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  3. Setembro, 2015. III

História Time - Capítulo 30


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Notas do Autor


To de volta pra vcs criarem mais enchentes
.
Cap com msc, link dela nas notas finais

Capítulo 30 - Setembro, 2015. III


- Eu não acredito que você falou isso e saiu sem dizer mais nada, pior sem esperar ela responder. – Mina comentou indignada da cozinha. Sana colou o rosto numa das almofadas, que servia o sofá de cor creme da casa da maior, e abafou o grito que soltou. – Para de babar minha almofada, sua estranha! – Sana riu.

- Eu não sabia o que falar... Eu... Caramba eu fui pega totalmente de surpresa. Dá um desconto!

- Eu dou! Só espero que elas deem também...

- Mina, Para! Você está me deixando ainda mais preocupada. – Sana suspirou.

- Eu é que devia estar preocupada, afinal quem sofreu ameaça de morte por não avisar que você estava voltando fui eu. – Mina falou e voltou-se para a panela que fervia no fogão.

- Quem te ameaçou? – Sana questionou curiosa.

- A Nayeon é claro! – Mina riu. – Porque a Dahyun sumiu pra sempre.

- Como assim sumiu?

- Figurativamente falando. Ela simplesmente não se comunicou com ninguém o dia todo. – Sana pressionou os lábios, demonstrando uma preocupação sincera. – O que foi, boo?.

A japonesa se levantou do sofá e foi até a bancada da cozinha.

- E se tiver sido um erro, Mina? – Perguntou transparecendo sua confusão. – Eu não vou mentir, estou com medo de machucar ela ainda mais. Talvez, eu precise muito desse perdão, mas ela não. Eu tenho esse problema de nunca ter, realmente, considerado as coisas que ela queria.

- É por isso que você está aqui, não é? Para reparar os erros que você cometeu ao deixar de considerar o que ela queria?

- Mais ou menos. – Sana confessou. – O que a gente tinha, tudo se perdeu, eu nem saberia te dizer como me sinto em relação a ela, eu não acho que tenha um conserto. Mesmo se tivesse, não teria o direito de tentar reverter isso.

- Você está dizendo que não veio para reconquista-la amorosamente?

- Ela é casada Mina! E não é nem por ser casada com o Eunwoo, poderia ser com qualquer outra pessoa, eu jamais teria o direito de passar por cima disso, seria até falta de respeito. Eu vou lutar por ela, mas não dessa forma.

- Realmente, seria difícil de te defender. Eu sei que vocês se amaram muito, Sana, e que, talvez, isso justificasse você tentar reconquista-la. Eu não te julgaria, mas certamente o resto do mundo sim, porque, não importa o que aconteceu lá atrás, agora, no presente, ela é uma pessoa casada... Por outro lado, Sana, você tem todo o direito do mundo de pedir perdão, de conquistar isso, mostrar que você merece ser perdoada. – Mina depositou uma mão nos ombros de Sana. – Não se preocupe tanto, você não vai magoa-la por fazer isso e eu tenho certeza que é algo que ela precisa tanto quanto você. É só não fazer nada muito estúpido e ser paciente.

A porta do apartamento se abriu num rompante e as duas deram um pulo.

- AAAAAAH EU NÃO ACREDITO QUE É VERDADE! – Momo falou entrando. – Eu achei que era um delírio da Nayeon.

- Tcharaaaam! – Sana abriu os braços numa brincadeira.

- Caramba! Depois de Ocala achei que você não voltaria nunca mais. – Momo pontuou. Caminhou até Sana e a envolvendo em um abraço.

- Momo, sua sinceridade é invejável – Sana zombou.

- Eu sei, desculpa! – Momo riu.

- Janta com a gente? – Mina perguntou a japonesa.

- Sim! Mas só porque é uma ocasião especial e a Sana está aqui. – Momo respondeu e Mina rolou os olhos.

- Vocês estão impossíveis... – Sana resmungou.

- Sana vai morar aqui! – Mina cortou o assunto logo.

- Aqui? Aqui onde?

- No prédio né... – A maior respondeu.

- Não acredito. Eu, simplesmente, não acredito que vocês esconderam isso de mim o tempo todo. Vocês são umas pilantras.

- Eu pedi pra Mina não falar pra ninguém. – Sana esclareceu.

- Quando você se muda? Qual seu andar? POSSO TOMAR CAFÉ DA MANHÃ COM VOCÊ? – Momo perguntou eufórica e Sana gargalhou.

- Amanhã. No andar de baixo. Sim.

- Eu não acredito que você veio pra Miami me salvar do meu café horrível. – Momo abraçou Sana de volta.

- Só não te ofereço café da manhã e janta todos os dias porque prometi pra minha mãe que passaria bastante tempo em casa com eles.

- Acho justo. – Mina respondeu com dentes serrados e Sana riu.

Embora Sana tenha levado algumas coisas de Nova York para Miami, na manhã do dia seguinte, bem cedo, pegou o carro da mãe e passou numa loja de departamentos antes de ir para o seu novo apartamento. Estacionou o carro na frente do prédio e com ajuda de Momo começou a levar as sacolas para cima.

Comprou coisas básicas que usaria no dia-a-dia: toalhas, panos de prato, panelas, outros utensílios que seriam necessários e algumas decorações para a casa também. Queria se sentir confortável e bem acomodada em Miami.

A porta do apartamento estava aberta, para facilitar o trânsito das mulheres com as coisas e Sana arrumava um abajur na mesinha da sala quando ouviu algumas batidas leves no batente da porta. Virou-se ligeira para encontrar quem batia, em uma das mãos a caixa de panelas que acabara de comprar e na outra um vaso, com um lindo copo de leite, que Sana supôs ser para ela.

- Precisa de uma forcinha com as compras? – Ela perguntou com um sorriso largo nos lábios.

- Jeongyeon... – Sana lhe devolveu o sorriso. Era bom vê-lo ali. Sana caminhou até ela, tirou o jogo de panelas da sua mão, acomodando a caixa no chão mesmo, e lhe abraçou brevemente.

- É para você! – Ofereceu o vaso a ela. – Para a casa nova... Espero que você goste. Eu não sabia de quais flores você gosta, me desculpe.

- É linda! Não precisava. – Sana levou o vaso até a bancada da cozinha e voltou rapidamente ao homem.

