História Tio, me abrace - Capítulo 10


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Drama, Misterios, Poderes, Romance, Suspense
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Palavras 5.344
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Policial, Romance e Novela, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Sobrenatural, Suspense, Violência
Avisos: Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Peço desculpas por estar postando tão tarde e aproveito para avisar que amanhã não vai ter capítulo. Conto com a sua compreensão.

Capítulo 10 - Passado e toda a verdade


          Capítulo 10: Passado e toda a verdade


Eu podia sentir a sua respiração em meu pescoço e isso bagunçou o pouco dos meus pensamentos que eu ainda conseguia manter sob controle.

— Eu vou dormir e quando acordar, nós vamos fazer uma pequena viagem até a cidade vizinha — disse, pouco antes de sair do meu quarto e ir em direção ao seu. Me surpreendi com seu tom, pois pela primeira vez, ele não estava me dando opção de recusar.

Quando escutei a porta do seu quarto se fechando, soltei a respiração que estava mantendo presa sem nem perceber. Depois entrei no banheiro e fui ao banho. Se eu já precisava de um banho relaxante antes, agora, era quase uma necessidade de vida ou morte.

Após tirar as roupas e entrar debaixo da água, fiz alguns exercícios de respiração para tentar conter meu coração acelerado. Acelerado pelo sonho e pela sua aproximação.

A cada minuto que passava, percebia que a ideia de morrer não era tão aterrorizante quanto eu pensava... Se eu pensasse que aquele inferno iria acabar, podia ficar tranquilo, assim como estava em minha visão. Mas quando pensava que teria que deixar Levi para trás, sentia-me desesperado.

Eu já estive em ambos os lados, tanto de quem morreu, quanto de quem é deixado para trás e sabia por experiência própria, que ser deixado era muito mais doloroso do que morrer... muito mais.

— Parece que terei que falar sobre isso também... Isso se eu tiver a oportunidade de chegar até essa questão — disse como um lembrete a mim mesmo, sabendo que tinha muito o que lhe explicar, principalmente se ele tivesse falado a verdade sobre eu ter pronunciado tudo o que tinha pensado na última noite.

Depois do banho, vesti uma roupa de sair e desci para a cozinha. Tomei café da manhã e depois liguei o vídeo game, jogando enquanto o esperava.

Ele dormiu pouco tempo, cerca de três horas, e quando desceu já estava vestido e pronto para sair. Após confirmar que eu já havia feito o desjejum, pegou a chave do carro e partimos. Dentro do carro, o silêncio se tornou sufocante, então fiz algo que normalmente não faço... puxar conversa.

— Não precisa ir trabalhar?

— Disse ao meu chefe que tinha um assunto pessoal para resolver e consegui uma folga paga — explicou sem acrescentar nada mais. Ele não parecia com vontade de falar, mas eu já não gostava mais do silêncio, como costumava gostar.

— Sei que isso não é algo sobre o qual queira falar e sei que você vai entender futuramente, mas... queria pedir desculpas por não ter contado o que estava acontecendo antes, quando falei com o policial — pedi sendo sincero e ao mesmo tempo tentando descobrir se era por isso que ele estava bravo. Pois ele estava visivelmente bravo.

— Tudo bem. Eu perdi o controle por ter ficado com ciúmes e é culpa minha por perguntar, quando já tinha prometido que não iria te questionar sobre seus problemas — revelou para a minha surpresa.

Eu não sabia que ele tinha ficado com ciúmes, mas pior do que isso, foi ver a honestidade em suas palavras. Ele realmente tinha me perdoado por aquilo, então, o motivo pelo qual estava bravo deveria ser outro... O que me deixava com muitas opções.

Só na última noite, eu tinha falado tanta coisa que faria com que, até o fantasma de minha mãe ficasse com raiva... e isso, se tratando apenas do que eu lembrava de ter dito, resmungando ou "debatido comigo mesmo".

Desisti de tentar uma conversa, pois tinha medo de que minhas péssimas habilidades de socialização, piorassem ainda mais a minha situação, que aparentava já ser ruim. Olhando pela janela enquanto relembrava memórias das quais não gostava e das quais teria que falar. Duas horas depois, nós chegamos ao nosso destino. Era um lago... um incrível e belo lago.

