História The Silent Art - Capítulo 18


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Categorias Hora de Aventura
Personagens Ash, Beemo "BMO", Cake, Finn, Fionna, Hudson Abadder, Jake, Litch, Marceline, Marshall Lee, Princesa De Fogo, Princesa Jujuba, Principe Chiclete, Príncipe de Fogo, Rei Gelado
Visualizações 39
Palavras 4.695
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Festa, LGBT, Mistério, Policial, Romance e Novela, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Intersexualidade (G!P), Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Hey!

Boa leitura;

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AVISO→ Se você não tem a faixa etária, se sente desconfortável com assunto abordando G!P, e não atura violência, não leia. Sabendo de tudo isso [↑] e mesmo assim insiste em ler, peço que não comente coisas intoleráveis.

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Capítulo 18 - Capítulo Dezoito


★Bonnibel★

Foi um momento difícil encarar Tody quando me sentei no banco do carona.

— O que aconteceu? Como veio parar aqui?

Meus olhos estão ardendo. De angústia, de vergonha, de humilhação.

— Tody — começo a falar, virando a cabeça para fitar pela janela e deixar as lágrimas caírem, enquanto ele dirige até o Ink Red para que eu pegue o meu carro. — Você sabe alguma coisa a respeito de uma carga de cocaína que foi confiscada há alguns anos?

— Que pergunta é essa? Não conheço ninguém que trabalha na divisão de narcóticos, a não ser o pai de Morgan. Por que eu acompanharia as investigações dessa porcaria?

Fico aliviada com a resposta imediata, e com sua atitude grosseira que a corrobora. Em nenhum momento, ele parece denfensivo ou age de forma suspeita. Mentalmente xingo Marceline por me fazer duvidar dele, ainda que por um milésimo de segundo.

— Existe alguma possibilidade de você ter algo a ver com uma batida policial que aconteceu, ou algo assim? Alguma possibilidade de o seu nome estar ligado a algo desse tipo? Ou ao pai de Morgan?

— Não que eu saiba. O que está acontecendo, Bonnie? Você vai me contar porque eu tive que ir buscá-la em um posto de gasolina, sozinha, e agora está me fazendo essas perguntas esquisitas?

— Tem gente que pensa que você teve algo a ver com uma cocaína que foi vendida para uma garota rica. Ela acabou morrendo e ninguém foi preso. Agora, a família dela acha que você está envolvido. Acho que é por isso que você tem recebido ameaças.

— Não sei onde você consegue essas informações, Bonnibel, mas as ameaças que tenho recebido são, obviamente, de alguém que está me confundindo com outra pessoa. São de alguém que... que...

Ele para de falar, como uma lâmpada que se apaga.

— De alguém o quê, Tody? O quê?

— Um dos telefonemas que recebi era de um telefone pré-pago. E só disseram a seguinte frase: "Queremos o nosso dinheiro." Não tenho a menor ideia de quem era, ou que dinheiro eu poderia estar devendo. Por isso não levei muito a sério, no início. Só quando começaram a fazer ameaças de morte e coisas do tipo que fiquei preocupado.

— Tody, com quem eles poderiam estar te confundindo? Como algo assim poderia acontecer? Você tem algum amigo suspeito? Algum informante? Alguém que possa ter envolvido você sem o seu conhecimento?

— Não que eu saiba. Mas, cacete, Bonnie, eu sou um policial. E, por incrível que pareça, um detetive. Até certo ponto, tenho que lidar com gente da pior espécie só para obter informações.

Estou repassando os detalhes na minha cabeça, tentando lembrar algo que possa ter alguma importância. É quando me lembro da pergunta esquisita de Marceline, há algumas semanas.

— E quando você e Morgan moravam na rua Tumblin? Você se envolveu em alguma confusão com gente que poderia ter algo a ver com isso? Fez algum inimigo que poderia forjar algum detalhe estranho para fazer você parecer um policial corrupto?

Tody balança a cabeça, num gesto negativo.

— Não. Durante a maior parte daquele tempo, nós fizemos tudo para não chamar atenção. Depois das primeiras semanas nós nem dávamos festas.

