História The Wreck of Our Hearts - Capítulo 9


Escrita por: ~

Postado
Categorias Supergirl
Personagens Alex Danvers, Cat Grant, James "Jimmy" Olsen, J'onn J'onzz "John Jones" (Caçador de Marte), Kara Zor-El (Supergirl), Lena Luthor, Maggie Sawyer, Winslow "Winn" Schott Jr.
Tags Leign, Lena Luthor, Reign, Reigncorp, Samantha March, Supergirl
Visualizações 208
Palavras 4.872
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), FemmeSlash, Ficção, Romance e Novela
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Ei, leitores. Foi muito gratificante saber que vocês também gostaram do capítulo anterior! Eu não tenho muito a dizer sobre esse. Foi o mais árduo, sem dúvidas, mas espero que apreciem o penúltimo da nossa história.


Música-título: Pim Stones - We Have It All.

Boa leitura. :)

Capítulo 9 - We Have It All


Fanfic / Fanfiction The Wreck of Our Hearts - Capítulo 9 - We Have It All

 

 

Com o passar de um tempo indefinível, Samantha perde o controle temporal. Não sabe há quanto está trancafiada na escuridão, escravizada pela luz verdejante a pairar e enfraquecer não apenas seu corpo, mas também sua mente. Constantemente J’onn J’onzz a observa por alguns instantes na porta da prisão, mas jamais entra, jamais manifesta-se verbalmente.

Seus pensamentos buscam memórias de Ruby protegida e segura, mas o alívio em saber que Lena a está cuidando não é o suficiente. Depois das confissões entre ela e Reign, nenhuma palavra a mais foi trocada e a solidão a consome como um gigantesco buraco negro. Samantha March pode ser naturalmente uma solitária, mas compreende agora a diferença do isolamento liberto e escolhido e o isolamento imposto e aprisionador.

Confrontando o estado mental para manter-se sã, porém, jamais poderia prever a ruína que a alcançaria, que se inicia quando a porta rangente é bruscamente aberta e Winslow Schott, suado e aflito; com feições de agonia, invade seu cárcere com fôlego tão escasso que seus pulmões poderiam gritar em necessidade.

O minuto no qual se encaram nada lhe diz. O rapaz agitado ergue sobre a mão trêmula um controle remoto, aponta para cima e o grande televisor, o qual sequer percebeu estar ali, acende-se com um plantão prestes a ser exibido no telejornal. Winslow volta-se para ela com tristeza e cansaço, deixando-a tão depressa quanto entrou. Samantha desliza os olhos para a tela e seu coração se aperta imediatamente: A L-Corp, iluminada na imensidão noturna, é a primeira imagem carregada de más notícias.

O âncora discursa solenemente.

“Voltamos agora com as últimas informações entre a Supergirl e a Organização Criminosa CADMUS. Nosso helicóptero foi atingido e temos apenas um drone estratégico no local. A equipe retirada a tempo está a salvo, mas ainda é impossível saber como a heroína de National City está lidando com Lillian Luthor e seus capangas.”

A câmera de baixa definição preenche o monitor e foca exclusivamente em Lillian Luthor. A mulher parece irreconhecível desde a última vez em que os jornais a estamparam na invasão daxamita. Os cabelos estão desgrenhados e as roupas esgarçadas; os olhos sádicos e sombrios, a postura descomposta, não mais elegante, não mais imponente e superior. Parece enlouquecida e obcecada.

“Agentes do FBI e policiais locais estão tentando invadir o prédio, mas ao que parece desta vez Lillian Luthor não veio para uma derrota. Nossas imagens captam que a Garota de Aço foi desarmada e capturada com kryptonita e o misterioso alienígena que a acompanhava foi nocauteado por um ciborgue que nesse exato momento tem a herdeira de Lillian, Lena Luthor, como sua refém. Os bombeiros e a equipe médica estão cercando as ruas, mas qualquer um que se aproxime demais da L-Corp está sujeito aos ataques dos triplicados fiéis ao CADMUS.”

