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História Through and Through - Capítulo 1


Escrita por: e ruoyeet


Notas do Autor


finalmente postando a josuhan que já tava escrita há um tempinho (5k só de boiolagem do otp isso mesmo)
o título vem da música de mesmo nome, ok? ainda não fiz a playlist exclusiva p josuhan, mas ela não vai demorar a ser feita e depois vou colocar o link nas notas finais de uma próxima fanfic
ademais, boa leitura e créditos da fanart ao artista! <3

Capítulo 1 - Capítulo único: xícaras de chá e manchas de batom


Batucando ritmicamente os dedos ansiosos de uma de suas mãos na superfície de madeira de sua mesa de trabalho e girando, nervosa e incessantemente, entre suas falanges esguias o pincel para desenho que utilizava costumeiramente, Kishibe Rohan percebeu que algo não estava devidamente correto.

O jovem adulto de fios esverdeados não sabia ao certo o que estava desorientando sua mente aturdida de trabalhar e, consequentemente, o atrapalhando imensamente naquele exato instante, impedindo-o de, assim, conseguir esboçar suas ideias através de traços nas folhas de papel. Estava ligeiramente avoado e um tanto aéreo, constantemente perdendo-se em seus próprios devaneios embaralhados e confusos, acabando por não conseguir exercer o foco necessário e exigido para o trabalho que insistia em terminar naquele momento.

Não era de seu feitio agir de tal maneira duvidosa, afinal, era completa e inteiramente devoto ao seu trabalho como mangaká, esforçando-se em seu máximo para elaborar enredos e situações agradáveis e admiráveis o suficiente para saciar o seu ego e clamor por reconhecimento de seu esforço e talento. Claro, não era inusual que o bloqueio criativo viesse a lhe atacar subitamente vez ou outra, perturbando sua mente assídua e agitada e importunando-o na tentativa de exercer tarefas importantes do dia a dia –  como terminar um manuscrito importante ou elaborar o roteiro do desenvolvimento do próximo capítulo de seu mangá –; todavia, daquela vez, o Kishibe sentia que a inquietação irrefragável que estava o assolando não se tratava de um mero e simples bloqueio criativo.

Talvez não estivesse conseguindo pensar com total clareza e coesão naquele momento, como costumava fazer em gritante maioria das situações que o atingiam, e, por conseguinte, tal acontecimento resultava no estado em que residia agora. Ele só precisaria respirar fundo e enumerar ideias que viessem até sua mente, de maneira completamente lógica e racional, para, assim, conseguir ter o tão estimado foco e criatividade que almejava no momento, certo? Aquilo não era tão difícil.

Materiais de arte devidamente colocados e posicionados sobre sua mesa, prontos para serem utilizados ao bel-prazer do artista? Confere.

Um frio astuto atingindo-o tão despreparadamente, lembrando-o que, talvez, teria esquecido de ligar o aquecedor de seu estúdio? Confere.

Um jovem de olhos gentis e penteado estranho invadindo, vez ou outra, os devaneios ligeiramente desestabilizados de Rohan? Confe... Espera, como assim confere?!

Ok, algo de errado, definitivamente, não estava certo. Por que diabos e por quais motivos Rohan sequer ousaria pensar no adolescente estúpido metido a herói de HQs, que possuía orbes azuladas e sorrisos gentis tão estúpidos quanto ele próprio? Kishibe certamente não teria alguém como ele em seus devaneios desordenados da madrugada.

Higashikata Josuke. Céus, Rohan sentia seus nervos aguçando e um sentimento questionável e anormal (que ele interpretava como puro e genuíno ódio, é claro) tomando posse de seu ser apenas ao ouvir o nome do dito cujo.

Não que ele odiasse Josuke até a morte e cogitasse, às vezes – mas só às vezes, ele jurava –, botar fogo no corpo robusto do jovem irritante, como uma retribuição inocente pelo incêndio que o mais novo ousara causar em sua residência meses atrás (sim, era exatamente isso), mas, sem sombra alguma de dúvidas, ainda nutria certa desavença pelo adolescente de fios escuros.

Tudo bem que ele havia salvado sua vida uma vez e, talvez, Rohan devesse ser grato por tal ato e, quem sabe até, perdoar o fogaréu alastrador ocasionado em sua humilde moradia (ainda que, aos olhos de seres normais, fosse uma casa estupidamente grande e que beirava a, no mínimo, uma mansão respeitável), mas ele se recusava a realizar tais ações inoportunas.

