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História Todas as cores que eu não posso ver - Capítulo 11


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Capítulo 11 - Onze; preto


No dia seguinte, Tyler apareceu na escola mas tava diferente. A alegria de ontem se foi, e a euforia também. Suas roupas estão diferentes, porque desde quando eu o conheci, ele usa alguma calça jeans, all star, uma camisa qualquer e uma jaqueta; só que hoje, diferente dos outros dias, ele usa uma calça preta e moletom preto — sei discernir o preto por ser a cor mais escura. Não, não estou usando o óculos —, além de um colar de corrente, com um brinco. Ele furou as orelhas? A única coisa que permanece é o all star. Ele passa por mim no meio do corredor como se eu fosse uma estranha, como se não me reconhecesse ou estivesse bravo, me ignorando. Peguei o que precisava no armário e o segui. Sentei na carteira do lado dele e fiquei encarando, esperando que ele notasse e talvez, pudesse dizer alguma coisa, mas isso não aconteceu.

—Tyler… — ele me olha.

— Eu não vim porque eu quis, foi por você. Não torne isso difícil. — Sinto o cheiro de cigarro; a raiva e tristeza e preocupação porque ele mudou de novo.

***

Às 00:15, ele me manda uma mensagem.

"As memórias são feitas de coisas peculiares, indescritíveis e, no entanto, atraentes, poderosas e rápidas. Você não pode confiar em suas reminiscências e, no entanto, não há realidade, exceto aquela que lembramos ..." ~ Klaus Mann

Desculpa por hoje. Ele diz.

Percebi que você não gostou muito do Tyler bad boy. Voltarei a ser o Tyler legalzão. O Tyler que você gosta.

Penso sobre isso.

De qualquer forma, o Tyler bad boy disse algo real. Hoje eu fui por você. Não suportei a ideia de que você precisava de mim e eu não podia simplesmente sumir, só sumir. Minha mãe sempre disse que eu sou incostante, e meu quarto tá uma bagunça e eu não consigo mais me concentrar pra tocar violão. Talvez ela esteja certa.

Porque? Finalmente falo, porque suas idéias estão bagunçadas, muito bagunçadas. Por pouco fazem algum sentido.

Me distraio com as cordas. Elas balançam muito e eu começo a refletir sobre e minha mente bagunça.

O que tá acontecendo com você, Ty?

O que sempre esteve acontecendo.

Eu posso ir aí?

Hoje? Agora?

Sim. Agora. Ele demora algum tempo pra responder.

Pode.

E eu simplesmente vou, do jeito que estou.

Toco a campainha e sua mãe atende, dizendo que ele está lá em cima. Seu irmão fala comigo e sorri.

Sinto que estou no meio de um filme de suspense até chegar ao seu quarto, que estava trancado.

— Tyler? Sou eu. — ele demora alguns poucos minutos até abrir, mas abre e me abraça.

Seu quarto está realmente bagunçado e parece que ele trocou a cama pelo chão, onde estão suas cobertas e travesseiros. Ainda na cama, encontro algumas caixas de cigarro, um pouco de champanhe e livros, muitos livros, livros por toda parte. Abertos, fechados, marcados, grifados.

— Eerrr. Me desculpa. — ele pega todos eles, fechando um por um, coloca-os entre os braços e os leva até a cama. — Eu vou arrumar tudo, só preciso de tempo. — ele parece atordoado, confuso, sobretudo, agitado e o único momento de paz que vivi desde quando cheguei, foi nosso abraço. Então ele acende outro cigarro, na minha frente. Só aí se acalma e se senta no chão; eu faço o mesmo do seu lado.

— Você tá bem? — ele sorri. É quase convincente, se não fosse pela situação que seu quarto se encontra e como ele age.

— Claro que tô. — ele estende seu cigarro pra mim. — Você quer?

— Não.