A imagem amplia-se abrangente e ela se sente atordoada com a visão. A kryptonita cintila em dois círculos no ombro esquerdo e uma linha funda na perna direita. A pistola é trêmula nas mãos de Lillian. O corpo de Lena é inescapavelmente preso sob a força do ciborgue. O vento é violento nas alturas e seus cabelos soltos quase escondem expressões exaustas e derrotadas.

Estão tão perto da beira que um sopro minimamente intenso os derrubaria.

O desespero de estar encarcerada finalmente a domina. Desde que se tornou sua guarda-costas é a primeira vez em que percebe-se de mãos atadas, distante, mera observadora da tragédia que a sonda. Não é como kryptonita ou como estar sob o comando de Reign. É uma impossibilidade que sequer lhe permite respirar.

– Senhor Schott! – Seus punhos chocam-se o mais forte que pode contra o vidro. É doloroso, mas a batida repete-se como se lhe permitisse esperança de liberdade. – Volte, por favor!

“Nossas últimas fontes informaram que a líder do CADMUS está negociando a vida de sua herdeira com a Supergirl. Parece que a última luta da Garota de Aço que espantou National City despertou o interesse da organização foragida”.

No pesar das palavras do âncora, Samantha abandona seu chamado para olhar estarrecida a cena enevoada no monitor.

– A luta... – Sussurra em lamento. – É minha culpa. Eu fiz isso. Eu perdi o controle.

Ela volta a golpear impiedosamente o vidro. Bram, bram, bram! – E nem mesmo um som ecoado do lado de fora, nem mesmo o menor sinal de trinca ou impacto significativo.

“Aparentemente o último alienígena rival foi um de sua própria espécie. O Superman viria em socorro de seus conterrâneos, ou podemos apenas esperar e rezar para que a heroína de National City consiga vencê-los? O NCPD está tentando controlar a multidão que começou a cercar a L-Corp e todos rogam pela segurança da Supergirl e surpreendente da herdeira Luthor que parece aflita nas mãos do indivíduo que a mantém cativa.”

– Senhor Schott! Você precisa me ouvir! Qualquer um! – Esmurra sua prisão transparente e sólida. Com a força descomunal, mas humana, há sangue manchando cada golpe, escorrendo sobre o vidro. Ela pode ignorar toda a dor.

Por um breve instante, seus olhos se fecham. Samantha não ousou encarar seu reflexo novamente, não se atreveu a tocar e deixar-se tocar por Reign desde as últimas palavras. Há uma fragilidade em sua conexão que teme atingir. Ela precisa ceder.

Ela precisa refletir-se e encontrar um meio de escapar.

O que você quer fazer? – A voz que costumava assustá-la lhe conforta. Reign a analisa em seu reflexo esverdeado pela luz da kryptonita. – Não somos heroínas, Samantha. Não podemos ser.

– Isso não é sobre heroísmo. É sobre Lena.

Lena? – Sorri. – Você não é humana o suficiente para saber que são os heróis que ficam com as garotas neste planeta?

– Não é hora para os seus jogos sarcásticos, Reign. – Rosna. – Ela está em perigo.

– Eu sou você, nós somos uma. Tanto quanto compreendo a gravidade da situação, você sabe que não há nada a fazer.

– Precisa haver algo que possamos fazer!

Não há razões para ser irracional a respeito disso, Samantha. Não há por que perder o controle sobre suas emoções.

Seus olhos abandonam por um momento o reflexo severo, embora sinta que os olhos de Reign estão sobre ela como uma sentença incombatível.

“A Supergirl foi atingida, repito, a Supergirl foi atingida. Lillian Luthor atirou na heroína de National City novamente. Confirmamos que os agentes do FBI conseguiram entrar, mas nada pode atestar que chegarão a tempo de impedir uma tragédia. A líder do CADMUS seria capaz de ir tão longe?”

– Mesmo antes de tomar consciência de quem você era, do porquê você existia, eu nunca senti que poderia me apaixonar. – Permanece distante de seu olhar. – Havia esse... Bloqueio dentro de mim. Depois de você, tive certeza de que seria impossível. E quando Ruby veio para nossas vidas, quando nossa comunicação mudou e fizemos nosso acordo, eu tinha que manter o foco nela, em sua segurança, em oferecer a vida que ela merecia. Assim nunca mais teria que prestar atenção em mim e nos sentimentos dos quais desisti. Vocês eram o meu mundo.