- Foi a melhor forma que encontrei para dizer que estou feliz que você esteja aqui. – Sana sorriu, mas não escondeu a emoção que lhe subiu aos olhos.

- Eu não esperava por isso. – Confessou. – Muito obrigada!

- Então estamos quites, porque eu também não esperava você aqui. Ainda mais assim, em caráter não temporário. Quando a Nayeon me falou ontem, eu só acreditei depois de confirmar com a Mina. – Riu.

- Como ela está com isso de eu voltar? – Sana questionou, mexendo nos próprios dedos, apreensiva com a resposta.

- Nervosa! Tanto quanto você, eu diria. – Riram. – Mas é o que eu te disse em Ocala e repito: eles te amam Sana, só estão magoados. Ter você por perto vai fazer toda a diferença.

- Espero que você tenha razão. – Jeongyeon a deixava confiante.

- Você pode contar comigo para o que precisar. Com a Nayeon, com o Eunwoo... – Jeongyeon suspirou. – Eu queria poder dizer que ajudaria com a

Dahyun, mas acho que isso vai além das minhas capacidades. – Lamentou.

- Você me ajuda só de estar aqui!

Momo adentrou ao apartamento, carregada de sacolas e as despejou no meio da sala.

- Enfim as últimas. – Respirou aliviada.

- Obrigada Momo. – Sana agradeceu.

- Obrigada nada... Quero meu café!

Jeongyeon olhou para Momo com uma falsa indignação estampada no rosto.

- Você já considerou comprar uma máquina de expresso? Isso resolveria esse seu problema. – Sugeriu.

- Café expresso não é a mesma coisa. – Fez um bico e sentou-se à bancada de mármore, vendo Sana lavar a chaleira recém-adquirida e arrumando as coisas para passar o café.

- Ela precisa manter os problemas, Jeongyeon. – A voz de Mina soou antes mesmo de ela aparecer na cozinha. – Se ela os resolver não vai ter desculpas pelas quais não ir para Paris.

- Você tem certeza que foi uma boa ideia vir morar nesse prédio? Bem no meio dos andares delas? – Jeongyeon perguntou para Sana com sarcasmo.

- Você – Momo apontou para Jeongyeon. – Calada! Ou eu conto pra Nayeon que te vi aqui.

Jeongyeon abriu a boca em completo espanto pela ousadia. Mina não aguentou e começou a gargalhar e Sana arqueou as sobrancelhas, perplexa, mas no segundo seguinte todas riram.

Uma risada que ecoou entre as paredes do novo apartamento de Sana, mas os maiores ecos foram dentro do seu coração. Sentiu-se aquecida e mais preparada para o que viria da vida do que nunca. Era bom estar de volta, embora ainda estivesse longe de tudo que fora fazer ali, já podia enxergar as coisas boas.

- Vem cá... Ninguém vai trabalhar hoje? – Sana perguntou assim que as risadas cessaram.

- Claro que sim! – Mina respondeu séria. – Mas só depois de tomar café.

 

 

- Cadê a Dahyun? – Nayeon perguntou cruzando a sala da casa e indo até a cozinha, logo atrás de Eunwoo.

- Saiu cedo para trabalhar. – Respondeu simples, abrindo a geladeira e servindo a mesa do café.

- Você conversou com ela?

- Não muito. Ela chegou tarde ontem, saiu cedo hoje. – Nayeon se sentou à mesa, de frente para Eunwoo.

- Você está bem? – Ela perguntou preocupada.

- Nayeon! – Eunwoo a repreendeu. – Para com o interrogatório. – Brincou. – Eu já disse que estou bem! – Nayeon rolou os olhos.

- Eu só estou preocupada, você não contou direito como foi essa conversa que teve com Sana. – Reclamou.

- Claro que contei! Eu já disse que ela veio me falar da tal médica que conheceu e da pesquisa que vão começar a fazer aqui em Miami e que eu, aparentemente, posso tentar participar...

- Foi só isso? – A mulher perguntou desconfiada.

- Foi! – Eunwoo mentiu, porque não queria ter que explanar sobre toda conversa que tivera com Sana, era algo particular que somente dizia respeito a eles.

- Você está mentido. – Nayeon sentenciou. – Mas tudo bem! Vamos ao que importa. Você vai conversar com a tal médica?

- Não sei... – Respondeu inconclusivo.

- Eunwoo. Acho que a gente precisa ser puramente racional aqui! – Nayeon iniciou. – É uma possibilidade, não é?

- Eu não entendi direito como funciona essa pesquisa. – Justificou. – Eu procurei na internet algumas coisas sobre, mas fiquei com muitas dúvidas.

- Mais um motivo para você conversar com a médica. – Nayeon pontuou.

- Pra conversar com a médica eu teria que conversar com a Sana...

- Talvez ela só queira ajudar de alguma forma. – Eunwoo cerrou os olhos e encarou Nayeon.

- Você está a perdoando...

- Não exatamente, eu estou pensando no que é melhor para você.

- Você está a perdoando! – Eunwoo zombou da menor. – Você só não quer dar o braço a torcer. Você sempre foi orgulhozinha. – Riu.

- Para! – Nayeon o cutucou em um dos ombros. – Eu não estou sendo orgulhosa. Eu só... A gente teve aquela conversa, briga, sei lá, em

Ocala, que me fez perceber que eu também falhei com ela e agora ela está aqui... Eu sei lá. Não pensei nisso direito. Ainda...

- Perdoar é divino Nayeon. – Eunwoo concluiu. – Só que às vezes é tão difícil... – Lamentou.

- Você está disposto a perdoa-la? – Nayeon questionou curiosa.

- Tanto quanto você. Só que, no meu caso, o perdão tem que ser mutuo. Ela tem que me perdoar também.

- Você acha que ela te culpa por ter se casado com a Dahyun?

- Não! Mas ela me condena por eu nunca ter dito que sabia a verdade. – Respondeu sincero.

- A gente nunca conversou sobre isso... E pra falar a verdade, eu também não entendo porque você nunca falou que sempre soube.

Eunwoo a olhou por alguns segundos, procurando dentro de si as palavras certas para usar.

