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História The sun will be rising soon (FRERARD) - Capítulo 6


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Capítulo 6 - You surrender your heart, I surrender every dream


Fazia cerca de dez minutos que Gerard estava parado em frente ao espelho do seu quarto encarando um par de olhos verdes repletos de olheiras e que pareciam estar à beira de um colapso nervoso. 

Ele não dormiu direito na noite anterior, após falar com Mikey no telefone. E no dia seguinte, quando chegou no trabalho, não conseguiu fazer muita coisa além de alguns rabiscos sem sentido que logo foram parar no lixo. Com tudo aquilo acontecendo tão de repente, Gerard sabia que era ele quem não estava fazendo muito sentido, e a cada segundo tinha mais certeza daquilo.

O dia na editora passou devagar, lhe dando bastante tempo para pensar no que aconteceria naquela noite - e também para criar uma úlcera gástrica pela ansiedade. Ele contou para Bert sobre a ligação de Mikey, esperando que seu amigo dissesse algo que o ajudasse a desfazer aquele nó em seu estômago, mas tudo que ouviu foi: "Você tem um encontro, Way. Não desperdice-o. E por favor, não vá com aquele tênis velho. Ele tem idade pra ser seu avô."

Gerard desviou a atenção do seu reflexo caótico no espelho e olhou para seus pés. Seu all star preto parecia sorrir para ele, lhe dando um pouco de coragem para encarar o par de olhos cor de avelã que lhe esperavam.

Bom, na verdade, haveriam outros olhos também, incluindo os do seu irmão. Gerard sabia que aquilo não era realmente um encontro nem nada do tipo, e que não precisava ficar tão nervoso como estava… Mas a simples ideia de ver Frank, mesmo que tocando de longe com a banda, fazia aquela sua úlcera crescer um pouco mais. Talvez ela acabasse virando um buraco negro e o engolisse naquela noite, antes que ele pudesse ter a chance de olhar para Frank outra vez… 

Seu celular vibrou em seu bolso, arrancando-o daqueles pensamentos sobre úlceras e buracos negros. Era Mikey avisando que estava lhe esperando lá em baixo. Estava na hora de ir.  

Gerard respirou fundo algumas vezes e, sem olhar novamente para o espelho, foi até seu irmão, sentindo as batidas irregulares do seu coração ecoando em seus ouvidos a cada passo que ele dava.

#

O estúdio onde eles ensaiavam ficava a mais ou menos 20 minutos do apartamento de Gerard. Como sempre, Mikey falou durante todo o caminho até lá, contando sobre como estavam as coisas depois do show no Red's. Eles haviam recebido uma ligação de uma agência local, e talvez fariam uma nova apresentação no final daquela semana, em um clube ainda mais conhecido chamado Half Moon. Não havia nada garantido, mas segundo Mikey, "aquela merda iria rolar, e iria ser foda."

Ele não disse nada sobre Frank e nem sobre aquele convite que ele fizera, e Gerard quase suspirou de alívio por isso. Ele não saberia explicar porque nunca foi em um ensaio quando seu irmão convidava, mas estava indo naquele com apenas um único pedido de alguém que ele nem conhecia direito. Gerard não saberia responder as perguntas de Mikey, porque até aquele momento, não havia conseguido responder nem mesmo as suas… 

Eles chegaram até o estúdio, que era uma pequena construção quase escondida em meio às árvores que contornavam a rua, e Mikey parou o carro ali por perto. Enquanto caminhavam até o portão, Gerard pôde ouvir uma música baixinha vinda de algum lugar atrás daquelas paredes. Ele não conhecia a letra, mas a voz que dava vida à ela já havia se tornado tão familiar que, às vezes, ele quase podia acreditar que seria capaz de reconhecê-la em uma multidão - e isso era o bastante para deixá-lo completamente assustado.

