História The witcher - Capítulo 5


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Capítulo 5 - O Ultimo Desejo - A VOZ DA RAZÃO 4


Fanfic / Fanfiction The witcher - Capítulo 5 - O Ultimo Desejo - A VOZ DA RAZÃO 4

A VOZ DA RAZÃO 4

– Vamos conversar, Iola.

Eu preciso desta conversa. Dizem que o silêncio vale ouro. Talvez, mas não acho que seja tão

valioso assim. De todo modo, tem seu preço e deve-se pagar por ele.

Para você é mais fácil; sim, não negue. Afinal, o fato de se manter em silêncio é fruto de uma

escolha sua; você fez de seu silêncio uma oferenda a sua deusa. Não acredito em Melitele, tampouco

na existência de outros deuses, mas dou valor a sua escolha e aprecio e respeito aquilo em que você

acredita. Porque sua fé e seu sacrifício – o preço que está pagando pelo silêncio – fazem de você uma

pessoa melhor e mais valiosa. Pelo menos podem fazê-la assim, ao passo que minha falta de fé nada

pode, é impotente.

Diante disso, você me pergunta em que acredito.

Acredito no poder da espada.

Como pode ver, tenho duas. Todos os bruxos possuem duas espadas. As pessoas mal-intencionadas

costumam dizer que a espada de prata é para monstros e a de ferro para seres humanos. Obviamente,

trata-se de uma grossa mentira. Alguns monstros somente podem ser feridos com lâmina de prata,

enquanto para outros, mortal é o ferro. Não, Iola, não qualquer ferro; apenas o proveniente de

meteoritos. Você pergunta o que é meteorito? É uma estrela cadente. Na certa você já viu uma estrela

cadente: um curto e brilhante rastro no céu escuro. Ao vê-la, deve ter feito um pedido, algo que para

você poderia ser mais uma razão para acreditar em deuses. Já para mim, um meteorito é somente um

pedaço de metal que, ao cair do céu, se crava na terra e com o qual se pode fazer uma espada.

Sim, você pode segurar minha espada. Sente como é leve? É possível erguê-la sem muito esforço.

Não! Não toque na lâmina, porque poderá se machucar. Ela é mais afiada do que uma navalha. Tem de

ser assim.

Ah, claro, eu treino muito. Todo momento que tenho livre. Não posso me permitir ficar fora de

forma. Vim para cá – o mais distante cantinho do parque do santuário – para me exercitar, para

eliminar dos músculos este horrível entorpecimento que me reprime, este frio que percorre meu corpo.

E foi aqui que você me encontrou. Engraçado, faz dias que tento encontrar você. Estava a sua procura.

Eu queria…

Eu preciso desta conversa, Iola. Vamos nos sentar e conversar por alguns instantes.

Você nada sabe de mim, Iola.

Meu nome é Geralt. Geralt de… Não. Só Geralt. Geralt de lugar nenhum. Sou um bruxo.

Meu lar é Kaer Morhen, a Sede dos Bruxos. É de lá que provenho. Kaer Morhen é… era uma

espécie de fortaleza. Pouco sobrou dela.

Kaer Morhen… Ali se produziam seres como eu. Não se faz mais isso e lá não vive ninguém. Isto

é, ninguém exceto Vasemir. Você pergunta quem é Vasemir? Vasemir é meu pai. Por que me olha

com tanto espanto? O que há de estranho nisso? Afinal, todos têm pai, e o meu é Vasemir. E o que

importa ele não ser meu pai biológico? Não conheci meus pais biológicos. Não sei se continuam vivos e, no fundo, nem estou interessado em saber.

Sim, Kaer Morhen… Foi ali que passei pela mutação habitual. Primeiro, a Prova das Ervas;

depois, as coisas costumeiras: hormônios, infusões, infecções com vírus. E de novo. E mais uma vez.

Até atingir o resultado desejado. Como suportei todas as mutações surpreendentemente bem e fiquei

doente por pouco tempo, fui considerado um garoto de extrema resistência e escolhido para certos…

experimentos mais complicados. Isso foi pior. Muito pior. Mas, como pode ver, consegui resistir. Fui

o único sobrevivente de todo o grupo que se submeteu aos tais experimentos mais avançados. Desde

essa época tenho cabelos brancos. Ausência total do pigmento capilar. Efeito colateral, como se

costuma dizer, coisa de pouca monta e que quase nada atrapalha.

Depois, ensinaram-me as mais diversas habilidades. Por muito tempo. Até o dia em que saí de

Kaer Morhen e parti para o mundo. Já possuía meu medalhão; sim, este mesmo. A insígnia da Escola

do Lobo. Também tinha as duas espadas, a de prata e a de ferro, além de convicção, entusiasmo,

motivação e… fé. Fé de que seria necessário e útil. Porque diziam que o mundo, Iola, estava cheio de

monstros e bestas e que meu papel seria o de defender os que eram ameaçados por tais seres. Quando

parti de Kaer Morhen, sonhava em deparar com meu primeiro monstro. Mal podia esperar para ver-me

frente a frente com ele. E o encontrei.

Meu primeiro monstro, Iola, era careca e tinha dentes muito feios e malconservados. Encontrei-o

numa estrada na qual ele, com outros monstros, desertores de um exército qualquer, parara a carroça

de um camponês e retirara dela uma menina de uns treze anos ou até menos. Seus companheiros

seguravam o pai da garota, enquanto ele arrancava-lhe o vestido e gritava que chegara a hora de ela

saber o que era um homem de verdade. Eu me aproximei, desmontei de meu cavalo e lhe disse que

chegara também a hora dele. Minha observação pareceu-me extremamente espirituosa. O careca

largou a menina, pegou um machado e se atirou sobre mim. Era muito lento, mas resistente. Tive de

acertá-lo duas vezes até ele cair. Os golpes que desferi não foram demasiado limpos, mas, diria,

espetaculares, a ponto de os colegas do careca fugirem vendo do que era capaz a espada de um

bruxo…

Não a entedio, Iola?

Preciso ter esta conversa com você. Preciso mesmo.

Onde parei? Ah, sim, em minha primeira boa ação. Saiba, Iola, que em Kaer Morhen viviam me

enfiando na cabeça que eu não deveria me meter em situações desse tipo, que as evitasse a todo custo,

que não bancasse um cavaleiro andante nem tivesse a pretensão de substituir os verdadeiros guardiões

da lei. Minha função não deveria ser a de me exibir, mas de executar as tarefas para as quais seria

contratado em troca de uma remuneração. E o que fiz? Mal havia percorrido cinquenta milhas do sopé

das montanhas, fui me meter em algo que não me dizia respeito. E sabe por quê? Queria que a garota

beijasse as mãos de seu salvador enquanto seu pai lhe agradecia de joelhos. E o que se passou na

verdade? O pai fugiu com os desertores e a menina, sobre quem caiu a maior parte do sangue do

careca, teve um acesso de vômito e de histeria e desmaiou de pavor quando me aproximei dela. A

partir daquela experiência tenho evitado envolver-me em tais tipos de situação.

Passei a fazer aquilo para o que fui treinado. Logo aprendi como fazê-lo. Cavalgava até as cercas

dos vilarejos ou paliçadas das cidades e ficava aguardando. Se as pessoas cuspiam em mim,

xingavam-me ou atiravam-me pedras, eu ia embora. No entanto, se alguém vinha a meu encontro e me

requisitava um serviço, eu o executava.

Visitava cidades e fortalezas, buscava proclamações afixadas em postes nos cruzamentos das

estradas, procurava anúncios: “Precisa-se urgentemente de um bruxo.” Além disso, era muito comum

encontrar um local sagrado, uma masmorra, uma necrópole ou ruína, um barranco numa floresta ou uma gruta nas montanhas com muitos ossos e fedor de carcaça. E também havia seres que viviam

exclusivamente para matar, por fome, por prazer, por causa de um desejo doentio de alguém ou por

outros motivos: manticoras, serpes, núbilos, zygopteras, quimeras, leshys, vampiros, ghouls,

lobisomens, escorpiões gigantes, estriges, tragarças, quiquimoras, wippers. Aí eu os enfrentava com

golpes de espada e, depois, via medo e nojo nos olhos dos que me pagavam por tais serviços.

Erros? É claro que cometi, mas sempre me mantive fiel às regras. Não, não às de um código. Volta

e meia usava o código como justificativa. As pessoas apreciam isso. Quem possui um código e se guia

por ele é mais respeitado e levado a sério.

Não existe código. Nunca foi elaborado um código de bruxos. Simplesmente inventei um, ao qual

sempre me mantive fiel…

Bem… nem sempre, porque em certas ocasiões não havia possibilidade de dúvida. Momentos em

que tinha de dizer a mim mesmo: “O que tenho a ver com isto? Este assunto não me compete; sou um

bruxo.” Situações em que precisava ouvir a voz da razão, dar ouvidos ao que me ditava a experiência,

ao que me dizia o instinto, nem que fosse o mais comezinho de todos: o medo.

E eu devia ter ouvido a voz da razão naquela circunstância.

Mas não ouvi.

Achei que estava escolhendo o mal menor. O mal menor! Sou Geralt de Rívia, também conhecido

como Carniceiro de Blaviken.

Não, Iola. Não toque em minha mão. O contato poderá despertar em você… Você poderá ver… E

não quero que você veja. Não quero saber. Conheço meu destino, que me faz girar como um pião. Meu

destino? Ele me acompanha passo a passo, mas nunca olho para trás.

Hesitações? Sim, e acredito que Nenneke as percebe. O que me levou a agir daquela maneira em

Cintra? Como pude correr tão estupidamente um risco de tais proporções?

Não, não, mil vezes não. Nunca olho para trás, e, no que se refere a Cintra, jamais pisarei lá

novamente. Vou evitar Cintra como se fosse a peste. Não retornarei àquele lugar.

Ah, segundo meus cálculos, a criança deve ter nascido em maio, perto da festa de Belleteyn. Se for

isso mesmo, então estaremos diante de uma interessante coincidência. Porque Yennefer também

nasceu em Belleteyn…

Vamos embora, Iola. Já está escurecendo.

Agradeço-lhe ter conversado comigo.

Muito obrigado, Iola.

Não, não tenho nada. Estou bem.

Muito bem.



UMA QUESTÃO DE PREÇO

I

O bruxo tinha uma faca encostada na garganta.

Estava mergulhado em água ensaboada, com a parte de trás da cabeça apoiada na borda

escorregadia da banheira de madeira. Sentia nos lábios o amargo gosto de sabão. A faca, com o gume

embotado de fazer dó, deslizava dolorosamente sobre seu pomo de adão, subindo na direção do

queixo.

O barbeiro, com a expressão de um artista consciente de estar realizando uma obra-prima, deu

mais uma raspadela, só para finalizar, e lhe secou o rosto com um pano de linho embebido em algo

que poderia ser loção à base de angélica.

Geralt levantou-se, permitiu que um criado derramasse sobre ele a água de um balde, sacudiu-se e

saiu da banheira, deixando marcas de pés molhados no piso de tijolos.

– Eis uma toalha, senhor – ofereceu o pajem, observando o medalhão com curiosidade.

– Obrigado.

– E aqui estão seus trajes – falou Haxo. – Camisa, cuecas, calças, túnica… e as botas.

– O senhor pensou em tudo, castelão. Mas será que não posso ir com minhas botas mesmo?

– Não. Cerveja?

– Com prazer.

Geralt vestia-se devagar. O contato com a áspera e desconfortável roupa que não era sua estragava

o bom humor que adquirira no prolongado banho em água quente.

– Castelão?

– A suas ordens, senhor Geralt.

– O senhor não sabe de que se trata? Por que precisam de mim?

– É um assunto que não me diz respeito – respondeu Haxo, olhando de soslaio para os pajens. –

Minha obrigação é vesti-lo…

– Disfarçar, o senhor quer dizer.

– … e conduzi-lo à rainha, para o banquete. Vista a túnica, senhor Geralt, e esconda por baixo dela

seu medalhão de bruxo.

– Onde está o punhal que deixei aqui?

– Está guardado em lugar seguro, assim como suas duas espadas e demais pertences. Ao lugar a

que o senhor vai não se permitem armas.

O bruxo deu de ombros, vestindo a apertada túnica purpúrea.

– O que é isto? – perguntou, apontando para um emblema bordado na frente da túnica.

– Foi bom o senhor ter perguntado – disse Haxo. – Quase me esqueci. No banquete, o senhor será Sua Excelência Ravix de Quatrocorne. Como convidado de honra, sentar-se-á à direita da rainha, pois

tal é seu desejo. Quanto a esse emblema, é seu brasão: um urso negro de pé sobre as patas traseiras

num campo dourado, com uma jovem de vestido azul-celeste e cabelos soltos sentada sobre seus

ombros. O senhor deve memorizá-lo, pois um dos convivas poderá ter a mania de estudar heráldica,

algo que ocorre com frequência.