Não admitiria, nem em mil e um anos, que talvez (só e somente talvez) o seu ódio e rancor tenha sido parcialmente substituído por uma mínima parcela de algo que poderia ser chamado de gratidão ou, quem sabe, admiração. Não, jamais, nunquinha mesmo. Ele preferia seguir plenamente com a ideia de que não nutria nada além de aversão e inimizade por Josuke.

Se bem que, segundo as inúmeras referências e materiais adquiridos por si ao decorrer de seus – nem tão – longos anos de existência, talvez, o sentimento bizarro e inusitado que adornava seu peito toda vez que o Higashikata ria alegremente ou resolvia que invadir sua casa em tardes ensolaradas ou friorentas (para bem da verdade, quase todo e qualquer dia que lhe aparentasse ser propício para que batesse na porta do mangaká) era uma boa ideia, não fosse inteiramente antipatia. Rohan não era tão denso ao ponto de não cogitar tais suposições, ainda que as inúmeras sensações que o atingiam fossem ligeiramente desconhecidas e questionadas por si.

Teve seus pensamentos e divagações interrompidos ao ouvir um barulho alto ecoar pelo cômodo, juntamente de uma pontada incômoda atacando seu estômago. Certo, o Kishibe sequer lembrava qual fora a última vez que pisara fora de seu estúdio e ousara botar algo além de pastilhas na boca como forma de alimento, mas isso não era um real problema. Não para si, pelo menos.

Antes que descartasse a ideia de dirigir-se até a cozinha no intuito de alimentar-se devidamente (ou o máximo que um Cup Noodles de frango poderia o fazer, pelo menos), a voz de seu subconsciente – que, estranhamente, se assemelhava com a voz de Koichi – resolveu dar o ar de sua graça, num alerta nem um pouco singelo de que, se não colocasse algo sólido e forte o suficiente em seu estômago, seu corpo trataria de dar um completo shutdown em um futuro nem tão distante.

Suspirou profundamente, levantando-se do assento confortável de sua cadeira a contragosto ao constatar que, certamente, não conseguiria produzir qualquer conteúdo aceitável naquele dia. Espreguiçou-se ao ver-se em pé, esticando os braços cansados para cima em um alongamento precário, ouvindo os ossos de sua coluna estalarem e exibirem um ruído que, Rohan deduziu, não deveria indicar algo saudável.

Não demorou em tomar rumo até a cozinha de sua casa, devaneando consigo próprio se haveria algo em seu armário além de macarrão instantâneo e pacotes de salgadinhos que sequer apreciava verdadeiramente. Seus pés cansados e um tanto dormentes o levaram automática e inconscientemente ao cômodo mediano, enquanto o esverdeado ainda cogitava apenas desistir de uma alimentação necessária e optar por uma soneca merecida, ainda que soubesse que não conseguiria descansar mais que algumas poucas e ínfimas horas.

Suspirou mais uma vez, procurando nos compartimentos do armário algo que pudesse vir a cessar um pouco sua sede e seu estômago vazio, considerando que um chá talvez fosse bem-vindo naquele instante. Não demorou em achar uma pequena caixinha com dois pacotinhos restantes de chá de camomila, optando por resolver que seria de seu agrado utilizar os dois para fazer sua bebida companheira de madrugadas insones.

Não tardara em colocar uma quantidade considerável de água para ferver, recostando-se no balcão logo em sequência ao passo que ligara o fogo do eletrodoméstico. Não sabia ao certo que horas deveriam ser naquele momento, mas cogitava, ao menos, que beirasse às duas ou três da manhã.

Uma brisa ligeiramente fria e oponente adentrou uma pequena fresta proveniente da janela, atingindo o corpo desprotegido de roupas grossas e acalentadoras impiedosamente. Os arrepios e leves tremores por sua pele foram inevitáveis, e Kishibe amaldiçoou-se brevemente por não ter colocado mais uma camada de roupa naquele dia, tendo em vista, claro, que a temperatura em Morioh-cho havia caído alguns bons graus desde que o fim do outono e início do inverno fizeram-se presentes.

Rohan divagou, naqueles poucos instantes em que dirigia-se até a persiana no intuito de fechá-la que, porventura, um chá morno em uma madrugada congelante e compartilhado com a pessoa certa pudesse vir a ser um tanto quanto aprazível. Não que ele procurasse e almejasse pela companhia de alguém em específico, é nítido, mas a ideia até que não era tão repulsiva em sua mente.

Talvez chamasse Koichi para tomar um chá consigo em uma tarde qualquer, e até cogitaria, quem sabe, permitir que ele trouxesse a tal garota que gostava – Yukako, seu nome, se bem recordava-se com clareza – para juntar-se a eles.