Você sempre foi uma mãe admirável nos moldes humanos. – Observa friamente.

– E eu estava feliz com isso. – Ergue olhos marejados, fazendo seu alter ego imponente retrair-se involuntariamente. – Alguma coisa aconteceu comigo, conosco, no meio do caminho. Eu não planejei me apaixonar por ela porque estava convencida de que isso jamais aconteceria. Mas aconteceu e eu me sinto uma adolescente estúpida e inexperiente com uma outra personalidade que se recusa a falar sobre isso e eu... Não posso controlar emoções que desconheço.

Acostume-se a isso. – Pontua. – Os humanos sofrem ao longo de sua curta vida muitas paixões que vigoram e muitas que se partem. É intrínseco aos padrões desordenados e desastrosos de suas emoções.

– Mas não aos meus! Eu não sou uma humana ou uma alienígena simplesmente. Eu não quero aceitar, aguardar meu destino nessa cela indefesa. Eu não posso me sentar aqui enquanto a vida dela está em risco!

Você deseja enfrentar uma causa sem solução, sem vitória. Estamos presas até que alguém nos liberte e sabemos que não nos ouvirão depois do que houve com a Supergirl. Causa e consequência.

– Pare de ser tão conformada! – Exclama. – Você não sabe nada sobre emoções! Foi criada para compreendê-las e todo o comportamento humano, mas você não as conhece! Diz estar apaixonada por ela, mas não pode me dizer por que e é por isso que não entende porque não posso desistir!

Você soa como uma criatura obcecada. – Grunhe.

– Eu a quero. A mulher que nos fez brincar na tempestade, dançar através da noite, que encantou Ruby, que nos compreendeu e nos fez panquecas e nos beijou e nos protegeu; eu a quero, Reign. Não sei se ainda tenho alguma chance depois de tudo o que fizemos, mas prefiro ser levada pelo CADMUS e morrer em um de seus laboratórios do que deixá-la nas mãos deles!

Depois do que eu fiz.

– O quê...? – Recua.

Eu, Samantha. Talvez você tenha protegido o coração dela, mas eu guardei sua vida. Assim como guardei a de Ruby. E eu, somente eu, impedi que os atiradores atingissem Lena Luthor e desencadeei uma luta com a Supergirl por causa dos apelos de Ruby. Você é uma mãe protetiva e uma amiga, ou amante, o que quer que deseje, afetuosa. Mas eu luto suas batalhas. E no momento em que sentir-me livre, exterminarei CADMUS e Lillian Luthor. E então, Supergirl estará em minha mira novamente.

– Não podemos mais viver assim, Reign. – Suaviza. – Você não consegue aceitar o fato de que talvez a Supergirl não faça a menor ideia de quem você é e sou eu a obcecada? Eu só quero... Eu só quero salvá-la...

Olhe só para você, agindo emocionalmente outra vez. Nos faz parecer frágeis.

Samantha contempla o reflexo com estranha amargura realizada.

– Talvez sejamos.

Talvez você seja.

“Estamos ao vivo?! Estamos filmando?! O FBI acaba de invadir a cobertura da L-Corp, telespectadores e a situação se agrava para o CADMUS. Seus capangas estão mantendo o FBI ocupados e Lillian Luthor não parece disposta a render-se. Aqui, foquem-na! Minha nossa, a Supergirl está se arrastando para Lillian, mas a herdeira Lena Luthor está sob um fio de ser jogada de cima da L-Corp! Parece que nossa heroína não conseguiu chegar a um acordo com a líder do CADMUS e sua filha terá que pagar o preço.”

Há lágrimas escorrendo em seu rosto e Samantha não pode detê-las encarando a distorção do conflito na tela e a aflição do âncora que o noticia.  

Se algum fôlego houvesse, ela gritaria.

Lena Luthor está prestes a ser atirada de um prédio de mais de 20 andares diante dos olhos da ferida e indefesa Supergirl, sob o comando de sua própria mãe.

