História The Truth Untold (Kim Namjoon) - Capítulo 1


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Categorias Bangtan Boys (BTS), Kim Nam-joon / Rap Monster
Personagens Kim Namjoon (RM)
Tags Bangtan Boys (BTS), Kim Namjoon, Rap Monster
Visualizações 22
Palavras 4.154
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Crossover, Literatura Feminina, Musical (Songfic), Shoujo (Romântico)
Avisos: Heterossexualidade
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Sugestõezinhas!
Essa história foi baseada na letra de “The truth untold”, então ler ouvindo a música original ou uma versão em piano pra não atrapalhar a leitura pode ser bem legal, foi assim que eu escrevi. A música tem uma letra muito poética e um arranjo bem carregado de “melancolia”, tudo de bom pra dar um up gostoso na estória - espero.
Na parte final (ANTES/AGORA) pessoalmente aconselho colocar a original de fundo pra aproveitar a música e a letra que espalhei pelo final. Ah, e também escutar um pouquinho até a parte do "...but I still want you" porque essa parte foi tudo pra mim.

Capítulo 1 - And I Still Want You


ANTES

Não deve ser saudável para nenhum ser humano gostar de alguém tanto assim, mas não consigo evitar. Fico observando suas covinhas aparecerem quando ele dá um sorriso tímido ou tenta ser fofo perto dos amigos. Enlouqueço quando ele endurece o maxilar ao se sentir desconfortável durante as aulas; como se torna totalmente vulnerável e desnuda a própria alma quando escreve um texto e lê na classe de literatura ou como em todos os grupos para trabalho dos quais ele faz parte prova ser o líder perfeito. Não consigo evitar colocar cada aspecto da minha vida em função das poucas horas em que divido o mesmo ar que ele.

As aulas práticas de Biologia no jardim do colégio são tanto benção quanto maldição. Sou completamente fascinada por plantas, pela natureza e pelo ambiente romântico que um jardim - ainda que repleto de adolescentes - pode criar. No entanto, ignoro tudo isso assim que Namjoon chega. Sempre que o vejo me esqueço de todo o conteúdo, de como falar e até de como respirar sem que pareça que estou tendo um ataque de asma. Esse é o tipo de influência que esse projeto de homem causa no meu corpinho adolescente. 

Hoje, como sempre, acabo me escondendo num canto do jardim e pego um romance pra ler - o mesmo que estou tentando desde o início do ano letivo. Não consigo evitar, quando leio sobre o sorriso do protagonista penso no sorriso dele, quando leio aquelas declarações de amor pomposas imagino Namjoon dizendo elas para mim. Ainda pior, quando os protagonistas se beijam desejo que fôssemos nós dois. Parece impossível ficar dentro da história quando minha mente quer viajar direto para os braços dele.

Meu cantinho é cheio de flores azuis e os arbustos que cercam o jardim fazem com que todos sejam visíveis para mim, mas não o contrário. Por isso consigo ver quando ele passa, cheira uma flor, endurece o maxilar como costuma fazer e hesita por um momento. Quem dera essa hesitação o trouxesse para perto de mim e pegasse minha mão.  Qual é o seu nome? Você tem algum lugar para ir? Oh, você poderia me dizer? Eu vi você se escondendo neste jardim. Qualquer coisa que ouvisse de Namjoon a qualquer momento quebraria meu coração em mil pedaços só pra colar tudo novamente com as palavras seguintes.

Infelizmente sua hesitação só o faz ir embora assim como minhas esperanças. Por mais que eu aceite que nasci para o romance platônico, ter provas constantes de que estou certa me fazem elaborar cada vez mais teorias e esperanças infundadas. Namjoon é o homem perfeito, só não é pra mim.

 

DEZ ANOS DEPOIS

Meu apartamento é um caos como sempre. Tenho livros em todos os lugares, exceto na estante, provas e exercícios para corrigir em todos os cantos e quarenta minutos para me arrumar e chegar na escola a tempo da sessão de fotos. Acabei me tornando professora efetiva na mesma escola que estudei durante a adolescência e desde então não há um segundo sequer em que eu não esteja lidando com documentações, planos de aula ou projetos que são exigidos em troca do salário rechonchudo que recebo agora, por isso não reclamo de tanto trabalho - para quem foi estagiário e fez tudo isso de graça, ganhar algo em troca é ter vencido uma batalha.