– É lógico que vou memorizar – respondeu Geralt, com a expressão muito séria. – E quanto a

Quatrocorne, fica longe daqui?

– Suficientemente longe. O senhor está pronto? Podemos ir?

– Podemos, mas antes me diga ainda, senhor Haxo: qual é o motivo para esse banquete?

– A princesa Pavetta vai fazer quinze anos e, de acordo com a tradição, vieram vários pretendentes

a sua mão. A rainha Calanthe deseja casá-la com alguém de Skellige. Uma aliança com os ilhéus seria

muito vantajosa para nós.

– Por que exatamente com eles?

– Porque eles não atacam com a mesma intensidade aqueles com os quais mantêm aliança.

– Excelente razão.

– Mas não a única. Em Cintra, senhor Geralt, a tradição reza que o reino só pode ser governado por

representantes do sexo masculino. Nosso rei, Roegner, morreu recentemente de peste, e a rainha não

pensa em se casar de novo. Dona Calanthe é uma mulher inteligente e justa, mas um rei é um rei.

Quem se casar com a princesa se sentará no trono de Cintra. Seria ótimo se fosse um homem com H

maiúsculo, e homens assim têm de ser procurados nas ilhas. Os ilhéus são valentes e duros. Mas

vamos; está na hora.

Ao passarem por uma galeria que cercava o pátio interno, Geralt parou e olhou em volta.

– Castelão – disse em voz baixa –, estamos sozinhos. Diga-me o motivo pelo qual a rainha precisa

dos serviços de um bruxo. O senhor deve ter uma ideia. Afinal, quem poderá saber senão o senhor?

– Pelos mesmos motivos que todo mundo – resmungou Haxo. – Cintra é um país como qualquer

outro. Temos aqui lobisomens e basiliscos, e basta procurar bem para encontrar manticoras. Portanto,

um bruxo poderá vir a ser útil.

– Não me enrole, castelão. Estou perguntando para que a rainha precisa de um bruxo num

banquete, ainda mais travestido de urso azul-celeste com cabelos soltos.

Haxo também olhou em volta, chegando a se inclinar sobre a balaustrada da galeria.

– Algo ruim está acontecendo, senhor Geralt – sussurrou. – No castelo. Alguma coisa está

assustando as pessoas.

– O quê?

– E o que poderia assustar as pessoas a não ser um monstro? Dizem que ele é pequeno, encurvado

e cheio de espinhos, como um ouriço. Anda pelo castelo à noite, arrastando correntes e gemendo pelos

aposentos.

– O senhor o viu?

– Não – respondeu Haxo, dando uma cusparada. – E não desejo vê-lo.

– O que o senhor está dizendo, prezado castelão, não faz sentido – falou o bruxo, fazendo uma

careta de desagrado. – Estamos indo a um banquete de noivado. E o que se espera de mim? Que eu

fique prestando atenção para que um corcunda não saia de debaixo da mesa e comece a gemer? E isso

sem dispor sequer de uma arma e vestido como um palhaço? Ora, senhor Haxo, há algo errado nesta

história.

– Pois pense o que quiser – resmungou o castelão. – Disseram-me para não lhe contar nada. O

senhor me perguntou e eu resolvi responder. E o que o senhor faz? Diz que estou falando bobagens.

Muito gentil de sua parte.

– Perdoe-me, castelão. Não tive a mínima intenção de ofendê-lo. É que simplesmente fiquei

surpreso…

– Então pare com isso – respondeu Haxo, ainda aborrecido. – O senhor não está aqui para ficar

surpreso. E vou lhe dar um conselho, senhor bruxo: se a rainha lhe ordenar tirar a roupa e ficar nu,

pintar o traseiro de azul e pendurar-se no teto de cabeça para baixo como se fosse um candelabro, faça

isso sem se surpreender nem hesitar. Senão, o senhor poderá se defrontar com uma série de dissabores.

Entendeu?

– Entendi. Vamos, senhor Haxo. Independentemente do que aconteça, aquele banho abriu meu

apetite.

II

Afora o banal cumprimento protocolar, no qual o chamou de “Senhor de Quatrocorne”, a rainha

Calanthe não trocou com o bruxo uma palavra sequer. O banquete ainda não começara, e os comensais

foram chegando, cada um deles anunciado pela possante voz do arauto.

A enorme mesa retangular podia acomodar mais de quarenta convivas. O centro da cabeceira era

ocupado por Calanthe, sentada num trono de grande espaldar, com Geralt à direita e um bardo grisalho

com um alaúde, chamado Drogodar, à esquerda. As outras duas cadeiras à esquerda da rainha

continuavam vazias.

Ao longo da parte mais comprida da mesa, à direita de Geralt, acomodaram-se o castelão Haxo,

um voivoda de nome complicado e difícil de guardar e os convidados do principado de Attre: o

soturno e calado cavaleiro Rainfarn e seu tutelado, o jovem e bochechudo príncipe Windhalm, de doze

anos, um dos pretendentes à mão da princesa. Mais adiante, estavam os multicoloridos guerreiros de

Cintra e vassalos das redondezas.

– O barão Eylembert de Tigg! – anunciou o arauto.

– Cucodalek! – murmurou Calanthe, dando uma cotovelada em Drogodar. – Vejo que vamos nos

divertir!

O magro, bigodudo e ricamente vestido cavaleiro fez uma profunda reverência, mas os olhos

alegres e vivos, bem como o sorriso nos lábios, desmentiam qualquer subserviência.

– Seja bem-vindo, senhor Cucodalek – falou a rainha em tom cerimonioso.

Pelo visto, o barão era mais conhecido pelo apelido do que pelo nome de família.

– Estou feliz por ter vindo!

– E eu, por ter sido convidado – declarou Cucodalek, suspirando. – Com a permissão de Vossa

Majestade, darei uma espiada na princesa. É muito triste viver só e abandonado.

– Pare com isso, senhor Cucodalek – respondeu Calanthe, sorrindo maliciosamente e enrolando a

ponta de um de seus cachos no dedo. – Sabemos muito bem que é casado.

– Eh – resmungou o barão. – Vossa Majestade sabe como minha esposa é fraquinha e delicada, e,

com a epidemia de varíola que se alastra por aqui, sou capaz de apostar meu cinturão e minha espada

contra um par de luvas furadas que estarei de luto em menos de um ano.

– Você é um coitado, Cucodalek, mas também um sortudo – disse Calanthe com um sorriso. – Sua

esposa realmente é muito fraquinha. Disseram-nos que na última festa da colheita ela o flagrou com uma camponesa num monte de feno e correu com um forcado atrás de você por mais de uma milha,

mas não conseguiu alcançá-lo. Alimente-a melhor, seja mais carinhoso com ela e proteja suas costas

do frio à noite, e você verá que, em menos de um ano, estará ótima.

Cucodalek adotou um ar triste, porém não muito convincente.

– Compreendi a indireta. Apesar disso, posso participar do banquete?

– É lógico que sim, barão.

– A delegação de Skellige! – gritou o arauto, já bastante rouco.

Quatro ilhéus vestidos com brilhantes casacos forrados de pele de foca e cingidos por faixas de lã

quadriculadas adentraram o salão com passos firmes e másculos. Liderava-os um vigoroso guerreiro

de tez morena e nariz aquilino, acompanhado de um jovem de ombros largos e rebelde cabeleira ruiva.

Todos se inclinaram diante da rainha.

– É uma grande honra para mim – falou Calanthe, levemente enrubescida – saudar de novo em

meu castelo cavaleiro tão nobre quanto Eist Tuirseach de Skellige. Não fosse do conhecimento público

sua aversão a casamento, regozijar-me-ia com a possibilidade de ter vindo aqui para pedir a mão de

minha Pavetta. Teria a solidão finalmente perturbado o nobre senhor?

– Por mais de uma vez, bela Calanthe – respondeu o moreno ilhéu, erguendo para a rainha os olhos

brilhantes. – No entanto, minha vida é demasiadamente perigosa para que eu possa pensar numa

ligação duradoura. Não fosse isso… Pavetta é ainda uma garotinha… um botão de flor que ainda não

desabrochou, mas…

– Mas o quê, cavaleiro?

– Filho de peixe, peixinho é – sorriu Eist Tuirseach, mostrando os dentes brancos brilhantes. –

Basta olhar para Vossa Majestade para saber quão bela será a princesa quando atingir a idade em que

fará um guerreiro feliz. Assim, a sua mão devem aspirar aos mais jovens, como o sobrinho de nosso

rei Bran, o duque Crach an Craite, que veio para cá exatamente com esse intuito.

Crach inclinou a cabeça ruiva e ajoelhou-se sobre um joelho diante da rainha.

– E quem mais trouxe consigo, Eist?

Um robusto e atarracado homem com uma barba que mais parecia uma vassoura e um magricela

com uma gaita de foles às costas inclinaram-se respeitosamente e se ajoelharam ao lado de Crach an

Craite.

– Eis nosso valoroso druida Myszowor, que, assim como eu, é amigo e conselheiro do rei Bran. E

este é Draig Bom-Dhu, nosso famoso bardo. Além deles, trinta marinheiros de Skellige aguardam no

pátio, nutrindo a esperança de ver, mesmo que de relance e de uma janela, a deslumbrante Calanthe de

Cintra.

– Sentem-se, distintos convivas. O senhor, senhor Tuirseach, aqui.

Eist acomodou-se num dos lugares vagos na cabeceira da mesa, separado da rainha apenas por uma

cadeira vazia e a ocupada por Drogodar. Os demais ilhéus sentaram-se juntos, do lado esquerdo da

mesa, entre o marechal Vissegerd e os três filhos do soberano de Strept: Múrmur, Vilaz e Lugamonte.

– Praticamente todos já chegaram – disse a rainha, inclinando-se para o marechal. – Podemos

começar, Vissegerd.

O marechal bateu palmas, e pajens carregando travessas e cântaros encaminharam-se até a mesa,

entre murmúrios de aprovação dos convivas.

Calanthe quase não comia, cutucando indolentemente com um garfo de prata as iguarias servidas.

Drogodar, depois de engolir algo com sofreguidão, dedilhava o alaúde. Em compensação, os outros

comensais, sobretudo Crach an Craite, atacavam leitões assados, aves, peixes e moluscos. Rainfarn de Attre repreendeu severamente o jovem príncipe Windhalm, a ponto de dar-lhe um tapa na mão quando

ele tentava alcançar uma jarra de sidra. Cucodalek, parando de roer um osso, alegrou seus vizinhos

com uma perfeita imitação do grito de uma tartaruga dos charcos. O ambiente foi ficando cada vez

mais alegre e os primeiros brindes, cada vez menos coerentes.

Calanthe ajeitou o diadema de ouro sobre os cachos dos cabelos levemente agrisalhados e virou-se

para Geralt, que, naquele momento, estava ocupado em quebrar a carapaça de um enorme caranguejo

vermelho.

– E então, bruxo. Os convivas estão fazendo tamanha algazarra que podemos trocar discretamente

algumas palavras. Comecemos por gentilezas. Alegro-me por tê-lo conhecido.

– A alegria é recíproca, Majestade.

– Agora, após as gentilezas, passemos a assuntos concretos. Tenho um trabalho para você.

– Foi o que imaginei. É muito raro eu ser convidado para um banquete por pura simpatia.

– Talvez por você não ser um conviva interessante à mesa, ou será que há outro motivo?

– Sim, há.

– E qual é?

– Somente poderei dizê-lo depois que Vossa Majestade me revelar o trabalho que tem em mente

para mim.

– Geralt – falou a rainha, tocando com os dedos num colar de esmeraldas cuja pedra menor tinha o

tamanho de um besouro primaveril –, que tipo de trabalho você acha que se pode ter para um bruxo?

Cavar um poço? Tapar um buraco no telhado? Tecer uma tapeçaria representando todas as posições

que o rei Vridank e a bela Cerro testaram durante a lua de mel? Você, melhor do que ninguém, deve

saber do que trata sua profissão.

– É verdade. E, agora, posso dizer o que imagino que seja.

– Estou curiosa.

– Imagino que Vossa Majestade, assim como muitos outros, está confundindo minha profissão

com outra totalmente diversa.

– Não diga… – murmurou Calanthe, que, inclinada displicentemente na direção de Drogodar e seu

alaúde, parecia estar ausente e mergulhada em profundos pensamentos. – E quem seriam esses muitos

outros com os quais você teve a bondade de me comparar em ignorância? E que profissão tais

ignorantes estariam confundindo com a sua?

– Majestade – respondeu calmamente Geralt –, pelo caminho até Cintra tive a oportunidade de me

encontrar com camponeses, negociantes, gnomos caseiros, caldeireiros e lenhadores. Falaram de uma

tragarça que habita estas florestas numa casa sustentada por uma base trípode de pata de galinha, de

uma quimera que se aninha nas montanhas, de zygopteras e de escolopendromorfos. Disseram que,

caso se procurasse com afinco, não seria de todo impossível encontrar uma manticora. Uma porção de

tarefas que um bruxo poderia executar sem a necessidade de se fantasiar com plumas e brasões.

