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História Tomtord - Meu amado odiável monstro - Capítulo 3


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Capítulo 3 - Teimosia


Fanfic / Fanfiction Tomtord - Meu amado odiável monstro - Capítulo 3 - Teimosia

Segredos são algo curioso, pra ser honesta. A arte de compartilhá-los e mantê-los, seus passos misteriosos caminhados sobre a ponta dos pés. Como pequenos grãos de poeira sobrevoando nossas cabeças carregados pelo vento. Você pode não notá-los, mas estão por toda parte abaixo de seus narizes. Jamais saberás das faíscas invisíveis que formam uma áurea sobre o ambiente em que vivemos a não ser que elas te queimem. E a partir da desconfiança após o menor toque descuidado na pele de alguém, o segredo possivelmente será quebrado.

Segredos em si são mais arriscados do que pensa, mas é um hábito tão comum que você mal pode notar a lareira de faíscas que você cria ao longo do dia.

Alguns podem ser banais enquanto outros perigosos. O grau de risco após um certo mistério ser descoberto é totalmente relativo e isso é incrível. As consequências vão de simples climas tensos até covas cavadas. Há coisas que você mantêm para si mesmo, há coisas que você compartilha com mais pessoas. Conforme o número de envolvidos tende aumentar, o risco das faíscas se tornarem um completo incêndio é inevitável. Sendo realista, com apenas duas pessoas uma pequena chama já é formada. E dependendo da gravidade da situação, uma chama já é o suficiente para acabar em algo terrivelmente ruim. Mas a confiança entre os dois indivíduos é o que leva a ambos tentarem arriscar esconderem uma chama. Ou isso, ou um acidente que força as pessoas a serem obrigadas a manterem isso em oculto, sendo estas conhecidas ou não.

Se você tem algo tão grave a guardar, porque compartilharia por pura vontade com alguém que você sequer conhece?

E essa é a história de uma criatura desconhecida que arriscou a sua própria vida ao confiar num humano, que respectivamente arriscava a sua também. Burrice? Coragem? Ouvi boatos de que a curiosidade matou o gato. Mas matou cedo, matou tarde? Gatos morrem pelo mesmo motivo? Dois indivíduos que decidiram juntos brincar com fogo. Atraídos como dois insetos na direção de uma luz, duas crianças por uma cor vibrante. A morte pode ser incrivelmente sedutora quando ela quer. Mas você nunca saberá onde ela está escondida de qualquer forma.

Faz um tempo desde que as visitas de Tord se tornaram uma rotina. Todos os dias após um horas de um trabalho exaustivo, se emboscava sobre o bosque no meio dos mais altos pinheiros. Carregando uma bolsa com carne, o dinheiro da passagem e band-aids colados por cima de arranhões ganhos por meio de quedas e tropeços. Tudo aquilo começou por interesse e desejo de um conhecimento vindo de ambos os lados, quando no fim, se tornava uma amizade pura. Por que raios alguém se apegaria a uma criatura horrenda como aquela? Apesar de tudo, todos os boatos, todos os ocorridos. Ele atualmente era sua casa. O refúgio para onde ia pra esquecer do seu estresse.

A ligação que sentia com aquele monstro era estranhamente familiar. O único com que podia conversar sobre seus problemas da forma mais honesta possível, entrega a si mesmo e seus pensamentos mais profundos ao outro, que podia ouvir e entender cada palavra. As palavras perdidas no meio de sua memória. Tão frágeis e apagadas, ainda que inesquecíveis. No fim ele sabia quase tudo sobre Arkel, que no caso, sabia tão pouco sobre ele. Era uma criatura tão misteriosa. Ainda que tentasse demonstrar algo sobre ele mesmo, ainda era algo incompreensível para o humano.

— Então, você brilha? — Murmurava incerto, os olhos focados numa das folhas de um caderno velho lotado de rascunhos e anotações. — Isso eu já havia notado. Os chifres, algumas manchas no pelo parecem ficar mais vibrantes. — Mordia os lábios inferiores. — Estou esquecendo de alguma coisa?

Tord direcionava o olhar na direção da criatura, que forçava um brilho roxo que surgia do fundo do vão em seu rosto. Todavia, possuía uma duração curta e uma intensidade fraca.

— Ah, sim. O olho. — Tirou um lápis que estava atrás de sua orelha, acrescentando mais coisas no bloquinho. — Mas o que eu quero saber é o que os leva a fazer isso? Você controla ou eles aparecem do nada, são causados por emoções? Ou é as duas coisas? Por exemplo, talvez com mais intensidade quando espontâneos e dependendo da grau do sentimento. Quanto mais forte, mais intenso?

O próprio rapaz já estava perdido no próprio discurso, mas suas teorias pareciam estar chegando a algum lugar. Tirava os olhos dos rabiscos mais uma vez e encarava a criatura nos olhos com uma feição empolgada ao mesmo tempo que desordenada. Iludido, por um segundo esperava uma resposta vinda do outro. Recebeu de volta um gesto confuso sobre as falas do outro, inclinando a cabeça para o lado. A velocidade com que as perguntas eram feitas que escapava conforme mais dúvidas surgiam faziam com que o outro mal pudesse compreender do que Arkel estava falando. Além do mais, mesmo que compreendesse a que ponto o humano queria chegar, não havia muito o que pudesse fazer para responder suas questões.

— Ah, perdão. — Sua face fora repentinamente alternada para uma representação de decepção. — Você não pode me responder, não é?

Esboçou um sorriso amarelo e cabisbaixo ao fitá-lo cara a cara.

— Você também não deve ter entendido o que eu disse, certo? Algumas palavras parecem ser mais difíceis pra você compreender. Isso me preocupa. Talvez você não entenda metade das coisas que eu te digo. — Suspirou, abaixando a cabeça.

A fera se aproximou do de cabelos caramelo de imediato, esconstando sua cabeça sobre a testa do tal. Transmitia apoio por meio daquele ato, um sentimento de conforto carregado com afeto. As vezes você mal precisa de palavras para compreender algo. E aquele ser era uma perfeita oportunidade para aprender mais sobre isso. A procura de entender algo, acabava descobrindo outra coisa. Seu relacionamento era como uma caixinha de surpresas que até o momento, apenas lhe traziam coisas boas. Ele apenas queria se livrar das suas rotinosas noites solitárias, e conheceu alguém que estaria sempre ali para expulsar seu sentimento de solidão mesmo que por algum tempo. Quando pequeno, foi ensinado a não confiar em desconhecidos. Mesmo tão novo parecia algo tão simples da primeira vez que ouviu, mas agora que justamente não era mais uma criança, este era seu melhor amigo.

Mas os dias não eram apenas um mar de rosas, no caso, noites estreladas acima de folhas de pinheiros. Pelo contrário, ele sempre começava da pior forma possível. E estava mais uma vez, nosso querido e adorado Tord, trabalhando como um escravo junto do seu colega de trabalho amargurado e odioso para uma pessoa amargurada e odiosa. Estava no primeiro andar, onde ficavam uma parte das mercadorias nos corredores de prateleiras e os caixas nos fundos da área. Vinte e nove de outubro, dez e quinze da manhã. O clima parecia nublado, a névoa circulava os arredores junto de um vento gelado que carregava as folhas secas e douradas para um passeio. A movimentação no estabelecimento era comum para aquele horário. Não estava lotado, muito menos vazio. Clientes indo de um lado para o outro dando uma olhada nos produtos, enquantos os funcionários auxiliavam-os a se localizar naquela loja.

Nada e ninguém é perfeito, logo, não é como se uma estação fosse estar fora disso. Ah, o outono. Uma paisagem e estética maravilhosa acompanhado de um terrível tempo frio e seco. Como código de vestimenta da loja, você não pode usar nenhuma espécie de agasalho que cobrisse o uniforme. Por um lado, a camisa do traje tinha mangas compridas, mas por outro, eu já devo ter mencionado sobre o tecido delicado. Não esquentava muita coisa, mas já dava pro gasto. Era "sobrevivível", então já estava ótimo. Entretanto, o uso de o uso de luvas, gorros ou cachecóis que não ficassem sobre o símbolo da loja eram permitidos.

Posso dizer que Tord parecia quase adorável usando um par de luvas e uma touca de lã na cor vermelho carmesim. O rosto emburrado e carregado de sono, totalmente indisposto. Um preço pela sua felicidade noturna eram as noites mal dormidas, vendo que ele voltava tarde de volta para sua casa. Seus cabelos estavam bagunçados e seus lábios ressecados pelo clima, que trouxe um pequeno resfriado para deixá-lo ainda mais exausto. Fungava o nariz de cinco a cinco minutos, da forma mais discreta possível, ai dele se seu chefe o pegasse naquele estado. Não só ele, mas todos também pareciam ter sido afetados pelo temporal.