Minha turma de alunos se forma esse ano, então preciso chegar mais cedo para organizar tudo e tentar manter as crianças limpas ou “fotografáveis” para o álbum de formatura e ainda discutir os detalhes com o fotógrafo. Coloco um vestido estampado de flores azuis e uma sandália da cor da minha pele, pego a mochila, minhas três pastas, roupas extras para quando alguma criança se sujar no jardim e saio as pressas para chegar a tempo.

Esse jardim é um dos meus lugares favoritos no mundo, então quando chego paro por um segundo, sinto o cheiro das flores penetrar minha pele e tornar-se parte dela enquanto me preparo para minha pequena maratona. Tem crianças por todos os lados assim como pais desesperados por ir embora. Assim que me veem dão um aceno de cabeça que todos os professores provavelmente recebem alguma vez  na vida e aos poucos somem de vista me deixando com trinta pessoas em miniatura. Começo a reuní-las e tento fazer com que fiquem no mesmo lugar por apenas alguns minutos. Não posso lidar com um fotógrafo atrasado hoje. Assim que penso, tenho a sensação de que alguém está atrás de mim então me viro mais bruscamente do que gostaria de admitir e percebo que no calor do momento fiz o comentário em voz alta.

- Eu não estou atrasado. - Ele levanta uma das sobrancelhas personificando um ponto de interrogação extremamente provocativo e tenho vontade de cavar um buraco no chão e ficar ali pra sempre. Respira, respira, respira.

    Não sei o que fiz na vida passada, mas ou foi bom demais ou ruim o suficiente para uma coisa dessas acontecer comigo. O fotógrafo parece mais um ser pertencente ao Olimpo do que um simples contratado da diretoria. Nos poucos segundos que tenho para organizar o turbilhão de pensamentos na minha mente noto seu moletom amarelo mostarda, seu jeans desbotado, seus óculos redondinhos e seu all star surrado. Tudo isso, a personificação da perfeição em uma só pessoa sendo usada como ferramenta de tortura - muito eficiente por sinal - contra mim. Ainda tenho tempo de observar sua bolsa de couro marrom e a câmera na mão direita pronta para fotografar minhas crianças. As crianças.

    Quando volto ao mundo real todos os meus esforços para deixar tudo certo para fotografar são jogados ladeira abaixo e já não se sabe o que são flores e o que são crianças. Mal tenho a chance de me recompor emocionalmente ou de me lembrar de respirar, mas começo a chamá-las pelo nome e tentar organizar essa bagunça que se prova pior que a do meu apartamento.

- Soobin e Huening Kai, só faltam vocês, dá para descer dessa árvore? Beomgyu, Yeonjun e Taehyun, as flores não são armas!?!- Você ainda gosta de crianças? Acho que uso um tom estridente demais porque olho para o fotógrafo - no qual preferia não pensar muito agora - e ele esboça um sorriso raso exibindo as covinhas que bem me lembro de pensar que deveriam ser ilegais nesse país e, acabo de descobrir, ainda amolecem minhas pernas.

    Assim que os meninos chegam, o fotógrafo se aproxima e começo a sentir como se estivesse numa caixa de vidro sem nenhuma entrada de ar - estranho como pareço ter sérios problemas respiratórios recentemente. Ele silenciosamente começa a instalar o tripé e me perco novamente na visão dos seus braços montando o aparato, então de repente vejo peças caindo no chão e vejo que o tripé quebrou de uma hora para outra.

-  Tudo bem?

 Pergunto automaticamente fugindo dos pensamentos pervertidos que passaram pela minha mente nos últimos minutos. Ele olha decepcionado para o chão e sinto pena pela expressão de conformismo que exibe - como se estivesse acostumado a quebrar coisas - me fazendo querer correr e ser o tripé eu mesma.

- Acabei de comprar essa coisa e já consegui quebrar, droga. Acho que não dá tempo de ir buscar um outro em casa, tem alguma coisa aqui que dê pra usar? Algumas fotos posso fazer sem, mas preciso dele para as principais. 

Pensa, pensa, pensa.