E ela não pode impedir.

Ela se encolhe sob o brilho soberano da kryptonita como num pesadelo. E finalmente compreende o terror obscuro de Reign por desconhecer sua própria identidade, pois, no derradeiro momento de inexorável dor corrosiva, quem é ela? Amante? Amiga? Funcionária? Uma mulher apaixonada, uma mulher em compaixão culpada? O quê ou quem ela está a um passo de perder para sempre?

Jamais tendo cultivado emoções por outras pessoas além de Ruby e prezado sem erros por sua segurança, não lhe permitindo pensar a respeito de perdas, ela pode superar a perda de Lena Luthor? O quanto Lena significa e por que nessa fração de segundos esmagadores o conhecimento de perdê-la a faz sentir-se não mais o astronauta perdido, não mais o astronauta caindo, mas sim o astronauta desesperado prestes a colidir com um meteoro flamejante que vai despedaçá-lo cruelmente no vazio solitário do espaço infinito?

Seu coração está pulsando tão violentamente que a voz do âncora clamando na televisão torna-se um grito abafado.

Ela vai perdê-la.

Não. Isso não vai acontecer.

Reign. É a voz de Reign.

De repente, todo o seu corpo se contorce e ergue-se bruscamente, as costas pressionadas contra a extremidade da cela, seus ossos vibrantes como se pudessem estilhaçar e sua mente esclarecida. Sua consciência estremece como se fosse tocável. Não está, como outrora, sendo dominada.

Está sendo fundida.

“Eu sou você. Nós somos uma.”.

Assim, ela está gritando. Gritando como se pudesse estourar os próprios tímpanos e as cordas vocais. Os feixes vermelhos de luz explodem de suas retinas instáveis e fracos, e ela grita como se estivesse lutando contra uma força invencível. A kryptonita resplandece e os raios rubros de seus olhos a desafiam.

“Você é verdadeiramente uma surpresa inestimável, não é, Samantha March?”

Subconscientemente, sabe que não deveria ser capaz de despertar o menor resquício de seu poder, o poder que jamais desejou carregar.

“Eu não farei perguntas, Samantha March.”

A kryptonita já a derrotou antes, mas o frenesi enraivecido não permite que recue. Samantha está aflita, Reign está furiosa. Samantha precisa salvar, Reign precisa vingar. Samantha quer abraçá-la, Reign quer que ela os veja pagar por seus crimes.

“Que sorte tê-la comigo para proteger-me então, não é, Senhorita March?”

Seu corpo arde em absurdo, o ar é escasso, mas ela se inclina como uma fera prestes a atacar e os raios vermelhos emanam luz e força como fogo concentrado.

 “Diga-me que não estou sozinha nisso...”

Na batalha contra a única arma conhecida capaz de detê-la, ela se pergunta se isto também é amor.

“Porque ela estava com medo...”

Se abdicar de todo o controle, de tudo o que conhece e compreende, se atirar-se no limite de todas as suas percepções e experiências apenas para salvar a vida de Lena Luthor significa, enfim, amar. Suas mãos agarram firmemente o sobretudo azul de Lena que não saiu de seu corpo desde que ela o deixou.

 “Seria tão mais simples não cair completamente apaixonada se você fugisse...”

A luz ofusca e o calor fere.

A exigência enfraquece e a exaustão pede.

Incontrolavelmente, uma explosão queima e ela impacta brutalmente contra a parede de chumbo que cerca sua cela.

 

(...)

 

“BROOOOOOOOOM”

– O que foi isso?! – O chão do DEO estremece e Winn luta para manter-se de pé em sua plataforma, o alarme piscante ensurdecendo-o e aos outros agentes.

– Estamos sendo atacados?! – Um agente saca sua arma e aponta para os corredores cobrindo-se velozmente de fumaça.

A Agente Vasquez tem os olhos trincados em seu monitor, boquiaberta e trêmula.

Winn franze as sobrancelhas como se caísse em descoberta absoluta, imediatamente virando-se para encarar a mulher atônita e confusa.

– Vasquez...?

– A prisioneira, Senhor Schott... – Engole em seco. – Ela destruiu a ala sul do prédio.  