Arkel, com um esfregão em mãos, limpava o piso com atenção. As exigências de Austin eram rígidas e este não aceitaria menos que um chão brilhando a ponto deste ver seu próprio reflexo. Para evitar broncas, tirava uma força de vontade de onde nem mais tinha e continuava a seguir com suas tarefas, o mesmo com Edd e Matt, que estavam no mesmo corredor organizando uma prateleira de panelas e frigideiras.

— E pensar que há semanas atrás estávamos abençoando o outono. — Comentou Edward, limpando a garganta. — Meus olhos estão totalmente secos.

— Meus lábios dizem o mesmo. — Reclamou.

— Também estou resfriado. Mas prefiro isso mil vezes do que meu cabelo ficar indisciplinado. — Disse Matthew. — Deus me livre de frizzar que nem no ano passado.

O de cabelos mais curtos riu, abrindo uma caixa que estava no chão, a sua direita, com mais algumas frigideiras dentro dela.

— Eu lembro disso. Dava pra escutar você fazendo escândalo lá do Bloco nove.

— Deixa de ser exagerado! Eu nem fiz tanto drama assim. — Respondeu.

— Ah, isso você fez sim! — Se intrometia, Tord. — Você só faltou chorar no trabalho quando viu que seu cabelo não estava bom, sua Drama Queen.

O ruivo, indignado, quase derrubava uma panela de pressão que tinha em mãos ao se virar e encarar o dono do comentário anterior, ofendido.

— Eu?! Drama queen?! — Questionava. — Aquilo foi mais que necessário naquela situação! Imagina se eu tivesse algum compromisso inesperado?

Seu comentário fazia com que Gerould se recordasse de algo no mesmo instante, abrindo um largo sorriso no rosto do rapaz.

— Isso, verdade! Pessoal, pessoal! — Cortava o assunto ao chamar os dois, empolgado. Ambos voltavam o foco em Edd, esperando com que está prosseguisse sua fala. — Eu até tonha esquecido de perguntar, vocês viram o convite da Kim?

— Da festa de reunião do colégio? — Disse Matt, abrindo um sorriso igualmente animado.

O outro parecia mais um peixe fora d'água naquela conversa, franziu o cenho ao emitir um olhar confuso na direção dos amigos.

— Kim? Festa? Colégio? — O tom de voz embaralhado se intensificava a medida que mais pontos de interrogação surgiam.

— Você não está sabendo? — Arregalou seus olhos verdes, surpreso. — Ela convidou todo mundo do último ano e o pessoal do grupo dela também foi espalhando.

— Não, não. — Completou o norueguês com uma risada. — Eu não mantive muito contato com a galera do ensino médio. — Explicou. — Quem é que está organizando, mesmo?

Os dois colegas ficavam mais chocados ainda a seguir da pergunta feita pelo de gorro carmesim.

— Você não se lembra dela? A garota que virou popular assim que chegou no nono ano. — Edd prosseguia, na tentativa de fazer o mais novo se lembrar da pessoa mencionada. — Loira, olhos azuis...

— Ah, sim! — Voltava a limpar o chão. — Lembrei. Nossa faz séculos que eu esqueci da existência dela.

— Céus, e olha que você ainda era apaixonado por ela naquela época, imagina se não fosse? — Brincou, Rheaves.

Tord erguia uma de suas sombrancelhas, fazendo uma cara de quem comeu e não gostou misturada num sorrisinho amarelo.

— Apaixonado é uma palavra forte. Eu no máximo tive uma quedinha ou outra por ela ser extremamente bonita. Mas não foi ela a minha paixonite idiota de adolescência. — Explicava. — Nada que durasse mais de duas semanas.

— Não? Céus, eu vivi uma mentira. — Comentou, Edward num falso ar embasbacado.

— É, parece que sim. — Soltava um riso nasal. — Mas me digam, o que ela está tramando? — Interrogava.

Edd seguia seu caminho até o fim do setor para voltar as panelas pequenas para o lugar, a distância entre eles não era muito longa, mas o suficiente para fazê-lo aumentar apenas um pouco o tom da sua voz.

— Nada demais, apenas uma festinha qualquer. Ela quis reunir todo mundo da nossa antiga turma, e até agora, todo mundo parece bastante animado pra ir. — Prosseguiu, o de cabelos castanho escuro.

— Só a nossa turma vai? — Continuava seguindo as dúvidas, tentando se localizar no planejamento da loira.

— Acho que era essa a ideia, mas que eu saiba pode ir qualquer um. Talvez a outra turma e até mesmo as que eram um ou dois anos mais novas, levando em conta que os irmãos da Olívia também vão.

Tirava os olhos do cabo do esfregão e os voltava para Gerould. As orbes pouco mais abertas, mantinha uma face um pouco mais neutra, removendo o pequeno sorrisinho de segundos antes.

— Eles vão? — Questionou. — Livinha também?

— Todo mundo vai, Tord. — Disse, o ruivo.

— Entendo. E isso aí foi programado pra quando?

— Amanhã, sexta feira à noite. — Matt mal esperou o norueguês terminar a pergunta quando o atropelou com a resposta dela.

Arkel arregalou os olhos, desconexo.

— Amanhã à noite?

— Claro, oras. É quando a maioria das festas acontecem. — Edd comentava.

— É, sim. Mas é que eu já tenho planos pra essa noite. — Desviou o olhar.

— Ah, Tord, qual é? Pode ser divertido! — Ajeitou sua touca roxa, com um sorriso estampado sobre a face. — E você realmente parece estar precisando relaxar um pouco do trabalho.

— Sim, e eu vou relaxar com os planos que eu já tenho em mente. — Teimou.

Ambos os outros dois se encaravam desconfiados antes de colocar seus olhos sobre o jovem com os braços cruzados.

— E que compromisso é esse? — Investigavam.

Tord engolia a seco, nervoso, evitando de todos os jeitos qualquer resquício de contato visual. Suas mãos tremiam enquanto fingia estar focado em sua tarefa.

— Ah, o de sempre. Um tempo sozinho pra mim, uma coleção de coisas que eu não assisti e um pote de sorvete de baunilha.

Inventava a primeira e mais óbvia desculpa que via na frente. Emitiu uma certa alegria na frase, tentando deixar claro que estaria feliz mesmo se não comparecesse no tal evento. Mas nenhum dos dois parecia cair nessa. O de cabelos castanhos fechou a cara ao tomar o esfregão das mãos do mentiroso, forçando-o a ter que encará-lo nos olhos.

— Tord, você faz esse tipo de coisa todo final de semana! — Lamentava, Edd. — Não vai ser a mesma coisa sem você. Vai ser legal! Como nos bons e velhos tempos. — Sorriu num trejeito fraco. — Além do mais, a quanto tempo nós não saímos juntos?

— É, eu sei. — Suspirou. — Mas eu só não estou com muita cabeça pra isso tudo. Se eu for eu tenho certeza que vou ficar sendo um peso morto rabugento, e eu quero que vocês se divirtam também.

— Você não tem jeito, viu? Acho que não temos muito a fazer pra te convencer. — Respondeu compreensivo ao que negava com a cabeça. — Mas tudo bem. Saiba que se você mudar de ideia...

O ruivo interrompeu-o na mesma hora.

— Nós vamos ir na mesma hora te buscar! — Prosseguiu num ar simpático.

— Matt tem toda a razão. — Riu. — A gente também trás a comida que sobrar.

— Eu não mereço vocês, cara. — Brincou, apoiando suas mãos sobre os ombros de ambos os rapazes.

— Para de graça. — Brincavam ambos.

O ambiente era formado por risos descontraídos. Uma alegria quase que contagiante. Mas algo de repente os chamava a atenção, que no caso, eram os passos fervorosos de seu chefe se aproximando do grupo. Entretanto, o estranho era que não aparentava estar irritado, mas sim, preocupado. Poderia sentir a angústia por meio de seus jeitos e andares, segurava seu celular próximo ao ouvido enquanto parecia estar atendendo a uma ligação. Não levou muito tempo até ambos os três voltassem toda a atenção para descobrir o que deixava Austin tão encabulado, até mesmo Tom, que estava num corredor um pouco mais distante, foi se aproximar para entender a situação.

— Mas que merda, cara. Eu espero que eles façam justiça. Um caso desses não pode ser deixado de lado. — Lamentou. — Até mais, preciso voltar aos negócios. Me atualize do caso assim que puder.