– Você não respondeu a minha pergunta.

– Não tenho dúvida de que uma aliança com Skellige por meio de um casamento com sua filha

seja de fundamental importância para Cintra. Também é possível que haja intrigantes dispostos a

impedir isso, que mereceriam uma lição sem o envolvimento específico de Vossa Majestade. Assim, a

melhor solução seria que tal lição lhes fosse aplicada pelo desconhecido Senhor de Quatrocorne, que,

logo em seguida, desapareceria de cena. E agora vou responder a sua pergunta. Vossa Majestade

confunde minha profissão com a de um assassino de aluguel, e os muitos outros a que me referi são os

que detêm poder. Não é a primeira vez que me chamam a uma corte na qual os problemas do governante demandam rápidos golpes de espada. No entanto, nunca matei seres humanos em troca de

dinheiro, independentemente da causa, boa ou má… E nunca o farei.

A animação em torno da mesa aumentava na razão direta em que o conteúdo dos jarros de cerveja

diminuía. O ruivo Crach an Craite encontrou uma audiência simpática à sua descrição da batalha de

Thwyth. No mapa que havia desenhado no tampo da mesa com o auxílio de um osso com restos de

carne embebido em molho, expunha aos gritos o plano estratégico do confronto. Cucodalek, fazendo

jus ao apelido, cacarejou repentinamente como uma galinha poedeira, despertando hilaridade entre os

comensais e consternação entre os serviçais, convencidos de que a ave burlara toda a vigilância e

conseguira entrar no salão.

– Pelo visto, o destino castigou-me com um bruxo demasiadamente perspicaz – sorriu Calanthe,

mas seus olhos estavam semicerrados e furiosos. – Um bruxo que, sem uma sombra de respeito ou

mesmo de simples cortesia e boa educação, desmascara minhas intrigas e meus planos mais nefastos.

Mas quem sabe se o fascínio de minha beleza e o charme de minha personalidade não tenham toldado

sua mente? Nunca mais faça isso, Geralt. Não se dirija dessa maneira àqueles que detêm poder. A

maioria não esqueceria suas palavras. Você conhece os reis o suficiente para saber que dispõem de

recursos e meios mais terríveis: punhais, venenos, masmorras, ferros em brasa. São dezenas ou até

milhares de formas pelas quais eles costumam vingar-se dos que ousaram ferir-lhes o orgulho, e você

nem pode imaginar, Geralt, como é fácil ferir o orgulho de um governante. Poucos são capazes de

tolerar palavras do tipo: “Não”, “Não farei” ou “Nunca”. E isso não é tudo; basta que você interrompa

um deles quando estiver falando ou simplesmente faça um comentário qualquer para acabar com os

ossos quebrados na roda.

A rainha juntou as mãos brancas e delicadas e apoiou levemente nelas os lábios, fazendo uma

pausa de efeito. Geralt permaneceu calado.

– Os reis – continuou ela – dividem as pessoas em duas categorias: aquelas às quais ordenam e

aquelas a quem compram. E sabe por quê, Geralt? Porque eles acreditam piamente numa antiga crença

banal: a de que qualquer um pode ser comprado. Qualquer um. É apenas uma questão de preço. Não

concorda com isso? Ah, sim, eu nem precisava perguntar; afinal, você é um bruxo que executa uma

tarefa e é remunerado por ela. Para você, o termo “comprar” perde a conotação desdenhosa. Também a

questão do preço é óbvia em seu caso; está diretamente ligada ao grau de dificuldade da tarefa, da

maneira como ela for executada e de sua perícia. Há ainda a questão da fama, Geralt. Os contadores de

histórias nas praças públicas cantam em prosa e verso os grandes feitos do bruxo de Rívia. Se metade

dessas lendas for verdadeira, posso concluir tranquilamente que seu preço é muito elevado. Assim,

contratar você para tarefas tão simples e banais como intrigas palacianas ou assassinatos seria jogar

dinheiro fora. Tais serviços poderiam ser executados por mãos muito mais baratas que as suas.

– BRAAAK! Ghaaa-braaak! – rugiu subitamente Cucodalek, recebendo nova salva de palmas pela

imitação do som de outro animal. Geralt não tinha a mais vaga ideia de que animal se tratava, mas não

gostaria de se encontrar com ele. Virou a cabeça e se defrontou com o calmo e venenoso olhar

esverdeado da rainha. Drogodar, com a cabeça abaixada e o rosto e o alaúde cobertos pelos longos

cabelos grisalhos, dedilhava algo em seu instrumento.

– Ah, Geralt – disse Calanthe, impedindo com um gesto que um serviçal derramasse mais vinho

em sua taça. – Eu falo, falo, e você permanece calado. Estamos num banquete e todos querem se

divertir. Divirta-me. Começo a sentir falta de suas valiosas observações e sagazes comentários. Além

disso, caberia um ou outro elogio, uma demonstração de fidelidade ou então uma garantia de

obediência… na ordem que achar mais apropriada.

– O que posso fazer, Majestade? – falou o bruxo. – Está mais do que claro que sou um convidado

pouco interessante. Não deixo de me espantar com a honra de estar sentado a seu lado. Vossa Majestade poderia ter escolhido quem quisesse para ocupar este lugar; bastaria lhe ordenar ou

comprá-lo. Afinal, trata-se apenas de uma questão de preço.

– Continue, continue – pediu Calanthe, com a cabeça inclinada para trás, os olhos semicerrados e

um simulacro de sorriso.

– Portanto, estou honrado e orgulhoso por me encontrar ao lado da rainha Calanthe de Cintra, cuja

beleza é sobrepujada apenas por sua inteligência. Também considero grande honra o fato de a rainha

ter se dignado de ouvir sobre minha humilde pessoa e, com base em tal relato, não desejar aproveitar

minhas aptidões para assuntos banais. No último verão, o príncipe Hrobarik não foi tão benévolo

quanto Vossa Majestade e tentou me contratar para achar uma beldade que, cansada de seus avanços

grosseiros, fugiu do baile perdendo um sapatinho. Foi muito difícil convencê-lo de que para esse tipo

de serviço ele precisava de um caçador, e não de um bruxo.

A rainha escutava, com um sorriso misterioso nos lábios.

– Da mesma forma, outros governantes, inigualáveis a Vossa Majestade no que tange a intelecto e

perspicácia, não se furtaram de me propor tarefas banais. Na maioria das vezes, tratava-se da banal

eliminação de um enteado, padrasto, madrasta, tio, tia; é praticamente impossível listar todos. Eles

achavam que era uma simples questão de preço…

O sorriso da rainha podia significar qualquer coisa.

– Assim, volto a repetir – continuou Geralt, inclinando levemente a cabeça na direção da rainha –

que mal posso me conter de tanto orgulho por estar sentado ao lado de Vossa Majestade. E orgulho é

algo que nós, bruxos, prezamos enormemente. Vossa Majestade nem pode imaginar quanto. Certa vez,

um soberano ofendeu o orgulho de um bruxo, propondo-lhe um serviço contrário à honra e ao código

dos bruxos e, ainda pior, não quis tomar conhecimento da polida recusa e tentou reter o bruxo em seu

castelo. Todos os que, mais tarde, comentaram o episódio foram unânimes em afirmar que aquela não

fora uma das melhores ideias do soberano.

– Geralt – falou Calanthe, após um breve silêncio –, você se enganou. Você é um convidado muito

interessante.

Cucodalek, limpando a espuma de cerveja dos bigodes e da parte da frente de seu gibão, jogou a

cabeça para trás e emitiu um prolongado uivo de uma loba no cio. Os cães do pátio, assim como de

toda a redondeza, uivaram em resposta.

Lugamonte, um dos irmãos de Strept, molhou o dedo na cerveja e desenhou um traço em volta da

formação delineada por Crach an Craite.

– Erro e incompetência! – exclamou. – Não era para agir dessa maneira! A cavalaria devia ter

atacado aqui, neste flanco!

– Pois sim! – urrou Crach an Craite, batendo com o osso na mesa e respingando molho no rosto e

na túnica de seus vizinhos. – E deixar o centro desprotegido?! A posição fundamental? De jeito

algum!

– Só um cego ou alguém doente de cabeça não teria se aproveitado da situação para executar

aquela manobra!

– É isso mesmo! – exclamou Windhalm de Attre.

– Alguém lhe perguntou algo, seu fedelho?

– Fedelho é você!

– Cale a boca, senão lhe quebro este osso na cabeça!

– Sente no seu traseiro e mantenha-se calado, Crach – gritou Eist Tuirseach, interrompendo sua

conversa com Vissegerd. – Basta de discussões! Drogodar, não desperdice seu talento! Definitivamente, é necessária mais concentração para apreciar o belo, embora muito baixo, som de

seu alaúde! Draig Bom-Dhu, pare de se empanturrar e de se embriagar! Nem uma coisa nem outra

impressionarão quem quer que seja em torno desta mesa. Encha seus foles e alegre nossos ouvidos

com uma autêntica canção guerreira. Com sua permissão, distinta Calanthe.

– Ah, mãezinha minha – sussurrou a rainha para Geralt, erguendo os olhos num gesto de

resignação silenciosa. Apesar disso, fez um sinal afirmativo com a cabeça, sorrindo com naturalidade

e gentileza.

– Draig Bom-Dhu – falou Eist –, toque para nós a canção sobre a batalha de Chociebuz! Ao menos

ela não dará razão a dúvida alguma quanto às decisões táticas de seus comandantes, nem de quem lá se

cobriu de glória imortal! À saúde da heroica Calanthe de Cintra!

– À sua saúde! Viva! – urraram os convivas, esvaziando as taças e canecas.

Os foles de Draig Bom-Dhu emitiram um bramido ameaçador antes de explodir num horrendo

gemido prolongado e soturno. Os comensais acompanharam o ritmo da canção, batendo na mesa com

tudo o que estava à mão. Cucodalek olhava avidamente para o saco de pele de cabra, decerto

encantado com a possibilidade de os horripilantes sons dele emitidos aumentarem seu repertório.

– Chociebuz foi minha primeira batalha – explicou Calanthe, olhando para Geralt. – Embora tema

despertar a indignação e o desprezo do orgulhoso bruxo, confesso-lhe que lutamos por causa de

dinheiro. O inimigo incendiava os vilarejos que nos pagavam tributos, e nós, insensíveis e

gananciosos, em vez de permitir que isso continuasse, partimos para um enfrentamento. Motivo banal,

batalha banal e três mil cadáveres banais bicados por corvos. Mas olhe em volta. O que você vê? Em

vez de me sentir envergonhada, eis-me aqui, orgulhosa como um pavão por cantarem canções a meu

respeito, mesmo que seja ao som de uma música tão horrível e bárbara.

Calanthe voltou a estampar no rosto o enigmático sorriso cheio de felicidade e benevolência, e

passou a erguer a taça vazia, em resposta aos brindes feitos em sua homenagem. Geralt permanecia

calado.

– Mas continuemos – falou ela, aceitando graciosamente uma coxa de faisão oferecida por

Drogodar e começando a mordiscar nacos de carne. – Como estava dizendo, você despertou meu

interesse. Sempre me disseram que vocês, bruxos, eram uma casta interessante. Nunca acreditei muito

nisso, mas agora acredito. Ao serem golpeados, emitem um som que atesta que foram forjados em

aço, e não em excremento de passarinhos. No entanto, nada disso altera o fato de que você está aqui

para realizar uma tarefa e que a executará sem se fazer de sabichão.

Embora tivesse vontade de sorrir de maneira debochada e desagradável, Geralt manteve o

semblante calmo, ainda sem responder.

– Pensei – murmurou a rainha, parecendo estar totalmente concentrada na coxa do faisão – que

você fosse dizer alguma coisa ou, pelo menos, dar um sorriso. Não vai? Tanto melhor. Posso

considerar nosso trato fechado?

– Uma tarefa que não está clara – respondeu o bruxo, seco – não pode ser executada claramente,

Majestade.

– E o que não está claro? Você não adivinhou tudo, desde o princípio? Efetivamente, planejo uma

aliança com Skellige por meio do casamento de minha filha Pavetta. Também não se enganou em sua

suposição de que esses planos estão ameaçados e, também, em sua conjectura de que você será

necessário para eliminar essa ameaça. Entretanto, sua sagacidade termina aí. O fato de você ter

pensado que eu pudesse confundir sua profissão com a de um assassino de aluguel magoou-me

profundamente. Quero que saiba que faço parte do seleto grupo de soberanos que sabem exatamente

de que se ocupam os bruxos e para que devem ser contratados. De outro lado, se alguém mata pessoas com tanta habilidade quanto você, mesmo que não seja em troca de dinheiro, não deveria se espantar

com o fato de muitas pessoas lhe atribuírem grande profissionalismo também nesse campo. Sua fama,

Geralt, o precede, e ela é mais alta do que o maldito bramido de cabra de Draig Bom-Dhu. E, da

mesma forma, não há nela muitas notas agradáveis.

