História Time - Capítulo 16


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Categorias The Beatles
Personagens George Harrison, John Lennon, Paul McCartney, Personagens Originais, Ringo Starr
Tags Beatles, Inglaterra, John, Lennon, Musica, Viagem Temporal
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Palavras 2.017
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ficção Científica, Romance e Novela
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 16 - 1980


CAPITULO XVI

 Caminhar de volta pra casa foi assustador. Muitas coisas tinham mudado de lugar, muitas realidades pareciam ter sido alteradas. Eu via alguns poucos rostos conhecidos pelo caminho e parecíamos não ser mais conhecidos, suas rotinas não pareciam mais as mesmas. O mundo era o mesmo, mas com diferenças que as pessoas não percebiam. Claro, ninguém mais sabe que toda essa merda ainda nem existe.

 Enquanto eu vagava disfarçando minha vontade de chorar e enrolando pra não chegar em casa cedo, comecei a pensar em todos os espaços da minha existência em que os Beatles estavam metidos, em que John tinha alguma parte. Desde o nascimento do meu irmão, até meu trabalho de faculdade, eles estavam por tudo. No casamento dos meus pais, nas musicas da minha infância, no chaveiro da minha bolsa, no meu filme preferido quando criança, em minhas tentativas frustradas de aprender algum instrumento durante a vida. Qualquer coisa alterada no quarteto de Liverpool poderia alterar boa parte da minha mera existência.

 Queria dizer que eu não teria visto por anos o ritual de tristeza em minha casa que fazia as festas de aniversário do meu irmão serem realocadas para qualquer dia que não fosse 08 de dezembro. Não teria escutado meu pai contar inúmeras vezes porque escolheu John como nome de seu primogênito ou porque quase me chamou de Lucy ou o caçula de Julian. Não teria visto minha mãe chorar em concertos que relembravam a vida de John Lennon como vi várias vezes em minha infância. Nem ouviria as histórias de quando eles juntaram suas economias pra assistir a um memorial nos anos 90 que aconteceu em Londres. Talvez meus pais nunca tenham ido pra Londres então.

 Minha vida foi regada de acontecimentos ligados aos Beatles, ao final da banda e, especialmente, à morte de John. Se nada disso acontece, a minha realidade também não acontece. Meus pensamentos seriam outros, talvez até meus gostos fossem outros. A ligação entre meus pais muda, o nascimento de meus irmão. John, que agora é Ricardo, ter nascido em 08 de dezembro não tem mais significado nenhum.

 Quanto mais eu pensava, mais me assustava.

 E ficava pior a cada descoberta. Descobri que Gabriel não existe nessa realidade e que eu sou dois anos mais nova. QUAL O SENTIDO DISSO? Não era só eu, Clarissa me disse que a família dela também estava tendo alterações. Provavelmente isso afetou em escalas diferentes todas as pessoas que tiveram qualquer ligação aos Beatles. Eu nem consigo imaginar como está o mercado da música, as músicas que surgiram e deixaram de existir, os artistas que tiveram seus cursos modificados pelo fato de John Lennon ter existido por mais vinte anos além do que sabíamos.

 Eu nunca tinha parado pra pensar nisso, em como as coisas seriam diferentes. Na verdade eu tinha, mas de forma tão rasa. Antes eu imaginaria que os Beatles teriam se reunido e lançado mais músicas, apenas isso. Mas dá pra imaginar a quantidade de pessoas envolvidas em cada pequeno passo de Lennon? Todos os policiais e médicos que agiram em sua morte, todas as pessoas que assistiram os noticiários, todos envolvidos no julgamento de seu assassino, tudo que os outros Beatles fizeram ou deixaram de fazer depois daquele dia. Todos os fãs que se conheceram em frente ao Dakota, outros possíveis casais que, como meus pais, saíram de alguma forma de lugares relacionados a isso.

 Aliás... Aquele assassino tinha uma lista de pessoas que seriam suas vítimas. Se ele não matou John quer dizer que matou outra pessoa? Ou não? Ok, isso é perigoso. E eu NÃO VOU pensar nisso agora.

