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História Toda Sua - Jensoo - Capítulo 1


Escrita por: bellbas_blink_

Capítulo 1 - Capítulo 1


Fanfic / Fanfiction Toda Sua - Jensoo - Capítulo 1 - Capítulo 1

“A gente devia ir até um bar comemorar.”

 A declaração enfática da minha amiga Park Chaeyoung, com quem eu dividia um apartamento, não foi nada surpreendente. Ela estava sempre disposta a comemorar, mesmo  as coisas mais insignificantes. Sempre considerei isso parte de seu charme.  

- “Sair pra beber um dia antes de começar num emprego novo com certeza não é uma boa ideia.”  

- “Vamos lá, Jennie.”

 Chae sentou no chão da sala do nosso novo apartamento, em meio à bagunça da mudança, e abriu seu sorriso irresistível. Fazia dias que só cuidávamos da arrumação, e  ainda assim ela estava linda. Com seu corpo esguio, cabelos loiros e olhos escuros, Chae era o tipo de mulher cuja aparência, quaisquer que fossem as circunstâncias, raramente era  algo menos do que incrível. Isso me deixaria com raiva, se ela não fosse a pessoa que eu  mais adorava no mundo.  

-/ “Não estou dizendo pra gente encher a cara”, ela insistiu. “Só uma ou duas tacinhas de vinho. A gente pega o happy hour e volta pra casa lá pelas oito.”  

- “Não sei se vou ter tempo.” Apontei para minha calça de ioga e meu top de ginástica. 

- “Depois que eu cronometrar a caminhada até o trabalho, vou pra academia.”  

- “É só andar depressa e malhar mais depressa.” A expressão de Chae, com as sobrancelhas cuidadosamente curvadas em um arco perfeito, me fez rir. Nunca perdi a  esperança de que seu rosto incrível aparecesse um dia em outdoors e revistas de moda do  mundo inteiro. Qualquer que fosse sua expressão, ela era um arraso.  

- “Que tal amanhã, depois do trabalho?”, ofereci em troca.

- “Se eu conseguir sobreviver ao primeiro dia, aí sim vamos ter o que comemorar.”  

- “Combinado. Hoje vou estrear a cozinha nova fazendo o jantar.”

- “Hã...” Cozinhar era um dos prazeres de Chae, mas não um de seus talentos.

- “Legal.”

 Afastando uma mecha de cabelo que caíra sobre seu rosto, ela me olhou com um sorriso.  

- “A gente tem uma cozinha de fazer inveja à maioria dos restaurantes. Não tem erro ali.”  

 Não muito convencida, eu me despedi com um aceno, decidida a me esquivar da conversa sobre a cozinha. Desci para o térreo de elevador e sorri para o porteiro quando ele  abriu a porta pra mim.  

 Assim que pus o pé para fora, fui envolvida pelos aromas e ruídos de Manhattan, que me convidavam a sair e explorar. Eu não estava apenas do outro lado do país em  relação à minha antiga casa em San Diego — parecia estar em outro mundo. Duas  metrópoles importantes — uma infinitamente amena e sensualmente preguiçosa, a outra  pulsando como um organismo vivo carregado de uma energia frenética. Nos meus sonhos,  eu me imaginava em um pequeno e charmoso prédio no Brooklyn, mas, por ser uma boa  menina, acabei no Upper West Side. Se não fosse a Chae, eu estaria completamente sozinha  em um apartamento enorme que custa por mês mais do que a maioria das pessoas ganha em  um ano.  

 Paul, o outro porteiro, me cumprimentou tirando o quepe.

- “Boa noite, senhorita Kim. Vai precisar de um táxi esta noite?”

- “Não, obrigada, Paul.” Bati no chão com os amortecedores do meu tênis de ginástica. - “Vou sair pra caminhar.”  

 Ele sorriu.

- “Esfriou um pouquinho agora no fim da tarde. O tempo está gostoso.”

- “Me disseram pra aproveitar o mês de junho, antes que comece o calor de verdade.”

- “Um ótimo conselho, senhorita Kim.”

 Ao me afastar da fachada envidraçada e moderna que de alguma forma não destoava da idade do edifício e da vizinhança, desfrutei da relativa tranquilidade da rua  arborizada antes de chegar à agitação e ao trânsito intenso da Broadway. Eu ainda tinha  esperanças de me adaptar rapidamente, mas por enquanto me sentia uma falsa nova- iorquina. Eu tinha um apartamento e um emprego, mas ainda não me sentia segura o  bastante para me aventurar no metrô, e não tinha me acostumado a acenar ostensivamente  para os táxis. Enquanto caminhava, eu tentava não parecer impressionada e atônita, mas era  difícil. Havia tanta coisa para ver e experimentar.  