Então desligou a chamada e pôs o aparelho no bolso. Os olhares desordenados voltados para ele não passaram despercebidos, mas ao contrário do usual, que seria brigar com eles por estarem se intrometendo onde não eram chamados, estava apreensivo demais para fazer qualquer coisa. Apenas abaixou a cabeça, fazendo um sinal de reprovação.

— Senhor Tanner? Aconteceu alguma coisa? — Questionou Edd, estranhado.

— Nada, não aconteceu nada e esse é o problema. — Disse, claramente tenso. — Sabem do caso de Michael, filho do Elias Abbot?

— Abbot, o milionário? — Palpitou, Tord.

— Ele mesmo.

— Ué, mas já não tinham descoberto o que aconteceu com ele? — Perguntou o ruivo.

O de cargo maior suspirava ao cruzar os braços, olhando para baixo sem necessariamente curvar a sua postura.

— Na verdade não. Pensavam que ele tinha sido assassinado e desovaram o corpo dele na floresta para insetos ou animais carnívoros, mas até hoje não conseguiram achar o culpado. Nem sabem direito se foi um homicídio ou não.

— Caramba, mas eles nem sequer tem mais provas ou nada do tipo pra assumir um culpado? — Questionava Matt.

— Quase nada. Tudo o que encontraram foi seu corpo já totalmente desfigurado, chegaram a conclusão de que algum lobo tentou devorá-lo, assim como todas as pessoas que foram encontradas mortas ali dentro.

Todos ali estavam mais angustiados do que chocados. O caso de Michael Abbot era o que mais circulava pelas redes de TV da cidade, então, sua morte não era lá uma surpresa para ninguém, com exceção de Arkel. O homem parecia espantado ao escutar aquilo, tanto por não ter ideia do falecimento do outro quanto pelo local em que tudo ocorreu. Não tinha palavras para dizer, nada parecia querer sair de sua boca. Parecia num imenso estado de pane.

— Tord, você está bem? — Questionou, Gerould, preocupado.

— Eu? — Saía do transe meio embaralhado. — Sim, sim. Estou ótimo. Mas eu não estava sabendo de nada disso. Nem mesmo soube que ele havia morrido.

— Não soube?! — Os quatro ao seu redor interrogavam, pasmos.

Tord arqueou uma de suas sobrancelhas, confuso.

— Não? — Respondeu, receoso.

— Como não? É o que mais está sendo falado na televisão desde o dia em que foi relatado! — Completou o ruivo.

— Ah, entendo. Acho que é porque eu não assisto televisão. — Explicava.

— Ué, por que não? — Perguntou, seu chefe.

— Nada demais. Nem eu mesmo sei, acho que é só um hábito, uma intuição, mania, sei lá.

Acenou com a cabeça para os lados, como se desejá-se relevar aquele fato e seguir com o assunto principal.

— Mas enfim. — Prosseguiu, Edward. — Tinham assumido como culpado um dos funcionários da empresa dele e de seu pai antes, não?

— Sim. Mas descobriram esta manhã que seu relato de estar em coma alcoólico durante o período em que Mike foi morto era verdadeiro.

Ainda que o norueguês estivesse totalmente perdido no diálogo e aparentemente não tivesse nada a dizer naquela situação, o rapaz suspirou ao encarar o mais velho nos olhos num tom verdadeiro.

— Mas que coisa. Meus pêsames, senhor Tanner. Ele era um amigo seu, não era?

— Sim, nossos pais são próximos e nós dois também éramos antes disso tudo. — O homem aparentava ainda chateado com tudo aquilo, ao ponto de até mesmo baixar sua guarda. — Apenas quero que o que foi feito não seja passado em branco.

— Lhe desejo sorte.

Austin demonstrou um sorriso lateral de milissegundos antes de ser interrompido pelo próprio pigarreio. Num só instante retomava a sua forma anterior, durona e cabeça quente. A sua face ia de um rosto melancólico e penoso de volta para o auto-retrato do diabo de acordo com Tord e seus colegas. Os quatro, que não eram bobos nem nada, já notavam seus planos e igualmente assumiam uma postura mais profissional. Costas eretas e cabeça erguida, o rosto que parecia naturalmente neutro quando na verdade era uma maneira cagada de esconderem seus trejeitos de quem está com o cu na mão.

— Chega de tagarelar e vamos voltando para o trabalho! Não quero ninguém procrastinando ou fazendo corpo mole. Vamos, vamos! É pra ontem! — Ordenava enquanto batia palmas, tentando apressá-los. A mudança de voz também era escancaradamente notável. Os berros até mesmo assustavam os garotos.

— Pode deixar, senhor. — Disse, Edward.

Todos já estavam indo um para cada canto em busca de arrumar algo pra fazer. Uma prateleira pra arrumar, um cliente pra encher o saco, um lugar pra se enfiar e não precisar fazer nada. Edd e Matt foram direto, entretanto, algo acabava parando os outros dois que restavam sem que eles dessem mais de três passos a diante.

— Senhor Westwell e Van Arkel. — Chamou-os.

— Sim, chefe? — As vozes saíam quase sincronizadas ao que ambos se viravam na direção do homem.

— Iremos fazer uma encomenda. Um caminhão levar um conjunto de uma mesa e mais quatro cadeiras para um cliente que mora no mesmo condomínio que os dois, eu quero que acompanhem os rapazes que irão buscar.

Os colegas de trabalho torciam o nariz, fazendo cara de quem comeu e não gostou. Apenas uma encarada para seu chefe e já estava escrito em suas testas que não estavam nem um pouco afim de ficarem juntos um do outro. Austin não precisou dar uma palavra para responder que não se importava com a vontade deles, e foi isso o que começou a deixar ambos desesperados ao ponto de implorar de joelhos para que os deixassem ali ou substituíssem um deles.

— Tanner, eu sinto muito mas eu estava no meio de uma tarefas, e eu sei que o senhor odeia quando as coisas são cumpridas pela metade, não é? — Dizia Tord, toda numa postura de bom moço.

— Faço minhas palavras as dele. — O de olhos vazios não ficou de fora da cena armada. — Edd e Matt também moram lá, garanto que eles devem estar desocupados.

— Nem pensar, eu não quero ouvir suas desculpinhas. Eu quero que vocês dois vão, pronto e acabou! — Seu posicionamento parecia firme como uma rocha. — Não estou nem aí com as suas implicâncias, e se eu ouvir uma reclamação de vocês... — Ameaçou.

O de cabelos pretos nem precisou terminar sua fala para conseguir intimidá-los a ponto de fazer ambos consentirem com suas ordens.

— Ok, ok. Você quem manda. — Continuou Tom.

— Ótimo. Eles estarão aqui em dez minutos, aconselho vocês já irem levando as coisas pra porta dos fundos.

Dito e feito. Ainda que estivessem resmungando e bufando internamente, naquelas circunstâncias não teriam nada a fazer se não fazer o que lhe era pedido. Mal conseguiam se encarar ou se olhar nos olhos, e quando acontecia, desviavam quase automaticamente. Com cara de cu estavam e certamente permaneceriam daquela maneira até retornassem novamente a loja. Já ficaram mais do que inúmeras vezes sozinhos na loja, sozinhos eu digo, quando os dos outro cargo não estão presentes no mesmo espaço. Mas você apenas finge que eles não estão ali, vão arrumar uma janela pra limpar, vai pro outro lado da loja... Já quando são escolhidos para auxiliar em entregas e essas coisas, estes precisam passar o dia juntos trabalhando em conjunto. Não é como se ambos fossem como um daqueles cachorros pequenos que se passar na frente começa a latir como louco querendo briga, mas como já viram antes, não eram lá muito chegados um com o outro.

Pelo incrível que pareça, principalmente para Tord, ultimamente este tem notado que Thomas o trata com um pouco mais de paciência. Quando estava de saco cheio das brincadeiras do outro, mesmo num nível extremo, seguia a respondê-lo de forma grossa e saía de perto. Obviamente, Arkel ainda detestava aquilo e tinha seus motivos para odiá-lo, assim como Tom, mas chegava a ser estranho. Num dia, só faltavam saírem na porrada, no outro, um ódio quase passivo agressivo. Até mesmo Edd e Matt estranhavam o clima repentinamente calmo. E digamos que até Tord sentia uma certa falta das suas intensas trocas de olhares com seus rostos quase tão próximos. Odiava ficar perto do outro, mas se fosse pra ficar, que ficasse o mais grudado possível.

