História Toi et moi - Capítulo 1


Escrita por: e chimmyou

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jimin, Personagens Originais, Suga, V
Tags Âmbar, Bts, Colegial, Escola, Jimin, Maknaesthetic, Taehyung, Vmin
Visualizações 181
Palavras 9.952
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Bishounen, Fluffy, LGBT, Musical (Songfic), Shonen-Ai, Slash, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Não imaginam o prazer que é estar de volta! Essa é a segunda fez postando no MKA e eu sou eternamente agradecida pela oportunidade! A OS foi inspirada na música Delicate, da Taylor Swift, vocês vão notar trechos que é referente a música em questão e também referência há outras obras que acompanho.

Capa feita pela ícone Srta-Sweet <3

Capítulo 1 - Printemps; único


Quem visse Taehyung correndo por entre as pessoas e desculpando-se sempre que esbarrava em alguém acidentalmente acreditaria tratar-se de um assaltante (porém um assaltante juvenil, por assim dizer, já que ele trajava suas vestes escolares: camisa branca com manga comprida, calça preta, e tênis).

Ele amaldiçoava o irmão mais velho por ter derramado café em seu celular na noite anterior — e nem para acordá-lo no horário certo o infeliz servia. Com certeza perderia a primeira aula do dia e levaria puxões de orelha do professor. Sua única vontade no momento era de matar aquele idiota bagunceiro e tornar-se filho único de uma vez por todas.

Entrou esbaforido pelos portões da instituição, logo sendo repreendido pelo segurança. Seguiu correndo pelos corredores com medo de ser flagrado quebrando uma das tantas regras escolares — que, convenhamos, não eram poucas. Subiu os lances de escadas de dois em dois, mesmo temendo se quebrar, chegando em frente a sala arfante.

Detestava ser o último a entrar na classe, pois bastava abrir a porta para que sua presença fosse mais interessante do que a conversa que antes mantinham. O de fios castanhos não gostava de chamar a atenção para si, principalmente por ser um estudante transferido de outra escola; contudo, reunindo toda a coragem que possuía, adentrou a sala cabisbaixo, fazendo uma reverência em sinal de respeito ao professor, esse que só o lançou um olhar gélido e o mandou sentar-se de uma vez em seu lugar e tratar de acordar mais cedo.

Taehyung queria mais que tudo enterrar sua cabeça dentro de um buraco de tatu e não tirá-la de lá nunca mais. Suas bochechas ardiam em constrangimento pela bronca que havia acabado de levar, por isso decidiu calar-se ‘pro seu bem.

O acastanhado soube da fama de carrasco do professor Liú por conversas de corredor logo nas suas primeiras horas dentro do local, há algumas semanas. No início, achou ser apenas papo furado — como diria sua avó —, todavia, comprovou a veracidade dos boatos ao ter aulas com aquele chinês linha dura.

O restante da aula seguiu como de costume, nada extraordinário acontecia nos horários de economia — o Kim havia escolhido essa como uma de suas matérias específicas mais por influência de seu pai do que qualquer outra coisa. Copiou o conteúdo da lousa atentamente e ficou aliviado ao, finalmente, ouvir o som do sino que liberava-os para o intervalo, afinal, sua barriga roncava furiosamente de fome.

O caminho até o refeitório encontrava-se cheio; a hora do intervalo mais assemelhava-se ao cenário daquela série de mortos-vivos que seu colega vivia comentando sempre que podia. Tropeçou desajeitado em uma garota que o fuzilou com o olhar e sumiu por entre a confusão de estudantes, provavelmente indo reclamar por um idiota ter pisado em seu pé para seu grupo de amigos.

Taehyung esperou pacientemente sua vez na fila da cantina; dali conseguia enxergar perfeitamente as duas pessoas que lhe deram a chance de uma amizade. Tinha noção que, por enquanto, eram apenas colegas, afinal, havia praticamente acabado de conhecê-los, porém simpatizou com eles logo de cara.

Após pagar por um croissant de chá verde e um suco de laranja, seguiu com cuidado para não esbarrar em mais ninguém, porque tinha certeza que atingira sua cota de vergonha por um único dia. Era apenas segunda-feira, poxa vida!

— Eu quero cometer um crime de ódio via internet — Yoongi disse, visivelmente irritado e olhando furiosamente para o celular. — Ora, quem ele pensa que é?

— Tae! — Sunmi sorriu ao ver o novato e ignorou os lamentos do amigo ao lado; estava pirando com aquele papo besta. — Não te vi na hora da entrada.  

O mais novo do grupo retribuiu o sorriso e sentou-se de frente para os outros dois.

— Perdi a hora — respondeu, desgostoso. — Meu irmão fez o favor de entornar café no meu celular e ainda teve a coragem de não me acordar no horário da aula.

— Aish! Irmãos... — A garota revirou os olhos. — Eu odeio os meus irmãos.

Ambos entraram em uma conversa interessantíssima sobre irmãos mais velhos serem um porre, e até mesmo Yoongi, que era filho único, se meteu. Passaram a maior parte do intervalo juntos, rindo e comentando coisas triviais.

— Ai, tem este filme que eu quero muito assistir, o livro é maravilhoso! — Sunmi comentou após o assunto sobre filmes pairar sobre eles. — Vamos, vai ser legal — incentivou, enquanto os três caminhavam em direção às suas respectivas salas para as próximas aulas.

— Não sei, não.   

— Você é uma fujoshi muito nonsense. — Yoongi guardou o aparelho celular no bolso da calça, desistindo da discussão no Twitter. — Não conseguiu convencer a mim, que te conheço desde a época que chupava dedo, a ver filme de dois homens se pegando, acha que convence o novato? Se toca, garota. —  Ele riu.

As bochechas de Sunmi inflaram-se, não se sabe se de ódio ou de vergonha.

— Cala a boca, retardado, estou falando com o Taehyung. — Bufou e parou abruptamente, encarando-o com certa expectativa. — Ignora ele e aceita logo.

— Sunmi, eu...

O mais novo teve seu monólogo interrompido pelo barulho de gritaria e cadeiras caindo. Eles se entreolharam e apressaram-se em correr até a origem do problema. Yoongi e Sunmi reviraram os olhos simultaneamente com o que viram, enquanto o Kim apenas observava os dois veteranos se engalfinhando como animais.

Não demorou para que a professora Kang viesse com o diretor em seu encalço empurrando os curiosos que queriam assistir a briga rolando dentro da sala de aula. Taehyung mordiscou o lábio apreensivo, pois conhecia bem um deles.

“Bem” talvez não fosse a palavra correta, porque era seu vizinho há algumas semanas apenas e nunca haviam trocado uma palavra sequer. Soube através do irmão que o adolescente se chamava Jimin, nada mais.

Jimin era uns centímetros mais baixo que si; nada escandaloso demais. Estava sempre vestindo o casaco esportivo da equipe de atletismo, inclusive era com um dos membros que ele se matava no chão, a fúria dominando seus orbes escuros.

— Os dois para a diretoria agora mesmo! — vociferou o diretor, entredentes, conforme dois seguranças separavam-os.

— E vocês? — o diretor retornou a falar — Por que não estão em aula? Vão!

Os estudantes não esperaram um segundo sequer para desaparecerem dali.

 

 

As flores de cerejeiras davam um aspecto mais belo entorno da cidade. Primavera era a estação do ano favorita de Taehyung; haveria flores de cerejeira, não importava para onde olhasse e, felizmente, ele poderia usar roupas mais soltas e leves, afinal, o vento gélido do inverno era substituído por temperaturas mais quentes.

O Kim observou boa parte da beleza das flores ao voltar para casa; morava a quatro quadras da escola e agradecia pela facilidade de locomoção. Ele chegou ao apartamento após as cinco e vinte da tarde, antes do seu irmão mais velho chegar do estágio. Não tardou a livrar-se de seu uniforme, o colocando na máquina de lavar, indo em seguida para o banheiro, pois queria tomar um bom banho. Quando saiu com uma toalha enrolada na cintura, seu irmão já havia chegado e, pelo barulho de sacolas, também havia trazido o jantar de ambos. O mais novo se sentia em dívida com o mais velho da família, já ele que o deixou morar ali.

