História The Silver Eyes - Imagine Naruto - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Reencontros e Decisão


Fanfic / Fanfiction The Silver Eyes - Imagine Naruto - Capítulo 2 - Reencontros e Decisão

Sakura era a que mais se destacava na multidão.

Sempre enviava fotografias junto com as cartas, e naquele momento estava idêntica à última foto que S/N recebera.

Mesmo sentada, era claramente mais alta do que os dois garotos, e muito magra.

Embora S/N não pudesse ver o modelito completo, a amiga estava com uma bata branca soltinha e um colete bordado, e usava um chapéu sobre os cabelos roséos sedosos que batiam nos ombros, sem falar na flor enorme que ameaçava cair dele. Gesticulava, empolgada, enquanto falava.

Os dois garotos estavam sentados juntos de frente para Sakura.

Sasuke parecia a mesma criancinha com cabelos negros de antes. Tinha resquícios da carinha de bebê, mas as feições estavam mais refinadas, e os cabelos haviam sido cuidadosamente bagunçados, mantidos no lugar pelo que só podia ser algum produto capilar alquímico.

Tinha uma beleza especial e vestia uma daquelas camisetas de ginástica preta, embora S/N duvidasse que ele tivesse colocado os pés em uma academia alguma vez na vida.

Debruçava-se na mesa, com o queixo apoiado nas mãos. A seu lado, Naruto estava sentado mais perto da janela.

Tinha sido o tipo de criança que se sujava antes mesmo de sair de casa: quando a professora ia distribuir os kits de aquarela, sua camiseta já estava manchada de tinta; antes de sequer ter chegado ao parquinho, os joelhos já estavam imundos de grama; segundos depois de ter lavado as mãos, tinha sujeira debaixo das unhas.

S/N o reconheceu, pois não poderia ser outra pessoa, mas o amigo estava totalmente mudado. A imundície da infância fora substituída por uma aparência arrumada e limpa.

Vestia camisa social verde-clara, bem engomada, as mangas dobradas e os botões da gola abertos, o que o deixava com cara de almofadinha.

Estava recostado, confiante, no banco da mesa, assentindo com entusiasmo, absorto no que quer que Sakura estivesse dizendo.

A única coisa que continuava igual eram os cabelos, bagunçados e apontando para todos os lados.

S/N abriu um sorriso.

Naruto fora o mais próximo que ela teve de uma paixonite de infância, antes mesmo de eles sequer entenderem o que aquilo significava.

Ele sempre lhe dava os biscoitos que levava em sua lancheira dos Transformers e, uma vez no jardim de infância, chegou até a assumir a culpa quando ela quebrou a jarra que guardava as miçangas coloridas da aula de artes.

S/N se recordava do exato instante em que o vidro escorregara de suas mãos; ficou parada observando. Não teria sido ágil o suficiente para evitar que ele se quebrasse, mas também nem tentou. Queria ver o vidro se espatifando. Ele atingiu o piso de madeira e se estilhaçou em mil pedacinhos, e as continhas se espalharam, em uma explosão de cores por entre os cacos. Achou a cena linda e em seguida começou a chorar.

Naruto acabou levando uma advertência para casa. Quando ela agradeceu, ele piscou com uma ironia que desafiava sua idade e se limitou a perguntar “pelo quê?”.

Depois disso, Naruto recebeu permissão para entrar no quarto dela e brincar com Stanley e Theodore.

S/N ficou observando com nervosismo quando ele aprendeu a apertar os botões certos para movê-los.

Teria ficado arrasada se Naruto não tivesse gostado dos brinquedos, pois sabia que isso diminuiria sua admiração por ele.

Aquela era a família dela.

Mas ele ficou fascinado assim que bateu o olho nas criações; amou os brinquedos, e ela o amou por isso.

Dois anos depois, atrás de uma árvore próxima à oficina do pai, ela quase deixou que ele a beijasse.

E então aquilo aconteceu, e tudo acabou, pelo menos para S/N.

Ela balançou a cabeça, forçando os pensamentos a voltar ao presente.