- Primeiro que eu não soube sempre. Eu só descobri que os sentimentos da Dahyun eram correspondidos depois que ela voltou de Nova York, ela voltou triste, diferente, dai a Sana se esquivava sempre de mim e dela, além dos pais da Dahyun agirem da forma mais estranha possível. Foi quando eu comecei a perceber que, talvez, aquela viagem mal explicada pra Coreia era outra coisa. Então não é desde sempre, antes disso eu, realmente, acreditava se tratar de um sentimento unilateral por parte da Dahyun. De qualquer forma, eu não conseguia falar porque, a partir do momento que eu falasse o sentimento delas seria como uma parede entre mim e Dahyun. Entende? Ele seria uma realidade instransponível entre a gente. A Dahyun jamais conseguiria ficar ao meu lado ciente de que eu sabia de tudo. Eu fui egoísta? Talvez. Eu não queria estragar uma possível chance dela voltar. Além do mais, a Dahyun também nunca me falou nada. Eu não consigo deixar de acreditar que ela precisava, tanto quanto eu, que não houvesse essa parede entre a gente. No fundo ela precisava ter pra onde voltar. E ela voltou!

- Porque a Sana não a quis. – Nayeon falou acusativa. – Eunwoo, como você consegue conviver com isso?

- Eu não vejo as coisas assim, Nayeon. – Eunwoo bufou. – Ela poderia ter ficado com qualquer outra pessoa, ela poderia ter preferido ficar sozinha, mas ela escolheu a mim. Alguns amores dão errado, isso não significa que as pessoas nunca mais vão amar de novo. Você e a Jeongyeon são casadas, se amam, são felizes, mas isso não quer dizer que, antes de você, ela nunca tenha amado outra pessoa, tenha tido outras namoradas, alguém que, eventualmente, possa ter terminado com ela, porque não quis ficar com ela, ou porque sei lá, não deu certo. Isso não significa que ela não te ame. Terminar relacionamentos começar outros, são coisas da vida! Além do mais, do jeito que você falou parece que eu e Dahyun somos o casal mais infeliz do mundo, você sabe que não é verdade. Nós sempre tivemos uma vida muito boa juntos, apesar do acidente e de tudo que aconteceu. A gente sempre se deu bem e sobre tudo fez bem um ao outro.

- Faz sentido pensando por esse lado. – Nayeon concluiu e viu Eunwoo morder a fatia de pão, que estava desde o inicio da conversa intacto em seu prato.

 

 

Com todos cientes do seu retorno, Sana optou em deixar a novidade ser digerida antes de tomar qualquer outro passo rumo as reaproximações que pretendia. Tratou de colocar seu serviço em ordem, organizou um espaço no seu apartamento novo para ser seu local de trabalho. Trabalhar meio período, durante o tempo em que Vicent ficou internado, fez com que uma grande carga de afazeres se acumulasse.

Sana regularizou tudo, não queria cometer falhas, já que sua ideia de trabalhar a distância não fora bem vista por todos da mesa diretora. Não queria dar a eles motivos pelos quais reclamarem.

Além disso, havia garantido a sua mãe que passaria porção do seu tempo na casa de seus pais. Estava cumprindo a risca. Quase todos os dias aparecia lá, pra almoçar, ou jantar.

Durante o almoço do domingo Sana se deu conta do quanto havia perdido de sua família. Seu convívio familiar fora terrivelmente afetado ao longo do tempo em que esteve em Nova York, Sana costumava pensar nisso como um efeito colateral. Era impossível para ela estar perto de sua família e longe de seus amigos ao mesmo tempo, como ela faria para se manter no âmago familiar sem estar em Miami? Sana assumiu aquela consequência como própria das suas escolhas, o que de fato era. No entanto, estando ali novamente, percebera, mais uma vez, o quão equivocada fora sua vida até então.

Perdera, e perdera mais do que era necessário. Mais do que devia ter se permitido perder. Seu irmão já frequentava a faculdade, e ela nem sequer lembrava-se de tê-lo parabenizado por sua formatura do colegial. Sua irmã tinha um namoradinho, o primeiro, ao menos nisso ainda estava em tempo de se fazer presente, mas era assustador o fato de sua irmã mais nova, o bebê da família, ter um namorado. Se o rapaz não estivesse sentado à mesa e pedindo para que ela lhe alcançasse o prato de salada não acreditaria. Seus pais carregavam semblantes nitidamente mais velhos, quase pesados pelo tempo, e ela não havia reparado nisso antes. Negligenciara sua própria família e o pior é que só se dera conta do quanto ao voltar. Ao menos isso aliviava o peso da culpa, estava de volta e pronta para retomar tudo que nunca deveria ter abandonado.

O convívio com os pais e os irmãos foi se restaurando, família é laço mais íntimo e eterno que carregamos e Sana soube disso quando em questão de dias já se sentia incluída e restabelecida entre eles. Naturalmente, não demorou até que algumas perguntas começassem a pipocar. A primeira que lhe pegou desprevenida foi sal irmã, a garota se jogou ao lado de Sana no sofá da sala e deitou sua cabeça sobre o colo da irmã mais velha. Sana sorriu pela espontaneidade da ação e lhe afagou os longos cabelos castanho claro.

- Você já amou alguém de verdade? – A garota perguntou.

Sana se sentiu ruborizar, engoliu em seco.

- Por que? – Perguntou fingindo indiferença, ainda não estava preparada para mostrar suas verdades aos familiares. Sentia-se num processo de reconexão, que julgava extremamente necessário, antes de expor tudo a eles.

- Eu acho que amo o Josh. – Confessou a menor. – De verdade sabe? Eu sempre fui afim dele, tanto que aceite namora-lo, mas agora acho que estamos indo pra um passo além. Acho que eu realmente o amo.

- É difícil termos certeza sobre o amor. – Sana tentou explicar. – Mas quando você ama, você sabe que ama. É como se existisse algo dentro de você dizendo essa verdade em seus ouvidos o tempo todo.

A mais nova fez uma cara de surpresa.

- Meu Deus! E se eu não souber ouvir? – A irmã fez um bico. - Se a voz sussurrar e não ouvir.

- Às vezes, a gente não ouve mesmo! – Sana constatou e seu semblante fechou. Lembrou-se do passado e do quanto se esforçou para não ouvir a voz, porque tudo que ela costumava dizer era que amava Dahyun. – Às vezes, a gente não quer ouvir.

- E é assim que os amores se perdem? – Perguntou confusa.

