História Tons de frio - Capítulo 28


Escrita por:


Capítulo 28 - Capítulo 28


Mendes -

Eu sentia que podia observar eternamente a forma que os cabelos longos de S/n bagunçavam com o vento e chicoteavam seu rosto. Suas bochechas estavam rosadas e os olhos quase fechados por conta do sol.
O vestido branco tornava-se gradualmente transparente com cada onda que beijava suavemente suas pernas. Ah, como ela ficava linda de branco.
Eu queria alcançá-la. Queria tocar seus lábios e provar o gosto adocicado de sua boca. E depois beijá-la novamente - dessa vez embaixo d’água, pois imaginava que nem o sal do mar era capaz de tirar a doçura da garota em minha frente.
Quando tentei dar um passo em sua direção, a areia cedeu levemente embaixo dos meus pés e, de repente, andar se tornou uma tarefa difícil. As ondas, que nela quebravam com delicadeza, em mim explodiam com força, impedindo meu corpo de se mover com agilidade.
Quanto mais eu tentava me aproximar, mais distante ela aparecia.
- Você não devia entregar seu coração para alguém que nasceu pra ser livre. - a voz de S/n soou calma enquanto seu olhar resplandecia em minha direção sob seus ombros. - Quanto mais você se entrega, mais forte eu fico. Até que eu seja forte o suficiente para correr pela floresta ou voar para as árvores. E então para uma árvore mais alta. E depois para o céu.
Meu corpo, inconscientemente, parou de tentar se mover; deixando, dessa vez, o esforço apenas para minha mente ao tentar decifrar as palavras da menina.
Era uma bela forma de dizer que era impossível ficarmos juntos. Mais uma vez, era ela contestando que não foi feita para ficar com ninguém.
- Eu não vou deixar você me prender. - S/n sibilou mais uma vez, agora de frente pra mim. - Sabe disso, não sabe?
- Eu não quero te prender. - com as ondas mais fracas, consegui dar alguns passos em sua direção. - Quero... amar você.
Os olhos da menina tremeram, repentinamente assustados. Podia jurar que ela havia feito uma careta diante da minha escolha de palavras.
- É a mesma coisa.
As quatro palavras mal haviam cortado meu peito quando uma onda mais forte cobriu S/n e, de repente, tudo o que eu via era branco.

