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História Todos os Buracos Negros ao Nosso Redor - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


aqui está finalmente o primeiro capítulo. Demorei um pouco para revisar, por isso o atraso, mas espero que gostem.
Também me foi perguntado que músicas eu uso para escrever, então resolvi criar uma playlist, e vou adicionando músicas as músicas que eu ouço para escrever ou as que eu mencionar dentro da fic. Adiciono novas a cada capítulo que eu postar.
As duas primeiras, do Post Malone, foram as que eu usei para o prólogo, e as outras duas são as do capítulo de hoje - e TOO YOUNG do Post é a música tema da fanfic, caso alguém fique curioso. O link está nas notas finais.

Capítulo 2 - Bem-Vinda, Novata


“Vai ficar bem, vizinha?” me pergunta Luz enquanto estaciona o carro em frente ao estabelecimento. É, realmente, um grande galpão; não sei o que eu esperava da primeira vez que o vi, mas fiquei um pouco surpresa quando vi que era, de fato, um “galpão de lutadores”. 

“Vou sim, não se preocupe”, digo, voltando os olhos da janela do carro para olhar para a motorista, com seus cabelos ruivos falsos, sardas feitas com maquiagem e um sorriso encorajador no rosto. Não sorrio de volta. 

“Vai querer carona?”. 

“Se não for incomodar...”. 

“Você não me incomoda nunca, vizinha” diz. O termo virou uma piada interna entre nós, que moramos de frente uma para a outra há pelo menos dez anos, e Luz nunca perde a oportunidade de usá-lo, principalmente quando quer enfatizar nossa amizade. Ela tem dezenove anos, mas poderia muito bem se passar por dezesseis quando sorri do jeito que faz agora, se sua maquiagem não fosse tão... bem, ela chama de artística. Eu chamo de “delineados exagerados porque você não sabe fazer uma linha reta” e “cores estravagantes porque era a paleta de sombras mais barata da 25 de março”. 

“Obrigada... O treino acaba às oito.”. 

“Oito? Tipo, da noite? Mas agora são cinco e meia da tarde!”. 

Seu espanto me faz rir um pouco, e explico que o treino começa às seis, mas que eu queria chegar mais cedo para me familiarizar com o lugar e não passar vergonha em frente às outras meninas. 

É meu primeiro time feminino, e meu primeiro time cuja faixa etária corresponde à minha, e, embora eu não admita, isso é muito mais assustador do que o grupo de homens adultos com quem eu costumava treinar.  

“Certo. Bom treino, Cath. Estarei aqui às oito em ponto.” promete, e consigo erguer um pequeno sorriso de canto como agradecimento, afinal, Luz adora quando eu sorrio. 

Me despeço e desço do carro, que sai arrancando pela rua estreita, deixando-me plantada de frente para minha nova academia de boxe. Nunca pensei que diria isso, para ser bem honesta; sempre pensei que passaria todos os meus anos de lutadora ouvindo “mais rápido, superstar” toda terça e quinta às sete da noite. Mas, se tem uma coisa que meu treinador me ensinou, foi que a grandeza me chamava, e que eu seria estúpida em não atender. Que a pequena academia nos fundos daquela casa amarela não me colocaria nos campeonatos, não me faria competir, não me traria a vitória que eu tanto aspirava.  

Pelo menos me colocou dentro da Galpão dos Lutadores, o que já é mais do que muitos conseguem. 

Inspiro fundo e entro no recinto, apenas para que luzes LED amarelas fortes me ceguem. Nossa, aqui é muito claro. 

A primeira coisa à minha frente são quatro catracas, com várias pessoas indo e voltando nelas, mas sem usar qualquer tipo de cartão, pelo menos não que eu possa ver. Ao lado, está um balcão com duas jovens altas e com rabos de cavalo altos e loiros e um uniforme preto que parece estranhamente confortável mexendo em computadores caríssimos.  

Aproximo-me do balcão de madeira. “Com licença...” peço, e a loira mais perto de mim se vira com um sorriso robótico, mas ainda simpático de algum modo.  

“Olá, bem vinda à Galpão dos Lutadores. Em que posso ajudar?”. 

“Olá... então, eu sou nova aqui e estou indo para a aula de boxe...”. 

A mulher me explica que preciso cadastrar minha biometria, e digita um código para que eu possa passar. A alça da mochila que carrego nas costas fica presa, o que é ridículo, já que a catraca é igual à dos ônibus que sempre pego, e sinto meu rosto ficar vermelho. Que bom que ninguém do time está por perto. 

O procedimento é bem rápido, e logo meu nome e minhas digitais estão gravados no sistema da academia, me fazendo oficialmente parte daquele lugar, pelo menos simbolicamente. É um sentimento estranho, um misto de excitação com dúvidas, que se apodera de mim enquanto sigo suas instruções para o local de treino. Os treinos de boxe e muay-thai se encontram no subsolo, e é para lá que me dirijo. A parte térrea onde estou é ampla, porém vazia, sem qualquer objeto de treino à vista, e forrada com tatames onde um time de jiu-jitsu feminino adulto está no meio de sua rotina. As mulheres de quimono estão se agarrando no chão, e parece algo vivaz e agressivo quando visto de fora, mesmo que eu consiga perceber que é apenas um treino de movimentos e que nenhuma delas está usando força. Não vejo nenhum equipamento a vista, mas ouço barulhos metálicos que indicam que, em algum lugar, talvez no andar de cima, existam equipamentos de musculação.  

Passo um tempo observando o treino à minha frente antes de decidir finalmente descer as escadas com o coração na boca. As mulheres lutando com sangue nos olhos me dão certa motivação para fechar a cara e ajustar a postura; nada me intimida, nada me atinge. Ninguém está aqui para ser meu amigo, todos são meus concorrentes, todos são competição, mas nada disso me intimida. Minha pele é grossa como couro e meus ossos são de ferro.  