 

(...)

 

O vento cortante rasgaria a pele de um humano comum, mas ela o ultrapassa sem restrições, cortando-o por si mesma, ignorando que qualquer um possa vê-la. Em tamanha velocidade, nada mais é que um borrão atravessando desesperadamente a cidade.

Ela subjugou a kryptonita.

Elas subjugaram.

Seu voo é estável, mas doloroso. Como se os efeitos da kryptonita ainda estivessem sobre Reign, mas não sobre Samantha. Como se humana e alienígena estivessem unidas por um poder incomparável. Inexplicavelmente, Samantha sente-se plena, mais inteira e consciente do que nunca. Sobretudo, corajosa, destemida. Salvar Lena Luthor é tudo o que lhe importa e pela primeira vez sente que nada poderia detê-la. Para absorver este controle, precisava desistir dele em primeiro lugar.

Seus olhos são como os de um felino na escuridão e capturam o que a aflige: Distante, no alto da L-Corp, um corpo pendendo nos braços de uma criatura robusta. Gritante, a mulher com a pistola apontada. Suplicante, a Supergirl aos seus pés com lágrimas não derramadas.

Ela se impulsiona no ar e fecha os punhos. Os ossos estralam na brutalidade de seu aperto.

Samantha March contempla o universo.

O astronauta perdido voltando para casa.

O ciborgue não tem tempo de perceber o que o atingiu. Sua meia face robótica o braço de carne são arrancados no impacto e seu corpo desequilibra-se, deslizando na borda. Lillian Luthor grita, os espectadores amedrontados na rua gritam, curiosos gravando da janela gritam quando o corpo do capanga fiel de Lillian espatifa-se contra um carro estacionado.

Ela, porém, dispara em silêncio veloz, afastando-se pelos ares da confusão com Lena abrigada em seus braços. Voa sem destino, voa para acalmar seus batimentos cardíacos e amenizar a adrenalina abrasiva. O vento dispersa suas lágrimas, lágrimas imprevisíveis, como as lágrimas que caem no acordar de um pesadelo pois combinam o terror da imaginação com o alívio do despertar.

É muito longe e deserto quando finalmente pousa numa colina distante de National City, caindo sobre os próprios joelhos e envolvendo-a profundamente contra seu corpo.

–  Eu sinto muito... Por demorar tanto... – Pede entre soluços. – Eu sinto muito, Lena.

Sente como se a eternidade a esperasse, um instante sereno que desacelera e detém o tempo ao seu redor. Lena está inconsciente e há ferimentos em seus braços reféns do ciborgue, além de um pequeno corte em seu lábio inferior, mas sua respiração é estável e suave, ela está quente e tranquila, como se adormecesse em seu abraço num dia cotidiano.

O ronco de um motor de aproxima pela grama no escuro e Samantha a segura protetora, como se a qualquer momento pudessem tentar tomá-la. Margaret Sawyer arranca o capacete e a observa com olhos desconfiados, mas compreensivos, calmos. O farol da moto a ilumina e a detetive tira sua jaqueta do NCPD enquanto caminha até elas.

– Está tudo bem. – Garante. – Estou sozinha. Eu quero ajudar.

A peça é dobrada e afofada no chão e Samantha pousa cuidadosamente a cabeça de Lena sobre o brim azulado. Maggie a surpreende, mas não intimida, quando arrasta com a ponta dos dedos o cabelo desgrenhado do rosto da CEO, suspirando aliviada ao vê-la tão pacífica.

– Você está bem. – Samantha beija as costas da mão de Lena. – Você vai ficar bem.

O silêncio se estabelece e ecoam longe as sirenes na cidade cercando a L-Corp. O bip do comunicador de Maggie alerta e a expressão apaziguada que tinha em seu rosto ao ver o bom estado de Lena desaparece.

– Alex, você está bem? – Soa como uma súplica.

Maggie... – É a voz de James e o rapaz tenta encontrar fôlego. – Alex foi atingida. Estamos presos numa sala da L-Corp, tivemos que abandonar a cobertura ou seríamos perfurados da cabeça aos pés. Consegui salvá-la a tempo, foi apenas um tiro na perna, mas Kara ainda está lá.