— E Morgan? Ele tinha algum amigo suspeito?

Tody balança a cabeça, novamente.

— Não. Ele também era bem discreto. No começo, pensei que tivesse uma namorada. Às vezes, à noite, eu ouvia o barulho do carro dele saindo. E ele estava bem feliz nessa época. Imaginei que estivesse transando. E muito.

Sinto minha testa se franzir, num gesto de desconfiança. Meu primeiro pensamento é que de alguma forma Morgan está envolvido. Não sei por que, mas algo no meu íntimo simplesmente se agitou quando Tody disse aquilo. O problema é que Morgan é o parceiro dele, e isto é algo sagrado entre os policiais. Você não interroga o parceiro de um policial. Não suspeita dele. Não desconfia dele. Simplesmente dá a ele sua lealdade. Sua lealdade inabalável. O parceiro é a pessoa a quem você confia a própria vida, todo dia, no campo de batalha. Essa fé cega é um vínculo muito forte entre os policiais, e eu sei que Tody não vai reagir bem se eu começar a lançar suspeitas sobre Morgan.

— Bem, talvez surja alguma coisa. Só temos de ficar de olhos e ouvidos bem abertos — digo, com a intenção de falar com meu pai sobre isso, depois.

Tody ri.

— Ah, é mesmo? E que contatos você teria que poderiam dar ao seus olhos ou aos seus ouvidos alguma pista em relação ao que poderia estar rolando no submundo do crime? Por favor, me esclareça.

Penso imediatamente em Marceline. Não planejo voltar a falar com ela, mas nem Tody nem eu sabíamos que eu estava me relacionando com alguém com muitas ligações secretas com diferentes pessoas, nem todas inofensivas.

Penso na reação de Tody em relação a Marceline e corrijo meu primeiro pensamento. Talvez Tody realmente soubesse. Talvez eu devesse ter confiado mais no meu irmão, desde o início. Talvez eu não tenha bom senso suficiente para abrir minhas asas...

Talvez eu estivesse melhor vivendo presa, sem liberdade...

∆•∆•∆•∆

Meu telefone toca. Eu nem tiro mais o volume do toque. É deprimente quando o aparelho não toca; e deprimente quando toca.

Olho para a tela brilhante e vejo o nome e o número de Marceline. Mais uma vez. Desde que brigamos no carro, ela liga pelo menos umas seis vezes por dia para mim. E todos os dias eu a ignoro. Nas primeiras poucas vezes ela deixou mensagens curtas que diziam coisas do tipo: "perdão, Bonnie" e "por favor, me perdoe, Bonnie". Nada que realmente fizesse diferença. São apenas palavras. Palavras vazias.

Agora ela não diz nada. Só espera o correio de voz atender e fica em silêncio.

Escondo o telefone num lugar onde eu não possa vê-lo nem ouvi-lo. Tento ignorar o relógio na mesinha de cabeceira, que diz que já são onze horas. E ainda estou na cama.

Eu não fui à faculdade hoje. Não poderia. Já se passou quase uma semana, e ainda não consigo dormir. Não consigo pensar. Acho que não consigo mais enfrentar o mundo. Portanto, estou aqui. Esperando. Pelo quê, eu não sei.

Fico naquele limbo entre dormir e ficar acordada por mais uma hora, até a campainha tocar. Sonolenta, abro os olhos e confiro o relógio novamente. Então me viro e me aconchego nas cobertas.

E a campainha toca, mais uma vez.

Irritada, eu afasto a manta e desço a escada, soltando os bichos, antes de escancarar a porta. Por um segundo, penso que meu pai me mataria se visse que não verifiquei o olho mágico. Diferente dele e dos meus irmãos, no entanto, não estou acostumada a ter a vida em perigo e suspeitar de cada pessoa que passa por mim.

Mas, neste caso, não preciso ter medo. É uma mulher, usando uma camisa polo azul, com os seguintes dizeres bordados no peito esquerdo: FLORES DA WANDA.

— Tenho uma entrega para Bonnibel Bubblegum — anuncia ela com uma voz rouca, típica de fumante.

— Pode me falar — respondo, olhando o enorme vaso de lírios.