Nos dias de verão, o calor dentro do caminhão era insuportável. Mas com o frio lá fora, até que o clima era agradável. Apenas isto, pois ficar lá dentro lhe causava incômodo e desconforto do início ao fim. Na maioria das vezes quando era escolhido, Arkel puxava assunto para que o tempo passasse mais rápido. Porém, a situação ali era diferente. Tom estava sentado bem no cantinho, uma de suas pernas esticadas enquanto a outra servia de apoio para seu braço. Os olhos do norueguês, que se acomodava no canto a sua frente abraçando os joelhos, o observava discretamente. Sua feição distraída. Sempre mantendo uma postura edgy, mas no fundo o outro desconfiava que na verdade por trás de toda aquela pose, Westwell era um rapaz sensível e até tão frágil quanto ele mesmo. A teoria o fez esboçar um risinho quase nasal, estava com a cabeça nas nuvens quando de repente ouviu ser chamado.

— Tord?

— Sim? — Sua expressão parecia até assustada após retornar a realidade.

— Eu sei que nós dois queremos isso, então. Se você puder colaborar pra gente acabar isso o mais rápido possível, eu agradeceria. — Disse num ar amargurado.

Eu não seria capaz de explicar o quanto o outro quis fazer uma cara de desgosto e mostrar-lhe o dedo do meio. Mas tirou forças para se segurar e apenas desviou o olhar. Achava quase inadmissível que seu próprio colega de trabalho não conseguiria ficar perto dele por uma tarde?

"Ah, que ele vá se lascar! Eu que não quero ficar sozinho com esse insuportável."

Não levou mais que alguns minutos severamente silenciosos até que estivessem no condomínio. Se tratando do orgulho que os dois tinham em relação ao relacionamento dos dois, passariam-se horas e horas e nenhum deles iria querer abrir a boca para conversarem um com o outro. Só nisso, já era mais que óbvio que viria uma tarde tediosa e monótona pela frente.

Condomínio BoulydView, possui ao todo doze blocos, todos prédios na cor cinzas ou azul marinho. O local possui sorveiras espalhadas pelos arredores, algumas com bancos de concreto abaixo delas, além de violetas em vasos de barro que cercam as construções. É normalmente pacato, um ambiente confortável para se viver.

O caminhão já tinha estacionado num espaço próximo ao prédio em que a cliente morava, estavam entre o bloco cinco e o bloco quatro. O de olhos cinzas tinha em mãos uma prancheta a qual o homem que estava dirigindo o entregou antes de ajudar um outro que estava com ele a ajeitar os móveis empacotados junto de Tom, que foi chamado para ajudar nessa parte.

— Alice Anderson, apartamento duzentos e nove. — Lia a folha que estava presa. — Ah, senhora Anderson. — Abriu um pequeno sorriso.

— Você a conhece? — Perguntou um dos homens.

— Digamos que sim. Ela pega o elevador junto comigo, sai as manhãs pra passar na padaria aqui da frente. — Comentou. — A gente acaba batendo papo até cada um ter que ir numa direção.

Ele não era lá a pessoa mais amável do mundo, mas sabia muito bem como ser dependendo da pessoa ou criatura.

Discou para a portaria no interfone em frente ao portão, não levou mais que um toque até que fosse correspondido.

— Bom dia, pois não? — Questionou.

— Bom dia, Theozinho. — Cumprimentou-o num riso. — Encomenda para a senhora Anderson, do segundo andar. Uma mesa e quatro cadeiras.

Pelo apelido carinhoso e sotaque, o senhor na mesma hora já sabia quem estava do outro lado.

— Ah, sim. — O tom de voz rapidamente alternava pra um ar mais alegre. — Pode subir, ela já deve estar esperando por vocês.

Alguns ruídos contínuos se ouviram e então a porta era aberta. O rapaz abriu a porta para que os outros três passassem. Thomas encarou-o por alguns segundos, como quem quisesse dizer algo, mas acabava relevando e desistindo, retomando sua atenção ao pacote que carregava. Seguiram o grupo em direção ao elevador de serviço. Por fim estavam na porta da mulher. Um dos homens tocava a campainha, e na mesma hora já se ouvia de resposta uma voz idosa de dentro.

— Já vai!

Passos pra lá, outros passos pra cá. Cada ruído era ouvido por meio do corredor silencioso que era o segundo andar. Barulhos de chaves balançando e a entrada sendo destrancada. Uma vez que aberta, havia uma senhorinha baixa com curtos e ondulados cabelos grisalhos e um agasalho muito provavelmente de lã na cor cinza. Os óculos enormes, os quais seus olhos azuis quase passavam despercebidos. Esboçava um sorriso tão doce e puro que poderia ser até contagiante.

— Trouxemos sua encomenda.

— Ah, são vocês. Por favor, entrem! — Ela dava espaço para que eles pudessem passar, parecia demonstrar felicidade ao notar que o norueguês estava entre eles. — Meu querido, como vai?

— É, vou indo, senhora Anderson. E você? — Prosseguiu ao voltar a segurar a prancheta, retirando uma caneta do bolso.

Ele parava para cumprimentá-la melhor enquanto os outros seguiam em frente para deixar o pacote escorado em uma parede.

— Vou bem sim, meu filho. Nesse tempo eu vivo com dores pra lá e pra cá, mas eu estou bem.

— Que bom. — Riu adorável. — Poderia assinar aqui, por gentileza?

Entregava a prancheta para a mais velha, dando leves batidinhas com a ponta da caneta em cima do lugar em que ela deveria escrever antes de entregá-la também. A idosa espremia os olhos e se curvava para colocar seu nome sobre o espaço na folha. Devolvia as coisas ao outro, que fazia uma reverência.

— Você tem um ano e noventa dias de garantia. Qualquer defeito não hesite em falar diretamente com a loja. — Ele dava um pulinho, colocando um dos braços atrás do corpo enquanto a lateral da sua mão aberta se direcionava direto a testa. — Dandelionzz agradece a preferência! — Completou num riso.

A graçinha feita pelo rapaz fazia a mais baixa soltar uma agradável risada. O jeitão bobo e carinhoso vindo daquele cara era quase estranho na visão de Westwell. Mas não deixava de ser fofo, até mesmo ele revirou os olhos num sorriso curto e discreto.

— Só você mesmo, bobinho. — A senhora segurava de levinho uma das bochechas do outro com a mão esquerda.

Ela deu alguns passos para o interior do cômodo, ficando quase no centro.

— Rapazes, vocês podem deixar as coisas nesse canto mesmo. Quero que montem as coisas ali naquele lugarzinho que eu deixei desocupado. — Apontava com o indicador para um espaço vazio próximo a janela.

— É pra já, senhora. — Respondeu um dos homens.

A porta foi deixada aberta. Os quatro seguiam para baixo novamente buscar o resto das peças que estavam empacotados. Em si, aquilo tudo era um porre. Descer o elevador, pegar uma das embalagens, subir o elevador, deixar na casa da moça e repetir aquilo novamente. Ao contrário dos dois que já estavam acostumados com o trabalho, vendo que faziam aquilo diariamente, Tom e Tord não eram muito chegados aquela tarefa, tendo em conta de que eram apenas enviados para ajudar de vez em quando. Para ambos, parecia que aqueles pacotes não tinham mais fim. A medida que subiam com eles, surgiam mais e mais dentro do caminhão. Fora o peso daquela coisa, uns eram leves e fáceis de carregar, enquanto outros, extremamente pesados e você precisava de todo um jeito para carregar corretamente. Não como se não fizessem isso toda hora no trabalho, mas ao menos eles tinham alguma pausa de cinco minutos ou outra ao invés de ir levando e buscando freneticamente.

Uma vez que tudo já estava lá em cima, estes ficavam ali parados com cara de taxo. Não sabiam o que fazer ou como ajudar, então apenas ficavam ali esperando receber alguma ordem. Ainda que em teoria o trabalho deles ali era inspecionar para ver se estava tudo em ordem e checar se os outros cumpriam seu trabalho corretamente, estes sempre deixavam seus companheiros temporários no comando, vendo que tinham bem mais experiência naquela situação. Logo, a real função deles era ficar lá como mero auxílio obedecendo-os ou trazendo um copo de água.

Mas nenhum deles era igual. Tinha quem cobrava rigidamente a ajuda dos que estavam lá acompanhando, os que não ligavam muito pra isso e a galera que não quer nem que você chegue perto para não atrapalhá-los. Na dúvida, era sempre bom perguntar.

— Hm, senhores? — Chamou, Tord. — Podemos ajudar vocês de alguma forma?

Ambos fitavam-os num ar quase indiferente.