O gaiteiro, embora não pudesse ter ouvido as palavras da rainha, acabou seu concerto. Os

comensais recompensaram-no com uma ovação caótica e, com ânimos renovados, concentraram-se

em destruir as sobras de comida e bebida, em dissecar o desenrolar das mais diversas batalhas e em

contar piadas grosseiras a respeito de mulheres. Cucodalek emitia os mais diferentes sons, e não se

podia afirmar se eram imitações de animais ou alívios de seu estômago empanturrado.

Eist Tuirseach inclinou-se sobre a mesa na direção de Calanthe.

– Majestade, com certeza deve haver um motivo muito sério para dedicar todo o seu tempo

exclusivamente ao Senhor de Quatrocorne, mas acredito que está mais do que na hora de alegrarmos

nossos olhos com a visão da princesa Pavetta. Estamos esperando o quê? Não creio que seja para

Crach an Craite se embriagar por completo, e falta pouco para isso.

– Como de costume, você está certo, Eist – respondeu Calanthe, sorrindo calorosamente.

Geralt não deixava de se espantar com o vasto arsenal de sorrisos da rainha.

– É verdade que tenho assuntos importantes para discutir com o distinto senhor Ravix – ela

continuou. – Mas não se preocupe; também lhe dedicarei bastante tempo. Só que você conhece meu

princípio: primeiro o dever, depois o prazer. Senhor Haxo! – chamou, erguendo o braço e fazendo um

sinal ao castelão.

Haxo se levantou de imediato, fez uma reverência e, sem dizer uma palavra, subiu rapidamente as

escadas, desaparecendo na escura galeria. A rainha voltou-se novamente para o bruxo.

– Você ouviu? Passamos tempo demais conversando. Se Pavetta já terminou de ficar se admirando

no espelho, aparecerá a qualquer momento. Portanto, abra bem os ouvidos, pois não pretendo repetir.

Quero obter o que planejei, que você adivinhou em parte. Não pode haver outra solução. Quanto a

você, tem duas opções: agir obedecendo a uma ordem minha… não creio que valha a pena entrar em

detalhes quanto às penalidades derivadas de uma desobediência, estando subentendido que a

obediência será recompensada regiamente… ou prestar-me um serviço pago. Note que não usei a

expressão “Posso comprá-lo”, porque decidi não ferir seu orgulho de bruxo. Espero que reconheça a

enorme diferença.

– A magnitude dessa diferença me escapou de alguma maneira.

– Então fique mais atento quando eu estiver falando com você. A diferença, meu caro, reside no

fato de que, ao comprarmos alguém, pagamos o que queremos, enquanto aquele que presta um serviço

pago define seu preço. Ficou claro?

– Apenas em parte. Suponhamos que eu escolha a forma de prestação de um serviço pago. Nesse

caso, não deveria ser informado em que consiste tal serviço?

– Não, não deveria. Uma ordem, sim, tem de ser concreta e inequívoca. Já um serviço pago é outra

situação. O que me interessa é apenas o resultado. Nada mais. Como você o atingirá é problema seu.

Ao erguer a cabeça, Geralt se defrontou com o olhar penetrante de Myszowor. O druida de

Skellige, sem desviar os olhos do bruxo e parecendo imerso em pensamentos, esfarelava um pedaço de

pão entre os dedos, deixando cair as migalhas sobre a mesa. Geralt abaixou a vista. Diante dele, sobre

o tampo de carvalho da mesa, as migalhas, os grãos de cevada e pequenos fragmentos vermelhos da

carapaça de um crustáceo moviam-se rapidamente como formigas. Formavam runas. As runas se

juntaram por um momento, formando uma palavra, uma pergunta. 

Myszowor aguardava, sem desgrudar os olhos dele. Geralt fez um quase imperceptível movimento

com a cabeça. O druida abaixou as pálpebras e, com rosto impassível, recolheu as migalhas da mesa.

– Nobres senhores! – anunciou o arauto. – Pavetta de Cintra.

Os convidados se calaram, virando a cabeça na direção da escadaria.

Precedida pelo castelão e por um pajem vestido com um gibão escarlate, a princesa descia as

escadas devagar, com a cabeça abaixada. Seus cabelos eram da mesma cor acinzentada que os da mãe,

mas estavam entrelaçados em duas longas tranças que lhe chegavam à cintura. Com exceção de um

delicado diadema com uma pedra preciosa belamente lapidada e um cinto formado por pequenos elos

de ouro cingindo um longo vestido azul-prateado, Pavetta não portava outros adornos.

Escoltada pelo pajem, pelo arauto, pelo castelão e por Vissegerd, a princesa ocupou a cadeira vaga

entre Drogodar e Eist Tuirseach. O guerreiro insular imediatamente encheu sua taça, entretendo-a com

uma conversa. Geralt notou que ela respondia apenas com monossílabos, mantendo os olhos sempre

abaixados, cobertos pelos longos cílios, mesmo durante os diversos brindes erguidos em sua

homenagem das várias partes da mesa. Era evidente que sua beleza causara profunda impressão nos

convidados. Crach an Craite parou de esbravejar e, boquiaberto, ficou olhando para ela, esquecendo-se

até da caneca de cerveja. Windhalm de Attre devorava a princesa com o olhar, corando com toda a

gama de tons de vermelho, como se apenas alguns grãos de areia na ampulheta os separassem da noite

de núpcias. Cucodalek e os três irmãos de Strept também estudavam, com atenção altamente suspeita,

o delicado rosto da jovem.

– E então? – indagou baixinho Calanthe, claramente feliz com o efeito causado pela filha. – O que

me diz, Geralt? A menina saiu à mãe, sem falsa modéstia. Chega a me dar pena ter de entregá-la a

Crach, aquele ruivo insosso. Minha única esperança é esse garoto crescer e se transformar em alguém

com a classe de Eist Tuirseach. Afinal, são do mesmo sangue. Está me ouvindo, Geralt? Cintra precisa

firmar uma aliança com Skellige, porque assim demanda o interesse do Estado. Minha filha deve se

casar com o homem certo, e é exatamente isso que você tem de me garantir.

– E cabe-me garantir uma coisa dessas? Não basta o desejo de Vossa Majestade?

– A questão pode adquirir um rumo que não bastará.

– E o que poderia ser mais forte do que o desejo de Vossa Majestade?

– O destino.

– Ah! Quer dizer que eu, um pobre bruxo, devo enfrentar um destino mais poderoso do que um

desejo real. Um bruxo lutando contra o destino! Quanta ironia!

– O que há de irônico nisso?

– Não vem ao caso. Tudo indica que a tarefa que Vossa Majestade requer de mim beira o

impossível.

– Caso beirasse o possível – falou lentamente a rainha –, eu poderia realizá-la sozinha, sem

precisar do famoso Geralt de Rívia. Pare de bancar o manhoso. Tudo pode ser resolvido. É apenas uma

questão de preço. Com todos os diabos, os bruxos devem ter uma tabela tarifária com o valor a ser

cobrado por algo que beira o impossível… e imagino que seja bastante elevado. Cumpra a tarefa e eu

lhe darei o que você pedir.

– O que Vossa Majestade acabou de dizer?

– Que lhe darei aquilo que você pedir. Não gosto quando alguém me ordena repetir. Pergunto-me

se você, bruxo, sempre se esforça tanto para antagonizar seu contratante como tem se esforçado

comigo antes de aceitar um trabalho. O tempo urge. Responda de uma vez: sim ou não?

– Sim.

– Muito bem. Muito bem, Geralt. Suas respostas estão ficando bastante próximas de ideais; cada

vez mais se parecem com as que espero ouvir quando faço uma pergunta. E, agora, estenda

discretamente seu braço esquerdo e tateie a parte de trás do encosto de meu trono.

Geralt enfiou a mão debaixo do pano azul-dourado. Quase imediatamente seus dedos tocaram em

uma espada presa ao encosto coberto de couro, uma espada que ele conhecia muito bem.

– Majestade – falou baixinho –, deixando de lado tudo o que falei sobre matar seres humanos,

espero que tenha consciência de que apenas uma espada não será capaz de derrotar o destino.

– Tenho – respondeu Calanthe. – É necessário também um bruxo para empunhá-la. Como você

pode constatar, já providenciei essa parte.

– Majestade…

– Nem mais uma palavra, Geralt. Já conspiramos demais. Estão olhando para nós e Eist está

ficando aborrecido. Converse um pouco com o castelão, coma e beba algo… mas sem exagero. Quero

você atento e com a mão firme.

Geralt obedeceu. A rainha juntou-se à conversação mantida por Eist, Vissegerd e Myszowor, com

a silenciosa e sonolenta participação de Pavetta. Drogodar deixou de lado o alaúde e tratou de

recuperar o tempo de comilança perdido. Haxo mantinha-se calado. O voivoda de nome difícil de

guardar, que pelo visto ouvira alguns comentários sobre problemas enfrentados por Quatrocorne,

indagou polidamente se as éguas pariam bem, ao que Geralt respondeu que sim, muito melhor que os

garanhões. Não soube avaliar se sua piada foi bem-aceita, mas o voivoda não fez mais pergunta

alguma.

Os olhos de Myszowor continuavam procurando manter contato com os do bruxo, porém as

migalhas não voltaram a se mover sobre o tampo da mesa.

Crach an Craite estava ficando cada vez mais íntimo de dois dos irmãos de Strept. O terceiro, o

mais jovem, estava quase em coma alcoólico depois de tentar acompanhar o ritmo de beber de Draig

Bom-Dhu, enquanto o poeta parecia ter saído totalmente ileso da contenda.

Na outra extremidade da mesa, os mais jovens e menos importantes dignitários, bastante alegres,

entoavam, desafinados, uma conhecida canção sobre um cabrito cornudo e uma vingativa vovozinha

desprovida de senso de humor.

Um pajem de cabelos encaracolados e o capitão da guarda real, ambos com trajes nas cores azul e

dourado de Cintra, aproximaram-se apressadamente de Vissegerd. O marechal ouviu-os com o cenho

franzido, ergueu-se e, aproximando-se do trono, inclinou-se e sussurrou algo no ouvido da rainha.

Calanthe lançou uma olhadela para Geralt e respondeu ao marechal com uma só palavra. Vissegerd

inclinou-se ainda mais e sussurrou novamente; a rainha olhou para ele de modo severo e, sem dizer

mais nada, bateu com a palma da mão no braço do trono. O marechal fez uma reverência e repetiu a

ordem real ao capitão da guarda. Geralt não conseguiu ouvir, mas notou que Myszowor agitou-se na

cadeira e olhou para Pavetta. A princesa permanecia sentada imóvel, com a cabeça abaixada.

No salão ecoaram fortes passadas, com sons metálicos que puderam ser claramente ouvidos apesar

da reinante algazarra. Todos se calaram, erguendo e virando a cabeça.

A figura que se aproximava estava metida numa armadura feita de uma combinação de chapas

metálicas com couro encerado. Um protuberante, granuloso e multifacetado peitoral esmaltado em

negro e azul sobrepunha-se parcialmente a uma espécie de avental segmentado e curto que protegia as

coxas. As couraçadas ombreiras estavam cobertas de pontas de aço afiadas como espinhos, e o elmo,

com viseira gradeada, tinha o formato do focinho de um cachorro, também cheio de aguilhões como a

casca de uma castanha.

Com estrondo e rangidos metálicos, o estranho visitante aproximou-se da mesa e parou imóvel diante do trono.

– Insigne rainha, nobres cavaleiros – falou o recém-chegado através da viseira, executando uma

reverência desajeitada. – Perdoem-me por perturbar seu banquete festivo. Sou Ouriço de Erlenwald.

– Seja bem-vindo, Ouriço de Erlenwald – disse lentamente Calanthe. – E sente-se a nossa mesa.

Em Cintra, sempre acolhemos com prazer qualquer visitante.

– Agradeço a Vossa Majestade – respondeu Ouriço de Erlenwald, inclinando-se mais uma vez e

batendo no peito com o punho enfiado numa luva de aço –, mas não vim a Cintra como visitante, e sim

para resolver um assunto muito importante, que não pode ser adiado. Com a permissão de Vossa

Majestade, vou expô-lo imediatamente, evitando assim desperdiçar seu precioso tempo.

– Ouriço de Erlenwald – falou rispidamente a rainha –, sua mui louvável preocupação com nosso

tempo não pode justificar a falta de respeito ao falar comigo de trás de uma treliça metálica. Portanto,

tire o elmo. Estamos dispostos a perder o tempo que você precisar para isso.

– Com a permissão de Vossa Majestade, por ora meu rosto tem de ficar oculto.