Vestindo roupas folgadas, bem diferente do usual, e de cabelos úmidos, ele caminhou até a pequena cozinha americana. O apartamento de 45 metros quadrados era espaçoso o suficiente para que duas pessoas vivessem. Tinha uma sala de tamanho normal, dois quartos sem suítes, um banheiro e uma área de serviço minúscula, porém boa para utilizar na lavagem e secagem de roupa.

— Estou cansado do estágio, por isso não farei o jantar hoje — seu irmão disse, de costas para si, enquanto mexia em algo nas compras. — Come congelado?

— Como sim.  

— Tudo bem.

Um silêncio confortável instaurou-se entre eles, enquanto o mais velho colocava dois potinhos de sopa congelada no micro-ondas, abria a geladeira e retirava de lá uma jarra de suco, colocando-a na bancada que dividia a cozinha da sala de estar. Jantaram trocando informações do dia de cada um e, mais tarde, quando estavam de frente para a TV assistindo a um programa qualquer de variedade, o Kim mais novo decidiu sanar sua curiosidade crescente.  

— Hyung, você conhece bem a família que mora aqui ao lado?

— Qual? — Franziu o cenho.

— O apartamento alugado, Jin. O outro está vazio, não lembra?

Mesmo morando ali há pouco tempo, sabia mais coisas que o mais velho.  

— Não lembro, não. — Recostou-se melhor no sofá. — Porém, conheço mais a família Park; quando me mudei, eles já moravam no apartamento.

O acastanhado absorvera aquela informação mordendo o interior da bochecha.

— O filho deles se meteu em uma briga feia hoje na escola, saiu machucado.

— O Jimin? — Jin perguntou, desviando o olhar da TV e fitando o irmão.

— Sim, ele mesmo. Nem a Sunmi conseguiu descobrir o motivo da confusão.

— Não me surpreendo. — Voltou a prestar atenção no programa. — Aquele garoto é um caso perdido, pelo que a senhora do 226 contou. Ele costumava ser bem diferente, sabe? Menos agressivo e impulsivo. — Deu de ombros.

— E o que aconteceu?

— Segundo a vizinha que os conhece há mais tempo, tem algo a ver com a mãe dele.

A cabeça do mais novo fervilhara com as últimas palavras, e nem mesmo quando deitou-se em sua cama e fitou o teto branco de seu quarto conseguiu tirar dos pensamentos o que poderia ter causado tal mudança.

Na manhã seguinte, Jin acordou o irmão aos berros, puxando sua coberta e gritando bem alto a imitação do som de um relógio despertador. Taehyung levantou-se muito puto da vida e correu atrás do outro em vingança.

Entretanto, a ação do maior nem fora tão ruim assim, afinal, ele chegou a tempo na escola e ainda conversou com seus amigos antes de cada um seguir para sua sala. Tivera aula de língua estrangeira no primeiro tempo antes do intervalo, uma dificil prova de matemática após o intervalo e, no dado momento, encontrava-se na aula de história, completamente focado na explicação.

Taehyung amava as aulas do professor Choi tanto quanto amava estudar história. Sem dúvidas, era uma de suas matérias favoritas entre as diversas que possuía. Ninguém o chamava de “Sr. Choi” devido sua aparência jovem, de rosto obtuso, nariz reto e pálpebras duplas naturais. O homem nem parecia ser real.

Ele conversava com a turma a respeito do 473º aniversário do Almirante Yi Sun-shin, um ex-comandante naval de suma importante para os coreanos.

— [...] Enquanto o Almirante Yi perseguia os navios, acabou sendo atingido por uma bala perdida na axila esquerda. — Choi colocou a mão na própria axila e fingiu tombar para trás, arrancando risinhos da galera. — Sabendo que morreria de uma forma ou de outra, chamou o seu filho e sobrinho que estavam presentes e mandou que o cobrissem com o próprio escudo para não desmoralizar os que ainda restavam de pé lutando com os inimigos. Os marinheiros vieram a descobrir a morte do Almirante e caíram no choro, o cara foi alguém extremamente ardiloso e inteligente. E, por isso, venceram a guerra.

Alguns educadores do ensino sênior sentiam inveja da forma que o jovem historiador prendia a atenção de seus alunos sem fazer qualquer esforço. Os estudantes simplesmente calavam-se assim que ele colocava os pés em sala. Choi não costumava se gabar de tal feito, mas sentia um tremendo orgulho.

— Então é por isso que todos os anos há marchas militares no festival? — a pergunta veio de uma garota sentada nas primeiras cadeiras; Taehyung nunca conversou com ela, no entanto, ouvia dos demais reclamações de sua postura.

— Exatamente! O mês de abril não é apenas lindo por causa da primavera.

O sinal tocou, alertando-os que teriam que descer para educação física, mas antes que saíssem da sala de aula, o professor pediu para que escrevessem uma redação a respeito da primavera e o que ela representava em suas vidas.

— Quantas linhas? — alguém questionou em meio ao burburinho da saída.

— Não quero menos de 10, pessoal. Não me decepcionem!

O acastanhado saiu, pensativo sobre o quê a primavera representava para si.

 

 

A fumaça do café ondulou no ar quando o atendente com cara de poucos amigos pousou o copo sobre a bancada polida minimamente. Apesar do vento meio frio, o fim de semana havia chegado, para a felicidade de todos. O céu mantinha-se nublado; a probabilidade de chover era alta, e todos torciam para que não chovesse no horário dos fogos de artifício atingirem o céu agora nublado, escondendo o azul clarinho.

— Viu como aquele atendente foi mal-educado?

Taehyung ouviu a voz da amiga em um tom irritado, porém manteve-se imparcial. Ele detestava café, e o cheiro forte do mocha estava o deixando meio enjoado. Passou poucas e boas em sua casa em Daegu devido a isso, já que sua mãe o obrigava a tomar pelo menos uma xícara do maldito líquido diariamente, pois, segundo ela, o deixaria mais esperto.

— Mas o que achou do filme? Por favor, seja sincero. — Ele surpreendia-se com a facilidade da garota em mudar de assunto. — Eu não gostei do final.

— Não sei... Interessante? — arriscou.

O acastanhado acabou sendo vencido pelo cansaço e aceitou ir ao cinema no fim de semana para assistir o tal filme estrangeiro “Me chame pelo seu nome.”, que falava sobre descobertas e romance entre duas pessoas do mesmo sexo. Yoongi deu uma desculpa qualquer para não acompanhá-los, normal.

— O quê? — não disfarçou o tom incrédulo em sua voz. — Não viu como a Itália ficou linda e poética? Parecia ser feita para o romance dos dois. Apesar de achar o Oliver bem estúpido às vezes, senti que o Elio não mereceu aquilo.  

E, realmente, Taehyung também sentira algo esquisito o cutucando com o romance retratado na grande tela do cinema. Obviamente, sentiu um ímpeto desejo de contar ao Elio que aquele romance estava fadado a não durar mais que aquilo; além disso, sentiu-se estranho, genuinamente curioso, ao ver as cenas de sexo e beijos no decorrer do filme.

Estar curioso com um beijo homoafetivo não tinha problema, ou tinha?

— Se tivesse um fim diferente, o filme teria sido uma perda de tempo — disse, enquanto caminhavam por entre as ruas de Jinhae. — Veja bem: Oliver é um homem de 25 anos de idade, professor universitário, isso sem esquecer que o filme se passa na década de 1980. Se eles assumissem o romance, claramente não seriam bem vistos. Entendi o posicionamento dele, afinal.

Sunmi parecia refletir a respeito, enquanto tomava o que restara de seu mocha. Ela vestia uma saia godê vermelha com meia-calça preta, um casaco fino de crochê na cor cinza e tênis da moda. Seus fios escuros estavam perfeitamente presos em um rabo de cavalo, e ela abusava do uso de pulseiras e anéis.