— Esse é um dos meus lugares favoritos, desde que me mudei para essa região. Esse lago me ajuda a manter a calma e a pensar melhor... Queria ter te trazido aqui antes, mas não tive a oportunidade — explicou assim que saímos do carro.

Além do lago, havia uma grande lanchonete e uma floresta. A floresta estava cheia de pontes feitas de madeiras, pelas quais podia-se fazer trilha.

Como alguém que parece acostumado com as bifurcações que se pareciam com um labirinto, meu tio seguiu confiante por um caminho que nos levou até um lugar aparentemente deserto, devido ao difícil acesso. Era uma ponte sem saída, que dava ao lago e que ficava escondida por uma grande árvore.

— É um ótimo lugar para namorar. Poucas pessoas vem até aqui... e fica melhor — disse fazendo-me sorrir ao ver o sorriso malandro em seu rosto. Ele seguiu até o banco que tinha encostado na cerca, que estava no fim da ponte, e ao invés de se sentar sobre eles, ele apoiou seu pé e usou para passar para o lado de fora da cerca.

— Vem — chamou com um gesto de mão. Olhei ao redor preocupado, caso alguém nos visse e não consegui evitar a pergunta: — Podemos fazer isso?

— Não existe nem uma regra que diga que não podemos sair das pontes. Elas foram construídas apenas para que os visitantes não se percam — explicou calmamente. Após suas palavras, segui até lá e pulei a cerca, descendo pelas pedras e chegando até a terra úmida a beira do lago. 

— Cuidado para não cair. Aqui — ofereceu-me sua mão como um método de segurança. Segurei-a e ele seguiu em frente, comigo logo atrás. Após andar por um minuto, o pedaço de terra tornou-se grande o suficiente para que pudéssemos andar lado a lado, mas ainda assim, continuamos de mãos dadas.

Um minuto depois chegamos em algumas rochas, haviam muitas delas, uma em cima da outra e bem no meio, uma pedra que parecia-se com um banco. Ele seguiu até lá e sentamos, enquanto ele largava a minha mão.

Havia pedras em um lado e uma árvore seca do outro, bloqueando a visão de qualquer um sobre esse ponto e em nossa frente havia um lago. O sol não estava forte, então não era um incômodo e a visão compensava o trabalha que levava para chegar ali.

— É um lugar calmo... Gostei muito — disse sorrindo ao ver as cores do céu e do sol sendo refletidas na água. — Parece ser um bom lugar para namorar também — brinquei ouvindo-o rir.

Novamente silêncio, mas dessa vez não parecia ser tão ruim. Seria o lugar? Ou porque eu estava mais relaxado?

— Tem muito que quero perguntar e muita coisa que não entendo sobre você, seu passado ou sobre seu comportamento. Mas hoje, não te farei pergunta alguma. Apenas quero que me conte tudo. Se quiser omitir algo, não vou te repreender, mas algum dia eu terei que saber — disse calmo, ou melhor, tentando manter a calma.

Aquela tensão que eu havia sentido no carro, parecia ter voltado no momento em que ele começou a falar sobre aquele assunto. — Não farei perguntas hoje e tentarei não fazê-las no futuro. Então, se possível... me diga o máximo que puder — pediu. Quase ri ao ouvir "tentarei não fazê-las no futuro" e disse a mim mesmo que assim era melhor, pois ele estava sendo sincero.

— Eu vou dizer tudo... desde o início. Mas me desculpe se eu esquecer de alguma coisa, pois passei os últimos anos tentando esquecer — comecei honestamente respirando fundo e procurando em minhas memórias, como tudo aquilo começou e como eu poderia abordar aquele assunto.

— Tio... Você é um homem religioso? — perguntei distraidamente, olhando para ele e vendo surpresa em sua face.

— Não — respondeu depois que a surpresa inicial havia passado.

— Algumas culturas acreditam que o suicídio é uma heresia, e que por isso, pessoas que cometem suicídio vão para o inferno... O que acha sobre isso?

