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História Toda Sua - Jensoo - Capítulo 5


Escrita por: bellbas_blink_

Capítulo 5 - Capítulo 5


“Sua mãe e Stanton não vão deixar você vir até aqui tantas noites por semana”, comentou Chae, encolhendo-se dentro de sua estilosa jaqueta de brim, apesar de o tempo não estar muito frio.

O antigo galpão que Lalisa Manoban usava como local de trabalho era uma construção com fachada de tijolos aparentes em uma antiga área industrial do Brooklyn que naquele momento lutava para se revitalizar. O espaço era bem amplo, e as enormes portas de metal,

antes usadas para embarque e desembarque de carga, tornavam impossível adivinhar o que

estava acontecendo lá dentro. Chae e eu nos sentamos nas arquibancadas, observando meia

dúzia de lutadores treinando no tatame ali abaixo.

- “Ai.” Até eu me encolhi ao ver um deles levar um chute na região da virilha.

Mesmo usando equipamento de proteção, aquilo parecia doloroso.

- “Como é que o Stanton vai descobrir, Chae?”

- “Você vai acabar no hospital!” Ela olhou bem para mim. 

- “Falando sério. Krav maga é muito violento. Eles estão só treinando, e é a maior pancadaria. Seu padrasto vai descobrir 

mesmo que você consiga esconder os hematomas. Ele sempre descobre.”

- “Por causa da minha mãe! Ela conta tudo pra ele. Mas eu não vou dizer nada pra ela sobre isto aqui.”

- “Por que não?”

- “Ela não entenderia. Ia achar que eu quero me proteger por causa do que aconteceu,

e vai se sentir culpada, fazer um dramalhão. Ela não ia acreditar que só quero me exercitar pra aliviar o estresse.”

Apoiei o queixo na palma da mão e vi Lalisa ir até o centro do tatame com uma

mulher. Ela era uma boa instrutora. Paciente e atenciosa, explicava tudo de uma maneira

fácil de entender. Lalisa dava aula em uma região bem barra-pesada, mas onde tudo aquilo

que era ensinado fazia sentido. Nada é capaz de reproduzir melhor a sensação de

insegurança do que um enorme galpão vazio.

- “Essa Lalisa é uma gata”, murmurou Chae.

- “E usa aliança.”

- “Percebi. Os bons partidos são sempre os primeiros a sair do mercado.”

Lalisa veio falar conosco depois da aula, com seus olhos castanhos brilhantes e seu sorriso ainda mais reluzente.

- “O que você achou, Jennie?”

- “Onde eu me matriculo?”

Seu sorriso sexy fez Chae apertar minha mão até quase interromper a circulação sanguínea.

- “Logo ali.”

A sexta-feira começou muito bem. Kai me explicou o processo de coleta de 

informações para preencher uma solicitação de proposta e me contou um pouco mais sobre

as Indústrias Cross e sobre Kim Jisoo, fazendo questão de assinalar que eles dois tinham a mesma idade.

- “Tenho que ficar me lembrando disso o tempo todo”, disse Mark. - “É bem fácil 

esquecer que Jisoo é assim jovem quando se está diante dela.”

- “Verdade”, concordei, sem querer admitir que estava triste por saber que não veria Jisoo por dois dias. Por mais que dissesse a mim mesma que isso não faria nenhuma

diferença, eu estava desapontada. Só me dei conta de que estava animada com a

possibilidade de nos encontrarmos quando ela deixou de existir. Ficar perto de Jisoo era

excitante demais. Além disso, olhar para ela era uma experiência e tanto. Eu não tinha nada 

nem ao menos parecido para fazer no fim de semana.

 Estava tomando algumas notas no escritório de Kai quando ouvi o telefone tocar.

Pedi licença e fui correndo atender.

 - “Escritório do Kai.”

- “Jennie, querida. Como vai?”

 Afundei na cadeira ao ouvir a voz do meu padrasto. Stanton soava como um aristocrata para mim — culto, poderoso e arrogante.

- “Richard. Está tudo bem? Tudo certo com a mamãe?”

- “Sim. Está tudo bem. Sua mãe está ótima, como sempre.”

 Seu tom de voz se atenuava quando ele falava da mulher, e eu ficava grata por isso.

Era grata a meu padrasto por vários motivos, na verdade, mas às vezes era difícil admitir

isso sem me sentir desleal. Eu sabia que meu pai se sentia incomodado com a enorme

diferença entre as contas bancárias dos dois.

- “Que bom”, eu disse aliviada. “Fico feliz. Vocês receberam meu bilhete

agradecendo o vestido e o Blazer da Chae?”

- “Sim, foi muita consideração da sua parte, mas você sabe que não precisa nem

agradecer. Só um momento.” Ele falou com alguém, provavelmente a secretária. “Jennie,

querida. Eu gostaria de almoçar com você hoje. Vou mandar Clancy ir buscar você.”