    Rapidamente peço para todos os alunos pegarem seus livros na mochila e acabamos com uma estrutura de trinta livros suficiente para dar conta do recado. O fotógrafo parece satisfeito e eu também por, ao menos por fora, estar agindo o mais profissionalmente que posso - por mim e pelas crianças sob minha responsabilidade.

    - Vocês gostam de tirar fotos? Ele pergunta. Então deve ser assim que a voz dos anjos deve soar… - Digam TXT...

    Elas reagem tão positivamente que mais parecem membros de um fandom e começam a sorrir e a fazer caretas assim que o fotógrafo passa a fazer o mesmo. Ele coloca seus dentes para fora e fecha os olhos levemente; sorri e coloca os dedos naquelas covinhas onde eu poderia mergulhar a qualquer momento e as crianças o imitam divertindo-se. Assim que as fotos da turma acabam e o tripé não é mais necessário elas começam a correr com os livros e ele corre atrás tentando, provavelmente, captá-las no seu estado mais natural e realista. Por fim, algumas delas pedem fotos com flores - nunca vi crianças mais empolgadas em frente a câmera -  então entrego algumas coroas que trouxe de casa e algumas flores que o jardineiro colheu para mim enquanto elas se divertiam fazendo caras e bocas.

    Uma delas pega a coroa de flores e caminha até ele me dando a visão do que seria uma das cenas mais fofas que vi em toda a vida. A criança pede para que ele se abaixe balançando rápido as mãozinhas pequenas e gentilmente ele segue sua ordem. Ela põe cuidadosamente a coroa rosa e roxa em sua cabeça e sai correndo logo em seguida o deixando mortalmente lindo e eu mortalmente morta por um longo tempo já que aparentemente ele se recusa a tirá-la da cabeça.

    Os pais começam a chegar com o tempo e as crianças começam a se despedir e fazer promessas para o ano seguinte. Eu ganho alguns chocolates, uma agenda e uma caneta cor de rosa com glitter, o que me faz ficar satisfeita pelo o que fiz com a primeira turma que tive de verdade. Quando a última criança vai embora, o céu está começando a perder a luz do sol que começa a sobreviver apenas com os restos dela e ficamos só eu e ele no jardim; eu lidando com as consequências de crianças num jardim e ele com as de um material quebrado, aparelhos de câmera e iluminação espalhados.

    Sinto que se for embora dessa forma serei a mesma garota de dez anos atrás que se escondia nesse mesmo jardim, conhecia cada aspecto dessa pessoa que pensei ter apagado completamente da minha vida e nunca teve coragem de se arriscar a receber ao menos um não ou indiferença como resposta. Bato minhas mãos no vestido florido que agora está cheio de folhas e galhos, faço o mesmo com meu cabelo, bebo um chá psicológico de coragem e sigo em sua direção tentando me lembrar periodicamente que preciso puxar o ar de vez em quando e colocar uma perna após a outra. Me sinto indo ao encontro do diálogo mais assustador da minha vida.

- Namjoon? Inspira...expira...inspira...expira.

- Uhum? 

- Não sei se você se lembra, talvez não, mas... - não enrola, só fala de uma vez - mas nós estudamos juntos há alguns anos, por alguns anos na verdade. Tem um café logo aqui na esquina, acho que a gente podia conversar um pouquinho, você quer ir? Podemos aproveitar e discutir os detalhes das fotos e os prazos.

Me pego por uma fração de segundo pensando que talvez devesse ter esperado ele me responder antes de fazer um convite direto e idiota desses, mas depois de dez anos, acho que toda minha dignidade resolveu ir embora do meu corpo e me deixar tomar algumas decisões descabidas. Observo seu rosto e para o meu desespero não vejo emoção alguma. Me sinto mal por um momento apenas por pensar na possibilidade de ouvir um não, ou uma desculpa que, mesmo que real, me pareça um forma que ele encontrou de escapar desse convite estranho e repentino. Aliás, não sei porque me importo tanto, como alguém pode ter se apaixonado aos quinze anos e nunca ter se esquecido? Nada é intenso assim e a expectativa por uma resposta não deveria me abalar dessa forma. 

- Ok. Não comi nada desde o café da manhã, um lanche agora seria bom. - Responde direto novamente.