O Kim preferiu usar uma calça jeans escura, um moletom amarelo — escondendo sua camisa estampada do caça-fantasma — e um tênis; seu cabelo castanho não mais se encontrava domado. Havia saído cedo do apartamento para ir ao cinema, e do cinema eles pegaram a condução até cidade de Jinhae, a fim de assistir a marcha militar, com direito a fogos de artifícios e tudo mais. O passeio de ônibus durou mais ou menos quatro horas, e nenhum cabelo que se preze mantém-se tanto tempo recebendo o vento agitado da estrada.

— É, talvez você tenha razão. — Suspirou. — Sempre tento trazer o Yoongi para assistir aos filmes comigo, mas ele não passa de um chato de galocha. Você é novo aqui, então não sabe o quanto ele pode ser sem graça.

— Você gosta do Yoongi? — perguntou com um sorrisinho implicante.

— Como é que é? — A garota teve uma crise falsa de tosse. — Nem morta.

— Se você diz…

— Não, é sério. Vamos lá, quem em sã consciência gosta de um nerd?

E eles continuaram a caminhada; o acastanhado implicando com a nova amiga e se divertindo com isso, já que ela faltava virar um tomate de tão vermelha.

Passava das oito e meia da noite quando os primeiros militares formaram filas para o início do desfile. Às flores de cerejeiras deixavam um intenso aroma adocicado e espalhavam beleza, sendo cenário para diversos casais que tiravam fotografias juntos; os mais ousados até beijavam-se, fazendo pose. Em geral, o clima era de felicidade; a marcha era uma importante homenagem ao Almirante e terminaria com uma bela noite de explosões de luzes brilhantes no céu.

Yoongi encontrou-os tarde da noite e parecia extasiado por ter vencido um debate online sobre o apocalipse zumbi, coisa de nerd esquisito. Eles se embrenharam em meio ao público, com o intuito de assistir os militares passarem. O som alto dos tambores batendo junto de trombones era contagiante, ouvia seus amigos cantarolarem uma cantiga que ele nunca ouvira falar, por isso, manteve-se compenetrado com o que acontecia diante de seus olhos, achando tudo extremamente belo. Ao fim da marcha, fogos de artifícios foram disparados, mesclando-se em várias cores primárias, iluminando todo o local e colorindo o escuro céu.

— Aquilo é o uma barraca de hoddeok? — perguntou Yoongi, desviando da conversa entediante que os outros dois trocavam. — Cara, eu amo hoddeok.

— Eu também... — Sunmi soou tristonha. — Mas tomei um copo grande de mocha hoje e se colocar mais açúcar no meu organismo vou ficar enorme.

— Por que meninas são tão superficiais?

Taehyung observou a discussão que se iniciou com um sorriso bobo nos lábios. Os dois claramente se gostavam, mas a cegueira os impediam de enxergar. Sendo deixado de lado, resolveu xeretar as ruas próximas.

Andou por entre o aglomerado de pessoas, todas vestindo um casaco fino e comentando a respeito do espetáculo da noite. Havia inúmeras barraquinhas de comida e lembrancinhas para levarem, mas estava apenas com dinheiro certo da passagem, logo, deixaria para comer em casa — mesmo que seu estômago roncasse.

Notou uma movimentação estranha a poucos metros de onde estava parado. Com as mãos sendo aquecidas no bolso do moletom, aproximou-se por curiosidade — um dia esta o colocaria em problemas, como seu irmão gostava de lhe jogar na cara. Acontecia uma discussão, com vozes alteradas, e ele assustou-se ao ver Jimin levar um soco forte; provavelmente quebrara o nariz ou coisa pior.  Perguntava-se o porquê de sempre o encontrar metido em confusões, parecendo um idiota.

Olhava ao redor apreensivo, torcendo para que alguém interviesse naquela maldade. Eram três adolescentes contra um, mesmo que o loiro aparentasse estar se virando bem. No entanto, ninguém se intrometia, pelo contrário, ficavam apenas parados enquanto curtiam a briga.

Xingando palavrões feios, ele caminhou até onde os brigões estavam. Nunca se metera em brigas ou discussões; sua índole era pacífica na maior parte do tempo. Entretanto, não calculou que se meter em brigas acabaria sobrando para si — e sobrou, pois Taehyung levou uma cotovelada certeira em seu nariz, essa que doeu exorbitantemente.

— Meu nariz, meu nariz! — choramingou ao estatelar-se ao chão.

Vendo que os policiais chegavam, os três encrenqueiros saíram correndo dali.

— Por que se meteu? — Jimin disse, seu tom de voz repleto de raiva. — Puta merda.

Taehyung mal ouvira o que o outro lhe dizia, pois sentia-se tonto devido a pancada forte que levou. Será que quebrou? Lesionou? Não respiraria mais? A mente do Kim era uma loucura de pensamentos desconexos. Gemeu de dor ao ter seu rosto tocado por mãos alheias, espantando-as dali imediatamente; doía muito.  

— Por que vive se metendo em confusões? — gritou de volta, quando a vertigem passou um pouco, encarando as íris tempestuosas sem medo.

A nova discussão fora interrompida pela chegada de dois policiais, esses que os pegaram, mesmo que Taehyung tenha protestado contra.

Pronto, estava sendo preso por tentar ajudar Park Jimin, seu vizinho.

Eles não foram detidos, mas não houve escapatória para o acastanhado quando seu irmão chegou à delegacia junto de um homem robusto, de fios claros e vestes formais. Pela semelhança, deduziu ser o pai do garoto sentado ao seu lado. Ouviu os esporros de cabeça baixa, segurando uma bolsa de gelo em seu nariz que há pouco parara de sangrar.

Estupido, estupido, estupido.

Infelizmente, o Kim não se lembrara de como, de repente, todos pararam no carro grande e esportivo do pai de Jimin. Eles permaneceram na delegacia apenas para dar algumas explicações, sendo liberados em seguida. Era para ser uma noite de diversão, marcha e fogos de artifícios, não uma para se meter em uma delegacia fedida a urina e com bandidos de verdade. E se Jin resolvesse o mandar de volta para o interior com seus pais? Não, ele não faria isso.

Ou faria?

A mente do Kim girava e girava enquanto tentava entender tudo que lhe aconteceu. Ajudar Jimin foi algo inteligente a se fazer? Algo impulsivo? Fora ensinado a sentir empatia para com o próximo; eram três contra um, e ninguém sequer ajudava…

Por estar dopado de analgésicos, acabou adormecendo, completamente desprovido de respostas para seus diversos questionamentos.

 

 

A única certeza que Taehyung tinha era que, enquanto possuísse suas faculdades mentais intactas, não daria uma de Kick-Ass novamente. Passou os últimos dias pondo a culpa na fome que sentia; não pensava coerentemente com fome.

Observava enviesadamente o próprio reflexo no espelho do colégio; o inchaço de seu nariz já havia diminuído e agora restavam somente hematomas.

Jin havia o levado ao hospital no dia seguinte ao ocorrido, e o médico lhe informou que não havia sofrido maiores danos, por isso apenas receitou que colocasse ervilhas congeladas envolta por uma toalha durante, mais ou menos, vinte minutos, diariamente. Mordiscou o lábio por hábito.  

O ruim de comprar briga de outras pessoas, ainda por cima em um local público, é que não seria um caso isolado onde somente os envolvidos saberiam. Os primeiros boatos surgiram logo quando retornou às aulas. O olhavam e cochichavam a respeito de seu nariz vermelho e inchado. Antes ele era somente o novato, agora o viam como o novato que apanhou de Park Jimin.

Mal sabia onde enfiar a cara arrebentada.

O Park não veio ao seu encontro para pedir desculpas por socá-lo; na verdade, ele mal o olhava na cara, apesar de se esbarrarem algumas vezes no elevador ou na escola; passava reto como se a presença do Kim fosse do tamanho de uma ervilha.

