1. Spirit Fanfics >
  2. The Sound Of Thunder >
  3. (Part. Il) Molly me ensina a domar um leão.

História The Sound Of Thunder - Capítulo 9


Escrita por: e _Alaskah


Notas do Autor


Pessoinhas aqui está a parte II pedida, espero que gostem <3

Capítulo 9 - (Part. Il) Molly me ensina a domar um leão.


Bell logo percebeu o clima pesado que se instalou, após meu breve questionamento contra nossa mãe, ele tentou controlar a situação, mesmo sem saber do que realmente estava acontecendo.

— Bom... — Começou atraindo minha atenção e chupando cada um dos dedos sujos de cheddar, antes de se levantar. — Vou levar a Audrey e a Molly no ringue de patinação... — Disse trocando um olhar intenso com nossa mãe. — Vou só escovar os dentes e vamos.

— Você fala isso como se fosse o mais velho... — O retruquei incrédula, virando minha cabeça o acompanhado, enquanto ele seguia para as escadas. — E o mais responsável... — Arqueei minhas sobrancelhas, vendo-o parar nos degraus e me mostrando um sorriso sacana.

— Sou o mais velho e responsável.

— Aham diga isso para o nosso horário de nascimento na nossa certidão. — Disse em um tom sarcástico. — Teoricamente sou a mais velha por simplesmente ter nascido vinte minutos antes de você, porque o senhor ficou entalado com esse seu cabeção. — Bell me mostrou o dedo médio.

— Hiero... — Repreendeu nossa mãe.

Ela só chamava Bell pelo nome do meio quando estava ficando muito brava.

— Desculpe mãe... — Dito isso, ele subiu as escadas rapidamente.

Virei-me confusa para nossa mãe.

— Ringue de patinação?

Adélia suspirou.

— Bell disse que isso pode ser uma coisa boa para te distrair do seu pesadelo...

Respirei fundo, me sentindo agitada e ansiosa de uma forma boa por voltar a patinar, mesmo que só por um curto período de tempo, já que teremos além de pagar o tempo para usar o ringue, também teríamos que alugar os patins, uma vez que meus pares antigos da época do hóquei, já não me servia mais. Outro defeito meu: tenho os pés grandes. Literalmente pés magrelos e grandes, sendo forçada a calçar 39/40, o que quer dizer, que certamente o sapatinho da Cinderela não caberia no meu pé. Mas tudo bem, já me conformei que nunca seria mesmo uma princesa da Disney mesmo, não tenho perfil físico e tampouco emocional para isso.

— Já passou um antisséptico nesses arranhões? — Minha mãe perguntou baixando seu olhar nos arranhões em meu pescoço. — Quer fazer um curativo?

— Não precisa de curativo, só ia chamar atenção das pessoas na rua, posso escondê-los com meu cabelo... — Respondi. — Molly, pode passar o antisséptico para mim? — Me virei para minha amiga com um olhar suplicante.

Molly ficou sem saber o que fazer a princípio, mas logo concordou com um aceno na cabeça. Minha mãe ficou um pouco decepcionada, pela minha atitude de estar a “descartando” daquela maneira, porém, enquanto o que ouvi na Gray Scott não fosse esclarecido, com certeza não ia dar uma brecha para ela se aproximar da minha pessoa, tão cedo. Esse é mais um dos meus problemas: quando enfio algo na minha cabeça dificilmente consigo tirar.

Minha mãe sorriu sem graça.

— Vou pegá-lo... — Dito isso se levantou da mesa e foi até um cômodo, onde sua silhueta entrou e continuou, desaparecendo de nossas vista.

Como esperado, ao ficarmos sozinha, não demorou, para que Molly puxasse meu pulso, como forma de atrair minha atenção, com seu melhor olhar desconfiado.

— O que foi isso? — Questionou imediatamente. — Porque está tratando sua mãe assim?

— Não estou entendendo aonde você quer chegar... — Me fiz de desentendida.

— Não se faça de sonsa, Latona! Eu lhe conheço há cerca de quatro anos inteiros e sou sua melhor amiga, sei bem quando algo está errado com você! — A encarei raivosa, pois estava me chamando pelo meu primeiro nome. — Olha para seu pescoço! Dá para ver que esse pesadelo foi algo muito assustador e sério o suficiente para você machucar a si própria! Então, vai parar de me enrolar ou vai me dizer logo que porra está acontecendo?!