Já posso sentir o cheiro deles.

A mulher me entrega o vaso e logo estende uma prancheta.

— São lindos — comenta, quando eu os acomodo em meu braço e assino o papel.

— Obrigada — digo, antes de fechar a porta.

— Tenha um bom dia — despede-se ela por cima do ombro, ao se virar para se dirigir à calçada.

— Vai ser um dia de merda — murmuro, enquanto tranco a porta. — Exatamente como ontem.

Ponho o vaso de flores na mesa da sala de jantar, nunca usada, e tiro o cartão para ler. 

"Espero que encontre um jeito de me perdoar. <3

Marceline"  

E então jogo o cartão ao lado do vaso e volto para o quarto, desejando que o dia já tivesse acabado.

Os três dias seguintes se passaram praticamente da mesma forma: fico na cama até tarde e, em algum momento, a campainha toca no final da manhã. É sempre a mesma mulher que entrega um belo vaso, carregado de uma explosão de cores e fragrâncias.

Todo dia, ela diz que as flores são lindas, e eu assino o recibo e agradeço. E todo dia, depois disso, eu deixo o vaso na mesa da sala de jantar, com o restante das coisas. Cartão e tudo mais.

Hoje é sexta-feira. Por alguma razão, meu pai já chegou do trabalho. E sei disso porque às sete e meia ele está batendo à porta do meu quarto.

— Estou na cama — murmuro do meu travesseiro.

Por um segundo, não ouço nada, até perceber que ele se vira e vai embora.

Acordo horas depois, e a primeira coisa que me vem à cabeça é que já é quase uma da tarde e a campainha não tocou. No fundo do peito, meu coração fica um pouco mais apertado do que imaginei ser possível. Hoje foi o dia em que Marceline desistiu. Antes, ela mostrava o quanto se preocupava comigo, o quanto estava realmente arrependida. Mas hoje, não. Hoje chegou ao fim. O dia em que ela desistiu.

Ainda estou chorando, com o rosto no travesseiro, quando ouço a campainha. Meu coração acelera ao escutar as vozes abafadas do meu pai e de uma mulher. Então aguardo alguns minutos, antes de me atrever a descer.

Meu pai está diante da mesa da sala de jantar, fitando os vasos cheios de flores lindas, de todas as cores e variedades. Eu percebo o vaso novo bem na frente dele. Há pelo menos duas dúzias de rosas brancas nele. E, no centro, uma vermelha. Não sei o que significa. Pode significar qualquer coisa. Mas, por alguma razão, este único botão fala mais alto. É como se Marceline soubesse que seus telefonemas e suas flores fossem apenas um ruído longínquo na barulheira do meu sofrimento e da minha desilusão. Mas este botão é seu grito para mim em meio à neblina, dizendo algo que não sei se acredito.

— Que diabos é isso, Bonnibel? Está tentando abrir uma floricultura? — pergunta meu pai quando me aproximo dele para pegar o cartão preso ao buquê.

— Só agora você percebeu esses vasos aqui? — pergunto surpresa, olhando para ele, enquanto rasgo o pequeno envelope.

— Eu nunca entro aqui — argumenta ele.

— Nossa! Que belo detetive, hein — digo, em tom de provocação.

Há vários dias não tenho vontade de falar com ninguém, muito menos fazer alguma brincadeira.

— Cuidado com o que fala, espertinha — rebate ele, tomando o cartão das minhas mãos.

Eu tento pegá-lo de volta, mas ele o ergue acima da cabeça. Alto demais para mim.

— Tudo bem, desculpe. Eu estava brincando, pai. Agora, devolva o cartão.

— Não. Quero saber o que está acontecendo. Você está parecendo uma vampira, dormindo o dia todo. Não come, não fala com ninguém e não para de receber flores.

— Não é nada, pai. Nada que eu não possa resolver. — Ainda luto para deixar de ser a garotinha protegida, embora, às vezes, admito que daria tudo para que meu pai me aconchegasse em seus braços e me tranquilizasse, dizendo que tudo vai ficar bem.