- “Hoje? Mas a gente vai se ver amanhã à noite. Não dá pra esperar até lá?”

- “Não, precisa ser hoje.”

- “Mas eu só tenho uma hora de almoço.”

 Um tapinha no meu ombro me alertou para a presença de Kai na minha baia.

- “Pode tirar duas horas”, ele sussurrou. “Você merece.”

 Soltei um suspiro e agradeci silenciosamente. “Pode ser ao meio-dia, Richard?”

- “Perfeito. Estou ansioso para ver você.”

 Eu não tinha nenhuma razão para aguardar ansiosamente um encontro com Stanton, mas ainda assim saí pouco antes do meio-dia e encontrei um carro parado no meio-fio esperando por mim. Clancy, motorista e guarda-costas de Stanton, abriu a porta quando o cumprimentei. Ele assumiu seu lugar ao volante e tomou o caminho do centro. Vinte minutos depois, eu estava sentada em uma sala de reunião anexa ao escritório do meu padrasto, diante de uma refeição lindamente servida para duas pessoas.

 Stanton entrou na sala logo depois de mim, com sua aparência distinta e impecável.

Seus cabelos eram totalmente brancos, e seu rosto era bem delineado e ainda muito bonito.

Seus olhos tinham uma cor de brim lavado, e brilhavam, inteligentes. Ele era magro e

atlético, sempre conseguia arrumar um tempinho em seus dias ocupados para se exercitar,

mesmo antes de se casar com a esposa modelo — minha mãe.

 Eu me levantei, e ele me deu um beijo na bochecha. “Você está linda, Jennie.”

- “Obrigada.” Eu era muito parecida com minha mãe. Mas os olhos eram do meu pai.

 Sentando-se em uma cadeira na ponta da mesa, Stanton tinha consciência da paisagem que se descortinava atrás dele, com os prédios de Nova York, e sabia tirar vantagem da impressão que causava.

- “Coma”, ele disse com a voz de comando tão facilmente entoada pelos homens poderosos. E pessoas como Kim Jisoo.

 Será que Stanton era tão determinado quanto Jisoo quando tinha sua idade?

Apanhei o garfo e ataquei a salada de frango, nozes, queijo feta e frutas vermelhas.

Estava uma delícia, e eu tinha fome. Fiquei feliz por Stanton não ter começado a falar

imediatamente, pois assim podia apreciar a refeição, mas o silêncio não durou muito.

- “Jennie, querida, eu gostaria de conversar sobre esse seu interesse por krav maga.”

 Fiquei paralisada. - “Como é?”

 Stanton tomou um gole de água gelada e se recostou, com o maxilar contraído de

uma forma que avisava que eu não ia gostar do que ele estava prestes a dizer.

- “Sua mãe ficou preocupadíssima ontem à noite quando você foi àquele lugar no Brooklyn. Demorou um tempo para ela se acalmar e se convencer de que eu poderia tomar providências para que você faça isso de maneira segura. Ela não quer...”

- “Espere.” Eu larguei meu garfo cuidadosamente, já sem o menor apetite. “Como é que ela sabe aonde eu fui?”

- “Ela rastreou seu celular.”

- “Não acredito!” Eu respirei fundo, desabando na cadeira. A tranquilidade com que ele deu essa resposta, como se fosse a coisa mais natural do mundo, me deixou enojada.

Senti algo no estômago, que subitamente parecia mais interessado em rejeitar o conteúdo do almoço do que em digeri-lo. “Foi por isso que ela insistiu que eu usasse um telefone da empresa. Não tinha nada a ver com economia.”

- “Claro que um dos motivos era esse. Mas assim ela também podia ter paz de espírito.”

- “Paz de espírito? Espionando a própria filha, uma mulher adulta? Isso não é saudável, Richard. Você precisa entender. Ela ainda faz terapia com o doutor Petersen?”

 Stanton pareceu incomodado. - “Sim, é claro.”

- “Ela conta pra ele o que anda fazendo?”

- “Não sei”, ele respondeu, seco. “Isso é assunto dela. Eu não interfiro.”

 É claro que ele interferia. Stanton a pajeava o tempo todo, fazia tudo para agradá-la e mimá-la. Ele permitia que a obsessão dela pela minha segurança alcançasse proporções descomunais.

- “Ela precisa pôr uma pedra sobre tudo o que aconteceu. Eu já fiz isso.”

- “Você era uma menina inocente, Jennie. Ela se sente culpada por não ter conseguido proteger você. Precisamos ter um pouquinho de tolerância.”

- “Tolerância? Ela invadiu minha privacidade!” Minha cabeça estava a mil. Como minha mãe tinha coragem de desrespeitar minha individualidade daquela forma? E por que fazia aquilo? Ela estava ficando maluca e me enlouquecendo junto. 

- “Isso precisa acabar.”

- “Não tem problema nenhum. Já conversei com Clancy. Ele vai levar você quando precisar ir ao Brooklyn. Está tudo combinado. Vai ser muito melhor para você.”