Fora tirado de suas divagações ao que ouviu o chiado emitido pela chaleira, indicando-o que a água já havia atingido o ponto necessário de ebulição. Rumou-se até o fogão, não demorando em o desligar corretamente, e logo tratou de pegar uma de suas canecas preferidas para preparar devidamente seu chá.

Ou era isso que pretendia, pelo menos.

Um barulho irritantemente alto – em seu humilde e irritadiço ponto de vista – ecoou pela casa, atingindo sem dó alguma os tímpanos despreparados de Rohan. O mangaká bufou em exacerbação ao constatar que havia algum ser em sua porta em plena madrugada, tocando despreocupadamente a campainha. O Kishibe logo constatou tratar-se de alguém estupidamente corajoso e sem um senso real e notório de perigo, já que essa era a única explicação plausível e aceitável para resolverem perturbar sua paz e serenidade às duas da matina.

Suspirando profundamente, numa tentativa – perceptivelmente falha – de acalmar os seus nervos que já pareciam querer exaltarem-se, Rohan encaminhou-se em direção à porta, travando no meio do caminho ao lembrar-se que um frio perigoso o aguardava do lado de fora. Logo seus olhos afiados escanearam o cômodo e procuraram por algum cobertor ou casaco, quentes o suficiente para que a ventania não ricocheteasse novamente em seu corpo e o trouxesse os tremeliques tão odiados, não tardando em avistar um edredom espalhado pelo sofá de sua sala. Apenas catou entre suas mãos o cobertor e o jogou sobre seus ombros, aconchegando-se brevemente no tecido confortável, tomando caminho novamente em direção à entrada para que pudesse atender – e expulsar – quem quer que estivesse em sua porta.

E tamanha foi sua surpresa – ódio, rancor e irritação, também, é válido salientar – ao passo que abriu a superfície de madeira nobre e a pessoa que encontrara possuía nome, sobrenome, um par de olhos oceânicos e uma capacidade inigualável de atingir em cheio os nervos desestabilizados de Rohan.

Isso mesmo: Higashikata Josuke, em carne, osso e uma audácia ainda mais ultrajante que o habitual. Bem em sua varanda, quase às três da matina, portando um casaco enorme e de tecido grosso no corpo alto e um par de luvas escuras em ambas suas mãos esbeltas. Ah, é claro, havia também a expressão sorridente e nem um pouco culpada em suas feições, acompanhando todo o conjunto perfeito para atiçar Kishibe a cometer algum espécime de crime de ódio – ou talvez algum outro sentimento confuso que ele ainda não tinha total entendimento.

– O que diabos você está fazendo aqui?

Certo, talvez não fosse a melhor recepção e, definitivamente, não a mais adequada para atender alguém que parecia estar com os ossos congelando morosamente – ainda que o inverno estivesse apenas em seu singelo início, e os habitantes daquela região tivessem tido sequer um vislumbre de que seriam agraciados com uma nevasca aqui ou acolá –, mas, bem, Rohan não estava com o melhor dos humores no dia em questão e a pessoa parada diante de si não colaborava muito na missão de melhorar suas mudanças de humor.

– Boa noite 'pra você também, Rohan. Como você está nessa adorável noite? – Josuke, ainda com o mesmo sorrisinho fajuto estampado na face, questionou, sem um pingo de vergonha, como (quase) sempre costumava aparentar.

Rohan precisou respirar fundo e tentar canalizar um mantra – supostamente pacífico – em sua mente para que não voasse no pescoço daquele adolescente atrevido. Não era nem de manhã ainda, tenha dó.

– Você sabe que horas são, Higashikata? – o esverdeado cruzou os braços rente o corpo, acabando por cobrir-se um pouco mais com o edredom comprido no processo. Antes que Josuke pudesse, entretanto, o responder, Rohan tornou a falar, ainda irritadiço. – Não há motivo para um pirralho como você estar perambulando pelas ruas no meio da madrugada, pelo que sei.

– É que, bem… Está frio, sabe? – Kishibe arqueou uma das sobrancelhas em questionamento, recebendo um sorrisinho temeroso e ligeiramente culpado em resposta. – E então eu pensei que seria muito bom tomar um chá quentinho com alguém nessa época tão gélida.

Rohan suspirou, contendo a vontade de soltar o seu mais sincero "e o quê eu tenho a ver com isso?" em resposta.

– E…?

Certo, talvez fosse um pouquinho difícil segurar seus instintos naturalmente irritadiços e avinagrados, principalmente quando estes resolviam querer mostrarem-se em toda sua plenitude em uma situação como aquela.