Já disse que odiava quando Molly estava certa e eu errada? Isso é porque sempre odeio estar errada! Gosto de sempre estar certa e ser capaz de controlar tudo ao meu redor, principalmente minha melhor amiga e meu irmão, mesmo que às vezes tivesse que usar manipulação para esse fim... Talvez devesse contar a verdade para Molly, sobre Pansy, Nico, Grover, a conversa super esquisita que ouvi na ala psiquiátrica de minha mãe com o Sr. Brunner e que sinto que: há muito mais sujeira embaixo desse tapete do que posso imaginar... Mas se contasse para minha melhor amiga, ela poderia me ajudar a lidar com isso e sem me julgar por maluca, algo que já fiz muitas vezes com ela, até um lobisomem tentar arrancar minha perna. Vou ter que me desculpar várias vezes por duvidar de suas teorias conspiratórias.

— Molly eu... — Quando estava começando a criar coragem e contar para ela sobre tudo que havia me acontecido, Beowulf chegou rapidamente perto de nós me interrompendo mostrando os dentes brancos com hálito de hortelã perguntando se estávamos prontas.

A partir disso toda minha coragem que reuni para contar a Molly desapareceu tão rápido quanto surgiu e para piorar a situação minha mãe chegou à sala de jantar, segurando o antisséptico, um saco gigantesco de algodão e... Não, não, não... Ela encontrou... A olhei com os olhos arregalados.

Pronto! Ela descobriu! Estou ferrada!

— Latona... — Começou. — Imagina minha surpresa ao encontrar seu óculos especial para sua dislexia, seu astigmatismo e miopia, escondido debaixo da sua cama durante a mudança...

Puta que pariu! Realmente se existir um deus, ele me odeia!

— Beowulf me contou que você, não usa os óculos e raramente usa suas lentes! — Disse batendo o fundo do antisséptico contra a mesa. — Por isso suas notas estão tão baixas! Como vai conseguir fazer prova se não consegue sequer ler as perguntas?! — Encarei mortalmente meu irmão e lhe dei um soco forte ao lado do seu quadril, enquanto ele soltou um “ai” e me censurou. — Ei, ei, ei! Parou! Você está errada, Latona! E pode colocar seus óculos agora!

Realmente acho que nunca cheguei tão perto de cometer fratricídio como naquele momento, enquanto encarava mortalmente meu irmão. Ele havia me dedurado! Ou melhor, ele havia me traído! Enfiado uma faca nas minhas costas! E por enquanto minha raiva me impede de pensar racionalmente qualquer outro eufemismo para traição! Porra Beowulf quebrou a regre mais importante dos gêmeos: nunca dedurarás seu irmão para sua mãe, não importa o quão grande é a merda que ele fez.

— Agora? — Ousei perguntar, me fazendo de desentendida.

Minha mãe cruzou os braços e reprovou minha postura com o olhar.

— Agora! — Estendeu-me a caixa do meu óculos e a peguei com má vontade. Bufei irritada e a abri, tirando meus óculos prateados e com gigantescas lentes transparentes e o coloquei no rosto, fazendo tudo ficar nítido e melhorando minha visão consideravelmente.

— Pronto! Satisfeita?! — A questionei grosseiramente. — Molly pode passar logo o antisséptico para sairmos logo daqui?! — Virei para minha amiga, antes do sentimento de vingança me invadir e querer fazer Bell pagar na mesma moeda, por me dedurar por causa dos óculos. Voltei encarar minha mãe com uma expressão travessa e maldosa. — Você sabia que o Hiero, está prestes a desenvolver câncer de pulmão? — Ouvi Bell engasgar com a própria saliva atrás de mim. — Meu querido irmãozinho é um fumante bem ativo, sabia mamãe?! Há tantos cigarros com sabores diferentes que ele cole... — Bell rapidamente tampou minha boca fortemente com sua mão pesada, como um olhar que dizia: “ou você cala a boca, ou eu te mato.”.

Mordi a mão dele em resposta.

— Porra! Sua selvagem! — Sacudiu a mão em pleno ar.

Ergui o dedo médio para ele.

— Já chega vocês dois! — Nossa mãe gritou. — Você é fumante Beowulf?! — Ela o encarou com um olhar acusatório.

— Não sou! — Respondeu. — Fumo por prazer, mas posso parar quando quiser... Não é como a Latona está dizendo, sabe como ela exagera...