 Enquanto eu ia pra casa, a única certeza que tinha era que queria acabar com tudo. Não quero mais questionar minha vida, nem ver nada saindo do lugar. Já chega de confusões; eu não quero desaparecer, nem ver mais de meus conhecidos sumindo de repente. Estava tudo ótimo como estava, eu não precisava de nada disso e eu ODEIO viagens temporais a partir de agora. Odeio possibilidades de mudar o passado. Não tomem a oportunidade de voltar no tempo se puderem.

 

 

 Respirei fundo antes de conseguir entrar em minha própria casa, fiquei alguns segundos segurando a maçaneta da porta sem fazer nada. Eu nunca torci tanto pra que John tivesse sumido e voltado pra 1965 como torci naquele momento. E o pensamento mais terrível a se passar pela minha mente em meus últimos 25 anos (ou 23, sei lá) com certeza foi a torcida pra que ele morresse como aconteceu na realidade que eu conheci. Sim, eu desejei que nenhuma dessas mudanças tivesse existido e que John apenas morresse como todo mundo sabe que ele morreu nos anos 80. Que sua morte parasse de alterar minha vida.

 Mas, para meu terror pessoal, ele ainda estava lá. Ocupando meu sofá, tocando o violão que eu tinha gastado meu dinheiro inexistente pra comprar e usando as roupas do meu irmão que não existe mais. Provavelmente sem nem se lembrar de como conversamos largados numa sarjeta ontem depois de uma festa bem maluca em que algum desgraçado contou a ele toda a verdade. Me irrita ver como John está bem, como ele parece completamente calmo enquanto a minha vida vira de cabeça pra baixo.

 Todo o amor que eu tinha por ele guardado desde que me lembro por gente estava indo embora e sendo substituído por raiva. Eu não me importava se a culpa de estar ali era dele ou não, eu só sentia raiva porque ele podia ser o dono da minha vida e mexer com tudo como se eu fosse esse tempo tudo só uma peça em seu tabuleiro. Não só eu, todo mundo. Quem disse que ele poderia ter todo esse poder? Quem disse que era seu direito ser tão influente na vida de tanta gente?

 Posso dizer que eu estava um tanto fora de mim, minha cabeça parecia querer explodir e até ouvir seus acordes calmos no violão me irritava. Se por algum dia eu pensei que poderia ser legal tê-lo por aqui, retiro completamente minhas palavras. Eu só quero tudo como era antes. E a humanidade que me perdoe, outros fãs me perdoem também, mas eu não consigo mais agir como uma simples protetora de um ídolo e dar mais importância à vida dele que à minha. Talvez meu pai escolhesse por essa opção se estivesse no meu lugar, mas eu não consigo.

 Eu só quero o meu protagonismo de volta.

 John me encarou, como se nada estivesse acontecendo – claro, ele não percebia a confusão que estava causando – mas nem seu melhor olhar conseguiria afastar a raiva que eu sentia. Não era exatamente raiva, mas eu nomearei assim. E comecei a agir guiada por esse espírito rancoroso e cheio de medo que tomava conta de mim. Medo, acho que é uma palavra melhor.

- John – chamei sua atenção, enquanto ele ainda me encarava, agora aparentemente percebendo minha expressão desesperada. Eu queria dizer que o queria fora da minha casa, mas as palavras não saíram.

 Sem conseguir dizer, resolvi só fazer. Subi correndo até o quarto, sem dar mais nenhuma satisfação, sentindo meu peito pesar pelas escolhas irracionais que estava fazendo. Juntei tudo que existia de John por ali, tudo que comprei nos últimos dias e todas as coisas que costumavam ser de Gabriel e agora eram suas. Joguei tudo na primeira mochila que avistei em minha frente. Minhas mãos tremiam, mas não desisti de continuar.

 Desci as escadas com a mesma pressa com que as subi e vi que John continuava me encarando sem entender nada. Ele não precisava entender. Minha respiração estava pesada e eu sentia que poderia chorar a qualquer momento. Nem conseguia explicar exatamente por quê.  Fiz a mesma coisa nos outros cômodos, juntando as coisas dele – que na verdade não eram muitas, tudo coube numa única mochila e sobrou certo espaço. Por fim, sentindo que eu mesma explodiria se demorasse mais, eu apenas abri minha porta e coloquei a mochila pra fora.