– E, bem, eu achei que seria, uh… legal? – os lábios grossos comprimiram-se em sinal de incerteza, demonstrando que, inegavelmente, Josuke parecia um tanto quanto nervoso com tal situação que estava estendendo-se. – Isso. Seria muito legal se você quisesse compartilhar uma xícara de chá comigo.

– Higashikata Josuke, você apareceu na minha casa às duas da madrugada 'pra isso? – esbravejou, perceptivelmente amuado com o acontecimento que se passava diante de seus olhos naquele instante. – Sua mãe sequer sabe que você está fora de casa nesse horário?

– Bem, ela chegou bastante cansada do trabalho hoje e apenas capotou na cama. – Josuke deu de ombros, simplório. – Tenho certeza que quando acordar não vai ter sequer uma suspeita de que saí de casa.

– Hm. – murmurou, trocando o peso de uma de suas pernas para a outra, ainda ativo em sua tarefa de encarar a face gentil e sorridente do maior e a julgar em silêncio. – De qualquer maneira, acredito que saiba que não é bem vindo aqui.

Oh, certo. Higashikata certamente não esperava a melhor e mais elegante das recepções vindas de Rohan, principalmente se isso envolvia ele próprio e uma falta de vergonha na cara colossal para invadir a casa do mangaká mais uma vez (nem ele e, muito menos, o esverdeado saberiam contar corretamente quantas foram as vezes em que tal acontecimento ocorrera), todavia, Josuke ainda não esperava que fosse ser expulso da residência do mais velho de maneira tão… direta.

– Ah, sobre isso… – começou uma de suas explicações que, sem sombra de dúvidas, seria prontamente ouvida e, em sequência, ignorada pelo menor. – Digamos que eu não tenha como voltar 'pra casa agora?

Rohan arqueou uma de suas sobrancelhas em resposta, desdém esculpido em seu rosto.

– Como assim "não tem"? – mirou inquisidor o jovem estupidamente alto em sua frente, não parecendo ligar para o fato de que ainda estavam estancados na varanda, com um frio atormentante atingindo-os como bônus. – Você pode pegar o próximo trem na estação. Ou ir andando.

Josuke, pelo contrário, parecia ligeiramente incomodado com o fato de que ainda residiam parados na porta da morada do artista, ainda que, provavelmente, não sentisse tanto o frio atacando seu corpo por estar devidamente coberto por sua armadura de inverno (a.k.a um casaco ridiculamente grosso e quentinho).

– Isso é cruel, Rohan-sensei. – empenhado na tarefa de conseguir um resquício de piedade vinda do Kishibe, Higashikata insistiu em prosseguir com seus pedidos sofridos. – Você vai mesmo deixar um adolescente desamparado, com frio e fome, estancado na sua varanda?

Por outro lado, Rohan parecia ser tão insistente e perseverante quanto si, visto que apenas franziu o cenho ao ouvir o honorífico incomumente usado por si saído de seus lábios, não tardando em revidar com desdém:

– Esse é um problema seu, não meu. – ainda mantendo o mesmo ar de desdém, prosseguiu: – Por que diabos você resolveu sair de casa às duas da madrugada, Higashikata? 

– Eu, bem… – entre um suspiro acanhado e um olhar embaraçado, o mais novo hesitou, conseguindo a atenção suspeita do mangaká para si. – Eu queria ver você.

Ok, tudo sob controle. Josuke queria vê-lo, nada de mais. Josuke tinha ido até sua casa para o ver e…

Espere um instante, como assim "tudo sob controle"? Se tinha algo que Kishibe Rohan não tinha sob o manuseio de suas mãos, esse algo, certamente, seria algo meramente comparado com controle. Ele sequer conseguia impedir a maldita taquicardia irritante causada por aquele adolescente igualmente irritante, quem dirá conseguir exercer algo tão inigualavelmente importante como ter poderio e autoridade sobre toda aquela situação impertinente.

Certo, estava sendo um pouco mais difícil do que o esperado. Ele tinha um plano e tal estratégia consistia em repreender educadamente o visitante em sua porta (ou, pelo menos, com o máximo de educação que ainda restasse em seu ser às duas da matina de um dia cansativo) e, em seguida, o expulsar impiedosamente de sua varanda.

Não haveriam exceções. Seria esse o seu plano e ponto final.

– Já que eu não gostaria de ser considerado culpado por deixar um pirralho como você congelando de frio bem na porta da minha casa, você pode entrar.

Ou não deveriam haver, pelo menos.

– Entretanto… – antes que Josuke pudesse sequer comemorar pela vitória árdua que conquistara, Rohan tornou a falar: – Você não irá demorar muito.

– Sim, prometo que não vou! – o Higashikata assentiu rapidamente, assemelhando-se com um cachorrinho empolgado aos olhos do artista (ou algum outro ser irritantemente animado).