Nossa mãe piscou várias vezes atônica e despencou na cadeira como se o seu chão tivesse desaparecido, enquanto mexia inquietamente em seu cabelo.

— Como isso foi acontecer?! A que ponto nós chegamos?! Vocês dois me escondendo coisas importantes... — Disse perdida em seus pensamentos.

Bell me encarou com sua melhor expressão raivosa, mas ignorei, ele havia procurado e apenas me vinguei pela informação vazada dos meus óculos.

Odiava usar aqueles óculos, por favor, sei que naturalmente não sou tão atraente quanto Molly e seu cabelo roxo-lilás com seu corpo cheio de curvas invejáveis, na verdade, eu era comum. Não tinha nada de especial na minha aparência física que não fosse meus olhos azuis tempestade, sim, pelo menos essa a única coisa bonita e atrativa minha, que por sinal ficava horrível quando usava os malditos óculos que Bell e eu ganhamos de uma amiga da minha mãe com um nome bizarro chamada Trivia. Fala sério! Que nome bizarro!

Sem falar que sequer conseguia me lembrar dessa amiga, afinal minha mãe era pouco sociável e tinha poucos amigos, bem, na verdade ela não tinha nenhum. Só essa tal de Trivia que só vi uma única vez, que deu de presente para Bell e eu um par de óculos de grau aos seis anos de idade. Mas diferente do meu óculos brega e super nerd, o óculos de Bell era mais descolado e legal, ele ficava mais bonito, enquanto eu... Tinha meus belos olhos tornados feios por esse acessório idiota, mas muito necessário para pessoas com problemas de visão como eu.

Mas quem liga para problemas de visão, quando a única coisa que te faz parecer bonita ou atraente é completamente arruinada?!

— Acho que não é só Bell e eu que lhe esconde coisas não é, mãe?!

— C-Como...? — Ela ficou pálida e gaguejou.

— Não sei... Tipo... Você também tem os seus segredos, não é? — Disse de uma forma venenosamente sugestiva, enquanto pedia baixo para que Molly passasse o antisséptico para mim.

Tirei meu cabelo, volumoso e naturalmente ondulado nas pontas, do pescoço, o prendendo com um elástico em um coque desajeitado, deixando o local exposto para que Molly pudesse ensopar os algodões com o antisséptico e os pressionar delicadamente nos arranhões. Fiz uma careta quando o líquido encostou sob os ferimentos, fazendo-os arder um pouco mais. Quando Molly terminou de passar no local, senti uma breve sensação de frescor ali, o que me arrancou arrepios incontroláveis.

Depois que havia dito aquilo, um clima pesado havia se instalado entre todos nós, mais uma vez.

— Então vamos?! — Perguntei ansiosa, já me levantando e indo direto para a porta da sala, não querendo ficar ali nenhum minuto a mais.

— Vocês não vão demorar ou ir muito longe, certo? — Ouvi minha mãe perguntar com uma voz receosa e carregada de preocupação. Com certeza o que disse havia mexido com ela. — Prometam que vão ter cuidado, não quero que nada aconteça a vocês...

Mas que inferno está acontecendo?! Estou sentindo minha mãe mais preocupada do que o normal e sinto que isso é por causa do que ouvi na Gray Scott. Minha intuição nunca falha!

— Tipo o quê?! O que poderia nos acontecer, mãe?! — Indaguei perdendo a paciência.

— Audrey, pega leve! — Molly me advertiu, provavelmente já perdendo a paciência com o meu comportamento agressivo e rebelde. — É só preocupação de mãe... — Juro que estava começando a ficar tão nervosa que quase disparei um cruel: “como você sabe, Molly? Nem mãe você tem!”, mas percebi a tempo o quão maldoso aquilo seria e rapidamente soltei outra coisa, antes que perdesse minha melhor amiga para sempre por um impulso idiota.

— Preocupação materna... — Disse com escárnio. — O que pode acontecer, mãe? Um lobisomem surgir do nada e querer arrancar minha perna esquerda, por acaso?!

Minha mãe mordeu o lábio e desviou o olhar para o chão.

— Latona! — Bell me chamou furioso. — O que te deu?! Porque está tratando nossa mãe desse jeito desde que chegamos?!

Fiquei mais irritada por Beowulf está me censurando como se eu estivesse errada e a que está escondendo segredos aqui! Acorda! Eu sou a vítima! Minha perna quase foi decepada por um lobisomem e quero saber o motivo, que por acaso, minha mãe sabe!