Mikey entrou no local, e seu irmão o seguiu até a última porta de um dos vários corredores que haviam ali dentro. Ele a abriu, e a primeira coisa que os olhos de Gerard alcançaram foi Frank sentado em um sofá segurando um caderno em suas mãos. A canção que ele estava lendo fluía de uma forma tão natural por seus lábios, e a pequena ruga que havia entre seus olhos mostrava que ele estava concentrado na letra. Ele só parou de cantar quando viu Mikey indo em sua direção para cumprimentá-lo, e então aquela dobrinha em sua testa se desfez quando ele se levantou para lhe dar um abraço rápido.

Aquela era a terceira vez que Gerard olhava para ele. E, assim como nas outras duas, seu coração errou algumas batidas, e precisou de um tempo para voltar ao normal. Enquanto esperava que isso acontecesse, Gerard deixou que seus olhos se perdessem em cada detalhe de Frank. Ele usava uma calça jeans rasgada nos joelhos e uma camisa preta que deixava visível uma grande parte das tatuagens que cobriam seus braços, e seu cabelo caía de uma forma bagunçada por seu rosto. 

Naquele instante, o único pensamento que passou pela cabeça de Gerard foi de que Frank era simplesmente bonito pra caralho. Ele já havia percebido antes, mas agora, aquela informação pareceu gritar em sua mente com letras gigantes e cores fluorescentes.

Gerard só percebeu que ainda estava parado na porta quando Frank olhou para ele e abriu um sorriso largo, fazendo um gesto para que ele entrasse. 

Os pés de Gerard pareciam ter se congelado onde estavam, mas ele conseguiu fazer com que eles se movessem e o levassem até Frank. Durante o curto caminho, ele colocou suas mãos nos bolsos da jaqueta, porque não sabia o que fazer com elas naquele momento. 

- Oi… - Gerard disse baixo, sem confiar na própria voz.

Aquele sorriso ainda estava nos lábios de Frank. Ele levou uma das mãos até os cabelos, afastando alguns fios que caíram em seus olhos, e a outra ainda segurava o pequeno caderno com suas músicas. Por um instante, pareceu que Frank também estava confuso sobre o que fazer com suas mãos agora. 

- Que bom que você veio… - A voz dele também soou baixa, quase um sussurro. Seus olhos cor de avelã se fixaram nos de Gerard, e permaneceram ali por um tempo que pareceu longo demais. Poderiam ter sido apenas alguns segundos, mas pareceu toda uma vida. Frank só percebeu que ainda estava olhando-o quando a voz de Mikey atravessou o pequeno estúdio, chamando-o para começarem a tocar. Ele suspirou, e então colocou o caderno na mesa de vidro ao seu lado. - A gente se fala quando acabar o ensaio? 

Gerard assentiu levemente, ainda sem confiar nas próprias palavras, e viu o sorriso de Frank se tornar um pouco maior. Foi então que ele percebeu que estava sorrindo também. 

Frank se colocou à frente do palco improvisado, e conectou sua guitarra ao amplificador. Mikey já havia ido para seu lugar, e testava o som do seu baixo enquanto Bob tocava algumas notas simples na bateria. 

Gerard sentou-se sobre uma das pernas no sofá, girando o corpo para ficar de frente para os três, e esperou que eles começassem. Seu celular vibrou algumas vezes, e antes mesmo de pegá-lo, ele soube que era Bert querendo saber como estava o "encontro". Gerard respondeu rapidamente, dizendo que aquilo não era a porra de um encontro, e que sim, ele estava com seu all star velho. Ele guardou o celular a tempo de ouvir a primeira frase na voz de Frank, e então sua atenção se voltou completamente para ele.

Eles começaram com aquela música que Gerard conhecia - a única que ele conhecia, na verdade. Ele agora sabia que ela se chamava "Welcome to the black parade", e essa pequena descoberta fez com que ele não se sentisse um completo estranho ali dentro. Ele até mesmo cantou baixinho algumas partes, deixando que a letra e o som dos instrumentos se espalhassem por seu corpo… Mas, apesar disso, o que realmente o fez sentir como parte daquilo tudo foi Frank. 