Rohan apenas o mirou uma última vez antes de erguer o rosto – Josuke não se atreveria a chamar-lhe de nariz empinado – em detração, encaminhando-se novamente para dentro de sua residência sem preocupar-se em fechar a porta (ainda que sua vontade fosse deveras colossal). O moreno prontamente o seguiu, fechando devidamente a superfície de madeira atrás de si antes de pôr-se a caminhar atrás do mais velho, acompanhando-o em seu caminho ainda desconhecido pelo mais jovem. Logo Josuke pôde perceber que Rohan dirigia-se até a cozinha, não demorando em adentrar o cômodo e continuar sua tarefa de ignorar a existência do maior.

Higashikata comprimiu brevemente os lábios, incerto se deveria ou não se acomodar em um dos assentos organizados pela cozinha. Por fim, concluiu que esperaria pacientemente em pé até que o Kishibe decidisse o dar atenção (ou algo semelhante), afinal, ainda tivera a inconveniência e audácia de bater na porta do artista tão tarde da noite, e, certamente, não gostaria de receber algum atentado ao pudor proveniente do mais velho, causado por puro e genuíno ódio.

– Por que está parado aí que nem um cachorrinho abandonado? – Rohan, que derramava água supostamente fervida em canecas coloridas, juntamente de dois pacotinhos pequenos de chá, resmungou, atraindo sua atenção.

– Ér, eu… Bem…

– Que seja. – demonstrando sua falta de paciência usual, o mangaká apenas suspirou audivelmente, segurando as duas xícaras fumegantes entre seus dedos esguios e logo dirigindo-se para fora do cômodo. – Não fique bancando o porteiro.

Era isso mesmo que Josuke estava vendo ou era apenas uma miragem singela causada pelo frio alastrador? Rohan estava mesmo segurando duas xícaras em suas mãos?

Tudo bem, talvez não fosse para si. Ainda que naquela casa estivessem somente ele e o artista, o Kishibe poderia estar, simplesmente, levando as duas canecas para si próprio, cogitando beber as duas xícaras de chá para apaziguar um pouco a irritação que o acometia. Ou ele poderia, realmente, estar considerando a presença de Josuke válida o suficiente para que o fizesse uma xícara de chá.

O jovem assustado não pôde perder-se mais um pouco em devaneios duvidosos, visto que um resmungar incompreensível logo atingiu seus ouvidos, trazendo-o novamente para o mundo real e para um Rohan enfezado sentado no sofá, não muito distante dali.

Higashikata apressou-se em dirigir-se até o local onde o mais velho residia, acomodando-se no estofado de coloração escura logo após, em uma distância considerada brevemente segura por si. Rohan não o ofereceu uma das xícaras, entregando-a corretamente em suas mãos, entretanto, pelo olhar do menor, que já bebericava tranquilamente o líquido quente, Josuke deduziu que ele estava incitando-o a degustar do chá que fizera.

O moreno logo sentiu o sabor adocicado de camomila se espalhando por suas papilas gustativas, apreciando o gosto abrasador em demasia. Ainda provando do chá em suas mãos, Josuke não pôde evitar mirar com o olhar aquele que estava sentado ao seu lado, perdido em pensamentos enquanto continuava a bebericar a bebida morna.

Não era habitual que tivesse o privilégio de presenciar Kishibe Rohan como o jovem artista estava no momento: enrolado em um edredom grosso com estampas floridas (não esperava que o mais velho viesse a ter algo tão distinto de sua própria aparência e personalidade), sem alguma das costumeiras faixas devidamente arrumadas em sua testa, juntamente de um par de bolsas arroxeadas abaixo de seus olhos claros, indicando que deveria fazer um tempo significativo que o mais velho não tirava um mísero descanso e dormia por horas necessárias. Sem contar, claro, com algo que, particularmente, chamou toda a atenção de Josuke sem piedade alguma: os lábios pintados em um tom escuro de verde musgo.

Não que fosse tão incomum assim que pudesse ver Rohan com um batom ou outro colorindo sua boca de vez quando, já que era de conhecimento público que o mais velho era alguém deveras vaidoso e que apreciava utilizar alguns artefatos e cosméticos para incrementar sua aparência naturalmente atraente. Todavia, os lábios do Kishibe coloridos em um tom tão chamativo ainda o surpreenderam, o fazendo se questionar como diabos ele não tinha notado tal detalhe importantíssimo assim que seus olhos pousaram sobre o esverdeado.

– Acho que nunca te vi com um batom dessa cor. – Josuke não conseguiu frear a língua astuta, chamando a atenção do mais velho para si ao ditar tal afirmação questionável.

