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História Todos os Anjos do Paraíso - Hinny - Capítulo 8


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Notas do Autor


Ei, tudo bem?

Aqui está o link da história original, para quem estiver interessando: https://www.wattpad.com/story/251231657-todos-os-anjos-do-para%C3%ADso

Capítulo 8 - O Primeiro Vislumbre


Gina tentou evitar os olhares, tentou mesmo, mas quando o sétimo demônio passou por ela e franziu o nariz ao perceber que ela era uma bruxa, ela não aguentou mais: com um movimento rápido dos dedos, ele o fez tropeçar na própria sombra. Envergonhado e furioso, o demônio continuou seu caminho sem olhar para ela novamente, murmurando apenas alto o suficiente para que ela pudesse ouvir:

— Bruxa.

Ele falou aquilo como se fosse uma ofensa, mas Gina apenas revirou os olhos, olhando para seu relógio de pulso para consultar as horas. Ela estava adiantada em relação ao horário que deveria chegar, então não podia realmente reclamar de ficar ali esperando.

Como prometido, Harry fora até o apartamento dela — para onde Gina havia voltado depois de deixar a mãe na estação ferroviária de Edimburgo com seus tios — e entregara sua carta de admissão em Hogwarts. Se o demônio notara, ou sequer se importara, com o fato de que ela estava morando no mesmo lugar onde seu pai fora assassinato, ele não comentara, e Gina estava estranhamente grata por isso. Ela não queria falar sobre como as paredes pareciam sufocantes demais, ou como todas as suas memórias de infância pareciam maculadas pelo sangue de Arthur.

E Harry, apesar da expressão sombria enquanto observara o lugar que fora a casa dela por toda a vida de Gina, permaneceu em silêncio sore o assunto, as mãos enfiadas nos bolsos enquanto ela lia a carta de admissão, escrita pela própria diretora, Minerva McGonagall.

Ao terminar, Gina suspirou e levantou os olhos para ele.

— Como?

Harry apenas deu de ombros, o semblante desinteressado enquanto ele se encostava no balcão da cozinha dela, que rangeu sob o peso repentino.

— Minha avó e a diretora McGonagall tinham uma... história. Meu avô me fez um favor.

Diante daquela resposta que entregava nenhuma informação de verdade, Gina revirou os olhos, voltando-se para carta, mas não antes de ver a mandíbula dele se tencionando.

Ela não perguntara mais nada, no entanto. E, um dia depois, ali estava ela, parada no meio do pátio de Hogwarts com a mala de couro marrom escura na mão e esperando, impacientemente, enquanto aguentava os olhares enojados dos alunos que passavam por ela. Ainda que, para ser justa, Gina precisasse admitir que os estudantes mais novos olhassem para ela com mais curiosidade do que qualquer sentimento negativo.

Quando o oitavo demônio passou por ela, sibilando baixinho de hostilidade, no entanto, Gina se virou, pronta para ensinar àquele garoto boas maneiras. Mas uma mão segurou seu ombro antes que ela pudesse avançar.

Ela se virou para um garoto bem mais alto que ela, de olhos azuis como o céu pálido de inverno e cabelos loiros. Ele estava vestido com uma calça social e suéter, e sorria, educado, o primeiro demônio que não parecia exalar hostilidade para cima dela, ainda que houvesse um pouco de censura em seu sorriso, como se ele soubesse o que ela estivera presta a fazer.

— Você deve ser a Gina, não? — ele perguntou e a voz dele era baixa, como o som abafado da corrente de um rio. Gina apenas assentiu e o demônio lhe ofereceu a mão. — Eu sou Theo. A diretora McGonagall pediu que eu viesse buscá-la.

Gina piscou para a mão estendida de Theo, mas não se moveu, arrependendo-se no momento em que ele abaixou a mão, as bochechas brancas se tingindo de rosa.

— Quer ajuda com isso? — Theo tentou de novo, apontando para a mala na mão de Gina. Ela engoliu em seco, hesitando.

— Não precisa — respondeu por fim, desviando os olhos dele ao sentir as mãos suando. — Mas obrigada por se oferecer.

Gina sentia as costas rígidas e as maçãs do rosto coradas. Ela não sabia muito bem o que deveria fazer em uma situação como essa, por isso apenas limitou-se a olhar para Theo mais uma vez e esperar que ele soubesse mais do que ela.

— Certo — Theo parecia levemente decepcionado ao passar a mão pelo cabelo loiro, o suéter cor de creme grande demais deslizando sobre seu braço para baixo. — Vamos, então.

