História Time - Capítulo 24


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Categorias ASTRO, TWICE
Personagens Dahyun, Eunwoo, Jeongyeon, Mina, Momo, Nayeon, Sana
Tags 2yeon, Dahwoo, saida
Visualizações 79
Palavras 13.617
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Festa, Fluffy, Musical (Songfic), Orange, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo, Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Voltei.
Esse cap ta gigante e cheio de tiro.
Gente, lembra que eu falei que as coisas estavam caminhando pra se encaixarem?
Esse cap chegou. Hoje ABSOLUTAMENTE TUDO vai se encaixar na fanfic hsuahusahusha
Temos tres mscs hoje e os links delas estão nas notas finais.
Boa leitura, bora lá.

Capítulo 24 - Agosto, 2013


Fanfic / Fanfiction Time - Capítulo 24 - Agosto, 2013

“Descubra quem você é e seja de propósito. – Dolly Parton”. Sana encarava as letras na parede. Era uma madrugada do final do mês de julho e a garota já tinha perdido a conta de quanto tempo da sua vida havia gasto encarando aquela mensagem.

Tempo.

Cada vez que parava para pensar sobre o tempo algo dentro de Sana se embrulhava. Havia em sua vida um erro temporal, um desses imprevistos que somente ele, o tempo, é capaz de causar. Foi tudo uma questão de tempo, não foi?

Se ela tivesse se dado conta algum tempo antes.

Se Dahyun tivesse esperado um pouco de tempo a mais.

Sana afundou no sofá, embrenhada na escuridão da sala de estar de uma casa que nem era sua e, embora, houvesse uma vista privilegiada da noite nova-iorquina ao seu dispor, optou por encarar a parede.

“Descubra quem você é e seja de propósito. – Dolly Parton”. Maldita frase que não a permitia voltar ao seu status que de quase três meses atrás. Era impossível voltar a crença, profunda e cega, de que era hétero, descobrir a si próprio é um caminho sem volta, não havia meios de desfazer-se de si. No entanto, faltava-lhe o propósito.

Dahyun era o seu propósito, Sana tinha certeza disso agora. Mas o tempo, ah o tempo, ele não permitia que ela voltasse atrás e não cansava de esfregar em sua cara que, agora era muito tarde.

Tarde demais.

A esperança de Sana era que, talvez, depois de lhe maltratar tanto e fazer com que ela aprendesse suas lições a duras penas, o tempo se tornasse seu amigo. Talvez... Não custava acreditar.

Ela estava aguardando, pacientemente, que ele lhe ajudasse.

Suspirou fundo. Quanto tempo será que levaria? Quanto tempo leva pra que a gente se esqueça de uma pessoa? Quanto tempo mais ela teria que esperar para esquecer Dahyun completamente?

Quanto tempo é necessário para se mudar uma vida? Quanto tempo é necessário para que as bases rígidas das nossas estruturas sejam refeitas? Realocadas? Sedimentas sobre outras expectativas? Outros planos, outros sonhos? Quanto tempo leva pra gente se refazer?

Pra nos reconstruirmos? Pra mudar o que somos e quem somos? Quanto tempo até reprogramar o nosso cérebro? Alterar o programa interno? Para que ele mude a nossa forma de pensar, nossa forma de agir? Mude o olhar que temos sobre o mundo? O olhar que temos sobre nós mesmos?

Quanto tempo é necessário para se mudar uma vida? Quanto tempo? Algumas semanas? Mais de um mês? Um ano talvez? Quanto tempo?

Algumas coisas levam muito tempo para acontecer, Sana sabia disso. São coisas que, teimosas, buscam ser inalteráveis, birrentas, recusam-se a se modificarem. Mas a japonesa ansiava por aquela mudança e em algum momento ela teria que acontecer. Sana estava ali aguardando, mas também fazia a sua parte.

- O que você está fazendo ai? – Olivia perguntou tirando a japonesa de suas reflexões.

A garota, que usava blusa de dormir e uma calcinha mínima, coçou os olhos ao atravessar a sala em direção a cozinha. Serviu-se de um copo d’água e Sana observou o quanto ela era monumental mesmo com cabelos revirados e roupa de dormir.

- Esperando o táxi chegar. – Respondeu simples.

Olivia rolou os olhos.

- Porque você não dorme aqui? – Falou manhosa caminhando até o sofá onde Sana  estava.

- São suas regras, lembra? Foi você quem disse que as pessoas com quem você transa não estão permitidas a dormir na sua cama. Eu apenas estou as seguindo. – Sana  respondeu dando de ombros.

- Sana. Você quebrou essa regra na nossa primeira noite. Para de se fazer, eu já disse que você pode dormir aqui.

- Aquela noite foi diferente.

- Diferente por que? – Olivia coçou a cabeça.

- Porque foi... – “Porque eu estava tão abalada que não conseguiria ir para casa nem que você me mandasse”, completou mentalmente a frase. No entanto, não se sentia a vontade para abrir-se com a garota. – Eu tenho um dia intenso de trabalho mais tarde, quero tomar um bom banho e essas coisas que a gente só faz bem em casa. – Seu celular bipou em cima do seu peito onde estava disposto. – Ó. Chegou. Estou indo. – Levantou num pulo e deu um beijo na testa da garota.

- Vai lá... Encosta a porta. A gente se vê! – Olivia acenou já no caminho de volta pro quarto.

Aquela era a parte preferida de Sana sobre Olivia: ela não exigia nada além do que não oferecesse. Sana , por óbvio, não poderia oferecer seu coração a ela, mas sabia que, tampouco, Olivia lhe entregaria o dela. Aliás, às vezes Sana se questionava que espécie de coração era aquele de Olivia; que possuía tudo e todos e igualmente a tudo e todos se concedia, mas que jamais deixava de se pertencer.

Foi essa distinção de Olivia que possibilitou a Sana seguir com a relação que estavam tendo. Uma relação, mas não um relacionamento, porque, como Olivia mesmo  dizia “relacionamento rima com desgraçamento, isso não pode ser só coincidência”. A garota sempre saia com essas pérolas que fazia Sana rir por horas, era parte de algum dom especial que Olivia possuía.

Quando chegou ao trabalho aquele dia, Alexia já estava lhe esperando com o semblante nervoso.

- Que foi Lex? – Sana questionou assim que entrou na sala que dividia com mais alguns administradores de outros setores.

- A gente recebeu um e-mail da diretoria. – Falou tentando manter a calma. – Eles querem conversar sobre o relatório do balanço geral.

- Será que a gente fez alguma coisa errada? – Sana questionou ficando nervosa imediatamente, afinal, a responsabilidade era sua.

A japonesa correu para o seu computador. Ligou o aparelho e leu o e-mail com calma assim que o abriu na tela. Era bastante vago, dizia apenas para Sana e sua equipe, ou seja, Alexia, comparecerem a uma reunião da mesa diretora que se daria no próximo mês.

Ressaltaram, no fim do e-mail, para que fosse munida de cópias do relatório e balanço quinquenal dos hotéis por ela elaborado.

- Bem... – Respirou. – Só nos resta esperar então, né?!

- É... – Alexia concordou aliviando sua expressão. – O que você vai fazer esse final de semana? – Perguntou indo se sentar na sua mesa, que era ao lado da de Sana .

- Não sei. – Respondeu simples. – Algo com Olivia, provavelmente... Por que?

- Sana? – A loira a chamou com a voz doce. – Você e Olivia estão sempre juntas ultimamente, está rolando algo a mais entre vocês?

Sana arregalou os olhos e girou a cabeça pela sala, horrorizada com a ideia de que alguém pudesse estar prestando atenção na conversa das duas. No fundo, Sana esperava que em algum momento Alexia perguntasse aquilo. A loira sabia que Olivia ficava com mulheres e inevitavelmente chegaria a essa conclusão.

- Hm... Talvez. – Respondeu sem muita segurança.

Sana nunca teve coragem para falar sobre Dahyun à Alexia, no entanto, naquela época a garota não era sua amiga e a situação era totalmente diferente agora, sobre tudo o que Sana pensava sobre si mesma havia mudado. Ainda assim, seu coração acelerou de nervoso em admitir aquilo e ela ruborizou fortemente.

- Estou chocada. – Respondeu com uma mão contra o peito.

- Alexia – Sana iniciou com seriedade. – Descrição pelo amor de Deus, não é para as pessoas aqui dentro saberem disso. – Uma coisa era Alexia saber, outra, bem diferente, era o escritório inteiro saber.

- Ok. Ok. Mas você vai ter que me contar tudo depois.

- Ok.

- Meu Deus eu ainda estou desacreditada. – Sua expressão continuava perplexa.

- Vai trabalhar. – Sana  falou lhe dando as costas.

O último final de semana do mês de julho veio se arrastando. Sana estava a ponto de duvidar que ele chegaria e sabia que durante os próximos dias essa sensação de demora iria piorar ferrenhamente. Isso porque estava ansiosa com o fim da faculdade. Já quase não tinha mais compromissos com a universidade e logo estaria formada, ainda assim os dias pareciam eternos em sua expectativa para o fim. Sentia-se aliviada, no mínimo, nos últimos meses o trabalho a estava consumindo demasiadamente e não sobrava tempo para se dedicar aos estudos como no início e como ela gostaria.

Outro fato aliviador é que era verão em Nova York. Sana sentia-se bem durante os verões, os invernos eram sempre piores. Muitas lembranças.

Aquele verão, em específico, estava sendo inovador na vida de Sana . Isso porque Olivia era uma grande admiradora da estação e não perdia uma oportunidade de arrasta-la para algum programa a céu aberto. Aquele sábado, por exemplo, convencera Sana a fazer um piquenique no Central Park.

A japonesa acordou com o celular tocando, pensando em todos os possíveis xingamentos que iria usar caso fosse Olivia, porque haviam combinado de se encontrar somente a tarde. Era Nayeon.

- Oi, coelha! – Atendeu sentando-se na cama.

- Olá! Srta. Sana dorminhoca Minatozaki.

- Olá. Bom dia, que horas são?

- Hora de estar acordada. – Nayeon respondeu alegre.

- Está tendo um bom dia? – Sana perguntou. – Posso saber o motivo?

- Sei lá... Acho que é porque a faculdade está acabando. – Respondeu quase num berro.

- É eu estou feliz por causa disso, mas estou com sono também.

- Acorda Sana , fala comigo!

- Estou acordada. – Respondendo, forçando os olhos a ficarem abertos.

- Você não vai fazer festa de formatura e essas coisas? – Sana não tinha pensado nisso.

- Não. – Falou simples.

- Por que não, Sana? – Perguntou preocupada.

- Porque, sei lá. Estou ocupada demais no trabalho, além disso não teria como todos virem pra cá e essas coisas... Meus pais já vieram pro Natal.