Com a respiração acelerada, apertei os olhos com força ao perceber que eu estava no sofá de casa. E que aquele era apenas mais um dos sonhos caóticos com um pequeno toque de realidade que S/n havia me proporcionado inconscientemente nos últimos dias.
Ótimo.
Quando pensei em me entregar ao atual estado de letargia e me arrastar para a cama, o som estridente e inesperado da campainha quase me causou um sobressalto ao invadir a sala.
No primeiro toque, apenas suspirei. E então dei um longo gole na quase intragável cerveja quente que descansava na mesa de centro.
Eu não fazia ideia de quantas garrafas estavam acumuladas na bancada da cozinha, provenientes dos meus cinco angustiantes dias de auto-piedade e crítica interna.
O irônico era que eu havia começado a beber para esquecer S/n. E cada garrafa só me fazia pensar mais e mais nela.
Na primeira, lembrei de quando a vi na varanda pela primeira vez. Sua aura quase angelical estava fresca em minha memória.
Na segunda, a anamnese do dia em que a beijei pela primeira vez, na casa dos seus pais, quase cinco anos atrás.
Durante o saboreio do gosto amargo do gole ainda reminiscente em meus lábios, lembrei-me de uma das noites no telhado, quando o céu estava graciosamente estrelado e, ainda assim, eu só queria olhar para ela.
O ruído irritante irrompeu no silêncio do meu apartamento mais uma vez; agora um pouco mais duradouro.
- Merda. - xinguei, fazendo questão de me levantar o mais lentamente o possível.
Eu sabia que não era S/n. Seus dedos delicados não afundariam o botão com mais força apenas por desespero em falar comigo.
Se quisesse realmente me ver, ela nem tocaria a campainha.
Se. Um enorme e doloroso se.
Quando finalmente girei a maçaneta, dei de cara com a visita que eu estava esperando desde o dia em que ela saiu aborrecida daqui.
Eu não me surpreenderia se Matt me desse outro soco na cara. Dessa vez, eu realmente o mereceria. Mas tudo o que recebi foi um olhar visivelmente perplexo e pesaroso, oscilando entre as profundas olheiras arroxeadas sob meus olhos e a barba por fazer em meu rosto.
Está vendo o quanto gosto da sua irmã e toda a merda do efeito que ela tem sobre mim? Era o que eu queria gritar.
Em vez disso, apenas dei um passo para o lado e o deixei entrar.
Assim que passou pela porta, Matthew observou em silêncio as garrafadas jogadas pela ilha. Depois analisou a pilha de cigarros esmagados no cinzeiro na mesa de centro. Por último, suspirou ao perceber o porta retrato azul ao lado da porta.
- Brandon disse que eu devia vir ver você. - o timbre calmo anunciou enquanto ele ocupava um dos lugares no sofá.
- Como ela está? - parei em sua frente, cruzando os braços e tentando não enrolar as palavras; tanto pelo álcool, quanto pela euforia em ter alguma notícia de S/n.
- Pior do que ela deixa transparecer. Ela deve ter assistido Breakfast At Tiffany’s umas três vezes. Quer dizer, você sabe o que isso significa.
Em poucas palavras, significava que eu havia a machucado da forma que ela julgava a pior possível.
Breakfast At Tiffany’s era para casos extremos, como ela mesmo havia dito.
- Eu não queria magoar ela, cara. - tentei esconder a súplica em minha voz ao me juntar a ele no sofá. - Mas achei melhor que ela se decepcionasse com isso do que com a verdade.
Meu amigo respirou fundo, passando as mãos pelo rosto em exaustão. Eu sabia o quanto era custoso para ele ver a irmã exalando algo que não fosse felicidade. Matt tinha um senso protetor aguçado quando se tratava de S/n; e, bom, ninguém podia culpá-lo.
- Mendes, você realmente gosta dela?
Suas palavras me fizeram sorrir inconscientemente, desviando o olhar pro chão.
A verdade é que a palavra gostar já me parecia simplória demais para descrever como eu me sentia sobre ela.
- Você já ouviu uma música, olhou para o céu ou passou por um lugar e sentiu que algo dentro do seu corpo simplesmente parou de funcionar por um momento pro seu coração bater mais rápido? - murmurei vagarosamente ao tentar explicar algo que nem eu entendia.
- Bem… não.
- Eu também não. Até conhecer ela.
Ele cruzou os braços. Endireitou a postura no sofá. E então abriu e fechou a boca algumas vezes antes de, finalmente, dizer alguma coisa.
- Se quer saber, eu definitivamente nunca vi minha irmã assim por ninguém. Nem por Apa ou nenhum outro. S/n sempre disse que nunca havia conhecido alguém que ela gostasse o suficiente para partir o coração dela. Acho que isso mudou... - Matthew estalou os lábios e se inclinou em minha direção. - Sinceramente, o que você tem a perder? Olhe só pra vocês dois agora. Pode ficar pior?
- Não consigo vê-la chorando, Matt. Não por algo que eu disse, muito menos por algo que fiz.
- Só porque não está a vendo, não significa que ela não esteja triste.
- Você não sabe quantas vezes esse pensamento sádico passou por minha cabeça nos últimos dias. - dei uma risada ausente de humor ao respirar fundo. - E quer saber o que mais? Tenho medo de você ter razão e eu não ser bom o suficiente pra ela
Foi a vez de Matt respirar com pesar, me dando quase certeza de que ele havia se arrependido de tais palavras.
- Shawn, ela se importa com você. S/n pode ser mais compreensiva do que o resto do mundo, e você sabe disso. Ela tem tanto amor no coração, mas a possibilidade de deixar isso aparecer a assusta mais do que tudo. E se quer saber, eu vivo diariamente com uma boa porcentagem de culpa nesse medo dela de entregar seu coração. Sei que não quer se sentir assim também.
- Claro que não. Eu.. ela... - parei por um instante, tentando colocar os pensamentos em ordem ao procurar as palavras certas. - Ela parece mais com um lar do que qualquer lugar que eu já estive. Ela fala sobre as coisas que gosta de um jeito que me fascina e tem uma opinião formada sobre tudo. Ela é provavelmente a garota mais complicada que eu já conheci, mas ela consegue tornar isso uma qualidade. - passei a mão pelos olhos, tentando esconder as lágrimas que os marejaram brevemente. - Eu repeti mil vezes na minha cabeça a cena dela indo embora do terraço naquele dia. E eu a deixei ir embora pensando que ela é uma garota qualquer pra mim. Mas ela não é. É a minha garota.
Ou, ao menos, era o que eu queria que ela fosse.
- Certo. O irmão protetor e ciumento está querendo falar mais alto agora. - Matt brincou e eu dei a primeira risada sincera em cinco dias. - Acredite, tudo o que ela quer é alguém para olhá-la de verdade e ver a pessoa que ela sempre escondeu tão bem.
- E eu quero ser esse alguém.
- Então você sabe o que fazer.
Eu sabia, de fato. E não era fácil.
Era hora de contar a verdade.
 