— ... Não acredito muito em céu ou inferno. Mas acho que tirar a própria vida pode ser considerado um pecado — respondeu parecendo curioso com o rumo que aquela conversa estava levando.

— Pecado... Acho que é um bom modo de referência — disse a mim mesmo, olhando para o lago e para uma folha que caiu sobre a água, fazendo-a tremular pouco antes do vento aparecer e criar grandes ondulações.

— A minha história começa quando eu cometi esse pecado... Quando tentei o suicídio — revelei, me escorando na pedra e fechando os olhos, aproveitando o sol e a brisa do vento e evitando ver que tipo de expressões ele estava fazendo.

— Desde que eu era pequeno, o casamento dos meus pais foi difícil... Não sei o motivo ou quando começou, mas desde que consigo lembrar, meu pai era um homem violento.

— Ele costumava me bater e então mamãe me protegia e acabava apanhando também... Lembro de ter ouvido uma conversa de alguns adultos, sobre que se não fosse por mim, minha mãe não precisaria levar aquela vida, então... decidi que deixaria de existir.

— Eu sabia que se tomasse o remédio para dormir, dormiria por muitas horas. Então tomei vários comprimidos, na esperança de que fosse dormir e não acordasse mais — Precisei fazer uma pausa nessa parte. Não que fosse difícil falar sobre isso, mas eu já não lembrava muito daquela época, na verdade, fiz o possível para esquecer.

— Soube que minha mãe chegou em casa mais cedo e me levou ao hospital imediatamente. Depois de fazer uma lavagem no estômago e ficar alguns dias em coma, eu acordei... E desde então a minha vida mudou.

— Não há uma explicação científica para o meu problema, então, acredito que seja uma maldição. Por ter tentado suicídio, minha alma foi condenada ao inferno... E por ter sobrevivido, eu trouxe o inferno comigo — disse em um tom mais baixo.

Estava se tornando mais difícil falar, mesmo que eu não fosse mais criança. Abri meus olhos respirei fundo e cheguei mais perto de Levi, apoiando minha cabeça em seu ombro e mantendo meu olhar sobre a água, antes de continuar.

— Desde que acordei do que deveria ser a minha morte. Comecei a fazer tratamentos com psicólogos e psiquiatras, devido ao fato de ter pesadelos todas as noites. Tentei de tudo e nada deu resultado. O diagnóstico mais próximo da realidade que me deram, foi transtorno de estresse pós traumático, o mesmo diagnóstico que recebi após a morte da mamãe.

— Disseram que com medicamentos e tempo, tudo ia ficar bem, mas não ficou. As crises de pesadelos eram intensas e quase sempre eu acordava chorando ou gritando, isso quando não acontecia os dois. Com o tempo, a preocupação da mamãe começou a aumentar e como os médicos não podiam fazer nada, ela resolveu fazer.

— Sempre que eu acordava de um pesadelo, ela perguntava sobre o que era e eu dizia o que eu tinha visto. Alguns meses se passaram e minha mãe começou a perceber algumas semelhança em meus sonhos... Sempre era com uma pessoa diferente e alguém sempre acabava morrendo.

Novamente fiz uma pausa. E continuei enquanto apontava para frente, para o lago, dizendo a próxima parte da história.

— "Olhe mamãe, a mulher que morreu no meu sonho"... Foi isso o que eu disse quando tinha sete anos e estávamos vendo o jornal na televisão — revelei antes de puxar a mão até mim e ficar olhando para ela enquanto mexia meus dedos.

— Eu não entendia muito naquela época, mas não demorou muito até acontecer outras vezes. Pessoas que vi morrerem, e que morreram do mesmo modo como eu havia visto. Mas mamãe, provavelmente, percebeu desde o início. Foi por isso quê...

Fechei minha mão em um punho e o abaixei até meu colo: — Foi por isso que ela me tirou de casa na véspera da sua morte. Pois eu contei a ela que tinha visto um sonho onde meu pai mataria a nós dois. Ela me tirou de casa... e morreu no meu lugar — revelei fechando meus olhos e sentindo algumas lágrimas descerem por meu rosto.