Relutante, fechou a torneira a qual lavara as mãos e saiu do banheiro.

Usava uma camisa de mangas curtas feitas justamente para o calor, já que, conforme o decorrer dos dias, Seul havia dado uma significativa esquentada. Caminhava rapidamente, ignorando os olhares que recebia, não demorando para chegar à mesa onde seus amigos encontravam-se.

— Estou dizendo que A Culpa É das Estrelas é um livro superestimado, sim — Yoongi falou num ar superior, como se somente sua opinião valesse. — Você sabe disso.

— Não sei, não. — E lá vinha mais uma discussão. — ‘Pra você nada é bom, somente aquela série chata de zombie que deveria ter acabado há anos. Ninguém aguenta mais a mesma ladainha nas temporadas, só os fãs idiotas.

— Lave a boca quando for falar de The Walking Dead!

— Lave você quando falar dos meus livros favoritos, seu democão!

Taehyung revirou os olhos, aquelas pessoas eram realmente mais velhas do que si?

— Pessoal — interviu —, vocês não podem entrar em um consenso?

— Não — responderam em uníssono.

Permaneceram sentados, comentando sobre a prova surpresa de língua estrangeira e lamentando-se por serem péssimos em inglês. Levariam bomba, com certeza.

O restante do dia passara lentamente, quase de maneira torturante. A primavera chegara realmente com tudo, já que Taehyung saiu com a camisa de educação física encharcada de suor; sentia-se pegajoso, sujo e, o pior de tudo, extremamente fedorento.

Não demorou durante o banho no vestiário; colocou seu uniforme, tênis e saiu rapidamente dali, apenas desejando chegar logo em casa e empanturrar-se da comida de Jin.

Jin ficara decepcionado com o irmão mais novo por ter se metido em uma briga, acabando sendo apreendido como um marginal. Dissera que não contaria aos seus pais e, até então, ele mantera a palavra, mesmo que o olhasse de cara amarrada.

O acastanhado mexia no nariz dolorido, enquanto saia do elevador, a caminhada até seu prédio não durando nem dez minutos. Surpreendeu-se ao notar a última pessoa que pensou que veria sentado no chão ao lado da porta de madeira.

O loiro ergueu o olhar ao ouvir passos, levantando-se desajeitadamente do chão.

— O que você está fazendo aqui?

Taehyung tentava compreender o que o porquê do vizinho estar sentado no chão como se estivesse esperando-o — o  que não fazia sentido, já que ele vivia sendo ignorando. Nem havia retirado o uniforme, ainda trajando a calça preta e a blusa branca.

O mais novo também notou o tom amarelado ao redor do olho esquerdo, havia um fino corte em seu lábio superior e outras marcas visíveis de possíveis brigas. Era a primeira vez que o via tão perto, chegava a ser desconcertante.

— Vim me desculpar — disse solícito.

Depois de todo esse tempo?, pensou, sem realmente proferir tais palavras.

— Eu sei que demorei muito para fazer isso — continuou a falar — e também imagino o quanto você deve me xingar por ter lhe acertado com o cotovelo.

— No começo, sim — falou categórico, levando a mão ao nariz por reflexo.

— Bom, me desculpe. Você surgiu sabe-se lá de onde, não tive tempo de controlar os movimentos dos meus braços, pensei que fosse outro deles ali.

— Eu achei covardia três contra um, por isso me meti na briga naquele dia. Nem sei o que me deu,  talvez a minha empatia seja maior que o meu bom senso.

Jimin acenou em concordância; parecia não saber o que dizer. O acastanhado pensou em acabar logo com o silêncio constrangedor, entrando de uma vez em sua casa.

— Geralmente não me importo com o que faço, mas me senti mal o suficiente para não lhe olhar na cara por um bom tempo. — Deu um meio sorriso. — Foi mal.

— Tudo bem, aconteceu. Não é como se o incômodo fosse sumir com suas desculpas.

O loiro crispou os lábios, enquanto observava a face machucada a sua frente.

— Está colocando gelo e tomando analgésico?

— Estou sim e...

Acabou sendo interrompido quando a porta do apartamento 225 abriu-se, revelando uma mulher de porte pequeno, vestindo uma calça jeans surrada, camisa cinza manchada de tinta — que, segundo a boa observação do Kim, estavam secas e duras. Taehyung acompanhou o olhar do vizinho, indo de encontro à mulher.

— Por que a senhora saiu de casa? Vem, vamos entrar.

A semelhança entre os dois era nítida, então o garoto deduziu quem era ela.

— Quem é você? Solte-me, preciso buscar o meu menino, estou atrasada.

— Não, mãe. Por favor, vamos voltar para casa.

— Eu disse para me soltar, não conheço você. — Ela o empurrou. — O Jimin sai às quatro e meia da tarde da escolinha, coitadinho. Ele deve estar chorando. Você viu o meu menino por aí? — perguntou ao Kim, que estava lhe encarando. — Jimin é um bom menino, sabe? Muito inteligente, um ótimo filho. Eu o amo muito.

— Ah, ele acabou de entrar em casa, com certeza está brincando — mentiu, sem nem pensar a respeito. — Deve estar brincando de esconde-esconde.

A mulher lhe agradeceu e voltou rapidamente para dentro, indo procurar o menor.

— Me desculpe por isso também, ela... — Suspirou. — Obrigado. — E entrou em casa.

 

 

Fazia alguns dias que Taehyung tinha seus pensamentos dominados por uma cabeleira aloirada. Não era como se ele quisesse ter sua cabeça tomada pelo vizinho que o acertou bem no nariz, já que, seguindo a lógica, nem devia prestar atenção nele.

Contudo, não conseguia não prestar atenção. Pegava-se o procurando por entre as pessoas na entrada e durante o intervalo, e, quando seus olhos o encontravam, fitava-o discretamente. Jimin costumava sentar-se à mesa perto do bebedouro, onde comia religiosamente uma maçã verde com um Yakult de banana.

O Kim até mesmo se aventurou a sentar-se na arquibancada e assistir ao loiro correr, treinando com os outros garotos da equipe de atletismo. Percebia que ser um babaca fazia parte da personalidade dele, já que por vezes o viu iniciando uma discussão por motivos que, em sua opinião, eram torpes. Porém, por outro lado, ele era o completo oposto com sua mãe: tratava-a com muito carinho e paciência.

O mais novo não fazia ideia de como ele conseguia ter duas facetas.

Percebeu também que ele morava apenas com a senhora Park. No entanto, aos fins de semana, o carro esportivo de seu pai parava na calçada em frente ao prédio e vozes alteradas podiam ser ouvidas vindo do apartamento ao lado. Em seguida, o homem com porte de rico ia embora, com uma cara péssima.

Pensou diversas vezes em ir até lá para ver se precisavam de alguma ajuda, mas sempre desistia.

Jimin passou a cumprimentá-lo quando se esbarravam no elevador ou na escola. O veterano o recepcionava com um sorriso simples — daqueles que damos a pessoas conhecidas por educação —, e o mais novo sempre retribuía sem jeito, com as bochechas queimando em vergonha como bônus e implorando aos céus que ele não percebesse.

Convenhamos, apesar de possuir uma personalidade ruim, o Park era um adolescente muito bonito. Ele cuidava bem do corpo, era um corredor rápido e tinha as melhores posições. Rolavam até boatos de que olheiros de faculdades desejavam-o em suas instituições, para completar as equipes com seu talento. Via meninas suspirarem quando ele passava por elas e as cumprimentava, como também ouvia certos mexericos de corredor, os quais o acastanhado duvidava.

Um mês havia passado desde o fatídico dia em que levara uma cotovelada no nariz, este que já se encontrava sem inchaço e hematomas feios.

Ele havia acabado de encerrar uma chamada de Skype com seus amigos, onde estavam vendo um filme da escolha de Yoongi, um tipo de documentário sobre constelações e universo. Por pouco não dormira entre as explicações intermináveis do locutor, e acreditava que Sunmi não estava diferente de si. A garota assistia a tudo apaticamente, hora ou outra ajeitando os óculos de aro redondo na face e bocejando entediada.