– Fique calmo e me diga o que está acontecendo lá. – Buscando sua própria estabilidade emocional ao saber que Alex está ferida, encara alarmada o rosto neutro de Samantha e sabe que ela pode ouvir o que conversam no comunicador.

Lillian enlouqueceu quando o ciborgue e Lena caíram. Kara está... Eu só a vi assim quando Alex foi sequestrada, Maggie. Ela está furiosa e desesperada e Lillian a mandou calar-se, mas ela começou a falar em kryptoniano e amaldiçoá-la e não sei por quanto Lillian vai tolerar. Lena... Lena está...

– Não, James. Lena está viva. Samantha a salvou. Não pergunte como, nem onde estamos. O que mais Lillian pode querer? É costume dela fugir quando seus planos vão pelos ares.

Lena está... – Alivia-se por um segundo. – Desculpe. Lillian enlouqueceu. Culpou Supergirl pela morte de Lena e não sei o que fará a seguir. Quando alcancei Alex e eu e os outros agentes fugimos dos tiros, a vi ameaçar Kara com uma arma, mas não era a pistola com balas de kryptonita. Havia... Havia uma luz dourada saindo do cano...

– Dourada? Isso não faz sentido...

– Kryptonita dourada. – Samantha arregala os olhos para ela. – Lillian Luthor tem kryptonita dourada.

Há muito Reign investigou tudo sobre Krypton em busca de suas origens e propósitos. Samantha nunca interferiu em suas pesquisas, mas manteve-se atenta a tudo. Dentre todos os tipos de kryptonita, uma chamou sua atenção: a kryptonita dourada. Um tipo raro da pedra nociva, o único capaz de retirar permanentemente os poderes de um kryptoniano. Pelo que sabiam, porém, a pedra em questão não existia no planeta Terra, perdida há centenas de anos.

– O que isso significa? – Maggie interroga com um nó na garganta.

– Que ela pode matar a Supergirl. Não Kara, não com isso. Ela pode neutralizar seus poderes para sempre.

Maggie, você está aí?

– Na escuta.

– Winn enviou uma equipe de especialistas que tentaram derrotá-los com os rifles estrategicamente nos prédios a nossa volta e acho que é nossa melhor chance. Precisamos encontrar um meio de salvar Kara.

Sem responder, Maggie desliga seu comunicador e segura a mão livre e relaxada de Lena ainda profundamente adormecida.

– Você provavelmente já ouviu sobre como Kara tornou-se a Supergirl.

– Como você pode estar tão calma? – Samantha confronta, perdida.

– Você ouviu?

– Todos ouviram.

– Muito bem. – Sorri fracamente. – Kara salvou Alex de um avião que caía. Seu objetivo é muito maior que isso, mas ela descobriu seu propósito heroico ao salvar a pessoa que ela mais amava no mundo. Alex também. Alex tomou todas as escolhas erradas antes de se realizar como uma agente DEO pela honra de seu pai, o orgulho de sua mãe e a proteção de sua irmã, as pessoas que ela mais amava no mundo. Eu poderia te contar uma história sobre Winn, James e talvez até mesmo sobre Lena. Sobre mim. Sobre o que significa descobrir-se um herói.  

– Eu não sou uma heroína. – Não é Reign quem fala por ela. É a verdade que abraça de si mesma. Reign não é uma heroína, mas Samantha também não se sente uma.

– Você pode ser.

Isso é patético. – Sua voz engrossa como se Reign estivesse tentando recuperar sua individualidade defensiva e superior.

– Isso é amor. – Seus olhos caem em Lena e de volta para ela. – Acredite, sou a última pessoa do mundo a dar um exemplo bem-sucedido, mas eu sei que é amor. O que dizem sobre os heróis é que são corajosos e altruístas, mas acho que antes de tudo isso, um herói precisa amar. Amar seus entes, amar seu povo, amar seu lar, precisa amar alguma coisa que o inspire a ser um herói.

Não busco o seu frágil e desleal amor humano. – Desta vez é Reign, completa e cruamente sua muralha intransponível e agressiva.