— Naquele dia eu fiquei com muito medo. Porque eu tive a prova de que os meus sonhos, não eram só sonhos. Naquele dia eu soube que todas aquelas pessoas que eu vi morrerem, realmente iriam morrer — disse chorando um pouco mais intensamente e sendo amparado por Levi, que passou seu braço por cima dos meus ombros e me abraçou.

Mesmo sendo só um simples abraço, foi mais do que eu tinha recebido durante todos aqueles últimos anos, e foi isso que me deu coragem para continuar. Enxuguei minhas lágrimas e fiz esforço para parar de chorar. Eu precisava continuar, antes que perdesse a coragem.

— Depois disso, estive sempre com meu pai. E sabendo do que ele era capaz, me mantinha sempre alerta enquanto estava ao seu lado. Tentei contar para as pessoas sobre o que eu via, mas ninguém acreditou em mim. Devido a morte da mamãe, consideraram que eu estava delirando pelo choque e esqueceram as palavras de: "uma criança quebrada" como muitos falavam.

— Percebi que ninguém iria acreditar em mim, então aprendi a mentir. Mentir e sorrir se tornaram as armas que eu usava todos os dias, para sobreviver num mundo no qual não tinha ninguém em quem pudesse confiar.

— Dormir menos vezes, foi o único método que encontrei para combater os pesadelos e viver isolado, era o melhor jeito de não chamar atenção. Mentir, sorrir, fingir ser invisível, dormir menos e não revelar meu segredo... foi assim que consegui viver durante os últimos anos.

Fiz uma nova pausa e respirei fundo, me afastando do seu abraço e me levantando. Dei quatro passos para longe dele, enxuguei as lágrimas, me abaixei perto do lago e peguei algumas pedrinhas. Joguei uma delas no lago e fiquei brincando com as outras na mão.

— Não quero entrar em detalhes sobre meus pesadelos, ao menos, não agora. Mas de modo geral eles são todos iguais. Há uma ou mais vítimas, um ou mais assassinos e eu acordo quando alguém morre — expliquei de maneira geral.

— Durante esses anos, me deparei com casos que já tinha visto acontecer e tentei ajudar do modo como podia, sendo uma testemunha ou apontando algo que ajudasse na investigação, mas... raramente a minha palavra era levado a sério, mesmo se eu não mencionar meus pesadelos, ainda assim, a palavra de uma criança tem pouca credibilidade — afirmei jogando mais uma pedrinha no lago.

— A maioria das mortes acontece muito longe de onde estou ou muitos meses depois, então impedir que o assassinato aconteça, é quase impossível. Eu achava que a pessoa que vi morrer, morreria em até um ano, mas percebi estar errado no caso das irmãs Auster.

— Já fazia tanto tempo que eu tinha visto aquilo, que já não lembrava de quase nada. Só consegui fazer uma ligação devido a mensagem deixada para trás na cena do crime, algo que não é muito comum.

— E por falar em incomum, às vezes em casos raros, eu posso ver uma pessoa ou um lugar conhecido e uma hora ou um dia, o que me ajuda a descobrir, quem, quando ou como a morte vai acontecer — expliquei, jogando mais uma pedrinha na água e brincando com a última que tinha ficado em minha mão.

— Antes de vir morar com você. Não tinha conseguido salvar ninguém. Mas já consegui mudar duas das minhas visões. Sendo que uma delas foi a sua morte com os tiros e a outra foi o massacre no parque...  Apesar de quê, nesse segundo caso, eu consegui salvar apenas uma das vidas — completei baixo para que apenas eu pudesse escutar. Apertando a pedrinha em minha mão e vendo-a se desmanchar e mostrar-se ser apenas um pedaço de barro empedrado

Me abaixei novamente, dessa vez mais perto do lago e lavei minha mão na água. Enquanto esfregava as mãos uma na outra e via o barro sair e afundar na água, continuando a minha explicação:

— No seu caso eu vi um pouco da data no celular. Vi o mesmo no relógio do parque, o que me deu a chance de intervir há tempo, mas é algo raro de acontecer e nem sempre estará ao meu alcance impedir. Na maioria das vezes eu só ignoro, pois se pensar muito em cada uma das mortes que vejo, sinto que minha mente não iria aguentar — Fui sincero.