- Hmm, mas você não vai comemorar?

- Ah provavelmente sim. – Bocejou. - Mas coisa pequena, com alguns conhecidos. Sei lá... Não pensei nisso ainda.

- Então... A gente vai fazer uma festa pra comemorar. – Nayeon começou. – Você podia vir comemorar com a gente.

- Ir pra Miami? – Arregalou os olhos de súbito, perdendo completamente o sono. – Eu não sei Nayeon... Eu tenho tanta coisa pra resolver no trabalho.

- Sana é nossa formatura, você não pode deixar de vir e você tem que comemorar também. Todo mundo se forma esse mês, a gente sempre imaginou isso, lembra? Como seria legal fazer uma festa de formatura em conjuntos e como isso seria possível já que entraríamos na faculdade no mesmo ano...

Sana engoliu em seco. Não queria ir pra Miami, a ideia a aterrorizava da ponta dos dedos do pé aos fios de cabelo.

- Eu... – Não sabia o que responder. – Eu vou pensar Nayeon. Eu tenho que ver se vai ser possível sair no trabalho.

- Sana, a festa vai ser no sábado. Dá pra você vir na sexta a noite e voltar domingo.

Seria tão perfeito ter você aqui, junto com a gente em pelo menos uma das nossas lembranças da faculdade.

Aquilo nocauteou Sana , poderia jurar estar até zonza.

- Tudo bem Nayeon. – Concordou vencida.

- Você vem? – A coelha perguntou num gritinho.

- Uhum. – Sana respondeu quase num sussurro.

- Ok. Importante, Sana , importante – Frisou. – Qualquer coisa a respeito da festa fale diretamente comigo. Não meta Momo ou Mina nisso, elas estão me deixando louca na organização. Qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa, direto comigo. Entendido?

Entendido. – Nayeon não parava de falar, daquele jeito que ela fazia quando se empolgava com algo. Sana riu. – E ah, antes que eu me esqueça... Você fez um facebook para usar Sana  Minatozaki, eu nunca te vejo lá.

Sana riu minimamente.

- Desculpa Nayeon! Eu realmente tentei me acostumar com ele, mas não consigo.

- Tudo bem. – A menor respondeu e pelo jeito que o som chegou Sana sabia que ela estava sorrindo. – Eu vou deixar você voltar a dormir. Depois te mando os detalhes da festa por mensagem e também já aproveito que vou visitar meus pais hoje a noite para passar na sua casa e convidar sua família.

- Obrigada, coelha.

- Obrigada por vir Sana. Eu estou muito feliz, nem acredito que você vem.

- Eu vou... – A emoção de Nayeon a comovendo.

- Beijo.

- Beijo...

Nayeon desligou.

Sana encarou o teto de seu quarto.

Ir para Miami era o tinha de mais distante em seus planos, podia sentir o desespero tomando conta de seu corpo e ainda nem estava lá. A ideia de encontrar Dahyun a aterrorizava. A garota havia se tornado tudo que Sana mais tentava evitar e agora iria pra Miami. A ideia a fez se levantar com uma gastura em seu estômago.

Fez um café e serviu-se de uma generosa quantidade. Sentou-se no sofá da sala, encarando o reflexo do sol que entrava tímido pela janela.

Encontrar Dahyun era um medo real. O medo não era de Dahyun em si, a ideia de Dahyun em si era terrivelmente amável e isso era o que dava medo. O medo era a previsão aterrorizante de que desmoronaria na frente da coreana, soltando suas novas verdades de modo incontido. Era fácil conter-se em apertar um botão e não ligar, difícil seria encarar os castanhos cálidos da coreana e não ligar. O medo era fruto de sua própria fraqueza. Fruto da certeza de que cairia, porque bastava um gesto, um olhar, uma palavra para se perder, para deixar suas veias se intoxicarem de Dahyun.

Dahyun, que agora era uma mulher casada.

Casada com seu melhor amigo.

O medo era a certeza que cortava seu peito em saber que ignoraria tudo isso se Dahyun pedisse.

O medo era que ela pedisse.

Sana precisava de alguma solução. Não poderia correr o risco de se deixar levar pela presença de Dahyun. Precisava de algo que a mantivesse afastada da coreana, um escudo que a protegesse.

E como se fosse uma resposta divina aos seus anseios o bipar do seu celular avisou que recebera uma mensagem de Olivia.

Olivia.

 Para Sana pareceu a saída perfeita.

Na mensagem a garota apenas informou que esperaria Sana no Central Park.

- Eu não acredito que você mora aqui faz quatro anos e nunca fez piquenique no Central Park.

- Eu estou sempre ocupada.

- Você é uma vergonha para essa cidade. – Olivia sentenciou estendendo a toalha no gramado e viu Sana se sentar no único canto do pano onde o sol não pegava. – Pessoas de Miami não deveriam gostar de sol?

- Eu gosto de sol.

- Você mente Sana . – Olivia retrucou com os olhos cerrados e Sana riu.

- Eu gosto ok. Eu só não gosto dele sobre mim diretamente.

- Você vai ter que me provar que gosta dele. Mais tarde quando ele começar a se por nós vamos aplaudir.

Sana gargalhou alto, uma risada forçada e escandalosa. No entanto, ela se lembrou do dia em que aplaudiu o sol para alegrar Dahyun e aquilo fez ela se quebrar momentaneamente. Ainda que estivesse acostumada com lembranças constante de Dahyun às vezes doía um pouquinho mais, principalmente aquele dia, em que elas vinham com acompanhadas das preocupações em reencontra-la.

- Não vou, não.

- Vamos sim. – A garota finalizou ameaçadoramente.

Sana riu fraco.

- Por que você não senta? Eu quero comer. – Apontou e Olivia se sentou do outro lado.

Depois de comerem Olivia se deitou sobre a toalha e Sana permaneceu sentada no seu cantinho com sombra. Ficaram nessa posição por algum tempo, apenas sentindo o ar bater no rosto e Sana se condenou por não ter aproveitado aquilo antes.

Essa era outra coisa que Sana gostava sobre Olivia: a garota certamente sabia como viver a vida tentando aproveitar o que ela tinha de melhor. Encarou os traços suaves do rosto de Olivia e deixou seu pensamento vagar para o fato de que seria bom poder se apaixonar por ela. Seria mais fácil.

- Sana? – Olivia a chamou. Sana aterrissou de novo no solo do Central Park.

- Vem comigo pra Miami? – Perguntou num folego.

- Que? Pra Miami?

- Sim. – Falou aflita. – Meus amigos vão dar uma festa de formatura. Vem comigo?

- Sana ... Sana ... – Olivia repetiu seu nome de uma forma engraçada. – O que eu disse sobre relacionamento? Você quer me levar pra Miami? Sério? – Perguntou indignada. – Me apresentar pra sua família e pro seus amigos? O que você está fazendo...

- Não. Não. Não. Não é nada disso. – Contorceu seu rosto para a ideia. – Você vai como minha amiga. Qual é... Você é minha amiga antes de qualquer coisa. Por favor, vem comigo? Eu nunca te pedi nada.

- Hmm... Eu consigo me lembrar de algumas coisas que você já me pediu, sim. – Falou sugestiva em um tom malicioso e Sana ruborizou envergonhada. – Por que você quer tanto que eu vá?

A resposta para essa pergunta soou muito óbvia na cabeça de Sana . Com Olivia lá ela não teria como se aproximar de Dahyun. Olivia seria a sua segurança, uma garantia de que manteria o controle. A garota estaria ao seu lado o tempo todo, isso lhe deixaria afastada e com foco em outra coisa que não fosse Dahyun. Embora tenha pensado tudo isso, Sana não poderia justificar dessa forma a necessidade que tinha de que Olivia fosse. Até porque, era possível que se soubesse os reais motivos de Sana ela se recusasse a ir e isso estragaria a única solução que Sana encontrou para o seu dilema.

- Eu vou comemorar a minha formatura com eles e é importante pra mim que você vá. – Falou, o que não era mentira se parasse para analisar.

- Own. Que fofa você Sana! Sabe... Eu iria de qualquer jeito, não perderia a oportunidade de esfregar isso na cara do Nathan, só queria fazer você ser fofa...

Sana respirou aliviada.

- Ei... Eu sou fofa. Você é que é uma pessoa horrível.

- Naah! Eu sou uma pessoa ‘importante’ – Falou imitando o tom e voz de Sana , que riu.

Daria tudo certo, mentalizou. Daria tudo certo!

- Você não pensa em voltar pra Miami, Sana?

- Tipo voltar pra sempre?

- É... Eu achei que depois que você terminasse a faculdade iria voltar pra lá, por causa da sua família e seus amigos. Todo mundo está lá, né?

Todo mundo estava lá e esse era exatamente o problema. Sana não sabia como faria para ser ela mesma diante de todo o seu mundo e também não pensava em ter uma vida próxima a Dahyun e Eunwoo, não enquanto ainda se sentisse daquela forma. Precisaria de mais tempo.

- Por enquanto não. – Respondeu simples. – Vou ficar mais algum tempo por aqui.

Quanto tempo? Ela não sabia.

Quanto tempo é preciso para se mudar uma vida?

- Mas você quer voltar algum dia? – Olivia parecia interessada.

- Eu gostaria de nunca ter saído de lá, pra falar a verdade. – Respondeu sem pensar.

Essa era uma das realidades da vida de Sana : ela não saiu de Miami porque desejava viver em outro lugar, ela saiu porque não aguentava mais estar lá. Porque precisou, de alguma forma, se afastar. Àquela época acreditava piamente que quatro anos seriam suficientes para que arrumasse tudo. Quatro anos se passaram e ela estava mais bagunçada do que nunca.

A sua sorte, ou azar, é que: Se antes Sana tinha boas desculpas para sair de Miami, agora ela tinha ótimas desculpas para não voltar.

- Por que você saiu então?

- Eu tinha uma ótima oportunidade de estudo em Nova York. – Mentiu.

- E porque agora, com o fim da faculdade, você não quer voltar?

- Porque agora eu tenho uma ótima oportunidade de emprego em Nova York. – Riu.

- Nova York parece te dar ótimas coisas. – Olivia falou sugestiva e Sana riu. – Falando em trabalho, você terminou aquele relatório?

- Terminei. Eu e Alexia teremos uma reunião com a diretoria para falarmos sobre ele.

- Woow. Você não está preocupada com isso?

- Eu estava no início, mas pensei melhor e acho que é por um bom motivo. Eu tenho certeza que fizemos um ótimo trabalho. – Respondeu simples.

O mês de agosto chegou e ao contrário do que Sana havia imaginado, veio voando.