— Eu não sou burro, Bonnibel. Sei muito bem que houve mais entre vocês duas do que uma simples amizade. E sei que uma traição assim é difícil, quase impossível de superar. Mas você deveria tentar se colocar no lugar dela. Pense no que você estaria disposta a fazer para proteger um dos seus irmãos. E que Deus nunca permita que algo aconteça a um deles. Em alguns momentos, você age como se não pertencesse a essa família; como se não entendesse por que te tratamos assim. Mas se alguém atacasse um de nós, você se transformaria em uma leoa.

Fico em silêncio enquanto escuto meu pai. Ele conhece a situação o suficiente para saber o papel de Marceline na busca por um policial corrupto. E olha que eu dei pouquíssimos detalhes que apontassem para Tody, além de algumas coisas que ele já tinha descoberto.

Como não digo nada, ele continua:

— Bem, eu sei que sempre fui duro com você, mas espero que saiba que pode falar comigo. Ainda sou seu pai e amo você mais do que tudo.

— Eu sei, pai. E eu amo você também — digo, tranquilizando-o. — Eu estou bem. De verdade.

— Bonni-bel — diz ele em tom de aviso.

— Pa-pai.

— Ainda está preocupada com Tody?

A pergunta me faz suspirar.

— Talvez um pouco.

— Você fez o que tinha que fazer, o que pensou que era o melhor, ao me procurar. Um dia ele vai entender. Sobretudo quando eu disser a ele o que descobri hoje.

Imediatamente, recupero meu ânimo.

— O quê? O que descobriu?

Conforme espero meu pai me contar, percebo as profundas linhas de preocupação em sua testa e o contorno triste nos cantos da sua boca. Não importa o que seja, não são boas notícias.

— Na carga de cocaína que foi confiscada pela divisão de homicídios durante uma das investigações, havia alguns quilos adulterados. A apreensão foi feita numa espécie de operação conjunta entre o pessoal das duas divisões, narcóticos e homicídios. Isso foi naquela época, então comecei a investigar as drogas apreendidas. Acontece que alguns quilos desapareceram. Do fundo da prateleira, onde ninguém notaria, a menos que estivesse procurando especificamente por isso. E eu verifiquei no registro para ver todos que entraram e saíram, durante os seis meses após o registro dessa evidência. — Ele faz uma pausa, passando a mão na testa. — E Tody usou o cartão de acesso dele, para entrar ali naquele local. Meia dúzia de vezes.

A notícia me deixa engasgada.

— O quê? — Meu coração está tão descontrolado que parece prestes a explodir.

— Não fique tão espantada. Estamos falando do seu irmão. Eu também verifiquei os documentos para saber o que estava registrado na entrada e na saída. Alguém assinou o nome de Tody na verificação de provas, em um aquirvo morto que ele tinha examinado, no ano anterior. O problema é que aquela não é a assinatura de Tody. Até agora, eu mantive isso em segredo e vou tentar mantê-lo dessa forma. Fiz uma cópia da folha de registros e vou levá-la a um dos grafotécnicos a quem o município recorre em processos judiciais. Quando eu fizer isso chegar ao conhecimento da seção de assuntos internos, quero que o registro já tenha mostrado que a assinatura é falsa. Aí então vou poder ficar em cima disso, como um carrapato, até encontrar o safado que incriminou meu filho.

Posso ver a fúria emanando dele, como vapor.

— Quem faria isso, pai? E por quê?

— Bem, eu tenho as minhas suspeitas — responde ele, com um olhar significativo.

Após alguns segundos, descubro por que ele teme contar a Tody o que, no início, pareciam apenas boas notícias.

Época: período em que Tody morou com Morgan, na rua Tumblin.

Coincidência: Morgan saindo tarde da noite, e Tody achando que eram encontros amorosos.

Fatos concretos: alguém conseguiu o cartão de acesso de Tody por tempo suficiente apenas para usá-lo e verificar as drogas apreendidas. E esse alguém teria que ser um policial.

Todas as evidências apontam para uma pessoa. O melhor amigo do meu irmão. Seu aliado de maior confiança. Seu parceiro.

