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História Tons de frio - Capítulo 29


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Capítulo 29 - Capítulo 29



É engraçado como nosso corpo insiste em lembrar das coisas que tentamos dizer a ele para esquecer.
Por mais que eu tentasse me convencer que estava sentindo raiva de Shawn e que o melhor a se fazer no momento era me manter longe, meu corpo insistia em memorar a sensação do seu toque em minha pele. Implorava para que eu sentisse seu gosto. Me induzia a pensar em correr para os seus braços.
Meus sentimentos, mais uma vez, eram confusos. Já não estava mais triste com ele. Era um misto de raiva, decepção e… saudade. E, céus, como eu me sentia tola por isso.
Eu havia passado os últimos dias em casa, sem vontade de fazer algo além de assistir os filmes da Audrey e me entupir de sorvete. Clássico. E embora eu tivesse assistido Breakfast At Tiffany’s três vezes, não consegui chegar ao final em nenhuma delas. Era torturante assistir Holly e Paul terem seu final feliz e encarar todo aquele discurso sobre eles pertencerem ou não um ao outro.
O que me fez, inúmeras vezes, pensar que até Holly Golightly tinha cedido ao amor. Quem era eu para resistir?
Depois de cinco dias acometida em um estado profundo de inércia, Brandon havia me convencido a sair pra tomar um café. Ele estava mostrando ser um ótimo amigo.
E não apenas para mim.
Sabia que ele havia visitado Shawn todos os dias.
Não que meu orgulho tenha me permitido perguntar, mas Matt fazia questão de me manter atualizada. Ainda não sabia qual a motivação do interesse repentino de meu irmão em meu relacionamento com Mendes. Talvez ele tivesse finalmente percebido o quanto eu gostava de seu amigo ao ver meu atual estado deplorável.
- Eu não sei se essa é uma pergunta válida… mas não acha que vocês estão levando isso ao extremo? Quer dizer, casais brigam o tempo inteiro e não ficam uma semana sem se falar. - Brandon argumentou ao colocar dois copos de cappuccino na pequena mesa de madeira.
- É claro que estamos exagerando. - fiz uma careta ao rolar os olhos. - Mas sabe, eu tenho direito de estar. Eu nunca estive tão vulnerável a alguém e Shawn sabe disso. Ele não tinha o direito de me dizer aquilo.
- E o orgulho não te deixa dar o primeiro passo?
- Exatamente. - dei um pequeno sorriso culpado ao dar um gole na bebida quente.
Além disso, eu certamente usaria qualquer desculpa para fugir da pressão do início de um relacionamento. Mesmo inconscientemente. Mesmo com Shawn. Era apenas instintivo.
- Eu acho melhor…
- S/n, certo? - a voz até então desconhecida de uma mulher chamou nossa atenção. Quando ergui a cabeça para olhá-la, senti meu coração dar um salto no peito ao reconhecer os cabelos escuros e o sorriso quase irônico em seus lábios.
- Isso mesmo. Como você está, Ava? - dei um sorriso amarelo ao tentar esconder o espanto por vê-la ali e, mais ainda, de estar falando comigo. Brandon devia ter percebido meu desconforto, pois me encarava absolutamente confuso do outro lado da mesa.
- Vejo que é rápida. Bom pra você. - a mulher deu uma piscadinha ao apontar para Brandon. E a cada palavra que ela dizia, minha antipatia só aumentava.
- Ele não… - tentei começar a explicar, um pouco retraída, e então balancei a cabeça ao perceber o que eu estava fazendo. - Quer saber? A gente mal se conhece.
- Verdade. - e mais um sorriso debochado. - Mas, acredite, você vai querer ouvir meu conselho. É melhor de Shawn Mendes.
E mais uma vez meu coração dançava em meu peito. O nó em minha garganta competia com a minha vontade de gritar O que diabos há entre vocês dois?
Mas, recobrando o meu bom senso, apenas respirei fundo.
Por mais que Ava me desse nos nervos, era Shawn quem me devia aquela explicação. Não ela.
- Como já disse, eu mal conheço você. E isso é só entre mim e Shawn. Então, se puder nos dar licença…
Ava se limitou a um aceno negativo com a cabeça para acompanhar a expressão sarcástica, e então, apenas nos deu as costas e rebolou seu traseiro apertado em um vestido verde quase lustroso, deixando Brandon e eu com expressões perplexas para trás.
Nos encaramos por alguns segundos, ainda extasiados demais para dizer alguma coisa.
Se antes eu estava curiosa, agora eu estava praticamente obcecada para saber quem era aquela mulher e o que ela sabia sobre Shawn.