Queria mandar meu irmão se foder. Na verdade queria mandar tudo à merda!

Encarei minha mãe fixamente esperando, que deixasse de ser uma covarde e abrisse logo o jogo, contasse toda a verdade e só ela poderia fazer isso. Poderia confiar em Bell e em mim, não poderia garantir que não ia ficar brava ou furiosa, mas ela não ia deixar de ser minha mãe por isso ou tampouco iria deixar de amá-la. Mas, diferente do que esperava, minha mãe apenas ficou em silêncio e não disse mais nada. O que me irritou muito... Ah se me irritou...

Odeio pessoas covardes!

— Não demorem, depois do passeio, precioso ter uma conversa séria com todos vocês... — Ouvir minha mãe dizer.

— Pode ficar tranquila mãe, não é como se fossemos fazer uma orgia no Brooklyn, vamos só a um ringue de patinação... — Segurei a maçaneta na porta, escutando e ignorando Bell gritando atrás de mim me repreendendo pelo meu comportamento, prestes a girar a maçaneta e quando o fiz, atravessei a porta da frente e caminhando rapidamente até o meio-fio.

Estava agitada, com raiva e perdendo a paciência, sabia que precisava de respostas urgente, ou só iria enlouquecer ainda mais ou ter mais pesadelos vívidos como o que tive. Sentia vontade de chorar, não por estar triste, mas sim, por não estar aguentando sustentar todo esse peso que estava dentro de mim, queria gritar, mas não tinha voz para isso, minha única opção era chorar para aliviar todo esse peso e incômodo que sentia só crescer mais e mais no meu peito.

Minha vontade absurda de chorar foi gradativamente interrompida quando meu olhar recaiu sob um homem de terno de risca de giz azul escuro, com uma gravata vermelha e uma barba grisalha, totalmente bem aparada e possuía olhos azuis tempestade, assim como eu. Ele parecia ser o tipo de homem de negócios, muito rico, que sempre acompanha a bolsa de valores, o que me fazia só questionar: o que um cara como aquele estava ali no Queens e não em alguma cobertura luxuosa em Manhattan ou uma casa em Long Island.

Mas a parte mais estranha de tudo, é que ele me encarava fixamente, como se já tivesse me visto ou se me conhecesse, algo que era muito estranho, porque se conhecesse um ricaço, com certeza me lembraria. Afinal, esse tipo de pessoa você não esquece fácil, principalmente quando você é alguém de classe média que vive no subúrbio.

Então algo muito estranho aconteceu — acho que isso já está se tornando rotineiro na minha vida —, um carro passou rapidamente na rua, que nos separava, quando o carro já havia passado, o homem de terno já não estava mais lá. Era como se ele nunca estivesse ali, mas sabia que isso não poderia ser verdade, uma vez que realmente havia o visto.

De repente a tarde ensolarada, se tornou totalmente nublada com alguns barulhos ensurdecedores de trovões furiosos e ameaçadores. Poderia ser só o sinal de que uma tempestade forte estava chegando, mas algo dentro de mim tornou-se inquieto e agitado o suficiente para que pressentisse que algo ruim estava prestes acontecer ou era só minha barriga implorando por mais comida.

 

 

***

 

 

Depois de patinar e matar a saudade que tinha do ringue de patinação; sentia que meus pés estavam totalmente doloridos, mas de uma forma que me fazia me sentir orgulhosa de mim mesma, afinal, só aqueles que estão dispostos a sentir dor, são dignos de pisar em um ringue de patinação. Bom pelo menos era isso que meu antigo treinador de hóquei, dizia.

Patinar era o meu grande amor, era quando tudo desaparecia, todos os problemas, as lembranças ruins e todo o resto do mundo, quando estava deslizando pelo gelo. Quando entrava no ringue de patinação, existia apenas eu e o gelo, nada mais e nada a menos. A patinação era meu saco de pancada e ao mesmo tempo minha terapia, era algo que conseguia me acalmar, me deixar mais relaxada e mais tranquila.

Agora estava sentada na arquibancada em volta do ringue de patinação, vendo outras pessoas ali, que também alugaram os patins e pagaram 20 dólares a hora para poderem patinar sossegadamente no gelo. Bell e Molly pareciam estar se entendendo, uma vez que, meu irmão estava sendo gentil em ajudar minha melhor amiga a se equilibrar sob os patins de gelo, sem deixa-la ou permitir que ela caísse. Era provável que já houvessem se desculpado e se perdoado pelos acontecimentos da noite anterior, fiquei feliz por eles.