– Mas você o tem. – Maggie não sabe com quem fala, mas não se detém. – De Ruby, sua filha. Sabia que quando Lillian chegou e Lena conseguiu tirá-la de lá a tempo, Ruby a abraçou e disse que Lena precisava sobreviver para ficar com ela e com você? – Ri. – Você tem o amor de Lena. Eu não conheço Lena tão bem e estou tentando mudar isso, mas o modo como ela defende você, o menor tom de sua voz, eu sei que é amor, de algum tipo, de alguma forma que não cabe a mim decidir. Se isso não é o bastante para você fazer a coisa certa... O que é?

Há um debate silencioso do qual Maggie jamais suspeitaria. Salvar Kara Zor-El é correr o risco de ser atingida por Lillian ao mesmo tempo em que é correr o risco de matar a mãe de Lena como fez com o ciborgue. Salvá-la é ir contra tudo o que Reign planejava e o que Samantha acreditava ser capaz. Então, na profusão de perguntas e receios, Samantha e Reign recordam-se de Ruby e de toda a jornada da heroína de National City.

De como Ruby a admirava e resplandecia todas as vezes em que a Supergirl surgia nos noticiários urgentes ou nas capas das revistas. De como a Supergirl a inspirava, fosse em suas brincadeiras, fosse em seu desejo de tornar o mundo um lugar melhor.

Porque ela torna. Supergirl é a esperança da qual a cidade precisa, da qual não sabia precisar antes dela. Kara mudou National City aos poucos não somente com seus poderes, mas principalmente com sua benevolência e carisma. Ela foi gentil e prometeu a todos que tudo ficaria bem. Ela foi compreensiva com seus inimigos, chorou por eles, lutou por suas almas condenadas.

– Lena... – Toca suavemente seu rosto pálido, a textura macia da pele quente sob seus dedos como um acalento necessário.

– Vou cuidar dela. – Maggie segura sua mão. – Eu prometo.

Samantha decola com um silêncio devastador em sua consciência. Voa depressa, mas sente a cada milésimo de segundo seu corpo tentando recuar. Ela não se sente altruísta. Ela não se sente corajosa. Está aterrorizada. Atravessa novamente a cidade para salvar a mulher que quase morreu em suas mãos. A kryptoniana heroína de National City. A melhor amiga de Lena. Atravessa para salvar uma bondade que não vê em si mesma, que talvez jamais veja.

Samantha, a humana indiferente. Reign, a alienígena sanguinária. Não há uma figura heroica dentro dela, nada que possa entender ou tocar ou exteriorizar. Nada em que possa acreditar.

Eu sou Reign. Um nome sem origem. Uma experiência sem propósito. – Ecoa em seu interior.

– Fale comigo, por favor. – Samantha suplica.

Vinda de lugar nenhum, a lugar algum indo. Em queda livre das estrelas à Terra, perdida num mundo desconhecido de falhas, fraquezas e maravilhas passageiras.

– Reign...

Construída em soberania, fúria e danos. Domada por uma criança, fascinada por uma mulher, lado a lado com uma humana cujo propósito transformei numa jornada tão enevoada e vazia quanto a minha própria.

– Não faça isso! Não agora...!

Sua visão alcança a cobertura da L-Corp. A Supergirl está prostrada e cabisbaixa, respirando ruidosamente. Lillian é trêmula e a luz dourada da pistola é como um sinalizador atravessando a noite sobre o prédio sem energia. A equipe DEO está subindo o mais rápido que pode, mas ambas sabem que os agentes jamais chegarão a tempo. Tenta apressar-se, mas sabe. Lança-se para frente como se pudesse acelerar, mas sabe. A ciência a aterroriza mais do que nunca.

É uma tolice que a humanidade diga poética que a vida não é um jogo. Tudo é um jogo milenar. Tudo é uma questão de vitória e derrota, daquele que impera e daquele que cai. A única questão que sobrepõe estes equidistantes é como lida o vencedor e o perdedor diante dos fatos.

– Eu não quero perder você. Não posso. Eu preciso de você! – Implora num rosnado ferido e assustado.

