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História Those Who Bring Chaos - Capítulo 15


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Notas do Autor


Yeay! Capítulo 15!
E olha soooooo... Uma Sakura postando de acordo com os dias de postagem? É pra glorificar de pé, irmãos!
Mas sério, esse foi incrível de escrever, apesar de longo. Eu espero ter conseguido descrever a tortura como gostaria, essa eu achei um pouco difícil, mesmo sendo simples.
Enjoy <3

Capítulo 15 - Tortura e corações mecânicos


Fanfic / Fanfiction Those Who Bring Chaos - Capítulo 15 - Tortura e corações mecânicos

Já haviam se passado um dia e algumas horas que a equipe havia partido em missão até a Galáxia Messier 64 em busca do líder do Asas de Prata. Jodie apenas havia comunicado ao seu chefe sobre a chegada em segurança até o planeta onde os anjos residiam, desde então, ele aguardava por mais notícias, até finalmente receber um aviso de sua subordinada.

A notificação da mensagem surgiu na tela do tablet, que era utilizado como ferramenta de comunicação. “Temos Haziel em mãos, agora será questão de tempo para que ele fale”. Perfeito! Finalmente Black Hat poderia obter respostas, curioso em ver como Jodie lidaria com o assunto, iniciou uma transmissão para entrar em contato.

Assim que foi atendido, surpreendeu-se com o barulho e a confusão do outro lado da tela. Charlotte quem respondeu a ligação, ela fazia o possível para tentar se concentrar pilotando a grande cartola, sentada na cadeira principal e segurando firme o volante, enquanto por trás, a de cabelos azuis lutava e rolava pelo chão com o anjo — agora sem asas — que se recusava a ceder à sessão de tortura que o aguardava. Ambos batiam nas prateleiras de metal que guardavam armamento e ferramentas, trombando pelas mesas e derrubando o conteúdo que haviam por cima, os rapazes faziam o possível para tentar ajudar e capturar novamente o herói.

SHH! — repreendeu, Charlotte, em uma tentativa de esconder a bagunça — S-Senhor Black Hat! Oi!... Que… Surpresa agradável! — ela tentou disfarçar — você parece incrível esta manhã! A Jodie está um pouco… — ela virou-se para a amiga,     que mordia o tornozelo de Haziel enquanto os dois permaneciam jogados no chão, um chutando o rosto do outro — ocupada… Em que posso servir? 

A de cabelos roxos não sabia como lidar com aquela criatura das trevas, houve poucas vezes que entrou em contato com ele, e apesar da Boxmore ser uma das filiais da Organização, não era sempre que seu chefe discutia negócios com tal empresa. 

Charlotte? O QUE ESTÁ ACONTECENDO AÍ? — questionou, o mestre, visivelmente irritado.

— A-aqui? N-n-nada demais… Hahaha — ela deu uma risada de nervosismo — as coisas apenas… Saíram um pouquinho de nada… Do… Do controle — a vampira sentia-se suando frio — o Haziel conseguiu se soltar e agora a Jodie está tentando o conter novamente… Mas é só isso! E por aí? Como andam as coisas?

NÃO TENTE MUDAR DE ASSUNTO! — uma estática interferiu levemente na transmissão, devido a influência da energia do Lorde — CHAME ESSA VERME! AGORA! — Black Hat exibia seus dentes pontiagudos, seu olho encarava diretamente a piloto enquanto o vidro de seu monóculo refletia uma incidência de luz, com a feição ameaçadora.

— S-sim, Senhor! É pra já, Senhor! — ela confirmou batendo continência, antes de ativar a navegação automática e abandonar sua posição, para correr até a líder e avisá-la — Jodie! Seu chefe quer falar com você, agora! Largue esse idiota, eu cuido disso!

— Valeu, Lotte! Você é demais! — agradeceu, dando um último soco em Haziel, que virou a cabeça para baixo devido a força da pancada.

Com pressa, ela correu até o assento onde antes se encontrava a vampira, para ver seu precioso mestre em espera. Ele aguardava com os dedos entrelaçados apoiados sobre sua mesa, com a expressão casual de apatia. 

AAAH! — gritava, o herói ao fundo, sendo atacado por Charlotte.

— Olá, meu amado Lorde das Trevas! — mesmo que ele estivesse irritado, Jodie levou alguns segundos para admirar a grandiosidade à sua frente — estou muito feliz em vê-lo mais uma vez! O Senhor está incrivelmente malvado hoje!

Já sei disso, não preciso que me diga! — refutou — quero saber o porquê desta confusão! Como você o captura sem o deixar inconsciente? Isto parece o trabalho de um amador! — repreendeu, Black Hat, deixando um rastro de saliva verde escorrer do canto direito de sua boca. A vilã adorava quando ele fazia isso.

— Perdão, chefinho… Ele é mais forte do que pensei, mas em breve irei cuidar disso e fornecer tudo o que o senhor deseja, já conseguimos algumas pistas extras em uma sala de arquivos da sede do Asas de Prata, inclusive, abatemos o restante da equipe deles graças ao equipamento nuclear fornecido pelo Dr. Flug, não sobrou nada — falou, com um sorriso no rosto.

Finalmente uma boa notícia — disse, Black Hat, acomodando-se no encosto de sua cadeira — estarei aguardando seu relatório até às oito horas da noite, assim como seu retorno. Flug acha que de alguma forma os superiores para quem essas pragas trabalham já souberam do ataque à base, então enviarão outra equipe para abater mais um de nossos clientes.

— Oh, deixe-me adivinhar… Jeffrey Axe é o alvo deles? — perguntou, apoiando os cotovelos sobre o painel de controle e recostando o rosto sobre a mão direita.

Exatamente… — o mestre arqueou uma sobrancelha — vejo que já está situada…

— Bom, posso garantir que estaremos um passo à frente, vamos chegar até a fonte do problema.

Esse é o mínimo que espero de vocês… — afirmou, com o olho semicerrado — mantenha-me atualizado, tenho uns assuntos para tratar hoje, então estarei fora por um momento.

— Oh… Você vai receber pagamentos hoje? — perguntou, sugestiva.

