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História The Unbecoming of Any Gabrielly - beauany - Capítulo 23


Escrita por:


Notas do Autor


Boa leitura

2/4

Capítulo 23 - Capítulo 22


— Any Gabrielly? — Chamou a recepcionista.

 

Levantei-me. A revista que não estava lendo caiu no chão, aberta em uma página proibida para menores com duas modelos nus envolvendo um ator lindo de terno. Picante demais para um consultório de psiquiatra. Peguei a revista e a coloquei sobre a mesa de centro, então fui até a porta para a qual a recepcionista sorridente apontava. Entrei. 

 

A psiquiatra tirou os óculos e os cołocou sobre a mesa ao se levantar. 

 

— Any, é um prazer conhecê-la. Sou Rebecca Maillard. 

 

Apertamos as mãos. Olhei para as opções de assento. Uma poltrona. O sofá de praxe. Uma cadeira de escritório. Provavelmente algum tipo de teste. Escolhi a poltrona. 

 

A Dra. Maillard sorriu e cruzou as pernas. Era magra. Da idade de mamãe. Talvez até se conhecessem. 

 

— Então, o que a traz aqui hoje, Any? — perguntou ela.

 

Estiquei o braço com as ataduras. A Dra. Maillard ergueu brancelhas, esperando que eu falasse. Então falei. 

 

— Eu me queimei. 

 

— Quer dizer que foi queimada ou queimou a si mesma? 

 

Esperta, essa médica. 

 

— Fui queimada, mas mamãe acha que eu me queimei. 

 

— Como aconteceu? 

 

Respirei fundo e contei a ela sobre os brincos e a banheira. Mas não sobre a porta da frente destrancada. Ou sobre a caixa lembrava de ter tirado do lugar no closet. Uma coisa de cada vez. 

 

— Algo assim já aconteceu antes? 

 

— Assim como? — Observei os livros nas estantes dela; o manual de diagnósticos, coleções farmacológicas, periódicos. Nada interessante ou fora do comum. Poderia ser o consultório de qualquer um. Não havia personalidade. 

 

A Dra. Maillard fez uma pausa antes de responder. 

 

— Essa foi a primeira vez que foi parar no hospital? 

 

Encarei-a com os olhos semicerrados. Parecia mais uma advogada do que psiquiatra. 

 

— Por que pergunta se já sabe a resposta? 

 

— Não sei a resposta — falou a Dra. Maillard, inabalável. 

 

— Mamãe não te contou? 

 

— Ela me contou que vocês se mudaram para cá recentemente porque você vivenciou um trauma em São Paulo, mas não tive chance de conversar com ela por muito tempo. Precisei trocar o horário de outro paciente para atendê-la tão em cima da hora. 

 

— Sinto muito — falei. 

 

A Dra. Maillard enrugou a testa. 

 

— Não precisa se desculpar, Any. Só espero poder ajudar. 

 

Também esperava, mas estava começando a duvidar. 

 

— O que tem em mente? 

 

— Bem, pode começar me contando se já esteve no hospital antes — falou ela, unindo as mãos sobre a perna. Fiz que sim. — Por que motivo? — Ela olhou para mim com interesse apenas casual. Não fez nenhuma anotação. 

 

— Meus amigos morreram em um acidente. Minha melhor amiga. Eu estava lá, mas não me feri. 

 

Ela pareceu confusa. 

 

— Por que foi para o hospital, então?

 

 — Fiquei inconsciente por três dias. — Minha boca parecia não querer dizer a palavra "coma". 

 

— Seus amigos — disse ela, devagar. – Como eles morreram? 

 

Tentei responder, repetir o que mamãe me contou, mas tive problemas com as palavras. Estavam enterradas na minha garganta, além do alcance. O silêncio ficou mais e mais desconfortável enquanto eu lutava para puxá-las. 

 

A Dra. Maillard se inclinou para a frente. 

 

— Não tem problema, Any — falou ela. — Não precisa me contar. 

 

Respirei fundo. 

 

— Não lembro como eles morreram, sinceramente. 

 

Ela concordou. Uma mecha de cabelo louro-escuro caiu sobre a testa. 

 

— Tudo bem. 

 

— Tudo bem? — Lancei a ela um olhar cético. — Simples assim?

 

A Dra. Maillard sorriu de leve, os olhos castanhos eram gentis. 

 

— Simples assim. Não precisamos falar sobre nada que você não queira nesta sala. 

 

Fiquei um pouco indignada. Rebati: 

 

— Não me importo em falar sobre isso. Só não me lembro. 

 

— E não tem problema. Às vezes, a mente encontra um meio de nos proteger das coisas até estarmos prontas para lidar com elas. 