-


Naquela noite, quando Matt foi embora e eu me deitei na cama, o silêncio fez-me mergulhar em lembranças.
Não as ruins. Estava farto delas.
Em meio a escuridão, fechei os olhos e fiz questão de reviver em pensamentos o último ano.
Pensei, inúmeras vezes, se faria algo diferente. Se era melhor ter sido sincero desde o início.
O que me levou a uma das melhores recordações que eu havia guardado com carinho e nem podia imaginar estar tão vívida em minha memória.

Londres, 1 anos atrás

Eu não imaginava, a esse ponto, que algum lugar no mundo poderia ser pior que Oxford.
Londres era a minha chance de recomeçar. De deixar o passado em seu lugar e tentar ser alguém melhor. Mas deixar a melancolia de lado parecia uma tarefa extremamente difícil em meio ao nada.
Dizer que eu odiava meu novo bairro era ser leviano. A falsa felicidade irradiava por todos os lados e a sensação de estar no meio de uma floresta afastada de qualquer tipo de civilização era o suficiente para me causar náuseas.
Claro que a vista era belíssima. E eu não estava falando apenas da infinidade de árvores se perdendo no horizonte. Nem das montanhas, que, vez ou outra, apareciam por trás das nuvens.
A apenas duas casas de distância, residia uma das garotas mais bonitas que eu já havia visto. Todas as vezes que eu passava embaixo de sua varanda, seu olhar curioso me acompanhava com cautela.
Na primeira vez que a vi, a experiência quase celestial de observar o sol reluzindo em seus cabelos e em sua pele envolta por um vestido vermelho, fez-me desligar da realidade. Não pensei em nada. Apenas a admirei.
Na segunda, ao olhar com mais calma, descobri porque a garota havia me intrigado tanto. Era a irmã mais nova de Matt, um velho amigo da cidade. A irmã mais nova de Matt que eu havia beijado em uma noite qualquer, quatro anos atrás. Ela usava uma calcinha azul de corações e tinha respostas rápidas para tudo; eu me lembrava bem. O ar levemente infantil já havia deixado seus traços; ainda assim, eu reconheceria seus olhos, seus lábios - e, pra ser sincero, o belo contorno dos seus seios - com facilidade.
Mas não era apenas a sua beleza ou o fato de eu conhecer o gosto nectário de sua boca que faziam-me ansiar por vê-la naquela varanda todos os dias e procurar incansavelmente uma chance de falar com ela.
Era a certeza de que seu olhar estava, quase sempre, triste. E a reminiscência vaga de algumas das coisas que ela havia me dito naquela noite na casa de seus pais.
“Eu não faço esse tipo de coisa. Falar sobre a minha vida, contar o que estou sentindo. É profilático.”
“Também não faço isso. Você sabe, namorar…”
S/n - seu nome, como bem me lembrava - estava longe de ser uma garota normal. E não pude deixar de observar o quão contraditório era tudo o que ela havia dito com a sua nova vida.
E então, todos os dias, eu a acompanhava por alguns breves segundos. E tinha a certeza que seu olhar também me correspondia. Não sabia se ela também se lembrava de mim ou se estava apenas curiosa. Mas me convenci que seus olhos imploravam por, pelo menos, alguém pra conversar. Pelo pouco que conhecia sobre seu temperamento, sabia que não seria fácil me aproximar. Mas ela, mesmo sem saber, se tornou um grande motivo para que eu permanecesse ali. Tentar conhecê-la melhor e talvez ajudá-la havia se tornado meu novo objetivo na busca de ser uma pessoa melhor.
Mal sabia que, na verdade, era eu quem estava prestes a conhecer a melhor pessoa que havia passado pela minha vida e, principalmente, pelo meu coração.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...