 O estímulo sensorial era atordoante — o cheiro da fumaça dos escapamentos misturado com o da comida dos carrinhos dos ambulantes; os gritos dos camelôs se  infiltrando na música dos artistas de rua; a impressionante variedade de rostos, estilos e  sotaques; as maravilhas arquitetônicas... E os carros. Minha nossa. O fluxo frenético de  carros, sempre grudados uns nos outros, era algo que eu nunca tinha visto na vida.  

 Havia sempre uma ambulância, uma viatura ou um caminhão de bombeiros tentando romper a torrente de táxis amarelos com o uivo eletrônico de sirenes  ensurdecedoras. Fiquei impressionada com os ruidosos caminhões de lixo que se  arremessavam em ruas estreitas de mão única e com os entregadores que encaravam a  massa compacta de veículos, com prazos rigorosos a cumprir.  

 Os verdadeiros nova-iorquinos nem reparavam em tudo isso — a cidade para eles era familiar e confortável como um velho par de sapatos. Eles não viam as ondas de vapor  escapando dos bueiros e saídas de ar com um encanto carregado de romantismo, nem  pareciam notar quando o chão tremia sob seus pés com a passagem do metrô — ao  contrário de mim, que sorria como uma idiota e encolhia os dedos dos pés. Nova York era  um caso de amor totalmente novo para mim. Eu estava embasbacada e não conseguia  esconder.  

 Tive que me esforçar bastante para manter uma atitude indiferente enquanto me dirigia ao local em que ia trabalhar. Pelo menos em termos profissionais, as coisas estavam  acontecendo da maneira como eu queria. Meu desejo era ganhar a vida com base em meus  próprios méritos, o que significava começar por baixo. A partir da manhã seguinte, eu seria  a assistente de Kim Jisoo na Waters Field & Leaman, uma das maiores agências de  propaganda dos Estados Unidos. Meu padrasto, o magnata do setor financeiro Richard  Stanton, não gostou nada da ideia — na opinião dele, se eu fosse menos orgulhosa, poderia  trabalhar para algum amigo dele e colher os benefícios inerentes a esse tipo de  proximidade.  

- “Você é teimosa como seu pai”, ele falou. “Ele vai demorar a vida inteira para conseguir pagar seu financiamento estudantil com o que ganha como policial.”  

 Esse foi outro motivo de disputa, e meu pai se recusou terminantemente a ceder.

- “De jeito nenhum outro homem vai pagar pela educação da minha filha”, respondeu Victor Reyes quando Stanton fez sua proposta. Ele ganhou meu respeito com essa atitude. E acho  que o de Stanton também, embora ele nunca vá admitir isso. Eu entendia o lado dos dois,  porque queria pagar eu mesma pelos meus estudos... mas não teve jeito. Para meu pai, era  uma questão de honra. Minha mãe não quis se casar com ele, mas isso não diminuiu sua  determinação em agir como pai em toda e qualquer situação.

Como remoer frustrações do passado nunca leva a nada, concentrei-me na tarefa de chegar ao trabalho o mais rápido possível. Decidi cronometrar o trajeto em um horário de  pico de uma segunda-feira, e fiquei satisfeita por conseguir chegar ao Crossfire Building,  sede da Waters Field & Leaman, em menos de meia hora.  

 Inclinei a cabeça e segui o contorno do edifício até encontrar o azul do céu. O Crossfire era absolutamente fenomenal — uma torre imponente com um brilho safírico que  parecia chegar até as nuvens. Nas entrevistas que fiz ali, vi que o outro lado das portas  giratórias ornadas com cobre era tão suntuoso quanto seu exterior, com piso e paredes  revestidos de mármore dourado e mesas e catracas de alumínio polido.  

 Tirei meu novíssimo crachá do bolso da calça e mostrei para os dois seguranças de terno escuro sentados à mesa. Eles me barraram assim mesmo, sem dúvida por eu estar  muito malvestida para aquele ambiente, mas depois me deixaram entrar. Após subir os  vinte andares de elevador, pude fazer uma estimativa do tempo de viagem de casa até o  trabalho. Nada mau.  

 Eu estava saindo do elevador quando vi uma morena bonita e muito bem arrumada passar pela catraca sem levantar devidamente a bolsa, que ficou enroscada e se abriu,  provocando um dilúvio de dinheiro sobre o chão. As moedas caíram e saíram rolando  alegremente — e as pessoas que passavam se esquivavam do caos e seguiam em frente  como se nada estivesse acontecendo. Em um gesto de compaixão, eu me curvei para ajudá-la a recolher o dinheiro, junto com um segurança que havia tido o mesmo impulso.  

