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História Todas as sua (im)perfeições - Fillie - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


Gente, o livro se passa em dois tempos. O antes e o agora. Antes fala sore quando a Millie e o Finn começaram a se relacionar, e o agora já é algum tempo depois de eles terem se casado. Só pra caso alguém tenha dúvidas. Vou logo avisando que vocês vai sentir muita raiva e vão chorar muito.



Boa leitura

Capítulo 2 - Agora


Nosso casamento não desmoronou. Não ruiu de súbito.

Tem sido um processo muito mais lento.

Ele vem se desgastando, digamos assim.

Não sei nem quem é o culpado. Começamos bem, mais confiantes que a maioria. Tenho certeza disso. Mas ao longo dos últimos anos, vacilamos. O mais perturbador é o quanto somos talentosos em fingir que nada mudou. Não tocamos no assunto. Somos parecidos em muitas coisas, uma delas é a nossa habilidade em evitar as coisas que mais precisam de atenção.

Em nossa defesa, é difícil admitir que um casamento possa ter acabado quando ainda existe amor. As pessoas acreditam que um casamento só termina quando não há mais amor. Quando a raiva suplanta a felicidade. Quando o desdém substitui a alegria. Mas Finn e eu não estamos zangados um com o outro. Apenas não somos mais as pessoas que costumávamos ser.

Nem sempre as mudanças se refletem no casamento, porque, às vezes, os casais se movem juntos, na mesma direção. Mas, em outras, as pessoas tomam direções opostas.

Já faz tanto tempo que estou voltada na direção contrária à de Finn que nem me lembro de seu olhar quando ele está dentro de mim. Mas ele com certeza memorizou cada fio de cabelo da minha nuca após as inúmeras vezes que lhe dei as costas à noite.

Nem sempre as pessoas têm controle sobre o poder autotransformador das circunstâncias.

Olho para minha aliança de casamento e mexo nela com o polegar, girando-a em um círculo contínuo ao redor do dedo. Quando Finn a comprou, disse que o joalheiro lhe explicou que a aliança é um símbolo do amor eterno. Um laço infinito. O começo se torna o meio, e jamais deveria existir um fim.

Mas o joalheiro nunca disse, em nenhum momento, que o anel simbolizava eterna felicidade. Apenas eterno amor. O problema? Amor e felicidade não são coincidentes. Um pode existir sem o outro.

Observo meu anel, minha mão, a caixa de madeira que estou segurando, quando, do nada, Finn pergunta:

— O que você está fazendo?

Levanto a cabeça devagar, apesar da surpresa que sua súbita aparição no corredor me causou. Ele já havia tirado a gravata e aberto os três primeiros botões da camisa. Agora está apoiado no batente da porta, a curiosidade fazendo-o franzir o cenho enquanto me encara. Sua presença preenche o quarto.

Eu apenas o preencho com minha ausência.

Mesmo o conhecendo por tanto tempo, Finn ainda guarda um certo ar de mistério, transbordando dos olhos escuros e permeando todos os pensamentos jamais verbalizados. Sua quietude foi o que me atraiu quando nos conhecemos. Fez com que eu me sentisse em paz.

Engraçado como essa mesma quietude me deixa tensa agora.

Nem tento esconder a caixa de madeira em minhas mãos. É muito tarde; ele a observa intensamente. Desvio o olhar para ela. Estava guardada no sótão, intocada, quase esquecida.

Eu a encontrei hoje, enquanto procurava meu vestido de casamento. Só queria ver se ainda cabia em mim. Sim, cabe, mas agora minha imagem parece bem diferente de sete anos atrás.

Parece mais solitária.

Finn avança alguns passos para dentro do quarto. Posso ver o medo contido em sua expressão conforme ele olha da caixa de madeira para mim, esperando que eu explique por que a estou segurando. Por que está no quarto. Por que sequer decidi tirá-la do sótão.

Não sei o porquê. Mas tê-la em mãos é uma decisão consciente, então não posso responder com um inocente “Eu não sei”.

Ele se aproxima, e sinto o cheiro pungente de cerveja. Finn nunca teve o hábito de beber, a não ser às quintas, quando janta com os colegas de trabalho. Na verdade, gosto de seu cheiro nas noites de quinta-feira. Tenho certeza de que, se bebesse todo dia, eu acabaria desprezando aquele perfume, especialmente se ele não se controlasse. Seria um motivo de discórdia entre nós. Mas Finn está sempre no controle. Traça uma rotina e é fiel a ela.

Essa é uma de suas características que considero mais sexy. Eu costumava ansiar por seu retorno nas noites de quinta. Algumas vezes, me arrumava para ele e o esperava, aqui mesmo na cama, antecipando o doce gosto de sua boca.

Eu ter me esquecido de ansiar por ele esta noite diz muita coisa.

— Millie?

Posso ouvir todos os seus medos, silenciosamente esmagados entre cada letra do meu nome. Ele caminha em minha direção, e sustento seu olhar todo o tempo. Seus olhos parecem inseguros e preocupados. Não sei quando ele passou a me encarar assim. Finn costumava olhar para mim com diversão e reverência. Agora, seus olhos me inundam de piedade.

Estou cansada desse olhar, de não saber como responder suas perguntas. Já não estou em sintonia com meu marido. Não sei mais como me comunicar com ele. Às vezes, quando abro a boca, o vento parece soprar todas as minhas palavras garganta abaixo.

Sinto falta dos dias em que eu tinha de lhe contar tudo ou explodiria. E sinto falta de quando ele acreditava que o tempo que passávamos dormindo era um tempo perdido para nós.