Sussurros de desagrado percorreram pelos presentes, reforçados aqui e ali por um palavrão dito

entre os dentes. Myszowor abaixou a cabeça e mexeu os lábios sem emitir um som. O bruxo sentiu o

feitiço agitar seu medalhão, eletrizando por um breve segundo o ambiente. Calanthe olhava para

Ouriço com os olhos semicerrados, tamborilando os dedos nervosamente nos braços do trono.

– Muito bem, dou-lhe minha permissão – disse por fim –, querendo crer que a razão de sua atitude

é de fato muito importante. Assim, conte-nos o que o traz aqui, Ouriço sem rosto.

– Agradeço a permissão – falou o recém-chegado. – No entanto, não podendo suportar a acusação

de falta de respeito para com Vossa Majestade, desejo esclarecer que se trata de um juramento de

cavaleiro. Estou proibido de revelar meu rosto antes do soar da meia-noite.

A rainha fez um gesto desleixado com a mão, indicando que aceitava a explicação. Ouriço deu um

passo à frente, fazendo ranger a armadura de pontas aguçadas.

– Há exatamente quinze anos – anunciou – o marido de Vossa Majestade, o rei Roegner, perdeu-se

numa caçada em Erlenwald. Vagando pela floresta, caiu do cavalo num barranco e quebrou a perna.

Jazendo no fundo do desfiladeiro, gritou por ajuda, mas apenas lhe responderam o silvo de serpentes e

o uivo dos lobisomens que se aproximavam. Teria perecido inevitavelmente caso não tivesse sido

socorrido.

– Sei que foi assim – confirmou a rainha. – E, se você também sabe disso, imagino que foi você

quem lhe prestou socorro.

– Sim. Foi exclusivamente graças a mim que ele pôde retornar são e salvo a seu castelo e a Vossa

Majestade.

– O que significa que devo lhe ser grata, Ouriço de Erlenwald, e quero que saiba que minha

gratidão não é diminuída pelo fato de Roegner, o senhor de meu coração e de meu leito, já ter partido

deste mundo. Gostaria de saber de que maneira poderei demonstrar minha gratidão; no entanto, temo

que, para um cavaleiro andante que faz juramentos de cavaleiro e que conduz todos seus atos de

acordo com os cânones da cavalaria, tal pergunta possa soar ofensiva. Tenho a convicção, porém, de

que sua ajuda foi desinteressada.

– Vossa Majestade sabe muito bem que não foi desinteressada, assim como sabe que vim aqui em

busca da recompensa prometida pelo rei por ter-lhe salvado a vida.

– Ah, é? – Calanthe sorriu, mas em seus olhos brilhavam perigosas chamas esverdeadas. – Quer

dizer que você encontrou o rei caído no fundo de um desfiladeiro. Ele estava desarmado, ferido e

exposto à sanha de víboras e monstros, e você resolveu ajudá-lo somente depois de ele lhe prometer uma recompensa? E se ele não quisesse ou não pudesse prometer uma recompensa? O que teria feito?

Você o abandonaria, e eu até hoje não saberia onde repousariam seus ossos? Sem dúvida alguma, sua

atitude naquele momento deve ter sido regida por um muito estranho voto de cavaleiro andante.

O murmúrio entre os convivas cresceu consideravelmente.

– E hoje você resolveu vir buscar sua recompensa, Ouriço? – continuou a rainha, sorrindo de

maneira cada vez mais ameaçadora. – Após quinze anos? Você andou calculando os juros acumulados

nesse tempo todo sobre o valor que lhe foi prometido? Não estamos num banco de gnomos, Ouriço.

Você afirma que Roegner lhe prometeu uma recompensa? Vai ser muito difícil convocá-lo para que

ele lhe pague. Será muito mais simples despachar você ao encontro dele, para o outro mundo. Ali

vocês poderão chegar a um acordo sobre quem deve a quem. Amei por demais meu marido, Ouriço,

para deixar de pensar que poderia tê-lo perdido há quinze anos caso ele não tivesse concordado

negociar com você. Tais pensamentos despertam em mim sentimentos não muito simpáticos a sua

pessoa. Você se dá conta, seu intruso mascarado, de que neste instante, aqui, em Cintra, em meu

castelo e em meu poder, você está tão indefeso quanto esteve Roegner no desfiladeiro? O que tem a

me propor? Que tipo de recompensa você me dará para que lhe prometa que sairá vivo daqui?

O medalhão no pescoço de Geralt vibrou forte. O bruxo captou o claramente preocupado olhar de

Myszowor. Meneou de leve a cabeça e ergueu as sobrancelhas, numa muda indagação. O druida

também meneou a cabeça num quase imperceptível sinal de negação e com a barba apontou para

Ouriço. Geralt não estava convencido.

– As palavras de Vossa Majestade – respondeu Ouriço – foram calculadas para me assustar, além

de despertar a raiva dos distintos cavaleiros aqui presentes e o desprezo de Pavetta. Mas, acima de

tudo, elas não representam a verdade, e Vossa Majestade sabe disso muito bem!

– Em outras palavras, minto como um cão – retrucou Calanthe, com um esgar desagradável.

– Vossa Majestade sabe muito bem – continuou calmamente o recém-chegado – o que se passou

em Erlenwald àquela época. Sabe que o rei Roegner, de livre e espontânea vontade, jurou me dar

qualquer coisa que eu pedisse. Convoco todos aqui presentes para testemunhar o que vou declarar!

Quando o rei, já fora de perigo e de volta a seu séquito, indagou mais uma vez o que eu queria, dei-lhe

a resposta. Pedi-lhe que me prometesse dar aquilo que encontraria ao retornar a casa, algo do qual ele

não tinha conhecimento e que não esperava. O rei me jurou que assim seria feito. E, ao retornar ao

castelo, encontrou Vossa Majestade dando à luz uma menina. Sim, rainha, esperei por esses quinze

longos anos, e os juros de minha recompensa foram crescendo. Hoje, ao olhar para a bela Pavetta,

constato que valeu a pena esperar. Distintos cavaleiros! Alguns de vocês vieram a Cintra para pleitear

a mão de Pavetta. Pois sinto informá-los de que vieram à toa. Pelo poder do juramento real, Pavetta

pertence a mim desde o dia de seu nascimento!

Uma onda de exclamações emanou dos presentes. Uns gritavam, outros praguejavam, outros ainda

batiam com os punhos cerrados na mesa, derrubando pratos e jarros. Lugamonte de Strept arrancou

uma faca espetada na coxa de um carneiro assado e ficou brandindo-a no ar. Crach an Craite, meio

agachado, tentava arrancar uma tábua do suporte da mesa.

– Isso é inaceitável! – gritou Vissegerd. – Que provas você tem? Queremos provas!

– O rosto da rainha – vociferou Ouriço, apontando para Calanthe com a mão enfiada na luva de aço

– é a mais eloquente das provas!

Pavetta permanecia sentada imóvel, sem erguer a cabeça. O ar estava ficando espesso de maneira

muito estranha. O medalhão do bruxo agitava-se violentamente por baixo da túnica. Geralt viu a

rainha fazer um gesto para um dos pajens postado atrás do trono e sussurrar-lhe uma ordem no ouvido.

Não conseguiu ouvir, mas ficou intrigado com o ar de espanto no rosto do garoto e com a necessidade de a ordem ser repetida. O pajem correu na direção da porta de saída.

A agitação em torno da mesa não cessava. Eist Tuirseach virou-se para a rainha.

– Calanthe – falou, calmo –, é verdade o que ele está dizendo?

– Mesmo que fosse – respondeu ela, mordendo os lábios e puxando nervosamente a borda do xale

esmeraldino que lhe cobria os ombros –, que diferença faria?

– Se ele está falando a verdade – observou Eist, franzindo o cenho –, a promessa tem de ser

cumprida.

– Ah, é?

– Devo entender – indagou soturnamente o ilhéu – que você trata todas as promessas de maneira

superficial, inclusive as que ficaram profundamente gravadas em minha memória?

Geralt, que jamais imaginara ver Calanthe enrubescida, com os olhos marejados e com os lábios

trêmulos, ficou surpreso.

– Eist – sussurrou ela. – Isto é diferente…

– Será mesmo?

– Ah, seu filho de uma cadela! – gritou inesperadamente Crach an Craite, erguendo-se de um pulo.

– O último paspalhão que afirmou que fiz algo à toa acabou destroçado pelos caranguejos no fundo da

baía de Allenker! Não vim de Skellige até aqui para voltar de mãos abanando! Apareceu um

concorrente, um vagabundo sem eira nem beira. Ei! Alguém traga minha espada e entregue uma a esse

palhaço! Já vamos ver quem…

– Dá para calar a boca, Crach? – falou sarcasticamente Eist, apoiando os punhos no tampo da

mesa. – Draig Bom-Dhu! Faço-o responsável pelo comportamento do sobrinho do rei!

– E você pretende silenciar-me também, Tuirseach? – exclamou Rainfarn de Attre, levantando-se

da cadeira. – Quem ousará me deter de lavar com sangue a falta de respeito demonstrada para com

meu príncipe e seu filho, Windhalm, o único dos presentes digno da mão e do leito de Pavetta?

Tragam as espadas! Vou demonstrar aqui e agora a esse Ouriço, ou como for que seja chamado, de que

modo nós, os orgulhosos habitantes de Attre, vingamos tais ofensas! Gostaria de saber se há alguém

ou algo capaz de refrear meu intento!

– Sim, há. O respeito por boas maneiras – respondeu calmamente Eist Tuirseach. – Não cabe aqui

causar tumulto nem desafiar quem quer que seja sem a autorização da dona desta casa. Afinal,

estamos na sala do trono de Cintra ou numa taberna na qual se pode meter a mão na cara ou esfaquear

alguém a seu bel-prazer?

Todos voltaram a gritar, cada um com mais força, até silenciarem por completo ao ouvir o

enfurecido bramido de um bisão furibundo.

– Sim – falou Cucodalek, pigarreando e levantando-se da cadeira –, Eist se enganou. Isto aqui nem

parece uma taberna, mas um jardim zoológico, no qual um bisão se sentiria à vontade. Distinta

Calanthe, permita-me expressar o meu ponto de vista sobre o problema com o qual nos defrontamos.

– Pelo que vejo, são muitos os que têm os mais divergentes pontos de vista sobre o problema em

pauta e os expressam mesmo sem ter pedido minha opinião – respondeu Calanthe. – O que me causa

espécie é a falta de interesse em saber qual é o meu ponto de vista. Pois saibam que é mais provável

este castelo desabar sobre minha cabeça do que eu entregar Pavetta a esse tipo bizarro. Não tenho a

mínima intenção…

– O juramento de Roegner… – começou Ouriço, mas a rainha interrompeu-o imediatamente,

batendo na mesa com uma taça de ouro.

– O juramento de Roegner significa para mim o mesmo que a neve do inverno passado! Quanto a você, Ouriço, ainda não me decidi se permitirei a Crach ou a Roegner que o enfrente num duelo ou

simplesmente mandarei enforcá-lo. Ao me interromper quando estou falando, você influencia de

modo significativo minha decisão!

Ao olhar em volta, Geralt, cada vez mais perturbado com o alvoroço de seu medalhão, cruzou com

os olhos de Pavetta, verdes-esmeraldas como os da mãe. A princesa já não os ocultava debaixo dos

longos cílios; dirigia-os ora para Myszowor, ora para Geralt, sem se importar com as outras pessoas.

Myszowor agitava-se encolhido sobre a cadeira, murmurando algo inaudível.

Cucodalek, ainda de pé, pigarreou alto.

– Pode falar – disse a rainha –, mas seja preciso e breve.

– Obrigado, Majestade. Venerável Calenthe e bravos cavaleiros! Com efeito, Ouriço de Erlenwald

fez um pedido fora do comum ao rei Roegner, quando este declarou que atenderia a qualquer desejo

seu. Por outro lado, não devemos fingir que nunca ouvimos falar de pedidos semelhantes na tão antiga

quanto a humanidade Lei da Surpresa, do preço a que tem direito de demandar aquele que salva a vida

de alguém que se encontra numa situação aparentemente desesperadora. “Você me dará a primeira

coisa que lhe desejar boas-vindas quando chegar.” Vocês dirão que tal coisa poderia ser um cachorro,

o alabardeiro do portão do castelo ou até mesmo uma sogra ansiosa para passar uma descompostura no

genro que retorna a casa. Ou então: “Você me dará aquilo que encontrar em casa, algo que não

esperava.” Após uma longa viagem e um retorno inesperado, meus senhores, na maior parte das vezes

tal imprevisto costuma ser um amante no leito da esposa. Mas em outros casos trata-se de uma

criança… uma criança marcada pelo destino.

– Diga logo aonde quer chegar, Cucodalek – irritou-se Calanthe, franzindo o cenho.