 Sim, é exatamente isso que irei fazer, isso que está pensando.

 Eu não conseguia encarar John sentado no meu sofá, então dei todos os passos seguintes desviando o olhar pelo cômodo e encarando meus pés. Meu coração batia forte e minha cabeça doía, eu não conseguia mais pensar direito.

- Está doida? – John ria, claramente perdido na cena. Ouvir sua voz e sua risada me deixava numa confusão ainda maior. Eu me lembrava que era um de meus maiores ídolos e, ao mesmo tempo, que sua existência havia acabado de eliminar a existência do meu irmão mais novo.

 Sabe, uma pessoa movimentado por seus sentimentos mais estranhos tende a tomar atitudes estranhas. Eu tomei John pelo pulso, obrigando-o a praticamente jogar o violão sobre o sofá, e o arrastei pra fora. O empurrei pro lado de fora, literalmente. Eu não conseguia mais olhar pra cara dele sabendo que era o detentor dos direitos autorais da minha vida e da minha família.

- O que está fazendo, maluca? – ele me questionou antes que eu dissesse qualquer coisa, obviamente. Eu sei que parecia louca em seu ponto de vista (e talvez eu estivesse um pouco)

- Eu quero que você vá embora – retruquei, unindo toda a força que eu tinha pra não explodir em lágrimas ali mesmo. Não fazia sentido expulsar uma pessoa tão importante pra mim, mas também não fazia sentido mante-lo ali. Tudo que o rodeia está me cansando – Eu não quero mais que fique aqui na minha casa, nem que apareça na minha frente, nem que fale comigo. Eu quero que você volte pra Londres e pare de estragar tudo!

- Você ainda está bêbada?

 Ele não entendia minha raiva. E não entenderia, afinal, ele vai defender sua própria vida como eu defendo a minha.

- Você está estragando tudo, John! – pronto, lá estavam as lágrimas desesperadas que fizeram com que sua risada boba fosse embora. Eu não conseguia explicar o que estava acontecendo e também achava que não adiantaria fazer isso – Eu só quero proteger a minha família, ok?

- Dá pra dizer o que eu fiz? Se foi algo ontem, devo dizer que não me lembro...

- Você veio pra cá, descobriu coisas que eu disse que não deveria descobrir e agora resolveu não morrer quando deveria. Isso está tirando todas as coisas do lugar, mas é claro que vai continuar como está porque em seu mundo de egoísmo só sua vida importa! Tudo bem, se você não quer morrer naquele dia daquele jeito, faça isso, eu vou me acostumar ao fato de minha família não existir direito, nem meu emprego, nem eu mesma. Altere qualquer coisa que quiser, eu não me importo se eu mesma sumir até amanhã! Eu nem deveria ter te trazido do metro de qualquer forma, essa parte da burrice é minha, eu admito... Deixe minha vida em paz, ok?

 Desabafar todas as coisas de uma vez, no meio do choro e de forma embaralhada não foi uma boa ideia. Nem fechar a porta na cara dele sem explicar nada direito. Eu achei que poderia me ajudar a tirar todo o medo e o peso daquilo de mim, mas não aconteceu. Só piorou tudo. Eu não conseguia parar de chorar e pensava pela primeira vez no que estava fazendo.

 Que tipo de discurso é esse?

 Egoísta? Eu estava sendo egoísta.

 Eu estava pedindo pra que alguém morresse de forma cruel e injusta só porque queria minha vida do jeitinho de que era antes.

- MERDA! – xinguei a mim mesma antes de abrir a porta outra vez, na esperança que John ainda estivesse por ali. Foram poucos segundos, ele provavelmente nem tinha saído dali.

 Mas John não estava mais por ali. Ele realmente foi embora.

 

 

 E, enquanto eu estava pensando em toda a burrada que havia feito, chorando largada na sala sem saber por onde começar a consertar ou por onde procurar por Lennon, meu celular vibrou com uma mensagem de Clarissa.

“Hey, você viu isso? O que houve?”

 Mesmo apavorada e tremendo, prestei atenção à imagem que ela havia enviado. Um perfil de John na internet.

 

Data de morte: 08/12/1980.



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