Entretanto, Bell ainda parecia estar bem puto comigo pela forma que revelei seu segredo, tratei e falei com a nossa mãe, por isso, ele estava me ignorando, realmente não me importei com isso, afinal estava fazendo o mesmo com meu irmão gêmeo. Beowulf não iria entender se contasse para ele tudo o que estava acontecendo, talvez iria me julgar, dizer que estou louca e paranoica por estar desconfiada da nossa própria mãe, por isso, a possibilidade de desabafar com meu irmão, estava totalmente descartada.

Acho que dessa vez estava sozinha com esse fardo.

Enquanto observava Bell e Molly pelo ringue de patinação, quase que automaticamente, me lembrei de uma excursão escolar que fizemos uma vez para o zoológico, pouco tempo antes do incêndio e da Gray Scott, quando ainda frequentávamos a escola pública de Alexandria. Tinha uns valentões idiotas, que sempre implicavam com o Bell e eu, talvez por sermos bastante pequenos e totalmente indefesos para as crianças da época.

Durante o passeio pelo zoológico, paramos no aviário, no qual era repleto de aves, mas a maioria eram águias e falcões de diferentes subespécies. Quando nossa professora estava distraída explicando para a nossa classe sob as diversas espécies de águias e falcões espalhadas pelo mundo e a importância desses seres para nós, humanos, e para a natureza. O trio de valentões e brutamontes — porque sempre os valentões tem que andar em trio?! — repetentes da nossa classe, aproveitaram que Bell e eu estávamos um pouco mais afastados do grupo, pois me encontrava fascinada pelas aves ali do aviário e Beowulf me esperava, nos pegaram para tentar fazer nós dois de sacos de pancada e depois tentar enfiar nossas caras nas fezes dos falcões e águias dali.

Ainda posso lembrar a sensação de fúria que senti quando, Charlie fedorento deu um soco no estômago do meu irmão, na minha frente, enquanto Gabriel asno e Dante imbecil nos imobilizavam, segurando nossos braços fortemente e nos obrigando assistir as atrocidades que Charlie estava prestes a fazer com cada um de nós.

Quando Bell gemeu de dor e chorou, havia ficado tão enfurecida, que havia sentido meus olhos arderem de uma forma que não sei como explicar, mas foi apenas um breve apagão que tive e quando “despertei”, vi que um bando de águias e falcões gritavam em conjunto, totalmente raivosos, enquanto atacavam Charlie, Gabriel e Dante, com bicadas e arranhões de suas enormes garras letais, sobrevoando suas cabeças, enquanto os três gritavam de dor e imploravam para que elas parassem. A parte mais estranha nessa história toda é que parecia que os pássaros, de alguma forma, estavam protegendo Bell e eu.

Foi uma cena engraçada de se ver no início até quando os seguranças do zoológico vieram socorrê-los e afastarem os pássaros deles, os três estavam com sérios ferimentos graves e tiveram que pegar uma ambulância para o hospital mais próximo. Essa foi mais uma situação bizarra e totalmente esquisita em que Bell e eu também estávamos envolvidos.

Não sei bem como o porquê de recordar-me desse acontecimento, mas comecei a me perguntar seriamente se tudo de estranho ou até mesmo as confusões que Bell e eu estávamos envolvidos, se tudo o que nos aconteceu tivesse ligação com o que tinha ouvido na Gray Scott e com o ataque de Pansy. Senti um frio na barriga só de pensar por um instante que Bell e eu poderíamos ser “especiais” ou “importantes” ou “valiosos”, porque já havia assistidos filmes e seriados o suficiente, para saber que possuir essas três características é um sinal nada bom. Pois coisas ruins aconteciam com pessoas assim. Sempre aconteciam!

Óbvio, que não quero ser o novo Peter Parker ou Shazam, não quero responsabilidades, muito menos ser agraciada com um alvo nas costas e tampouco ser perseguida e quase devorada por um lobisomem. Quero só ter uma vida normal, frequentar uma escola normal, fazer uma faculdade e ser jogadora de hóquei! Será que é pedir muito?!