- Não exatamente, porque antes disso a voz vai gritar. Não se preocupa maninha, mesmo que você queira não consegue se esconder do amor tão facilmente. - Riu. – Ele te acha de qualquer forma e você vai saber quando ele te encontrar.

A garota levantou-se, ainda com o cenho franzido.

- Essa foi a conversa mais sem noção que a gente já teve. – Resmungou. – Acho que eu vou tentar o papai... – Sana gargalhou vendo sal imçã se arrastar escada acima.

- Está vendo o tipo de coisas com as quais eu lido diariamente. – Sua mãe zombou. A mulher flagrara o final da conversa entre as filhas.

- Ela está uma mulher já. – Sana pontuou. – Ainda é um pouco chocante pra mim.

- Uma “mulher” –Falou fazendo aspas no ar. – Só por fora, por dentro continua com a cabeça oca de uma adolescente. Você não me deu a metade do trabalho que ela me dá. – Desabafou.

- O que só me faz ter certeza de que eu sempre fui uma pessoa chata e careta, desde criança. – Concluiu.

- Ei! Desde criança não. Você era uma criança extremamente divertida e animada.

- Você sabe que, ao dizer isso, apenas confirma que eu, de fato, sou uma pessoa chata e careta né?

- Porque você é! – A mulher de meia idade deu de ombros, caminhou para perto da filha e se sentou ao seu lado. – Se tem uma coisa que eu aprendi tendo três filhos é que existe algo de transformador na adolescência e a sua te transformou numa pessoa séria, contida. – Escorreu a mão pelos cabelos negros de Sana.

Cerca de dois dias atrás a mãe a questionara sobre os motivos pelos quais nunca vinha os visitar. Sana não soube o que dizer, justificou usando seu trabalho cheio de responsabilidades como desculpa, mas sabia que não era plausível o suficiente. No entanto, sua mãe aceitou sua resposta mal formulada, ela sempre aceitava. De qualquer forma, Sana soube ali que era isso: eles aceitavam suas justificativas, porque era tudo o que ela os oferecia, não porque eles, realmente, acreditavam no que ela dizia.

- Isolada. – Sana confessou, mas sorriu ao fim para retirar o peso da palavra.

- Reclusa, eu diria. – Clara contestou. – Sempre quieta, fechada, como se carregasse a responsabilidade de manter a salvo os grandes segredos do mundo dentro de si. É por isso que, mesmo sem entender completamente a sua necessidade e urgência em ir embora de Miami, eu sempre te respeitei.

Sana quis chorar, nunca subestime a capacidade de uma mãe em conhecer seus filhos, ela era tudo isso não era? De fato carregara muitos segredos trancados dentro de si, não os do mundo, eram todos seus. Segurou-se porque não queria chorar, mas não se conteve em abraçar a mãe. Foi o abraço mais verdadeiro que trocaram desde que voltou para Miami, porque Sana entendeu que a mãe sempre a conhecera tão bem, que conhecia até suas ausências. Era reconfortante saber que poderia retirar mais essa culpa de sua lista.

 

 

A semana terminou e a outra se iniciou trazendo com ela a Dra. Jeon. Sana recebeu um telefonema da mulher logo cedo, havia acabado de acordar e abrir a janela da varanda para encontrar o céu azul de Miami. Pela voz do outro lado da linha Sana soube que ela estava sorrindo. Somi confessou ter procurado o numero de Sana no cadastro do hospital e ligou para dizer que já estava em Miami e que iniciaria o atendimento aos candidatos à pesquisa no dia seguinte.

Conversar com a Médica era animador, ao fim, Sana já sorria largo também. Mas assim que desligou o telefone uma preocupação lhe abateu: Eunwoo ainda não havia dado sinal desde a conversa que tiveram. Sana precisava da resposta do homem, sobre participar ou não da pesquisa.

Pensou em ligar, porque ligar era, definitivamente, melhor do que ir até lá. No entanto, só pessoalmente conversariam adequadamente. Queria ir até lá, mas Dahyun estaria lá. Não que estivesse fugindo de Dahyun, estava apenas respeitando o espaço da outra. Era uma linha tênue e Sana sabia que estaria nesse limite muitas vezes no que se tratasse de Dahyun, queria entrar, mas não podia, simplesmente, obrigar Dahyun a abrir as portas.

Nayeon. Nayeon era tudo que seu cérebro conseguiu conceber como melhor solução. Nayeon era a pessoa que mais teria influencia em Eunwoo e Sana sabia disso, mas Nayeon a ajudaria? Foi quando se deu conta de que a ajuda não era para si, mas para Eunwoo. Com esse pensamento em mente ligou para a menor. Nayeonson atendeu no terceiro toque.

- Eunwoo precisa da sua ajuda. – Falou o que estava em sua cabeça.

- Que? – Nayeon questionou assustada. – O que aconteceu com o Eunwoo? – Sana identificou aflição em sua voz.

- Nada. Meu Deus! Me desculpe não queria te deixar nervosa. Não aconteceu nada com ele.

- Ok. Você me assustou. – Nayeon respirou fundo.

- Desculpa. De verdade.

- Tudo bem, Sana. O que aconteceu? – Foi a vez de Sana respirar fundo, reunindo suas forças.

- Ele te falou sobre a pesquisa?

- Sim... – Nayeon respondeu vagamente.

- Eu preciso que ele me diga se vai fazer parte, ou não. A Dra. Jeon me ligou há pouco. – Explicou. – Ela vai começar a atender os candidatos à pesquisa amanhã e se Eunwoo aceitar ele precisa estar lá.

- Compreendo...

- Nayeon. – Havia muita calma na voz de Sana, porque não queria passar uma ideia errônea com o que diria a seguir. – Eu não preciso fazer parte disso. Sério! Eu não vim até aqui querendo trazer uma solução mágica para os problemas dele, para me beneficiar com isso... Eu só acho que, talvez, seja uma oportunidade para ele.

- Eu concordo com você. – Nayeon falou simples e Sana franziu o cenho, um pouco sem graça.

- Concorda?

- Sim. Talvez seja a melhor oportunidade que tenha aparecido, talvez seja até a única.

- É... Você pode levar ele lá? Eu te mando o endereço do hospital.

- Não.

- Não? Mas Nayeon... Eu...