Samantha a sente no controle de suas ações. É Reign quem expõe um sorriso sombrio. É Reign quem vê quando Lillian pressiona o gatilho e o primeiro sibilo da bala destravando no cano ecoa em seus ouvidos. É Reign quem desdobra a gola do sobretudo azul, toca o tecido com o nariz e inspira seu aroma, resquícios do perfume de Lena Luthor.

O jogo é seu, Samantha. Você venceu. Eu a liberto.

É uma sequência desastrosa em questão de segundos. Seu corpo impulsionado, a trajetória da bala, suas mãos no rosto e no peito da Supergirl, empurrando-a para longe. A bala se aproximando e seu corpo desaproximando-se da mira. E quando Samantha permite-se às mínimas esperanças, quando pensa ser possível escapar, pode ver, em sua mente, o olhar distante de Reign, como uma boa jogadora despedindo-se de seu adversário.

A bala de kryptonita dourada acerta em cheio seu quadril.

Não é imediato. Arrasta-se nas pedras do chão até parar. É como contemplar um mundo mudo e sem solidez, branco diante de seus olhos. De repente, explosões caóticas. Suas memórias rodopiando como se estivessem mergulhando seu cérebro em ácido. Sua força arrancada como uma maldição, sua velocidade desacelerada como impactar numa superfície inquebrável. A dor é lancinante e ela grita tão alto que talvez a cidade inteira possa ouvi-la agonizar. Seus olhos pouco veem. Seus ouvidos pouco escutam.

Reign desvanece numa escuridão perpétua.

Samantha sente-se esquartejada, lacerada. O vazio que lhe acomete é tão monstruoso que seu efeito torna-se literal, como se lhe roubassem a metade e seus órgãos estivessem soltos dentro de seu corpo, caindo uns sobre os outros, como se pudesse vomitá-los ou sufocar com eles.

Uma dor inexperimentada que quase a faz implorar para morrer.

Lillian Luthor foge. Kara arranca desajeitada e dolorosamente duas balas superficiais em seu corpo e não persegue sua algoz, mas sim arrasta-se até Samantha e a segura nos braços enquanto Samantha continua a se contorcer e urrar.

– Não... – Sussurra a heroína quebrada. – Não, não...

Os capangas restantes do CADMUS são interceptados nas escadarias da L-Corp e o Guardião os nocauteia com ajuda dos agentes DEO e do NCPD. Alex Danvers salta sobre o confronto ignorando a dor da perna estancada após a retirada inconsequente de uma bala, enraivecida e implacável, encontrando Lillian Luthor atrás de seus fiéis e acertando-a com toda a força que ainda possui. Sabe-se imprudente e que não é assim que um agente profissional deve agir, mas sua aflição desmorona toda a razão e seu punho desce violentamente contra o rosto da mulher pega de surpresa, incapaz de defender-se. Alex a atinge furiosamente até que ela esteja inconsciente nos degraus e o Guardião tenha que segurar seu braço e puxá-la para trás.

Como se tomasse consciência, Alex livra-se do aperto do amigo e corre para cima, para a cobertura, em busca de Kara. Ela não pode ter perdido sua irmã. E se tiver, voltará para esmurrar Lillian Luthor até desfigurá-la, seja lá quais forem as consequências legais a sua espera.

– Kara...! – O alívio em vê-la ali, viva e ajoelhada, de costas para a porta, e também J’onn J’onzz, antes derrotado; tentando levantar-se; segurando-se no poste de luz danificado; quase a atordoa e a derruba em exaustão.

– Alex... – O rosto de Kara vira-se coberto de lágrimas.

– Você está bem? O que houve? O que Lillian fez? – Alarma-se.

– Ela... – Ergue-se com o corpo de Samantha em seus braços, encarando-a. – Ela não está respirando.

 

 


Notas Finais


SAAAAAAAAAAAM ):

Diferente de tudo o que vocês leram nessa história, esse capítulo teve um pouco das percepções não verbais de outros personagens que não a Sam / Reign. No próximo talvez tenhamos também.

Nos veremos em breve para o último capítulo, leitores.

@dokkstormur

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