Tudo bem acho que estou sendo um pouco exagerada e dramática com esses fatos, afinal posso só estar pilhada de muita informação descoberta em menos de 48 horas, como o fato de que lobisomens são reais e quase virei jantar de um — a propósito —, minha mãe estar me escondendo coisas e o fato de deusas mitológicas e fantasiosas como Hera, Perséfone e Deméter estarem envolvidas nisso, juntamente com Nico e Grover. Talvez exista alguma explicação plausível, não?

Quero dizer, até porque é muito normal sua supervisora insuportável virar um cachorro bípede e querer jantar você... Afinal quem nunca já passou por isso, não é mesmo? É uma coisa tão cotidiana e comum...

Esfreguei minhas mãos no meu rosto e puxei levemente a raiz do meu cabelo, batendo o pé fortemente contra a madeira da arquibancada, sem saber o que fazer com o que havia acabado de descobrir, até porque não havia muito, o que se fazer, a não ser, me internar em um hospício. O que de fato, não estava me parecendo uma ideia de todo ruim...

Quando virei minha cabeça para meu lado esquerdo, vi duas figuras familiares bem ao fundo do ginásio, claro que poderia estar enganada, mas dessa vez estava usando meus óculos, podia e era capaz de ver tudo com mais clareza e nitidez possível. Prendi minha respiração por um momento, até começar me sentir irritada ao constar que Nico e Grover estavam bem ali mesmo, aparentemente seguindo e vigiando Bell e eu. Os dois pareciam que não haviam me visto; o que era um ponto ao meu favor.

Se eu queria respostas, parece que as teria agora.

 

 

***

 

 

— O que vocês dois estão fazendo aqui?! — Bell gritou furioso para Nico e Grover, quando os encurralamos no beco ao sair pela porta dos fundos, que bateu bruscamente ao se fechar sozinha. — Estão nos seguindo?!

Depois que havia avistado os dois, dentro do ginásio do ringue de patinação, chamei Molly e Bell discretamente e contei para eles sobre Nico e Grover estarem aqui. Óbvio que no início eles não acreditaram em mim, até que apontei para os dois no fundo do ginásio, o que os fez perceber que nós três, haviam os visto e assim Nico e Grover saíram pela porta dos fundos do ginásio que dava para um beco e nós o seguimos em busca de resposta.

Confesso que quando atravessei a porta, fiquei temorosa com o fato de que talvez eles tivessem evaporado nas sombras ou desaparecidos tipo “abracadabra”, mas felizmente eles ainda estavam ali. Os dois nos olharam surpresos quando a porta se fechou atrás de nós três.

— Eu sabia que tinha algo muito errado com vocês dois! — Molly os acusou. — Porque estão nos seguindo?

— Quem disse que estávamos seguindo vocês? — Nico rebateu se fazendo de ofendido.

Boa tentativa, cópia mal feita de Conde Drácula. — Molly cruzou os braços. — Mas nenhum de nós compra essa.

O celular de Bell começou a tocar insistentemente e rapidamente enfiei minha mão dentro do bolso de trás do seu jeans, retirando o aparelho, vendo quem estava ligando. Era nossa mãe, mas não estava com cabeça e sequer era o momento de falar com ela, Nico e Grover eram minhas únicas esperanças de conseguir respostas e por isso recusei a chamada, enfiando o celular no bolso do meu jeans, recebendo um olhar significativo de Bell.

— Sabe que poderíamos chamar a polícia para vocês, não sabem?! — Disse.

Grover arregalou os olhos e ficou preocupado.

— Audrey! Molly! Beowulf! Que coincidência encontrar vocês aqui! — Ele exclamou coçando sua barbicha nervosamente. — Então... É... Sabiam que o Nico aqui, é um grande fã de patinação do gelo? — Ele deu alguns tapinhas fortes nas costas do Di Ângelo, que em resposta revirou os olhos.

Os encarei arqueando a sobrancelha, sem acreditar que Grover realmente estava dando uma desculpa esfarrapada qualquer e sinto que Molly e Bell também perceberam isso.

— Esquece Grover, eles não vão cair nesse seu teatro... — Nico disse.

O Underwood o encarou irritado.

— Está insinuando que não sou um bom artista?!

— Não. Estou insinuando que você é um péssimo artista!

Antes que eles começassem a discutir entre eles, me pronunciei:

— Já chega! Ou vocês nos contam a verdade, ou vou ligar para a polícia!

Nico me olhou cinicamente com uma mistura de desafio:

— Você não vai fazer isso...