Olhou mais uma vez para a aparência sofisticada de Sakura e depois analisou suas próprias roupas.

Camiseta roxa, jaqueta jeans, calça jeans preta e coturnos. Tinha lhe parecido uma boa opção pela manhã, mas naquele momento desejava ter escolhido algo diferente.

É o que você usa sempre, lembrou a si mesma. Estacionou em uma vaga e trancou as portas, embora os moradores de Hurricane não tivessem esse hábito.

Depois entrou na lanchonete para se encontrar com os amigos pela primeira vez em dez anos.

Calor, barulho e iluminação a atingiram feito uma onda quando ela entrou no restaurante. Por um momento, se sentiu desnorteada, mas Sakura notou que ela estava parada à porta e gritou seu nome. S/N sorriu e se aproximou.

— Oi — disse ela, sem jeito, passando os olhos por todos os presentes, mas sem fazer contato visual com ninguém.

Sakura deslizou para o lado no banco de vinil vermelho, dando tapinhas para indicar o lugar vago.

— Senta aqui. Eu estava falando da minha vida cheia de glamour para o Naruto e o Sasuke.

Ela revirou os olhos, conseguindo transmitir ao mesmo tempo autodepreciação e a ideia de uma vida, de fato, empolgante.

— Você sabia que a Sakura mora em Nova York? — comentou Carlton.

Havia certo cuidado em seu tom, como se pesasse as palavras antes de dizê-las.

Naruto permaneceu calado, mas sorriu para S/N, ansioso.

Sakura voltou a revirar os olhos, e S/N teve um déjà-vu, lembrando que a amiga tinha aquele hábito desde pequena.

— Oito milhões de pessoas moram em Nova York, Sasuke. Não chega a ser nenhuma conquista — ironizou Sakura.

Sasuke deu de ombros.

— Nunca saí daqui — retrucou ele.

— Não sabia que você continuava morando em Hurricane — disse S/N.

— Onde mais eu ia morar? A minha família está aqui desde 1896 — acrescentou, imitando a voz grave do pai.

— Isso é verdade mesmo? — perguntou S/N, curiosa.

— Sei lá — respondeu o garoto, em seu tom normal. — Pode ser. Meu pai concorreu ao cargo de prefeito há dois anos. Tipo, ele perdeu, mas mesmo assim, quem ia querer ser prefeito? — Fez uma careta. — Juro, no dia que fizer dezoito anos, me mando daqui.

— E pra onde você vai? — perguntou Naruto, olhando para Sasuke, sério.

Sasuke o encarou, tão sério quanto Naruto. De repente, se virou para o lado e apontou para a janela, fechando um dos olhos como se estivesse preparando a mira.

Naruto ergueu uma das sobrancelhas, tentando ver para onde Sasuke apontava. S/N também olhou. Ele não estava mirando nada. Naruto abriu a boca para dizer algo, mas Sasuke o interrompeu.

— Ou — disse, virando o dedo lentamente para o outro lado.

— Ok. — Naruto coçou a cabeça, parecendo um pouco envergonhado.

— Pra qualquer lugar, é isso? — deu uma risada.

— Onde é que está o resto do pessoal? — indagou S/N, olhando pela janela, à procura de recém-chegados.

— Só amanhã — respondeu Naruto.

— Eles chegam amanhã de manhã — esclareceu Sakura, às pressas. — A Hinata vai trazer a irmã mais nova. Dá pra acreditar?

— A Hanabi? — perguntou S/N, sorrindo.

Lembrava-se da menina como um pacotinho embrulhado em cobertores com apenas o rosto para fora.

— Mas, tipo, quem quer ficar andando por aí com uma bebezinha no colo? — Sakura endireitou o chapéu quase com afetação.

— Aposto que ela não é mais um bebê — retrucou S/N, sufocando o riso.

— Praticamente um bebê — corrigiu Sakura. — Mas, enfim, fiz uma reserva pra gente num hotelzinho de beira da estrada. Foi o que consegui. Os meninos vão ficar na casa do Sasuke.