Quando Yoongi fazia comentários em certas partes, ele falava rápido e dava sinais de um sotaque carregado de outra região. Aparentava, realmente, não se importar se os seus amigos estavam ou não prestando atenção ou até mesmo entendendo sua explicação.

Taehyung deixou o notebook ao seu lado na cama e deitou com os dedos entrelaçados detrás de sua cabeça, enquanto fitava o teto de seu quarto. Lembrou-se do outro quarto na casa de seus pais, no interior, onde não tinha um teto imaculado: este era preenchido por pôsteres das bandas as quais gostou aos doze anos de idade e pintado de azul acero, assim como as paredes. O seu novo quarto dava indícios de que ele crescera; tornara-se alguém que não suporta a ideia de macular o teto branco.

Despertou dos devaneios ao som esquisito da campainha, logo imaginando que seu irmão esquecera de novo as chaves do apartamento. Ele não vestia nada além de uma calça moletom acinzentada, já que fazia um calor considerável na cidade, embora faltasse pouco para o anoitecer; seria uma daquelas noites quentes.

Gritou um “Já vai.”, irritado pela falta de paciência do ser tocando a campainha.

Ele não esperava deparar-se com o seu vizinho ao abrir a porta, muito menos que ele fosse encarar seu torso desnudo, deixando-o morto de vergonha e com vontade de entrar correndo e pôr uma camiseta.

— Hm... Em que posso ajudar? — perguntou, cruzando os braços no peito a fim de tapar-se de alguma forma, embora não fizesse a mínima diferença.

— Oi, vizinho — sua voz soara arrastada e levemente rouca. — Está ocupado?

O mais novo negou, contando que acabara de assistir um documentário.

— Ótimo. — O loiro a sua frente sorriu, aquele maldito sorriso. — Então nada o impede de dar uma volta comigo, certo? Vamos, por favor, quero companhia.

Ele vestia uma calça jeans escura, camiseta meio a meio na cor vermelha e um timberland amarronzado. Seu cabelo parecia mais platinado, talvez tenha o descolorido mais cedo. Os lábios volumosos estavam rosados, como se tivesse passado um batom clarinho, mas o Kim julgou ser apenas o seu tom natural.

— T-tudo bem — gaguejou, pigarreando em seguida. — Vou... Vestir algo.

Era sábado à noite e, por isso, a rua estava agitada. Seul aparentava nunca adormecer; quando as atividades noturnas terminavam, às diurnas iniciavam. Ademais, o fato de a primavera trazer um ar mais quente fazia com que os bairros se tornassem mais movimentados, fossem repletas de turistas — que eram maioria — ou de moradores.

Os jovens caminhavam lado a lado por Gangnam. Jimin havia proposto apresentar um dos lugares populares na cidade para o seu dongsaeng, que concordou de imediato. Avisara ao irmão por mensagem que sairia e que voltaria antes da meia-noite — ganhara outro celular após muito insistir e argumentar que necessitava de um novo; Jin respondera com um “tudo bem”, pois estava enrolado com sua monografia na casa de um amigo da faculdade.

Os dois trocaram uma ou duas palavras durante o caminho. O acastanhado se mordia de vontade de questionar o porquê de estar ali com o mais velho, mal acreditava que dava um passeio com o rebelde sem causa.

Não sabia o que faria se ele resolvesse se meter em outra briga, porém achava melhor evitar se meter novamente, afinal, não queria outro nariz roxo.

O Park parou em frente a Ponjangmacha, uma espécie de restaurante ambulante. Taehyung lembrou-se do que se tratava por ter visto algo semelhante àquilo em sua própria cidade. O cheiro que emanava o fazia salivar de desejo, todavia, imaginou que o dinheiro que trouxera não fosse o suficiente.

Assim que sentaram defronte pro outro, um homem de meia-idade, com a cabeça tão branca quanto uma manhã de neve veio anotar seus pedidos. O mais novo não tivera tempo de ponderar o que queria, já que o veterano pedira bibimbap para que dividissem, pois o prato possuía comida o suficiente para duas pessoas.

Após uns bons minutos se passarem, Jimin resolveu puxar assunto.

— Você deve estar se perguntando por que o convidei para dar uma volta.  

Taehyung, que tomava um gole de seu refrigerante, assentiu desajeitado.  

— Bem, não há um motivo específico. Só queria sair para me distrair, então, pensei: “Por que não chamar o meu vizinho?”, e foi assim que parei na sua porta.

— Ah! — Limpou o resquício de refrigerante com o dorso da mão. — Estava pateticamente contemplando o teto do meu quarto, nada de importante. Você praticamente me salvou de mais uma noite entediante sozinho.

Jimin riu.

— Fico contente em saber, então.

Calaram-se com a chegada do mesmo senhor trazendo o pedido. O mais novo sentia-se no paraíso olhando toda aquela comida na cumbuca: arroz carnavalesco, broto de feijão, molho de pimentão vermelho apimentado, espinafre cozido, carne, cenoura, abobrinha e um ovo cru por cima. O negócio fervia, quase queimando suas narinas. Ele reparou que o prato se assemelhava a uma flor colorida e não tardou a misturar tudo aquilo rapidamente, pois o senhor dissera que, se demorassem muito, o arroz queimaria. Soltou um grunhido de satisfação ao provar um pedacinho de carne, logo o colocando em sua lista mental de coisas mais gostosas que já tivera o prazer de comer.

Jimin contemplava a visão do seu vizinho enquanto provava o pedaço de carne; não era a primeira vez que comia ali, havia vindo outras vezes e nada daquilo o surpreendia mais, totalmente o contrário do garoto a sua frente, que sorria tímido com as bochechas levemente coradas e um bico formando-se em seus lábios conforme comia. Se o mais velho pudesse, classificaria a satisfação do outro comendo como uma das cenas mais bonitas que já vira em toda sua vida.

— Na minha cidade — o Kim, após engolir, disse —, temos uma comida parecida com esta, tão boa quanto. Mas esta tem um sabor bem único.

— Minha mãe costumava me trazer aqui antigamente.

O acastanhado notou o sorriso do loiro desmanchar-se gradativamente. Ele esbarrou na senhora Park outras vezes depois daquele dia no corredor, e a mulher agira igual.

— Ela está na fase intermediária do Alzheimer, sabe? Não me reconhece na maior parte do tempo, entretanto, têm surtos dos quais possui noção de quem eu sou. Além disso, perdeu uma quantidade considerável de peso, o que é irônico, já que ela detestava a magreza negativa.

— Eu sinto muito, Jimin.

— Não, tudo bem. — Deu de ombros. — É algo com que preciso me acostumar.

— Você sabe que não precisa se fingir de forte o tempo inteiro, não sabe?

O veterano concordou com um balançar de cabeça, suspirando audivelmente.

— Eu sei, eu sei. — Mordiscou um espinafre cozido e continuou. — Meu pai nos abandonou quando percebeu que não saberia lidar com as condições da mamãe. — Riu sem humor. — Ele é um filho da puta egoísta e ainda teve a cara de pau de me enviar um convite de seu casamento hoje. Já estou lá, com certeza — disse, completamente irônico.  

— Há quanto tempo ele... Abandonou vocês?

— Há um ano e meio, mais ou menos, quando a doença ficou instável. Agora conto com a ajuda muito bem-vinda da senhorinha do 226, que fica com a minha mãe para que eu possa ir a escola, sair, treinar ou qualquer outra coisa parecida.

Taehyung absorvia quietamente as coisas ditas para si. Em sua cabeça, o que o pai do garoto fez com eles ultrapassava a maldade e beirava a covardia. Ele era, definitivamente, um bosta.