— Não vou? — Questionei incrédula. — Paga para ver então! — O desafiei.

— Não vai, porque se você fizer isso não vai ter mais ninguém para proteger vocês de lobisomens e outros monstros...

Arregalei os olhos, enquanto ouvia Bell rir com escarnio atrás de mim.

— Lobisomem, monstros?! Que tipo de droga vocês usaram?!

— Foi mesmo real, não foi? Não estava alucinando, não é? — Encarei Grover e Nico em busca de resposta. Tanto eles quanto eu sabiam que estava me referindo a Pansy e ao fato dela ser um lobisomem.

— Sinto muito pelo o que aconteceu com sua perna... É culpa minha deveria ter te protegido... — Grover lamentou-se desviando o olhar para baixo. — Infelizmente tudo foi real, Latona...

— Mas você já sabia disso não é? — Nico se pronunciou. — Afinal estava escondida atrás da porta ouvindo nossa conversa com sua mãe.

— Nossa mãe?! — Bell elevou a voz confuso e depois olhou para mim. — Audrey, o que está acontecendo?! O que esses malucos estão falando?!

Desviei meu olhar para o chão sem coragem para encarar meu irmão e dizer o que estava acontecendo, pois tudo ainda soava muito absurdo e fantasioso para se dizer em voz alta.

— Não podemos dizer muita coisa, pois podem estar nos observando, mas vocês três precisam confiar em nós! — Grover olhou agitado para ambos os lados. — A questão é que vocês não estão seguros e precisam vir conosco, vamos leva-los para um lugar seguro...

— Um acampamento... — Murmurei vagamente me lembrando do que Grover havia me dito, antes de apagar no chão do corredor.

— Calma lá! — Molly se pronunciou. — Não vamos a lugar nenhum com vocês! Sequer os conhecemos! — Apontou o dedo. — Vocês poderiam muito bem fazer parte de uma sociedade secreta que rapta e traficam pessoas para o oriente!

— Estamos dando uma chance para vocês se explicarem, o porquê nos seguiram de Alexandria até aqui no Queens em Nova York! — Bell disse entredentes. — É melhor falarem algo realmente real e não fantasioso, já estou perdendo a paciência! — Por um momento, era como se a temperatura ao nosso redor começasse a diminuir consideravelmente, como se estivéssemos presos em um freezer e não em plena primavera em Nova York.

Não era um frio comum, como se estivéssemos no inverno, era um tipo de frio, que você sentia quando sabe que quase fez algo que quase pode ter te matado, como atravessar a rua sem olhar e um carro passar em alta velocidade próximo a você, ou quando você é salvo por alguém de morrer afogado ou quando você passa próximo a uma aranha venenosa e por sorte ela não te pica. Esse era o tipo de frio que estava sentindo naquele instante.

Pela primeira vez em todos meus anos de vida, nunca havia sentido tanto medo do meu irmão, como estava sentindo agora. Era como se o Bell que conhecesse a vida toda tivesse desaparecido para dar lugar a esse cara que estava na minha frente, que parecia ser meu irmão fisicamente, mas sentia que de fato, não era.

— O que minha irmã e minha mãe tem haver com isso? — A voz de Beowulf mudou e se tornou totalmente maligna e sombria. Vi um tom obscuro tomar conta dos olhos do meu irmão, tornando seu olhar sombrio e assustador.

Senti um frio na espinha por ver esse tipo de olhar pela primeira vez no rosto do meu gêmeo. Pelo jeito não fui a única a ficar temerosa com essa reação: Grover arregalou os olhos surpresos e Molly não sabia o que fazer, assim como eu. O único ali que ainda estava normal, sem nenhuma mudança de expressão era Nico. O chão abaixo dos meus pés tremeu por um instante e senti meu coração saltitar, ao pensar que um terremoto poderia estar prestes acontecer.

O que era quase impossível, todos sabem que a costa leste dos Estados Unidos não tem terremotos, essa é uma característica exclusiva do oeste do país.

— É melhor ficar calmo Beowulf, não gostaria que nossa primeira briga de irmãos fosse num beco fedorento e sujo.

Bell parecia ter despertado de algum transe, ele piscou várias vezes atônico, instantaneamente o chão parou de tremer, o frio repentino havia se dissipado e seus olhos perderam a escuridão arrepiante, que antes tinha. Deixando-me um pouco aliviada, pois agora realmente estava vendo e reconhecendo meu Beowulf. Mas, a tranquilidade durou pouco, pois as palavras de Nico me deixaram desnorteada.