Durante todo o tempo, ele manteve o olhar voltado para Gerard, como se não houvesse mais ninguém ali e cada música que ele cantava fosse para aquele cara sentado há poucos metros de distância. Tudo bem que a maioria das letras falava sobre mortes e tragédias, mas isso não era importante. Para Gerard, a única coisa que importava era aquele par de olhos cor de avelã lhe dizendo tudo que ele precisava saber.

Não havia tantas perguntas agora. E, mesmo se houvesse, ele já sabia as respostas. Todas elas estavam escritas naquele olhar de Frank. 

#

Gerard mal percebeu o tempo passando. Ele só se deu conta de que o ensaio havia terminado quando Bob despediu-se de Mikey e Frank, dizendo que precisava resolver algumas coisas antes de ir para casa, e depois acenou rapidamente em sua direção enquanto ia até a saída. Seu irmão permaneceu lá em cima por alguns minutos, afinando seu baixo pela milésima vez, e por um momento, pareceu que Frank iria fazer o mesmo com sua guitarra. Mas ele apenas a colocou na parede atrás dos dois, e caminhou com passos alegres até Gerard. 

Frank jogou-se ao lado dele no pequeno sofá, e Gerard quase pôde sentir o calor que emanava do seu corpo. Suas bochechas estavam levemente vermelhas e sua respiração um pouco mais rápida que o normal, e o sorriso que parecia nunca deixar seus lábios estava diferente. Mais vivo, talvez… Frank fechou os olhos por um breve instante, e quando os abriu novamente, Gerard imaginou que todas as coisas boas do mundo estavam concentradas naqueles dois pontinhos cor de avelã. 

- Você sempre fica feliz assim depois de cantar? - Ele perguntou, sorrindo também, como se a alegria de Frank fosse uma nuvem capaz de envolvê-lo dentro dela.

- Sim… Algumas vezes mais do que outras, eu acho. E hoje eu estou feliz pra caralho.

Gerard pensou em perguntar porque, mas antes que pudesse formular qualquer frase, os dedos coloridos de Frank pousaram sobre os seus. E ali, naquele pequeno gesto, estava a resposta da pergunta que Gerard não fez. Ele só não sabia como processá-la agora… 

Em alguma parte da sua mente, talvez na única parte que ainda era capaz de pensar com clareza, Gerard viu quando Mikey guardou seu baixo e foi até os dois. Ele puxou sua mão que estava sob a de Frank, como se tivesse levado um choque, mas Mikey não parecia estar prestando atenção ao que acontecia ali.

- Porra, eu faria qualquer coisa por uma cerveja agora - ele disse, sentando-se no pequeno espaço que sobrava no sofá, fazendo Gerard e Frank ficarem um pouco mais próximos. - Quem está a fim?

Frank olhou para o relógio na parede à sua frente, vendo os ponteiros marcarem 21:15.

- O Joe já está aberto. A gente podia ir até lá... - Ele virou-se para Gerard outra vez, e então abriu um daqueles seus sorrisos que poderiam convencer qualquer um a fazer qualquer coisa que ele pedisse. - Vamos, Gerard?

Naquele momento, Gerard percebeu que gostava de ouvir como seu nome soava na voz de Frank. Talvez ele tenha se distraído com isso, pois nem viu quando as palavras seguintes saíram por sua boca:

- Sim… Vamos… 

Mikey provavelmente disse alguma coisa, mas Gerard não ouviu uma única palavra sequer. Ele ainda estava ocupado prestando atenção no sorriso de Frank, que estava há apenas alguns centímetros de si. Seria tão fácil esticar os dedos, tocar o rosto dele, e então sentir aquele sorriso em suas mãos… Ele poderia fazer isso, não poderia? Frank parecia querer que ele fizesse isso… 

Gerard foi arrancado daqueles pensamentos quando sentiu os braços de Mikey em volta do seu corpo, fazendo-o se levantar, e nunca quis tanto arrancar aquela cabeça loira como agora. Frank se levantou também, ainda sorrindo, e foi com os dois até a porta. 