Gina seguiu-o pelo pátio de entrada de Hogwarts, observando o lugar onde quisera estar desde que podia se lembrar. Ao passar pelo portal alto de pedra bege — escurecida pela ação do tempo, assim como o resto da escola — da entrada quando chegou, Gina não pôde deixar de se lembrar que aquela era a escola em que Arthur estudara.

Aquela onde crescera e a principal causadora do encontro dele com sua mãe. O lugar que fez o amor de seus pais florescer. As lembranças atacaram-na como flechas lançadas ao seu coração e Gina balançou a cabeça para afastá-las.

Hogwarts era gigantesca, ela sabia: em forma retangular e fechada em si mesma, a estrutura anciã era amarelada como páginas de livros velhos, sussurrando histórias que ninguém sabia ler, embora todos soubessem sobre sua existência. Quantos segredos aquelas paredes não guardavam? Quantos amores abrigaram e quantos inimigos mortais formaram? Quantas histórias se desenrolaram dentro daquele lugar?

Gina podia quase sentir seus sussurros rastejando por seus ouvidos.

Mas a Morte não contava histórias e as paredes da escola eram os cofres silenciosos onde esses segredos eram selados permanentemente, morrendo com os donos daquelas histórias terríveis e maravilhosas.

Gina observou tudo aquilo e, em vez da agitação familiar em seu sangue pela visão imperial das torres estreitas nos telhados de Hogwarts, havia um intruso, um vazio estrangeiro que não deveria estar lá. Ela engoliu em seco e se apressou a passar o portal de pedra da entrada do prédio principal.

Acima do arco, havia uma inscrição gravada na pedra: Tenebris Vincit Omnia.

A Escuridão conquista tudo.

Gina riu fracamente e viu Theo seguir seu olhar. Ele não comentou nada, no entanto, parecendo resignado com aquela inscrição. Gina achou melhor assim, principalmente porque estava muito ocupada olhando o hall de entrada amplo e circular, também formado por arcos em sequência e um segundo andar acima desses arcos.

Os alunos — todos de uma beleza absurda e demoníaca — fluíam por todos os quatro corredores do primeiro andar, a passarela do segundo e escadas que os conectavam como eletricidade em um conjunto de fios. Alguns deles olhavam para ela e seus olhares variavam entre hostilidade, confusão e lascívia.

Gina fechou a cara para alguns deles, mas seu ato não durava muito: havia coisas demais para ver e ela não tinha tempo para olhar para tudo e ainda estar alerta ao que pensavam de sua presença.

— Esse é o salão de entrada — Theo disse, mesmo que não fosse preciso.

Gina observou o chão de madeira escura. O lugar vibrava com um sentimento cru de excitação misturada à curiosidade latente e à fome de conhecimento. A sensação se infiltrava pelo sangue de Gina, passando pelos muros frágeis de seu coração, que nunca tinham aprendido a se defenderem dos prazeres que podiam envenená-la tão facilmente quanto os sentimentos negativos.

Ela engoliu em seco, no entanto, quando a lembrança de Arthur trouxe de volta aquela apatia assustadora que agora a saudava por dentro. Há duas semanas, apenas quatorze dias atrás, seu coração não hesitaria em se encher e transbordar diante da visão daquele lugar. Agora, no entanto, aquele vazio consumia e absorvia tudo. E era tão cansativo simplesmente sentir.

— Vamos? — ela interrompeu Theo, que provavelmente estava prestes a despejar a história que ela já conhecia sobre a escola. Gina precisava pensar em outra coisa, precisava se preocupar com outra coisa.

— Por aqui — ele gesticulou para o único corredor no qual o intenso fluxo de alunos era inexistente, à esquerda. — Então, você será a nova aluna aqui.

E estarei aqui para desvendar quem matou a menina de quem eu usurpei esse lugar, pensou Gina enquanto assentia, apenas, olhando para frente. O corredor era escuro: apenas a janela no fim deste iluminava o lugar inteiro, apesar de pegar o sol da manhã.

Embora Theo não parecesse hostil diante da ideia de estudar com uma bruxa, Gina não se permitiu relaxar. Não poderia mesmo que quisesse. Apenas o pensamento de que ela estava no mesmo lugar que o assassino de Arthur fazia com que seu sangue fervesse. Nem mesmo o amor de Gina por Hogwarts poderia salvar o lugar enquanto ela revirava pedra por pedra até achar o culpado por sua infelicidade.

E ninguém a impediria de fazer essa pessoa sofrer. Lentamente.

Alheio aos pensamentos sombrios de Gina, Theo a guiou pelo corredor reto, apontando as portas da secretaria e da sala do vice-diretor, Albus Dumbledore.

— Se tiver qualquer problema com os professores — comentou Theo com um sorriso de malícia inocente — Fale com ele. É o único funcionário que não pega leve com os professores quando ele acha que a crítica é justa.

