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História TK - Sobre todas as bandas de rock - Capítulo 40


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Notas do Autor


oi, reservo meus agradecimentos ao epílogo :)

Capítulo 40 - Deixe tudo para trás


Quando Jeongguk saiu da loja de LP, enfiando de qualquer jeito a foto no bolso da jaqueta e provavelmente a amassando, esbarrou em alguém. O impacto forte fez seu ombro ser carregado para trás e obrigou-o a girar o corpo. Precisou de um segundo para reconhecer a pessoa à sua frente.

— Jeongguk? — Yugyeom ergueu uma sobrancelha, a cabeça se afastando um pouco como se precisasse de um ângulo melhor. O violinista coçou a pálpebra na tentativa de encontrar algo para dizer, no entanto, na ausência de qualquer coisa boa, ergueu o rosto segurando um suspiro:

— Oi.

O outro o encarou em silêncio e a boca se abriu para dizer algo que optou em não dizer. Jeongguk abaixou a cabeça, tirando as mãos dos bolsos e acenou.

— Hum, tchau — deu-lhe as costas.

— Espera — Yugyeom pediu rápido demais e Jeongguk demorou um segundo para olhar para trás. Encarou-o, esperando. A continuação saiu um pouco atrasada: — Você... não quer sair?

— Sair?

— Sim. Podemos ir comer algo... se você quiser.

— Agora?

— Hã, eu não ia dizer agora, mas... se você quiser — repetiu, dando de ombros.

Jeongguk olhou para o céu laranja em pleno pôr-do-sol e ponderou por dois segundos antes de assentir em um dar de ombros igual. Onde tanta indiferença levaria a humanidade?, se questionou ao responder um simples:

— É, tudo bem.

Então, várias horas depois, mais especificamente às dez da noite, os dois já haviam jantado e, certamente, bebido mais do que deviam. Yugyeom ficou minutos intermináveis contando sobre a faculdade e sobre como ficou na merda depois de Jeongguk sumir dizendo um simples "você sabia que eu não queria nada sério... e acho melhor você focar nos estudos". Aquilo fazia o violinista encher um copo de soju seguido do outro, porque cada palavra o lembrava de Taehyung, e aquilo o estava matando. Será que não tinha um segundo de descanso? Um único minuto em que sua cabeça não tivesse absolutamente nada. Silêncio, ele queria silêncio! Mas, em meio a tantos pensamentos, se pegou percebendo que era realmente engraçado o modo como tinha se metido em uma situação tão parecida com a de Taehyung sem ao menos saber a verdade. Agora sabia, e ter encontrado Yugyeom o fazia pensar que começava a, quem sabe, entender Taehyung.

Quer dizer... Jeongguk se sentira culpado por ver Yugyeom perder aulas para se verem, mas... bem, ele nunca pedira que faltasse às aulas, não é? Virou o rosto para o lado, revirando os olhos devagar. Por um segundo se tornou tão autoconsciente das próprias ações que se julgou: orgulhoso. Então sacudiu a cabeça e se recostou na cadeira. Talvez não tivesse bebido o suficiente ainda, concluiu pedindo mais uma garrafa ao garçom.

— E depois que eu não vi mais você, até tirei algumas notas máximas nas minhas provas — Yugyeom riu alguns minutos e várias frases depois, completamente bêbado. Nas mesas ao redor, as pessoas começavam a olhá-los incomodados.

Jeongguk balançou a cabeça, o corpo meio mole enfim. Colocou as mãos nos joelhos, fungou e entornou todo o resto da bebida. Havia tantas garrafas e ele estava tão bêbado que já não se lembrava direito como tinha parado ali. Fungou outra vez e disse com a língua enrolada:

— Ei, por que não saímos daqui?

Yugyeom fez uma cara esquisita.

— Para onde?

— Só vamos sair! — Jeongguk sorriu, a mão batendo na mesa e fazendo os talheres dançarem.

— Mas já não estamos saindo?

— Não, estamos jantando em um lugar chato, vamos sair daqui — disse, levantando-se e pegando a carteira no bolso da calça. — Eu não aguento mais ouvir essas melodias de piano tocando no fundo, vamos ouvir outra coisa!