- “Obrigada”, ela disse, abrindo um breve sorriso no rosto quase coberto pelos cabelos.  

 Retribuí o sorriso. 

- “Imagina. Essas coisas acontecem.”

 Eu tinha acabado de me agachar para alcançar uma moedinha que fora parar perto da entrada quando dei de cara com um luxuoso par de sapatos oxford, encimado por uma  elegante calça preta. Esperei um pouco para que aquela pessoa saísse do caminho, mas,  como ela não se mexia, levantei a cabeça para ampliar meu campo de visão. O Blazer feito  sob medida já era suficiente para deixar meus sinais de alerta ligados, mas era o corpo alto  e esguio por baixo dele que o tornava sensacional. Ainda assim, apesar de toda aquela  demonstração impressionante de feminilidade, foi só quando vi seu rosto que percebi o  que havia de fato diante de mim.  

Uau. Simplesmente... uau.

 Em um gesto cheio de elegância, ela se agachou bem de frente para mim. Com toda aquela beleza Feminina ao alcance dos meus olhos, tudo o que eu podia fazer era encarar.  

Admirada.

 Foi então que o espaço que havia entre nós desapareceu.

 Ao olhar para mim, ela mudou... como se um escudo tivesse sido removido de seus olhos, revelando uma força vital esmagadora que me fez perder o fôlego. O magnetismo  poderoso que ela exalava se intensificou, transformando-se em uma impressão quase  tangível de uma energia vigorosa e inesgotável.  

 Reagindo puramente por instinto, eu me inclinei para trás. E caí de bunda no chão.

 Meus cotovelos latejavam violentamente pelo baque contra o piso de mármore, mas a dor passou quase despercebida. Eu estava mais preocupada em olhar, hipnotizada por  aquela mulher na minha frente. Seus cabelos de um preto bem vivo emolduravam um rosto  de tirar o fôlego. Sua estrutura óssea faria um escultor chorar de alegria, e sua boca de  contornos firmes, seu nariz retilíneo e seus olhos castanhos intensos lhe conferiam uma beleza  selvagem. A não ser pelos olhos ligeiramente estreitados, sua fisionomia denotava uma impassibilidade total.

 Tanto sua camisa como seu Blazer eram pretos, mas a gravata combinava perfeitamente com o brilho da íris. Seus olhos eram penetrantes e inquisidores, e estavam  pregados em mim. Meu coração começou a bater mais forte; meus lábios se abriram  parcialmente com a aceleração da respiração. Seu cheiro era tentador. Não era colônia.  

Loção corporal, talvez. Ou xampu. O que quer que fosse, era inebriante, assim como ela.

 Ela estendeu a mão para mim, mostrando suas abotoaduras de ônix e um relógio que aparentava ser caro.  

 Inspirando tremulamente, pus a mão sobre a dela. Minha pulsação disparou quando ela a apertou. Seu toque era como uma onda de eletricidade, que subiu pelo meu braço e  arrepiou os pelos da minha nuca. Por um momento ela permaneceu imóvel, com uma ruga  preenchendo o espaço entre suas sobrancelhas absurdamente bem desenhadas.  

- “Está tudo bem?”

 Sua voz era suave e refinada, com um toque de rouquidão que fez meu estômago gelar. Era uma evocação ao sexo. Ao que o sexo tinha de melhor. Por um momento cheguei  a pensar que poderia ter um orgasmo só de ouvi-la falar.  

 Meus lábios estavam ressecados, então passei a língua por eles antes de responder:

- “Sim”.

 Ela se levantou com uma notável economia de gestos, puxando-me junto para cima.

Continuamos nos encarando, porque eu não conseguia olhar para outra coisa. Ela era mais jovem do que imaginei a princípio. Meu palpite seria menos de trinta, mas seus olhos  pareciam muito mais experientes. Implacavelmente inteligentes e afiados.  

 Era como se eu estivesse sendo atraída para ela, como se houvesse uma corda em torno da minha cintura me arrastando de forma lenta mas inexorável em sua direção.  

 Piscando para despertar dessa espécie de delírio, eu a soltei. Ela não era apenas linda, era... fascinante. O tipo de pessoa que faz uma mulher querer abrir sua camisa com um  único puxão e ver os botões irem abaixo junto com as inibições. Olhei para seu blazer civilizado, requintado e absurdamente caro e só consegui pensar em uma trepada violenta,  de rasgar os lençóis.  

 Ela se abaixou para apanhar o crachá que eu nem percebi que havia derrubado, libertando-me de seu olhar irresistível. Meu cérebro lutava para voltar a funcionar  normalmente.  