— Caramba — digo, com um suspiro. — Morgan. — Ergo o olhar e vejo tristeza nos olhos do meu pai.

Eu sei que ele também se sente traído. Ele amava Morgan como um filho. Trabalhou com o pai dele durante anos. O pai de Morgan trabalha na divisão de narcóticos.

Finalmente, ele faz um breve gesto afirmativo com a cabeça.

— Mas preciso de provas. E vou precisar da ajuda do seu irmão. Você sabe que ele não vai gostar disso.

— Não, ele não vai gostar, mas vai fazer. Porque é a coisa certa a ser feita. É como agimos na família Bubblegum — consolo meu pai, repetindo, com um sorriso, palavras que ouvi durante toda a minha vida.

— Sim, é como agimos na família Bubblegum. Nós nos protegemos. A todo custo.

Por alguma razão, pela milionésima vez, penso em Marceline.

‡Marceline‡

Bonnibel continua sem atender meus telefonemas. Não sei de que outra forma eu poderia falar com ela, convencê-la a conversar comigo. A ouvir o meu lado da história. Só mais uma vez.

Há coisas que eu preciso dizer a ela, coisas que acabei de perceber. Coisas que não posso dizer em uma mensagem de voz, em um cartão ou com flores.

Coisas importantes.

Coisas verdadeiras.

Como eu havia prometido a ela.

Mais uma vez, tento ligar para Bonnibel. O telefone toca, toca e toca. Finalmente, ouço sua voz familiar atender com sua mensagem familiar. Estremeço só de ouvir, temendo realmente que eu nunca consiga acertar as coisas, que ela nunca me perdoe e que eu nunca tenha a chance de dizer o que preciso.

— Bonnie, sou eu. Marceline. Preciso te contar uma coisa. É importante. Por favor, me dê só mais cinco minutos. Por favor...

Com um suspiro, eu desligo o telefone.

Mais uma vez.

Agora, só me resta esperar.

Mais uma vez...

★Bonnibel★

Pensei que talvez uma noite com Phoebe me fizesse sentir melhor. Mas não apenas não me sinto melhor como, na verdade, estou ficando um pouco enjoada enquanto dirijo de volta para casa. E isso não me surpreende, de fato. Não tenho comido bem, nem dormido direito desde tudo o que aconteceu com Marceline. Então convenço a mim mesma que provavelmente estou apenas exausta.

Quando chego em casa, meu pai está sentado à mesa da sala de jantar, examinando os cartões que ainda estão lá. A maioria das flores está morta e já foi jogada no lixo. Mas, por alguma razão não consegui jogar fora os cartões. Por enquanto.

— O que está fazendo, pai? — pergunto, parando ao lado da cadeira onde ele está sentado.

Antes de responder, ele empilha cuidadosamente todos os cartões e os entrega para mim.

— Leu todos eles?

— Sim.

Ele assente lentamente, fechando a minha mão em volta da pilha de pequenos retângulos.

— Alguma mudança?

Realmente não sei como responder a isto. Estou menos perturbada que antes, sim, mas ainda não sei por quê. Não sei se estou abrindo espaço para perdoar Marceline ou se o tempo está curando a ferida.

Finalmente, como para responder sua pergunta, dou de ombros.

— Ela veio aqui essa noite, à sua procura.

Meu pai me observa, avaliando cuidadosamente minha reação. Não diz mais nada, o que me incita a falar.

— O que ela queria?

— Falar com você.

Dããã.

— Ela disse por quê?

— Não exatamente. Mas acho que você precisa pelo menos ouvir o que ela tem a dizer, Bonnie.

— Falar é fácil, pai. Você não conhece a história toda.

— Falar não é fácil. Eu não gosto da ideia de que alguém esteja magoando você. Por qualquer que seja o motivo. Em qualquer briga, eu sempre ficarei do seu lado. Uma parte de mim quer torcer o pescoço dessa garota por fazer você sofrer como tem sofrido nas últimas semanas. "É difícil para mim aceitar que minha garotinha cresceu e que provavelmente se apaixonou por uma... garota, Bonnibel. É difícil para mim aceitar o fato de entregá-la a qualquer idiota pretensiosa e esperar que ela te cuide. Mas sei que tenho que fazer isso. Um dia. E algo me diz que essa moça significa muito para você. Mais do que eu imaginei que ela pudesse significar. Eu sabia que havia algo errado acontecendo entre vocês, mas acho que não sabia o quanto era importante para você, o quanto ela era importante para você.