- Você vai levar ele até lá Sana! Eu é que não preciso fazer parte disso, você precisa, porque você já é. Eu sei que você não quer se

beneficiar, não é questão de benefício é questão de envolvimento. Então se envolva. Leve ele até ela, ou leve ela até ele, sei lá.

Sana arqueou as sobrancelhas, sem reação.

- Ok... – Manejou falar.

- Ok...

Silêncio.

- Então tchau. – Falou sem graça.

- Tchau... – Nayeon respondeu, mas não desligou e Sana sentiu que cabia mais ali, que Nayeon esperava que ela falasse mais. Só que antes de Sana encontrar algo em sua mente, bom o suficiente para ser dito, a ligação foi encerrada.

A japonesa encarou o celular sem entender nada, mas ao menos a menor lhe dera uma boa ideia. Levar Somi até Eunwoo seria mais fácil do que levar Eunwoo até Somi, ao menos em termos de convencimento. Sem pensar muito Sana retornou a ligação para a médica.

- Oi? – Ouviu a voz da mulher soar confusa do outro lado da linha.

- Oi... Estou atrapalhando?

- Jamais!

- Eu fiquei pensando, você tem planos para o almoço? – Perguntou direta.

- Não exatamente...

- Agora você tem. – Sorriu convencida ao escutar a médica rindo.

No horário combinado Sana estava esperando Somi em frente ao hospital. Pegou o carro emprestado da mãe, o que a fez pensar que deveria comprar um, pois em Miami sua vida não seria tão prática quanto em Nova York e um carro lhe ajudaria. Acenou de longe para a médica que a viu de pronto e veio alegre em sua direção. Cumprimentaram-se rapidamente e minutos depois Sana estava estacionando em frente ao seu prédio.

- Você me trouxe para comer na sua casa? – Somi perguntou confusa e Sana deu um sorriso sem graça para a mulher.

- Eu preciso conversar com você, um assunto delicado, achei que seria melhor aqui. – Justificou.

- Estou me sentindo numa emboscada! – A loira falou séria e Sana ficou branca, temendo ter dado um passo errado. – Brincadeira Sana. – Gargalhou e Sana soltou o ar dos pulmões. – Caramba! Você precisava ver sua cara. – Continuou rindo. – Vou adorar conhecer sua casa.

- Ah! Ela é simples. Nem está decorada direito ainda, acabei de me mudar.

- Você vai ficar por bastante tempo? – Perguntou.

- Então... O tempo que for necessário. – Sana respondeu sem entrar em detalhes, enquanto elas subiam as escadas para o segundo andar.

- É simpático demais esse prédio...

- Duas amigas minhas moram aqui, por isso escolhi ele... – Entraram no apartamento de Sana.

- Realmente está faltando umas decorações. – Somi caçou.

Sana rolou os olhos.

- Você não deixa passar uma, hein!

- Depende de que uma estamos falando – Respondeu sugestiva e Sana ruborizou. – Desculpa, eu deveria perceber que você fica sem graça com essas brincadeiras. – Falou sincera.

- Eu não fico sem graça. Eu fico sem reação. – Explicou e a Dra. Jeon tratou de mudar o assunto.

Conversaram primeiro sobre Miami, sobre pontos turísticos da cidade, sobre a culinária, as influências coreanas que deixavam a cidade mais acalorada. Sana fazia o almoço contando algumas histórias engraçadas que aconteceram ali, enquanto Dra. Jeon mantinha-se sentada na banqueta, com os cotovelos sobre a bancada de mármore escuro, os olhos atentos em Sana. A japonesa serviu o almoço na bancada, pediu desculpas por não ter uma mesa adequada. Somi, obviamente, riu e disse que aquilo era o de menos. Serviram-se e enquanto comiam Sana iniciou a parte difícil da conversa.

- O Eunwoo, meu amigo que está paraplégico agora, estava envolvido na maior parte dessas histórias que te contei. – Riu. – Ele era uma peste que nem eu.

- Amanhã conhecerei seu parceiro de crime então?

Sana mordeu os lábios.

- É sobre isso que eu queria falar. Queria te pedir um favor, um bem grande na verdade, e já deixo claro que super entendo se você disser não.

- Então o almoço não é uma emboscada, você está tentando me comprar aqui. – Abriu a boca numa falsa indignação.

- É claro que sim! Por qual outro motivo você acha que eu faria frango? Eu não podia errar e todo mundo gosta de frango. – Sana respondeu, fazendo referência a uma das primeiras conversas que tiveram.

- Você é ousada Sana Minatozaki! Quem diria. – Sana sentiu-se ficar vermelha. – Desculpa eu estou fazendo de novo. Vamos ao que interessa, o que você quer me pedir?

- A gente não se fala. Eu e o meu amigo a gente não se fala desde o acidente. – O semblante da médica mudou de divertido para compenetrado. – Quando aconteceu tudo eu não apareci.

- Você estava em Nova York? – A médica tomou um gole do suco que Sana havia servido.

- Sim. – Sana preferiu simplificar a história. – E eu não voltei para Miami. Desde então a gente não se fala direito.

 - Justificável.

- Sim. – Sana anuiu simples. – O fato é que assim que cheguei aqui eu fui até ele e tivemos uma conversa sobre a pesquisa, só que ele não foi muito conclusivo sobre. – Engoliu em seco. – Eu acho que seria mais fácil se outra pessoa conversasse com ele.

- Eu? – Somi questionou compreendendo as intenções da japonesa.

Sana meneou positivamente com a cabeça.

- Você seria capaz de explicar tudo pra ele, entende? Até convencê-lo se for o caso! Só que eu não sei se conseguirei levar ele até você amanhã. Então, eu pensei, se talvez, você fosse comigo até a casa dele...

Somi olhou o relógio branco que carregava no pulso.

- Eu tenho 45 minutos até meu horário de almoço acabar. É tempo suficiente pra fazermos isso?

Sana sorriu largo para a mulher, um sorriso sincero que subiu aos olhos.

- Você é a melhor médica do mundo.

- Eu gosto de ajudar as pessoas, Sana...

- Até as que você não conhece. – A japonesa completou. – Termina de comer... Eu vou arrumar umas coisas, rapidinho, para irmos lá. –

Falou e sumiu pela porta do quarto.