– Foi apenas um teste, já que faz um tempo desde que usei. – seus lábios próximos da borda da xícara, movendo-se despreocupadamente enquanto enunciava, atraíram os olhos curiosos do mais novo. – Queria tirar minhas dúvidas sobre qual tom ficaria bem em mim e se verde realmente é a cor que melhor me cai.

– Acho que verde fica bom em você. – tomou um gole de seu chá, ainda encarando calmamente o menor. – Combina com seus olhos.

Rohan precisou unir muita força de vontade e autocontrole em seu ser para não engasgar-se naquele exato instante com a bebida quente que ingeria.

Não esperava ouvir aquilo de Josuke. Definitivamente, não estava preparado para ouvir um elogio tão atrevido e afrontoso – em seu ponto de vista, claro – saído dos lábios daquele adolescente insuportável. Insuportavelmente amável e audacioso, esbanjando frases regadas de gentileza enquanto o encarava avidamente, como se não notasse (ou, pelo menos, não ligasse para) o quão desconcertado o jovem mangaká parecia no momento.

O Kishibe pôde apenas tossir e pigarrear da maneira mais sutil e nada suspeita que conseguiu, não sabendo ao certo como elaborar algo aceitável o suficiente para aquela situação ligeiramente inoportuna e inesperada.

– Pare de falar besteiras e beba seu chá.

Certo, não era o melhor que poderia usar para revidar o ataque que recebeu, mas já era o suficiente.

– Tudo bem. – assentiu brevemente, tornando a degustar do líquido morno em mãos. – Está muito bom, por sinal.

– Sinta-se grato por eu compartilhar meu chá preferido com você. – alfinetou, bebericando com o máximo possível de calma e plenitude que conseguia.

Com um sorrisinho estupidamente irritante, Josuke revidou, amistoso: – Obrigado, Rohan-sensei.

O de madeixas esverdeadas apenas desviou o olhar em resposta, o cenho levemente franzido enquanto segurava firmemente a xícara entre suas mãos, parecendo ligeiramente… envergonhado?

Ainda que tentasse, Josuke não pode divagar sobre isso por mais tempo, tendo em vista o fato de que algo muito mais interessante capturou ansiosamente sua atenção. A porcelana manchada com o tom escuro do batom alheio, os dedos esbeltos que seguravam com astúcia e firmeza o pequeno recipiente, os fios esverdeados que caíam sobre as orbes claras, cobrindo esplendorosamente os olhos afiados e a face formosa.

Rohan parecia uma inteira junção ardorosamente capciosa que desmontava Josuke aos poucos e abalava suas – nem tão – confiáveis estruturas, pisando morosamente no autocontrole que o jovem moreno achava possuir.

– Está encarando muito. – a voz desdenhosa do mais velho atingiu sua audição, somente assim fazendo-o perceber que estava a encarar por minutos duvidosos o suficiente os lábios coloridos do menor. – Quer testar, por acaso?

Oh, uh. Aquilo parecia mesmo um convite implícito que refletia muito bem as vontades ocultas de Josuke, ou a sanidade do moreno finalmente tinha se esvaído de vez?

Não que Josuke duvidasse tanto assim da última hipótese, mas a primeira parecia muito mais atrativa e instigante aos seus olhos. Tal questionamento era, sem dúvidas, alguma espécie de convocação, certo?

Sem dar mais vazão aos seus devaneios incoerentes e embaralhados, o Higashikata terminou sua bebida em um simplório gole, depositando despreocupadamente a xícara vazia sobre a pequena mesa de centro em frente ao sofá. Rohan, despertado pelo movimento repentino ao seu lado, direcionou suas orbes ao mais novo, observando com inteira confusão o exato momento em que ele capturou a caneca que estava em sua mão por entre os dedos e a colocou juntamente da que segurava anteriormente.

Todavia, apesar da nítida atenção que depositava sobre o maior e das experiências que já viera a possuir em todos os seus anos de vida, nada havia o preparado para lidar com Josuke diminuindo consideravelmente a distância entre eles, perigosamente perto do corpo esbelto do artista e, por conseguinte, do rosto visivelmente espantado.

Josuke, por outro lado, parecia um tanto confuso com a sequência de atos que se prosseguiram, principalmente ao passo que o Kishibe espalmou ambas as mãos em seus ombros e o empurrou levemente (ou o mais levemente possível, levando em conta que o ser que estava realizando tal ação era Kishibe Rohan), ditando com um tom exasperado e inquisitivo em sua voz grave:

– O que você pensa que está fazendo, Higashikata?

