História Time! - Capítulo 20


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Categorias Histórias Originais
Visualizações 8
Palavras 2.161
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Festa, Ficção Adolescente, LGBT, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Suicídio
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Finalmente eu voltei pra terminar isso aqui, foi mal pelos meses ausentes e esperam que ainda estejam afim de ver como isso vai acabar, de qualquer jeito, obrigado!!

Capítulo 20 - O Rei! (Especial)


Fanfic / Fanfiction Time! - Capítulo 20 - O Rei! (Especial)

E acidentalmente eu entrei naquela rua. Aquela que beirava a praia, com o mar furioso tão próximo. Eu podia escuta-lo daqui, o jeito com o qual gritava após cada onda se chocar. No fim eu já não o temia tanto, ele parecia tão assustado quanto eu, ele estava só pondo suas dores para fora. E o que eu mais temia estava lá dentro, dentro daquela casa com as luzes da varanda acesas.

     Eu bati na porta, escutei os passos e a porta se abriu. Ela havia crescido um pouco, ao menos agora seu rosto alcançava meu peito. E eu que pensava ser recebido por um sorriso comprido, acabei com algumas lagrimas ao vento. E um abraço longo e apertado.

      - Já faz um bom tempo Gisele – seus braços finos me apertaram mais e mais. Seu cabelo estava diferente do que eu costumava lembrar, estava curto agora.

       - Ela sentiu tanto a sua falta. Nós sentimos – o tom em sua voz me fez retribuir as lagrimas – Vamos entre.

        Aquelas paredes haviam visto muitas coisas, umas da qual eu me arrependo e outras das quais me orgulho. Tantas histórias e momentos escritos sobre o cimento, sobre aquela tinta barata. Conforme meus passos foram ganhando forma até a sala, o piso de madeira rangia do mesmo jeito que aquela noite. E novamente aconteceu, o tempo havia se confundido. Naomi estava lá, enquanto a fumaça permeava pelos cômodos. Eles estavam todos dançando, pulando enquanto eu os encarava da varanda. Foi real o suficiente para me arrepiar.

          - Eu sinto muito Gisele – eu estava sentado sobre o sofá no qual acordará naquela manhã – Por não ter sido tão presente quanto disse que seria, por não ter vindo no casamento. Eu acho que ferrei com tudo.

           - Você está aqui agora Vince. E isso é o mais importante – um pequeno gesto de gentileza veio com as palavras, um meio sorriso que perdurou por alguns segundos.

      Então novamente a porta se abriu, dessa vez de forma brusca. Escutei os passos como antes, até finalmente vê-lo. Ele acima de todos havia mudado completamente. Sua pele pálida, as poucas sardas que ainda tinha no rosto. O cabelo crespo mal penteado. Ele já não era o príncipe que costumava enxergar, não mais.

       - O que ele está fazendo aqui dentro? – ele perguntou.

       - Ele veio visitar você e a sua irmã – Gisele disse.

       - Eu quero ele fora daqui – eu não estava surpreso, de todos ele havia sido o mais ferido, o que mais sofreu com tudo isso. Eu havia prometido que jamais falharia e o desapontei.

        - Gabriel – eu tentei – Eu sinto muito.

        - Você sente muito? Pelo o quê? Por ter me abandonado aqui? Por mentir pra mim? – ele se aproximou, a cada palavra ele estava mais próximo de mim, apontando a vergonha na minha cara – Eu não quero ouvir Vince, eu não quero te ouvir.

        - Só me deixa explicar – e então veio, o primeiro soco, o que me fez recuar até a varanda. Depois o segundo, que nos derrubou até a praia.

         - Gabriel, para com isso – os gritos de Gisele nada se comparavam as vozes dentro da cabeça dele. Ele estava perdido, eu podia ver em seus olhos cor de mel, eu podia enxergar sua raiva e eu a aceitei, eu a merecia afinal de contas.

         Assim que me levantei, ele voltou a me derrubar. Seus punhos falavam por ele, falavam como foram difíceis os últimos anos, o quanto ele queria que eu estivesse aqui, o quanto ele havia sentido a minha falta. Eu sempre desejei que fosse diferente para ele, que ele recebesse tudo para que não se tornasse uma pessoa como eu, sonhava que ele fosse melhor do que isso, melhor do que eu jamais pude ser. E olha aonde eu o havia feito chegar. 