— Irmãos?! — Questionou unindo as sobrancelhas

— Irmãos?! — Repeti. — Que merda você está falando?! — Trinquei os dentes.

Impossível àquele cara ser irmão do Bell, pois isso significaria que ele também era meu irmão. O que realmente seria bizarro, porque ele não se parecia nada comigo, mas em comparação a Beowulf...

Meu coração apertou e prendi o ar.

Estava prestes a dizer mais algumas coisas que estavam presas na minha garganta, porém fui interrompida pelo ruído estridente de um zumbido. O celular de Bell estava tocando mais uma vez e vibrava constantemente no bolso do meu jeans.

— Atende logo a porcaria desse celular, Latona! — Bell disse para mim, impaciente, obviamente assim como eu querer entender o que o Di Ângelo estava dizendo.

Bufei furiosamente pelo tom que Bell usou contra mim e passei o dedo pela tela do celular, atendendo a ligação. Não sabia o porquê minha mãe estava tão desesperada ao ponto de ligar repetidas vezes, mas talvez fosse melhor atender logo de uma vez, para depois arrancar informações de Nico e Grover. Coloquei o celular na orelha e me virei de costa para todos, enquanto revirava os olhos.

— Mãe?

— Latona! — Respirou aliviada. — Ainda bem que atendeu... — Senti meu estômago revirar e uma pontada forte no peito, ela parecia totalmente desesperada e abalada. — Escute...

— Mãe está tudo bem, Bell, Molly e eu apenas acabamos de fazer alguns amigos novos e logo estamos voltando para casa...

Não! — Ela gritou horrorizada do outro da linha. — Não venham para casa, está bem?! Não é seguro! Elas me acharam, aqui não é seguro... — Um barulho no fundo a interrompeu: era um som de várias coisas caindo, quebrando em pedacinhos, algo pesado caindo sob o chão.

— Mãe?! — Gritei. — Mãe, você está bem?! Que barulhos são esses?!

Outro ruído alto veio do telefone e escutei várias vozes altas, ameaçadoras e femininas, em meio toda aquela barulheira.

— Latona... Escute! Nicholas e Grover estão com vocês?!

Arregalei os olhos e me virei para encarar os dois, perplexa, o olhar dos dois para mim, ainda era indecifrável, mas ainda sim significativo. Não sabia se deveria dizer a verdade ou não, mas por puro impulso e por não saber o que fazer disse:

— Sim, estamos com eles...

Minha mãe soltou um suspiro aliviado do outro lado da linha.

— Ótimo! Confiem neles, Latona, todos vocês! Eles vão levar vocês para um lugar seguro, um lugar que deveria ter deixado levarem vocês quando tinham treze anos... Vá com eles, Latona! Elas me encontraram... Pensei que teria mais tempo com seu irmão, você e minha neta, Molly, mas estava errada... — Suas palavras foram sufocadas por um barulho muito mais alto e ensurdecedor do que os outros, como se uma grande explosão houvesse acontecido dentro da nossa casa.

— Mãe o que está acontecendo?! Quem encontrou você?! E porque está dizendo isso da Molly?! Mãe... Mamãe! — A chamei desesperada sentindo um aperto forte no peito.

Então outro barulho surgiu; diferente dos outros esse parecia bem mais agressivo do que os outros, se assemelhava com uma batida, um arrastado, seguido por uma grande estrondo e outros pequenos barulhos sucedidos. Ouvi minha mãe respirar fundo do outro lado da linha, antes de sussurrar baixo:

— Espero que me perdoem por tudo... Eu amo vocês, todos vocês...

Após dizer essas coisas, o telefone ficou mundo e perdi todo o ar de meus pulmões.

Mãe! — Gritei ao telefone recebendo um olhar preocupado de Bell e todos ali. — Ainda está aí?! — Questionei agitada e afastei o celular da minha orelha e vi as palavras escritas em negrito: CHAMADA ENCERRADA, enquanto a foto da nossa mãe no fundo aparecia. Ao olhar para foto, me senti péssima e foi nesse instante em que perdi meu chão e olhei diretamente para Bell e Molly. — Precisamos ir para casa, agora!

 


Notas Finais


E aí o que acharam?
Não se esqueçam de favoritar e dizerem o que acharam nos comentários ;)
Beijos e até o próximo capítulo.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...