Cerca de cinco minutos depois Sana retornou vestindo outra blusa e carregando uma bolsa, que não possuía antes. Quando entraram no carro era nítido em Sana o nervosismo, na verdade estava preocupada em encontrar Dahyun. No entanto, não iria recuar. Precisava que

Somi conversasse com Eunwoo e iria até o fim.

Parou o carro em frente a casa amarela.

- Me deixe ir primeiro. – Falou para a loira, que viu Sana caminhar em passos rápidos até a varanda e apertar a campainha. Um homem, bastante jovem, numa cadeira de rodas abriu a porta e os dois conversaram rapidamente. Sana voltou.

- Ele topou falar com você. – Disse animada e abriu a porta do carro para a médica, que agradeceu a gentileza.

Entraram na casa e o coração de Sana pulava em sua garganta, o receio de encontrar Dahyun a qualquer momento se fazendo mais presente.

- Dahyun não está. – Eunwoo anunciou como se sentindo a sua angustia. - Olá Dra. Jeon. – Estendeu uma mão para a médica que o cumprimentou educadamente.

Os três ficaram em silêncio. Sana e Eunwoo olhando para a médica.

- Perdão. Eu gosto de conversar com meus pacientes, ou possíveis paciente, a sós.

- Vamos ao meu escritório. – Eunwoo sugeriu e Sana os observou entrar pela porta que logo se fechou.

Parada sozinha no meio da sala da casa de Eunwoo e Dahyun, Sana não podia se sentir mais apreensiva. Nem mesmo Red estava ali para entretê-la. Sentou-se incomodada no sofá e encarou a porta a sua frente. Era a porta da sala de fotos que vira na primeira vez que esteve ali.

Naquele dia não conseguiu olhar por mais do que breves segundos e, ainda assim, o que vira ficou em sua mente, martelando-a. Levantou-se num pulo. Precisava fazer aquilo, queria ter certeza de tudo que viu, queria observar melhor. Caminhou até a porta e girou a chave que estava no trinco, abriu. Sana olhou mais uma vez para a entrada do escritório, corria o risco de ser pega em flagrante, mas não era para isso que ela tinha ido até Miami? Não era para arriscar-se? Entrou.

Um passo dentro e seus pulmões falharam em puxar o ar. Estava tudo ali, todas as coisas que saiba ser de Dahyun. Olhou ao redor, as fotos pela parede, lindas e autenticas, genuinamente de Dahyun. Deslizou o dedo pelo balcão branco, os equipamentos todos devidamente organizados, a câmera, que ela dera de presente para a coreana, delicadamente disposta entre eles. Queria chorar, sentiu as lágrimas virem até os olhos, mas ao contrario preferiu sorrir. Era uma mistura de gargalhada com inicio de choro, não sabia dizer ao certo tudo que o representava, estava em êxtase.

A única coisa que corria em sua mente passível de compreensão era a realização de que Dahyun guardava aquilo. E guardar faz parte do querer bem, do proteger. Dahyun guardava suas fotos, guardava seus equipamentos, o que mais ela guardaria ali dentro? Seus sonhos? A resposta para Sana era uma só: se tudo aquilo estava ali era porque uma parte de Dahyun ainda se importava.

Seu coração errou uma batida. Estar ali era deixar crescer dentro de si uma esperança real, tudo ao seu redor lhe remetia diretamente para a antiga Dahyun e Sana considerou que poderia habitar aquele pequeno cômodo para sempre. Não se importaria.

Gargalhou, mas uma lágrima lhe escapou dos olhos. Estava feliz, mas ao mesmo tempo angustiada. Era difícil explicar e nem teria o tempo para isso. Precisava sair dali antes que Eunwoo e Somi terminassem de conversar. Sem se demorar mais, abriu a bolsa que trouxera, tirou de lá a carta de Dahyun e colocou sobre a mesa da sala, num cantinho, encostada em uma pilha de fotografias amontoadas. Precisava devolvê-la de alguma forma, colocou-a na bolsa com essa intenção, pensou que o faria pessoalmente, mas, sabia que corria o risco de não conseguir o fazer longe dos demais e, por isso, concluiu que nada seria melhor do que coloca-la ali, num lugar onde Dahyun a encontraria quando estivesse sozinha.

Saiu e girou a chave, deixou tudo como havia encontrado.

Sentou-se no sofá e esperou. Porque era tudo que restava. A conversa levou mais alguns minutos, e seu nervosismo só aumentava. Até que Somi abriu a porta, estranhamente carregando um semblante inexpressivo. Caminhou até Sana, parou de frente para ela, ainda séria.

- Leve-o até o hospital amanhã. Precisaremos realizar alguns testes. – Sorriu.

Sana não se conteve e sorriu abertamente, feliz pelo resultado positivo da conversa, abraçou Somi com entusiasmo.

- Muito obrigada! De verdade.

Eunwoo veio logo atrás da médica e Sana sorriu para ele.

- Te vejo amanhã? – Ela questionou com o os olhos brilhosos.

- Acho que sim. – Ele respondeu com simplicidade.

 

 

Dahyun não tinha aulas extras aquela noite, chegou em casa com o sol se pondo no horizonte. Certamente em algum lugar alguém haveria de ter parado tudo para enaltecer o espetáculo, mas não Dahyun. Abriu a porta de casa com o semblante fechado, Red veio ao seu encontro e ela se deixou abriu um leve sorriso para o animal.

- Não pula! – Ela alertou. – Se você for um bom mocinho vamos passear daqui a pouco. – Eunwoo? – Chamou pelo marido.

- No escritório. – Ouviu a voz dele vindo de lá e caminhou de encontro a ele.

- Droga! – Resmungou ao passar pela frente da sua sala e perceber que esquecera a chave na porta.

Dahyun nunca deixava aquela porta aberta, tampouco deixava a chave por ali, não que achasse que Eunwoo entraria nela, porque ele não

faria isso, mas sim porque era seu e Dahyun, literalmente, superprotegia tudo que era seu, principalmente, suas feridas. O fato é que estivera mais vezes na sala nos últimos dias do que jamais esteve antes. Acordava de madrugada sentindo-se sufocar e precisava de algum lugar onde afundar-se, esconder-se, um lugar onde agonizar em paz. Durante o dia era fácil fazer isso no trabalho, mas durante a noite não havia outro lugar para ir.