Certas manhãs, eu acordava e o flagrava me observando. Ele sorria, sussurrando “O que eu perdi enquanto você dormia?”. Eu rolava de lado e lhe contava tudo sobre meus sonhos, e, às vezes, ele ria tanto que seus olhos se enchiam de lágrimas. Ele analisava os sonhos bons e subestimava os pesadelos. Sempre me fazia sentir que meus sonhos eram melhores que os de qualquer um.

Finn não pergunta mais o que perdeu enquanto eu dormia. Não sei se porque não se interessa mais, ou se porque não sonho com mais nada que valha a pena compartilhar. Não me dou conta de que continuo girando a aliança até Finn estender a mão e interromper meu movimento colocando o dedo nela. Gentilmente, ele entrelaça nossos dedos e afasta minha mão da caixa. Eu me pergunto se é sua intenção reagir como se eu segurasse uma bomba, ou se ele se sente mesmo desse jeito no momento.

Ele ergue meu rosto e se inclina, beijando minha testa.

Fecho os olhos e sutilmente me afasto, fazendo parecer que ele já me pegou no meio do movimento. Seus lábios roçam minha pele quando me afasto da cama, forçando-o a me soltar, e o vejo recuar um passo.

Eu chamo isso de dança do divórcio. Parceiro um tenta um beijo, parceiro dois não é receptivo, parceiro um finge não notar. Temos dançado essa coreografia já faz algum tempo.

Pigarreio, as mãos apertando a caixa enquanto a levo até a estante.

— Eu a encontrei no sótão — explico, então me inclino e coloco a caixa entre dois livros, na prateleira de baixo.

Finn fez essa estante para mim, como presente de um ano de casamento. Fiquei tão impressionada por ele tê-la construído do nada, com as próprias mãos. Lembro que uma farpa entrou em sua palma enquanto ele movia a estante para nosso quarto. Como forma de agradecimento, eu a pincei de sua mão. Então o pressionei contra o móvel, me ajoelhei e agradeci um pouco mais.

Aquilo foi numa época em que tocar um ao outro ainda trazia esperança. Agora, seu toque é apenas outro lembrete de todas as coisas que jamais serei para Finn. Ouço seus passos cruzando o quarto em minha direção, então me levanto e seguro a prateleira.

— Por que você desceu com ela? — pergunta ele.

Não o encaro, porque não sei como responder. Ele está tão próximo; seu hálito reparte meu cabelo e acaricia minha nuca quando ele suspira. A mão cobre a minha, e ele também segura a estante, apertando-a. Leva os lábios a meu ombro em um beijo calmo.

Estou constrangida com a intensidade de meu desejo por ele. Quero me virar e colocar minha língua na sua boca. Sinto falta de seu gosto, de seu cheiro, de seus sons. Sinto saudades de quando ele estava sobre mim, tão desvairado que parecia querer me rasgar o peito só para encarar meu coração enquanto fazíamos amor. É curioso como posso sentir falta de uma pessoa ainda presente. É curioso como posso sentir falta de fazer amor com quem ainda faço sexo.

Não importa o quanto ainda chore pelo casamento que costumávamos ter, sou em parte — se não completamente — responsável pelo que nosso casamento se tornou. Fecho os olhos, decepcionada comigo mesma. Aperfeiçoei a arte da evasão. Sou graciosa em minhas esquivas; às vezes nem tenho certeza se ele percebe. Finjo dormir antes que ele se prepare para deitar à noite. Finjo não ouvir quando meu nome escapa de seus lábios no escuro. Finjo estar ocupada quando ele vem em minha direção, finjo estar doente quando me sinto bem, finjo trancar acidentalmente a porta quando estou no chuveiro.

Finjo estar feliz enquanto respiro.

Parece cada vez mais difícil fingir que gosto de seu toque. Não gosto, mas preciso dele.

Existe uma diferença. E isso me faz imaginar se ele finge tão bem quanto eu. Será que me quer tanto quanto parece querer? Será que gostaria que eu não me afastasse? Ou está agradecido por eu fazer isso?

Ele me envolve com um braço, e seus dedos espalmam sobre minha barriga. Uma barriga que cabe facilmente em meu vestido de noiva. Uma barriga não maculada por uma gravidez.

Ao menos tenho isso. Uma barriga que a maioria das mães invejaria.

— Você nunca... — Sua voz está baixa e doce e completamente aterrorizada de me perguntar o que quer que esteja prestes a perguntar. — Você nunca pensou em abrir a caixa?

Finn jamais fazia perguntas para as quais não quisesse resposta. Sempre gostei dessa peculiaridade. Ele não preenche o silêncio com conversas desnecessárias. Ou ele tem algo a dizer ou não tem. Ou ele quer saber a resposta para uma pergunta ou não quer. Jamais me questionaria se já pensei em abrir a caixa se não precisasse da resposta.

No momento, é sua característica que menos aprecio. Evito essa pergunta porque não sei como responder.

Em vez de arriscar que o vento empurre as palavras garganta abaixo, apenas dou de ombros. Depois de anos sendo especialistas em subterfúgios, ele finalmente interrompe a dança do divórcio para fazer uma pergunta séria. A única pergunta pela qual tenho esperado já faz um tempo. E qual é minha reação?

Dou de ombros.

É provável que os momentos seguintes sejam o motivo para ele ter demorado tanto tempo para fazer a pergunta. É o momento em que sinto seu coração parar, o momento em que pressiona os lábios em meu cabelo e murmura um suspiro que jamais vai ser retribuído, o momento em que percebe que está com os dois braços a minha volta, mas não me abraça. Já faz tempo que ele não é capaz de me abraçar. É difícil abraçar alguém que há muito se tornou escorregadio.

Não retribuo. Ele me solta. Eu exalo. Ele deixa o quarto.

Continuamos a dança.


Notas Finais


beeem deprimida.
comentem muito guyss


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