 

A presunção dela me incomodou mais do que deveria. 

 

— Eu me sinto pronta para lidar com isso. 

 

A Dra. Maillard colocou o cabelo atrás da orelha. 

 

— Isso também não é problema. Quando tudo aconteceu? 

 

Pensei durante um tempo. Era tão difícil ter noção de tempo. 

 

— Alguns meses... Dezembro? 

 

Pela primeira vez, o comportamento da Dra. Maillard mudou. Ela pareceu surpresa. 

 

— Isso é bem recente — falou. 

 

Dei de ombros e olhei para o outro lado. Meus olhos recaíram sobre uma planta que parecia de plástico e pegava luz do sol no canto do consultório. Me perguntei se era de verdade. 

 

— Então, como está desde a mudança? – prosseguiu ela com as perguntas. 

 

Um leve sorriso se formou no canto da minha boca. 

 

— Tirando a queimadura, quer dizer? 

 

A Dra. Maillard sorriu de volta. 

 

— Tirando isso. 

 

A conversa poderia tomar centenas de rumos diferentes. A Dra. Maillard estava sendo paga para me ouvir — era o trabalho dela. Apenas um trabalho. Quando voltasse para casa, para a família, não seria Dra. Maillard. Seria mamãe. Becca, talvez. Outra pessoa, como minha mãe. E não pensaria em mim até nossa próxima consulta. 

 

Mas eu estava ali por um motivo. Com as lembranças – os sonhos — eu podia lidar. Com as alucinações também. Mas a queimadura era demais. Pensei em minha família parecendo tão assustados, perdidos no hospital e sem saberem o que fazer. Não queria vê-los daquele jeito nunca mais. 

 

Engoli em seco e prossegui. 

 

— Acho que tem alguma coisa acontecendo comigo. — Minha grande declaração. 

 

A expressão dela não mudou. 

 

— O que acha que está acontecendo com você?

 

— Não sei. — Senti a necessidade de suspirar e passar as mãos pelos cabelos, mas resisti. Não sabia que tipo de sinal isso enviaria e não queria enviar justamente o errado.

 

—Tudo bem, vamos voltar um minuto. Por que acha que algo esta acontecendo com você? O que a faz pensar isso? 

 

Esforcei-me para manter contato visual com ela. 

 

— Às vezes vejo coisas que não estão ali — respondi. 

 

— Que tipo de coisas? 

 

Por onde começar? Decidi seguir a ordem cronológica inversa. 

 

— Bem, como falei, achei que os brincos que mamãe me emprestou tinham caído na banheira, mas estavam nas minhas orelhas. 

 

A Dra. Maillard confirmou que escutava com um aceno. 

 

— Continue. 

 

— E antes de ir à festa ontem à noite, vi uma das minhas amigas mortas no espelho. – Zing. 

 

— Que tipo de festa era? 

 

Se a Dra. Maillard ficou chocada com minha revelação, não demonstrou. 

 

– Hã... Uma festa a fantasia? — Não tive a intenção de fazer soar como uma pergunta. 

 

– Foi com alguém? 

 

Confirmei. 

 

— Meu irmão, mas ele iria se encontrar com outra pessoa. – A sala começou a parecer quente. 

 

– Então você fcou sozinha? 

 

Uma imagem de Josh sussurrando para a menina encantadora passou diante dos meus olhos. Sozinha, de fato. 

 

— Sim. 

 

— Você tem saído bastante desde que se mudou? 

 

Sacudi a cabeça e respondi: 

 

— A noite passada foi a primeira vez. 

 

A Dra. Maillard sorriu levemente. 

 

— Pode ter sido estressante. 

 

Com isso, precisei conter uma risada. Não pude evitar. 

 

— Em comparação a quê? – perguntei. 

 

As sobrancelhas dela se ergueram. 

 

— Me diga você. 

 

— Em comparação à morte da melhor amiga? Ou a me mudar para longe de tudo que conheço? Ou a começar em uma nova escola tão no fim do ano escolar?

 

Ou a descobrir que seu pai está representando o suposto assassino de uma adolescente? O pensamento me surgiu sem aviso. Sem precedente. Empurrei-o para longe. O trabalho de papai não seria um problema para mim. Não podia me permitir ser tão problemática assim. Se mamãe reparasse que eu estava estressada com isso, talvez o fizesse desistir do caso, o primeiro desde que nos mudamos. E, com três filhos matriculados em uma escola particular, eles provavelmente precisavam do dinheiro. Eu tinha destruído as vidas deles o suficiente. Decidi não mencionar isso para a Dra. Maillard. O que conversávamos era confidencial, mas ainda assim. 