– Pois não, Majestade. Meus senhores! Vocês nunca ouviram falar de crianças marcadas pelo

destino? Do lendário herói Zatret Voruta, entregue aos gnomos por ter sido o que seu pai viu primeiro

ao retornar à fortaleza? E de Deï, o Louco, que exigiu de um viajante que lhe entregasse o que deixara

em casa e de cuja existência não sabia? A surpresa foi o famoso Supree, que, anos mais tarde, livrou

Deï de uma maldição que pesava sobre ele. Lembrem-se, também, de Zivelena, que se tornou rainha

de Metinna graças ao gnomo Reuplestelt, a quem prometeu entregar seu primogênito. Zivelena não

cumpriu a promessa quando Reuplestelt foi buscar sua recompensa, obrigando-o a fugir com feitiços.

Pouco tempo depois, tanto ela como a criança morreram de peste negra. Não se brinca impunemente

com o destino!

– Não me meta medo, Cucodalek – falou Calanthe, fazendo uma careta. – É quase meia-noite, a

hora dos fantasmas. Você se lembra de mais algumas lendas de sua indubitável sofrida infância? Se

não, sente-se e fique calado.

– Rogo que Vossa Majestade me permita ficar mais um pouco de pé – respondeu o barão, torcendo

o comprido bigode. – Gostaria de lembrar-lhes de mais uma lenda, antiga e já esquecida, mas que

certamente todos nós ouvimos em nossa sofrida infância. Nessa lenda, os reis cumpriam suas

promessas. Quanto a nós, pobres vassalos, a única coisa que nos une aos monarcas é a força de sua

palavra: é nela que se baseiam os tratados, as alianças, nossos privilégios e nossos feudos. E então?

Devemos colocar tudo isso em dúvida? Duvidar da inviolabilidade da palavra real? Chegar a ponto de

ela significar tanto quanto a neve do ano anterior? Efetivamente, meus senhores, se for assim, então

aguarda-nos uma velhice ainda mais difícil que a infância!

– Afinal, você está do lado de quem, Cucodalek? – exclamou Rainfarn de Attre.

– Silêncio! Deixem-no falar!

– Esse cacarejador de meia-tigela insulta Sua Majestade.

– O barão de Tigg está certo!

– Silêncio! – falou repentinamente Calanthe, levantando-se. – Deixem-no terminar.

– Agradeço profundamente – inclinou-se Cucodalek –, mas já terminei.

O salão ficou em silêncio, contrastando com a comoção causada pelas palavras do barão. Calanthe

continuava de pé. Geralt achou que ninguém notara o tremor de sua mão quando ela enxugou a testa.

– Meus senhores – disse finalmente –, creio que lhes devo uma explicação. Sim, esse… Ouriço…

está dizendo a verdade. Roegner realmente lhe prometeu aquilo que ele não esperava. Nosso saudoso

rei parece ter sido um ignorante em assuntos femininos e não sabia contar até nove. E me revelou essa

história apenas no leito de morte, porque sabia muito bem o que eu lhe faria caso tivesse confessado

antes sua promessa. Ele sabia do que seria capaz uma mãe de cujo filho se dispõe com tamanho

desleixo.

Os cavaleiros e os magnatas permaneceram calados. Ouriço continuava imóvel, como uma

espinhosa estátua metálica.

– Quanto a Cucodalek – retomou Calanthe –, o que posso dizer? Lembrou-me de que não sou mãe,

mas rainha. Diante disso, convocarei amanhã o Conselho de Ministros. Cintra não é uma tirania. O

Conselho discutirá se o juramento do falecido rei pode prevalecer ao destino da sucessora do trono.

Vai decidir se ela e o trono de Cintra devem ser entregues a esse vagabundo ou agir de acordo com os

interesses maiores do reino.

Calanthe silenciou por um momento, olhando de soslaio para Geralt.

– No que se refere aos distintos cavaleiros que vieram a Cintra com a esperança de conseguir a

mão da princesa… só me resta expressar meu pesar pelo desrespeito e desonra aos quais foram aqui

submetidos. Não posso ser culpada por eles terem sido tão ridicularizados.

No meio do murmúrio que percorreu a mesa, o bruxo captou o sussurro de Eist Tuirseach:

– Por todos os deuses do mar, isso não está certo. É um evidente convite a um derramamento de

sangue. Calanthe, você simplesmente os está açulando…

– Cale-se, Eist – sibilou a rainha. – A não ser que me queira ver furiosa de verdade.

Os olhos negros de Myszowor brilharam quando ele os apontou para Rainfarn de Attre, que estava

prestes a se levantar, com semblante sombrio. Geralt reagiu de imediato, erguendo-se antes dele e

propositadamente derrubando a cadeira com estrondo.

– Talvez não seja necessário convocar o Conselho – falou em alto e bom som.

Todos se calaram, olhando espantados para ele. Geralt sentiu sobre si os olhos esmeraldinos de

Pavetta, o olhar de Ouriço detrás da viseira do elmo e, acima de tudo, a Força, crescente como uma

onda, parecendo solidificar-se no ar. Via como, sob o efeito daquela Força, a fumaça das tochas e das

lamparinas começava a adquirir formas fantasmagóricas. Sabia que Myszowor também via aquilo,

assim como sabia que eles eram os únicos a notar tal fenômeno.

– Eu disse – repetiu calmamente – que talvez não seja necessário convocar o Conselho. Você sabe

o que tenho em mente, Ouriço de Erlenwald?

O espinhento guerreiro deu dois passos à frente.

– Sei – respondeu surdamente detrás da viseira do elmo. – Só um tolo não saberia. Ouvi o que

disse há pouco a bondosa e nobre rainha Calanthe. Ela encontrou um excelente meio de se livrar de

mim. Aceito seu desafio, desconhecido guerreiro.

– Não me lembro de tê-lo desafiado – retrucou Geralt. – Não tenho a intenção de duelar consigo,

Ouriço de Erlenwald.

– Geralt! – exclamou Calanthe, retorcendo os lábios e esquecendo-se de intitular o bruxo de “nobre

Ravix”. – Não estique demasiadamente a corda! Não teste o limite de minha paciência! 

– Nem o meu – acrescentou Rainfarn, ameaçador.

Crach an Craite apenas rosnou. Eist Tuirseach mostrou-lhe o punho fechado a título de

admoestação, mas Crach rosnou ainda mais alto.

– Todos ouviram – falou Geralt – o discurso do barão de Tigg, no qual ele mencionou famosos

heróis tirados de seus pais por força de juramentos semelhantes ao que Ouriço obteve do rei Roegner.

No entanto, ninguém se indagou por qual motivo, com qual intenção alguém exige um juramento de

tal teor. Você sabe a resposta, Ouriço de Erlenwald. Um juramento desses é capaz de criar um forte e

indissolúvel laço entre quem o demanda e seu objeto, ou seja, a criança-surpresa. Uma criança dessas,

escolhida pela sorte cega, pode ser predestinada a grandes feitos. Ela pode desempenhar papel muito

importante na vida daquele a quem o destino venha a unir. E foi exatamente por isso que você, Ouriço,

pediu a Roegner a recompensa que hoje veio buscar. Você não almeja o trono de Cintra. Você quer a

princesa.

– É exatamente como está dizendo, cavaleiro desconhecido – riu ruidosamente Ouriço. – É

exatamente isso que quero! Entreguem-me aquela que é meu destino!

– Isso – disse Geralt – é algo que ainda terá de ser comprovado.

– Você ousa duvidar? Depois de a rainha ter confirmado a veracidade de minhas palavras? Depois

do que você mesmo acabou de dizer?

– Sim, porque você não nos contou tudo. Roegner, caro Ouriço, conhecia bem o poder da Lei da

Surpresa e a gravidade do juramento que prestou. E ele o prestou porque sabia que a lei e os costumes

protegem juramentos desse tipo, assegurando que sejam cumpridos quando confirmados pela força do

destino. Assim, eu afirmo, Ouriço, que por enquanto você não tem nenhum direito à princesa e que

somente o adquirirá quando…

– Quando o quê?

– Quando a princesa concordar em partir com você. É isso que consta na Lei da Surpresa. É a

concordância da criança, e não a dos pais, que confirma o juramento e comprova que ela realmente

nasceu à sombra do destino. E você veio para cá somente depois de quinze anos, Ouriço, porque foi

essa a condição que o rei Roegner introduziu em sua promessa.

– Quem é você?

– Sou Geralt de Rívia.

– E quem é você, Geralt de Rívia, para intitular-se oráculo na área de costumes e leis?

– Ele conhece a Lei da Surpresa melhor do que qualquer um – falou Myszowor –, porque ela foi

aplicada a seu caso. Ele foi levado de casa por ser aquele que o pai não esperava encontrar em seu

retorno. Por ter sido predestinado a outras coisas e pela força do destino, tornou-se o que é.

– E o que ele é?

– Um bruxo.

No silêncio que se seguiu, o sino da casa da guarda soou soturnamente, anunciando meia-noite.

Todos estremeceram e ergueram a cabeça. Myszowor olhou para Geralt fazendo uma careta de

profundo espanto, mas entre todos quem mais estremeceu foi Ouriço. As mãos cobertas por luvas de

aço caíram inertes ao longo do corpo e o espinhento elmo balançou-se hesitantemente.

A estranha e desconhecida Força que preenchia o salão como uma neblina grisalha ficou mais

densa.

– É verdade – falou Calanthe. – O aqui presente Geralt de Rívia é um bruxo. Sua profissão é digna

de respeito e consideração. Ele se sacrificou para nos proteger dos monstros e pesadelos criados pela

noite e pelas ocultas forças sinistras. É ele quem mata os seres fantásticos e os monstros que nos espreitam nas florestas, bem como os que ousam adentrar nossas residências.

Ouriço permaneceu calado.

– Portanto – continuou a rainha, erguendo a mão cheia de anéis –, que se respeite a lei e que se

concretize a promessa cujo cumprimento você exige, Ouriço de Erlenwald. Já é meia-noite; você não

está mais preso a seu juramento de cavaleiro e pode tirar o elmo. Antes de minha filha expressar seu

desejo e decidir seu destino, nada mais justo que ela lhe veja o rosto. Aliás, todos nós gostaríamos de

vê-lo.

Ouriço de Erlenwald ergueu lentamente a mão blindada, desatou o fecho do elmo, tirou-o da

cabeça e o arremessou com estrondo no chão. Alguém gritou, outro praguejou e outro ainda aspirou o

ar sibilando com dificuldade. No rosto da rainha desenhou-se um perverso sorriso, um terrível e cruel

sorriso de triunfo.

Por cima do largo e semicircular peitoral de aço, parecendo botões negros, fitavam os presentes

dois olhos esbugalhados dispostos nas laterais de um rombudo e alongado focinho com longas presas

pontudas e pelos ruivos. A cabeça e a nuca da criatura parada no centro do salão eram cobertas de

curtos espinhos cinzentos em constante movimento.

– Eis minha aparência – falou a criatura –, algo que você, Calanthe, sabia muito bem. Roegner, ao

lhe contar o acidente que sofrera em Erlenwald, não poderia deixar de mencionar como era aquele a

quem devia a vida e a quem, apesar disso, fizera tal promessa. Você se preparou muito bem para

minha chegada, rainha. Sua desdenhosa e aviltante recusa em cumprir a palavra do rei foi repudiada

até mesmo por seus vassalos. Quando sua tentativa de atiçar contra mim os outros pretendentes

falhou, ainda se valeu de um bruxo assassino de reserva, sentado a sua direita. Por fim, um banal e

rasteiro embuste. Você quis me humilhar, Calanthe. Pois saiba que acabou humilhando a si mesma.

– Basta! – gritou a rainha, levantando-se e apoiando o punho cerrado no quadril. – Vamos acabar

com isto de uma vez. Pavetta! Você está vendo quem… mais precisamente o que está diante de nós

reivindicando sua mão. De acordo com os cânones da Lei da Surpresa e o costume secular, cabe a você

a decisão final. Portanto, fale. Basta apenas pronunciar uma só palavra. Se disser “sim”, você se

tornará a propriedade, um butim desse monstro. Se disser “não”, nunca mais terá de vê-lo.

A Força que pulsava no salão premia as têmporas de Geralt com um aperto férreo, zumbia em seus

ouvidos e eriçava seus cabelos. O bruxo olhava para as falanges dos dedos de Myszowor contraídas na

beira do tampo da mesa, para o fino filete de suor escorrendo pela face da rainha e para as migalhas de

pão espalhadas na mesa, que se moviam como vermes formando runas, desfazendo-se e voltando a se

agrupar, deixando um claro aviso: CUIDADO!

– Pavetta! Responda! – repetiu Calanthe. – Você quer partir com essa criatura?

Pavetta ergueu a cabeça.

– Sim.

A Força que preenchia o salão retumbou surdamente pela abóbada. Ninguém, absolutamente

ninguém, emitiu som algum.

Calanthe desabou devagar, muito devagar, no trono. Seu rosto estava desprovido de qualquer

expressão.