— Olha, vendo que agora é só montar isso aqui eu não acho que vamos precisar de nada. — Comentou um deles. — Podem ir almoçar ou tirar o tempo pra uma pausa, a gente se vira a partir daqui.

— Se precisarmos da ajuda de vocês iremos chamá-los. — O outro complementava. — Só não saiam do prédio, por gentileza.

— Não iremos.

E assim os homens voltavam ao trabalho, ao que os outros dois saíam da residência da mulher e se dirigiam até o corredor. Pelo visto, estavam liberados, mas ao mesmo tempo não tinham a menor ideia de pra onde ir ou que fazer. Assim como mencionado antes, nenhum deles queria dizer nada diretamente um ao outro. Mas o silêncio naquela situação não os levaria a lugar algum.

— Então. — Começou, Thomas. — Você pode ir perambulando por aí ou sei lá o que você faz de melhor nessa sua vida. Eu vou lá pra baixo aproveitar esse tempo pra comer meu almo-

Os olhos do britânico se arregalavam por um instante. O motivo era por ter se recordado de um pequeno detalhe, pequeno detalhe o qual só reparou agora.

— Puta que pariu. — Direcionou a palma da mão sobre seu rosto, curvando a postura.

— O que houve? — Questionava, curioso. Arkel ainda não tinha se ligado no que seu colega queria dizer.

— A gente se concentrou tanto em levar a encomenda pros fundos da loja que esquecemos de trazer nossa comida. — Explicou. — E nem podemos sair daqui pra pegar alguma coisa.

O de gorro vermelho torceu o nariz, estralando a língua. Nada muito escandaloso ou coisa do tipo, apenas para mostrar compreensão. Achava a situação chata, nenhum motivo para se espernear, até porque já tinha a solução para aquele problema.

— Não podemos sair do prédio, mas o meu apartamento fica no quinto andar. Se você quiser passar lá, a gente pega alguma coisa só pra tapear a fome. — Deu de ombros, num sorriso de curta duração para não parecer mal educado.

— Eu já deixei bem claro que eu tolerar você é totalmente diferente de eu ser seu amigo. Não te meto a porrada, dou um bom dia, boa noite e olhe lá. Já está sendo mais do que o suficiente pra mim.

Westwell era um tremendo cabeça dura, não aceitaria o convite tão facilmente. Tord, já estava começando a se irritar, saindo do modo piedoso e amigável ao cruzar os braços e fechar a cara.

— Você poderia ser um pouquinho menos difícil, não? — Argumentou. — Está com fome e vai passar a tarde assim só por não querer aceitar meu convite por pura teimosia.

— Não é teimosia, eu só não tenho a menor intimidade pra ir e almoçar na sua casa. Além do mais, eu nem estou com tanta fome assim.

O tiro saía pela culatra no primeiro ronco que seu estômago dava, causando um desconforto aparente. Van Arkel não nasceu ontem e certamente entendeu o que estava acontecendo ali.

— Viu só? Você dificulta muito as coisas. Só come alguma coisa e pode ir pra onde você quiser depois. Eu não ligo. — Explicou. — Você vai passar mal, cara. Sua pressão pode até abaixar, não pode trabalhar desse jeito.

— Por que está agindo como se você se importasse?

— Você fez a mesma coisa fazendo curativo no meu rosto. — Sorriu. — Digamos que eu esteja apenas retribuindo um favor. — Piscou um dos olhos.

Tom acabava soltando uma risada nasal, acenou com a cabeça enquanto seguia em frente, o outro ia logo depois em direção ao elevador social. O de olhos cinzas pressionou o botão para o andar onde morava, e assim a porta fechava.

— O pessoal do prédio parece gostar de você. — Comentou, ainda com os braços cruzados. Ainda que estivesse conversando com o outro, mantinha uma postura totalmente fechada.

— O que? Ah, não, não. — Gargalhou. — Quase todo mundo desse prédio e desse condomínio me odeia, não entenda errado. O Theodore é gentil com todo mundo ao mesmo tempo que a senhora Anderson, acho que nunca vi nenhum deles desgostar de alguém daqui. Mas tirando eles...

A porta abria novamente, logo os colegas de trabalho saíam do elevador e seguiam o caminho até a porta quinhentos e três. Uma mulher, provavelmente mais de dez anos mais nova que a Alice, caminhava pelos corredores na direção contrária.

— Bom dia, senhorita Ellen. — Cumprimentou num aceno.

A mulher torcia a cara, desviando o olhar ao passar reto do rapaz e seu companheiro. Thomas a olhou torto devido seu comportamento, fazia quase se não exatamente a mesma coisa que ela, mas sabia que o outro provavelmente não dava motivos para a outra ser grossa daquela maneira.

— É, acontece. — Deu de ombros num riso, quase que acostumado. — Enfim.

Ele tirava a chave do bolso da calça, um chaveiro que tinha uma figura da versão chibi da Nozomi. Destrancou a porta e fez um gesto convidativo para o outro, que limpava os pés no tapete em frente a porta antes de pisar lá dentro.

— Com licença. — Adentrou o espaço meio sem jeito. O modo educado repentino que parecia surgir magicamente deixou o outro homem intrigado.

"Essa educação aí ele tirou do cu, foi?"

— Fique a vontade, pode se sentar ali no sofá. — Esperou o rapaz passar da entrada para fechá-la novamente e enfim seguiu para a cozinha.

O outro, assim como foi convidado acabou acomodando-se sobre um dos assentos. Mal pareciam estar brigando faz cinco minutos atrás. Atualmente, estavam um pouco tensos e extremamente desajeitados, nunca chegaram aquele ponto. Até o momento, aquela situação aparentava zero naturalidade ou sinceridade. Tão tímidos que nem pareciam se conhecer há anos, mas terem acabado de se conhecer.

— Eu infelizmente não tenho nada pronto aqui, mas o suficiente pra enganar o estômago até voltarmos para a loja. — Abriu a geladeira e os armários, dando uma olhada nas opções que tinha.

— Que nada, sem problemas.

— Gostaria de saber se eu posso te oferecer um chá com biscoitos.

"Uma água, um café, meu corpo nu..."

— Ah, sim. Claro.

— Certo. — Prosseguiu. — Eu disse que não sou muito chegado a assistir televisão, mas se quiser, o controle está em cima da mesa ou no meio das almofadas.

Tirou as luvas e lavou as mãos no tanque ao lado. Colocou a água para ferver enquanto arrumava alguns dos biscoitos amanteigados que mantinha dentro de uma jarra acima da geladeira numa bandeja. Ainda que estivesse com a cabeça concentrada em outra coisa, ainda ouvia os ruídos da televisão no outro cômodo. Ao que esperava o líquido esquentar, retornou a sala onde encontrava o outro sentado. A postura curvada com a cabeça apoiada a mão destra, cujo braço tinha como base sua perna. Nunca sequer esperou vê-lo na sua casa se não para pessoalmente ir enchê-lo de porrada. Notá-lo assim tão amigável, como posso dizer, era quase como cômico.

Ainda sim, não quis se aproximar muito, ficando apenas de pé em frente a porta da cozinha. O jornal da região passava na TV, a matéria discutida era justamente a morte de Michael Abbot, que havia sido morto na Floresta do Norte. Uma repórter de cabelos loiros presos num rabo de cavalo apresentava a situação. Sua voz apresentava profissionalidade e seriedade.

"O caso do filho do grande milionário, Elias Abbot, que foi encontrado morto na floresta do Norte ainda é um mistério. O homem que fora acusado de assassiná-lo, Ron Barret, empregado da empresa de seu pai, foi declarado inocente durante o julgamento de ontem a tarde. Ainda se crê que o real culpado está a solta, os que estão cuidando deste caso irão investigar mais sobre."

A alta possibilidade de quem ter feito tudo isso ter sido seu amigo monstro, dava calafrios ao rapaz. Não por medo de acontecer com ele também, mas sim por não poder se iludir mais que o seu colega não era tão puro quanto aparentava.

— Céus, eu ainda não consigo acreditar que algo assim aconteceu. — Disse Tord, embasbacado enquanto mantinha os olhos fixados na tela. — E eu nem estava sabendo.

— Você não está perdendo muita coisa. — Mostrava todo um jeito indiferente, neutro em relação a todo o acontecimento. — Nada de interessante, nada pra se desesperar.

Deu de ombros, despreocupado. O norueguês apenas encarava-o.

— Me desculpe perguntar, mas que merda de mania é essa que você não assiste televisão? — Terminou numa risada. — Isso é loucura.