É sempre assim não é? Quando estamos ansiosos para que algo aconteça, demora. Quando estamos ansiosos para que não aconteça, voa. Quando Sana estava ansiosa para que agosto chegasse logo e com ele o fim da faculdade os dias estavam se arrastando, a partir do momento que ela menos queria que o mês chegasse e com ele a sua viagem para Miami os dias voaram.

A japonesa e Olivia partiram pra Miami sábado pela manhã. Seus pais e irmãos já estavam as esperando, Sana havia informado a eles que iria acompanhada de uma amiga e incrivelmente estava calma com a situação de levar Olivia para a casa de seus pais, sabia que ninguém iria desconfiar de algo. Foram recebidas por seu pai no aeroporto e, assim que colocou os olhos sobre o homem, Sana considerou que havia algo de recompensador naquilo tudo. Sua família adorou Olivia, o que para Sana não era nenhuma surpresa, a garota sabia ser adorável.

Estava um calor infernal na cidade e Sana percebeu que não estava mais acostumada com aquilo. Deu-se conta que sua vida desprendeu-se de Miami de maneiras que ela nem havia cogitado, aos poucos, estava mais adaptada ao frio de Nova York do que ao calor de Miami.

Quanto tempo é preciso para se mudar uma vida?

 Sana não sabia, mas considerou que quatro anos haviam mudado muitas coisas, embora não tantas quantas ela gostaria e nem das formas como ela preferiria. Mas inegavelmente haviam mudado.

Depois de um dia de comilança, muita conversa com sua família, preguiça na antiga varada de casa e calor a noite chegou.

Tornou-se nítido em Sana o nervosismo que durante o dia tentou amenizar em conversas triviais de assuntos aleatórios. Enquanto se arrumavam pra festa derrubou um vidro de perfume, arrumou mais vezes o cabelo do que Olivia poderia contar nos dedos de suas duas mãos e para finalizar quebrou seu pó compacto, por sorte sua irmã tinha um que lhe serviu perfeitamente considerando que possuíam o mesmo tom de pele.

Vestiu algo leve, o calor seguia ferrenho. Não conseguiu deixar de analisar Olivia, que surgiu maravilhosa em um vestido preto com transparências, sorriu constrangida ao perceber que sua mãe estava porperto.

O fato a fez pensar no quanto seria complicado se algum dia acontecesse de trazer alguma garota para apresentar aos seus pais como namorada, não se sentia minimante preparada pra isso. Para Sana , a pior parte era não ter ideia de qual seria a reação deles.

Chegaram a festa todos juntos: Sana , Olivia e os demais Minatozaki.

O lugar do evento, um salão de festas perto do centro da cidade, era enorme e Sana  concluiu que havia dedos dos Yoo ali. Não poderia estar mais correta, a família de Jeongyeon estava toda na festa, reconheceu alguns rostos do casamento assim que entrou no salão.

A decoração do lugar estava encantadora. Havia painéis fotográficos espalhados pelo local, algo que Sana teve certeza ser ideia de Dahyun e sorriu pelo pensamento. Dahyun e fotografia na mesma frase era sempre algo encantador. Seus familiares foram se sentar, numa das diversas mesas brancas com toalhas escuras que estavam dispostas no salão para os convidados, enquanto ela e Olivia se mantiveram entretidas com as fotos. Eram de seus amigos ao longo dos anos, algumas ela já havia visto nas poucas vezes em que usou o facebook, outras não. Tentou não se emocionar ao pensar que aquilo se parecia muito com a materialização do quadro imaginário que fez anos atrás, antes de ir embora para Nova York.

No meio do caminho correu os olhos pelo lugar e respirou um aliviada, mesmo que temporariamente, ao ver que Dahyun ainda não havia chegado. Segundos depois braços finos entrelaçaram-se ao seu pescoço, forçando lhe para baixo, era Nayeon.

A coelha lhe abraçou longamente, com um sorriso de orelha a orelha.

- Eu ainda não acredito que você veio. – Confessou durante o abraço. – Estou tão feliz.

– Sana sorriu genuinamente, ouvir aquilo era bom. - Desculpa não ter ido te ver antes, ou te receber no aeroporto é que eu estava muito ocupada aqui.

- Não tem problema, Nayeon. – Respondeu sorrindo.

Jeongyeon veio logo atrás de Nayeon e abraçou Sanacom força. Assim que ele a soltou

Sana tratou de apresentar Olivia, que exibia um sorriso simpático nos lábios.

- Você trouxe alguém... – Jeongyeon pontuou.

- Eu não avisei vocês, desculpa. Mas achei que não teria problema trazer uma amiga.

- Não é nenhum problema, Sana. – Nayeon falou. – Você faz parte dessa festa, poderia trazer quem quisesse. – Sana e Olivia sorriram para a menor.

Play – Landslide – Robyn Sherwell

No entanto, o sorriso no rosto de Sana morreu aos poucos ao ver Dahyun, acompanhada dos pais de Eunwoo, entrando no salão.

Eunwoo vinha atrás, compenetrado em explicar alguma coisa pra Sojung, ele fazia gestos giratórios com as mãos e parou o movimento no ar quando viu os olhos de Sana caírem sobre Dahyun, que abruptamente cessou o caminhar a sua frente.

Mina e Momo entraram em seguida e deram um berro assim que avistaram Sana .

- AAAH MEU DEUS EU NÃO ACREDITO QUE A BRANQUELA ESTÁ AQUI! – Mina berrou e correu em direção a Sana .

Todos os músculos de Sana se retesaram pela presença de Dahyun a alguns metros de distância, puxou o ar para seus pulmões com força, porque ele parecia se recusar a entrar, e com resignação arrastou seus olhos de Dahyun para Mina, que chegava rapidamente em sua direção.

Nayeon sorriu satisfeita. Sana franziu o cenho sem compreender.

- Eu mantive sua vinda em segredo. – Anunciou sorrindo.

- Você o que? – Engoliu em seco.

Antes mesmo que a menor pudesse responder Mina pulou sobre Sana , que precisou firmar os pés no chão para não cair. Momo se juntou ao abraço e dali Sana  podia ouvir o som das gargalhadas de Nayeon, que só parou quando as garotas a soltaram.

- Sabia que essa era a melhor surpresa que eu poderia fazer. – Nayeon comemorou.

- Baita surpresa. – Jeongyeon murmurou, acrescentando um sorriso forçado no final da frase.

- Você sabia que ela viria? – Eunwoo perguntou curioso para Dahyun, que ainda não se movia.

- Não! – Respondeu vendo o rosto de sua mãe se contorcer. – Eu não fazia ideia.

- Eu também não. – Falou com um riso anasalado devido ao nervosismo, pegou Dahyun pelas mãos e caminhou em direção a onde estavam os demais.

O fluxo de informação passando no cérebro de Dahyun foi rápido demais, sua expressão correu de surpresa paralisadora para surpresa desesperada. Não fosse Eunwoo a puxando ela teria permanecido parada até que encontrasse calma e serenidade o suficiente para se aproximar de Sana sem deixar seu nervosismo transparecer.

No entanto, Eunwoo a puxava rapidamente e ela não conseguia pensar direito, ela não conseguia nem se quer sentir suas pernas.

Sana estava ali e foi como ver todas as suas extintas expectativas lhe acenando vagamente e a cada passo, que Eunwoo a fazia dar, elas aumentavam de tamanho. Até que ficaram tão grandes barulhentas que acordaram pensamentos adormecidos. Sana estava ali, Dahyun quis gargalhar será que Sana finalmente havia chego?

O pensamento era loucura, Dahyun sabia, mas algo dentro dela queria que fosse verdade. Sana ali era como um sopro de vida no fundo de seu coração abatido. Por mais que se recusasse a pensar em Sana conscientemente, às vezes sua mente escapava de si e ela se flagrava pensando se ela voltaria quando acabasse a faculdade. Sana estava ali, bem diante dela, então era possível, não era? Não conseguia evitar o sorriso tentando lhe escapar os lábios.

Sana viu Dahyun e Eunwoo se aproximarem e o meio sorriso nos lábios da coreana fez com que suas mãos suasse. De repente tudo aquilo pareceu errado, estar ali lhe pareceu errado e ter Olivia de pé ao seu lado lhe pareceu, terrivelmente, errado.

Dahyun era o propósito, Sana não duvidava mais disso e era difícil ver seu propósito caminhando em sua direção de mãos dadas com outra pessoa.

Era ainda mais difícil não ter o direito de fazer alguma coisa.

Eunwoo só soltou as mãos de Dahyun quando chegaram, ele espichou o corpo para depositar um beijo na testa de Sana .

- Sana, não acredito que você está aqui essa noite.

- Olá, Eunwoo. – O cumprimentou com um sorriso fraco, porém sincero. Sentia tanta falta do amigo sempre doce e gentil.

Dahyun encarou Sana parada no mesmo lugar onde Eunwoo lhe deixara. Sanaa encarou com o peito contorcido na expectativa do viria a seguir. Precisava ignorar as batidas exasperadas de seu coração, que lhe imploravam para se apertar contra Dahyun, revelar a ela todas as suas angustias e implorar por uma salvação. Por sorte, sua mente, preparada para a ocasião, tratou de lembra-la, repetidamente, como um martelo a pregar-lhe na consciência a verdade infastável dos fatos: Sana não deveria nem estar ali.

Foi com este pensamento que a japonesa se aproximou de Dahyun para cumprimenta-la. Repassou mentalmente que aquilo deveria ser feito de maneira rápida e com menor contato físico possível. Sana não queria torturar a si mesma e principalmente não queria causar um mal estar em Dahyun.

O meio sorriso de Dahyun se abriu em um riso tímido, quase recatado. Algo havia mudado em Dahyun. Sana a percebeu diferente. Algo definitivamente havia mudado.

Quanto tempo se leva para mudar uma vida?

Fazia um ano e alguns meses que Sana não colocava seus olhos sobre Dahyun, mas imediatamente soube que a diferença na coreana não se restringia a aliança reluzente que carregava na mão esquerda. Era outra coisa, algo que ela não saberia detalhar no momento, mas que fazia falta.

Dahyun, ao contrário de Sana , não teve tempo de organizar-se previamente para tudo aquilo e sua resposta a aproximação da japonesa foi incontida. Chocou seu corpo contra Sana num abraço cheio de saudade, afundando o nariz nos cabelos negros da japonesa.

Sana engoliu a saliva com dificuldade, imóvel, nada no mundo poderia lhe preparar para a sensação de ter Dahyun Kim presa ao seu corpo, envolvendo-a em um abraço tão natural quanto as batidas rápidas de seu coração, que podia sentir pulsando contra si. Levou uma das mãos nas costas da coreana e, impensadamente, usou sua força para sustente-la ali, entre seus braços.

- Oi Sana . – Escutou a voz suave próxima ao seu ouvido.

- Oi Dahyun. – Não conseguiu segurar o riso ao pronunciar o nome.