— Ok — concordou S/N.

Ficou ligeiramente impressionada com a organização de Sakura, mas o plano não lhe agradava.

Estava relutante em dividir um quarto de hotel com a antiga amiga, que se tornara uma estranha para ela, o tipo de garota que a intimidava: sofisticada e impecável, daquelas que, só de abrir a boca, pareciam já ter a vida toda planejada.

Por um momento, S/N considerou passar a noite em sua antiga casa, mas na mesma hora tirou essa ideia da cabeça. Aquele lugar, à noite, não era mais domínio dos vivos.

Não seja dramática, repreendeu-se, mas Naruto já estava falando.

Ele tinha o dom de exigir atenção quando falava, provavelmente porque se pronunciava menos que os outros.

Passava a maior parte do tempo escutando, mas não por ser discreto. Estava, na verdade, coletando informações, se limitando a falar quando tinha alguma sabedoria ou sarcasmo para destilar. Não raro, os dois ao mesmo tempo.

— Alguém sabe como vai ser amanhã?

Ficaram todos em silêncio, e a garçonete aproveitou a deixa para ir até a mesa anotar os pedidos.

S/N folheou o cardápio depressa, sem focar em nada. Sua vez de pedir chegou muito mais rápido do que esperava, e ela ficou sem ação.

— Hum... ovos — disse, enfim. A expressão séria da mulher continuou voltada para ela, que se deu conta de que não tinha terminado. — Mexidos. Torrada integral — acrescentou, e a atendente se afastou.

S/N voltou a olhar o cardápio. Odiava aquele traço de sua personalidade. Sempre que era surpreendida, parecia perder toda a habilidade de agir ou processar o que estava acontecendo ao redor. As pessoas se tornavam incompreensíveis, e suas exigências pareciam de outro mundo. Escolher meu pedido não deveria ser tão difícil, pensou. Os outros tinham retomado a conversa, e ela voltou a prestar atenção, se sentindo deixada para trás.

— O que é que a gente vai dizer para os pais dele? — perguntou Sakura.

— Sasuke, você costuma encontrá-los por aí? — indagou S/N.

— Na verdade, não. Só de vez em quando.

— Acho bem estranho que eles tenham decidido continuar morando em Hurricane — comentou Sakura, em um tom de reprovação, como se fosse a voz da experiência.

S/N não abriu a boca, mas pensou: Como poderia ter sido diferente?

O corpo do filho jamais fora encontrado. Como não teriam, lá no fundo, a esperança de que ele voltasse para casa um dia, ainda que soubessem que era quase impossível? Como abandonariam o único lar que Neji conhecera? Significaria que tinham enfim desistido dele.

Talvez aquela bolsa de estudos fosse isto mesmo: estavam admitindo que o filho não voltaria mais.

S/N tinha plena consciência de que aquele era um lugar público, onde falar sobre Neji seria inapropriado. Eram, de certa forma, tanto nativos quanto intrusos ali. Tinham sido próximos do menino, provavelmente mais do que qualquer um dos presentes, mas, a não ser por Sasuke, não eram mais de Hurricane. Não pertenciam àquele lugar.

S/N viu lágrimas caírem em seu jogo americano de papel antes de sentir que estava chorando, e as secou depressa, olhando para baixo e torcendo para que ninguém tivesse notado.

Quando levantou a cabeça, S/N parecia estar observando os talheres, mas ela sabia que ele havia reparado. Ficou grata por não ter tentando reconfortá-la.

— Naruto, você ainda escreve? — perguntou S/N.

Aos quatro anos, Naruto aprendera a ler e a escrever — um ano antes que o restante da turma —, e, aos seis, se declarou “escritor”. Aos sete, tinha concluído seu primeiro “romance” e mostrado a criação cheia de erros de ortografia e ilustrações indecifráveis aos amigos e parentes, exigindo opiniões e críticas. S/N se lembrava de ter lhe dado apenas duas estrelas.

Naruto riu da pergunta.