— Vamos numa balada! — Yugyeom se levantou animado, quase tropeçando. Pagaram, saíram de lá cambaleantes e se enfiaram na primeira boate que encontraram. As luzes coloridas acolheram os dois em meio às melodias agitadas e às danças, e em segundos, a cabeça de Jeongguk estava vazia. E ela permaneceu assim por horas, até que a maldita música do DJ Sammy tocou quase ao final. É claro que estava tocando... era a única coisa que perseguia Jeongguk nos últimos tempos.

Tentando afastar tudo que lhe vinha à mente, ele continuou dançando. E teria surtido efeito se aquilo não tivesse acontecido tão de repente, em meio à toda aquela gente, e todo aquele álcool no sangue — em meio a todo o conflito em sua cabeça. Porque quando Yugyeom se virou e o beijou, tudo pareceu ficar alto e confuso demais. Jeongguk arregalou os olhos, pego de surpresa. Sua mente se aquietou completamente no segundo seguinte, como se, no clímax, tivesse sido calada, e ele pôde sentir no fundo de seu cérebro uma coceira de epifania. Só não sabia qual era exatamente. Piscou e, raciocinando devagar, retribuiu o beijo. Foi quando, de súbito, sentiu que tudo estava errado.

Tudo estava errado.

De leve, empurrou Yugyeom, que sem entender o encarou com os olhos confusos e pedintes.

— Desculpe — Jeongguk sussurrou.

— O quê? — Yugyeom não o ouviu.

— Desculpe, desculpe — Jeongguk balançou a cabeça, os olhos tristes e, ao mesmo tempo, aliviados. Yugyeom tentou lembrar se algum dia já havia visto os olhos do violinista daquele jeito. — Desculpe! — gritou dessa vez e saiu correndo.

Quando saiu para a rua, o vento gelado o atingiu com um choque pelo tecido fino da camisa, já que, lá dentro, havia colocado a jaqueta na cintura. Sem ar, Jeongguk olhou ao redor, perdido. O que estava procurando? Já amanhecia. Limpou os olhos como se chorasse, mas não havia lágrimas. Sentiu o corpo estremecer com o frio e colocou a jaqueta. Ao pôr a mão no bolso, lembrou-se de algo, e imediatamente puxou a foto. Então percebeu algo que não tinha visto antes: havia algo escrito no verso da foto. Roubara-a com tanta pressa que nem vira a parte de trás. Mas agora via e cada palavra o fazia querer chorar.

Me senti tão desesperado e culpado que pensei que a única coisa certa fosse te afastar da maneira mais dolorosa possível... quando, na realidade, a única coisa certa era você. Você sempre será a única coisa certa.

Seus músculos não podiam se mover. Não podia nem respirar diante daquilo.

Estava com medo de se machucar outra vez e de não se recuperar nunca mais. Tinha medo de tudo dar errado, medo de fazer todas as escolhas erradas possíveis. Virou a foto para encarar seu próprio rosto num sorriso feliz. Inconscientemente, sorriu também, sentindo um aperto no coração. Uma parte de si dizia para se libertar — esquecer Taehyung de uma vez, jogar aquilo fora e ir embora. Já a outra parte não parava de lhe dizer: você ainda o ama, pare de ser tão orgulhoso, ele já te pediu perdão e disse que também te ama! O que mais você quer?

Jeongguk fechou os olhos, lembrando-se do dia em que tiraram aquela foto, e quase pôde sentir o toque de Taehyung em seu corpo. Ah, se pudesse voltar no tempo... Abriu os olhos. Não! Não precisava voltar no tempo e Taehyung nunca seria a escolha errada!

Não era isso que Jeongguk tanto queria que ele tivesse entendido antes de fazer toda aquela burrada? Antes de afastá-lo e machucá-lo! Taehyung jamais seria a escolha errada, assim como Jeongguk nunca seria a escolha errada para o roqueiro.