Levantei-me sentindo meu corpo pender para frente indo em direção ao lago. Só não caí, devido às sua mãos na minha cintura que me seguraram, evitando que eu desse um mergulho.

— Qual parte de "tome cuidado para não cair" você não entendeu? — repreendeu-me em tom sério, puxando-me alguns passos para trás.

— Desculpe — pedi quando ele suspirou de alívio e me soltou, tendo a certeza de que eu estava bem. 

— Vamos nos sentar — disse, segurando na minha mão e me puxando de volta ao "banco", novamente não me dando opção de recusar. Segui com ele e fui surpreendido, quando ele se sentou, abriu as pernas e me puxou, fazendo com que eu me sentasse de costas para ele, naquele espaço diante de si.

— Anh... Tio? Isso é meio constrangedor. Posso sentar do seu lado? — perguntei sentindo-o me abraçar pela cintura e apoiar seu queixo em meu ombro.

— Considere uma punição por quase ter caído no lago — disse me apertando mais contra si. Senti-me envergonhado e surpreendentemente feliz. — Continue — pediu referindo-se as minhas revelações.

— Eu já disse praticamente tudo. Só faltam pequenos detalhes. Tipo... as vezes eu encontro assassinos que vi em meus sonhos e ninguém sabe que eles são assassinos... Como o seu amigo Niel ou aquele policial com quem falei ontem — expliquei ouvindo-o resmungar algo em um volume baixo.

— O quê? — perguntei sem entender.

— Eu perguntei: Desde quando isso é um "pequeno detalhe"? Pirralho maluco! — disse em tom alto, mordendo o meu pescoço para a minha surpresa.

— Aí! Isso dói! — disse colocando a mão sobre a marca de mordida que ele acabara de fazer. 

— Se eles são assassinos, por que esteve confrontando-os?! Se eles descobrirem a sua habilidade. Você vai ser caçado! — repreendeu em tom novamente sério. Olhando-me por cima dos ombros e me fuzilando com um olhar furioso.

Ao escutar aquelas palavras, meu corpo ficou tenso, enquanto eu lembrava da visão sobre minha morte e das palavras de Steven, em que ele mostrara ter vindo atrás de mim, depois que seu amigo Niel falou-lhe algo, aquele a quem eu já tinha confrontado.

— O que é? — perguntou ao ver o meu silêncio.

— Não é nada — Voltei a mentir... Velhos hábitos são difíceis de quebrar ou mudar.

— Sinceramente Linden, você é tão sem juízo que não sei como sobreviveu por tanto tempo — disse apoiando sua testa em minhas costas e suspirando pesadamente. Ver seu estado, me fez rir e ao mesmo tempo, me deixou confuso.

— Você tem aceitado tudo muito bem... Qual é o segredo por trás dessa calma, após ouvir todas as minhas revelações?

— Estou surpreso com muito, principalmente tudo que se refere a Lisa, mas quanto ao fato de você poder ver a morte das pessoas... eu já suspeitava disso — revelou para a minha surpresa.

— Suspeitava, devido ao que eu mostrei no caso das irmãs Auster? Sobre o conhecimento que eu tinha referente a morte da menina?

— Esse caso apenas confirmou a minha suspeita. Eu já desconfiava desde muito tempo antes, quando você recém tinha chegado em minha casa — explicou, abraçando-me novamente pela cintura e dando um beijo no local onde pouco tempo atrás, havia mordido.

Grandes nuvens começavam a aparecer no céu e o sol já não estava mais presente, assim como a leve brisa que começava a formar um vento mais forte. Seria melhor se fôssemos embora, para não pegar chuva, mas eu não queria sair dali, não naquele momento de honestidade no qual estava revelando e recebendo revelações.

— Sei que você tinha suas suspeitas, mas desde quando exatamente e por quê? — perguntei em um volume baixo, virando para o lado e encarando seu rosto.