– Todos ouviram – no meio do silêncio sepulcral ouviu-se a calma voz de Ouriço. – Inclusive

você, Calanthe, e você, bruxo ganancioso e assassino de aluguel. Meus direitos foram ratificados. A

verdade e o destino triunfaram sobre a mentira e as artimanhas. O que lhes restou, nobre rainha e

bruxo disfarçado? O frio aço?

Ninguém respondeu.

– Meu maior desejo – continuou Ouriço, agitando os espinhos pontudos e as cerdas do focinho –

seria partir deste lugar com Pavetta o mais rápido possível. No entanto, não posso me negar um prazer

todo especial: o de você, Calanthe, trazer sua filha até aqui e colocar sua mão sobre a minha.

Calanthe girou lentamente a cabeça na direção do bruxo. Seus olhos emitiram uma ordem. Geralt

não se moveu, sentindo e vendo a Força suspensa no ar concentrando-se nele. Apenas nele. Então

compreendeu. Os olhos da rainha se semicerraram e seus lábios começaram a tremer…

– O quê?! O que você disse?! – urrou repentinamente Crach an Craite, erguendo-se de um pulo. –

A delicada mão de Pavetta sobre a desse monstro? A princesa com essa criatura fedorenta? Com

esse… focinho de porco?

– E pensar que eu quis lutar com ele como com um cavaleiro! – fez-lhe coro Rainfarn. – Com esse

espantalho, esse animal! Deixem que os cães se ocupem dele! Os cães!

– Guardas! – berrou Calanthe.

Depois, tudo se passou numa velocidade espantosa. Crach an Craite derrubou com estrondo uma

cadeira e agarrou uma faca da mesa. Obedecendo a uma ordem de Eist, o poeta Draig Bom-Dhu

desferiu-lhe um violento golpe com sua gaita de foles. Crach desabou sobre a mesa, entre uma

travessa de esturjão num molho acinzentado e as roídas costelas que sobraram de um javali assado.

Rainfarn correu na direção de Ouriço, fazendo brilhar o aço de um estilete que tirara da manga.

Cucodalek deu um pontapé num tamborete, atirando-o em seu caminho. Rainfarn conseguiu pular por

cima do obstáculo, mas o pequeno instante de distração bastou para Ouriço desviar-se agilmente,

derrubando o tutor do príncipe Windhalm com um possante golpe do punho couraçado. Cucodalek

logo se atirou sobre ele a fim de se apossar do seu estilete, no que foi impedido pelo príncipe

Windhalm, que se agarrou a sua coxa como um cão de caça.

Diversos guardas armados com alabardas e gládios entraram correndo no salão. Calanthe, ereta e

ameaçadora, apontou para Ouriço com um brusco gesto de comando. Pavetta começou a gritar, e Eist

Tuirseach, a praguejar. A essa altura, todos estavam de pé, sem saber ao certo o que fazer.

– Matem-no! – ordenou a rainha.

Ouriço, bufando furiosamente e arreganhando as presas, virou-se para enfrentar os guardas. Estava

desarmado, mas sua armadura de aço evitou que fosse perfurado pela ponta das alabardas. O impacto,

no entanto, o projetou para trás diretamente sobre Rainfarn, que acabava de se erguer e conseguiu

imobilizá-lo agarrando-o pelas pernas. Ouriço soltou um berro e, com as proteções dos antebraços,

aparava os golpes dos gládios desferidos sobre sua cabeça. Rainfarn tentou atingi-lo com o estilete,

porém a lâmina resvalou no peitoral de aço. Os guardas, cruzando as alabardas, empurraram Ouriço

contra a parede, e Rainfarn, pendurado em seu cinturão, conseguiu encontrar uma fresta na armadura e

enfiar nela a lâmina de seu punhal. Ouriço encolheu-se de dor.

– Dunyyyyy! – gritou Pavetta com voz aguda, saltando sobre uma cadeira.

O bruxo, munido de sua espada, pulou sobre a mesa e correu na direção dos que lutavam,

derrubando pelo caminho pratos, travessas e taças. Sabia que dispunha de pouco tempo. O grito de

Pavetta adquiria um tom cada vez mais sobrenatural, enquanto Rainfarn erguia o braço para desferir

outra punhalada.

Proferindo um palavrão, Geralt saltou da mesa e lhe desferiu um golpe com a espada. Rainfarn

emitiu um grito de dor e cambaleou até a parede. O bruxo girou sobre os calcanhares e, com a parte

central da lâmina, acertou um guarda que estava se preparando para enfiar a ponta do gládio numa

parte desprotegida logo abaixo do peitoral da armadura de Ouriço. O guarda desabou por terra,

deixando cair o capacete. Outros guardas adentraram o salão.

– Isto não está certo! – urrou Eist Tuirseach, que agarrou uma cadeira, destroçou-a no chão e, com o pedaço que lhe sobrou nas mãos, atirou-se contra eles.

Ouriço, ainda preso pelas lâminas em forma de meia-lua das alabardas dos guardas, gritava e

bufava ao ser arrastado pelo assoalho. Um terceiro guarda correu até ele e ergueu o gládio para

desferir um golpe. Geralt acertou-o numa das têmporas com a ponta da espada. Os dois que

arrastavam Ouriço largaram-no imediatamente, deixando cair as alabardas. Os que estavam entrando

no salão recuaram diante do pedaço de cadeira que Eist brandia como se fosse o mágico espadão

Balmur do lendário Zatret Voruta.

O grito de Pavetta atingiu o auge e repentinamente pareceu se interromper. Geralt, pressentindo o

que estava por vir, atirou-se no chão, captando com o canto dos olhos um lampejo esverdeado. Sentiu

uma forte dor nos tímpanos, ouvindo um terrível barulho e um brado de horror emanando de várias

gargantas. Depois, ficou no ar apenas o vibrante, uniforme e monótono grito da princesa.

A mesa levitou, espalhando pratos e comida por todos os lados. Pesadas cadeiras voaram pela sala,

despedaçando-se contra as paredes. Tapeçarias e gobelinos giraram, soltando nuvens de poeira. Da

porta provinham estrondos, gritos e secos estalos de cabos de alabardas se partindo.

O trono, com Calanthe nele sentada, foi projetado no ar e disparou como uma seta através do salão,

batendo com força numa parede e desfazendo-se em pedaços. A rainha desabou no chão como uma

boneca de pano. Eist Tuirseach, mal conseguindo manter-se de pé, correu até ela, ergueu-a nos braços

e protegeu-a com o corpo contra pedaços de reboco que, feito granizo, caíam das paredes.

Geralt, apertando o medalhão contra o peito, arrastou-se o mais rápido possível na direção de

Myszowor, que milagrosamente continuava ajoelhado e erguia um curto ramo de pilriteiro com uma

caveira de rato espetada na ponta. Na parede às costas do druida, o gobelino representando o cerco e o

incêndio da fortaleza de Ortagor ardia em chamas de verdade.

Pavetta uivava. Girando o corpo, desferia golpes com seu uivo como se fosse um chicote em tudo e

em todos a sua volta. Fazia qualquer um que tentasse se erguer cair pesadamente no piso e rolar por

ele ou bater com violência contra uma parede. Diante dos olhos de Geralt, uma enorme salseira de

prata esculpida em forma de galera com muitos remos e com proa pontuda silvou no ar, derrubando o

voivoda de nome complicado. O reboco do teto desabava sobre a mesa, que girava com Crach an

Craite deitado sobre o tampo vociferando os mais terríveis impropérios.

Geralt conseguiu arrastar-se até Myszowor, e ambos se esconderam por trás de uma barricada

formada por, de baixo para cima, Lugamonte de Strept, um tonel de cerveja, Drogodar, uma cadeira e

a gaita de foles de Drogodar.

– Trata-se da mais pura e primordial Força! – berrou o druida por cima da algazarra e gritaria. – E

ela não consegue dominá-la!

– Eu sei! – gritou de volta Geralt, enquanto um faisão assado que ainda conservava algumas das

penas enfiadas no traseiro caía sobre suas costas.

– É preciso detê-la! As paredes estão rachando!

– Estou vendo!

– Você está pronto?

– Sim!

– Um! Dois! Três!

Atacaram-na simultaneamente, Geralt com o Sinal de Aard e Myszowor com um terrível feitiço de

terceiro grau, o qual fez parecer que o piso do salão logo começaria a derreter. A cadeira sobre a qual

a princesa estava de pé espatifou-se no chão, desfazendo-se em dezenas de pedaços. Tal fato

aparentemente não teve efeito algum sobre Pavetta, que permaneceu flutuando dentro da transparente esfera esverdeada. Sem parar de gritar, virou-se na direção de Geralt e Myszowor, e seu rostinho

contorceu-se repentinamente numa careta ameaçadora.

– Com todos os demônios! – exclamou Myszowor.

– Cuidado! – gritou o bruxo. – Bloqueie-a, Myszowor! Bloqueie-a, senão será nosso fim!

A mesa desabou sobre o piso, destruindo seus pés e tudo o que se encontrava debaixo dela. Crach

an Craite, ainda deitado no tampo, foi atirado a mais de três braças de altura. Em volta, caiu uma

chuva de pratos e restos de comida, explodiram taças de cristal no chão e a cornija do muro se soltou e

tombou com estrondo de trovão, fazendo tremer o assoalho do castelo.

– Ela está soltando tudo! – berrou Myszowor, apontando o ramo de pilriteiro para a princesa. –

Está soltando tudo! Agora, toda a Força será dirigida contra nós dois!

Geralt, com um rápido movimento da espada, desviou a trajetória de um garfo de dois dentes que

voava na direção do druida.

– Bloqueie-a, Myszowor!

Os olhos esmeraldinos lançaram contra Geralt e Myszowor dois raios verdes, que se uniram numa

espécie de redemoinho, do qual emergiu a Força, como um aríete que esmaga crânios, apaga olhos e

retém a respiração. Com a Força, desabaram sobre eles cacos de vidro e de louça, candelabros, ossos

roídos, pedaços de pão, tábuas e ainda fumegantes toras da lareira. O castelão Haxo, mais parecendo

um gigantesco tetraz, passou voando por cima deles. Uma enorme cabeça de carpa cozida espatifou-se

no peito de Geralt, manchando o brasão com o campo dourado, o urso negro e a jovem de

Quatrocorne.

Mais possante que o terrível feitiço de Myszowor que fizera tremer as paredes, acima dos próprios

gritos, dos gemidos dos feridos e do berro de Pavetta, Geralt ouviu repentinamente o mais horripilante

som de toda sua vida.

Cucodalek, ajoelhado sobre os foles da gaita de Bom-Dhu, pressionava-os com as mãos e os

joelhos, enquanto, com a cabeça atirada para trás, urrava e berrava, grasnava e cacarejava, guinchava e

mugia, numa mistura de vozes de todos os animais, conhecidos e desconhecidos, selvagens e

domesticados, e até mitológicos.

Pavetta assustou-se, interrompeu o grito por um instante e, com olhos arregalados, encarou o

barão. A Força diminuiu repentinamente.

– Agora! – gritou Myszowor, agitando o ramo de pilriteiro. – Agora, bruxo!

Investiram contra ela ao mesmo tempo. A esverdeada esfera que cercava a princesa estourou sob o

ataque como se fosse uma bolha de sabão. O repentino vácuo sugou rapidamente a Força que se

revolvia no salão. Pavetta desabou pesadamente no chão e se pôs a chorar.

Após um instante de silêncio que chegou a doer nos ouvidos depois do pandemônio de momentos

antes, ouviram-se vozes emanando do meio dos escombros, mobília estraçalhada e corpos imóveis.

– Cuas o parse, ghoul y badaraigh mal na cuach – dizia Crach an Craite, respingando sangue dos

lábios feridos.

– Contenha-se, Crach – falou Myszowor, limpando a papa de aveia grudada na parte da frente de

seu traje. – Há damas presentes.

– Calanthe, minha adorada. Minha querida Calanthe! – repetia Eist Tuirseach por entre beijos

apaixonados.

A rainha abriu os olhos, mas não parecia fazer esforço algum para se livrar do abraço, dizendo

apenas:

– Eist, as pessoas estão olhando!

– Que olhem.

– Será que alguém pode me explicar o que foi aquilo? – indagou o marechal Vissegerd, emergindo

debaixo de uma tapeçaria jogada no chão.

– Não – respondeu o bruxo.

– Um médico! – gritou agudamente Windhalm de Attre, debruçado sobre o corpo de Rainfarn.

– Água! – berrou Múrmur, um dos irmãos de Strept, abafando com o gibão um dos gobelinos em

chamas. – Água, depressa!

– E cerveja! – pediu Cucodalek, com a voz rouca.

Os poucos guerreiros capazes de se manter de pé tentaram levantar Pavetta, mas ela se

desvencilhou deles, ergueu-se sozinha e, com passos cambaleantes, foi até a lareira, junto da qual

Ouriço, sentado com as costas apoiadas na parede, tentava livrar-se, desajeitado, da armadura

manchada de sangue.

– Ah, esses jovens de hoje! – rosnou Myszowor, olhando para o casal. – Eles começam muito cedo

e só têm uma coisa na cabeça.