Com o coração batendo rápido, Jeongguk saiu correndo outra vez. Parou o primeiro táxi que viu na rua e se dirigiu ao apartamento de Taehyung. Correu pelas escadas e parou ofegante em frente à porta, batendo desesperadamente. Queria gritar pelo nome, mas sua voz parecia ter desaparecido. Estava nervoso e tremendo, não conseguia fazer nada além de bater sem parar até que ela se abrisse.

E quando a porta abriu, Jeongguk viu o apartamento vazio.

— Mas que merda? — Hoseok esfregava os olhos; tinha acordado com o barulho, visivelmente, e os olhos se arregalaram ao gritar: — Jeongguk?!

— Cadê o Taehyung? — perguntou sem ar.

— Ele não está, viajou!

— Para a Alemanha?! — Jeongguk se desesperou.

— Não! Gyeongsangnam-do. Haiensa! Vai ficar lá até amanhã e—

Jeongguk assentiu e saiu correndo, sem dizer nada, sem ao menos esperar Hoseok lhe contar que Taehyung voltaria antes de ir para a Alemanha. Desesperado por acreditar que o perderia de vez, ele pegou mais um táxi até a rodoviária e subiu no primeiro ônibus para Gyeongsangnam-do. Xingou-se por ter esquecido o celular em casa e por não ter pedido a Hoseok que avisasse Taehyung.

Mesmo que tivesse passado a madrugada em claro, ele não sentia sono. Não pôde dormir durante boa parte da viagem e ficou repetindo mentalmente o lugar que Hoseok lhe dissera. Haeinsa, Haeinsa, Haeinsa!

Enquanto desejava que o ônibus fosse mais rápido, os olhos de Jeongguk se fecharam.

Abriram-se em um estalo, não sabia depois de quanto tempo. Precisou de um momento para reconhecer onde estava — e não reconheceu. O ônibus estava vazio, o que o fez se levantar em um pulo desajeitado por causa do espaço pequeno. Ao tentar descer os poucos degraus, percebeu que a penúltima pessoa ainda descia: uma senhora.

Ela se despediu do motorista e Jeongguk foi até ele, pedindo informações sobre o templo. Correu para pegar mais um táxi, imaginando se ainda teria dinheiro quando precisasse voltar para casa, mas a verdade era que não se importava, ele sabia que nada importaria depois que encontrasse Taehyung.

 

{...}

 

Visitar sozinho aquele templo não fazia parte dos planos de Taehyung. Anos atrás, muitos anos atrás, esperava que pudesse visitá-lo com a mãe, como ela tanto desejava, e depois que ela se fora, ele nunca mais havia pensado em conhecer aquele templo. Agora, no entanto, achava que devia ter feito aquilo antes, porque era quase como se pudesse vê-la ali. Podia vê-la andando ao seu lado, podia até mesmo sentir o cheiro que ela tinha. Sorriu como se pudesse rir de si mesmo. Devia ser uma cena digna de pena, um rapaz triste e solitário andando pelos caminhos de um templo com um sorriso ainda mais triste do que seus olhos. Se ele podia alucinar com a mãe ao seu lado, também podia alucinar com Jeongguk ali? Fechou os olhos. Queria acreditar que sim. Jeongguk pegaria sua mão e o puxaria para verem cada detalhe do lugar, até mesmo os mais desnecessários.

Abriu os olhos cheios de lágrima. Taehyung devia começar a se despedir das lembranças, deixar a dor sair e inundá-lo com... o que quer que viesse depois. No entanto, quanto mais tentava, mais lembranças apareciam. A primeira vez que o vira, tocando piano sozinho numa sala da universidade. Quando o encontrara no balcão da lanchonete, prestando atenção à melodia do Queen, e todas as alfinetadas que havia levado em seguida, entre aquele instante e o momento em que percebeu estar apaixonado. Pela primeira vez apaixonado! Ah, mãe... eu nunca te contei sobre ele! Ele, Jeon Jeongguk, talvez a única decisão certa que eu já tomei — teria dito se ela realmente estivesse ali. Teria contado cada detalhe de como Jeon Jeongguk o fizera se sentir bem como não se sentia havia anos. E depois, cada detalhe de como tinha conseguido estragar tudo pensando ser a única coisa certa. Choraria até os olhos doerem, enquanto sua mãe faria carinho em seu cabelo e lhe diria "vai ficar tudo bem". "Vai ficar tudo bem, Taehyung... essa dor vai passar, você tem que deixá-la ir. Sei que no fundo não quer que passe porque é a única coisa que ainda o prende a ele, mas uma hora terá de deixá-lo ir, se é isso o que ele quer".