 

O rosto dela estava sério quando falou. 

 

— Está certa — disse ela, encostando de novo na cadeira. — Deixe eu te fazer uma pergunta: a noite passada foi a primeira em que você viu alguém ou algo que não estava ali? 

 

Neguei com a cabeça, de certo modo aliviada pelo foco da conversa ter mudado. 

 

— Sente-se confortável para me contar sobre as outras coisas que viu.

 

Não exatamente. Brinquei distraída com o fio da minha calça jeans surrada, sabendo o quanto pareceria maluca. O quanto já parecia maluca. Falei mesmo assim. 

 

— Outro dia vi meu antigo namorado, Bailey, na escola. 

 

— Quando? 

 

— No primeiro dia. — Depois de ver a sala de aula de álgebra desabar. Depois de Sabina surgir pela primeira vez no espelho. Mordi o lábio. 

 

— Então, já estava bem estressada. 

 

Fiz que sim. 

 

— Sente falta dele? 

 

A pergunta me pegou desprevenida. Como responderia àquilo? Quando estava acordada, mal pensava em Bailey. E quando sonhava... Não era exatamente agradável. Abaixei os olhos, esperando que a Dra. Maillard não reparasse meu rosto corado, a única evidência da vergonha. Eu era uma pessoa ruim. 

 

— Às vezes essa coisas são complicadas, Any — disse ela. Acho que acabou reparando. — Quando perdemos pessoas que eram importantes para nós, podemos vivenciar toda uma gama de emoções. 

 

Eu me mexi na poltrona. 

 

— Podemos falar sobre outra coisa? 

 

— Podemos, mas gostaria muito de continuar nisso durante um tempo. Pode me contar mais sobre o relacionamento de vocês dois? 

 

Fechei os olhos. 

 

— Não era nada demais. Só estávamos juntos havia dois meses. 

 

— Foram meses bons? 

 

Pensei a respeito. 

 

— Tudo bem — falou a Dra. Maillard prosseguindo. A resposta devia estar escrita na minha testa. — E quanto a seu relacionamento com a melhor amiga? Você a viu desde que morreu também, não foi? 

 

Neguei. 

 

— Aquela foi Sabina. Ela se mudou para São Paulo no ano passado. Era a meia irmã de Bailey, meu namorado. Era próxima de Joalin. 

 

Os olhos da Dra. Maillard se estreitaram. 

 

— Joalin. Sua melhor amiga? 

 

Confirmei. 

 

— Mas não era próxima de você? 

 

— Não muito. 

 

— E você não viu Joalin? 

 

Fiz que não com a cabeça. 

 

— Há algo mais? Algo que viu e que não deveria? Algo que e que não deveria? 

 

Semicerrei os olhos. Perguntei: 

 

— Como vozes? — Ela definitivamente achava que eu era maluca. 

 

A Dra. Maillard deu de ombros. 

 

— Como qualquer coisa. 

 

Olhei para meu colo e tentei segurar um bocejo. Não consegui 

 

— Às vezes. Às vezes ouço chamarem meu nome. 

 

A Dra. Maillard assentiu. 

 

— Como você dorme? 

 

— Não muito bem — admiti. 

 

— Pesadelos? 

 

Pode-se dizer que sim. 

 

— Sim. 

 

— Lembra-se de algum deles? 

 

Esfreguei a nuca. 

 

— Às vezes. Às vezes sonho com aquela noite. 

 

— Acho que você é muito corajosa em me contar tudo isso. — Ela não pareceu condescendente ao dizer isso. 

 

— Não quero ser louca — falei. Sinceramente. 

 

— Não acho que seja louca. 

 

– Então é normal ver coisas que não estão ali? -

 

— Quando alguém passou por um evento traumático, sim. 

 

— Mesmo que não me lembre dele? 

 

A Dra. Maillard ergueu uma sobrancelha. 

 

— De nada? 

 

Esfreguei a testa, então prendi o cabelo na nuca como um nó. Não falei nada. 

 

— Acho você está começando a se lembrar —

disse ela. — Devagar e de um modo que consiga processar sem machucar muito sua mente. E, ainda que eu queira explorar mais isso se você decidir me ver de novo, acho provável que enxergar Bailey e Sabina seja a maneira de seu expressar os sentimentos mal resolvidos que tem em relação a eles. 

 

— Então, o que faço? Para fazer isso parar? — perguntei a ela. 

 

—Bem, se achar que gostaria de me ver de novo, podemos conversar sobre um plano para terapia. 

 

— Nada de remédios? — Imaginei que mamãe tivesse me levado a uma psiquiatra por um motivo. Provavelmente pensou que deveria Usar a artilharia pesada. E, depois da noite anterior, não poderia exatamente discutir com ela. 