- “Não tente fingir que a maior beneficiada sou eu.” Meus olhos estavam ardendo e minha garganta queimava com o choro e a frustração contidos. Detestei a maneira como ele se referiu ao Brooklyn, como se fosse um país subdesenvolvido. 

- “Sou uma mulher adulta.Posso tomar minhas próprias decisões. Existe uma lei que diz isso!”

- “Não precisa elevar o tom de voz comigo, Jennie. Estou apenas fazendo o melhor para sua mãe. E para você.”

 Eu me afastei da mesa. 

- “Você está incentivando esse comportamento. Está mantendo ela doente, e me deixando doente também.”

- “Sente-se. Você precisa comer. Monica está preocupada, acha que você não está se alimentando direito.”

- “Ela se preocupa com tudo, Richard. Esse é o problema.” Larguei meu guardanapo sobre a mesa. “Preciso voltar ao trabalho.”

Dei as costas, tomando imediatamente o caminho da porta para sair dali o quanto antes. Peguei minha bolsa com a secretária e deixei meu celular em cima da mesa dela.

Clancy, que estava me esperando na recepção, veio atrás de mim, e eu sabia que não adiantava tentar dispensá-lo. Ele seguia as ordens de Stanton e de mais ninguém.

 Clancy me levou de volta enquanto eu fumegava no banco de trás. Eu poderia reclamar o quanto quisesse, mas no fim não era muito diferente do meu padrasto, porque no fim acabaria cedendo. Eu ia deixar minha vontade de lado e fazer o que minha mãe queria, porque a ideia de fazê-la sofrer ainda mais era de cortar o coração. Ela era emotiva e sensível demais, e me amava a ponto de enlouquecer por causa disso.

 Eu estava de péssimo humor ao chegar ao Crossfire. Quando Clancy me deixou no meio-fio, olhei para os dois lados na calçada lotada à procura de um mercadinho para comprar chocolate ou de uma loja para arrumar um celular novo.

 Acabei dando uma volta no quarteirão e comprando meia dúzia de chocolates na farmácia da esquina antes de entrar no prédio. Só fazia uma hora que eu tinha saído, mas eu não estava a fim de usar a hora a mais que Kai havia me concedido. Precisava trabalhar para esquecer minha família perturbada.

 Ao entrar sozinha no elevador, rasguei a embalagem de uma barra de chocolate e a mordi furiosamente. Estava disposta a consumir toda a minha cota de chocolate antes de chegar ao vigésimo andar, mas o elevador parou no quarto. Gostei da ideia de ter um tempo extra para deixar o chocolate e o caramelo derreterem na minha língua.

 A porta abriu, revelando a figura de Kim Jisoo, que conversava com dois outros homens.

 Como sempre, fiquei sem ar diante dela, o que só reacendeu minha raiva, que já estava começando a diminuir. Por que ela tinha aquele efeito sobre mim? Quando eu conseguiria ficar imune a ela?

 Ela olhou para dentro. Ao me ver, seus lábios se curvaram em um sorriso de tirar o fôlego.

 Que ótimo. Que sorte a minha. Eu agora era uma espécie de desafio para ela.

 O sorriso de Jisoo se desfez em uma expressão séria.

- “Falamos sobre isso mais tarde”, ela murmurou para seus companheiros sem tirar os olhos de mim.

 Jisoo entrou no elevador e os dispensou com um gesto de mão. Eles pareceram surpresos. Olharam para mim, para Jisoo, e depois para mim de novo.

 Fiz menção de sair, ciente de que seria melhor para minha saúde mental pegar outro elevador.

- “Por que a pressa, Jennie?” Ela me agarrou pelo cotovelo e me puxou de volta. A porta fechou e o elevador se pôs suavemente em movimento.

- “O que você está fazendo?”, protestei. Depois de ter que lidar com Stanton, a última coisa de que eu precisava era de alguém dominante me dando ordens.

 Jisoo agarrou meus braços e forçou o contato visual. Seus olhos escuros eram intensos.

- “Tem alguma coisa incomodando você. O que é?”

 Aquele aperto afetou ainda mais meu mau humor, e a eletricidade que eu sabia existir entre nós enfim se manifestou.

- “Você.”

- “Eu?” Seus dedos aliviaram a pressão sobre meus ombros. Depois de me soltar, ela tirou uma chave solitária do bolso e a enfiou no painel. Todos os botões se apagaram, a não ser o do último andar.

 Ela estava vestida de preto de novo, com riscas de giz em cinza. Vê-la de costas foi uma revelação. Seus ombros eram largos sem serem ostensivos, realçando sua cintura bem delineada e suas pernas compridas. Os cabelos sedosos roçando o colarinho me despertaram o desejo de agarrá-las e puxá-las. Com força. Eu a desejava com toda a minha raiva. Estava disposta a uma boa briga.



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