— Hoje em dia até faço o “e” certinho. Nem acredito que você se lembra disso. Mas ainda escrevo, sim. — Parou por ali, embora estivesse claro que queria falar mais.

— E o que é que você escreve? — S/N satisfez a vontade dele, e Naruto baixou os olhos para o prato, quase falando com a mesa.

— Ah, contos, basicamente. Cheguei até a publicar um no ano passado. Quer dizer, foi numa revistinha, nada de mais.

Todos fizeram questão de demostrar a devida admiração, e ele ergueu o rosto outra vez, tímido mas satisfeito.

— Sobre o que era a história? — indagou S/N.

Naruto. hesitou, mas antes que pudesse decidir se respondia ou não, a garçonete chegou com os pedidos.

Todos tinham escolhido alguma opção de café da manhã: café, ovos e bacon; panquecas de mirtilo para Sasuke. A comida toda colorida parecia convidativa, como um novo começo para o dia. S/N deu uma mordida na torrada, e todos comeram em silêncio por um momento.

— Ei, Sasuke — começou Naruto —, que fim a Freddy’s levou, afinal?

Houve um breve silêncio. Sasuke olhou para S/N, nervoso, e Sakura olhou para o teto. Naruto corou, e Sakura falou, depressa:

— Tudo bem, Sasuke. Também queria saber.

Ele deu de ombros, fincando o garfo em um pedaço de panqueca, ainda nervoso.

— Começaram a construir outra coisa lá.

— O quê? — insistiu Sakura.

— Aquele lugar virou outra coisa? Eles aproveitaram o espaço ou destruíram tudo? — perguntou Naruto.

Sasuke deu de ombros novamente, um movimento rápido, como se fosse um tique nervoso.

— Já disse, não sei direito. Fica lá no fim da rodovia, e eu não quis investigar. Talvez tenham alugado para alguém, mas não sei o que fizeram. Interditaram a área toda faz uns anos, virou um canteiro de obras. Não dá nem para saber se o prédio continua de pé.

— Mas então pode ser que ainda esteja lá? — insistiu Sakura, uma centelha de empolgação surgindo por trás da pergunta.

— Vou repetir, eu não sei — disse Sasuke.

S/N sentiu as lâmpadas fluorescentes da lanchonete queimando seu rosto, de repente fortes demais. Sentia-se exposta. Mal tinha comido, mas quando deu por si estava se levantando da mesa, tirando algumas notas amassadas do bolso e as deixando ao lado do prato.

— Vou lá fora um minutinho — disse ela. — Pausa para o cigarro — acrescentou, às pressas.

Você não fuma. Repreendeu-se pela mentira esfarrapada ao passar pela porta.

Foi até o carro e se sentou no capô, afundando o metal de leve. Respirou o ar frio como se estivesse bebendo água e fechou os olhos. Você sabia que o assunto viria à tona. Sabia que teria que falar disso em algum momento, lembrou a si mesma. Tinha até praticado no caminho, se obrigado a recuperar lembranças felizes, a sorrir e dizer: “Lembra quando...?” Achou que estava preparada. Mas é claro que se enganara. Por que outro motivo teria fugido do restaurante feito uma criança?

— S/N?

Abriu os olhos e viu Naruto ao lado do carro, estendendo a jaqueta dela como se fosse uma oferenda.

— Você esqueceu o casaco lá dentro — explicou, e ela se forçou a abrir um sorriso.

— Valeu. — Pegou a jaqueta e a colocou sobre os ombros, depois deslizou para o lado, abrindo espaço para o garoto se sentar no capô também. — Foi mal.

Mesmo à luz fraca do estacionamento, viu que até as orelhas de Naruto ficaram coradas. Ele se juntou à amiga, deixando de propósito um espaço entre os dois.

— Ainda não aprendi a pensar antes de falar. Desculpa.

Ele observou o céu enquanto um avião passava.

S/N sorriu, e dessa vez não foi um sorriso forçado.