Meu pai empurra a cadeira para trás e se levanta, para ficar diante de mim, curvando-se um pouco para examinar meu rosto.

— A vida é curta, Bonnibel. Quando eu quis esquecer o quão curta ela é, você me lembrou. Há alguns anos, todos os dias, você tem me lembrado. Mas sabe de uma coisa? Você tinha razão. A vida é curta e a gente tem que vivê-la, tanto quanto puder, pelo tempo que puder. Se eu pudesse voltar no tempo e acrescentar alguns anos, ou dias, ou até mesmo horas com sua mãe, eu faria isso. Sem pestanejar. E eu jamais iria querer fazer algo que pudesse iludir você em tempos assim. Em momentos assim. Portanto, pense bem nisso, Bonnie — aconselha ele, tocando a minha mão que segura os cartões. — E se há um modo de perdoá-la, se você acha que ela merece, então vá falar com ela. Dê a ela essa chance. Não viva com um arrependimento como esse, pelo resto da sua vida. Quando se acumula muitos arrependimentos, uma vida curta pode parecer uma eternidade no inferno.

Com um tapinha carinhoso no meu braço, meu pai se afasta. Ele olha para mim antes de sair da sala.

— Você está bem? Seu rosto está vermelho.

Ao levar a mão ao rosto, percebo o quanto estou quente. Ainda não estou me sentindo bem, mas dou a meu pai um sorriso consolador.

— Estou bem, pai.

Com um sorriso em resposta, ele sai da sala. Eu o ouço começar a assobiar quando chega à cozinha e meu sorriso aumenta. Ele costumava assobiar, o tempo todo, quando minha mãe era viva. Agora, isso é raro. E considerando todos os problemas que nossa família tem enfrentado nos últimos dias, isso é ainda mais especial. Eu sei que são lembranças da mamãe — lembranças boas e felizes — que põem a canção no seu coração. Só de recordar um amor como esse, tudo pode mudar. A vida pode virar um inferno durante algum tempo, mas, no fim, tudo vale a pena. Eu só preciso decidir se com Marceline a vida vale a pena.

∆•∆•∆•∆

No dia seguinte, uma batida forte me acorda da minha soneca. É difícil lutar contra o sono, separar a realidade do mundo de sonho no qual eu estava tão feliz. Mas a realidade é muito mais persistente, sobretudo quando vem na forma do meu irmão.

Bonnibel, abra a porta. É sério — grita Tody do lado de fora do meu quarto trancado.

— Seja o que for, pode esperar, Tody. Estou dormindo.

Não são nem oito horas. Por que já está na cama?

Esta é uma excelente pergunta, e para qual não tenho resposta. Por volta das três e meia, em plena tarde de domingo, pensei que uma soneca cairia muito bem. Acho que quase cinco horas de sono é um pouco mais que uma soneca. Mas estou exausta!

— Estou levantando. Espere um minuto.

Eu me mexo na cama da melhor forma que posso e vou até a porta. Então viro a chave e dou um passo para trás, para que meu irmão possa esbravejar.

— Você sabia disso?

Ele não perde tempo voando para cima de mim, furioso, quando entra.

— Sabia do quê?

— Que aquela babaca da Marceline está me investigando? E de como está mirando em nossa família?

— Não no início. Por que você acha que eu não me encontro mais com ela?

Eu me deixo cair na beira da cama e observo Tody andar de um lado para o outro. Ele está furioso, com certeza, mas por trás da raiva posso ver que está magoado. E se sente traído. Não por Marceline, mas ela serve como um excelente bode expiatório.

— Eu sabia que não tinha ido com a cara daquela bandida. Eu sabia!

— Tody, quer você goste dela ou não, Marceline só estava fazendo o que tinha que fazer, pela família dela. E ela pode até ter salvado a sua vida.