         - Eu sinto muito – o gosto amargo do sangue, eu o cuspi antes de me levantar, antes de encara-lo novamente.

          - Você era o melhor amigo. A minha pessoa favorita e você me deixou – ele gritava, tão alto que as minhas pernas tremiam a cada palavra – Você me deixou aqui nessa cidade. Sozinho.

           - Eu queria ter voltado. Não houve um dia em que eu não tivesse pensando em voltar.

           - Então por que não voltou? Vamos me diga, por quê você não voltou? - o olhando agora eu ainda percebo os traços daquele garoto de antes, o jeito que a raiva conseguia o deixar, o jeito que chorava enquanto gritava. Provar aquele olhar me arranhava por dentro, me queimava até a dor falar mais alto que o meu próprio coração, aquele olhar de decepção. Era disso que tudo isso se tratava.

           O fato era que eu jamais havia me perguntado sobre isso, sobre o por que eu demorei cinco anos para voltar. Minha vida nunca foi fácil, eu havia perdido minha mãe ainda jovem, me afogado em um luto profundo até a minha adolêscencia e ainda assim eu deixei para trás os unicos que se importaram em ouvir o que eu tinha a dizer. Talvez eu seja egoista, acontece que lá no fundo eu sabia a resposta, eu sabia as exatas palavras que tinha de dizer, talvez esse seja o problema.

            - Por que eu estava feliz lá - e o silêncio nos procurou novamente. O desenrolar das ondas sobre a areia, o vento se esgueirando sobre nós. E no apice da noite, nós estavamos cercados por estrelas, apreciando os olhares cruzados, observando a minha queda - Era isso que você queria saber? Eu estou falando com você Gabriel. Essa é a verdade que você tanto queria - eu estava a gritar como ele fizerá minutos antes, mas, agora ele era apenas um garoto assustado demais com a verdade para dizer algo - Eu finalmente estava vivendo. Bebendo toda noite, transando toda noite.

             - Para com isso - ele me afastou com as mesmas mãos que haviam acertado o meu rosto.

             - O que aconteceu? Está cansado da verdade? - ele me empurrou para longe novamente, escondendo as lagrimas que percorriam o seu rosto como se fosse algo a se envergonhar.

             - Eu mandei você parar com isso - dessa vez ele não me afastou, eu podia julgar por aqueles olhos que me encaravam, pelo seu rosto vermelho que ele me odiaria pela eternidade. E eu não me importaria, por que eu ainda me lembro de como nós eramos antes, eu me lembro daquela janela aonde eu o havia deixado. Me lembro de ver um garoto entrar por ela e um homem sair pela porta da frente. O principe que se tornou rei.

              Ele me acertou então, com tudo que tinha, com toda a raiva que se manteve em algum canto escuro dentro dele, como todos os fantasmas que um dia eu tive, ela saiu, em cada soco que ele me derá eu pude senti-la transbordar sobre mim.

             - Eu te odeio - ele disse, com a voz rasgada e em alto tom.

             Naquele momento eu pude sentir aquela sensação de outrora. Aquele sentimento de que o mundo corria devagar ao seu redor. O momento em que você escuta o seu coração bater mais alto, quando não há nada além do silêncio. Gisele corria em nossa direção, pedindo para que ele parasse. E Gabriel, ele mal podia escuta-la, por que ele estava tão cego pelos meus erros, que tudo que ele podia ouvir era a dor que a verdade podia trazer.

              E derrepente tudo voltou a ser como antes e o mundo correu livre novamente. Eu o empurrei para trás assim que Gisele nos alcançou, cuspindo de lado o sangue fresco em meus lábios.

              - Você quer saber uma coisa Gabriel. Foram a porra dos melhores anos da minha vida - eu cuspi novamente, em sua direção - Mas, eventualmente eu percebi uma coisa. Os amigos que eu tinha, os irmãos que eu ganhei, eles não estavam lá comigo. Eles estavam aqui, todos eles. Por que eu os deixei aqui

              A batida das ondas, o seu olhar tão cheio de raiva escorrendo pelos seus olhos. Como pude ser tão cego. Ele era mais um adolescente, assustado demais, perdido demais. Igual mim.

              A saida que ele havia encontrado era se livrar do que havia restado, se livrar daquele sentimento inquieto que ele carregava. E ele queria a dor, por que ele sabia muito bem como ela funcionava, as coisas que ela fazia, gritar e chorar, a raiva e o ódio, por quê esse era o caminho mais fácil. Ele queria tudo isso. Então quando seus punhos me acertaram outra vez, eu dei a ele. Toda a raiva que eu havia guardado de mim mesmo durante cinco anos, eu dei a ele.