NÃO É DA SUA CONTA! — esbravejou, o mestre — mas… Sim... — suspirou — Você sempre nota quando se trata disso, não é?

— É impossível não sentir a sua euforia nestes dias… — falou, Jodie, ainda o observando com ternura. 

O “dia do pagamento” como era chamado pelos subordinados de Black Hat, se trata do vencimento de um contrato de alma. Todos adoram os benefícios de fazer parte da privilegiada gama de membros da Organização Black Hat, os usuários adquirem uma vida luxuosa, todos os pedidos solicitados são prontamente atendidos — com uma taxa extra de dinheiro, em alguns casos — variando desde maquinário mortal personalizado até prioridade em solicitações de eliminação de rivais. Benefícios estes que se estendem até o último dia de vida do contratante, os quais, para o Lorde Black Hat, é a parte mais divertida dos contratos.

Ele faz questão de ir pessoalmente solicitar seu pagamento, e nessas horas, não há reza que o faça manter distância, não há lugar onde possa se esconder, e cancelar o acordo é completamente fora de questão. Uma alma por uma vida de pecados e maldades, para o mestre, esse é o equilíbrio perfeito.

— Senhor, sei que não é o momento ideal para perguntar… Mas, o que o senhor faz com essas almas?

— Black Hat manteve-se em silêncio por alguns segundos, observando sua ajudante — Tem razão, Jodie… Não é o momento ideal… 

Ela já esperava uma resposta como aquela.

— Certo… Bom, então lhe desejo uma ótima caçada, espero que se divirta hoje!

Eu irei… E espero já lhe encontrar pessoalmente quando retornar.

— Com certeza, Lorde Black Hat! — disse, determinada — até mais!

Sem se despedir, seu superior abandonou a chamada, fazendo com que a tela exibisse novamente o vácuo do espaço. A nave seguia em velocidade mediana, já longe do planeta dos anjos. A líder estava prestes a levantar quando Haziel escapa das garras de Charlotte, a vampira tentou agilizar e o manter preso, jogando-se contra ele, ação que fez com que ambos batessem no painel de controle, direcionando a nave para outro local e ativando o modo de mega velocidade. 

O baque repentino fez com que todos caíssem e fossem direcionados para a parede do fundo, presos devido a pressão sem conseguirem se mover, alguns seguraram-se no que puderam pelo caminho, a nave foi percorrendo a imensidão como um risco, até que a visão de um planeta marrom claro apareceu em frente.

— AAH! — Johnny manteve-se agarrado em uma barra de metal

— AI, CARALHO! A GENTE VAI BATER! — gritou, Jodie, segurando-se com as duas mãos na cadeira fixada próxima à mesa de centro.

— NÃO VAMOS… NÃO! — respondeu, Charlotte, juntando suas forças arrastando-se pelo chão e cravando as unhas no piso da nave para chegar até o assento do piloto, onde com um pouco mais de esforço apoiou-se no painel de controle, até que pudesse se sentar e tomar a direção, puxando o volante contra si para diminuir a velocidade.

Outro baque se deu quando o impulso diminuiu, alguns membros da equipe caíram sobre o chão e outros bateram contra a parede da nave em um solavanco. E mesmo com a velocidade menor, a cartola já havia adentrado a atmosfera daquele planeta e cortava a camada da estratosfera, com a visão do chão ficando cada vez maior. Charlotte fez o possível para alavancar a parte frontal da máquina, pois os freios pareciam não funcionar, e em um estrondo, finalmente colidiram com a terra, levantando poeira para todos os lados, parando somente depois de um grande rodopio deixando uma trilha de destruição ao baterem em árvores e construções de casas pelo caminho, por incrível que pareça conseguiram estagnar em posição vertical, do lado certo da cartola.

Civis humanóides de pele arroxeada corriam para se salvar do possível impacto contra o objeto voador que se chocou misteriosamente à pequena vila. O lugar se tratava de uma cidadezinha afastada, remota e tranquila, em um estilo semelhante ao medieval. 

Depois de alguns segundos, a equipe pôde se situar e levantar aos poucos.

— Argh… Estão todos bem? — questionou, Matt, ajudando Rev a se levantar.

— Acho que sim… — respondeu, Zacky, removendo uma pilha de papéis que havia caído sobre si.

— Merda… onde nós estamos? — perguntou-se, Jodie, observando a atenção dos residentes do lado de fora sendo atraída para os estranhos alienígenas presentes na nave — quem são esses esquisi-

Ela mal conseguiu completar a frase quando notou que Haziel já corria ao longe.

— O QUÊ?! COMO ELE ESCAPOU?! 

Com pressa, ela tratou de sair, levantando-se para atravessar a sala de comando e passando pela saída que provavelmente foi aberta pelo impacto, abrindo espaço pela multidão de curiosos que se formava ao redor. Jodie acelerou seus passos, precisava pensar rápido antes que o anjo fugisse. 

Enquanto o perseguia, suas correntes emergiam do chão tentando acertar Haziel, que conseguia desviar dos ataques. 

— AH, VOCÊ NÃO VAI SE SAFAR! — cansada de perder tempo, ela resolveu acabar com aquilo de vez.

Haziel corria sem parar, sem se importar em pensar onde estava e como iria resolver todo o infortúnio causado por aquela maluca, tudo o que visava era o caminho à sua frente, até que foi obrigado a olhar para trás ao notar uma grande sombra que o cobriu e aos arredores. No chão, estranhamente só que podia perceber era a estranha silhueta de um… coelho gigante?

— PARE DE CORRER! — vociferou uma voz duplicada e grossa.

O anjo foi surpreendido por uma mão muito maior que seu tamanho, com garras negras afiadas, o cercando. Ele sentiu seu tórax ser pressionado enquanto a criatura o trazia para mais perto de si, fazendo-o passar das alturas das árvores e vendo os objetos abaixo de seus pés se tornarem minúsculos, onde pôde vislumbrar os enormes pares de olhos avermelhados o encarando fixamente, como se olhassem através de sua alma. E-essa é… a Jodie?! — pensou.