— Como diabos ela pode ter feito algo de bom para mim?

— Isso tem a ver com Morgan, não é?

Tody não responde, mas posso ver o seu rosto se contraindo de raiva.

— Não era Morgan que estava...

— Sim, era ele, Tody. Morgan agiu errado de várias maneiras. Eu sei que ele era o seu melhor amigo e seu parceiro, e sei que você se sente traído, mas não pode ficar tentando protegê-lo. Ele robou o seu cartão de acesso quando você estava dormindo, Tody! Isso é algo deplorável demais para um amigo fazer. Tem ideia do problema que isso poderia ter te causado?

— Pelo menos ele não mandou atirar na nossa casa — dispara ele.

— Mandou, sim. Foram os contatos dele, as atividades ilegais dele que levaram as pessoas a duvidar de você, para começo de conversa. Por que você acha que ele usou o seu cartão? A culpa é completamente do Morgan. A única culpa de Marceline nessa história foi ter descoberto isso, por acaso.

Tody para de andar e me lança um olhar furioso.

— Ela usou você para investigar a nossa família.

As palvras dele me machucam. Porque são verdadeiras. E eu ainda estou sofrendo com isso.

— Eu sei, Tody, mas coloque-se no lugar dela. Imagine que eu fosse morta do mesmo jeito, por incrível que pareça, por um policial corrupto. O que você não faria para prender o cara que me assassinou? O que você não faria para obrigar as pessoas a pagarem pelos próprios atos? — Então me levanto da cama e vou até o meu irmão, que está parado na porta, como um enorme e inflexível Hulk. — Tody, você teria feito a mesma coisa. Talvez até algo pior. Não há limites para o que somos capazes de fazer pelas pessoas que amamos.

— Eu nunca vou perdoá-la. Você entende, não é?

— Marceline não é a pessoa que precisa do seu perdão, Tody. A única culpa dela foi atender ao meu pedido de me ensinar a tatuar. Ela pode ter tido um motivo por trás disso, mas não fez nada de errado. Ela repassou o pouco de informação que tinha a um confiável funcionário da Justiça. Ainda assim, ela pediu desculpas por isso. Mas ela não merece a sua raiva. Direcione sua indignidade para o foco certo. Morgan te traiu da pior maneira possível, e uma inocente morreu por causa disso. Não vamos nos esquecer de quem é o verdadeiro vilão nessa história.

— Você vai defendê-la? Depois de tudo o que ela fez?

— Ela não fez nada que nós mesmos não teríamos feito, Tody — repito, de forma suave.

Enquanto o observo, posso ver a raiva do meu irmão ao tentar combater a verdade das minhas palavras. Ele quer ter raiva de Marceline, mas sabe que esse sentimento não se justifica. Tudo isso pode e deve ser atribuído a Morgan. Ponto final. Marceline nunca teria colocado nossa família em perigo se soubesse, se realmente soubesse, que as coisas tomariam o rumo que tomaram. Ela não é esse tipo de pessoa.

Com um gesto de cabeça, Tody se vira para ir embora, fazendo uma pausa antes de fechar a porta.

— Se ela não fez nada de errado, e se não merece a minha raiva, então por que você parou de sair com ela?

Vejo os lábios de Tody se curvarem em um sorriso afetado, no instante em que ele fecha a porta. Ele acha que conseguiu me convencer, mas tudo o que fez foi me lembrar do quanto eu estava errada. Defender Marceline diante de Tody me fez ver o que estava bem diante de mim, o tempo todo.

Sim, Marceline omitiu o que estava acontecendo. Sim, ela me contratou sob falsos pretextos. Mas eu sei, no fundo do coração, que o que aconteceu entre nós foi verdadeiro. Independente da forma como começou, acabou sendo verdadeiro. E eu pude ver no seu rosto o quanto ela odiava o que fez a mim; o que fez à minha família.

Mas o que eu disse a Tody era verdade. Marceline não fez nada que a minha família não teria feito. Ela não merece a minha raiva ou o meu desprezo. Ela precisa da minha compreenção. E do meu perdão. As duas coisas que ainda não lhe dei.







Ainda...



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