A próxima ronda é da sua amiga... Quando ela notar que não estou aqui, vai chamar Bob ou alguém mais. Vão procurar pelo meu corpo e me encontrarão aqui. Com a arma na mão.

A cubana começava a entender. Ele provavelmente vinha pensando nisso desde que fora mordido. Procurando alternativas, saídas para acabar com sua morte antes que o vírus tomasse conta.

———— Por quê?

———— Eu já expliquei-

———— Não... Quero dizer... Por que não faz você mesmo?

Ele se retesou.

———— Por anos procurei maneiras de fazer isso... Mas o que me faltava não eram ideias e sim coragem. ———— Ele sorriu. ———— Deixe eu me juntar à minha família da forma certa.

Seus olhos eram grandes e aflitos. Ele queria morrer, e Zarina queria matá-lo, de certa forma. Cogitou a ideia de sugerir que metessem uma bala no cérebro dele desde que descobriram sobre a mordida. Ela era a pessoa perfeita para o trabalho.

Só que ali estava ela, pela primeira vez na vida, hesitando.

———— Eles vão me matar quando descobrirem.

———— Então não deixe que descubram. ———— Deu de ombros. ———— E se isso vier a acontecer... Você e sua amiga podem partir a qualquer momento.

Suspirou, seu coração acelerando.

Ergueu a mão que segurava a arma, e com a outra, firmou o agarro. Tentando não mostrar que na realidade estava tremendo.

Conseguiria viver com aquilo?

Talvez sim.

Seria uma primeira vez, claro. Nunca havia atirado em um humano que não tivesse atentando contra sua vida ou a de Atena, até aquele momento. Só que este aqui, estava implorando que ela o fizesse. Então não tinha por que se sentir culpada, certo?

Ele só queria ficar com a família.

Jacob se colocou de lado, e por alguns segundos se perguntou por que. Mas então se lembrou que se ele tivesse atirado em si mesmo, não seria na testa, e sim na têmpora.

Destravou a arma, e ele fechou os olhos por alguns segundos antes de sorrir de novo.

———— Obrigado...

 

 


Notas Finais


No próximo capítulo já vamos liberar as fichas!! Até a próxima ^^


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