— Quando você recém havia chegado, muitos pequenos detalhes me chamaram a atenção. Alguns eu já mencionei antes como o fato de você dormir pouco. Mas percebi o alívio que sentiu ao sair do lado do seu pai e o medo que sentia de aproximar-se... mesmo que sempre mascarasse tudo com um sorriso.

— O caso Auster me fez ter certeza de que você realmente sabia algo que outras pessoas não sabiam, mas eu já havia percebido isso em outras ocasiões...

— Quando estávamos analisando o caso de Lisa e foi-lhe perguntado o motivo pelo qual acusou seu pai, você deu uma desculpa, mas completou com "não há provas". Essas palavras querem dizer: "Ele é o culpado, mas não posso provar o que estou dizendo". — Aquela revelação me deixou surpreso, não só por ele ter entendido tal contexto em uma única frase, como pela sua inteligência em ter percebido.

— Sua habilidade de mentir é realmente impressionante. Profissionalmente falando, conheço poucas pessoas que conseguiram esconder algo de mim, ainda mais, quando temos que dividir uma casa — elogiou para uma nova surpresa, entretanto, não consegui descobrir se era um elogio sincero ou sarcasmo.

— Porém, mesmo que minta com frequência, às vezes seus sentimentos entregam a mentira — revelou olhando em direção ao lago.

— Quando fomos ao restaurante com James e Raimon, você viu uma foto no jornal sobre uma mulher que havia sido morta. Naquele dia, você olhou a foto com grande tristeza, me fazendo acreditar que a conhecia... Se lembra disso?

Acenei afirmativamente e ele continuou: — Quando perguntei se a conhecia, você disse que "não" e que estava olhando, pois ela parecia que iria ser uma boa mãe. No dia não liguei muito para isso, até que alguns dias depois, eu fui fazer uma entrega no laboratório e ouvi uma conversa.

— Uma conversa que lamentava a morte daquela mulher, pois ela estava grávida de cinco semanas... É claro que levei em consideração que podia ser uma coincidência, mas o incidente do parque confirmou as minhas suspeitas.

— Você foi um ótimo ator naquela ocasião e as mentiras que contou, foram bem colocadas, mesmo levando em consideração o perigo no qual estava, mas houve um pequeno detalhe que me chamou a atenção.

— Enquanto eu estava observando o atirador, eu o vi puxar a arma e atirar, e ele puxou o revólver de suas costas — explicou fazendo-me compreender. Afinal, em minha história eu havia dito que havia visto a arma em sua cintura, ao lado do corpo, e não atrás.

— Cheguei a conclusão que você sabia que ele estava armado, mas que não sabia onde a arma estava e que sua mentira foi apenas um chute para poder nos convencer a ajudar.

— Você é bom — elogiei derrotado. Ele viu através de minhas mentiras com grande facilidade. Era a primeira vez que eu encontrava alguém assim.

— Você também é bom. Não estava brincando quando elogiei sua habilidade em mentir. Graças a ela, vidas foram salvas, incluindo a sua — elogiou seriamente — Mas evite mentir para mim, se possível — pediu com um sorriso fraco, fazendo-me rir tristemente.

Levantei-me de seu colo e ele não me impediu, voltei a sentar ao seu lado e segurei sua mão entre as minhas. Olhando para ele seriamente e sendo o mais honesto que conseguia ser.

— Mentir já é parte da minha rotina. Não é algo que eu possa parar de fazer porque eu quero. Esteja ciente de que mudar leva tempo, mesmo se eu quiser a mudança — expliquei calmamente e ele sorriu.

— Desde que você queira mudar, para mim é o bastante — afirmou me puxando para um abraço, ao qual retribui feliz. — É melhor voltarmos para o carro, o tempo está mudando rapidamente — constatou quando nos afastamos. Concordei com um balançar de cabeça e fizemos o nosso caminho de volta, novamente de mãos dadas.

Após chegar nas pontes, ele parou de andar e antes de sair daquele lugar mais escondido. Meu tio se virou e me encarou seriamente.

— Sei que prometi que não faria perguntas e que você disse que não queria falar sobre isso agora, mas eu preciso saber. Pois a minha mente tem me torturado com isso há algum tempo — explicou seriamente. Seus olhos encaravam nossas mãos e ele não pretendia olhar para mim.