Ela retirou a chave do trinco, segurando-a firme entre os dedos, anes de ir de encontro ao marido.

- Tudo bem? – Ele perguntou.

- Sim... – Respondeu simples. – Como foi seu dia?

- Diferente. – Respondeu receoso e Dahyun franziu o cenho. – Decidi fazer parte da tal pesquisa. – Explicou e viu a mulher aliviar a

expressão.

Dahyun caminhou até Eunwoo soltou os braços ao redor dele e depositou um beijo na testa do homem.

- Eu fico feliz que você tenha entendido que essa era a melhor decisão.

- Sim... Eu sempre achei, é que eu ainda tinha muitas dúvidas sobre a pesquisa. Porém a Dra. Jeon esteve aqui hoje e pudemos conversar. – Dahyun se afastou para encara-lo.

- Dra. Jeon? A médica da pesquisa esteve aqui?

- Sim! Ela e Sana... – Falou e Dahyun arregalou os olhos.

- Sana esteve aqui?

Eunwoo engoliu em seco, porque sabia que Dahyun não ficaria satisfeita com essa informação.

- Sim. – Respondeu forçando indiferença. Dahyun apertou a chave da sala em suas mãos. – Tudo bem? – Eunwoo questionou.

- Uhum, eu vou tomar um banho. – Soltou-se de Eunwoo e saiu do escritório sem dizer mais nada.

Dahyun caminhou em passos apressados até a porta de sua sala, uma angustia crescente apontava em seu peito. Sana esteve ali, na sua casa, mais uma vez. A chave estava na porta da sala de fotografia e Sana esteve ali. Dahyun sentiu dentro de si que aquilo não era bom. Porque, da primeira vez que Sana estivera na casa a porta estava aberta e quando a coreana entrou seus olhos recaíram sobre ela aberta e seu corpo inteiro temeu pelo que Sana pudesse ter visto. Dessa vez não era diferente.

A mulher abriu a porta apressada e entrou. Olhou ao redor e tudo parecia exatamente como ela deixara. Talvez, era estupidez sua achar que Sana teria a ousadia de entrar ali. Dahyun sabia que se tornava menos racional quando o assunto envolvia Sana, ou o passado que tiveram. Estava a um passo de tranquilizar-se por completo, mas quando se virou para sair dali o papel embolorado, encostado na pilha de fotografias, gritou sobre os olhos. E era um grito em vermelho, cheio de raiva.

Dahyun sacudiu a cabeça negando-se a acreditar no que seus olhos viam, no entanto, as pernas, automaticamente, a levaram para mais perto e ela tocou o papel com a ponta dos dedos.

Play – Jar of Hearts (Christina Perri)

Sana estivera ali.

Sana entrou. Viu suas fotos, suas coisas, esteve entre tudo que era guardado sobre chave. Trancado, porque não dizia respeito a ninguém.

 

I know I can't take one more step towards you

Cause all that's waiting is regret

Eu sei que não posso dar mais um passo em direção a você

Porque tudo o que me espera é arrependimento

 

Dahyun sentiu o sangue lhe subir e embolar suas vísceras.

Engoliu em seco e a saliva arranhou a garganta. Sana teve a audácia de entrar no lugar mais proibido de todos e aquilo deixou Dahyun tremendo de raiva, literalmente, da cabeça aos pés.

 

Don't you know I'm not your ghost anymore

You lost the love I loved the most

Você não sabe que eu não sou mais o seu fantasma?

Você perdeu o amor que eu mais amei

 

 

Saiu da sala em passos mais rápidos do que aqueles com quais entrou. O maxilar trancado e o coração acelerado, ela podia senti-lo bater em suas têmporas. Pegou a chave do carro e sem anunciar, ou dar explicações a Eunwoo, arrancou com o automóvel da garagem. Quem Sana achava que era pra entrar assim em sua vida? Sem autorização, sem ser convidada. Quem ela achava que era pra voltar a lhe atormentar?

 

 

I learned to live, half alive

And now you want me one more time

Eu aprendi a viver, meio viva

E agora você me quer mais uma vez

 

 

Minutos depois a coreana socou a porta do apartamento de Mina. A maior abriu divertida, desavisada do tamanho de ira que a esperava do outro lado.

- Você por aq...

- Cadê ela? – Perguntou passando por Mina e olhando ao redor. – Cadê Sana?

Mina arqueou as sobrancelhas perplexa.

 

 

And who do you think you are?

Running 'round leaving scars

E quem você pensa que é?

Correndo por aí deixando cicatrizes

 

 

- No apartamento dela, andar de baixo n. 201, ou na casa dos pais. – Respondeu sem pestanejar, se havia algo que Mina não faria era tomar um posicionamento entre Dahyun e Sana.

A coreana nem sequer esperou a maior terminar de falar e já saia da mesma forma que entrou.

- Dahyun, você está nitidamente nervosa seja lá o que for deixa pra amanhã, ela não vai a lugar algum.

- Esse é o problema Mina, esse é o problema. – Falou alto, já descendo as escadas.

 

 

Collecting your jar of hearts

And tearing love apart

Colecionando o seu jarro de corações

E despedaçando o amor

 

 

Sana ajudava sua mãe com a louça da janta e o seu celular tocou, atendeu de pronto ao ler o número de Mina na tela.

- Onde você está?

- Na casa dos meus pais, por que? Aconteceu algo?

 

 

You're gonna catch a cold

From the ice inside your soul

Você vai pegar um resfriado

Por causa do gelo dentro da sua alma

 

 

- Eu disse pra você não fazer nada estúpido. – Resmungou. – Dahyun está atrás de você, possuidíssima pelo ritmo ragatanga.

- Que? – Perguntou saindo da cozinha e caminhando para longe da mãe.

- Com raiva Sana! Ela está com cara de quem vai arrancar sua cabeça do pescoço. – Sana bufou. – O que você fez?

- Nada estúpido, eu acho. Ela só não deve ter pensado direito ainda.

- Olha, se eu fosse você dava um jeito de desviar dela, porque a bicha está irada.

- Eu não vou mais fugir Mina. Vou esperar que ela venha...

 

 

So don't come back for me

Who do you think you are?

Então não volte por mim

Quem você acha que é?

 

 

Encerraram a ligação e Sana fez justamente o que disse que faria. Saiu para a varanda da casa dos pais e se sentou a espera de Dahyun.