Se Jeongguk queria ir embora, se queria que Taehyung o esquecesse e se queria tanto esquecê-lo... então... então tudo bem. Ele o deixaria ir.

Enquanto olhava as árvores, lembrou-se do último filme que assistira com Jeongguk, "Amor à flor da pele". E se lembrou de como o personagem principal deixava as lembranças ao final. "Antigamente, se alguém tivesse um segredo que não quisesse partilhar, subiam uma montanha, procuravam uma árvore, abriam um buraco nela e sussurravam o segredo para dentro do buraco. Por fim, cobriam-o de lama e lá deixavam o segredo para sempre". Não era mais um segredo, Taehyung já havia contado... mas, talvez, ele pudesse tentar deixar aquela história ali... para sempre.

Ao andar e parar na frente de uma árvore, não se importou com as pessoas ao redor. Ele tirou uma casquinha da madeira e se inclinou.

E pela última vez, contou tudo que havia acontecido e tudo que estava em seu coração. A raiva de si mesmo, a felicidade por Jeongguk ter se tornado o que sonhava, e o quanto ainda chorava ao pensar que tudo poderia ser diferente, um diferente melhor. Ainda poderiam estar juntos. Poderiam ser felizes...

Então verbalizou em um sussurro o segredo que decidiu deixar para trás, na árvore, coberto por um pouco de terra úmida. Ali ficaria, para sempre. "Eu não quero que o Jeongguk me esqueça".

Virou-se e começou o caminho de volta. No topo da escada, parou para ver os raios de sol, sentindo a sinestesia da mistura entre dourado, laranja e azul o atingir em pleno outono. Quando uma centelha daquele dourado o obrigou a fechar os olhos, baixou-os para os degraus.

De súbito, tudo sumiu.

 

{...}

 

O peito de Jeongguk subia e descia rapidamente, e os pulmões estavam ávidos por mais ar depois de percorrer todos os cantos daquele lugar. Sentia-se tolo por achar que seria fácil andar num lugar grande como aquele, com tantos templos, árvores e pessoas. Não sabia nem se Taehyung realmente estava ali. Olhava para os rostos das pessoas, para os cabelos e até para os sapatos, tentando encontrar algo familiar. Depois de dar duas voltas e não encontrar nada, pensou em desistir e telefonar para Hoseok em algum telefone público.

Ao se aproximar pela terceira vez da construção principal, olhou ao redor desesperado e esperançoso, todavia, ao não encontrar nada, reprimiu um suspiro e se virou para a escadaria, cansado.

Sentia que seu coração iria arrebentar sua caixa torácica, mas quando viu Kim Taehyung no topo da escada, banhado naquele sol de outono que o fazia parecer ter uma auréola, foi como se, depois de séculos procurando por paz, fosse ela quem finalmente o encontrasse. E tudo ficou, de repente, calmo e quieto. Tudo dentro dele emudecia-se para ser capaz de ouvir até o mais baixo barulho que viesse de Taehyung.

Jeongguk estava ali embaixo, a alguns passos do pé da escada. Inusitadamente parado — mas, espere, não era ele o impulsivo completamente maluco? E ali estava: incapaz de dar um passo à frente. Queria ficar só mais um segundo diante daquela visão.

O pé de Taehyung tocou o primeiro degrau, os olhos presos aos de Jeongguk como se tivessem sido feitos só para o verem. Desceu então devagar, hesitante, com medo de que sua mente estivesse mesmo alucinando, com medo de que Jeongguk não houvesse vindo para o que ele supunha.

Taehyung parou ao pé da escada, no mesmo chão que Jeongguk. Com os corações acelerados, permaneceram se encarando, as respirações falhando, os olhos procurando uns pelos outros como navios procurando por faróis nas costas.

Então, um sorriso deslizou pelos lábios de Jeongguk e ele deu um passo à frente.



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