– E-eu, uh… – aturdido pela maneira como agiu tão impulsivamente diante de divagações tão questionáveis e nada confiáveis, Josuke embolou-se com as palavras. – Você perguntou se eu gostaria de testar seu batom.

Ainda com as mãos nos ombros de Josuke, a fim de manter uma distância minimamente segura entre ambos, Rohan soltou o seu mais sincero: – E?

– E que eu achei que fosse 'pra testar dos seus próprios lábios.

Ah, céus, era só o que faltava para completar de vez o rebuliço imenso que tomava conta de Rohan. Realmente, o Universo não tinha pena de si por o tratar de tal maneira? O pobre – na maneira mais metafórica possível – mangaká já não tinha comido o suficiente o pão que Kira amassou? Ele, definitivamente, não estava sendo pago para receber tal afronta cabulosa.

– O quê? – cavando no fundinho de sua alma, Rohan rebuscou forças para responder corretamente ao moreno que ainda o encarava tão avidamente. – V-você é idiota, por acaso? Por que eu iria sugerir algo assim?

Sentindo um ardor incômodo alastrando-se por suas orelhas, o Kishibe apenas desesperou-se mais ainda ao notar que, ao invés de afastar-se (como a mente exacerbada de Rohan implorava), Josuke apenas diminuiu a distância entre eles, aproximando-se de um Rohan visivelmente desconcertado e um tanto aturdido.

– Hm… Acho que isso seria bom para as suas referências, não é? – indagou, o timbre grave atingindo em cheio algo que Rohan ainda não conseguia determinar com absoluta certeza. – Você poderia testar em primeira mão.

Rohan gostaria muito de estapear-se ao que se viu momentaneamente convencido pelo argumento precário do mais novo, cogitando, entre pensamentos estupefatos e confusos, que, talvez, a ideia de Josuke não fosse tão desgostosa assim.

– Pensando por esse lado, não parece tão ruim. – enunciou, por fim.

Decerto, a ideia não lhe parecia tão tremendamente repugnante quando imaginaria em tempos de outrora. Kishibe arriscava-se dizer, até, que lhe parecia um tanto atrativa.

– Uh, não é? – ainda portando o maldito sorriso ladino em seu rosto, Higashikata aproximou-se um pouco mais do mangaká, agora em uma distância perigosamente menor visto que não possuía a barreira de mãos como anteriormente. – Então, o que acha?

O esverdeado certamente não estava utilizando de seus três últimos neurônios restantes naquele momento. Seu cérebro deveria estar, pouquinho a pouquinho, definhando-se lentamente, tornando-o nada além de um ser acéfalo e com alguns problemas cognitivos (a maneira como isso o lembrava de Josuke e Okuyasu lhe parecia quase gritante).

Com um suspiro cansado e fingido (ele jamais admitiria isso em voz alta, obrigado), Rohan deixou-se levar pelas palavras – nada – convincentes do mais novo, permitindo que este aumentasse consideravelmente a proximidade entre ambos.

– Saiba que isso aqui é estritamente profissional e eu estou apenas te usando como objeto de referência, ok?

Josuke aumentou o sorriso ladino em sua face, murmurando em tom aveludado: – Como desejar, Rohan-sen…

Antes que o Higashikata pudesse, de fato, prosseguir com aquilo que irritava profundamente o interior de Rohan (vulgo abrir a boca para dialogar), o artista fez questão de o calar impiedosamente, cobrindo os lábios carnudos com os seus próprios.

Josuke logo levou uma de suas mãos até a nuca exposta do menor, enquanto os dedos da outra embrenhavam-se na cintura esbelta e, agora, descoberta do Kishibe, acariciando a pele calorosa com esmero. Rohan, ainda que ligeiramente receoso e em infindável conflito com seus próprios questionamentos, não tardou em entregar-se morosamente ao beijo cândido, permitindo com que um suspiro embevecido escapasse por entre seus lábios ao que um arrepio lhe subiu pela coluna com o resvalar dos dedos em sua cintura.

A brecha cedida foi aproveitada com devoção, tornando um selar singelo em um ósculo provocantemente tórrido, enlaçando com imensa facilidade cada ponto fraco de Rohan e desestruturando cada fibra do corpo entregue. Nem ao menos pôde associar quanto o cobertor escapou por seus ombros e seus dedos alcançaram os fios da nuca de Josuke, repuxando-os ardorosamente e bagunçando o penteado tão estimado pelo maior.