– O quê?

– Então você, um bruxo, não sabe que uma donzela, ou seja, uma virgem, não teria o poder de usar

a Força?

– Estou pouco me lixando para sua virgindade – falou Geralt. – O que gostaria de saber é de onde

lhe vêm essas habilidades. Pelo que me consta, nem Calanthe nem Roegner…

– Ela as herdou saltando uma geração – explicou o druida. – Sua avó, Adália, conseguia erguer

uma ponte levadiça apenas com um leve movimento das sobrancelhas. Mas olhe para os dois, Geralt!

Ela quer mais!

Calanthe, ainda sustentada pelo braço de Eist Tuirseach, apontou para o ferido Ouriço, deixando

claro aos guardas que o atacassem. Geralt e Myszowor moveram-se rapidamente em sua direção para

protegê-lo, mas não foi preciso. Os guardas, assim que se aproximaram da figura apoiada na parede,

deram um salto para trás, sussurrando entre si.

O monstruoso focinho de Ouriço estava se desfazendo, perdendo os contornos. Os aguçados

espinhos e os pelos ruivos se transformaram numa vasta e brilhante cabeleira negra e numa barba da

mesma cor, que contornava um pálido e angular rosto másculo com um nariz proeminente.

– O quê… – gaguejou Eist Tuirseach. – Quem é essa pessoa? Ouriço?

– Duny – falou docemente Pavetta, enquanto Calenthe, com os lábios cerrados, virava a cabeça.

– Ele estava enfeitiçado? – indagou Eist, hesitante. – Se sim, então como…

– Soou meia-noite – disse o bruxo. – Agora; neste momento. As badaladas dos sinos que ouvimos

mais cedo foram dadas por erro do sineiro… não é verdade, Calanthe?

– É verdade, é verdade – respondeu Duny, e não a rainha, que, de todo modo, não aparentava ter a

mínima intenção de responder. – No entanto, peço-lhes que, em vez de falarem tanto, me ajudem a

tirar estas placas de aço e chamem um médico. Aquele louco de Rainfarn me feriu entre as costelas.

– E quem precisa de médico? – perguntou Myszowor, sacando seu milagroso ramo de pilriteiro.

– Já basta! – falou Calanthe, erguendo orgulhosamente a cabeça. – Chega! Quando terminarem

com isso, quero a presença de todos em meus aposentos. E, quando digo “todos”, refiro-me a Eist,

Pavetta, Myszowor, Geralt e você… Duny. Myszowor!

– Sim, Majestade.

– Será que esse seu ramo… Machuquei a coluna vertebral e a região que fica a sua volta.

– Às ordens de Vossa Majestade.

III

– … a maldição – continuou Duny, coçando a testa. – Desde a nascença. Nunca soube o que a

motivou e quem a lançou. De meia-noite até madrugada sou um homem normal, e a partir do

amanhecer adquiro a aparência que vocês mesmos puderam ver. Meu pai, Akerspaark, quis ocultar

esse fato, uma vez que em Maecht o povo é muito supersticioso e uma maldição na família real

poderia tornar-se fatal para a dinastia. Assim, abandonei o castelo na companhia de um dos guerreiros

de meu pai e fiquei vagando pelo mundo com ele. Após sua morte, passei a viajar sozinho. Não

consigo lembrar quem foi que me disse que a única pessoa capaz de me livrar da maldição seria uma

criança-surpresa. Pouco tempo depois, tive aquele encontro com Roegner… Quanto ao resto, vocês já

sabem.

– Sabemos ou podemos imaginar – falou Calanthe. – Principalmente o fato de você não ter

esperado os quinze anos acertados com Roegner e, antes disso, virou a cabeça de minha filha. Pavetta!

Desde quando?

A princesa abaixou a cabeça e ergueu um dedo.

– Vejam só, sua pequena feiticeira. E debaixo do meu nariz! Já vou descobrir quem foi que o

deixava entrar à noite no castelo! Mas antes deixe-me lidar com as damas da corte com as quais você

ia ao jardim colher primaveras. Primaveras! Pois sim! E agora, o que devo fazer com vocês?

– Calanthe… – começou Eist.

– Calma, Tuirseach. Ainda não terminei. Duny, a situação se complicou. Você está namorando

Pavetta há um ano, e daí? Daí, nada. Você arrancou aquela promessa do pai errado. O destino pregou￾lhe uma peça. Quanta ironia, como diria o aqui presente Geralt de Rívia.

– Pois eu pouco me importo com destino, promessas e ironias – afirmou Duny. – Pavetta e eu nos

amamos, e é só isso que conta. Mesmo com todo o seu poder real, não pode se interpor no caminho de

nossa felicidade.

– Pois saiba que posso, e você nem imagina quanto – respondeu Calanthe, dando um de seus

indecifráveis sorrisos. – Só que, para sua sorte, não quero. Tenho uma dívida para consigo. Por

aquilo… você sabe. Eu estava decidida a… Deveria pedir-lhe perdão, mas eis uma coisa que não me

apraz. Portanto, dou-lhe Pavetta e ficamos quites. Pavetta, não mudou de ideia?

A princesa negou veemente com a cabeça.

– Obrigado, Majestade. Muito obrigado – sorriu Duny. – Vossa Majestade é uma rainha sábia e

bondosa.

– Sei que sou. Além disso, sou bela.

– E bela.

– Se quiserem, poderão permanecer em Cintra. Os habitantes daqui são menos supersticiosos que

os de Maecht e logo vão se acostumar com seu aspecto… Aliás, mesmo sob a forma de Ouriço, você

não deixa de ser bastante simpático. Mas não poderá contar com o trono tão cedo, pois pretendo reinar

por bastante tempo, ao lado do novo rei de Cintra. O distinto Eist Tuirseach, líder dos ilhéus de

Skellige, me fez certa proposta.

– Calanthe…

– Sim, Eist, aceito. É verdade que nunca tinha recebido uma declaração de amor deitada no meio

dos escombros de meu trono, mas… como mesmo você se expressou, Duny? É só isso que conta, e é melhor ninguém se interpor no caminho de minha felicidade. Por que vocês estão olhando para mim

como se tivessem visto um fantasma? Não sou tão velha quanto podem imaginar ao constatar que

minha filha tem idade suficiente para se casar.

– Ah, esses jovens de hoje! – murmurou Myszowor. – Filho de peixe, peixin…

– O que você está sussurrando, druida?

– Nada, Majestade.

– Ainda bem. E, aproveitando a ocasião, tenho uma proposta a lhe fazer. Pavetta vai precisar de

um preceptor. Ela tem de aprender a lidar com aquele seu dom todo especial. Gosto de meu castelo, e

preferiria que ele pudesse continuar como é. Com o próximo ataque histérico de minha tão bem￾dotada filha, temo que ele possa desabar. O que você me diz disso?

– Sentir-me-ei extremamente honrado.

– Penso que… – A rainha olhou para a janela. – Já está amanhecendo. Chegou o momento…

Calanthe virou rapidamente a cabeça na direção do lugar em que Pavetta e Duny sussurravam entre

si, segurando-se pelas mãos e quase encostando as testas.

– Duny! Você não ouviu o que eu disse? Está amanhecendo, e você…

Geralt e Myszowor se entreolharam e soltaram uma gargalhada.

– Posso saber o que os diverte tanto, feiticeiros? Será que vocês não estão vendo…

– Estamos, estamos – garantiu-lhe Geralt.

– Apenas aguardávamos que você mesma se apercebesse – falou Myszowor, fazendo um esforço

para conter o riso. – Estava curioso para saber quando você se daria conta.

– Daria conta de quê?

– De ter desfeito o feitiço. Foi você mesma quem o desfez – explicou o bruxo. – Quando falou:

“Dou-lhe Pavetta”, cumpriu-se o destino.

– Exatamente – confirmou o druida.

– Por todos os deuses – falou lentamente Duny. – Finalmente! Que coisa! Achei que ficaria mais

feliz, que ouviria som de trombetas ou outros instrumentos… mas devo ter me acostumado. Obrigado,

Majestade! Pavetta, você ouviu o que eles disseram?

– Hum – falou a princesa, sem erguer as pálpebras.

– E, assim – suspirou Calanthe, olhando para Geralt com olhos cansados –, tudo acabou bem. Não

é verdade, bruxo? A maldição foi desfeita, teremos dois casamentos muito em breve, a reforma da sala

do trono deverá levar mais de um mês, temos quatro mortos e uma porção de feridos, Rainfarn de

Attre mal consegue respirar… Alegremo-nos! Você percebeu, bruxo, que houve um momento em que

tive vontade de…

– Percebi.

– Agora, porém, sinto-me obrigada a lhe dar razão. Exigi um resultado e o obtive. Cintra firmará

uma aliança com Skellige e minha filha se casará com o homem certo. Por um momento, cheguei a

pensar que tudo isso poderia ter acontecido por si só e de acordo com o destino, mesmo sem convidá￾lo para o banquete e tê-lo feito sentar a minha direita. Mas me enganei. O destino poderia ter sido

mudado pelo estilete de Rainfarn, e Rainfarn foi contido por sua espada. Você trabalhou

honestamente, Geralt, e chegou a hora de definirmos o preço por seu serviço. Diga o que você deseja.

– Um momento – interferiu Duny, massageando o lombo coberto de ataduras. – Já que vocês estão

discutindo a questão do pagamento, sou eu o devedor do bruxo, e cabe a mim…

– Não me interrompa, meu genro. – falou Calanthe, com os belos olhos semicerrados. – Sua sogra detesta ser interrompida. Lembre-se sempre disso. E saiba que não é devedor de coisa alguma. Você

foi algo como um objeto que fazia parte de meu acordo com Geralt de Rívia. Já lhe disse que estamos

quites, e não vejo motivo para ter de ficar lhe agradecendo até o fim de meus dias. Mas meu trato com

o bruxo continua de pé. Portanto, Geralt, diga logo seu preço.

– Muito bem – disse o bruxo. – Peço que você me dê seu xale, Calanthe. Quero que ele me lembre

para sempre a cor dos olhos da mais bela rainha que tive a oportunidade de conhecer.

Calanthe soltou uma risada e abriu o fecho de seu colar de esmeraldas.

– Esta bijuteria tem pedras com uma tonalidade mais precisa. Aceite-a, com agradáveis

lembranças.

– Posso dizer uma coisa? – perguntou humildemente Duny.

– Lógico que sim, meu genro. Diga.

– Continuo a afirmar que sou seu devedor, bruxo. Era a mim que ameaçava o estilete de Rainfarn.

Era eu quem teria sido trucidado pelos guardas se você não tivesse interferido. Se o que está em jogo é

algum tipo de preço, é a mim que cabe pagá-lo. Garanto-lhe que disponho de recursos suficientes. O

que quer de mim, Geralt?

– Duny – falou lentamente Geralt. – Quando um bruxo é defrontado com uma pergunta como essa,

tem de pedir que ela seja repetida.

– Muito bem. Repito-a, então, pois quero que saiba que sou seu devedor também por outro motivo.

Quando ouvi no salão quem você era, imediatamente passei a odiá-lo e pensei muito mal a seu

respeito. Achei que você era apenas uma ferramenta cega e sedenta de sangue; alguém que mata sem

pensar e sem remorsos, limpando o sangue da lâmina e contando o dinheiro que lhe foi pago. Mas me

convenci de que a profissão de bruxo é realmente digna de todo o respeito. Você nos defende não

somente daquele Mal escondido na penumbra, como também do que se esconde em nós mesmos. É

uma pena que sejam tão poucos.

Calanthe sorriu, e Geralt, pela primeira vez naquela noite, esteve propenso a reconhecer que seu

sorriso fora espontâneo e sincero.

– Meu genro expressou-se muito bem. A seu discurso, devo acrescentar duas palavras. Apenas

duas: “Perdão, Geralt.”

– E volto a repetir – disse Duny. – O que deseja de mim?

Geralt adotou um ar sério e falou:

– Duny, Calanthe, Pavetta e você, valente cavaleiro Tuirseach, futuro rei de Cintra. Para se tornar

bruxo, é preciso ter nascido sob a sombra do destino, e não são muito os que nascem nessas condições.

É por isso que somos tão poucos. Envelhecemos, morremos e não temos a quem transmitir nosso

conhecimento e nossas aptidões. Faltam-nos substitutos, e este mundo está cheio do Mal, que apenas

espera que sumamos de vez.

– Geralt… – sussurrou Calanthe.

– Sim, rainha, não está equivocada. Duny! Você me dará aquilo que já possui e que ainda não sabe.

Voltarei a Cintra dentro de seis anos, para verificar se o destino foi generoso comigo.

– Pavetta – falou Duny, arregalando os olhos. – Não me diga que você…

– Pavetta! – exclamou Calanthe. – Será possível que você estaria… Você está…

A princesa corou e abaixou os olhos. Depois, respondeu. 



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