— É só que você tem andado estranho e isso me preocupa. — imadiatamente, ele esfrega o cigarro no chão, apagando-o e me olha nos olhos; segura meu rosto e minhas lágrimas se esvaem, toca seus dedos e só então ele parece entender a proporção das coisas, se senta de frente pra mim e continua me olhando, quase que consigo ver o caos nas pupilas.

— Eu sei que não é normal, mas eu tô lutando. Todos os dias eu tô tentando. —choro mais ainda, porque se ele sabe e reconhece, significa que é bem maior e sério do que eu consigo ver. — Uma hora eu consigo, sei que sim.

Ele me beija e eu me deito no chão. O beijo toma um rumo diferente, mais quente e ele fica por cima, toca meu corpo e eu toco o seu. As respirações ficam ofegantes e tudo parece acabar. Tudo o que conhecemos é como se não existisse mais, só nós. Eu e ele.

Ele e eu.

Ele retira o moletom e retira a minha blusa.

— Você é tão linda. — sorrio.

A posição. 

As respirações. 

As circunstâncias.

Nós nos beijamos mais até estarmos nus. Ele puxa a coberta que já estava no chão e cobre nossos corpos.

***

Foi tudo como deveria ser.

Nós ficamos nos olhando no chão, trocando carinho e sorrindo.

— Você sabe que meus melhores momentos são com você, né? — ele pergunta, como se fizesse questão de que eu soubesse, como se precisasse reafirmar isso pra ele também.

Ficamos mais alguns longos minutos sussurando sobre coisas aleatórias.

— Já tá tarde. Tenho que ir. — digo, vestindo minhas roupas.

— Queria que pudesse ficar.

— Eu também. — termino de me vestir. —Sabe se sua mãe já foi dormir? — Ele olha a hora no relógio.

— Provavelmente.

— Ok. — ele se levanta e me leva até a porta, me beijando em seguida. — Tchau. —sussurro.

— Tchau. — ele me observa ir.

***

TYLER

Quando ela se foi, tudo começou a ser o que era. Peguei os livros, abrindo-os em páginas diferentes, grifando aquilo que chamava minha atenção e me estressei quando não achava nada interessante, jogando para alguma direção desconhecida. Repeti o mesmo processo várias vezes, até cansar. Ascendi outro cigarro e saí silenciosamente, porque achei que seria bom eu sair um pouco do quarto. Cheguei a pensar que ficar lá estava me enlouquecendo, tanto que perdi a noção do tempo, das coisas. Peguei a estrada e decidi que faria sentido eu ultrapassar os 100km/h. Eu só quero fugir das coisas que não me deixam pensar com clareza, das coisas que me controlam. Aí realizo que só em estar tentando fugir, não há clareza. Não tem como eu fugir de mim mesmo. A menos que…não! Não posso fazer isso. Diminuo a velocidade e como estou sozinho no meio da estrada, volto.

Quando chego em casa, é como se nada tivesse acontecido. Está calmo de novo, mas há vazio.

E eu odeio me sentir assim.

Impotente.

Retiro o resto dos livros que estão na cama e coloco meu travesseiro nela de novo, junto com a coberta que ainda tem o cheiro dela. Mas minha mente pensa em tantas coisas ao mesmo tempo: Porque eu existo? Porque tudos os seres humanos existem? Quem decidiu que denominariamos a Terra? Como que o homem voltou da Lua? Do que são feitos os buracos negros? 

Eu canso. Aí vem a dor de cabeça. Canso de pensar tanto e uma pergunta só permanece na minha cabeça, mas não me aparece só como uma pergunta, ela se mostra como uma única solução.

E se eu me silenciasse? Pra sempre? O que aconteceria comigo?

Me jogo no chão e puxo as cobertas, junto com o travesseiro, tal qual fiz noite passada. A razão disso é que a cama é confortável e parece me deixar à vontade pra pensar mais e eu não quero pensar mais. Enquanto estou no chão, sinto dores e me distraio com elas.

Até dormir.




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