Diferente do que o moreno – e o próprio Rohan – esperavam, o Kishibe não relutou em entregar-se no contato brando que compartilhavam tão sofregamente, deleitando-se no roçar de seus lábios e no toque entre suas peles. Josuke pôde sentir, com imensa alacridade, o sabor de chá de camomila e um toque de maçã (talvez fosse esse o sabor do batom do mangaká?) na ponta da língua do esverdeado, saboreando com deleite do gosto tão viciante e voluptuoso que, Josuke veio a provar e constatar, Rohan possuía.

Podia sentir com ardor a maciez da derme morna sob seus dedos, falhando em reprimir seus instintos obstinados ao passo que apertou as falanges longas jazidas sobre o quadril alheio, recebendo com deleite os suspiros sôfregos que escaparam da garganta do mais velho. Ainda que tomasse, completamente afoito, os lábios do outro para si, o toque ameno de brandura e gentileza sobre a pele clara não ousava o deixar por um mísero segundo sequer.

O Kishibe sentia uma taquicardia traiçoeira tomando o lado esquerdo de seu peito, o coração teimando em bater desenfreadamente contra sua caixa torácica. Sua exasperação acanhada, no entanto, era quase tangível, tamanha confusão interna apossando-se por inteiro de seu âmago naquele instante amoriscado.

Não sabia ao certo como lidar com tantas sensações e sentimentos ainda não desbravados por si, que alastravam-se por seu cerne com uma enxurrada abrasadora e destrutiva. Apesar de tantos questionamentos e dúvidas ecoando por entre as paredes de seu ser, Rohan tinha somente uma certeza: aquilo não parecia ser algo novo.

Aquele pandemônio irritantemente imenso de sentimentos não lhe parecia algo tão incomum e excêntrico quanto ousara pensar. Parecia, até, que tais sensações ardorosas sempre estiveram ali presentes, tomando morada em um canto ou outro mais soturno de seu cerne e esgueirando-se por entre seus labirintos anuviados.

Era estranhamente aprazível, e era, principalmente, imensamente acolhedor.

O raspar de dentes em seu lábio inferior arrepiou-lhe por inteiro, findando, aos pouquinhos, o beijo ardente e suas divagações entorpecidas. Selares cálidos foram depositados sobre sua boca, inteira e completamente afáveis ao lhe tocarem com candura.

Os dedos gentis acariciam seus lábios manchados pelos tons escuros de batom, sorrindo pequeno ao ditar baixinho: – Verde realmente fica bem em você.

Rohan pôde apenas desviar abruptamente o olhar, praguejando o ardor infernal que ameaçou subir por suas orelhas e pintar suas bochechas.

– V-você também não fica tão ruim assim. – resmungou, um tanto emburrado, ainda que suas mãos permanecessem enlaçadas na nuca do mais novo e a proximidade entre ambos não tivesse se extinguido. – Até que combinou.

Josuke sorriu abertamente, daquela maneira que aguçava todos os sentidos de Rohan e tremia algumas de suas bases. – Um pouco. – fez questão de ressaltar, enfezado.

– Já é o suficiente, não é? – sorriu docemente, tornando suas orbes azuladas em apenas dois risquinhos singelos.

Kishibe suspirou, rendido pelos atos tão naturalmente amáveis do Higashikata: – Sim, é o suficiente.

Josuke riu adoravelmente, circundando sua cintura com os braços em um abraço carinhoso. Ainda que desacostumado com tal ação inesperada e singular, Rohan poderia admitir que talvez – e só talvez – não odiou tanto assim. Talvez, pudesse se habituar e, quem sabe até, apreciar tais demonstrações de afeto.

Embora fosse deveras diferente e… enigmático lidar com sensações tão inusitadas para si, o jovem mangaká sentia que poderia abrir uma pequena brecha para tais sentimentos. Ínfima, pode-se dizer, mas, vindo de Kishibe Rohan – e para Higashikata Josuke –, já era muito mais do que suficiente.

Poderia levar algum tempo, ele não negaria, mas, eventualmente, o pequenino espaço conseguido por Josuke poderia, gradualmente, abrangir-se em toda a sua extensa plenitude. Conseguiria, passo por passo, encontrar o caminho que o levasse até o jovem de fios escuros e orbes oceânicas.

– Hey, Josuke. – Rohan o chamou após alguns instantes em que o moreno (e, secretamente, o Kishibe também) apreciava do calor emanado de seu corpo, ainda abrigando-o em seus braços. Desviou teimosamente o olhar, sentindo as maçãs de seu rosto arderem brevemente, antes de, por fim, murmurar: – Você pode ficar mais um pouco.


Notas Finais


lista única de pessoas que ficam graciosas de batom verde e pq kishibe rohan está no topo

also, josuhan apaixonadinhos daquele jeito singular deles é meu ponto fraco, bjsss


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