              Enquanto rolavamos pela areia, marcando cada traço com o sangue um do outro, eu pude ouvir os gritos em vão de Gisele. Ela estava chorando enquanto o sangue escorria, mas, nós não paramos. Não até que faltasse ar em nossos pulmões, até que não conseguissemos nos manter em pé. Até a culpa nos acertar.

              Ficamos a nos encarar por longos minutos sobre aquela areia, nossos olhos se encontrando no espaço vazio entre nós dois. As gotas vermelhas pingavam sem cessar, os olhos ofuscados pelo vermelho ardente e o sangue ainda quente, borbulhando por mais uma rodada de insultos e socos. Eu pisquei. Uma e depois duas vezes. Meu corpo cambaleou para o lado, mas, não o suficiente para me derrubar. Com o olhar perdido, as luzes vermelhas se ergueram, olhei para a direita, alguns metros acima de mim e lá estava todos nós novamente, a fumaça, a musica, o meu velho eu. Todos naquela varanda.

               - Você sabe o quanto significava pra mim? - Gabriel afastou o meu delirio - Eramos reis dessa cidade, o nosso reinado de inconsequências. Aquilo era tudo o que me restava e você tirou isso de mim quando partiu. Você era o meu irmão Vince. A porra do meu irmão - os gritos não foram em vão, elas arranhavam a minha pele, arranhavam o que havia restado de mim e era exatamente isso que ele queria - E quer saber de uma coisa, eu não posso mais fazer isso. Eu não consigo mais viver assim. Eu não consigo mais respirar Vince, eu te odeio por ter me deixado aqui, do mesmo jeito que eu sinto a sua falta. Dói tanto Vince, dói tanto estar sozinho.

              - Eu sei. Porra eu sei. Eu errei com você, eu errei com todo mundo. E eu precisava de uma saida, eu precisava tirar ela da minha cabeça - é uma sensação boa que o corpo traz quando você cospe as verdades que você lutou pra esconder, a honestidade que eu nunca quis, mas, eu precisava dela agora - Merda, você é meu irmão Gabriel - eu não consegui soca-lo de novo, mesmo estando em cima dele, mesmo com os punhos fechados - E você sempre vai ser - sem forças meu rosto decaiu sobre o seu peito. Eu podia ouvir o seu coração bater, podia ouvir sua respiração pesada. E alguns segundos depois eu podia sentir, o abraço do qual eu senti tanta falta.

              - Eu te perdoo Vince - então finalmente os laços desatados se amarraram no final, ambos de joelhos contra a areia, ambos derramando lagrimas de alivio.

              - Então é você - outra voz havia se juntado após o silêncio, acompanhada das ondas ao fundo - Eu acho que você está meio atrasado pro casamento. Parece que você trouxe o meu irmão de volta - eu disse uma vez algo sobre o destino, o por quê de você não querer desafia-lo, o quão perigoso ele pode ser. Ele pode lhe dar coisas com uma facilidade assustadora e no instante seguinte ele lhe tirá algo tão precioso quanto. Eu havia aprendido isso a anos atrás, ele havia me dado algo, mas, ele ainda não se cansou de me tirar as coisas que eu mais prezo.

              - O que aconteceu? - a culpa sempre achava seu caminho de volta até mim. Assim como os meus erros.

              Sobre a varanda estava o alicerce de toda a minha vida, a mulher que havia me segurado nos bons e maus momentos dos meus vinte e três anos. A mulher que eu admirava de tantas e tantas maneiras. Mas, agora tudo correu para o lado oposto e o preço da minha ausência foi caro demais. Eu nunca soube o que havia acontecido, nunca soube como havia sido os seus ultimos cinco anos. Thaeme estava lá na ponta da varanda, assistindo Gabriel e eu gritarmos as nossas dores, recostada em sua cadeira de rodas.

             E a tempestade, ela havia chegado mais cedo do que esperava, pronta para me levar. Em um instante os relâmpagos em minha mente iluminaram as lembranças que eu tinha dela e um escuro perverso se apoderou dos meus olhos. O vento do litoral soprou tão indeciso e perplexo quanto a minha cabeça estava naquele momento, ele robou os meus suspiros e no instante seguinte tudo se apagou. 



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