— Tudo bem. Sabia que alguém ia querer tocar no assunto, não tinha jeito mesmo. É só que... Pode parecer idiota, mas eu nunca penso na pizzaria. Não me permito pensar. Ninguém sabe o que aconteceu, a não ser pela minha tia, e a gente nunca fala sobre isso. Aí chego aqui e, de repente, está por toda a parte. Fui pega de surpresa, só isso.

— Ops. — Naruto apontou, e S/N viu Sakura e Sasuke hesitantes na porta da lanchonete.

Gesticulou para que se aproximassem, e eles obedeceram.

— Lembra aquela vez que o carrossel da pizzaria deu problema, e a Hinata e aquele garotinho malvado, o Gaara, tiveram que ficar dando voltas e mais voltas até os pais deles chegarem para tirar os dois de lá? — perguntou S/N.

Naruto riu, e ela abriu um sorriso também.

— Os dois ficaram muito vermelhos, chorando que nem bebezinhos.

Ela escondeu o próprio rosto, culpada por achar a história tão engraçada.

Houve um silêncio rápido de surpresa, e depois Sasuke começou a rir também.

— Aí a Hinata vomitou no garoto!

— Bem feito! — exclamou S/N.

Sakura franziu o nariz.

— Que nojo. Nunca mais subi naquilo, não depois desse incidente aí.

— Ah, para, Sakura, eles limparam o carrossel — interveio Sasuke. — Tenho certeza de que aquele lugar inteiro foi batizado pelas crianças. Aquelas placas dizendo “cuidado, chão molhado” não estavam lá à toa. Não é, não, S/N?

— Não olha pra mim. Nunca vomitei na pizzaria.

— A gente passava tanto tempo lá! Privilégio de quem conhecia a filha do dono — comentou Sakura, lançando a S/N um olhar acusatório de brincadeira.

— Não se escolhe o próprio pai! — retrucou S/N, rindo.

Sakura pareceu refletir por um instante antes de continuar.

— Mas, tipo, quer jeito melhor de passar a infância do que na Pizzaria Freddy Fazbear, o dia inteiro, todos os dias?

— Não sei — disse Sasuke. — Acho que a musiquinha começou a me irritar depois de todos aqueles anos.

Cantarolou parte daquela melodia familiar.

S/N baixou a cabeça, relembrando a canção.

— Eu amava tanto aqueles animais — comentou Sakura. — Qual é o nome certo? Animais, robôs, mascotes?

— Acho que todos estão certos. — S/N se recostou no carro.

— Bom, enfim, eu ia sempre conversar com o coelho, qual era o nome dele mesmo?

— Bonnie — respondeu S/N.

— Isso. Eu ficava reclamando dos meus pais para ele. Sempre achei que tinha uma expressão compreensiva — disse Sakura.

Sasuke riu.

— Terapia robótica! Recomendada por seis entre sete psicopatas. — O garoto disse, num ar brincalhão.

— Cala a boca — retrucou a menina. — Eu sabia que não era de verdade. Só gostava de falar com ele.

— Eu lembro — disse S/N, e deu um sorrisinho.

Sakura em seus vestidinhos impecáveis, os cabelos roséos presos em duas tranças perfeitas, como se fosse uma criança tirada de um livro antigo, subia no palco depois de encerrado o espetáculo e sussurrava toda comprometida para o coelho animatrônico do tamanho de um adulto.

Se alguém se aproximasse dela, a menina ficava calada e imóvel, aguardando que o intruso fosse embora para que pudesse retomar sua conversa particular.

S/N nunca conversara com os animais do restaurante do pai, tampouco sentira tanta afinidade com eles quanto as outras crianças; embora gostasse deles, pertenciam ao público.

Ela tinha seus próprios brinquedos, amigos mecânicos só dela à sua espera em casa.

— Eu curtia o Freddy — comentou Naruto. — Tinha a impressão de que ele era o mais humano de todos.

— Sabe, tem um monte de coisa da minha infância que não lembro — admitiu Sasuke —, mas juro que, se fechar os olhos, consigo ver cada detalhezinho daquele lugar. Até o chiclete que eu sempre grudava debaixo das mesas.