Ao sentir-se sorrindo Sana arregalou os olhos e se afastou de pressa. Não podia vacilar, Dahyun se entranharia por seu organismo fácil demais, rápido demais.

Em um gesto planejado para aquela noite aproximou-se de Olivia e chamou a atenção dos amigos para si, a fim de apresentar a garota.

- Gente! Essa é a Olivia. Uma amiga de Nova York, que eu trouxe para comemorar a termino da faculdade. – Forçou-se a não olhar para Dahyun enquanto o fazia.

Dahyun ainda estava assimilando o afastamento súbito de Sana quando a presença de Olivia lhe atingiu. Seu sorriso vacilou e a forma como Sana acomodava a mão nas costas da garota fez seu estomago embrulhar. A sensação piorou ao encontrar os olhos de Eunwoo sobre si, o rosto do rapaz moldado numa expressão séria, acusativa.

Todos foram receptivos e cumprimentaram Olivia calorosamente, exceto por Dahyun que apenas direcionou a garota um aceno de longe. Sana não se surpreendeu, se aquela máxima sobre Dahyun possuir o poder de ler sua mente continuava real, a essa altura ela já teria entendido tudo. Sana apenas desejou profundo que Dahyun compreendesse.

A coreana aproveitou a bagunça que todos faziam ao redor da presença de Sana e se afastou a passos largos. Caminhou ligeiro até a ilha de bebidas e agarrou com firmeza um copo para se servir de qualquer coisa com muita vodca. O ato não passou despercebido por Jeongyeon, que no segundo seguinte estava ao seu lado imitando seus movimentos e servindo-se também.

- Por que você não me avisou que ela viria? – Dahyun o questionou, o maxilar cerrado entregando seu nervosismo.

- Você não deveria se importar tanto. – Jeongyeon respondeu simples.

- Mas eu me importo! – Era quase um gritou. O encontro inesperado a desestabilizou e a presença de Olivia a fez sentir raiva de si por ter sido tão afoita e ingênua. Se ao menos ela soubesse que Sana viria teria se preparado e levantado suas, quase nunca usadas, mas agora necessárias defesas. – Droga. Eu me importo. – Desabafou. Estava a ponto de sentar-se no chão e chorar ali mesmo.

- Eu não sabia. Ok? Nayeon só me contou na hora que eu vi Sanachegando. – Explicou.

- Ela trouxe uma garota. – Sua expressão quebrou. – Você acha que... – Não tinha coragem de finalizar a pergunta.

- Não. – Jeongyeon respondeu entendendo sua angustia. – Dahyun, é uma amiga, ok? Não tire conclusões precipitadas, você está nervosa. Além do mais, ela não faria isso...

Dahyun suspirou e sorveu um pouco da bebida que tinha se servido.

- Você tem razão ela não faria isso. É a Sana ... Ela não faria isso comigo. Ela não viria até Miami pra minha festa de formatura com alguma espécie de namorada. – Dahyun riu de nervoso. – Ela falou que nunca se relacionaria com uma mulher... – Bebeu mais um pouco da sua vodca. – Ela não faria isso. – Tentou convencer a si mesma.

Jeongyeon ergueu umas das sobrancelhas, preocupada, porque Dahyun parecia um tanto transtornada.

- Acho que é melhor você não beber muito hoje. – Aconselhou a antes de sair.

Dahyun seguiu o conselho de Jeongyeon. No entanto, todos os outros estavam bebendo muito aquela noite. Eunwoo se sentiu mais relaxado depois do terceiro copo e Sana estava até rindo, sem desgrudar um segundo de Olivia. Para onde ia carregava a garota consigo, como dever ser feito com todos os escudos. Não podia ser pega desprevenida, qualquer erro seria fatal.

Passaram uma boa parte da noite com seus pais e irmãos, assim como os outros também se dedicaram aos seus familiares presentes. Dahyun não aguentava mais Sojung reclamando, sabia que o motivo da irritação de sua mãe era Sana . A cada lamurio da mulher a garota rolava os olhos e suspirava fundo, buscando paciência.

Num horário já bastante avançado da noite os pais de Eunwoo decidiram ir embora e  Sojung, muito contra a sua vontade, aceitou a carona que eles ofereceram.

- Por que vocês não vêm embora também? – Ela questionou Dahyun na despedida.

- Porque eu e o meu marido – Frisou a palavra. – Vamos ficar nossa festa, para nos divertimos com os nossos amigos.

- Não banque a espertinha comigo Dahyun. – Ela retrucou séria. – Acho muito importante que você tenha noção que seu marido – Frisou a palavra da mesma forma que Dahyun fez. – Está aqui e que você não resolva sair do lado dele...

- Mãe! – Dahyun a repreendeu severamente. – Não é possível que a Sra. nunca vai esquecer isso.

Sojung a devolveu o olhar na mesma proporção de rigidez.

- Não pense que eu não reparei no seu desespero ao ser surpreendida por ela, Dahyun, e nem que eu não vi o abraço que você deu nela, ou a maneira como seus olhos a procuraram durante a toda a noite. Eu esqueceria isso se você já tivesse esquecido.

- Eu não vou discutir isso com a Sra. – Disse entredentes. – Definitivamente não depois de tanto tempo. Vai embora mãe. – Dahyun pediu. – Por favor.

A mulher foi.

Dahyun agradeceu mentalmente ela ter atendido ao seu pedido, porque sua mãe, às vezes, se tornava um desafio maior do que suas forças. Observou de longe Sana e Olivia sentadas à mesa com a família de Sana , todos riam descontraídos de algo que a amiga de Sana contava. O interior de Dahyun queimou, aquela noite inteira estava sendo desafio maior que suas forças.

Sana sentiu os olhos da coreana sobre si, observou de rabo de olho a careta que Dahyun fez e aquilo a entristeceu. A sua intenção em levar Olivia consigo jamais fora atingir a coreana de qualquer forma, ela só queria ter segurança para aquela noite. O que de fato estava funcionando, tudo estava correndo, com exceção de alguns pequenos imprevistos.

Quando seus pais e irmãos foram embora Sana cogitou a possibilidade de ir junto com eles, no entanto, sabia que devia mais atenção aos seus amigos. Por isso, continuou na festa e obrigou Olivia a se levantar de onde estava e irem se sentar na mesa que eles ocupavam.

Já era tarde, mas todos continuavam animados, alguns nitidamente bêbados, como era o caso de Nayeon que não conseguia esconder as bochechas vermelhas e os olhos brilhosos. A conversar fluía naturalmente e em alguns momentos Sana se deixou arrastar os olhos até Dahyun, sentada do outro lado da mesa algumas cadeiras para a esquerda. A coreana estava relativamente quieta e quase não levantava os olhos das próprias mãos, algo havia mudado em Dahyun e aquilo incomodava Sana , era num desconforto agoniado. Em determinado momento o assunto se transformou no óbvio para ocasião: o que eles fariam de suas vidas formados.

- Você veio para ficar Sana ? – Momo perguntou alto e os olhos de Eunwoo e Dahyun correram automaticamente para cima de Sana .

- Não. Inclusive, amanhã preciso ir embora cedo. Tenho uma reunião importante na segunda-feira. – Sana riu de nervoso vendo a cara de Dahyun se contrair, aquilo estava se tornando desesperador. A cada expressão torcida que ela gerava em Dahyun sua vontade de sair dali correndo aumentava.

Dahyun tentou evitar a careta, mas por dentro sentia muita raiva por ser tão tola a ponto de achar que Sana teria voltado pra Miami. Amargurou sua própria infantilidade, malditos eram os resquícios de sua ingenuidade, inocência e ilusão que teimavam em existir quando se tratava de Sana . Malditos.

- Quando você foi embora disse que voltaria assim que terminasse a faculdade... – Nayeon lembrou com um semblante triste.

- Eu sei coelha. – Aquilo fazia Sana se sentir ainda pior. – Mas eu tenho um emprego muito bom em Nova York, sabe? É uma oportunidade um tanto quanto única eu preciso aproveita-la e vocês já decidiram o que vão fazer agora? – Sana perguntou, para retirar o foco da conversa de cima de si.

- Eu e Mina vamos continuar a dar aulas de dança na academia onde trabalhamos por enquanto, mas temos alguns projetos para o futuro. – Momo sentenciou.

- Projetos lindos, mon amour. – Mina finalizou a frase em um francês bêbado e todos riram.

- Eu quero ter filhos. – Nayeon falou. – Por favor, Jeooong. – Se pendurou no pescoço da esposa. – Eu quero ter filhos. – Berrou. – Me dê bebês lindos de olhos puxados e estatura

mediada.

- Eu jurava que a essa altura vocês já teriam uns três. – Sana pontuou.

- Eu teria, mas a Jeongyeon... – Falou em tom acusativo. – A Jeongyeon é uma chata que diz que “precisamos ter planejamento para uma criança” – Finalizou imitando a voz de Jeongyeon num deboche.

- É verdade meu amor. – Deu um beijo leve nos lábios de Nayeon. – A gente precisa se organizar, não é só sair tendo filhos. Nós não tínhamos tempo para cuidar de uma criança durante a faculdade.

- Falando em filho, vocês não vão ter babys Eunwoo e Dahyun? – Momo perguntou descontraída.

Sana correu os olhos temerosos para Dahyun e a garota estava com os seus pregados na mesa. Sana não sabia se queria ouvir a resposta e a sua careta veio antes do som da voz de Eunwoo, antecipando o impacto.

- Não. – Eunwoo respondeu simples e Sana soltou o ar que nem sentiu prender nos pulmões. – Dahyun não quer ter filhos. – Pontuou. – Mas vamos ter um cachorro, não é amor? O nome dele vai ser Red.

Dahyun meneou com a cabeça em concordância levantando os olhos e encarando Eunwoo.

- Quando nos mudarmos pra uma casa maior. – Ponderou.

- O que vai ser logo, porque você vai conseguir aquela vaga de professora de artes e vai ter dinheiro – Brincou.

Dahyun deu um riso fraco para o homem.

- Você desistiu da fotografia Dahyun? – Sana perguntou urgente, perplexa com a informação.

- Não seria viável. – A garota respondeu como se aquela justificativa bastasse.

- Mas você amava fotografia. – Sana argumentou e Dahyun viu sinceridade em seus olhos e, de alguma forma, aquilo a irritou. Sana não tinha permissão de demonstrar interesse em seu futuro daquele jeito terrivelmente lindo e preocupado. Ela não podia fazer aquilo, porque gerava expectativas em Dahyun. Expectativas que ela teria que derrubar sozinha, amargando-se mais uma vez por se permitir tê-las.

- Às vezes a gente ama coisas que não são possíveis, mas por sorte aprendemos a amar outras que são – Dahyun respondeu e segurou a mão de Eunwoo em cima da mesa. – Eu gosto muito de ensinar artes.

