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História Tokyo sad boy - Capítulo 8


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Notas do Autor


2k de palavras uh la la
desculpa começar desse jeito :)))))

Capítulo 8 - Chuva


Acordou mal naquele dia. Estranho. Estava tomando os remédios no horário, fumando um pouco menos e dormindo pelo menos 5 horas a quase uma semana. Até as aulas frequentava, qual era o problema? Não era nada de novo no fim das contas, então ignorou o peso esquisito no coração. Era diferente do que sentia quando MinGyu estava por perto; esse doía de forma incômoda. Desligou todas as luzes e fechou a porta, sozinho outra vez. Sua mãe provavelmente foi acompanhar o namorado em alguma filmagem. Irrelevante. 

Mexia a cabeça no ritmo de Junk Of The Heart — música de sua atual banda favorita, The Kooks — distraidamente quando bateu nos bolsos e descobriu, algumas esquinas depois, que esquecera o dinheiro. 

Deu meia volta e seguiu, andando rápido e firme, respirando alto e bem devagar. Manter a calma, seu médico diria. A raiva impulsiva era assídua nos episódios maníacos, era comum se descontrolar por uma coisa tão mínima. Mas era literalmente só focar no objetivo. Entrar, pegar o dinheiro, sair. Simples. 

Abriu a porta e foi afobado até o quarto. Revirou os bolsos das jaquetas, dos casacos, das calças jeans. Achou uns trocados — não o suficiente. Se jogou na cama, querendo gritar, mas só suspirou fundo. Ok, sem skate essa semana. 

Voltou para a sala, ainda sem tocar em nada, e sentou no sofá. Derrotado. Sabia que estava exagerando, mas não conseguia controlar. Desapertou a gravata do uniforme. Contemplou a solidão do cômodo escuro e não aguentou. Desabou, sem querer. Não chorava a muito tempo — desde que chegara em Kunitachi. Quase 3 meses. O peito afrouxava a cada lágrima que deixava cair, sem pestanejar. Desistira de se entender a tempos. Só permitiu, e deitou a cabeça no acolchoado. The Wanting Comes In Waves nos fones de ouvido, de trilha sonora para aquela cena melancólica. O padrasto se daria melhor na atuação. Se atrasaria muito, não daria tempo de se recompor e andar até o colégio.

Naquela quinta-feira, após uma primavera, WonWoo chorou. Choveu.

 

 夏

 

Foi um dia rápido; verão tinha dessas. Conseguiu a permissão e o dinheiro para um novo cartão no dia anterior, se sentia seguro sobre o Jeon, o encontraria no ponto de ônibus pouco antes do cais; tudo certo. Passou na loja e resolveu deixar para fazer as coisas por lá, com ele. Com esse pensamento e a confiança estabilizada por ele sempre chegar primeiro, não vê-lo onde disse que estaria o deixou confuso. E tenso.

Preferiu não tirar conclusões precipitadas, emergências acontecem. 

Mas nenhuma mensagem?

MinGyu: Onde você tá? 
[16:59]

 

WonWoo?
[17:05]

 

OK... Iria para casa, então? Os dias de semana não eram mais os mesmos sem o pôr do sol do píer, e ir sem ele era que nem quebrar uma promessa, — mais — uma tradição. Procurou nos bolsos o troco da compra, andando até a máquina de refrigerante mais próxima, já tinha aceitado que aquela seria sua última parada. O céu começou a fechar para o sudoeste, o caminho que seguiria. 


WonWoo: Puta merda
Me desculpa
Sério mesmo, me desculpa
Ainda tá aí, né?
Dá tempo de eu ir?
[17:08]

Todas foram enviadas no mesmo minuto. Riu baixinho, abrindo a lata de Coca-Cola. Estava menos preocupado agora. 
 

MinGyu: Você quer vir?
[17:09]


WonWoo: Claro que eu quero
Já tô indo, prometo
[17:09]

Ele nunca respondia tão rápido assim. MinGyu pendurou a mochila em um galho e foi para debaixo da árvore esperá-lo. 

 

 

Para um garoto a pé, ele chegou até que bem depressa. Carregava só a câmera pela correia de pescoço e parecia cansado.

— Não precisava vir... 

— Te faço um sacrifício e você diz que não precisava?! — Riu alto, indo buscar a mochila.

— Sabe que não foi o que eu quis dizer. 

— O pôr do sol já começou? — Indagou em tom de afirmação, decepção na voz meio ofegante. 

— Ele ainda tá aqui. — Só esperando pela gente, quis completar, mas quando se deu conta, ele sorria em sua direção, o deixando paralisado. Foi andando na frente até o píer após aquele milésimo de segundo que pareceu mais de um minuto para MinGyu. 

Ficaram de pé dessa vez, apoiados nas cordas que ligavam uma sustentação a outra, mais conversando e rindo e tirando fotos que apreciando a vista em si. Anemoia é a nostalgia do que não se viveu e se sentiam assim sobre os próximos segundos. Era bom, descontraído, sem ressentimentos. Como se fossem amigos a anos, e não só alguns meses. Só amigos, aproveitando o momento. Vivendo o agora. 