— Chiclete? Aham, sei. Aquilo lá era meleca. — Sakura deu um passinho mínimo para mais longe de Sasuke.

Ele abriu um sorriso maquiavélico.

— Eu tinha sete anos. O que você esperava? E todo mundo aqui vivia implicando comigo naquela época. Lembra quando a Hinata escreveu “Sasuke tem cheiro de chulé” na parede de fora?

— Mas você tinha mesmo cheiro de chulé — afirmou Sakura, e explodiu em risadas.

Sasuke deu de ombros, sem se deixar perturbar.

— Eu sempre tentava me esconder quando chegava a hora de ir para casa. Queria ficar preso lá dentro para ter a pizzaria inteira só para mim.

— É, você sempre deixava todo mundo esperando — concordou Naruto — e sempre se escondia debaixo da mesma mesa. — Ironizou no final.

S/N falou devagar, e todos se voltaram para ela, como se estivessem aguardando aquele momento:

— Às vezes acho que consigo me lembrar de cada centímetro da pizzaria, que nem o Sasuke. Mas tem vezes que parece que não me lembro de nada. É tudo fragmentado. Tipo, me lembro do carrossel e da vez que ele parou. Me lembro de desenhar no jogo americano de papel. Me lembro de detalhes: comer a pizza gordurosa, abraçar o Freddy no verão e sair com pelo amarelo grudado na roupa inteira. Mas várias dessas lembranças são que nem foto, como se tivessem acontecido com outra pessoa.

Todos olhavam para S/N com expressões esquisitas.

— O Freddy não era marrom? — Sakura olhou para os outros, buscando confirmação.

— Acho que você não se lembra de nada mesmo — provocou Sasuke, e S/N deu uma risadinha.

— Verdade. Quis dizer pelo marrom — concordou.

Marrom, Freddy tinha pelagem marrom. Claro que tinha; ela pôde vê-lo em sua mente naquele exato segundo. Mas, em algum lugar, nos recantos profundos de suas lembranças, houve um lampejo de algo diferente.

Sasuke seguiu para outra história, e S/N tentou voltar sua atenção para ele, mas havia algo de inquietante, preocupante, a respeito daquele lapso de memória.

Já faz dez anos; não é como se você estivesse sofrendo de demência aos dezessete, disse a si mesma, mas tinha sido um detalhe tão básico para confundir.

De canto de olho, surpreendeu Naruto olhando para ela, com uma expressão contemplativa, como se ela tivesse dito algo importante.

— Você não sabe mesmo o que aconteceu com a pizzaria? — perguntou ela a Sasuke, com mais urgência do que pretendia. Ele parou de falar, surpreso.

— Desculpa — emendou S/N. — Desculpa, não quis interromper você.

— Tudo bem — respondeu ele. — Mas é... Ou melhor, não, quer dizer, não sei mesmo o que aconteceu.

— Como não? Você mora aqui.

— S/N, para com isso... — disse Naruto.

— Não é como se eu ficasse passeando por aquela parte da cidade. As coisas estão diferentes agora. Hurricane cresceu — argumentou Sasuke, com paciência, indiferente à explosão da garota. — E, para ser sincero, não fico procurando motivo para ir para aqueles lados, sabe? Por que eu faria isso? Não tem motivo, não mais.

— A gente podia ir lá — sugeriu Naruto, e S/N sentiu seu coração acelerar.

Sasuke olhou para ela, nervoso.

— O quê? Sério, aquilo lá é um verdadeiro caos. Não sei nem se dá para chegar no prédio.

S/N se pegou assentindo. Era como se tivesse passado aquele dia inteiro oprimida pelas lembranças, enxergando tudo através do filtro do tempo, e de repente se sentia alerta, a mente aguçada. Ela queria ir.

— Vamos. Mesmo que não tenha mais nada lá. Quero ver.

Todos ficaram em silêncio. Depois, Naruto sorriu com uma confiança relaxada.

— É. Vamos, sim.



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