— O que é? — perguntei ao ver a sua hesitação. Ele só hesitava quando o assunto era difícil de se lidar e importante.

— Quando você esteve na cena do crime da menina, as suas deduções e lembranças, pareciam vir da vítima, como se estivesse no lugar dela... Quando diz que pode ver pessoas morrendo, não vê a cena como uma terceira pessoa, não é? — Havia dor em sua voz e dessa vez não me surpreendi com sua dedução, pois depois de tudo o que ele havia falado, eu já esperava por aquilo.

— Não — respondi seriamente. Seus olhos agora olhavam os meus e com dificuldade ele continuou:

— Sempre que está em seus pesadelos... você chora, se debate e as vezes grita... como alguém que está prestes a morrer, então....

— As cenas que vejo são vistas pelos olhos da vítima. Eu posso ver, ouvir e sentir tudo o que ela sente. Em algumas ocasiões dura alguns minutos, em outras dura algumas horas... Tudo acaba quando ela e eu morremos — A surpresa em sua face, só não era maior que sua dor.

— Todas as vezes?... A cada noite que passa, você tem uma experiência de morte diferente?

—... Sim — respondi enquanto via para a minha surpresa, ele chorar. Já estava prestes a perguntar o que estava acontecendo, quando ele me puxou para mais perto e me abraçou, apertando-me contra si.

— Eu nem consigo imaginar o quão doloroso isso deve ter sido... Eu sinto muito por tudo o que tem passado e sei que não posso fazer muito, mas vou estar aqui se precisar. Mesmo que seja apenas para abraçá-lo quando acordar. Considere isso o meu agradecimento por ter suportado tudo isso e ter me dado a chance de te conhecer.

— Obrigado Linden, por ter entrado na minha vida e ter me dado a chance de encontrar alguém a quem amar — sussurrou em um tom que misturava tristeza, agradecimento e vestígios de dor. Antes que pudesse perceber, também estava chorando. Aquilo era muito mais do que eu esperava, era muito mais do que ser aceito.

Quanto tempo havia passado esperando por um momento como aquele, um momento em que alguém me aceitaria? Quanto tempo fiquei na escuridão, achando que não poderia ver a luz? Quanto tempo passei me convencendo de que nunca encontraria alguém com quem dividir a vida e que iria continuar a viver eternamente sozinho?

Ao ser abraçado e ao escutar aquelas palavras, pensei pela primeira vez em minha vida: "Que bom que não morri naquele dia".

O nosso momento foi atrapalhado pela chuva, então tivemos que nos apressar e retornar ao carro. Devido a chuva forte, o céu começou a escurecer e mesmo sendo o começo da tarde, parecia já ser o anoitecer. Estava perigoso para dirigir, então resolvemos esperar. Usando o tempo que tínhamos, fomos até a única lanchonete presente ali para comermos, após perceber que já passava do meio dia.

Comemos entre brincadeiras, aproveitando a pouca movimentação que tinha, devido a ser um dia de semana. Após a refeição, ficamos sentados e conversando, sem ter outro lugar a ir.

— É por isso que não gosto de hospitais — concluí a história de que muitas vítimas eram socorridas e levadas ao hospital e que por consequência, eu morri naquele recinto muitas vezes.

— A sua mente deve ser realmente resistente para ter suportado tudo isso... Se fosse eu, teria enlouquecido — confessou com tristeza e vestígios de admiração pela minha força.

— Eu sou meio louco... É impossível manter a sanidade por completo — brinquei antes de assumir um tom mais sério. — Muitas pessoas já me chamaram de psicopata e talvez tenham razão até certo ponto.

Olhei para a chuva que caía do lado de fora e confessei com um pequeno sorriso. — Ver um cadáver, não me assusta. Quando estou sozinho com uma pessoa, automaticamente analiso-a em busca de qualquer ameaça ou perigo. E quando olho para casos de assassinato, às vezes, consigo saber o que o agressor fez ou pensou, apenas lendo o que foi dito por testemunhas ou vendo fotos... 