#

O bar do Joe ficava logo na esquina do estúdio. Durante o curto caminho até lá, os três falaram sobre o possível show no final daquela semana. É claro que Frank convidou Gerard, mesmo sem ter certeza se o show aconteceria realmente, e ele nem mesmo pensou antes de dizer que iria. Mikey não falou nada, apenas riu consigo mesmo. Ele estava começando a perceber alguma coisa diferente em seu irmão, e ficaria feliz em não atrapalhar o que quer que estivesse acontecendo entre ele e Frank. 

Eles entraram e escolheram uma das mesas que ficavam no fundo do bar, onde a música que estava tocando quase não podia ser ouvida. Havia poucas pessoas ali, talvez por ser uma terça feira, e por isso logo que os três se sentaram uma moça com um sorriso educado veio atendê-los. Eles pediram suas cervejas, e enquanto ela foi buscá-las, eles conversaram sobre aquelas coisas aleatórias que as pessoas conversam em bares. 

Eles não falaram apenas da banda, mas quando este era o assunto, Gerard não se sentiu tão por fora quanto ele imaginava que iria se sentir. Ele sabia que a My Chemical Romance era um grupo de rock que se formou há quase dois anos quando seu irmão, Brendon e Bob tocaram a primeira música escondidos no porão da casa dos Way, enquanto todos comemoravam um feriado qualquer lá em cima, e que estava na estrada desde então. Muita coisa havia mudado - como a saída de Brendon, - mas o amor que Mikey tinha pelo que estava fazendo ainda era o mesmo. 

Enquanto falava, Frank se inclinava ligeiramente sobre a mesa, e isso fazia com que ele ficasse um pouco mais perto de Gerard. Apesar da sua mente estar uma bagunça, o corpo de Gerard estava completamente ciente daquela proximidade, e respondia à ela. Ele também se aproximava cada vez mais de Frank a cada olhar que ele lançava em sua direção.

Quando as bebidas chegaram, os três já se sentiam tão alegres e tão próximos que nem precisariam delas para continuar aquela noite. Mas eles não iriam dispensar um pouco de álcool, então aquelas garrafas logo acabaram e foram sendo substituídas por novas. 

Gerard parecia ser o mais racional ali, lembrando aos dois que eles estavam dirigindo e que deveriam ir devagar com aquelas cervejas. Frank disse que o jeito com que ele se preocupava era bonitinho, e mais alguns centímetros deixaram de existir entre os dois.

Em algum momento da conversa, Mikey sentiu seu celular vibrar no bolso da sua calça, e quando o pegou, assustou-se ao perceber que já era quase meia noite. Ele desviou os olhos do relógio, vendo que tinha uma nova notificação de mensagem. Era Bob, dizendo que estava voltando para o estúdio. 

- O que foi? - Gerard perguntou, vendo seu irmão encarar a tela do celular enquanto digitava alguma coisa.

- Bob esqueceu as chaves de casa no estúdio. Vou até lá abrir pra ele pegar - ele disse, e então conferiu novamente as horas antes de guardar seu celular no bolso. - Depois acho que já vou pra casa também… Eu estou fodidamente morto. Eu passo aqui na volta pra te buscar, ok? - Ele disse ao irmão.

- Não se preocupe, Mikey. Eu pego um táxi. 

- Tem certeza?

- É claro… Pode ir descansar.

Mikey bebeu o restante da sua cerveja, deixando a garrafa na mesa à sua frente.

- Tudo bem, então. Só não encha a cara antes de ir - ele disse, fazendo Frank rir e Gerard revirar os olhos. 

- Eu sou o irmão mais velho, lembra? E não sou eu que estou dirigindo, então vê se toma cuidado na rua.

Mikey fingiu ignorar aquele conselho, revirando os olhos da mesma forma que Gerard sempre fazia. Ele então despediu-se dos dois, e foi até o estúdio. 