— Ah, sei lá. É como se um outro eu reprimisse isso por alguma razão, e quem sou eu pra criticar alguma coisa?

— Você é estranho. — Negou com a cabeça, ainda gargalhando. — Eu meio que gosto disso.

Tord segurava o sorriso espontâneo, mas não podia contêr suas mãos trêmulas. Dirigia-se até a cozinha, não só para checar o chá, mas também para esconder o nervosismo de sua visita. Entretanto, sua personalidade não podia deixar uma oportunidade dessa passar em branco.

— Gosta, é? — Provocou. — Admita que você gosta de mim, Tommy.

— Eu? Gostar de você? — Revirou a cara, enojado. — Eu apenas quis dizer que se você fosse um pouco mais maduro, até dava pra conversar com você.

— Eu não. Não consigo trocar mais que duas palavrinhas com você sem querer vomitar. — Retribuiu a grosseria.

— Acho que já passamos de duas palavrinhas, senhor Van Arkel. Vai um balde aí?

Sobressaltava, indignado. Não acreditou que o outro teve a audácia de dizer aquilo. Por um minuto cogitou colocar veneno de rato em seu chá. Serviu duas canecas de água fervente, com um saquinho de sabor maracujá dentro de cada uma. Assim que pôs ambas sobre a bandeja, seguiu novamente até o cômodo anterior e deixou-a sobre uma pequena mesa em frente ao sofá.

— Maracujá para sua cabeça quente. — Disse ao se sentar no sofá, os dois estavam cada um em uma ponta, o mais distantes um do outro possível.

— Você não envenenou o meu chá, envenenou? — Questionou ao olhar bem para o conteúdo da sua caneca.

— Quis muito sabotar a sua bebida, mas eu me segurei. — Sorriu. — Além do mais, o máximo que eu faria seria cuspir nele.

— Prefiro veneno do que a sua saliva na minha boca. — Fez cara de nojo, ao mesmo tempo que o outro franzia a testa com o comentário recebido.

Poderia beijá-lo naquele mesmo instante só por implicância, mas não seria o mais adequado naquela situação. Queria parar com a discussão por ali, mesmo se conhecendo ao ponto de saber que não iria parar com as provocações por si próprio, teria que encontrar outra maneira de manter sua boca ocupada. Meteu logo um dos biscoitos da bandeja antes que pensasse em mais saliência ainda.

"Seu corpo foi encontrado faz pouco mais de um mês atrás. Estava desfigurado e danificado por presas como garras e dentes afiados assim como os outros que são mortos ali por animais. Suspeitam que ele foi desovado ali justamente para deixar com que lobos escondessem o corpo, devorando-o."

— Que estranho. — Comentava de boca cheia, cobrindo a boca com a palma da mão para a atitude ser um pouco menos deselegante.

— O que? — Perguntou Tom, após terminar de engolir uma das pequenas rosquinhas doces.

— Dezenas e dezenas de pessoas morrem ali. Seus cadáveres são deixados da mesma forma. A diferença entre elas e Michael é que o caso dele está sendo investigado direito, e mesmo com tudo indicando que que ele não foi morto por uma pessoa ainda querem continuar checando. — Esclareceu, logo soprando seu chá para não queimar sua língua quando for bebê-lo. — Mas os outros? Não dá menos que um dia de investigação, assumem que eles foram mortos por algum animal e que se foda.

Enquanto tomava um gole de sua bebida, o de gorro azul encarava-o. Soltou uma fraca risada nasal, se inclinando um pouco mais perto do outro rapaz.

— Ele é rico, filho de um dos milionários dessa cidade. O resto são pessoas comuns, como nós. Se alguém de uma família tão importante como ele perde um fio de cabelo, já é um tremendo escandâ-lo e aparece nas televisões e até nos outdoors de toda a cidade, se não até fora dela. Mas se você morre lá dentro, no máximo para na boca de boatos espalhados aqui e acolá. Se uma fera com dentes enormes destruir esse seu rostinho em pedaços. — Sorriu, se aproximando de modo tão amedrontador ao ponto de fazer Tord recuar seu rosto por um momento. — Ninguém nunca mais saberá que você sequer existiu.

O rapaz arqueou uma de suas sobrancelhas quase indiferente. No fundo sabia que com ele aquilo não iria acontecer, mas pelo contrário, qualquer outra pessoa estava correndo risco. Mas por outro lado, o discurso levemente inteligente do rapaz era no mínimo admirável, pelo menos para Tord, era.

— Você parece ter razão. — Concordou.

— Infelizmente, sim. — Voltou para o lugar em que estava sentado, mas dessa vez, um pouco mais próximo do de cabelos cor caramelo.

— Mas e você? Acha que ele foi mesmo assassinado ou algum bicho devorou ele? — Interrogou.

— Eu não sei. — Acenava com a cabeça como quem não fazia ideia. — Há quem diga que foi até mesmo um monstro. Você já ouviu algum boato do tipo, não? Uma criatura pavorosa que vaga pelos fundos da floresta. — Comia mais um pouco ao terminar de falar.

— É. Já ouvi sim. — Levou a cabeça até a boca.

— Você acredita?

Nessa hora, o rapaz estremeceu. Como quem tivesse calafrios, quase até mesmo engasgou com a quente bebida que segurava. Fingiu certo controle, por mais que estivesse suando frio. Manteve os olhos focados na caneca durante alguns segundos.

— Você acredita? — Desviou a pergunta, fazendo a mesma questão ao outro. Ele riu, limpando algumas migalhas que ficavam no canto da boca com o polegar.

— Crer ou não as vezes pode te trazer alguma surpresa e destruir suas expectativas. Você pode bancar o lunático e acreditar em algo que não é real ou se surpreender ao descobrir que o que você tanto teimava que era impossível aparecer diante dos seus olhos. No fim eu só acabo sendo neutro, preparado se for real, preparado se não for. Tudo é possível, meu querido Van Arkel.

— Faz sentido. — Assentiu com a cabeça. — Entretanto, acabo sendo um pouco mais pé no chão.

— Entendo. É uma escolha sua, nunca haverá um certo ou errado.

O britânico pegava o controle remoto e desligava a televisão assim que o jornal pulava para outra matéria, mas não aparentou sinais de que deixaria o local naquela hora. Tord se perguntou porque havia feito aquilo então, encarando-o num ar tanto confuso quanto curioso.

— Eu acho que já quebrei demais a sua tradição esquisita. — Brincou. — Mudando desse assunto chato, você está sabendo da festa de reunião de alunos?

— Sim, descobri ainda hoje pelo Edd e o Matt. Você vai? — Se inclinou para pegar mais um dos biscoitos.

— Ah, não. Eu não vou. — Negou com a cabeça. — Sabe, eu sempre fui o cara que só ia nas festas pra ficar no canto bebendo. Mas os tempos são os outros. — Bebeu um gole do chá. — Eu não sinto mais vontade, por mais que até legal recordar dos velhos tempos, tem coisas que eu gostaria de deixar no passado.

Tord notava o ar cabisbaixo com qual o outro comentava sobre aquilo, vê-lo daquele jeito era assustador, tendo em conta que jamais abriria uma brecha sequer para o outro.

— É sobre sua antiga banda? — Palpitou.

— Tord, eu estou gostando da nossa conversa. Então eu peço que por favor não toque nesse assunto se não quiser uma discussão. — Ameaçou quase até um tanto grosseiro.

O norueguês ainda estava curioso e preocupado, mas respeitava a vontade de sua visita, desviando daquele tópico.

— Certo, sinto muito. Eu não deveria... — Abaixou a cabeça enquanto negava, arrependido pelo sentimento de ter dito a coisa errada.

— Não, não é sua culpa. Isso é coisa minha, tá tudo bem. — Deu um sorriso de canto que não durava mais que dois segundos, apenas para tentar confortá-lo. O de olhos cinzas retribuiu de forma semelhante. — Mas e você, vai?

— Também não. Eu sei lá, acho que ficar em casa fazendo ss coisas que eu gosto e devorando um pote de sorvete deve ser mais interessante. — Riu, Thomas gargalhava da mesma forma.

O britânico suspirou ao acenar com a cabeça.

— Eu nunca pensei que diria isso, mas você não é tão ruim quanto eu pensava. Até que você é suportável quando não passa seu tempo enchendo meu saco. — Admitia.

— É sério? — Questionou, surpreso.

— Sim. Acho que a gente devia conversar mais vezes. Eu meio que agora estou te devendo te convidar pra uma bebida também.

— Tipo, só nós dois? — Parecia quase gaguejar, nervoso.