Inspiro fundo enquanto chego no local, e me deparo com um cheiro tão familiar de borracha dos tatames e suor que quase relaxo. Quase. 

O local é tão amplo quando o andar em que eu estava, e ambos são bem parecidos, mas este possui equipamentos. Sacos de pancada de diversos tamanhos, aparadores empilhados ordenadamente dentro de uma caixa de plástico e mesmo alguns outros que não conheço, ou já vi e não sei o nome. Há uma grande caixa de som que toca um rap feminino que não conheço em um volume muito alto, e um celular descansa sobre a mesma. E bem no meio do tatame azul que forra o chão, uma única menina corre no lugar, elevando os calcanhares, quase ao som da música. 

Aparentemente, não sou a única que gosta de chegar cedo.  

A estranha deve ter mais ou menos minha idade, dezessete anos, e possui a pele marrom escura, com longos cabelos cacheados presos em tranças boxeadoras (o que acho um pouco irônico), e deve ser a menina mais alta que já vi. Veste um top preto e cinza com um par de shorts soltinhos e curtos. Tenho quase certeza de que ainda não notou minha presença, então prossigo em caminhas pela parte do piso sem tatame para procurar um vestiário onde eu possa me trocar.  

As paredes e o chão são de cimento queimado, e há inúmeros grafittis espalhados, retratando luvas de boxe, sacos de areia, frases como “desistir não é opcional” ou mesmo rabiscos desconexos. Mas não há sinal de uma porta ou corredor. 

“Oi, você está perdida?” me pergunta uma voz feminina, e me viro para ver que a desconhecida parou de correr e me olha com enormes olhos curiosos, escuros como ônix.  

“Ahn... oi. Um pouco, estou procurando o vestiário.” respondo, me repreendendo mentalmente por hesitar, mas a menina não parece notar.  

“Por aqui. Ele fica escondido mesmo, não me pergunte por que” diz com um sorriso aberto e convidativo, se dirigindo a um canto, onde, em meio aos grafittis, há uma maçaneta que se camufla na parede. Quando ela o abre, há o local que procuro. 

“Obrigada” respondo, um pouco atônita, não pela porta secreta, mas pelo modo como me tratou em nossa interação mínima. Meu treinador me disse tantas vezes que ninguém seria legal comigo, que ninguém me ajudaria, mas esta garota foi apenas sorrisos. 

Começo a caminhar para o vestiário, decidida a jogar água na cara para parar de pensar tanto, quando ela exclama: “Eu sou Verônica. Eu sei que você não perguntou, mas esse é o meu nome. Todo mundo aqui me chama de Vee, então sinta-se livre para me chamar assim também.”. 

Viro meu rosto para ela e me esforço para sorrir tão abertamente como a recém-apresentada Verônica. “Eu sou Catharina.” digo simplesmente. 

“Muito prazer. Seja bem-vinda, novata.”. 

 

Sou apresentada à todas as outras meninas do time à medida em que elas chegam. Todas sorriem, me cumprimentam, dão boas vindas, e mais de duas se oferecem para me colocar no grupo de mensagens. Não esperava tanta gentileza; definitivamente não é a mesma academia que meu treinador fizera parte há tantos anos atrás, ou talvez o time masculino seja realmente repleto de babacas competitivos – o que quero dizer é que estranho o ambiente. Não quero dizer que estou julgando suas habilidades, mas nenhuma dessas meninas aparenta ter o mesmo entusiasmo pela luta que eu, ou mesmo que as mulheres do jiu-jitsu que eu vira mais cedo, o que me preocupa. Será que fiz a escolha certa? 

Eventualmente, me encontro sentada no tatame, tendo como companhia apenas Verônica, a menina do começo, enquanto ela se alonga. E quando eu digo “se alonga”, quero dizer que ela está há pelo menos quinze minutos fazendo diversas posições, que parecer trabalhar especialmente as pernas. Quero perguntar o que exatamente ela está fazendo, mas sou péssima com “conversas de elevador”, então apenas a observo e aproveito a playlist que toca, que julgo ser sua. 

bad ideia! da cantora girl in red começa a tocar. Eu amo essa música, e não resisto a cantarolar baixinho. Para meu azar, a menina possui ouvidos de águia, porque se vira para mim. 

“Curtindo a playlist?” me pergunta, com um sorriso enquanto escorrega para um espacate como se não fosse nada. Literalmente, ela posiciona os pés e os escorrega, um para frente e o outro para trás até sua virilha encostar no chão, enquanto casualmente me pergunta se eu gostei de sua seleção musical. 

Talvez eu esteja errada sobre as meninas daqui. E isso é um problema. 

Lobos em pele de cordeiro são piores do que predadores que assumem sua forma normal. Preciso tomar cuidado com elas, e tudo me diz que Verônica é a abelha-rainha, com quem devo ser especialmente cautelosa. 

“Sim... amo essa música” digo, e a assisto sorrir para mim, mas acho que deixo transparecer certa surpresa em minha expressão, pois ela diz: 

“Relaxe, você não precisa saber fazer isso aqui. Eu apenas gosto de trabalhar minha flexibilidade nesse tempinho que tenho livre antes do treino.”. 

Então a morena se volta para a frente e se concentra em se erguer da posição e então trocar as pernas, para então voltar a baixar um espacate. Mas ela o faz cantando junto com girl in red, com uma voz até que bem gostosinha. Procuro não encarar muito, e apenas curtir a música, pensando se me juntar à Galpão foi uma má ideia, como diz a letra da canção. 


Notas Finais




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