Sana se retraiu na cadeira.

Nada daquilo fazia sentido. Dahyun deveria estar feliz. Sana não conseguia olhar para a coreana e enxergar os sorrisos amplos que estavam estampados nas fotografias pendurados ao seu redor. A onde estava tudo aquilo?

Havia algo de diferente na coreana, algo que Sana não conseguiria perceber por fotos, porque quem vê foto não vê coração. Mas a diferença estava ali, bem na frente dos olhos de Sana . Era algo no olhar pesado, no sorriso intimidado e nos gestos contidos, era algo na dureza das palavras, na tentativa de não parecer ingênua, na ausência da esperança e na morte dos sonhos gigantes.

Dahyun havia se tornar um pouco menos Dahyun, era isso que havia de diferente.

Dahyun estava atolada na realidade da vida até o pescoço e Sana quis chorar, pela realização insólita, e até então desconhecida para si, de que era ela a responsável por afundar Dahyun e ao invés de deixar que Dahyun se levantasse ela continuava ali puxando-a para baixo.

Tudo estava errado. Tudo estava errado em níveis inimagináveis. Dahyun deveria ser feliz. Sana não se importava em privar-se do amor da coreana, mas Dahyun deveria ser feliz.

Dahyun não estava feliz. Sana não sabia o que fazer, porque a angustia em seu peito se tornou palpável e as lágrimas iniciaram a lhe subir aos olhos. As mãos de Olivia passaram despretensiosas sobre as sua perna por baixo da mesa, fazendo-a se sentir ainda pior.

A voz de Momo a chamou e obrigou-se a desviar sua atenção para a japonesa. Prendeu o choro na garganta com a certeza de que, inevitavelmente, em algum momento mais oportuno ele viria, assim como as milhares de constatações que lhe justificavam.

- Sana como está o Vicent?- Foi o que Nomani questionou.

Dahyun sorriu involuntariamente com a pergunta ao lembrar-se do velho amigo de Sana e dos bons momentos que tiveram na companhia um do outro.

- Vai bem... Mais ranzinza do que nunca. – Sana respondeu com o semblante ainda triste.

- Eu não acredito que até elas, que moram do outro lado do país, conhecem o Vicent e eu ainda não. – Olivia protestou indignada.

Ver a garota mencioná-lo fez Dahyun morrer um pouco mais.

- Olivia. – Sanaa repreendeu. – Eu já falei que assim que der você vai conhecê-lo. É que estava tudo muito corrido esses último meses.

- Vocês se conhecem a pouco tempo? – Eunwoo perguntou e Sana o encarou nervosa, porque falar dela e de Olivia seria o fim derradeiro para aquela noite.

- Uns cinco, ou seis meses. – Respondeu forçando indiferença. – Eu acho que eu preciso ir ao banheiro. – Tratou de fugir do assunto e achar a sua escapatória.

 - Eu também. – Olivia falou.

E as duas saíram pelo salão, que a esta altura quase não tinha mesas ocupadas, Sana respirou aliviada e engoliu as lágrimas, não iria chorar na presença de Olivia. Já era tarde, estava quase amanhecendo, agradeceu mentalmente porque queria sair dali, precisava chorar e pensar sozinha. Precisava ter outra coisa, que não fosse os olhos de Dahyun triste, diante de si. No entanto, não queria ser a primeira a ir embora, sabia que os amigos mereciam sua consideração e presença.

(fim da música)

Eunwoo buscou um copo de vodca com Sprite e Dahyun o encarou com seriedade. O rapaz não se fez de desentendido.

- É o último, eu juro. Além do mais, você pode ir dirigindo hoje. – Deu um sorriso acompanhado de um soluço.

Sana e Olivia não demoraram a voltar, mas quando chegaram Mina e Momo já estavam de pé.

- A gente tá indo embora. – Momo informou. – Vamos pegar carona com meus tios que estão indo agora. – Apontou para o outro lado do salão indicando uma das últimas mesas ocupadas, além daquela havia apenas outra com alguns parentes de Jeongyeon.

- Que hora você volta pra Nova York boo? – Mina perguntou abraçando Sana .

- Depois do almoço. – Respondeu com um sorriso triste, aquela parte sempre era a que lhe doía mais. Despedidas se tornaram uma rotina que  Sana não desejava para ninguém.

- Eu posso ir almoçar na sua casa? – Mina perguntou alegre.

- Claro que você pode. – Sana riu.

- Eu vou também. – Momo tratou de ressaltar.

- Eu não imaginava algo diferente. – Sana riu.

Assim, que elas se foram a japonesa se sentiu confortável para fazer o mesmo.

- Eu vou chamar um táxi pra gente ir também. – Falou referindo-se a ela e Olivia.

- A gente pode dar uma carona. – Nayeon falou.

- Nada disso. Vocês moram pro outro lado da cidade agora, que eu sei. – Respondeu rindo. – Eu pego um táxi é rapidinho até em casa.

Sana se despediu de todos com um beijo no rosto e na hora de beijar Dahyun ela lhe tratou de forma extremamente contida. Sana engoliu em seco, sentido na pele as diferenças que causou em Dahyun.

- Obrigada pelo convite, Nayeon. – Disse enquanto esperava Olivia se despedir. – Eu ainda estou esperando você e Jeongyeon irem me visitar em Nova York.

- A gente vai! – A coelha respondeu animada.

- Vamos todos. – Eunwoo sinalizou e Dahyun tossiu ao seu lado.

Sana sorriu forçosamente.

- Será um prazer. – Se limitou a dizer.

Sana viu Dahyun secamente se despedir de Olivia. O incomodo da coreana se tornou seu e ela queria mais do que nunca apenas tirar Olivia dali. Durante toda a noite forçou-se a pensar que trazer Olivia fora um mal para o bem, no entanto, depois de ver Dahyun tão triste concluiu que aquilo fora quase uma tripudiação, beirava a crueldade.

Quando Sana e Olivia sairam do salão de festas já estava amanhecendo do lado de fora, a rua estava vazia e nem mesmo o táxi que Sana havia pedido estava lá. Sana se sentia exausta e Olivia ainda mais, a garota escorou-se em Sana encostando a cabeça no ombro da japonesa.

- Sua família e seus amigos são incríveis, Sana. Quase me faz querer ter um relacionamento com você apenas para tê-los por mais tempo em minha vida. – Brincou, com um fundinho de verdade.

Sana riu, porque achou que era só uma brincadeira.

- Não deixará que as relações se tornem relacionamentos. – Sana falou imitando a voz de um julgador das cortes. – É uma das suas regras, lembra? – Riu.

Olivia levantou a cabeça do ombro de Sana para encará-la e permaneceu perigosamente próxima da garota.

- São minhas regras, Sana . – Falou séria. – Eu posso mudá-las quando eu bem entender.

Sana deu de ombros.

- Você não o faria. – Retrucou simples.

Sana cometeu dois grandes erros naquele momento.

O primeiro erro: Não ver que Dahyun e Eunwoo caminhavam na direção de onde elas estavam.

Eunwoo parou abruptamente no meio do caminho.

- Eu preciso mijar. Já volto. – Saiu correndo para o banheiro.

- Vou te esperar do lado de fora. Não demora. – Dahyun avisou e continuou a andar.

O segundo erro: Duvidar de Olivia.

- Você acha mesmo que eu não as mudaria? – A garota perguntou em tom de desafio.

- São suas preciosas regras você nã... – Olivia a beijou.

O mundo inteiro de Dahyun ruiu quando ela chegou do lado de fora. Não era possível que depois de tudo Sana estivesse fazendo aquilo. Seus olhos foram invadidos por lágrimas dolorosas que misturavam-se a um sorriso sádico, banhando a um punhado de raiva, em seus lábios. Sentiu raiva de si mesmo por se importar, raiva por ter passado a noite tentando se convencer que não era nada daquilo e raiva de Sana por tudo.

Sana não permitiu que o beijo durasse, mas tentando não ser indelicada com Olivia descolou os lábios sem urgência. A urgência veio no momento seguinte, quando abriu os olhos para ver Dahyun diante de si. Afastou-se de Olivia rápido, que encarou Dahyun sem entender nada.

No primeiro momento Sana paralisou desacreditada que aquilo estivesse mesmo acontecendo. Por todos os deuses, não era possível que o tempo a odiasse com tamanha  intensidade. Havia em sua vida um segundo erro temporal, um desses imprevistos que somente ele, o tempo, é capaz de causar. Foi tudo uma questão de tempo, não foi?

Se ela tivesse cortado o beijo um segundo antes.

Se Dahyun houvesse chegado um segundo depois.

- Dahyun? – Sana a chamou com sua voz já embargando.

Dahyun ria e chorava ao mesmo tempo. Numa mistura de algo que Sana nunca havia visto antes, numa mistura de algo que Dahyun nunca havia sentido antes.

- Se eu não tivesse visto com meus próprios olhos eu jamais acreditaria que você. Você Sana ... Logo você – Contorceu o rosto em dor. – Seria capaz de fazer uma coisa dessas. – Finalizou.

- Dahyun me deixa explicar... Por favor.

Dahyun forçou uma risada seca entre as lágrimas, que rolavam sem que ela conseguisse conter.

- Explicar o que Sana ? Que você me tirou da sua vida por que não era gay, mas agora está aos beijos com outra mulher? Existe uma explicação pra isso Sana ? Existe uma explicação para você ter dito que me amava tantas vezes, mas mesmo assim ter arrancado de mim as esperanças de um futuro ao seu lado porque você não era capaz de fazer isso? Mas você está fazendo isso agora com outra pessoa... Não me parece que exista uma explicação Sana . – Dahyun engoliu as próprias lágrimas e elas tinham o gosto amargo da decepção. – Você disse que nunca iria fazer isso, Sana . Você me mandou embora e disse que nunca iria fazer isso... – Seu peito estava inflado em agonia.

- Você não vai entender se não me deixar explicar. – Sana quase berrou irritando-se, porque ver a dor de Dahyun a irritava.

- Como você acha que eu vou entender? Como você acha que eu vou entender que você está com outra mulher agora? – Dahyun berrou. – Como você acha que eu posso entender isso?

- VOCÊ ESTÁ CASADA COM OUTRA PESSOA – Sana berrou, porque precisava que Dahyun parasse para ouvi-la. – O QUE VOCÊ ESPERAVA QUE EU FIZESSE?