Um breve silêncio se formou naquela mesa depois que ele saiu, sendo interrompido apenas pela música baixa que tocava em algum lugar por ali. Gerard sentia sua cabeça um pouco leve, fazendo com que a letra que chegava até seus ouvidos não passasse de palavras desconexas. O álcool que corria por suas veias fazia com que qualquer pensamento escapasse dela, e por isso ele pôde se concentrar totalmente no fato de que estava sozinho com Frank.

Talvez aquilo tenha realmente se tornado um encontro, afinal… Aquela possibilidade deixou Gerard ligeiramente nervoso, mas ao mesmo tempo, fez com que um sorriso quase imperceptível se formasse em seus lábios. 

Ele não levantou os olhos para encarar Frank ao seu lado, e em vez disso, pareceu prestar atenção na garrafa de cerveja vazia em suas mãos. Mas, ainda assim, ele soube que ele estava observando-o. Gerard podia sentir o olhar dele queimando em sua pele, e gostou daquela sensação. 

Frank se inclinou um pouco mais sobre a mesa, e deixou que seus dedos tocassem os de Gerard distraidamente enquanto pegava a garrafa das mãos dele e a substituía por uma nova. O toque em sua pele fez com que Gerard finalmente permitisse que seus olhos se voltassem para os dele, encontrando aquele mundo cor de avelã bem próximo do seu rosto. E, de repente, aquele calor que eles emanavam alcançou o álcool dentro de si, e Gerard se viu consumido pelo fogo. Ele estava em chamas, e estava bem. 

- Eu não sei se você sabe, mas… aquele cara que derrubou suas coisas na porta da editora semana passada era eu - Frank disse baixo, com o rosto ainda próximo ao seu, como se estivesse confessando algo de errado que havia feito. 

Gerard riu. A lembrança daquela noite, e de tudo que aconteceu depois dela, ainda estava clara em sua mente. 

- Eu sei, Frank… 

- Como? - Ele perguntou. - Você nem mesmo olhou pra mim… 

Gerard deu de ombros, e bebeu um pouco da sua cerveja. 

- Eu reconheci sua voz no show. E, bom, seus dedos coloridos também… - Agora era a vez de Gerard falar baixo, quase como se compartilhasse um segredo. - Eu pensei que talvez você não me reconhecesse se me encontrasse de novo.

- Eu não acho que isso poderia acontecer… - Frank sorriu, e mais alguns centímetros sumiram entre os dois.

Gerard sentiu sua garganta secar de repente. As chamas criadas por Frank pareciam envolvê-lo completamente agora, sufocando-o de um jeito bom.

- Por que não? - Ele ouviu-se dizendo, e mal reconheceu a própria voz.

Frank abriu a boca para responder, mas antes que as palavras viessem, uma garota parou timidamente diante da mesa deles, fazendo os dois se afastarem. As chamas diminuíram, e Gerard sentiu-se frio sem elas.

- Com licença… Você é Frank Iero, não é? - A garota perguntou. - Eu vi sua banda tocando semana passada no Red's. Você pode me dar um autógrafo?

Frank sorriu para ela, apesar de parecer ligeiramente surpreso com aquilo.

- É claro… 

Após perguntar o nome da garota e ouvi-la dizer um "Helena" entre sorrisos, ele pegou a folha e a caneta que ela segurava e escreveu: "Para Helena. Este pedaço de papel vai valer bem mais se/quando eu for uma estrela do Rock. Com carinho, Frank Iero."

Ela agradeceu e, ainda sorrindo, se despediu dos dois, voltando para sua mesa. Quando eles estavam sozinhos outra vez, Frank se permitiu rir da situação. 

- Certo, isso foi estranho - ele disse, e Gerard riu também. 

- Sério? Aposto que você deve lidar muito com esse tipo de coisa - ele deixou escapar, mas logo completou: - Digo, você e os caras da banda… As garotas devem ficar correndo atrás de vocês o tempo todo.

Frank ficou sério de repente, e pareceu pensar sobre aquilo. 