O que recebeu em resposta foi um alto rugido, sendo obrigado a ver aqueles dentes afiados como lâminas próximos de seu rosto. Os ventos vindos da boca do monstro arrepiaram seus cabelos e o som era tão alto que fez sua mente ficar confusa por alguns minutos. As pessoas da vila correram por suas vidas, desesperadas e sem querer saber o que era aquilo que saiu de dentro da nave.

— Caralho! Aquilo é a Jodie?! — perguntou, Zacky, atônito.

— O QUÊ? CARA COMO-

Rev estava prestes a questionar quando se lembrou.

— Ah… Verdade, você não estava na sala naquele dia em que ela se transformou e comeu aquela garota anjo… Tinha esquecido… Sim, é ela, é a nossa chefe… — confirmou, o baterista.

— EU DEVERIA PICAR VOCÊ EM MILHARES DE PEDACINHOS, SEU IMBECIL FILHO DA PUTA! — exclamou, o coelho negro, lançando o anjo contra o chão.

O corpo do herói cortou o ar e abriu uma cratera no solo enquanto seu sangue se espalhava aos poucos, formando uma pequena poça.

Haziel levou alguns segundos para voltar à sua consciência. Por ser uma criatura não humana, era mais fácil que resistisse à ataques como aquele, e quando conseguiu abrir novamente as pálpebras, deu de cara com a vilã já em sua forma normal mais uma vez, o encarando seriamente com as pupilas vermelhas.

— Mas eu não vou fazer isso… Não agora pelo menos… — disse, agarrando-o pelo braço e erguendo-o à força.

Argh… — ele grunhia de dor, sentindo seus músculos sofrerem devido a queda.

— Você vai me contar… — ela juntou as mãos do herói atrás das costas dele, amarrando-as com uma corda longa — exatamente o que eu preciso saber!

Em passos apressados, a vilã foi o arrastando através do objeto que usou para o prender, caminhando em direção à uma área de construção. Haziel seguia em tropeços, tentando se desenrolar já que estava sendo puxado pela parte de trás, sem ideia do que teria que suportar dessa vez, sentindo um pouco de dor enquanto se mexia. Quando finalmente pararam, Jodie olhou para cima, encarando um mastro que apoiava um pedaço de madeira na horizontal, onde uma roldana mantinha-se fixada na ponta, esta ferramenta provavelmente era usada para elevar materiais ao local onde aparentava estar sendo construído o segundo andar de uma casa. 

Ela trouxe a roldana para perto de si, para passar a ponta da corda pela abertura e puxar do outro lado, a suspendendo novamente onde estava e deixando a corda se esticar entre o prisioneiro, a ferramenta de metal e sua ponta solta. Os meninos observavam de longe, junto com Charlotte.

— Caralho… Acho que vai começar a sessão de tortura — comentou, Johnny — beleza! Quem topa entrar para comermos um lanche antes de voltar e também para evitar mais uma cena que não vai nos deixar dormir à noite? — sugeriu.

— Eu! — concordou, Zacky — entendo que precisamos treinar, mas vamos aos poucos, não tô afim de ver sangue por enquanto…

— Ah, eu também vou… Estou com fome mesmo… — disse, Rev, já se direcionando até a cozinha.

— Ah… Podem ir lá, daqui a pouco eu entro… — falou, Syn.

— Sério, cara? — perguntou, Rev, com uma expressão curiosa.

— Só quero ver como ela vai fazer isso…

— Também vou ficar… Gosto das técnicas da Jodie, sempre me dão ótimas ideias! — acrescentou, a vampira, acomodando-se na pequena escada da porta da nave, enquanto Syn mantinha-se recostado no batente da porta.

— Hum… Ok! Vocês quem sabem…

Haziel estava um pouco fraco para conseguir revidar, mas era questão de tempo para que conseguisse se soltar, afinal, uma corda não seria o bastante para o manter preso, se era realmente aquilo que Jodie tinha em mente. 

— Beleza… Vamos logo com isso antes que eu perca minha paciência! Quem contratou vocês?!

Ele a encarou confuso antes de responder.

— O que te faz pensar que eu diria assim tão facilmente?

— Gosto do seu desafio, mas você quem pediu, eu tenho minhas maneiras…

Ela o deixou em seu lugar, para se direcionar à ponta solta do outro lado, enrolando entre as duas mãos, até que finalmente a puxou, o feixe alongado passou pela roldana e levantou o anjo no ar, que ainda estava com as mãos na parte de trás do corpo, forçando a articulação de seus ombros. Seu tronco involuntariamente curvou-se, deixando a cabeça na altura dos joelhos. Em consequência, a gravidade naturalmente o puxava para baixo, causando uma enorme tensão em seus ossos. Uma maneira prática e simples de torturar alguém, explorando um dos pontos mais vulneráveis do corpo e formando uma espécie de alavanca.

Haziel não conseguiu evitar de soltar grunhidos de dor, sentindo seus ombros aguentando ao máximo que podiam para manter-se no lugar.

— Oh, sim, amor… Eu adoro ouvir seus gemidos de dor… Se não ceder, farei você gritar… 

Jodie puxou mais a corda, levantando ainda mais o herói, que ainda em grande pressão parecia determinado a resistir, no entanto, concentrar-se era uma tarefa difícil, a dor distraia sua mente de conseguir utilizar seus poderes, o que para a carrasca, era uma grande vantagem. Torturar seres com poderes era sempre uma coisa complicada, em algumas vezes ela precisava utilizar de um dos equipamentos que Flug projetou especificamente para ela, um pequeno dispositivo que desestabilizava temporariamente as habilidades de suas vítimas, mas ela não o possuía consigo no momento. 

Haziel passou a se contorcer, tentando se livrar das amarras que o prendiam, mas fazer força só tornava pior a situação, passado alguns minutos, ele não conseguia evitar de soltar gritos. Era incrível como seus membros ainda suportavam tamanha violência.

Seus ossos davam leves friccionadas, raspando-se entre si levemente e fazendo barulhos de torsão.

— Vai me contar agora?

— PRO INFERNO COM SUA PERGUNTA ESTÚPIDA! NÃO VAI ARRANCAR NADA DE MIM!