- Eu estou casada porque você falou que nunca ficaria comigo Sana . O que você esperava? – Retrucou acusativa. – Que eu ficasse o resto da minha vida sofrendo porque você não era capaz de colocar o nosso amor a cima de qualquer coisa? Você acabou com tudo, Sana . Você acabou com a gente. – Dahyun sentiu aquelas palavras as arranharem sua garganta. – Você acabou comigo. Você destruiu os meus planos, as minhas expectativas, os meus sonhos. – Dahyun respirou fundo, buscando recompor sua voz que falhava. – Mesmo assim, mesmo quando eu não tinha mais nada eu conseguia te entender. Eu entendia seus motivos. Eu odiava cada um deles, mas eu entendia. Eu entendia a sua dor e eu a respeitava. Eu respeitei até os seus medos. – Falou entredentes. – Pra que? Ha? PRA QUE SANA ? Você ainda tem a capacidade de vir até Miami com outra mulher. Que espécie de pessoa você se tornou?

- Você não entende? – Sana iniciou numa lamentação dolorosa. – Eu não podia correr o risco de ficar perto de você assim. Dahyun eu te amo e eu descobri coisas sobre mim que só me fizeram te amar ainda mais, só que era tarde. Você é casada agora e eu não podia... Eu simplesmente não podia vir até aqui sabendo dos riscos que isso traria. Você sabe o que aconteceria... Dá pra você me entender? Por favor, me diz que você entende... – Suplicou. – Por favor... – Eu não podia correr o risco. – Sana chorou tentando explicar.

- Você nunca corre riscos, Sana . – Dahyun falou de vagar, num sussurro magoado. – Mesmo que andar no seu caminho seguro signifique magoar as pessoas. Mesmo que essa pessoa seja eu.

Sana engoliu em seco.

 

Play – Dare you to move (Switchfoot)

 

 

Sana encarou Dahyun em silêncio.

 

Welcome to the planet

Bem-vindo ao planeta

 

Os castanhos queimavam de raiva e dor, as lágrimas saiam deles sem que a coreana tivesse controle, mesmo que ela não quisesse, mesmo que houvesse jurado para si não chorar mais por aquele amor. Sana viu estampado nos olhos de Dahyun que ela não entendia e não iria entender, porque talvez não houvesse mesmo explicação, talvez Dahyun estivesse certa.

 

Welcome to existence

Bem-vindo à existência

 

Sana recolheu-se a sua própria dor e culpa. Chorou ciente de que não havia mais necessidade de salvar seu coração de um possível roubo, porque Dahyun não fazia questão nenhuma de tê-lo.

- Eu nem estou surpreso pela cena. – A voz de Eunwoo soou alta e ele caminhou pelo meio das duas. – Mas eu achei que vocês escolheriam um lugar menos público para o tamanho da exposição. – Ironizou.

 

Everyone's here

Everyone's here

Todo mundo está aqui

Todo mundo está aqui

 

Sana gelou. Correu os olhos ao redor e viu Jeongyeon e Nayeon alcançarem a porta de saída naquele momento, um pouco mais afastada havia Olivia, completamente deslocada, a encarando com olhos nervosos.

- Eunwoo... – Sana tentou para-lo quando ele passou rápido em sua frente.

- Não me toca. – Ele sibilou encarando Sana com olhos perfurantes. Olhos secos e rígidos que Sana nunca havia visto nele. A garota recuou automaticamente e ele seguiu seu caminho.

 

Everybody's watching you now

Todo mundo está te olhando agora

- A onde você vai Eunwoo? – Dahyun perguntou quase correndo atrás dele.

- EU VOU PRA CASA DAHYUN. – Ele berrou em tom acusativo. – AQUELA QUE NÓS DIVIDIMOS PORQUE SOMOS UM CASAL. VOCÊ ESTÁ CONVIDADA A IR PRA LÁ QUANDO TERMINAR DE DISCUTIR O SEU RELACIONAMENTO COM SANA .

- Eunwoo você não está em condição de dirigir... – Dahyun tentou falar indo atrás dele, mas o rapaz não lhe deu ouvidos.

 

Everybody waits for you now

Todo mundo está te esperando agora

 

O táxi que Sana pediu chegou e ela em seu desespero agarrou Olivia pelo braço e embarcou pedindo para que o taxista fosse embora o mais rápido possível. Queria ir embora não só dali, queria ir embora de Miami, queria voltar pra Nova York e se esconder lá para sempre.

 

What happens next

O que acontece depois?

 

Protegida pelas estruturas do carro Sana desabou, sendo amparada por uma Olivia ainda desnorteada.

- O que foi isso Sana?

- Me leva pra casa. – Pediu.

- A gente tá indo.

- Pra Nova York. Eu quero ir pra Nova York.

 

What happens next

O que acontece depois?

 

Quanto tempo é necessário para se mudar uma vida? Quanto tempo? Algumas semanas? Mais de um mês? Um ano talvez? Quanto tempo?

 

Para Eunwoo levou apenas um segundo.

Num desviar de olhos da estrada para o celular, que insistente vibrava com o nome de Dahyun na tela, sua vida inteira mudou.

 

I dare you to move

Eu te desafio a seguir

 

- Ele não tá atendendo. – Dahyun falou desesperada. Sentada no banco traseiro do carro que Jeongyeon dirigia ela apertou mais uma vez no botão de discagem.

- Calma Dahyun! – Jeongyeon falou rígida, fazendo a garota parar. – Quando você chegar em casa vocês conversam.

- Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo? – Nayeon pediu pela milésima vez e o barulho de sua voz foi abafado pelas sirenes de uma ambulância pedindo passagem.

 

I dare you to move

Eu te desafio a seguir

 

Dahyun abriu a boca para falar, mas parou o movimento quando avistou mais a frente o Mustang GT 70 atravessado na estrada com as rodas para cima.

Nayeon deu um berro.

E aquele foi o barulho que ecoou na cabeça de Dahyun.

Jeongyeon parou o carro e Nayeon abriu a porta correndo na direção do acidente, por sorte Jeongyeon, que era mais rápida e forte, conseguiu segura-la antes que ela chegasse lá.

A ambulância chegou e todo o resto virou um borrão na mente desesperada deDahyun.

 

I dare you to lift yourself up off the floor

Eu te desafio a se levantar do chão

 

Os paramédicos carregaram o corpo de Eunwoo numa maca hospital adentro. Dahyun desabou sobre uma das cadeiras da sala de espera encarando o grande nada a sua frente. Nayeon caminhava de um lado para o outro, ligando insistentemente para um número que não atendia. No outro lado Dahyun ouviu Jeongyeon, com a voz embargada, falando com Mina e Momo.

 

I dare you to move

Eu te desafio a seguir

 

Nayeon se sentou ao lado de Dahyun.

- Eu já avisei os pais dele. – Ela falou chorando e levou mais uma vez o celular ao ouvido. – Estou ligando para a Sana , mas ela não atende essa merda.

Dahyun permaneceu em silêncio sem movimentar nenhum dos músculos do seu corpo.

Nayeon bufou e repetiu a ligação.

- Atende Sana . Atende. Por favor, atende. – Murmurava baixinho. – Atende essa merda desse celular. – Nada. Tentou mais uma vez.

 

I dare you to move

Eu te desafio a seguir

 

Dahyun levou as mãos até a mão que Nayeon segurava o celular e com um pouco de força a fez retirar o aparelho do ouvido. Nayeon a encarou sem entender o movimento.

- Ela não vai atender. Desiste.

- Por que não, Dahyun? – Perguntou.

Dahyun sabia que a pergunta era muito mais ampla. Sabia que Nayeon queria respostas muito maiores. Jeongyeon se aproximou e trocou um olhar significativo com a coreana, buscou preencher o azul de seus olhos com algum resquício de segurança que pudesse encorajá-la naquele momento. Então Dahyun contou...

 

Like today never happened

Como se o 'hoje' nunca tivesse acontecido

 

Contou sem se dar conta que as lágrimas começavam a escorrer pelo seu rosto, incontroláveis, um choro que ela se amaldiçoou por chorar. Uma vez que começou a contar não se permitiu parar de falar, mesmo quando Mina e Momo, assustadas e com cara amassada, atravessaram a entrada do hospital desesperadas, Jeongyeon as conteve pediu a elas calma.

 

Today never happened before

O 'hoje' nunca aconteceu antes

 

Quando o táxi deixou Sana e Kena em frente da casa dos pais da japonesa o dia já estava claro. Sana pediu para que o taxista as esperasse e entrou correndo para o quarto, recolhendo no caminho as poucas coisas que deixara espalhada pelo cômodo.

- Você estava falando sério que vamos para Nova York já?

- Sim. Com certeza tem algum avião saindo agora de manhã, a gente troca as passagens... Eu não sei, eu não vou ficar aqui Olivia!

- Você não vai se despedir de seus pais? – Perguntou perplexa.

 

Welcome to the fallout

Bem-vindo ao 'efeito colateral'

 

Sana que ainda chorava secou as lágrimas do rosto tentando pensar logicamente.

No entanto, seu celular começou a tocar com o nome Nayeon piscando na tela e aquilo a desesperou completamente. Ela precisava ir embora, não ficaria ali mais nenhum segundo. Eles sabiam a verdade agora, ela não teria aquelas conversas. Eles viriam atrás dela e ela não podia estar ali.

- Eu vou deixar um bilhete avisando eles que precisamos voltar. – Respondeu e fechou a mala. – Por favor, Olivia...

A garota, que não sabia o que fazer, acabou fazendo o que Sana pediu. Assustada, porque Sana parecia a um passo de ter um surto, em minutos fechou sua mala e as duas já estavam a caminho do táxi na rua.

 

Welcome to resistance

Bem-vindo à resistência

 

O celular de Sana seguia tocando desesperado e incessantemente.

- Você não vai atender? – Olivia perguntou levemente irritada, quando o táxi já cruzava ruas vazias de Miami, que aos poucos começaria a despertar.

- Não. – Respondeu firme e desligou o aparelho.

- Você vai me dizer o que aconteceu?

Sana não tinha muita escolha quanto a isso.

 

The tension is here

A tensão está aqui

 

Olivia permaneceu em silêncio depois que Sana lhe explicou o que havia acontecido. Ela não compartilhava dos motivos de Sana , para falar a verdade não entendia como uma pessoa poderia ter feito tantas escolhas equivocadas em sequência. No entanto, deixou que Sana acomodasse a cabeça em seu ombro, quando o avião decolou, sabendo que primeiro se acalmam os corações para só então confrontar as razões, nada do que ela falasse naquele momento faria sentido para Sana .

 

Tension is here

A tensão está aqui

 

Nayeon ouviu cada palavra do que Dahyun contou com um semblante desacreditado. Durante todo o tempo Dahyun tentou manter os olhos baixos, buscando evitar os castanhos da menor. Ela finalizou explicando porque ela e Sana estavam brigando na hora que Eunwoo saiu do salão.

 

Between who you are and who you could be

Entre quem você é e quem poderia ser

 

Nayeon se levantou da cadeira, impaciente, perdida e profundamente decepcionada.