- Nem tanto… E, pra falar a verdade, isso não tem importância pra mim. É claro que é muito bom quando alguém te reconhece e elogia o seu trabalho, mas a parte das "garotas correndo" eu fico feliz em deixar para Mikey e Bob.

"E quanto aos garotos?" - Gerard pensou em perguntar, mas a frase não chegou até seus lábios e morreu em seus pensamentos. O estranho é que, por um breve instante, pareceu que Frank esperava que ele fizesse mesmo aquela pergunta. 

Nenhum dos dois disse nada por um longo tempo, cada um concentrado em suas perguntas não feitas e respostas não conhecidas. Frank desviou os olhos para a garrafa em suas mãos, encarando-a antes de levá-la até os lábios. Ele bebeu em silêncio, e então olhou outra vez para Gerard, que mantinha seu olhar pensativo voltado para ele.

- Então… Você trabalha naquela editora? - Frank perguntou, quebrando aquele silêncio.

Gerard piscou algumas vezes, como se não esperasse por aquela pergunta.

- Sim… Eu desenho histórias em quadrinhos.

- Porra, isso é incrível! - Frank disse, e então o sorriso estava de volta em seu rosto. - Você pode me mostrar uma delas algum dia? Eu prometo que não vou derrubá-las de novo.

- É claro… -     Gerard riu, e suas próximas palavras vieram sem que ele pensasse nelas antes que elas saíssem apressadas por sua boca. - Você também poderia me mostrar algumas das suas músicas… algum dia… 

Aquela frase pairou no ar entre os dois, silenciando qualquer outro som que pudesse existir por ali. Instantaneamente, Gerard se arrependeu por ter dito aquilo, pois não sabia como Frank interpretaria suas palavras. Merda, nem ele mesmo soube o que quis dizer com aquilo… 

Ele imaginou que Frank fosse desviar os olhos e dizer qualquer coisa educada para mudar de assunto, e por isso se surpreendeu quando ele aproximou o rosto do seu e, com os lábios quase tocando seu ouvido, sussurrou:

- Eu adoraria cantar algumas delas pra você… 

Frank se manteve ali por alguns segundos, e aquele tempo foi suficiente para que uma corrente elétrica percorresse o corpo de Gerard. Ele não soube o que aquelas palavras que acabou de ouvir significavam, mas não se importou. Gerard fechou os olhos, e não pensou em nada. Ele não queria pensar. Frank estava ali, tão perto dele, que ele poderia esticar os dedos e tocá-lo… Essa era a única coisa que importava agora, e as outras poderiam esperar.

Ele sentiu sua mão se erguendo, indo de encontro ao rosto dele, mas ela parou na metade do caminho quando uma voz baixinha gritou em sua cabeça. Era sua parte racional, lhe perguntando que merda estava acontecendo ali.

O que ele estava fazendo? Porra, ele nem mesmo sabia se Frank era gay! Ele poderia estar apenas sendo amigável, nada mais… Pensar nessa possibilidade foi como levar um soco no estômago, e Gerard sentiu sua mão voltando ao seu lugar. 

Com um suspiro frustrado, ele se afastou, encostando-se na cadeira e desejando que aquele buraco negro se abrisse bem ali na sua frente agora. Gerard voltou seus olhos para os de Frank, tentando encontrar alguma coisa ali dentro que lhe ajudasse a descobrir um pouco mais sobre quem ele realmente era, mas naquele momento os olhos dele eram como duas janelas fechadas que ainda não poderiam ser abertas. 

Frank riu baixo, mas dessa vez, o sorriso não alcançou seus olhos. Ele também se afastou, voltando ao lugar em que estava poucos segundos atrás. A moça que estava atendendo-os naquela noite se aproximou, e foi isso que impediu que um silêncio desconfortável se formasse naquela mesa.

- Vocês querem mais alguma coisa? - Ela perguntou com sua voz educada, mas seu rosto cansado demonstrava o quanto se esforçou para mantê-la assim.

- Na verdade, eu acho que já vou pra casa… - Gerard disse, olhando rapidamente para a tela do seu celular. - Tenho que acordar cedo amanhã.