— É, oras. — Franziu a testa. — A dívida é entre nós, não é?

— É, sim. Claro. — Forçou um riso para descontrair.

Respirou fundo para manter o controle e olhar nos olhos vazios do homem sem entrar em pânico.

— Significa que não somos mais rivais?

— Quase isso. Mas lembresse de que eu ainda não tenho a menor paciência contigo e vou ser babaca com você se ficar de palhaçada.

Arkel revirava os olhos.

— É, você nunca vai mudar. — Cruzou os braços.

— Você também não.

— No fim eu acho que somos igualmente teimosos.

As horas passavam como minutos, o tempo voava quase despercebido e quando notava já eram sete da noite. Já haviam voltado pra loja e até retornar para casa. Tord andava pelos corredores do seu apartamento preparando tudo para ir até a floresta como sempre fazia. Ao contrário do cotidiano, até que tinha sido um dia agradável, pelo incrível que pareça. Assim que se viu dentro do caminhão junto com Tom, pensou na mesma hora que ia ser um expediente daqueles e voltaria para casa três vezes mais exausto do que o usual. Entretanto, foi totalmente o contrário. Ainda era totalmente cômico. No fundo, tudo o que precisavam durante todos esses anos era uma simples conversa?

No fim não só isso, se fosse apenas esse o problema, já haviam o resolvido a anos e anos atrás. A real pedra no caminho de ambos era uma briga idiota nunca superada. Quando mais jovens, costumavam implicar bastante um com o outro. Ao invés de quando adultos e amadurecidos, deixassem isso de lado e tentar dar uma segunda chance, apenas carregavam aquilo por todo esse tempo. Honestamente, ainda que no fundo nunca mudaram muita coisa, ainda eram totalmente diferentes da época do colegial. Mas estavam totalmente cegos para tentar entender isso. Como Tord mencionava, eram dois teimosos.

O toque do celular do norueguês tocava, um sorriso deslumbrante aparecia em seu rosto só de ver o contato. Sua melhor amiga, Olívia. Atendeu sem precisar dar mais que dois toques, nem sequer esperava a mulher dizer algo primeiro quando já ia longo a interrompendo.

— Lívia, você não vai acreditar no que aconteceu! — Esbanjava alegria por cada letra pronunciada.

— Minha nossa, parece que alguém está animado hoje, viu? — Riu. — Eu também tenho algo a te dizer, mas eu presumo que você não consegue segurar pra contar a sua novidade por muito tempo.

— Não vou mesmo! Adivinha com quem eu passei a tarde hoje?

— Não vai me dizer que você matou o trabalho e nem foi pra me visitar? Traíra! — Indignou.

O mais novo riu, assentindo em negação.

— Não. Foi no trabalho mesmo. Eu fui chamado para ajudar com uma encomenda aqui no meu prédio com o Tom.

— Por que eu sabia que tinha alguma coisa a ver com ele a partir do momento que eu vi você alegrinho aí? — Ela comentou.

Arkel ficava quase sem jeito quando escutava aquilo, fechando a cara, irritado.

— Porque você fica com essas suas paranóias na cabeça, não houve nada demais. Eu já disse que eu superei ele faz muito tempo. Apenas estou feliz por ter resolvido as coisas entre nós dois e agora não somos mais rivais. — Afirmou, a feição carregada de seriedade.

— Passada! É sério?! — Questionava em choque. — Resolveu com um babão, é?

— Se boquete agora for um chá e uma conversa amigável...

A outra ficava calada, ainda embasbacada pelo fato de ouvir aquelas palavras da boca do amigo.

— Eu não consigo acreditar que você se endireitou com ele! Então quer dizer que vocês não se odeiam mais?

— Ei, ei, ei! Espera aí! — Já foi cortando a fala da mulher com que conversava. — Ainda digo não gosto daquele sujeito e do jeito grosso dele. Eu só vou ser um pouquinho mais tolerante e olhar nos olhos que ele não tem.

— Ué. Mas então vocês não são amigos? — Ela estava perdidamente confusa sobre a atual relação entre os dois.

— Amigos é uma palavra muito forte, a gente só não vai se matar. Mas não significa que a gente não queira.

O rapaz andava de um lado para o outro pela casa, desligando as luzes e os aparelhos eletrônicos antes de deixar sua moradia.

— Você é todo confuso. Mas se está feliz, eu também estou. — Completou ao esboçar uma risada. — Enfim, que história é essa que você não vai na festa da Kim?!

— O que? Como você sabe disso? — Perguntava.

— Dois passarinhos me contaram quando eu os perguntei.

— Ah, claro. — Revirou os olhos. — Esses passarinhos por acaso se chamam Matthew e Edward?

— Esses mesmo. — Riu. — Mas agora é sério, por que você não vai? Vai ser tão divertido, há quanto tempo nós não nos vemos fora do ambiente de trabalho? Beber, relaxar um pouco. Poxa, Tord.

Ele ficou em silêncio, sem graça. Nenhuma resposta foi dada a mulher, que apenas suspirou, cabisbaixa.

— Você vai ver seu amigo monstro a noite, não é?

— Olívia, você sabe o quão ele é importante pra mim. — Se explicou.

— Você não tem ideia, cara. Desde o primeiro dia que você foi visitá-lo, eu nunca te vi tão feliz assim. Mas você também precisa de um tempo só pra você.

— Ficar com ele é o meu tempo só pra mim! — Insistia.

— Não, irmão. Não é.

Antes que ele pudesse argumentar de volta, ela voltava a demonstrar sua opinião sincera sobre aquilo.

— Você o ama muito, e eu sei disso. Mas o problema é que você está se apegando demais a ele e deixando de fazer coisas para não deixá-lo sozinho por uma noite sequer. Volta tarde pra casa, não dorme direito e vai pro trabalho cansado. Eu consigo ver suas olheiras do outro lado da linha. Está dependendo dele pra se manter mentalmente saudável, e quando você depende de alguma coisa, fica duas vezes pior quando não a tem mais.

Aquelas palavras eram a mais pura verdade, e isso era o que machucava-o. Ele não queria a verdade, mas continuar dançando numa ilusão onde tudo parecia ir bem quando não estava. Parou de respondê-la, apenas ouvindo suas palavras em silêncio. Entravam por um ouvido, saíam pelo outro.

— Tord, é sério. Ele não vai ficar ali pra sempre! Eu estou vendo os jornais ultimamente, sabia? Se os policiais acharem que esse monstro é o culpado é colocarem as mãos nele, ele será morto na mesma hora é você não vai poder fazer nada! Além do mais, eu confio muito em você. Confio demais. Mas eu te considero um dos meus irmãos, acha que eu não me preocupo toda vez que você entra lá?

— Ele não é um assassino! — Gritou. — É meu amigo, uma criatura com sentimentos. Mais humano do que muitos ao nosso redor!

— Não estou dizendo que ele é um assassino, mas se algo acontecer com você eu não me perdoaria nunca!

Ele já estava totalmente irritado, tudo o que queria fazer era provar que ela estava errada em relação a tudo, mas ele não podia porque sabia que cada palavra que saía da sua boca era verdade.

— Meu querido, por favor, entenda. É perigoso demais. Você não sabe com o que está mexendo, não sabe com o que está se envolvendo. — A essa altura, já estava inundada por aflição. — Não estou pedindo pra você parar de ver o seu amigo, eu só preciso que me escute! Você decidiu correr esse risco, sabe muito bem que não é um mar de rosas. Se um dia alguém suspeitar dele, não haverá mais nada a se fazer.

— Olívia, eu te amo muito, mas não se meta nisso. Eu sei o que é melhor pra mim!

Desligou o celular antes que sua amiga pudesse responder, vestiu o moletom de qualquer jeito e bateu a porta, dando o fora daquela casa. Seguiu seu coração quase por impulso, tinha algo na cabeça e ninguém iria tirar. O eco de seus passos apressados eram escutados por cada canto naquele corredor vazio. Descia as escadas com pressa ao ponto de pular um ou dois degraus. Atravessou o portão e correu direto até a portaria da entrada do condomínio. Tudo o que se ouvia eram o barulho das chaves batendo umas com as outras e sua respiração quase ofegante.

"Ela não sabe o que está falando, ele nunca se atreveria em encostar um dedo em mim!"

Em direção ao ponto de ônibus, não sabia quem estava querendo enganar se não a si mesmo. Tudo o que queria no momento era chorar até o mundo inteiro desabar ao seu redor. Subiu no transporte, sentando-se em uma das últimas cadeiras. A visão concentrada na janela, as luzes da cidade emitindo seu brilho de sempre. E ele, apagado como o de costume.