— Errado, meu bem… Se eu não arrancar respostas, arranco seus braços no lugar… — afirmou, com os olhos vermelhos observando sua vítima — e… "Pro inferno"? Uma frase contraditória para um anjo dizer… 

— Aaargh! — ele fazia o que podia para aguentar e evitar expressar a agonia que sentia, mas os minutos que se passavam se arrastavam como uma eternidade.

Logo, as cordas em suas mãos já as apertavam também, a circulação do sangue em seu corpo já não fluía como deveria e ele sentia seu braço formigar, sensação que foi aumentando e passando para outras extensões dos membros.

— Me conte o que sabe, Haziel… — cantarolou, Jodie, puxando mais a corda e subindo o homem, fazendo-o quase encostar na roldana que o sustentava.

— NUNCA!

— Quanto mais rápido você contar, mais rápido vai se livrar dessa situação…

— Você… — mais um grunhido de dor — ...Não me engana! Eu sei que vai… GGRH! Me devorar ou… Drenar todo meu sangue ou algo assim!

— Oh… Eu gosto dos seu tipo de vítima… Os destemidos… É por isso que eu amo torturar heróis! Vocês sempre querem aguentar até o final! É DISSO QUE EU ESTOU FALANDO! — vociferou, antes de soltar a corda repentinamente por uma fração de segundos, deixando-o cair por cerca de trinta centímetros.

Seus ossos levaram a fricção ao limite, ficaria cada vez mais difícil manter a articulação em seu lugar, e Jodie amava encarar a expressão de desespero no rosto de seu inimigo. Ele não conseguiu conter os urros de dor, enquanto a vilã comprimia as próprias pernas e ria de sua agonia.

— Ops, perdão! Escorregou… — debochou, com um sorriso estampado em sua face — eu posso aliviar se você quiser… Só preciso que me responda…

— … — Haziel sentia seu rosto esquentar devido ao esforço que fazia para tentar suportar a dor, ele decidiu que não falaria mais com aquela criatura abaixo de si.

— Ok… Muito criativo, tenho que admitir… — disse, Syn, com uma garrafa de cerveja em mãos.

— Não é? Ela faz parecer tão simples! — respondeu, Charlotte.

— Ah, então você não vai falar mais? Esse é o seu plano? Muito bom! Como se eu nunca tivesse lidado com algo assim antes! Nossa! — ironizou — SYN? UMA AJUDINHA, POR FAVOR? — solicitou, a comandante ao longe.

O guitarrista olhou para a chefe com uma expressão confusa, ela estava realmente falando com ele ou foi impressão?

— SIM, É VOCÊ MESMO! — confirmou, impaciente.

— Vai lá… — falou, a amiga vampira, estendendo a mão em oferecimento para segurar a garrafa de cerveja.

— Ah, caralho… — reclamou, o rapaz, antes de entregar a bebida para a moça sentada nas escadas e ir até Jodie.

Synyster atravessou o extenso campo que separava a nave até o local onde a líder estava, ela segurava a corda com o anjo se contorcendo e uivando em inquietação. Charlotte continuava a observar, impassível em seu canto e agora bebericando da garrafa do ajudante. Levou dois minutos para que ele chegasse, com as mãos casualmente nos bolsos da jaqueta de couro preta.

— E aí…  — cumprimentou, ignorando os gritos acima de si.

— Apenas segure a corda por um momento, preciso pegar uns acessórios… — afirmou, a de cabelos azuis, já entregando a ponta ao parceiro, que a segurou firme mas deixando-a cair por um pequeno intervalo de tempo, causando ainda mais dores no anjo, sem querer.

— Oh… Foi mal, cara… — desculpou-se, o guitarrista, com um semblante de pena sobre o rosto.

— NÃO CONFRATERNIZE COM O INIMIGO! — repreendeu, Jodie, se afastando.

O guitarrista continuou a segurar a corda, apesar de ser uma tarefa mais difícil do que aparentava, afinal ele carregava o peso de um homem adulto, e que ainda por cima, não parava no lugar. 

Jodie retornou em seguida depois de alguns minutos, trazendo consigo algumas pedras grandes e mais pedaços de corda.

— O que vai fazer? — perguntou, Syn, a observando.

— Colocar mais pressão… — respondeu, a vilã.

A moça agachou-se próximo aos pés suspensos do herói, que rebatiam-se sem parar após ouvidas as intenções, algo que não durou muito tempo devido a dor que o mesmo sentia ao se mover. Respirar já estava sendo dificultoso, quanto mais ele se mexia, mais dava para notar que estava próximo de ocorrer um deslocamento.

Com agilidade, ambos os pés foram envolvidos com a grossa corda, em um nó firme para garantir que não se soltariam. Com outro pedaço, ela ligou à uma pesada pedra de tamanho um pouco menor que sua cabeça, mas com peso o suficiente para garantir ainda mais diversão.

O anjo logo sentiu a diferença quando a mulher se afastou de suas pernas. Seus ossos pareciam se levantar do lugar, uma sensação que ele nunca havia presenciado, mesmo nos campos de batalha. 

— Perfeito! Pode ir, Syn! Eu assumo daqui… — propôs, a líder.

Syn sentiu-se aliviado ao entregar o objeto de volta, foi como se ele fizesse parte da aplicação de tortura, o que o fez se sentir estranho. Ele percorreu de volta o local, para retornar à sua garrafa agora vazia.

— E vamos para mais uma queda súbita! — cantarolou, Jodie novamente, ansiosa pelo grito estridente que ouviria em breve.

Aproveitando a sensação que experienciava, ela suspendeu sua vítima com delicadeza, fazendo questão de olhar diretamente para o par de olhos lacrimejantes acima. Era sempre um prazer se deliciar com a expressão dos inimigos ao notarem que não há escapatória, aquilo era incrível para o ego de Jodie. Com o anjo já no ponto mais alto possível, ela fez as honras. 

— Uma última chance? — sugeriu. 

— Desista. 

— Não mesmo… 

Desta vez, uma queda de pouco mais de um metro. Haziel sentiu o ato como em câmera lenta, a articulação de seus ossos chegando ao limite ao friccionarem e em um pesado estalo se contorcerem, até que se mantivesse completamente ereto pendurado pelas cordas, mergulhando em agonia em uma dor indescritível. Gritos involuntariamente saíram de sua garganta enquanto ele sentia seus membros estenderem a dor por todo o seu corpo e fazendo-o perder os sentidos. 