— A minha mente sempre esteve no lugar das vítimas, mas depois de tanto tempo, eu consigo reconhecer e até imaginar a mente de um assassino... Talvez não demore muito para que eu me torne um criminoso — lamentei baixinho.

— Você não vai se tornar um assassino. Se tivesse a intenção de tirar uma vida, teria matado seu pai com quem esteve durante esses anos. E certamente não contaria essas coisa para um policial — terminou com confiança e tom de brincadeira, apontando para si mesmo.

— Você não deveria confiar tanto em mim. Eu não sei quando minha mente vai se quebrar por completo — avisei sério

— Tudo bem. A partir de agora eu vou cuidar da sua mente para que ela não se quebre e se ela quebrar, estarei aqui para juntar os pedaços e montá-los novamente. Vou cuidar de você, então confie em mim.

— Eu confio em você. É em mim que não confio — esclareci fazendo-o rir.

— Parece que a chuva não vai acalmar tão cedo. Tem uma pousada aqui perto. O que acha de irmos até lá? Amanhã voltamos para casa — sugeriu após virar-se e olhar para a chuva pela janela.

— Por mim tudo bem. Ficarei em qualquer lugar desde que esteja comigo — disse com um sorriso, vendo-o se envergonhar e sorrir sem jeito. — Nem parece o homem que estava agradecendo a minha existência e que disse que me amava, uma hora atrás — disse ironicamente, sorrindo enquanto via-o ruborizar e tomar seu copo de café, sem dizer nada.

Achei engraçado o quanto sua personalidade podia mudar e o quanto aquele homem que me passava confiança e segurança, podia ser inseguro e tímido. Era algo que ele não fazia em casa, então pelo pouco que o conhecia, acreditava ser algo que ele fazia apenas quando estava em público.

Após pagar a conta, deixamos a lanchonete e corremos até o carro. Foi uma corrida curta, mas devido a chuva forte, acabamos molhados. O trajeto foi lento e demorado, quase meia hora depois, finalmente chegamos até a tal pousada.

Devido a chuva surpresa, existiam muitos na mesma situação que nós, que vieram a passeio ou por outros motivos e que não puderam retornar para suas cidades. Por isso, eles estavam alugando apenas um quarto para pessoas que chegavam juntas.

Na falta de dois quartos de solteiro, optamos por um com uma cama de casal. Afinal, entre ter que dividir uma cama de casal e uma de solteiro, nem era preciso pensar muito antes de fazer uma escolha. 

Eu não me importei muito com aquilo, pois já tínhamos dormido juntos uma noite e não via muita diferença naquela situação, mas meu tio parecia novamente tenso, assim como quando estávamos no carro e quando estávamos naquele lugar escondido entre as pedras, diante do lago.

Com o barulho da trava da porta sendo acionado, as suas palavras vieram em minha mente... "Realmente acredita que não quero fazer sexo com você?" E comecei a ficar tenso ao lembrar que teríamos que dividir a cama.

— Não se preocupe, eu não vou fazer nada... provavelmente — completou depois de uma pausa, fazendo um pequeno sorriso surgir em minha face.

— Provavelmente?... Isso não passa muita confiança — respondi em tom divertido, parado e olhando para o quarto, enquanto ele estava ao meu lado, igualmente com os olhos fixos a frente.

— Sobre a pergunta que você me fez, em meu quarto... Iria te magoar se eu dissesse que acredito que não me deseje? — perguntei cautelosamente.

— Não estou magoado. Apenas surpreso — disse se virando para mim e tocando meu pescoço com uma mão, enquanto segurava meu ombro com a outra e me virava para que eu ficasse de frente para si. — Estou surpreso por ter me contido tanto, ao ponto de conseguir esconder todo esse desejo — esclareceu olhando-me de um modo diferente.

— Talvez esteja na hora de te mostrar como realmente me sinto quando estou com você — disse se aproximando e deixando sua boca próxima da minha — Se eu fizer algo que não goste ou que te deixe desconfortável. Me pare. Porque não terei forças para fazer isso sozinho — completou antes de encerrar a distância entre nós e me beijar. Um beijo diferente daqueles que já havíamos trocados.


Notas Finais


Até sexta-feira.
:-)


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