Gina assentiu, anotando aquela dica para pensar sobre ela mais tarde. Não ocorrera a ela quantas pessoas Hogwarts abrigava, mas agora que pensava sobre isso, a insegurança se abateu sobre sua necessidade de vingança. A escola acomodava alunos de onze aos dezoito anos, e todos eles somados à equipe profissional poderia muito bem ser mais de mil pessoas.

Frustrada, ela esfregou a testa. Theo parou e Gina imitou-o, olhando para a porta de madeira a frente deles.

— É aqui — disse ele, balançando nos próprios pés enquanto a observava de maneira curiosa. — Você não é de falar muito, não é?

Gina olhou para ele, sem saber como responder àquela pergunta. Ela sempre fora falante com Arthur, e também conversava bastante com Hermione. Ela apenas não sabia o que deveria fazer ali. Suspirando, Gina olhou para o corredor escuro.

— Eu não sei bem como responder a isso — ela foi honesta e então voltou a encarar Theo, que lhe ofereceu um sorrisinho sem graça ao passar a mão pelo cabelo loiro.

— Sem problemas, Gina. — Disse, apenas, ainda sorrindo. — Eu também não gosto tanto de conversar.

E, com isso, Theo bateu à porta e esperou, olhando para ela com uma calma que fez aquietar a agitação que se revirava dentro de Gina. Ela assentiu, grata, e esperou enquanto os cliques inconfundíveis de um salto soavam abafados por trás da porta.

Minerva McGonagall não era exatamente o que Gina esperava de uma diretora de colégio: seus cabelos pretos caíam pelas costas em linha reta, tão lisos quanto uma tapeçaria tecida com os fios da noite, e os olhos verdes se fixavam de forma penetrante e severa, brilhantes demais para que Gina os lesse propriamente.

Ela sorriu ao olhar para Gina e fez algo relaxar dentro da garota. Ela estava esperando que a diretora estivesse furiosa por ser obrigada a admitir uma aluna bruxa em uma escola que tinha anos de tradição no ensino de demônios, mas parecia que estava errada.

— Senhorita Weasley, eu presumo — disse ela, estendendo a mão para Gina, que rapidamente respondeu ao gesto, antes de se voltar para Theo — Senhor Nott, pode voltar para suas atividades. Obrigada.

Theo assentiu para a diretora e partiu com um último aceno na direção de Gina, que observou tudo aquilo em silêncio. Quando a diretora McGonagall se virou para ela, Gina disse com a voz mais controlada que pôde:

— Obrigada por me admitir na escola, diretora.

A mulher assentiu e gesticulou para que Gina entrasse em sua sala.

— Na verdade, é um prazer, Gina. — McGonagall disse em tom aliviado, o sorriso gentil ainda no rosto. — Eu venho tentando fazer isso acontecer há anos e agora que eu tenho o apoio de uma das sete famílias... Bem, estou feliz que tenha sido possível.

Gina assentiu, sem saber muito bem o que dizer, mas McGonagall tomou guiou a conversa, assumindo um tom profissional ao mexer em documentos e papeladas:

— Você irá cursar todas as aulas básicas, como matemática, geografia e história, com os outros alunos do seu ano, que é o último, já que você e seus colegas já têm dezoito. — Disse McGonagall após Gina acabar de assinar os variados documentos que lhe foram oferecidos — Como você nunca recebeu uma educação formal, também terá reforço durante os domingos à tarde. Sobre as aulas de necromancia e magia demoníaca, a senhorita estaria disposta a tentar assisti-las, ou acha que sua magia é muito diferente da nossa?

Gina pensou a respeito por um instante e então suspirou.

— Não sei até que ponto minha magia tem funções e limites diferentes da magia dos demônios, mas acho que ter essas aulas também é um bom ponto de partida para descobrir.

McGonagall sorriu, aprovando, e disse:

— Muito bem, Gina, vou te dar o seu horário. De manhã, formação básica, e à tarde, magia. Caso não se encaixe nas aulas, este será seu período livre. — Gina assentiu para mostrar que entendia. — Os alunos maiores de idade como você podem sair de Hogwarts em qualquer momento que não estejam em aula. A portaria tem uma cópia com o horário de cada aluno, então preciso te aconselhar a não tentar burlar isso. E sábado é o único dia livre de atividades para todos, e quase todos os alunos têm permissão para sair da escola. Algum pergunta?

— Não, acho que não.

McGonagall pareceu satisfeita com isso e se levantou, levando Gina a fazer o mesmo.

— Sendo assim, vou levá-la ao seu dormitório para que vocês conheça sua colega de quarto.



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