— Oh, sinto muito… Machuquei você? Precisa de uma pausa? 

A de cabelos azuis ia continuar com seu trabalho até que notou uma nave conhecida se aproximando para uma aterrissagem. Em um design simples, o dispositivo se tratava de uma das máquinas da Organização Black Hat, compacta o suficiente para um pequeno grupo de viajantes.  

Quando pousou finalmente, no meio do campo em frente à cena de tortura, a porta se abriu e as escadinhas rolaram até a terra, dando passagem para quem saísse de dentro. A líder observava ainda segurando a corda, quando o restante da equipe foi instigada pelo barulho dos jatos. 

— Quem chegou agora? — perguntou, Johnny, segurando um pacote de salgadinhos. 

De dentro da pequena nave, saiu a cientista de cabelos brancos. Trajando seu usual uniforme de trabalho, saia lápis preta, camiseta branca em estilo vitoriano por baixo do jaleco de laboratório e sapatos de salto vermelhos para dar um contraste. 

— Hey, Melzinha! Você demorou… — cumprimentou, Jodie. 

— Não me venha com essa, sua estúpida! — refutou, a ciborgue — eu estava em um caso muitíssimo importante até você me chamar para a sua cirurgia idiota! 

— Pff… Não é idiota! Como você chama um caso quando um amigo precisa de um transplante urgente? 

— Idiota! 

— Não! — disse, a líder. 

— Jodie, qual o seu problema? Não consegue notar que eu também tenho compromissos? Eu não posso largar tudo o que faço simplesmente porque você me mete nas suas bizarrices! — reclamou, Mel, sentindo que sua cabeça explodiria em nervosismo. 

— Blá-blá-blá… Pare de ser uma nerd chata! Só resolve logo o que precisamos e você pode voltar para os seus projetos medíocres! 

— "Medíocres"?... "Medíocres"?... Eu atravesso galáxias para tratar do seu assunto ridículo e é assim que você me responde? 

— Oh, por favor! Pare com o drama! Isso não se trata de mim! 

— Beleza… — conformou-se, Mel, antes que saísse no tapa com a irmã como na última reunião de família — quem é o cretino da vez? Mais um cafetão com o baço perfurado? A diferença é que agora é cardiomegalia? 

— Pelo amor de Satã… Você nunca vai superar aquela vez? 

— Ainda tenho dificuldades em tirar aquela mancha de vômito do meu carpete… 

— De novo… Dramática!  

— Direto ao ponto! — suplicou, Mel.

— Ok, relaxa! Hey, Rev! — chamou, a chefe — chegou a sua salvação aqui! 

O baterista acenou de longe para a pesquisadora, com um sorriso tímido em seu rosto. 

— Prefiro o cafetão… — ironizou, a irmã, cruzando os braços e encarando Jodie com uma expressão apática.

— Ah, qual é, Mel?! — a de cabelos azuis continuava segurando a corda, tentando evitar que sua vítima se chacoalhasse em cima — precisei chamar você agora porque não sei se ele aguentaria voltar sem sofrer outro possível ataque cardíaco! Acabei de conseguir estes imbecis! Não posso deixar que morram tão facilmente!

— VALEU PELO APOIO, JODIE! — gritou, Rev, sarcasticamente.

— DE NADA! — retrucou.

— Grr… Ok! Mas essa vai para a lista de favores que você me deve! — afirmou, Mel.

— Beleza, como você preferir… — falou, Jodie, voltando sua atenção para o homem suspenso.

Contra a própria vontade, a jovem cientista caminhou em direção à cartola, onde o restante da equipe observava conforme ela se aproximava. Seu jaleco movimentava-se com o vento enquanto seguiam-se seus passos, o sol refletia o platinado de seus cabelos, destacando os chamativos olhos azul-claros por baixo das lentes dos óculos de correntinha. Quando chegou perto o suficiente, deu a ordem.

— Hey, você — voltou-se para The Rev — junte suas coisas, e ande logo, quero finalizar isto antes do fim do dia… 

— Nós… Vamos à outro lugar? — ele questionou, confuso.

— A não ser que tenha uma sala de cirurgia esterilizada em uma porta secreta dentro do banheiro, podemos fazer aqui mesmo… 

— Entendi… À caminho… — confirmou, o baterista, entrando para pegar as coisas que trouxera.

— Nós podemos ir junto? — perguntou, Johnny, preocupado com o amigo.

— Nem pensar, esperem aqui.

— O quê? E como podemos aceitar isso se sequer a conhecemos direito? — indagou, Matt, cruzando seus braços e a observando com desconfiança.

— Vocês têm uma solução melhor?

Um silêncio tomou conta do ambiente por alguns segundos.

— Foi o que eu pensei…

— Pronto para ir! — disse, Rev, com uma mochila nas costas — mostre o caminho, linda dama.

— Sem dar em cima de mim…

— Foi mal… — respondeu, instantaneamente — ok, pessoal… Acho que é isso… Parece que vamos indo… — ele não parecia confortável com a situação.

— Relaxa, cara… Vai dar tudo certo… — falou, Synyster, dando um leve soco no ombro do parceiro, fazendo o possível para passar uma sensação de tranquilidade, mas ainda extremamente aflito por dentro.

— Sim, Rev… Se algo acontecer nós vamos até você imediatamente, não importa onde esteja! — afirmou, Matt.

— Valeu, caras… Vocês são os melhores… — agradeceu.

Johnny o abraçou sem pensar duas vezes, e foi retribuído de volta. O restante dos rapazes não demorou a fazer o mesmo, em outro abraço em grupo.

— Oh, meu Deus… Se continuar assim eu vou chorar… — disse, Charlotte, sentindo os olhos marejarem. Ela podia ser muito sensível em alguns momentos.

Rev sorriu, tentando afastar pensamentos negativos de sua mente e focando nas boas vibrações das pessoas que considerava como irmãos. Até se despedir e se juntar à moça de cabelos platinados parada em sua frente, que não expressava uma única emoção.