 Fiquei irritada por me sentir tão desconcertada enquanto ela parecia tranquila e controlada. E por quê? Porque eu estava deslumbrada, ora essa.  

 Ela me olhou lá de baixo, e essa posição — ela praticamente ajoelhada na minha frente — fez com que eu quase perdesse o equilíbrio novamente. Enquanto se levantava,  seus olhos permaneciam fixos nos meus.  

- “Tem certeza de que está tudo bem? É melhor você sentar um pouco.”

 Senti meu rosto ficar vermelho. Que maravilha parecer insegura e estabanada diante da mulher mais confiante e elegante que já conheci.  

 - “Eu só perdi o equilíbrio. Está tudo bem.”

 Ao desviar os olhos, vi a mulher que havia derrubado no chão o dinheiro. Ela agradeceu ao segurança que a ajudou e então se virou para falar comigo, desculpando-se  enfaticamente. Virei para ela e estendi a mão com o punhado de moedas que havia pego,  mas seu olhar tinha se voltado para a deusa de blazer, e ela imediatamente se esqueceu de  mim. Depois de um tempo, simplesmente fui até ela e despejei as moedas dentro da bolsa.  

Então arrisquei outra olhada e a encontrei voltado na minha direção, ignorando a moça e seus agradecimentos. Para ela. Não para mim, a pessoa que de fato havia ajudado.

 Levantei minha voz acima da dela.

- “Você poderia devolver meu crachá, por favor?”

 Ela estendeu a mão para me devolver. Apesar de eu ter me esforçado para pegá-lo de volta sem nenhum contato físico, seus dedos resvalaram nos meus, fazendo com que  aquela sensação de eletricidade voltasse a circular pelo meu corpo.  

- “Obrigada”, murmurei antes de passar por ela e tomar o caminho da rua pela porta giratória. Parei um pouco na calçada, inspirando profundamente o ar de Nova York, que  recendia a um milhão de coisas, algumas boas, outras tóxicas.  

 Havia um Bentley estacionado na frente do prédio, e eu observei meu reflexo nas janelas escuras e impecavelmente limpas daquele carrão. Eu estava vermelha, e meus olhos  pareciam especialmente radiantes. Aquele rosto era familiar para mim — era o que  eu via no espelho do banheiro antes de ir para a cama com um homem. Era o meu olhar de  estou-pronta-pra-foder, e não deveria estar estampado na minha cara naquele momento, de  jeito nenhum.  

Meu Deus. Controle-se.

 Cinco minutos com a sra. Morena Perigosa e eu já estava me sentindo dominada por um impulso impaciente e inquietante. Era capaz de sentir seu toque, e um desejo  inexplicável de voltar para o lugar onde ela estava. Eu poderia argumentar que ainda não  havia terminado o que tinha ido fazer no Crossfire, mas sabia que ia me arrepender depois.  

Quantas vezes eu ainda precisaria fazer papel de idiota em um único dia?

- “Já chega”, disse baixinho para mim mesma. “Hora de ir.”

 As buzinas ressoavam em meio à disputa milimétrica dos táxis por espaço, interrompidas pelo guinchar dos freios diante de pedestres corajosos o bastante para pisar  no cruzamento segundos antes de o sinal fechar. Então começava a gritaria, uma explosão  de insultos e gestos que na verdade não era motivada por nenhum ódio real. Em poucos  segundos, ambas as partes se esqueceriam de tais diálogos, que eram apenas mais uma  forma de expressão do modo de vida da cidade.  

 Quando voltei a me misturar ao intenso tráfego de pedestres para ir à academia, minha boca se sentiu tentada a abrir um sorriso. Ah, Nova York, pensei, sentindo-me à  vontade novamente, você é demais.  

 

 

 Minha ideia era fazer o aquecimento na esteira e matar o restante do tempo me exercitando em alguns aparelhos, mas, quando vi que a aula de kickboxing para iniciantes  estava para começar, decidi me juntar aos alunos que aguardavam. Quando a aula terminou,  senti que havia retomado o controle sobre mim. Meus músculos tremiam, e eu me sentia  cansada na medida certa, com a certeza de que dormiria como uma pedra quando me  deitasse.  

- “Você foi muito bem.”

 Limpei o suor do rosto com uma toalha e olhei para a jovem que havia falado comigo. Magra, embora com uma musculatura bem definida, ela tinha olhos castanhos bem  vivos e uma pele branca impecável. Seus cílios eram grossos e longos, de  fazer inveja, mas os cabelos eram longos escuros.

- “Obrigada.” Minha boca se contorceu num lamento. - “Está na cara que é a minha primeira vez, né?”  

 Ela sorriu e estendeu a mão. “Lalisa Manoban”

- “Jennie Kim”.






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