- Eu não acredito que vocês fizeram isso pelas nossas costas. – Acusou. – Eu não acredito. – Balançou a cabeça em negação. – Eu não acredito que durante todo esse tempo vocês tinham um relacionamento escondido. Eu realmente não acredito que Sana fez isso com Eunwoo.

- Não é como se ela tivesse feito sozinha. – Mina falou, defendendo Sana .

- Mas era ela a amiga dele, Mina. – Nayeon retrucou de pronto. – Amiga nossa... Eles são amigos desde os cinco anos de idade. As duas erraram em esconder isso da gente, mas a Sana ? Eu não acredito que Sana teve coragem de fazer isso.

Ouvir aquilo fez Dahyun chorar violentamente.

 

Between how it is and how it should be

Entre como isso é e como deveria ser

 

- Coragem é tudo que ela nunca teve. – Falou chorando. – É por isso que ela não está aqui. É por isso que ela nunca está aqui. É por isso que ela faz tudo errado. – Dahyun desabafou com amargura.

Nayeon emudeceu, secou as lágrimas que caiam e voltou a se sentar.

- A gente devia ter percebido que havia algo. – Mina se culpou. – Eu digo por mim, porque era impossível não sentir que havia alguma coisa de diferente entre vocês. Eu só nunca achei que era algo real, que existisse no plano do concreto.

Momo a encarou com seriedade.

- Eu não vou me sentir culpada por não perceber algo que as duas fizeram de tudo pra esconder. – A outra japonesa ponderou.

- Será que dá pra vocês pararem? – Jeongyeon falou. – Todas vocês! Pelo amor de Deus, a gente tá no meio de um hospital.

 

I dare you to move

Eu te desafio a seguir

 

- Obrigada Jeongyeon. – Dahyun falou. – Isso não importa mais, nada disso importa. Isso acabou – Sentenciou. – Não existe mais nada entre mim e a Sana . O que importa agora é o Eunwoo.

 

I dare you to move

Eu te desafio a seguir

O avião pousou em Nova York e Sana nunca se sentiu tão aliviada por estar na cidade. Pegaram um táxi assim que chegaram, durante a maior parte do caminho permaneceram em silêncio, até que Olivia decidiu quebra-lo no tom mais macio que encontrou.

- O que você fez Sana ... Você tem noção que está errado? – Sana não respondeu.

– Você poderia ter me contado a verdade quando me chamou para ir. – Pontuou. – Eu sou sua amiga antes de qualquer coisa, lembra? Eu teria te ajudado sem ter te causado mais problemas.

- A culpa não foi sua. Eu fiz tudo errado. Eu só estava com muito medo, sabe? – Se lamentou.

- Você é uma pessoa incrível Sana , mas você tem esse problema de deixar o medo controlar a sua vida.

- Eu sou uma covarde. – Culpou-se, com uma lágrima escorrendo dos olhos pelo rosto inchado do choro de horas antes.

- Não. Você não é covarde, Sana. Você tem muita coragem, só que ao invés de você usar essa coragem pra enfrentar os seus demônios você a usa pra se esconder deles. Ao invés de você usar sua coragem para enfrentar tudo pela Dahyun, você usou parar conseguir deixala ir, ao invés de você usar sua coragem pra enfrentar seus amigos e ser quem você é você preferiu abandonar tudo e vir sofrer sozinha em Nova York. Você não é covarde, só que você precisa usar a coragem que você tem pra enfrentar seu medo, não para fugir dele. Enquanto você não fizer isso você vai continuar fazendo todas as escolhas erradas.

 

I dare you to lift yourself up off the floor

Eu te desafio a se levantar do chão

 

Sana ficou em silêncio, porque era fácil para Olivia falar aquelas coisas. Ela se sentia confortável com tudo que era, não sabia o quão desesperador poderia ser estar presa nas correntes que Sana usava. O discurso sobre ter coragem e enfrentar medos é fácil quando, aparentemente, não se tem nenhum.

O táxi parou em frente ao prédio vermelho na 7th Street do East Village e o taxista saiu do carro para pegar a mala de Sana no porta-malas sendo acompanhado das duas garotas. Sana agarrou sua mala e se direcionou a Olivia, para despedir-se.

- Você sabe que a gente não vai continuar né? – Olivia perguntou e Sana sabia que ela se referia a elas.

- Por que? – Perguntou assustada. – Por que eu não te falei a verdade antes?

- Não Sana . – Respondeu firme. – Porque eu estou me apaixonando por você e claramente você não tem nenhuma estrutura para lidar com isso no momento. – Sana  encarou a garota quase em choque. – Eu não tenho nenhuma vocação para viver qualquer coisa pela metade. – Se justificou. – Você também não deveria. – Depositou um beijo no rosto de Sana e voltou para dentro do carro.

 

I dare you to move

Eu te desafio a seguir

 

Fazia mais de quatro horas que os médicos haviam dado a notícia que Eunwoo precisaria ir para sala de cirurgia. Ele estava sem cinto quando perdeu o controle do carro e capotou, seu corpo foi projetado para fora do veículo e na queda ele bateu contra o meio fio.

Dahyun estava desesperada e as horas pareciam eternas na sala de espera. Nayeon pescava encostada no ombro de Jeongyeon, lutando contra a exaustão de uma noite em claro. Do lado de fora Mina tentava insistentemente ligar para Sana , mas a ligação caia na caixa. Ligou para casa dos Minatozaki e a voz sonolenta de Sua irmã informou que nem Sana nem Olivia estavam lá, que os pais da japones ainda estavam dormindo e ela não sabia onde Sana poderia ter ido.

 

I dare you to move

Eu te desafio a seguir

 

Sana escondeu-se sob as cobertas de sua cama e chorou até dormir. Dormiu exausta por carregar o peso de ter feito tudo errado: com Dahyun, com Eunwoo, com seus amigos, com

Olivia e com ela mesma.

Dormiu por horas.

 

Like today never happened

Today never happened

Como se o 'hoje' nunca tivesse acontecido

O 'hoje' nunca aconteceu

 

Horas que foram de nervosismo e espera na sala do hospital central de Miami. Nayeon tentou dormir encolhida sobre uma cadeira. Momo e Mina faziam um silêncio descomunal, sentadas uma de cada lado de Dahyun, que apenas encarava o chão sem reação.

Mina saiu algumas vezes para fora da vista dos demais e tentou contato com Sana , mas nada.

 

Maybe redemption has stories to tell

Talvez a redenção tenha histórias pra contar

 

Quando o médico saiu pela porta a coreana se sobressaltou e ele passou o relatório do que aconteceu durante a cirurgia, explicando com cautela os detalhes.

Eunwoo havia sofrido uma ruptura do baço, que causou hemorragia interna, e uma lesão medular. As pernas de Dahyun fraquejaram quando as palavras “lesão medular” saíram da boca do médico, mas não se permitiu cair. Ele explicou que foram realizadas duas cirurgias emergências, uma para estancar o sangramento interno e outra para estabilizar a coluna do rapaz. Por fim, informou que precisariam esperar a cicatrização da lesão para saber se haveria sequelas. Disse que ele estava fora de perigo e que eles poderiam ir para casa descansar.

Dahyun informou que não sairia dali enquanto Eunwoo não acordasse e todos os demais fizeram o mesmo.

 

Maybe forgiveness is right where you fell

Talvez o perdão está onde você caiu

 

Quando Sana acordou assustou-se, pois já era noite de novo. Levantou num susto, porque no desespero de suas últimas horas havia se esquecido da reunião do dia seguinte. Precisava se preparar e não tinha condições de fazer aquilo, ainda assim se forçou a fazê-lo.

Focou que, além de o que tinha de mais importante e emergente a ser feito, seria bom para ocupar sua mente. Pegou o celular em sua bolsa, mas decidiu que não o ligaria. Porque ainda não estava pronta pra enfrentar todas as ligações perdidas e mensagens de texto que a esperavam e porque precisava se manter focada na preparação pra a reunião.

Tomou banho. Fez café. Espalhou as planilhas e os relatórios pelo chão da sua sala e estudou-os impecavelmente até a manhã seguinte, não teve sono devido ao tanto que havia dormido durante o dia. Em alguns momentos sua mente escapava para os últimos acontecimentos, mas ela se buscava de volta e se esforçava para manter-se concentrada.

 

Where can you run to escape from yourself?

Pra onde você pode escapar de você mesmo?

Colocou sua melhor roupa para a reunião. Chegou pontualmente no horário marcado, sua cara estava horrível, mas ela estava lá.

- Srta. Minatozaki. – O presidente da companhia iniciou sua fala. – Essa reunião tem um propósito muito simples e eu não vejo motivos para a alongarmos. Eu não preciso que você explique suas planilhas ou seu relatório, eles me pareceram extremamente bem explicados. Você tem sido uma profissional dedicada, ainda no seu período de estágio trouxe soluções práticas incríveis para essa empresa. Estamos de olho em você desde então. – Sana  apenas concordava com a cabeça e Alexia tinha um sorriso delicado nos lábios. – Nos selecionamos três dos administradores auxiliares para ocupar o cargo de vice-diretor  administrativo. Nós pretendemos treina-los da melhor forma possível para ao final do período de um ano selecionar, entre os três, um para ocupar o cargo de Diretor Administrativo, uma vez que a Sra. Pearl irá se aposentar. Você é uma das selecionadas com base no seu desempenho neste relatório, bem como no restante do exercício profissional que você demonstrou aqui dentro. Tudo que você precisa fazer é aceitar. – O homem deu um sorriso simpático. – O que me parece ser algo inaceitável, se me permite opinar, ninguém sai da faculdade com uma oportunidade dessas. – Sana riu. – Ah. Para finalizar, antes de você me dar sua resposta, se você aceitar a Srta. Deal ocupará o seu atual cargo e continuará como uma de suas auxiliares diretas.

Alexia encarou Sana com olhos cheios de expectativa, mas não havia necessidade para isso.

- Eu aceito. – Sana respondeu simples.

 

Where you gonna go?

Pra onde você vai?

 

Era obvio que ela aceitaria. Ocupar o cargo de vice-diretora administrativa não só lhe traria grande oportunidade profissional, como também justificaria sua ausência do mundo.

- Matt. – O homem chamou alguém. – Acompanhe a Srta. Minatozaki até sua nova sala!

Sana foi levada por Matt, um homem já de meia idade, até o décimo nono andar do prédio e adentrou a sua então nova sala. O lugar não era grande, mas seria o suficiente, havia uma mesa ampla e a vista da cidade era incrível. Riu sozinha. Sozinha.

 

Where you gonna go?

Pra onde você vai?

Precisava fazer aquilo, uma hora ou outra precisaria.