Ambos distanciaram-se da nave, para seguirem até o dispositivo de onde veio Mel. O baterista acomodou-se no assento do carona, sentindo um embrulho se formar em seu estômago. Ele já havia passado por procedimentos cirúrgicos anteriormente, mas ter uma experiência como essa fora da Terra era algo novo e assustador, ainda mais sabendo que daqui a alguns instantes, seu coração seria substituído. A cientista se sentou ao lado, ajustando o banco em que estava, para girar a chave de ignição e digitalizar os comandos de rotas no painel de controle. Mesmo sendo uma nave e possuindo uma enorme quantidade de botões, o automóvel ainda era semelhante à um carro.

Pela janela da porta, Rev deu um aceno de despedida aos parceiros, que responderam da mesma maneira de volta, com sorrisos em sinal de apoio.

Os jatos rugiram, fazendo a nave sobrevoar a terra. Até que Mel desse partida, e com o baterista ao seu lado, seguissem em um rumo que ele desconhecia.


Base Secreta da Organização Black Hat - 03:15 p.m.
Planeta Desconhecido

 

(Acabou o tempo)

Doutor, eu estou morrendo, estou me sentindo comprometido 

e tão desumanizado

Eu perdi a minha última batalha para esta doença e sinto que é aqui que isso acaba

Eu preciso dessa dose em minha veia

Minha combinação Brompton Cocktail

 

Porque eu não consigo sentir meu rosto

Eu não lutarei mais

Em um mundo tão frio

Em um mundo tão errado

 

Eu não estou fugindo, eu tenho lutado contra isso há tanto tempo

Esse é o preço que nós pagamos, nós precisamos ser tão fortes

Em uma mentira… 

 

Sobre a mesa cirúrgica, na sala escura e com pouca iluminação, The Rev sentia o brilho da lâmpada sobre o seu rosto incomodar suas retinas, enquanto ele olhava ao redor e encarava as divisões dos quadrados do teto, sem camisa e com o tórax exposto, aguardando a circunstância de tensão que estava prestes à chegar. Um aparelho para monitorar sua frequência cardíaca bipava em som uniforme ao seu lado. O reflexo das ferramentas médicas cortantes sobre a pequena mesa de metal o fazia arfar levemente, e as paredes totalmente brancas não eram nada reconfortantes, ele praticamente se via em um hospital, sozinho com aquela estranha.

O local era uma das inúmeras bases da Organização, dispostas por locais estratégicos pelo Multiverso, sugerida para operação pelo Dr. Flug. No atual momento, apenas os dois se encontravam ali.

Melissa localizava-se no lado oposto onde estava o baterista, fazendo os últimos preparativos para o procedimento que levaria algumas horas, com os cabelos presos em um rabo de cavalo e rabiscando em uma prancheta os ítens já concluídos da lista de obrigações de segurança.

— Hey… Mel? — falou, ouvindo a própria voz ecoar pela sala vazia.

— Sim? — respondeu, a cientista, posicionado a ponta de uma seringa sobre um frasco com líquido amarelado e transferindo para dentro do recipiente.

— Eu não deveria estar inconsciente para isso ou algo assim?

A moça abriu um sorriso no canto de seus lábios.

— E deixar que perdesse a diversão de ver seu próprio peito sendo cortado e expondo seus órgãos? Nunca que eu perderia isso… — afirmou, o observando com um olhar perverso.

Droga! Ela é igualzinha à Jodie! — reclamou, em baixo tom.

— Não me compare àquela ratazana! 

A ciborgue esterilizava os instrumentos que usaria para a ocasião, incluindo os fios que seriam instalados no organismo de seu paciente.

— Como ouviu o que eu disse?! Tem ouvidos biônicos por acaso? — brincou, o baterista.

— Positivo.

Merda… — sussurrou — afinal, por que você e a Jodie têm essa rincha? Ela te fez algo?

The Rev gostaria de distrair sua mente da ansiedade que sentia, mesmo que sua frequência cardíaca o denunciasse ao fundo.

— Oh, é apenas coisa de irmãos, eu acho… E o fato de ela sempre me incomodar nos momentos mais inoportunos possíveis… E agir como uma criança… E me pedir para consertar as burradas que faz… Enfim, muitos motivos… — ela suspirou antes de pronunciar a próxima frase — porém, eu não a odeio… E ela também não me odeia, mas as coisas são assim…

— Legal… 

— Legal o quê? — questionou, a ciborgue, se aproximando do rapaz estendido sobre a mesa operatória.

— Estamos nos conhecendo!

Ela não conseguiu impedir uma risada de sair.

— Você vai passar por um transplante e tudo o que consegue pensar é em tentar me “conquistar”? — aquele cara era impossível.

— Oh, não… Eu sei que pareço durão e muito corajoso… — ironizou, recebendo mais uma risada em troca — mas eu estou morrendo em ansiedade…

— Melhor do que morrer de um ataque cardíaco… — ela deu um último suspiro — muito bem! Prepare-se para sua cura… E seu pior pesadelo! — Mel abriu um sorriso maior, exibindo seus dentes.

Ainda que fosse assustador, o baterista a achou extremamente sexy. 

A primeira etapa foi portar-se de um bisturi devidamente higienizado, e marcar com uma caneta de tinta hidrossolúvel os pontos que seriam perfurados sobre a pele do paciente, para em seguida, posicionar a ponta do instrumento sobre as linhas demarcadas, fazendo a inserção nas camadas da derme após o uso de anestesia.

— Sentindo alguma coisa? — perguntou, Mel, percorrendo o objeto cortante no peito exposto. Ela queria que o rapaz sentisse agonia, mas não necessariamente dor.

— Argh… Só um enjôo… Acho que vou vomitar… Por favor, só me deixe inconsciente!

— Não. 

Após feito o corte, ela abriria as incisões e começaria a instalar os equipamentos necessários de suporte para o novo órgão, ligando fios mecânicos às veias e adaptando o organismo. Um computador media a ação, garantindo que houvesse monitoramento em caso de uma possível rejeição ou surgimento de infecções.

The Rev fazia o que podia para manter os olhos fechados durante a cirurgia, mas de vez em quando ele cedia à curiosidade e já podia vislumbrar o sangue e a viscosidade de seu coração pulsante, com os pulmões rosados contraindo-se e expandindo-se conforme sua respiração.