    Meu coração e meu rosto simplesmente não correspondem; enquanto um está pulando e batendo tão rápido que mal posso ficar parada o outro precisa parecer passivo e satisfeito num nível humanamente desinteressado e não apaixonado. Apaixonado não, paixão é para adolescentes.

    Recobro minha coordenação motora, pego minhas coisas recém-organizadas e jogo dentro do carro levando eras para trancá-lo já que estou sobrecarregada demais para pensar no botão com um cadeado aberto ou fechado e vejo que ele faz o mesmo deixando sua coroa de flores para trás. Assim, começa o que acredito ser a caminhada mais constrangedora de todas que já fiz com destino à cafeteria da esquina. Eu não me atrevo a falar nada e ele parece não ter nada para dizer. Passo a imaginar que talvez ele não se lembre de mim e realmente só esteja com fome ou que eu seja apenas a professora que mal conseguiu controlar seus alunos e o encarou por mais tempo que  normal. Ou pior, começo a criar a imagem do meu coração se despedaçando ao ouvir que meus dez anos de pensamentos recorrentes e a luta constante para não stalkear suas redes sociais na tentativa de ser livre desse clichê romântico que me assombrou a vida toda, se resumiram a esse momento e que Namjoon sequer lembra da minha existência.

     Agradeço aos deuses por ter escolhido um lugar tão perto, caso contrário esqueceria como andar e seria o suficiente para que um efeito dominó de coisas dando errado começasse. Como se tudo estivesse dando certo. Mas vejo a fachada da Bangtan’s Café e me sinto aliviada por ao menos ter chegado com vida e sem hematomas. Chegamos à porta de vidro e ele gentilmente a abre para mim e me derrete por inteiro por um ato que poderia ser caracterizado tanto como cavalheirismo assim como pressa. Digo obrigada mas não obtenho resposta.

    Escolho minha mesa favorita - que por sorte está vazia - e nos sentamos frente um ao outro. O atendente se aproxima rapidamente depois que nos acomodamos e noto ser um novato já que frequento esse café absolutamente todos os dias e nunca o vi antes . Leio Jungkook em seu crachá e concluo ser o novo funcionário de meio expediente que ouvi terem contratado.  Ele anota nossos pedidos e eu, como sempre, peço um milkshake de baunilha e Namjoon pede um café, algumas pessoas realmente tomam café nesses lugares. Assim que chega, experimento minha bebida concluindo que está perfeita como sempre e tento limpar minha garganta delicadamente antes de falar, mas pareço estar tendo uma crise de tosse. Então decido que não tem como piorar.

    - Eu costumava tomar esse mesmo milkshake e ler nessa mesma mesa há alguns anos. Você vinha aqui também? Isso, um assunto leve pra me manter segura por um tempo.

    - Na verdade não me lembro muito do que fiz antes de sair do país. Voltei há um ano então é como se fosse um lugar completamente novo com pessoas completamente novas também. Deve ser assim levar um soco no estômago e ficar completamente sem ar ou reação.

    - Ah sim, eu não fazia ideia… te assustei convidando para vir aqui como se fosse uma velha conhecida? Se sim, desculpa… de verdade. 

    Cada palavra sai cortando pedaços diferentes da minha garganta. Descobrir de uma vez só que ele não se lembra de nada e que eu sou parte desse nada só não foi pior que descobrir que por anos ele esteve fora do país enquanto eu fiquei tentando explicar para mim mesma o porquê de não o ter visto pelas ruas ou na escola e não ter tido coragem de perguntar a ninguém sobre ele por medo do risco de exibir os meus sentimentos, preferindo viver com a esperança de que ele aparecesse de repente e tornasse todos os meus sonhos verdade. 

    Namjoon segue em silêncio e por um momento o vejo longe de nossa mesa, de nossa conversa, do meu milkshake e de seu café. Seu rosto se mostra impassível, seu sorriso esboça uma consideração mal elaborada e parece contar os segundos para se ver longe de mim e de tudo isso. Não devia ter pensado que viveria algo que não fosse platônico na vida. Sinto um aperto forte no peito, nós mal trocamos algumas palavras e já não posso suportar. Se na vida todos temos que viver o amor de alguma forma, fico satisfeita por ter vivido o pior dele, ao menos vou ter desilusões suficientes para escrever histórias boas no futuro.