— Tive o desprazer de encontrar com o filho da nova mulher dele aquele dia no festival de primavera. O  desgraçado veio com os seus cheira cu para me tirar do sério. Prometi a mim mesmo que não arrumaria briga, no entanto, o desgraçado veio chamando a minha mãe de louca varrida e outras coisas, e...

— Não precisa me contar se não se sente confortável — pontuou, vendo a dificuldade com que o mais velho falava —, não precisa se machucar mais.

— Não, eu quero contar — esclareceu. — Está sendo bom, sabe, desabafar. Além do mais, você é o único lá da escola que sabe das condições da minha mãe, então me sinto confortável de compartilhar minhas frustrações contigo.

O novato não soube identificar o efeito que aquelas palavras tiveram. Sentiu um aperto forte em seu estômago, além de seu coração palpitar estranhamente.

— F-fico feliz em ser útil. — Mordiscou o lábio por hábito. — Talvez o melhor a fazer seja ignorar as implicâncias, entende? Ou pretende bater em todos?

— Em todos que me derem motivos. — O clima tenso que antes rondava a conversa diminuíra. — Sei que deve ter uma visão bem ruim de mim, mas me tornei isso que você vê agora: meio pavio curto, impulsivo, talvez até outros adjetivos ruins, e ainda te soquei no nariz.

O Kim fez um careta ao lembrar-se do nariz machucado e estremeceu.

— Bem, foi um acidente, e já faz mais de um mês. Superei isso, juro.

Um silêncio se estendeu conforme os dois adolescentes desfrutavam da comida que não mais fervia, pois acabara ficando morna com a distração de ambos. Eles conversaram mais um bando de trivialidades, tomaram mais duas latinhas de refrigerante e, após o mais velho pagar a conta, saíram do Pojangmacha.

A viagem de trem não demorou muito, e logo eles estavam a caminho de casa.

— Você não se arrepende de brigar sempre? — Tae perguntara.

— Às vezes, depende. — Parecia pensar a respeito. — Quando o acertei sem querer, me senti um lixo, porque depois que a raiva passou, tive noção da merda que aprontei e fiquei completamente sem jeito de me aproximar para pedir desculpas.

— E aquela briga na sala de aula? Você deixou a professora Kang doidinha.

Jimin revirou os olhos.

— A professora Kang é uma tremenda chata, isso sim. — Bufou — Mas, respondendo à sua pergunta, daquela briga eu não me arrependi. Odeio covardes que não assumem o que fazem ou que depois se fingem de sonso.

— Como assim?

O loiro o olhou de esguelha, como se ponderasse se falaria a verdade ou não.  

— Nós... Hm, ficávamos de vez em quando. — Pigarreou. — Porém, naquele dia, ele queria me encontrar no lugar de sempre. O problema era que minha mãe tinha consulta médica, e eu não podia contar nada; bem, você sabe. No fim, ele achou que fosse mentira, que estava o enrolando e blá blá blá.

— Aí você resolveu socá-lo por causa disso? — questionou, tentando arduamente ignorar a aceleração inesperada de seus batimentos cardíacos com o que acabara de escutar: Jimin gostava de homens.

— Claro que não. — Riu, pondo as mãos no bolso. — Terminei o que quer que seja que nós tínhamos, e ele ameaçou divulgar uma foto de um momento íntimo da gente caso terminássemos o que quer que seja que nós tínhamos.

— Meu Deus, que loucura.

Eles entraram no prédio amarelo e pegaram o elevador, apertando o botão de seus andares — que era o mesmo — ao mesmo tempo, logo fingindo que nada havia acontecido; típico clichê.

— Pois é — concordou. — Eu falei para que ele divulgasse a foto, não me importava nenhum pouco com essa palhaçada. Porém, o deixei nervoso quando disse que os amigos dele iam gostar de saber que ele curte ser fodido, muito bem, inclusive. A partir daí você pode imaginar que o cara avançou em mim e eu tive que revidar.

Taehyung assentiu. Suas bochechas coraram com o uso de certas palavras e podia jurar que ainda se encontrava envergonhado ao parar em frente à sua porta.

— Obrigado pelo passeio, foi bem divertido — disse, as costas encostadas na porta e a mão direita segurando o molho de chaves enquanto fitava o vizinho.

— Não há de quê. — Sorriu, aquele sorriso que o deixava completamente desconcertado. — Eu que preciso agradecer por sua paciência em me ouvir a noite toda, certo? Na próxima vez, ficarei quieto enquanto você me conta tudo sobre você, tudo bem?

— Próxima vez? — Riu nervoso.

— Sim. A não ser que não queira mais passear comigo...

— Não! — contestou, pigarreando em seguida. — B-bem, eu adoraria.

Jimin aproximou-se de si cautelosamente, fazendo com que seu coração bombeasse sangue rente sua caixa torácica fortemente. Ele tinha medo de desviar o contato e perder a próxima investida alheia, porém, a única coisa que o mais velho fez foi deixar um selar em sua bochecha e afastar-se, com um sorriso travesso adornando seus lábios.

— Boa noite, Taehyung.

— Boa noite, Jimin-ssi.

 

 

Início da semana de provas assustava até mesmo os preparados para a tão temida época. Não era como se todos fossem imunes ao fantasma da nota ruim, dos receios de não ser o suficiente e da decepção ao seus progenitores, ou, no caso dos terceiristas seniores, não ser aprovado, passar vergonha e precisar repetir o último ano.

Era a primeira vez que o acastanhado participava da temida semana sangrenta — como, certo dia, contara à Sunmi. Em sua antiga escola, o sistema era diferente, menos exigente e com uma chuva de conteúdos escolhidos a dedo. Na nova escola, as coisas seguiam por outros meios: a semana deixavam todos com aparência de mortos-vivos e com as faces nos livros.

Ele começou a estudar língua estrangeira, já que a colocou como sua prioridade, por ser a que mais possuía dificuldade. Não negligenciava as demais; sabia que cada hora perdida em meio aos livros didáticos o salvaria da recuperação.

Porém, parte de seus pensamentos eram totalmente dedicados a certo loiro — este que passou a ir consigo ao colégio, assim como pedir para que o esperasse para irem embora juntos. Construíram uma espécie de rotina, onde ambos viviam juntos.

Taehyung passara a reparar outras coisas no vizinho, como, por exemplo, o hábito de embrenhar seus dedos pequenos por entre os fios aloirados a cada cinco minutos, sem nunca ultrapassá-los; ou como seus olhos miúdos formavam uma perfeita meia-lua quando ria com vontade de algo; ou como mexia no anel de prata em seu dedo anelar, quase como um tique nervoso.

— Ei, Taehyung — uma voz impaciente soou próxima a si. — Cara, você está me ouvindo?

E ele fora desperto de seus devaneios aos ter compridos dedos branquelos sendo estalados em sua frente.

— Acho que me distraí. Desculpe, hyung.

— Tudo bem. — Yoongi o olhou desconfiado. — Você anda no mundo da lua recentemente.

— Minha cabeça parece que vai explodir a qualquer instante, na verdade.

Contrariado, o de fios esverdeados deixou o livro de história de lado — estavam estudando história, pois ele era péssimo, e o Kim estava o auxiliando, já que ele pedira ao amigo para que viesse à sua casa para ensiná-lo algumas coisas — o que era irônico, já que Tae possuía uma série de diferença de si.

— Não sou tão bom de conselhos quanto à pirralha da Sunmi — fez uma careta engraçada, o que arrancou um risinho do mais novo —, mas estou disposto a ouvir suas lamentações, mesmo que possa me causar pesadelos.

— Por que acha que minhas lamentações lhe causarão pesadelos?

— Porque você anda muito com a Sunmi — falou, todo metido —, então, né.

O acastanhado suspirou fundo. Sabia das consequências de contar as loucuras que passavam por sua cabeça, ainda mais para Yoongi, já que não sabia se o mais velho iria receber bem ou não a novidade de que, talvez, estivesse atraído por um homem.

Vencido pela vontade de compartilhar o tormento com alguém, disse:

— Acho que me sinto atraído por uma pessoa.