Frank assentiu, e pediu que ela trouxesse a conta. Eles pagaram por suas bebidas, e então foram juntos até a saída. 

Lá fora, a lua cheia já caminhava para o lado oeste do céu, e algumas estrelas brilhavam próximas a ela. Gerard pegou novamente o celular em seu bolso, mas antes que ele pudesse digitar qualquer coisa, os dedos tatuados de Frank bloquearam a tela.

- Eu vou te levar até em casa. Vai ser o meu jeito de agradecer por você ter vindo no nosso ensaio hoje.

- Eu posso pedir um táxi, Frank. Não precisa se preocupar com isso… 

Frank balançou a cabeça, colocando-se à frente de Gerard e erguendo uma das sobrancelhas.

- Eu vou me preocupar se você não for comigo. A gente nunca sabe o que se passa na cabeça desses taxistas… 

Gerard riu. A voz de Frank soou séria, o que contrastava de uma forma bonita com o brilho divertido que seus olhos ganharam.

- E como eu vou saber o que se passa na sua cabeça? - As palavras vieram enquanto Gerard se perdia naquele brilho.

- Não é tão difícil descobrir… - Frank disse, olhando fixamente nos olhos de Gerard. E foi como se as janelas finalmente começassem a se abrir. O olhar avelã de Frank era mais brilhante que qualquer coisa que estivesse no céu naquela noite. Havia muita coisa escrita nele, e Gerard poderia ler cada palavra se quisesse. - Agora vamos, ou eu digo pro Mikey que você encheu a cara e eu precisei te carregar. 

Gerard revirou os olhos, porém riu e concordou, percebendo que Frank iria insistir até que ele aceitasse. Ele colocou o celular em seu bolso e seguiu com ele até seu carro, que estava parado há poucos metros dali.

Eles entraram em silêncio, e Gerard imaginou que permaneceriam assim durante todo o caminho, mas logo a voz suave de Frank preencheu o espaço entre eles. Enquanto dirigia, ele falava sobre coisas que Gerard não se importaria em passar o resto daquela noite ouvindo. 

Frank estacionou em frente ao seu prédio, e só então Gerard se deu conta de que havia chegado em casa. Ele agradeceu, e então abriu a porta do carro.

- A gente se vê depois? - Frank perguntou antes que ele saísse.

- A gente se vê depois… - A resposta de Gerard veio automaticamente.

Ele sorriu e desceu do carro, fechando a porta atrás de si. Mas, antes que desse o primeiro passo até a portaria, a voz de Frank atravessou o silêncio que se estendia sobre a rua e chegou até seus ouvidos:

- Ei, hmm, Gerard? Você não me perguntou, mas sim, eu gosto de homens.

E ele simplesmente disse aquilo, como se dissesse "eu gosto de pizza" ou "eu prefiro a cor verde".

Gerard sentiu seu corpo se virando na direção do carro outra vez, e encontrou Frank lhe observando com um olhar um pouco ansioso. Ele esperava que Gerard dissesse alguma coisa, qualquer coisa, que lhe mostrasse o efeito que suas palavras lhe causaram.

- Oh… Frank, eu não… Bem, eu não quis... Me desculpe… - Gerard tentou formular uma frase, mas sua voz parecia não querer colaborar com ele naquele momento. 

- E já que estamos falando de coisas que eu gosto, vou incluir na minha lista essa sua habilidade de se atrapalhar com as palavras quando está nervoso… - Frank disse, sorrindo de forma inocente. - Até mais, Gee. 

Ele não esperou por uma resposta, pois os olhos levemente arregalados de Gerard lhe mostraram que ele não iria conseguir dizer nada. Frank ligou o carro e saiu, e foi só quando ele virou a esquina e desapareceu naquela rua vazia, que Gerard foi capaz de encontrar sua voz novamente.

- Eu não estou nervoso - ele disse para si mesmo, ainda parado em frente ao seu prédio, mas suas palavras trêmulas deixavam claro que aquilo era mentira.



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