    Sinto o aperto aumentar e minha fala sumir. Preciso sair daqui. Ignoro a quantia que jogo brutalmente na mesa, pego minha bolsa e sem olhar para trás, saio correndo para o único lugar no qual posso me sentir segura e organizar meus pensamentos. Chego ao jardim e dessa vez o vejo de uma maneira diferente, não é mais aquele cenário de paixão que aquela adolescente inexperiente amava ou aquele campo florido de esperanças as quais aquela professora ainda inexperiente colheu com tanto fervor. Agora o jardim mais parece um campo de solidão florescente. 

    Chego àquele esconderijo que por incrível que pareça ainda existe, porém não mais com aquelas flores azuis que eu costumava ver, e sim com tons próximos de cinza. Nunca me senti tão a beira da melancolia como me sinto neste momento. Tudo que quero é gritar, chorar, esboçar alguma reação, mas meu corpo não responde aos meus comandos,  apenas aceita o estado de inércia no qual me coloquei e começa a se adaptar.

    - Será que você pode sair dessa fortaleza? Não posso chegar até você.

 Pensamentos vazios habitam minha mente. Por que Namjoon não pode me deixar voltar àquela vida monótona que tanto demorei para construir? Por que não pode me deixar aqui por mais dez anos e ver se dessa vez serei capaz de esquecer esse romance adolescente que sequer existiu? 

    - Desculpa ter feito aquilo. Por que insisto em pedir desculpas por coisas pelas quais não sinto culpa? Eu me senti um pouco mal e precisei de ar fresco, então vim correndo para o jardim. Você pode ir agora… eu estou bem.

    Ele carrega uma expressão ainda mais vazia, no entanto, dessa vez a reconheço e sinto que esse Namjoon é o que sempre ocupou a maior parte da minha mente, não aquele sério sorridente, mas aquele que ficava quieto do nada e era um completo mistério para mim. Ele volta a falar e eu a estremecer.

    - Você costumava se esconder no mesmo lugar quando quando a gente era mais novo. Observava todo mundo que passava e fingia ler um livro que lembro ter sido o mesmo o ano todo, você realmente achava que ninguém podia ter ver?

     …

    - Sabe, eu sempre escrevia o que não podia mostrar. Ninguém prestava atenção nos textos ou nas confissões que as aulas de literatura me permitiam fazer. Eu não podia te mostrar minhas fraquezas então esperava que você as percebesse sozinha por mais que eu tenha colocado uma máscara sempre que te encontrava. Eu tenho medo, sabe? Na verdade não sou nada além de patético… tenho tanto medo. No final, você vai me deixar como todo mundo fez...

    - Como eu poderia te…

    - Meus pais se divorciaram e não quiseram conviver com a prova do quão felizes eles foram um dia, antes de tudo desmoronar. Implorei para ficar.  Não queria ir embora, mas nunca tive escolha então me apeguei a ideia de estudar uma coisa que amava e tirar o melhor daquilo. Acabei escolhendo fotografia, ainda que meu coração apontasse para a literatura, como o seu. Depois de tantos anos voltei, pronto para esquecer todo o passado e recriar meu universo particular novamente quando o destino me põe de frente com a maior cicatriz que poderia ter guardado desse passado.

    Sou silêncio e confusão a cada palavra que sai dos lábios de Namjoon. O olho  no fundo dos olhos e ele faz o mesmo. Quando para de falar, o imagino indo embora e desistindo de continuar. Tento organizar meus pensamentos e dizer alguma coisa, mas nunca serei capaz de controlar minha fala se ele estiver por perto.

    - Se naquela época… se naquela época eu tivesse apenas um pouco mais de coragem, ficasse na sua frente e te contasse, tudo seria diferente agora não seria?

    Namjoon pega minhas duas mãos tentando desviar dos arbustos e galhos para me alcançar. Não faço nada exceto ceder imediatamente e esperar esse novo capítulo de uma história - sobre a qual não tenho controle algum - acontecer. Agora de pé no centro do jardim, sinto como se tivéssemos nos teletransportado para um mundo diferente onde eu e ele podemos ficar tão próximos a ponto de nossas respirações se misturarem. Rodeados de flores ele acaricia meu rosto levemente - como imaginei sentir o toque dessas mãos,  passa os dedos devagar por entre meus cabelos - uma, duas, três vezes; aproxima seu rosto do meu e inspira fortemente por entres os fios provavelmente absorvendo o cheiro do meu cabelo e com certeza espalhando arrepios por todo o meu corpo. Ninguém prestava atenção nos textos ou nas confissões...