MinGyu olhou o celular, hora de ir. O chamou para ir junto, queria mais um tempo em sua companhia. Então seguiram, em direção sudoeste. De onde o cinza, agora escuro, vinha. WonWoo foi se equilibrando no muro de delimitação como no dia anterior, enquanto o outro registrava as flores recém plantadas para atualizar a coleção. Distraído, acabou ficando para trás.

— MinGyu?

Junto a voz do Jeon, um clarão cruzou o céu e o assustou, o fazendo parar e o corpo retrair, a espera do trovão. Não veio, ainda bem. Correu um pouco até alcançá-lo de novo, e não parou mais nenhuma vez. Temia que o temporal chegasse primeiro.

Após minutos torturantes de caminhada no cinzento, se encontraram no ponto de ônibus a uma esquina da casa do Kim, onde sempre se despediam. Foram para debaixo da espécie de telhado e sentaram-se lado a lado. Haviam chegado mais cedo que o usual e WonWoo resolveu ficar. Ele e o tempo pareciam estar conectados pois, assim que ele disse, o céu resolveu desabar. 

MinGyu se encolheu num susto quando o estrondoso som do trovão anunciou a chegada da chuva. Astrofobia. Sabia que isso aconteceria, tinha certeza, mas o seu 'eu' de 5 anos de idade ainda estava ali para lembrá-lo do medo que tinha de trovões. 

— Bom, hora de ir...?

— Fica. — Mal esperou ele terminar de falar. Tinha pavor e instabilidade na voz dele, abraçando as próprias pernas e WonWoo se sentiu péssimo. — Por favor, fica. Só até a chuva passar, eu prometo. Só... fica comigo.

Sabia o quanto era perigoso, os dois sabiam, mas a chuva só piorava e não parecia parar tão cedo. O encarou sem falar nada por alguns segundos, analisando a fraqueza daquele que mais queria proteger no mundo inteiro. Ouvia o coração bater desesperado quando disse: 

— Vem, vamos. Eu fico com você. 

 

 

Chegaram, encharcados, na porta que o mais novo se apressava para abrir. WonWoo tirou a mão de seus ombros quando ele conseguiu. Foi o guiando até o quarto, tomando todo o cuidado para não sujar literalmente tudo.

—  Não repara na bagunça, por favor, não arrumei antes de sair. — disse, ainda tenso e ansioso, ao abrir a do quarto e entrar, correndo, na frente dele. 

Era tudo tão amarelo. Tão... Kim MinGyu. 

As paredes eram cheias; murais com post-its coloridos, constelações e polaroides assinadas e flores. Muitas flores. Várias prateleiras e uma específica logo acima da cama, com um porta retrato no meio de dois modelos de câmera — uma Polaroid muito antiga e uma Pentax K1000. Supôs, para si mesmo, que eram MinGyu e o pai. Recostado numa estante, um violão alaranjado, aparentemente intocado. E o cavalete, que já conhecia, logo ao lado. Em todo lugar tinha um pouco dele — e nenhum desses lugares estava desarrumado, ou minimamente bagunçado. Olhou em volta mais atentamente e ele tinha sumido de sua vista.

— O violão... você toca? — falou um pouco mais alto para que ele ouvisse. Nessa mesma hora ele apareceu, com outra roupa e um casaco em mãos.

— Não. — Pôs o casaco em seus ombros e nem viu WonWoo sorrir pois tinha ido, em disparada, fechar a janela. — É do meu pai. — Gostava de falar sobre ele no presente. 

Por fim, se deitou na cama, de barriga para cima, olhando para o nada.

— Você tá bem?

— Uhum. — Estava óbvio, no rosto dele, que não era verdade. Se aproximou mais. 

— Ei... Calma.

— Eu tô bem. 

Foi se deitar perto dele. Mal fazia barulho, com medo de assustá-lo. Ele era mais alto, mas tão mais frágil e sensível. O puxou pelos ombros para um abraço, poderia cobrir seus ouvidos assim. 

— WonWoo... — Tentou dizer, como da última vez, mas desistiu. — Só... me diz se você ouvir alguém chegando. 

O mantinha nos braços com uma mão e acariciava o cabelo com a outra, às vezes intercalando com um beijo na testa, quando o som da chuva ficava mais alto ou um trovão rasgava os céus lá fora. Ficaram assim por bons minutos, até que todos barulhos deram uma trégua. 

— Mais calmo agora? — O olhou nos olhos. MinGyu foi o primeiro a sorrir. 

— Obrigado. 

Se odiava por não conseguir olhar para ele do mesmo jeito, e a culpa era toda dele por ser tão... imprevisível. Mas talvez ele tenha sido sim, um pouco previsível, ao tocar-lhe o pescoço e se aproximar para mais um de seus beijos. A sensação ainda parecia nova, e seria para sempre uma das melhores que já sentiu. Ele deslizava os dedos em sua pele quente quando ouviu o carro da mãe chegando. Abriu os olhos e se afastou, deixando WonWoo confuso.

— Hm?

— É ela.

— Você...

— Desculpa.

— ...tem que ir lá?

— Eu tranquei a porta. 