— Como assim? — Ele cruzou as pernas, ajeitando-se melhor para olhá-lo atentamente.

— Atraído, ué. — Seu rosto ardia em vergonha. — A pessoa não sai da minha cabeça, mesmo que eu precise de foco ‘pra estudar para a semana sangrenta.

O Min levou o dedo indicador até o queixo, onde o deixou; parecia refletir sobre o que acabara de ouvir e, de repente, seus olhos semicerraram-se, logo fitando o maior.

— Você está atraído pela Sunmi? — perguntou, sua voz soara séria.

— O quê? — Incrédulo, negou com a cabeça. — Não, não por ela.

Percebeu a feição do outro voltar ao normal, tirando o ar severo de antes.

— Bom, então por quem? Eu tenho bolas, mas elas não são de cristal.

— Estou atraído pelo Jimin.

— O quê? — perguntou, pensando não ter ouvido direito.

— Jesus, eu disse que estou atraído pelo Jimin.

— Mas ele é um homem!

— Obrigado por contar, ainda não tinha percebido — ironizou.

— Ele tem um pau, você sabe disso, né? Um pau, igual a mim e a você. Puta que pariu, cara. Eu nem sei o que te dizer. Estou meio surpreso, muito, na verdade.

Arrependeu-se de ter contado, pois, quando dita em voz alta, a ideia de estar mesmo atraído por outro homem tornava-se absurda. Nunca se imaginou atraído por alguém do mesmo sexo; sendo sincero, nunca olhou para homem nenhum com segundas intenções. Contudo, o Park lhe despertava isso.

— Se ele fosse somente Jimin, o babaca que conhecemos na escola, seria tudo mais fácil. Porém, em casa ele é muito diferente. É legal, atencioso e simpático. Inclusive, me levou para comer fora em um passeio uns dias atrás.

— Claro, ele quer comer essa tua bunda. Agora os boatos de ele ser gay fazem muito sentido, afinal. Tinha minhas duvidas, contudo, não tenho mais.

— Yoongi, por favor, você não ‘tá ajudando.

— Desculpe, desculpe — falou, complacente. — Você claramente se sente confuso, e eu aqui falando várias besteiras, além de julgá-lo também. Desculpe. Mas você precisa me ouvir e compreender, tudo bem? Não me importo se você quer dar uns beijos nele — Ouvira o amigo resmungar —, só fiquei surpreso. Pegou-me totalmente desprevenido e me excedi um pouco. Desculpe por isso.

— Também me surpreendi comigo mesmo.

— Eu o aconselho a conversar com o dito cujo, mano. Ficar remoendo e perguntando “e se” não vai ajudar sua confusão a diminuir, Tae. Precisa contar.

— Vou pensar — disse pesaroso, logo continuando. — Onde paramos mesmo?

 

 

Para a tristeza dos estudantes, a semana passara devagar. Os professores não tiveram piedade ao fazerem as provas, que estavam difíceis até mesmo para aqueles que estudaram nas últimas duas semanas que as antecederam.

Taehyung se preparava para realizar sua última prova do dia, a de economia. O professor Liú entrou em sala sorrindo de orelha a orelha e cumprimentou todos, o que não era habitual. Todavia, ao terem as provas em mãos, os aluno souberam o motivo de toda aquela alegria; a prova mais parecia um jogo de sete erros, onde não tinha acertos, só sofrimento.

O Kim chegara cedo em casa, aproveitando para dar um jeito no apartamento. O irmão mal ia lá por causa do estágio e, com a reta final da faculdade de gastronomia, tempo era o que ele menos tinha. Ele sentia falta de conversar com o mais velho; por vezes tentou contar a respeito do que sentia, entretanto, sempre perdia a coragem de lhe dizer, porque não suportaria ser julgado por quem amava.

Aquela manhã encontrara com o vizinho no elevador. Jimin aparentava estar cansado, com olheiras profundas e a pele sem o seu brilho típico. Chegou a explicar que as suas provas foram difíceis, principalmente o preparatório para o vestibular.

Às vezes, o acastanhado esquecia-se que o outro já estava no terceiro ano sênior. No próximo ano, não o teria mais para ir consigo ao colégio e também não teria mais companhia na volta da escola. Parando ‘pra pensar bem, não teria nem seus amigos, e isso o deixava, de certa forma, triste; havia acostumado-se com a presença deles.

Passava das seis horas da tarde quando recebeu uma mensagem de Yoongi, o convidando para uma noite de comemoração do fim da semana sangrenta. O mais novo perguntou se podia levar alguém e seu pedido fora prontamente aceito — com direito a um emoji de dois bonequinhos se beijando; hyung bobo.

— Certeza que os seus amigos não vão se importar?

Os dois garotos caminhavam lado a lado pelas ruas do centro, ora ou outra esbarrando um no outro — não se sabe se propositalmente ou por coincidência.

— Eles não se importam, mesmo — respondera ao mais velho.

Após um pouco de insistência, o veterano aceitara o convite, mesmo estando meio receoso.

Taehyung sentia seu estômago contrair-se em nervosismo. Algo naquela noite o deixava inquieto, e o modo como Jimin o olhava de vez em quando só piorava.

— Olha, não sou tão bom cantando, então estou logo lhe avisando antes da hora.

O mais novo riu, colocando as mãos nos bolsos do casaco acinzentado.

— Ótimo! Assim não passo vergonha sozinho.

Os adolescentes entram no prédio e andaram até o elevador, onde apertaram o botão do último andar. Uma música muito ruim soava através pequeno alto-falante, deixando o trajeto bem torturante. O acastanhado olhou de novo em seu celular o número certo da sala a qual seus amigos já os aguardavam e seguiu até lá.

O Kim não se surpreendeu ao entrar e ver seus dois amigos disputando quem cantaria o que primeiro, porém surpreendeu-se com a grandeza do lugar; a sala era decorada com uma pegada de boate, um globo de luz piscava acima de suas cabeças e deixava o ambiente com cores variáveis. O cômodo era amplo, com sofá, almofada e puffs de personagens animados para acomodá-los. Havia ainda uma mesa no centro que apoiava alguns lanches — como pipoca, chips e doces.

A luz da TV refletia, e por isso conseguia enxergar direito o guia das músicas. A disputa do controle parecia ter chegado ao fim, e Sunmi começaria a brincadeira.

— Pessoal, hora de fecharem os ouvidos, porque o gato vai miar — comentou Yoongi, que por pouco não fora atingido por um amendoim.

Por incrível que pareça, a garota cantava bem e se empolgava na maior parte do tempo; seu cover de Kang Seulgi deu-lhe a chance de pontuar noventa pontos.

A noite seguiu-se animada. Eles comeram, empanturram-se de refrigerante, revezaram a vez no karaokê e riram juntos quando a voz de um deles vacilava. Passava das onze da noite quando Jimin decidiu cantar a última música. Taehyung encontrava-se quase deitado no puff com a imagem do Capitão América, sem conseguir desviar os olhos do mais velho, que estava de costas.

Na opinião do Kim, o Park estava estupidamente bonito naquela noite, vestindo uma calça jeans clara que acentuava suas curvas, camisa fina de manga longa e os inseparáveis timberlands amarronzados; seu cabelo loiro crescera um pouco. O mais alto poderia passar dias reparando na beleza do outro, contudo, a voz aveludada de seu hyung começou a soar pelo ambiente, aquietando os seus pensamentos, que voaram para longe como tudo que se relacionava ao Park.

 

Just know when you roll with a nigga like me, there’s no limit baby…

I’m just tryna make you mine…

Yeah! I’m tryna make you mine.

 

O pobre coração do Kim acelerava conforme escutava o outro cantar. Ele não era fluente na língua inglesa e surpreendeu-se ao ouvir seu hyung conhecê-la tão bem. Também não entendia tudo o que a música dizia, mas tinha uma ideia do que era dito nas partes das quais pegou aleatoriamente e, por isso, enrubesceu.