Buscou o celular em sua bolsa e o ligou. Caminhou até a janela da sala, encarou as milhares de pessoas iguais formiguinhas lá embaixo. O aparelho indicou o total de 10 chamadas perdidas de Nayeon e havia inúmeras mensagens de ligações recebidas enquanto seu celular estava desligado de seus pais e Mina. Havia ainda uma mensagem da própria Mina

“Me liga, é urgente”. Sua mente vagou sobre o quão urgente era o urgente e se ela deveria mesmo ligar.

 

Salvation is here

Salvação está aqui

 

Mina olhou o aparelho em sua mão apitar com uma mensagem da operadora “Sana Minatozaki – Ligue agora já estou disponível.” Mina saiu do hospital e não esperou um segundo para fazer a ligação.

O celular de Sana tocou em suas mãos. Ela respirou fundo, não podia evitar parar sempre, embora quisesse.

 

I dare you to move

Eu te desafio a seguir

 

- Alô. – Sua voz saiu arranhada pelo nervosismo. Ninguém respondeu. – Mina?

- Eunwoo sofreu um acidente. – A voz da grandona surgiu do outro lado a de Sana  sumiu. – Ele passou por duas cirurgias. Os médicos informaram que ele está fora de perigo, mas há possibilidade de possíveis sequelas. Onde você está Sana ?

 

I dare you to move

Eu te desafio a seguir

 

Sana bateu a cabeça contra o vidro a sua frente.

- Em Nova York. – Manejou sibilar.

- Você precisa vir pra cá. – Mina falou.

Sana piscou e a imagem do olhar seco e rígido de Eunwoo em sua direção a perfurou mais uma vez.

- Eu não posso Mina.

- Sana ...

- Ele vai ficar bem, não vai? – Perguntou sentindo o desespero lhe atingir.

- Eu não sei, Sana . Ninguém sabe. – Respondeu impaciente. – Você precisa vir pra cá.

Sana piscou e a imagem dos castanhos queimando de raiva e dor em sua direção a dilaceram mais uma vez.

- Eu não posso Mina.

 

I dare you to lift yourself up off the floor

Eu te desafio a se levantar do chão

 

- Sana , todo mundo acha que você abandonou a gente.

- Talvez seja melhor assim, pra todo mundo. – Respondeu fraco.

 

I dare you to move

Eu te desafio a seguir

 

- Você não vem – A outra japonesa repetiu em indignação. – Ok, Sana . Você não vem! Eu espero que você saiba que você pode desistir da gente, mas eu não vou desistir de você. Você quer que todo mundo te odeie porque assim é mais fácil, não é? Eu não vou te odiar Sana  Minatozaki, eu não vou tornar as coisas fáceis pra você. Você não vai se livrar de mim, ouviu? – Desligou o telefone.

 

I dare you to move

Eu te desafio a seguir

 

Quando Mina voltou pra dentro do hospital seus amigos estava agitados. Momo a encarou com olhos ávidos.

- O Eunwoo acordou. – Falou aliviada. – O médico disse que ele não se lembra de nada do que aconteceu no dia do acidente e que isso é algo natural quando o paciente sofre um trauma muito forte, ele pediu pra gente não forçar as lembranças, porque elas vão voltar se tiverem que voltar. – Mina meneou em concordância. Momo tencionou a sua expressão antes de continuar. - A Nayeon e a Dahyun acham que é melhor a gente não falar sobre nada que envolva o acidente.

Mina meneou em concordância, sabendo que aquilo incluía não falar sobre Dahyun e Sana , não falar sobre Sana e ponto.

 

Like today never happened

Today never happened

Como se o 'hoje' nunca tivesse acontecido

O 'hoje' nunca aconteceu

 

Nayeon entrou no quarto e se aproximou a passos lentos da cama de Eunwoo, a garota não conseguia definir se estava aliviada, por saber que seu amigo estava vivo, ou agonia, por não saber se ele teria sua vida de volta. Assim que ela chegou ao lado do garoto segurou a mão fria e pálida entre as suas e depositou um beijo na testa dele. Eunwoo estava ali, isso era tudo que importava no momento. O garoto fez força para virar a cabeça em sua direção e com mais força ainda confidenciou suas primeiras palavras a ela.

- Eu tive... um sonho. – Falou baixinho e com dificuldade.

- Ah é? – Ela questionou com a voz embargada e ele meneou um sim com a cabeça. – Foi um sonho bom? – Ele acenou minimamente que sim.

- A gente era... criança ainda, estávamos... brincando de pega-pega... – Nayeon mordeu os lábios tentando conter o choro. – Sana ... estava lá... – O rapaz formou um sorriso doce nos lábios, mas Nayeon chorou.

 

Today never happened

Today never happened before

O 'hoje' nunca aconteceu

O 'hoje' nunca aconteceu antes

 

 (fim da música)

Play – You There (Aquilo)

 

Sana bateu a cabeça contra a parede de vidro. O que ela estava fazendo? O que?

 

You there, you're better off here

You there, you're better off here

Você aí, você é melhor fora daqui

Você aí, você é melhor fora daqui

 

Como ela havia conseguido transformar sua vida naquilo? Como ela havia chegado ali? Ela estava sozinha, ela e seus demônios. Ela tinha tanto medo deles e no final, eles eram a única coisa que restaram.

 

Funny it takes no time to fall back down

Engraçado como é rápido para cair

Quanto tempo levou para ela se perder?

 

Quanto tempo é necessário para se mudar uma vida? Quanto tempo? Algumas semanas? Mais de um mês? Um ano talvez? Quanto tempo?

Para Sana foram anos.

 

Funny it takes the time to get back up

Engraçado como demora para se levantar

 

Ela tinha medo de perder tudo e o medo criou o fato. Não enfrentou seus amigos e o mundo por Dahyun, porque tinha medo de perdê-los, mas por não enfrenta-los perdeu-os e perdeu Dahyun também. Não enfrentou seus sentimentos porque tinha medo de perder-se, mas não por enfrenta-los, perdeu-se.

 

You there, you're better off here

You there, you're better off here

Você aí, você é melhor fora daqui

Você aí, você é melhor fora daqui

 

Sana encarou o seu reflexo no vidro e pela primeira vez viu o pavor zombando da sua existência. Todos os seus medos estavam ali, reunidos ao seu redor, rindo do seu desespero, enquanto ela tentava responder a uma única pergunta.

Como Sana ? Como?

 

Funny it takes no time to fall back down

Funny it takes the time to get back up

Engraçado como é rápido para cair

Engraçado como demora para se levantar

 

A imagem de milhares de pessoas cruzando as vias lá embaixo e misturando-se a sua imagem, fez sua mente fugir para uma lembrança inoportuna. Dahyun havia ido embora sem dizer tchau, num segundo ela estava lá, no outro não estava mais e o mundo balançado de uma Sana perdida em todas as suas frustrações pessoais ruiu, tudo que ela tinha era um copo de água em suas mãos. Dahyun virou poeira, acabou, escapou-lhe por entre os dedos que ela insistentemente recusava-se a fechar, mas ainda havia algo, uma reminiscência de Dahyun em Nova York.

Ela entrou no prédio do New York Institute Of Photography decidida, era o último dia de exposição e ela sabia que encontraria o nome de Dahyun em alguma daquelas fotos. Sorriu para si mesma quando encontrou bem no meio da galeria o painel com o nome da coreana. Sorriu porque o mundo era mesmo um criador de acasos, não era? A foto de Dahyun era justamente a mesma que ela havia apreciado por longo tempo na primeira vez que estivera ali.

A imagem retratava um cruzamento movimento de Manhattan. A foto havia sofrido uma intervenção de forma a ter todos os rostos das pessoas adultas borrados, não poderia se identificar uma única pessoa na foto, exceto pelas crianças.

“Mentes Invisíveis” – Por Dahyun Kim.

Interpretação pessoal da fotógrafa sobre a obra:

“Estar em Nova York é ter essa sensação de que nada que você faça pode ser percebido. Existem tantas coisas ao redor que ninguém está realmente prestando atenção em você. É como se, de repente, a gente fosse invisível, mas apenas na nossa mente. Certa vez uma pessoa especial segurou na minha mão e disse “Talvez a gente seja mesmo invisível aqui”. A sensação da invisibilidade é fascinante porque ela te liberta, te possibilita coisas incríveis, você já parou pra pensar em tudo que faria se fosse, realmente, invisível? A resposta é: você faria tudo.

Já as crianças, ah as crianças não precisam disso, elas já tem coragem para fazer tudo, a coragem é algo que as pessoas perdem ao longo da vida. Eu gostaria que a minha pessoa especial se sentisse invisível permanentemente. Porque ela diz que me ama, mas recita Shakespeare antes de dormir ‘Essa consciência que faz de todos nós covardes’. É engraçado, porque ela acha que eu também preciso da invisibilidade para ama-la, mas não percebe que eu sou uma eterna criança.” Não era mais, Sana concluiu amarga.

 

Uncover your eyes

Uncover your eyes

There's no sun, where is your direction?

Descubra seus olhos

Descubra seus olhos

Não há sol, onde está a sua direção?

 

Dahyun não era mais uma criança. Sana havia destruído a criança que havia nela, a criança que a amava, da mesma forma que destruiu floco de neve exigente. Dahyun era a droga de um floco de neve exigente que é destruído por pousar no lugar errado.

 

Uncover your eyes

Uncover your eyes

Ask yourself, where is my reflection?

Descubra seus olhos

Descubra seus olhos

Pergunte a si mesmo, onde está o meu reflexo?

 

Sana encarou com precisão seu reflexo no vidro: ele não chorava, ele não expressava reações, ele não a contava histórias. Ele, apenas, lhe encarava de volta.

 

Uncover your eyes

Uncover your eyes

Theres no sun, where is your direction?

Descubra seus olhos

Descubra seus olhos

Não há sol, onde está a sua direção?

 

Ela não se reconhecia nele, porque já havia fugido tanto que no fim perdeu-se de si mesmo, era como se ela estivesse vivendo uma vida que não deveria ser sua. Ela nunca deveria ter saído de Miami, ela nunca deveria ter afastado seus amigos, ela nunca deveria ter fugido tanto assim. De repente era como se toda a sua vida tivesse se tornado... Uma mentira.

 

Uncover your eyes

Uncover your eyes

Ask yourself, where is my reflection?

Descubra seus olhos

Descubra seus olhos

Pergunte a si mesmo, onde está o meu reflexo?

 


Notas Finais


Landslide - Fleetwood Mac: https://www.youtube.com/watch?v=k4M53xndqiU
Dare You To Move - Switchfoot: https://www.youtube.com/watch?v=jUP6bUJTeWs
Aquilo - You There: https://www.youtube.com/watch?v=XIrwrXT9yw0

Poxa, a Dahyun que me perdoe ( não mais nessa situação né) mas eu tava shippando super a Sana com a Olivia.
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