A beira da cama, se forçava a se recompor, nem imaginava o que aconteceria se ela soubesse.

— Eu vou com você. 

— Não precisa.

— Precisa sim. 

Esse diálogo aconteceu muito rápido, mas pareceu dolorosamente lento. MinGyu pegou a chave da mesa e foi correndo na frente, com o mais velho logo atrás. 

Respirou bem fundo quando destrancou a fechadura, e o Jeon se põs na frente dele no exato segundo que ela mudou a expressão de cansada para confusa.

— O que...?

— Calma, eu posso explicar. — Protegeu MinGyu com o braço, involuntariamente. — Meu nome é WonWoo. Sou da sala dele. — Trocaram olhares cúmplices, e só nesse momento que o moreno conseguiu respirar. O alívio daquela frase não cabia em si, daquelas sobrancelhas franzidas para ela. — Não vou ficar muito, só até a chuva passar. 

E não passou. Ficaram trancados no quarto do Kim esse tempo todo, alternando entre WonWoo se impressionando com algum desenho ou pintura ou fotografia e com os dois sentados na cama, encarando a chuva. E esse era um dos momentos. MinGyu tinha abandonado um rascunho na escrivaninha e estavam em silêncio e estáticos, olhando para a janela. Não dava para ver muita coisa, já que estava escurecendo, mas era uma ótima oportunidade para deitar a cabeça no ombro do mais novo e dividir fones de ouvido. Pensou na possibilidade da mãe ter chegado em casa, e pegou o celular. Não queria deixá-la preocupada. 

WonWoo: Tô na casa de um colega
Não sei se volto hoje
[20:09]

Esperou o "Visualizado" aparecer para descartar o celular. MinGyu não tinha movido um músculo. Até se questionou se dormia sentado antes de se mexer por causa de um trovão. Suspirou alto, exausto de sustos. A chuva piorou de novo, e foi se deitar. WonWoo foi junto, é óbvio.

Ficou á sua frente, só o olhando, quase sem piscar. Era seu jeito de dizer "Eu tô aqui", que era exatamente o que o Kim precisava ouvir. 

— Você tem as Três Marias no rosto...

— Hm? — disse distraído, mas deixou-o se aproximar.

— Aqui ó. — Ele estava, finalmente, mais calmo. —Mintaka, — Apontou — Alnilam, — de novo — e Alnitak. — e de novo. De tão perto, dava para ver que ele tremia levemente. 

— Você decorou os nomes? — Mal se mexeu, e sentiu a fragilidade em seu olhar quando o encarou para falar. 

— Você realmente não prestou atenção em mim. — Ele ria sozinho da expressão confusa do Jeon. — O cinturão de Órion é minha constelação favorita. — Apontou para o mural com o queixo. Tinham várias anotações e desenhos nele, mas principalmente sobre as três estrelas. Parecia ser bem apaixonado por astronomia.

— Desculpa... — Riu também. — Eu tava prestando atenção em você. Não em você falando, mas... — O rosto avermelhou e parou de falar. MinGyu deu uma gargalhada gostosa.

— Eu entendi. 

Voltaram a fazer silêncio, e WonWoo reparou que seus olhos estavam sempre quase fechando, mas ele mesmo se evitava. 

— Pode dormir, Kim. Eu vou ficar bem. 

— Certeza? — Sorriu sem jeito. Ainda tentava o proteger. 

— Aham. Quer chegar mais perto? — Nem respondeu, foi direto para o abraço. As pálpebras pesadas agradeciam tamanho afeto.

Acariciava-lhe a nuca com as unhas e ele descansava a mão em sua cintura. Ele apertou de repente, como se quisesse ter a certeza de estava ali mesmo, e o Jeon sorriu triste ao pensar que teria que ir embora. Com certeza a mãe dele ficaria furiosa ao ver, e depois daquela semi-conversa esquisita na sala e o silêncio constrangedor na sala de jantar, não queria nem encará-la de novo. MinGyu se aconchegou no abraço enquanto pensava num jeito de sair sem o acordar. Já seria difícil o suficiente. 

 

Despertou sentindo falta de algo, e lembrou-se no exato segundo. Permaneceu de olhos fechados por um longo tempo, não queria acordar. Foi um sonho? Ainda era sexta. Precisava levantar. Dormiu bem, pelo menos. Em paz e sem pesadelos, depois de muito tempo. O quarto ainda era o mesmo, por mais que ele parecia um furacão quando entrou. Nada de novo, exceto pelo post-it em cima da mesa que tinha certeza de não ter escrito. 

"Parou de chover e eu vim pra casa. Achei sua mãe na sala e ela me deixou ir. Ficou tudo bem, prometo.
Foi difícil sair sem te acordar. Desculpa por não poder ficar com você, não queria te arrumar problema. Vejo você amanhã?" 

Guardou o bilhete na gaveta. Estava motivado a continuar a sexta-feira agora. 


Notas Finais


não que o wonwoo seja literalmente ligado com o clima e com as estações, só quis deixar minha whole metáfora mais clara, obrigado por notar
(se você ver um erro, nem que concordância, me diz, pelo amor de deus)


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