ANTES

    Na penúltima aula de literatura do ano a professora conclui o conceito de escrita que trabalhou ao longo dos meses e começa a nos chamar pelos nomes em ordem alfabética para apresentarmos a versão final do texto que escrevemos no decorrer do semestre. Sem limites ou mínimos de linhas, tema ou gênero, apenas o que quiséssemos tornar texto. Assim que começo a ler, desejo ter feito dezenas de outras alterações, mas digo a mim mesma que um texto nunca fica pronto de verdade. Termino de ler, vou direto para minha mesa na segunda fileira e me sento de cabeça  baixa esperando ficar invisível por um momento.

    - Seu texto ficou excelente, talvez a gente possa conversar um pouco depois sobre que área você quer seguir, gostaria que considerasse literatura. Um buraco, alguém me dá um buraco. - Ok… agora...Kim Namjoon.

A professora o chama e me pega de surpresa. Levanto minha cabeça rápido demais e me preparo para ouvir a versão final do texto que recarrega minhas energias todas as vezes que penso em perder Namjoon de vista. Só conheço os rascunhos que compartilhamos na aula, mas se eles estivessem num livro eu leria, se fosse um poema eu apreciaria e se fosse uma  música seria fixada na minha playlist para sempre. Então ele lê.

Real Me

Não posso me mostrar para você, me doar para você.  Esse é o meu destino, não sorria para mim, não me ilumine desse jeito porque não posso chegar até você. Me sinto enforcado nesse castelo  de areia e estou chorando enquanto ele se despedaça e desaparece. Essa máscara estúpida será quebrada, mas não posso simplesmente te mostrar esta parte arruinada de mim assim como não posso fazer isso para sempre, preciso me esconder pois sou um monstro. Não sei como posso dizer, se essa verdade não quer ser dita.

 

AGORA

    - Se aqueles textos...naquela época você me queria, por que… 

    Sinto meus olhos marejaram, mas antes que tente transformar qualquer coisa que possa passar pela minha mente em palavras - já que minha memória começa a dar picos de eficiência, sou surpreendida pela a aproximação de Namjoon. Sinto seu cheiro de sabonete misturado ao perfume das flores que há pouco estavam em sua cabeça, o café em seu hálito e cada pedacinho de sua essência. Me derreto com nossa repentina aproximação e com o contraste entre nossas alturas que parece ser nada quando ele se curva lentamente em minha direção. 

Sempre sonhei como seria abraçá-lo, beijá-lo ou apenas estar assim tão perto dele, mas nada se comparou a isso. Quando se torna real, minha imaginação sempre tão fértil parece fraca por nunca ter sequer se aproximado dessa realidade. Seu lábios são mais macios e gentis do que pensei e me surpreendem por serem, ao mesmo passo, pura audácia. Ele pega gentilmente minhas duas mãos, as levanta na altura de meus ombros e entrelaça seus dedos aos meus, fazendo com que eu sinta cada nuance de seu toque.  Ele volta a me beijar e, por alguns segundos, mantêm um ritmo suave e carinhoso que, para mim, é novo e familiar ao mesmo tempo. Namjoon se afasta devagar e meus lábios sofrem imediatamente com sua ausência. Posso ver cada detalhe de sua pele, de seu rosto, de seus traços, de seus olhos, de tudo. Ele me queria. Não consigo acreditar que um momento como esse pode realmente estar acontecendo depois de tantas idealizações e por isso só consigo pensar nele se esvaindo como o fim de um sonho que eu queria que durasse para sempre. Como se lesse minha mente Namjoon me puxa para um abraço que me envolve por inteiro: corpo e alma. Chega seus lábios bem próximos aos meus ouvidos - o que faz minhas pernas vacilarem novamente, mas desta vez tenho os braços fortes dele para me proteger da queda e me ancorar à realidade - e então sussurra:

- Shhh...mas eu ainda quero você.

 



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