— AH MEU DEUS! ISSO É HORRÍVEL! — involuntariamente ele se contorceu, e somente naquele momento notou que seus membros estavam presos por tiras de couro na maca — O QUE É ISSO?

— Sou maníaca, não burra, não posso deixar que decida fugir… Agora quieto! Se eu errar um corte posso romper uma artéria importante.

— Ah… CARALHO! — ele virou a cabeça para o teto, tentando focar a mente em outra coisa e manter-se imóvel.

— Yep… Tudo culpa da Jodie, pode culpar ela… Agora você não conseguirá dormir por décadas, pensando na nojeira dos seus órgãos! — falou, a cientista, deliciando-se com a angústia alheia.

— Coração de merda! Custava você funcionar como devia?! — amaldiçoou a si mesmo.

Com o corpo pronto, era hora de remover o órgão inutilizável. Para isto, uma máquina coração-pulmão seria o equipamento ideal para continuar com a oxigenação do sangue durante a remoção. O dispositivo se tratava de uma junção de um misturador e uma bomba oxigenadora, conectados às veias através de cateteres, garantindo que o rapaz mantivesse com o funcionamento de seu organismo em ordem, ainda com o coração fora de si.

Cerca de uma hora e meia foi necessária para fazer os cortes precisos e desconectar a parte pulsante em segurança.

— Nossa, olhe para isso… Esses vasos sanguíneos e divisões… Tão lindo… E agora inútil! — disse, Mel, literalmente jogando o coração na lata de lixo próxima aos pés da maca.

— Ai, porra, Mel! Por quê?

— Você não precisará mais dele… 

— Mas e se a cirurgia não funcionar? O que eu vou usar como coração?! — aquela ação realmente o preocupou.

— Daí já não é mais problema meu… 

— Grr, caralho!

The Rev sentia e agora ouvia seus pulmões enchendo-se e liberando o ar mais intensamente do que gostaria, ele sabia que a irmã de Jodie apreciava seu desespero e não gostaria de o demonstrar, mas àquela altura já estava impossível. Nunca que ele havia se imaginado em uma situação como a que estava, preso em uma cama de operações, com uma cientista louca ao seu lado em uma galáxia diferente e em um planeta desconhecido. Era como se tivesse a impressão de que acordaria de um pesadelo muito realista em alguns instantes, mas isso não iria acontecer.

— Certo… Quer conhecer seu novo amiguinho? Diga olá para o seu coração mecânico! — introduziu, Mel, tirando a peça de uma câmara cilíndrica esterilizada — essa belezinha aqui faz parte da minha coleção pessoal, e será muito útil para você a partir de hoje… 

Rev observou o membro robótico desconfiado, o objeto que substituiria seu antigo órgão parecia mais um acessório de decoração, era difícil imaginá-lo funcionando, as artérias de metal imitavam as orgânicas e do lado de fora, algumas engrenagens mantinham-se paradas enquanto alguns fios aguardavam serem conectados à algo, e tudo o que lhe restava era juntar suas esperanças e confiar na alucinada que o encarava impassível.

— Vá em frente, faça o que quiser… — disse, derrotado.

— Eu faria mesmo que você não permitisse! 

Com isso, ela fez uma última limpeza no artefato, para garantir que não houvessem bactérias sobre a superfície. Mais duas horas foram necessárias para conectar os fios nos cabos certos, ainda monitorando a adaptação do sistema de Rev à nova fonte de oxigenação de sangue. 

Depois de “habituado” à cirurgia e voltando a visão para qualquer outra coisa, o baterista já conseguia conversar normalmente.

—… E por isso eu acho que batatas chips são uma total enganação…

— Que desperdício de neurônios… Oh, espere! Acho que você não tem… — alfinetou, Mel, também simulando uma circulação de sangue.

O paciente deu uma leve risada antes de responder.

— Minha professora costumava dizer a mesma coisa!

— Você não existe… 

— Grr… Infelizmente eu existo…

— Não é isso que a frase significa. — comentou, a cientista.

— Eu sei… E eu estou brincando, eu adoro estar vivo… Era muito difícil ficar acordado pensando que à qualquer momento… Eu poderia simplesmente nunca mais abrir os olhos outra vez… 

— Não consigo imaginar… Apesar de que nós nunca saberemos o instante em que deixaremos de viver. — respondeu, a moça, observando as anotações em seu notebook.

— Bom, eu tentava me distrair de outras formas… Usando drogas e tudo o que pudesse me manter longe da realidade… Cheguei até a ser internado pela minha família, por abuso dessas porcarias…

— Super indicado para alguém na sua condição… 

— Hey! Não me julgue! Todos temos direito de afogar as mágoas em alguma coisa! — refutou, ofendido.

— Eu afogo minhas mágoas no trabalho! Preciso ser proativa e não tenho tempo para desperdiçar com substâncias ilícitas.

— “Substâncias ilícitas”... — ele riu do termo utilizado — você é uma nerd total… Mas eu gosto… 

— Oh, você está zombando de mim? Acho que eu deveria deixá-lo preso com o peito aberto para sempre! — falou, a pesquisadora, entre risadas.

— NÃO, POR FAVOR! — suplicou, em tom de brincadeira.

— E quer parar de falar? Está me distraindo!

— Você quem optou por me deixar acordado, agora vai ter que aguentar…

Ele a observava através de suas lentes de contato azuis, admirando a feição concentrada à sua frente. Era encantador como ela continuava deslumbrante mesmo com sangue sobre o jaleco de laboratório e as luvas de silicone. Ok, eu vou precisar escrever sobre isso! — pensou, o baterista, já imaginando uma batida em conjunto com as letras formando-se em sua cabeça.

— YES! O CORAÇÃO FUNCIONA! — exclamou, Mel, visivelmente animada com o resultado.