Já era noite e a varanda se iluminava pelas luzes ligadas no interior da casa e a iluminação fraca dos postes da rua, sentada na penumbra

Sana contou duas respirações numa busca incessante de se acalmar.

Não iria fugir, ainda que todos os músculos do seu corpo implorassem para que ela procurasse um abrigo. A ideia de Dahyun com raiva a intimidava profundamente. Foi a pior espera de sua vida, mas não foi longa. Na verdade o seu nervosismo era tanto que pareceu segundos até ver o carro de Dahyun estacionar do outro lado da rua e a porta ser batida com força. Sana se levantou, colou as mãos no bolso traseiro da calça preta que usava. Dahyun estaria ali em segundos ela via a silhueta se aproximar rápido e cada passo da coreana era uma batido do seu coração.

 

 

I hear you're asking all around

If I am anywhere to be found

But I have grown too strong

To ever fall back in your arms

Eu escuto que você está perguntado a todos por ai

Se eu estou em algum lugar pra ser encontrada

Mas eu me tornei forte demais

Para jamais cair novamente em seus braços

 

 

- Qual a porra do seu problema? – Dahyun disse antes mesmo de chegar perto o suficiente.

- Dahyun eu... - Sana tentou falar.

 

 

I've learned to live, half alive

And now you want me one more time

And who do you think you are?

Running 'round leaving scars

Eu aprendi a viver, meio viva

E agora você me quer mais uma vez

E quem você pensa que é?

Andando por aí deixando cicatrizes

 

 

No entanto, a visão da outra se aproximando impiedosa a fez parar. Dahyun invadiu seu espaço pessoal e a empurrou nos ombros. Sana cambaleou pra trás e por pouco não caiu sentada no lugar que acabara de levantar.

 

 

Collecting your jar of hearts

And tearing love apart

Colecionando um jarro de corações

Despedaçando o amor

 

 

- Fica longe de mim – Dahyun disse com o dedo em riste, apontando para uma Sana perplexa a sua frente. A ira em seu olhos o deixavam quase vermelho. - FICA LONGE DE MIM, DAS MINHAS COISAS, DA MINHA CASA!

 

 

You're gonna catch a cold

From the ice inside your soul

Você vai pegar um resfriado

Por causa do gelo dentro da sua alma

 

 

- Dahyun... Me escuta, foi a melhor forma de te devolver... Ninguém mais iria ver – Sana tentou justificar aflita, mas Dahyun não a deixava falar.

 

 

So don't come back for me

Who do you think you are?

Então não volte por mim

Quem você acha que é?

 

 

- Quem você acha que é pra voltar e se meter nas minhas coisas assim? – Os castanhos dela fuzilaram os seus acanhados. – EU NÃO SOU O EUNWOO E A NAYEON, SANA. EU NÃO SINTO SUA FALTA, EU NÃO PRECISO DE VOCÊ POR PERTO. EU QUERO QUE VOCÊ FIQUE BEM LONGE DE MIM. FICA LONGE DE MIM.

 

 

Dear, it took so long just to feel alright

Remember how to put back the light in my eyes

I wish I had missed the first time that we kissed

Cause you broke all your promises

Querido, levou tanto tempo só para eu me sentir bem

Lembrar como colocar o brilho de volta em meus olhos

Eu queria ter perdido a primeira vez que nos beijamos

Porque você quebrou todas as suas promessas

 

 

Sana ergueu os braços num sinal de rendição. Talvez dessa forma Dahyun parasse de gritar descontrolada e a deixasse falar.

 

 

And now you're back

You don't get to get me back

E agora você está de volta

E não vai conseguir me pegar de volta

 

 

Resolveu. Dahyun se calou, mas antes que Sana pudesse falar qualquer coisa ela girou sob os calcanhares e em passos largos foi embora do mesmo jeito que chegou. Deixou Sana com a boca aberta e o movimento de falar parado no ar.

 

 

And who do you think you are?

Running around leaving scars

Collecting your jar of hearts

And tearing love apart

E quem você pensa que é?

Andando por aí deixando cicatrizes

Colecionando um jarro de corações

Despedaçando o amor

 

 

O que diabos foi aquilo? Sana parou de sentir as pernas pelo nervosismo e cambaleou pra trás sentando-se novamente na beirada da varanda. Encarou desorientada a rua a sua frente e ouviu Dahyun arrancar com o carro.

 

 

You're gonna catch a cold

From the ice inside your soul

Você vai pegar um resfriado

Por causa do gelo dentro da sua alma

 

 

Sana sentiu uma presença atrás de si e girou a cabeça na direção, sua mãe lhe deu um sorriso melancólico. Aproximou-se amistosa e sentou ao seu lado.

- Tudo faz sentido agora! – Concluiu juntando as peças, que eram a vida de sua filha. Da mesma forma juntou Sana, puxando-a para dentro de um abraço apertado.

 

 

So don't come back for me

Don't come back at all

Então não volte por mim

Não volte de jeito nenhum

 

 

Assim que entrou no carro Dahyun já sentia as lágrimas lhe tomarem por completo. Arrancou e saiu o mais rápido possível. No entanto, o choro desesperado a impedia de ver um palmo a sua frente.

 

 

And who do you think you are?

Running around leaving scars

E quem você pensa que é?

Andando por aí deixando cicatrizes

 

 

Encostou o carro, menos de duas quadras depois. Seu estômago embrulhado pelo nervosismo, sua garganta completamente fechada. Abriu a porta e se debruçou pra fora do automóvel, e em meio ao choro vomitou tudo que tinha em seu estômago.

 

 

Collecting your jar of hearts. And tearing love apart

You're gonna catch a cold from the ice inside your soul

Colecionando um jarro de corações. Despedaçando o amor

Você vai pegar um resfriado, por causa do gelo dentro da sua alma

 

 

A raiva que sentia era tanta que seria capaz de arrancar a pele com as próprias mãos, a sua e a de Sana. Nunca se sentiu assim antes. Era assustador até para si. Fechou a porta do carro e continuou a chorar desesperadamente no lado de dentro, socando o volante a sua frente, porque precisava descontar em algo.

 

 

 

Don't come back for me

Don't come back at all

Who do you think you are?

Então não volte por mim

Não volte de jeito nenhum

Quem você pensa que é?


Notas Finais




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