 

— Bem, costumo, sim, receitar medicação para ser utilizada juntamente com a terapia. Mas a escolha é sua. Posso recomendá-la a um se não quiser usar medicação ainda, ou podemos fazer uma tentativa. Ver como você se sai. 

 

As coisas que estavam acontecendo desde que nos mudamos — os sonhos, as alucinações —imaginei se um comprimido poderia realmente fazê-las ir embora.

 

— Acha que tomar remédios vai ajudar? — falei. 

 

— Só remédios? Talvez. Mas com terapia comportamental cognitiva, as chances de se sentir melhor mais cedo são maiores, embora seja definitivamente um processo de longo prazo. 

 

— Terapia comportamental cognitiva? 

 

A Dra. Maillard confirmou. 

 

— Ela muda sua maneira de pensar a respeito das coisas. A forma de lidar com o que está vendo. Com o que sente. Também ajudará com os pesadelos que vem tendo. 

 

— As lembranças — corrigi. E então um pensamento se materializou. — E se... E se eu só precisar me lembrar? 

 

Ela se inclinou um pouco para a frente na poltrona. 

 

— Isso pode fazer parte do processo, Any. Mas não é algo que se possa forçar. Sua mente já está trabalhando nisso. Do próprio jeito. 

 

Um sorriso surgiu no canto da minha boca.

 

— Então, não faremos nenhuma hipnoterapia ou nada aqui? 

 

A Dra. Maillard sorriu. 

 

— Creio que não – disse ela. 

 

Concordei. 

 

— Mamãe não acredita nisso mesmo. 

 

A Dra. Maillard pegou um bloquinho na mesa e escreveu algo. 

 

Tirou dele um pedaço de papel e me entregou. 

 

— Peça para sua mãe comprar isto. Se quiser tomar, ótimo. Se não, também não tem problema. Pode não fazer efeito durante algumas semanas, no entanto. Ou pode acabar funcionando alguns dias depor de começar a tomar. Cada pessoa é diferente. 

 

Não conseguia ler a letra da Dra. Maillard. 

 

— Zoloft? 

 

Ela fez que não com a cabeça. 

 

— Não gosto de receitar inibidores de serotonina a adolescentes. 

 

— Por quê? 

 

Os olhos da Dra. Maillard varreram o calendário sobre a mesa. 

 

— Alguns estudos mostraram que há uma ligação entre dores e o suicídio em adolescentes. Podemos nos encontrar na terça-feira? 

 

As datas voaram pela minha mente. 

 

— Na verdade, as provas estão chegando. Correspondem a grande parte da minha nota. 

 

— Isso é muita pressão. 

 

Dei uma gargalhada. 

 

— É. Acho que sim. 

 

Ela pegou os óculos e os colocou de volta. 

 

— Any, já chegou a considerar a hipótese de dar um tempo na escola? 

 

Levantei-me. 

 

— Para ficar sentada pensando em como sinto falta de Joalin o dia inteiro? Acabar com minhas chances de me formar a tempo? Destruir meu histórico escolar? 

 

— Entendido. — A Dra. Maillard sorriu e se levantou. Ela estendeu a mão, eu a apertei, mas não consegui olhar nos olhos dela. Estava envergonhada pela recente explosão de pena. — Mas tente cuidar do estresse. — Então deu de ombros. — O máximo que puder. Episódios de TEPT costumam ser provocados por momentos assim. E ligue-me quando as provas acabarem, principalmente se decidir tomar o remédio. Ou antes, se precisar de mim. — Ela me entregou o cartão de visitas – Foi um prazer conhecê-la, Any. Estou feliz por ter vindo. 

 

— Obrigada – respondi com sinceridade.

 

Mamãe estava esperando por mim do lado de fora quando a consulta terminou. Surpreendentemente, não se intrometeu. Entreguei a receita, e o rosto dela ficou tenso. 

 

— O que foi? — perguntei.

 

— Nada — respondeu mamãe, e olhou para a rua. Paramos em uma farmácia a caminho de casa. Ela colocou o saquinho no nicho do painel central do carro. 

 

Abri e olhei para o frasco de comprimidos. 

 

— Zyprexa — li em voz alta. — O que é? 

 

— Deve ajudar a tornar as coisas fáceis de se lidar — falou mamãe ainda olhando para a frente. Uma não resposta. Ela não disse mais nada no caminho de casa. 

 

Mamãe levou o saquinho para dentro de casa consigo, e eu fui para o quarto. Liguei o computador e digitei Zyprexa no Google. Cliquei no primeiro site que encontrei, e minha boca ficou seca. 

 

Era um antipsicótico.



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