The Rev flexionou-se um pouco para observar. A peça bombardeava seu sangue, fazendo um barulho de metal, ao mesmo tempo em que era viscoso, contraindo-se como um órgão natural, agora preso em seu lugar e aparentando estar em perfeitas condições. Ele sentiu-se aliviado finalmente, foi como se um peso fosse removido de suas costas, e agora poderia respirar com mais calma. Parecia inacreditável, o que o mantinha preocupado há mais de anos em sua vida por fim se dissipou, a emoção foi tanta que ele não conseguiu conter uma lágrima de escorrer de seu olho direito.

— Oh, merda… O QUE FOI? TEM ALGO DOENDO? — alertou-se, Mel — estranho… O computador não me notificou de nada… — ela apressou-se em ir verificar em seu sistema.

The Rev soltou uma leve risada.

— Não, não é isso… Eu só estou… Muito feliz… 

A cientista se virou para seu paciente, o contemplando curiosa.

— Pensei em como o rosto da minha mãe ficaria agora… Tão aliviada e tão… Agradecida… Obrigado, Mel! Você é muito mais incrível do que eu pensei que fosse…

A moça sentiu sua feição esquentar com o elogio repentino, deixando de fitar o rapaz.

— Pare de falar besteiras! Você me assustou! Vamos logo fechar essa abertura e selar isso de uma vez por todas!

Rev riu mais uma vez, antes de Mel se apressar em iniciar o procedimento para fechar a incisão. Mais quarenta minutos foram utilizados, até que tudo estivesse suturado e limpo, e com bandagens elásticas, a cientista as percorreu ao redor de onde ocorreu o procedimento, podendo finalmente desamarrar o rapaz e deixá-lo se levantar.

Ele ficou sentado sobre a maca, com ambos os pés para fora e agradecendo internamente por ter acabado tudo.

— Como se sente? — perguntou, Mel, para garantir que as coisas estivessem em ordem.

— Um pouco tonto… E… Surpreendentemente cansado… 

— Hum, já imaginava… Por conta disso, irei lhe recomendar alguns passos para que se adapte como deve, primeiro: medicamentos imunossupressores, prescrevi em uma receita que deixarei com a Jodie, tratamento de no mínimo três meses…

— TRÊS MESES? — protestou, Rev.

— Calado.

— Desculpe. — respondeu, abaixando a cabeça.

— Segundo: evitar contato com pessoas doentes, não queremos vírus para atrapalhar seu sistema de se recuperar… E, uma alimentação devidamente saudável e balanceada.

— MERDA! Adeus, fim de semana da pizza… — disse, dramático.

— E preciso que se mantenha em repouso por uma semana, por garantia! Nada de fazer esforço, levantar pesos ou fazer qualquer coisa que possa alavancar uma ansiedade! Entendido?

— Positivo. — ironizou, o baterista.

— VOCÊ NÃO EXISTE! — esbravejou, a moça, com um sorriso em seu rosto.

— Valeu, Mel… De verdade… 

— Oh, então você acha que só me agradecer é o suficiente? Eu literalmente salvei sua vida! — exibiu-se, a cientista, o encarando com desdém.

— Beleza… Ó grande deusa resplandecente, aceite esta oferenda como prova de minha profunda gratidão… — brincou, Rev, em uma tentativa de se curvar à lata de lixo — eu ia pegar o coração, mas não consigo me abaixar direito.

Mel riu com o ato estúpido do homem próximo de si.

— É melhor que evite isso também…

— Certo… Mas, Mel é sério! Você deveria me deixar te compensar! — falou, Rev, tocando a mão direita da jovem com ambas as mãos e trazendo-a para mais perto.

— Como? — ela perguntou, intrigada.

— Venha em um encontro comigo! Por favor? Eu prometo que não vou beber demais! — disse, sem conseguir evitar que um sorriso se formasse.

— Ah… Eu não sei, Rev… — respondeu, apreensiva, se afastando com cautela — eu ando muito ocupada, e… Não tenho certeza se seria uma boa ideia… 

— Por que não? O que impede você?

—… — ela o encarou, sem conseguir pensar em uma resposta adequada. 

— Uma noite! É tudo o que eu peço! — insistiu, o baterista.

— Eu… Vou pensar sobre isso… — falou, virando o olhar para os próprios sapatos.

— YES! ELA DISSE QUE VAI PENSAR SOBRE ISSO! — comemorou, o mais alto, fazendo-a rir novamente.

Ambos encararam um ao outro por alguns segundos, as lentes dos óculos da cientista refletiam a feição alegre de The Rev, que conseguia sentir o perfume suave da moça devido à pouca distância em que se encontravam, ignorando as manchas de sangue sobre ela.

— HEY, PERDEDORES! — gritou, Jodie, escancarando a porta e a fazendo bater contra a parede em um estrondo, cortando o clima do momento — ótimo ver que meu ajudante ainda está vivo! Valeu, maninha! Te devo uma!

— Vai se foder. — refutou, a de cabelos brancos.

— Claro, assim que chegar em casa… — brincou, a líder — então, que tal apressarmos as coisas? Meu chefe quer me encontrar ainda hoje e as horas estão passando! Que tal recolherem seus brinquedos e voltarmos para a nossa galáxia? Tenho um relatório e umas respostas muito interessantes para entregar!

— Com certeza… Podem ir, eu preciso limpar tudo por aqui… Vá, Rev… E não esqueça de descansar quando chegar… — alertou, Mel, já indo se equipar com uma vassoura.

— Não precisa de uma ajuda? — questionou, o baterista, se levantando e colocando sua camiseta novamente.

— Não, valeu… Tchau, coelha bizarra.

— Até mais, rata de laboratório! — refutou, Jodie, se encaminhando pelo corredor escuro do local, exibindo o dedo do meio.

— Obrigado, Mel… Espero que realmente pense à respeito… — disse, Rev, saindo e sendo bombardeado com abraços e muitas perguntas do lado de fora.

A cientista observou a equipe se afastar, quieta em seu canto e analisando de longe, sozinha com seus equipamentos na sala vazia, deixando sua mente fluir, assim como seus pensamentos sobre o rapaz.


Notas Finais


E finalmente, o problema do Rev está resolvido! Para o próximo capítulo: uma dose de Black Hat <3
Edit: em transplantes de coração as pessoas continuam vivas ok? Através justamente da máquina coração-pulmão, que substitui o órgão até o momento de troca.


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