 

We got to vibe, we got a wave

You should ride on it

All the places I could take

You boy is limitless…

 

Com a última música da noite encerrada, os garotos saíram do noraebang. Andaram juntos por entre as pessoas, suas faces coradas pelo cansaço da noite. Quem olhasse atentamente veria quatro pessoas felizes por motivos diversos.

Sunmi e Yoongi despediram-se na entrada da estação; eles moravam afastados do centro da cidade, logo sobraram apenas os vizinhos, que não falavam, já que mantinham seus pensamentos dispersos dali, em outro plano.

O relógio apontava meia-noite quando o mais velho resolvera se pronunciar.

— Seus amigos são muito legais. — Ele sorria daquele jeito bonito.

— São, né? Vou sentir saudades deles ano que vem, quando forem ‘pra faculdade.

— E vai sentir minha falta também?

Taehyung ergueu o olhar, encontrando os orbes escuros alheios lhe fitando de volta.

— Bem, sim. Mas nós somos vizinhos de qualquer forma, não é mesmo?

O Park concordou com um aceno de cabeça e parou de repente, fazendo com que o acastanhado parasse também. Eles se encontravam em uma rua pouco movimentada por causa do horário; havia apenas duas pessoas passando na hora.

— Tae, eu... — Ele levou à mão a nuca, em um claro sinal de nervosismo. — Tem uma coisa me incomodando há um tempinho considerável e não gosto dessa sensação. Na verdade, estou me arriscando aqui, podendo levar um soco, mas preciso transformar o que sinto em palavras ou vou sufocar de tanto pensar.

— Você está me assustando, hyung.

Eu estou assustado com os meus sentimentos e confuso. A gente se conheceu de um jeito bem torto, o que acabou resultando em um eu te machucando, mas isso é pauta antiga e nós já resolvemos. Acontece que nos aproximamos… Sua presença me faz sentir coisas, coisas essas que não sei dizer o que são, apenas...

— Sente — completou. — Eu também sinto, sabe? Coisas.

O loiro aproximou-se um pouco mais de seu dongsaeng, visando ouvi-lo melhor.

— O que você sente?

— Confusão — respondeu sincero. — Isso é o que sinto: confusão. Eu gosto de estar com você, sair com você, ser seu amigo; entretanto, não me parece o suficiente. Além disso, a perspectiva de me sentir atraído por outro homem ainda me assusta, não de uma forma ruim, não. Assusta, como tudo que é novidade costuma assustar.  

— Eu sei que é delicado — disse Jimin, aproximando-se. — Está tudo bem eu ter dito tudo isso? Será que foi um pouco cedo para dizer que quero você?

— Você me quer? — perguntou, seu coração batendo acelerado contra sua caixa torácica com o loiro tão perto de si, as respirações misturando-se.

— Às vezes, quando fecho meus olhos, finjo que você é meu todo o maldito tempo.

Os dois se entreolharam e sorriram cúmplices. O Park levou a mão direita até o rosto do mais novo e lhe acariciou carinhosamente na bochecha. Aproximou-se mais e encostou os lábios cheinhos na pele azeitonada, fazendo o pobre Kim sentir uma sensação estranha no estômago, como se tivesse borboletas. Ele instantaneamente fechara os olhos, esperando por qualquer coisa. Sentira quando a boca alheia encostara-se à sua timidamente.

Outro homem estava o beijando e não parecia errado. Após hesitar, retribuira o beijo calmamente.

Tae não era nenhum santo; dera seu primeiro beijo aos treze anos de idade em uma das garotas da sua antiga escola. Lembra-se da forma molhada e babada que foi, o deixando com nojo por um bom tempo. Porém, agora quem o beijava era Jimin — e ele não era nenhum garotinho inexperiente —, comandava e sabia como trabalhar aquela língua. O acastanhado sentia-se nas nuvens.

Infelizmente, precisavam respirar, então separaram-se relutantes; às faces próximas.

— Eu quero tentar, e você?

O mais novo anuiu com uma certeza absurda e voltou a unir ambos os lábios.

 

 

O clima agradável de sábado era contagiante, nem mesmo o calor espantava a animação. Crianças corriam de um lado para o outro, idosos jogavam migalhas de pães para os pássaros e casais passeavam, ora de mão dadas, ora tirando fotografias. Estava um belo dia para uma tarde no parque, fazendo um piquenique ao ar livre, acompanhado pelo cheiro doce das árvores de cerejeiras dali.

Taehyung era um dos mais animados, mas tinha lá os seus motivos. Uma semana havia se passado desde o dia do karaokê, o dia que se entregou aos sentimentos conflituosos que sentia pelo seu vizinho. Como um bom adolescente, havia ligado imediatamente para Yoongi quando chegou ao apartamento naquela noite; precisava lhe contar tudo o que aconteceu.  E ele realmente escutou tudo com paciência, apenas para o mandar dormir depois, alegando ser tarde.

Depois do beijo, foram embora e beijaram novamente em frente à porta de madeira do apartamento. Os dias seguintes também foram regados de escapulidas para se verem. O Kim ainda pensava em uma forma de contar ao seu irmão, não tinha ideia de como ele reagiria, só esperava que entendesse.

Entretanto, de uma coisa ele tinha certeza: não esconderia de ninguém o que tinham.

O acastanhado segurava firme o guidão da bicicleta azul celeste; fora aconselhado a vestir roupas leves e acabou vestindo sua calça moletom e uma blusa de manga curta. Sunmi estava ao seu lado, digitando no celular, com seus cabelos agitando-se por causa do vento que lhe atingia a face. Ela também vestia roupas confortáveis: uma calça legging clara, uma camiseta preta e um tênis.

— Eu odeio trabalho em grupo, se pudesse mandaria todos à merda.

O Kim riu.

— Pelo menos você não teve que escrever uma redação com mais de dez linhas explicando o que a primavera significa para você. Sinta-se sortuda.

— Sortuda? — Digitou mais alguma coisa e guardou o celular. — Eu fiz esse trabalho ano passado, caso tenha esquecido. Escrevi três páginas falando sobre a primavera e o professor Choi me deu apenas cinco pontos; ainda não superei.

— Cinco pontos? Espero que ele tenha piedade de mim, sério.

A garota olhou de lado para o amigo e mordiscou os lábios em curiosidade.

— Então, você e o Jimin...

— Nós estamos nos conhecendo melhor. — Deu de ombros.

— Tipo, ficando mesmo?

— É, Sunmi, ficando — falou, achando graça da curiosidade genuína da amiga.

Os dois acabaram sendo interrompidos por um Yoongi e um Jimin aproximando-se, cada um com sua respectiva bicicleta e uma garrafinha pendurada nas mesmas.

— Vocês me devem uma grana por terem me feito acordar cedo — reclamou o de fios esverdeados. — Estou com a perna doendo de tanto pedalar, puta merda.

— É assim que pretende fugir de um apocalipse zumbi, Yoongi? Olha só para você, patético. Pedalou uns quilômetros e já ‘tá mortinho. Eu teria vergonha.

— Ah, Sunmi, me erra — falou chateado, afastando-se do grupo.

Taehyung observara a amiga afastar-se junto, apenas para continuar a discussão.

— Meu deus, quando eles vão perceber que isso é amor? — perguntou Jimin, o rosto vermelho e suado pelo esforço de pedalar em uma manhã de sol.

— Vai saber — murmurou —, no momento só sei sobre eu e você.

Jimin esboçou um sorriso bonito — aqueles em que seus olhos formam uma meia-lua.

— Quer apostar uma corrida? — inquiriu, arqueando a sobrancelha.

— Hm, o que eu ganho com isso?

— Não sei, talvez mais beijos.

O mais novo preparou-se, com as mãos firmes no guidão.

— Parece ótimo ‘pra mim — disse, disparando na frente, deixando um loiro risinho logo atrás.

 


Notas Finais


E isso é tudo pessoal! Nos vemos depois, neste mesmo site, neste mesmo projeto. Mahalo!! <3


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