"Está errada, ele está bem. Nunca irão encontrá-lo de qualquer forma."

Alguns pontos depois e então estava lá. O último que restou de todos que se se sentavam no veículo, descia as escadas tão apressado quando saiu de casa. Não importava o quanto tivesse que correr, apenas queria chegar lá o mais rápido possível. Não se importava, tinha um sorriso enorme estampado na cara. Parecia até mesmo errar os passos na hora, cada respiração até chegar lá. Valia a pena.

"Eu não preciso de ninguém."

A expressão alegre e esperançosa parecia desgrudar de seu rosto no instante em que percebia que não estava sozinho ali dentro. E com isso eu quero dizer que ele não era o único humano. Ruídos que não eram dele, discretos demais para serem feitos pelo outro. No fim, as vozes que escutara era o que o fazia ficar mais desconfiado ainda. Seguiu a direção do faladeiro. Assim que chegava a ponto de ver algumas pessoas reunidas ali, se enfiou em um dos arbustos mais próximos. Não precisava de muito esforço para notar que se tratavam de policiais rondando a área. Com um pouco de atenção, conseguia ouvir seu diálogo.

— Tem certeza que conseguiremos arranjar mais provas por aqui? — Perguntou um homem, desesperançoso.

— É tudo o que podemos fazer por agora, daqui a pouco quero todos vocês se separando é vasculhando cada centímetro desse lugar, me ouviram? — Ordenou rigidamente uma mulher.

Os olhos cinzas do agasalhado se abriam o máximo que podiam. Quando algo que você acreditava ser impossível aparecer diante dos seus olhos, você não estará preparado. E ele não estava nem um pouco. Saiu as pressas, ainda que discretamente. Poderia ser apanhado por algum dos que via agora, mas se não encontrasse seu amigo, não daria sequer um pé pra fora daquela floresta. Na sua visão, ele poderia sim fazer algo, o que seria protegê-lo. Foi no lado contrário do grupo e se meteu no meio dos pinheiros, seu coração acelerava conforme os segundos passavam e nada de encontrá-lo. Para sua sorte, pode enxergá-lo parado um pouco mais a frente. A figura correndo em sua direção chamava a atenção da criatura, que se virava para o humano.

— Ei, colega. — Chamou-o, sussurrando. — Você viu as pessoas ali atrás?

A fera assentiu com a cabeça, ele aparentava tão nervoso quanto o outro. Como se soubesse o que estava acontecendo. No fim, ele tinha consciência de que muito provavelmente não voltaria vivo aquela noite. Pelo menos, seria um trabalho mais fácil para Tord tentar alertá-lo de que era perigoso, vendo que o próprio monstro tinha em mente os riscos que corria.

— Você fez aquilo... — Encarou-o diretamente em seu escuro e vazio olho. — Não foi?

O outro desfez o contato visual, enfim concordando mais uma vez com ele. Desta fez, parecia mais magoado. Mais angustiado do que já sequer viu antes. O coração do humano parecia errar as batidas com a resposta recebida. É, parece que não conseguiria mais tentar se enganar. Um dos que mais confiava havia matado um homem e provavelmente mais dezenas deles. Mas simplesmente não conseguia deixá-lo sozinho, abandoná-lo quando mais precisava depois de toda a ajuda que recebia. Precisava retribuir de alguma forma, e faria isso.

— Ei! Está tudo bem, ok? Você parou com isso, não é? — E mais uma vez, seu colega concordava. O tom acolhedor que acompanhava as palavras do rapaz fazia com que a criatura voltasse a encará-lo. — Eu acredito em você, sei que nunca me machucaria.

Sorriu, erguendo sua mão destra para acariciar o pelo escuro da fera.

— Mas me escute. Eu preciso que você fique longe dos policiais, quero que fuja. Eles não podem encontrar você de jeito algum, entendeu? — Ordenou, a preocupação que carregava era imensa. — Eu irei acompanhar você, vou passar a noite aqui pra te dar cobertura. Venha, vamos.

Não pode seguir mais que dois passos a frente quando a criatura bufava e entrava em seu caminho. Arkel não foi capaz de compreender o que ele estava fazendo no início. Fitou-o por alguns segundos. Confusão era tudo o que ocupava sua cabeça além do medo.

— O que? O que você está fazendo?! — Tentou seguir mais uma vez.

Como segundo aviso, recebeu um rugido irritado, seu olho soltava uma faixa de luz intensa na cor roxa.

— Eu preciso ficar aqui! — Mesmo que tentasse argumentar, a criatura parecia com a cabeça firme. Não abaixou a guarda nem por um segundo, impedindo que o outro o seguisse. Fazia gestos, indicando que era para ele sair dali. — Não posso te deixar aqui sozinho! Eu não vou! Por favor, me deixe ir com você.

Queria retribuir o outro pela amizade entre ambos, mas não sabia que a única forma de fazer isso seria deixando-o. Os olhos cinzas do humano pareciam se encher de lágrimas, no fundo, sabia que se seu amigo fosse embora, talvez não voltaria mais.

— Por favor, eu quero fazer isso. — Uma lágrima escorria pelo seu rosto, seus olhos já estavam ficando embaçados de tanto que as acumulava. — Não me deixe! — Segurou firme o agasalho, dando mais um passo pra frente.

Como terceiro e final aviso, ele avançou para frente e rugiu mais uma vez. Não muito alto, para não chamar a atenção dos policiais, mas o suficiente para assustar o humano e fazê-lo dar alguns passos para trás. Encarou-o por provavelmente a última vez, seu único olho brilhante na mira das exaustas orbes nubladas do outro. Seguiu seu caminho rapidamente, e como o esperado para ele, Van Arkel não seguiu-o um centímetro sequer. Viu seu companheiro desaparecer entre as árvores, e soube naquela mesma noite que isso foi uma despedida. A partir dali, nunca mais saberia o paradeiro da criatura.

Aquele monstro já era um pedaço dele mesmo, uma pequena vela que iluminava suas noites escuras. Sem ele, estava incompleto. Havia ido embora e Tord afastou sua melhor amiga por querer dar ouvidos ao que não era real. Mais uma vez, falhou. Falhou terrivelmente. Estava sozinho agora. Sem ninguém para ajudá-lo. Uma parte de tudo o que tinha desapareceu em apenas uma noite. Quanto tempo levaria até afastar seus dois melhores amigos, seus pais, e novamente seu colega de trabalho o qual levou anos para se reconciliar?

Façam suas apostas, senhoras e senhores! Quanto tempo leva para senhor Van Arkel estar completamente solitário e sem ninguém para amá-lo de verdade?

"Não mereço ninguém porque eu sempre vou ser um ingrato do caralho."

E desabou em choro, suas pernas mal conseguiam suportar seu corpo. As mãos cobriam o rosto, que já estava coberto de vergonha de si mesmo. No final ele sempre se odiou profundamente assim como todas as outras pessoas. Não tinha forças para sair dali, não tinha forças para nada se não chorar até não ter mais lágrimas. Todavia, de repente poderia escutar uma voz familiar atrás dele.

— Tord? — Chamou uma moça.

Ao virar-se para verificar quem estava ali com ele, seus olhos se encontravam com uma mulher negra de curtos cabelos brancos e olhos âmbar. Agasalhada com um casaco qualquer com as cores da bandeira lésbica, que o outro havia dado a ela de presente. Preocupada, aparentemente exausta, alguém que provavelmente não sossegou até encontrar o tal garoto. Não precisou trocar duas palavras para entender o que havia acontecido, o que mais temia que ocorresse, ao mesmo tempo que o inevitável. Abraçou-o no mesmo momento, Tord encostava a cabeça em seu ombro enquanto chorava desesperadamente.

— Me desculpa, eu não quis ter dito aquilo. Você nem deveria estar olhando pra minha cara, eu sou um idiota. — As palavras quase não eram compreendidas por conta das soluçadas do rapaz.

— Calma, tá tudo bem, ok? Eu estou aqui. — Tirou o gorro da cabeça dele para que pudesse acariciar seus cabelos. — Vamos lá pra casa, meu pai fez chocolate quente. Não é nenhum Tom mas é gostoso também.

Ela se afastava do abraço e devolvia a touca ao mais novo, colocando o braço por trás de seu pescoço ao guiá-lo para fora daquela mata. O de moletom vermelho enxugava seu rosto com as mãos e esboçava uma risada quase nasal em relação ao comentário da garota.

— Só você mesmo, Olívia.

— É, eu sei que eu sou foda. — Completou, convencida.



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