-
Quando Brandon me deixou em casa, a expressão que Matt esboçava ao me receber na sala me alertava que algo não estava certo. Ele só sorria diabolicamente quando estava planejando alguma coisa ou quando algo que ele realmente queria estava dando certo. Quando perguntei o que tinha acontecido ele foi categórico em afirmar que não havia feito nada que eu não aprovasse.
O que, na língua do meu irmão, significava que ele havia feito exatamente algo que eu não aprovaria.
Subi as escadas pensando em… Shawn. Argh, eu estava tão previsível. Ponderei se era uma boa ideia ir até a sua casa e confrontá-lo mais uma vez, mas a ponta de orgulho ainda existente em meu ser insistia para que eu esperasse.
Quase conformada com a ideia de passar mais uma noite perdida em devaneios sádicos, pensei estar sonhando acordada quando abri a porta do meu quarto.
Ele estava lá.
Sentado em minha cama, com a expressão melancólica, os cabelos bagunçados e aparência quase efêmera.
Meu corpo paralisou por alguns instantes. Não sabia se seguia em sua direção ou se me mantinha longe. A fragilidade de sua aparência fazia-me querer abraçá-lo e saber como ele estava.
E ele parecia tão indeciso quanto eu. Como se a minha imagem não passasse de uma ilusão extremamente real.
Respirei fundo antes de dar alguns passos trêmulos. Ainda atônita com sua presença, ocupei o lugar ao seu lado e, só então, tive coragem de encarar seus rosto mais de perto.
Os tristes olhos castanhos me encararam de volta e, mesmo sem dizer nada, sabia que estavam me pedindo perdão. Shawn tinha olheiras escuras sob seus olhos, a aparência cadavérica ainda mais acentuada. Impressionantemente, continuava lindo.
- Estava em Clerkenwell com Brandon e acabei encontrando Ava. - quando tomei a coragem para dizer algo, minha voz não era mais alta do que um sopro. - Ela disse pra eu ficar longe de você.
Uma risada ausente de humor reverberou de seu peito.
- Talvez não seja uma má ideia.
Fechei os olhos ao ouvir sua voz. Tinha sentido falta dela.
- Isso eu que tenho que decidir. - dei um pequeno sorriso. - Preciso saber se está aqui apenas para pedir desculpas ou para me contar tudo. Porque já adianto que só quero conversar com você se me disser a verdade. Toda a verdade.
Em silêncio, nossos olhares permaneceram conectados por alguns longos instantes. Havia me esquecido como era fácil ser atraída pela intensidade absurda de seu olhar e me perder ali.
Mendes soltou um suspiro. Cerrou os dentes, tensionando o maxilar. E então desviou os olhos dos meus, mantendo a atenção fixa em algum ponto aleatório do chão.
- S/n, eu… - durante sua pausa para respirar fundo mais uma vez, pude vê-lo cerrando sua mão em um punho. - Eu matei alguém.
O que?
Me vi subitamente sem chão. A verdade inesperada era tão avassaladora e chegou tão depressa que fiquei imóvel. Minha cabeça pesou e minha visão não era nada além de um borrão. Por instinto, me vi deslizando brevemente para longe de Shawn.
Eu quase podia ouvir o barulho de algo dentro de mim se despedaçando ao pensar que ele era capaz de algo tão cruel. Pelo canto dos olhos, podia ver Mendes escondendo o rosto com as mãos. Já havia visto ele furioso, com raiva e cheio de remorso, mas o que eu estava testemunhando naquele instante ia muito além de vulnerabilidade. Era um desamparo aflitivo e culposo.
Talvez eu devesse sair correndo dali. Talvez a verdade era, realmente, muito mais do que eu podia suportar.
Mas então me lembrei de todos os detalhes que havia coletado sobre Shawn Mendes até agora e, tão célere quanto havia atingido meu peito, a verdade me pareceu duvidosa. Eu precisava ouví-lo. Precisava conhecer a história por inteiro.
Puxando todo o ar possível para dentro dos meus pulmões e lutando contra as lágrimas involuntárias em meus olhos, reuni toda a minha força de vontade para me recompor e murmurar:
- Co-como assim?
- Eu tinha uma namorada em Oxford, três anos atrás. Stacy. - ele começou a sussurrar e meu coração bateu mais rápido em resposta, ansiando para saber o que ele estava prestes a me contar. - Não sei dizer se a amava, mas eu certamente era louco por ela. A gente não brigava muito, apenas o mesmo tanto que todo casal. Mas quando brigávamos era pra valer. E foi em uma dessas brigas que eu saí da casa dela pra voltar pra minha e ela, como eu soube mais tarde, foi pra um bar no centro da cidade. - lágrimas pesadas se acumulavam em meus olhos enquanto as de Shawn já corriam livremente pelo seu rosto. - Era uma sexta-feira à noite de novembro, eu me lembro bem. Já tinha passado das onze horas quando ela me ligou. E eu não atendi. Imaginei que ela queria pedir desculpas ou conversar, e eu realmente não estava afim, então apenas ignorei. Tirei o som do celular e fui dormir. Lembro que tive um pesadelo e acordei no meio da madrugada com a irmã dela batendo na minha porta.
- Ava? - arrisquei.
- Ava. Ela estava gritando e chorando sem parar, repetindo o nome de Stacy. Demorei pra entender o que tinha acontecido. - ele parou para limpar a garganta e afastar as lágrimas. - Stacy tinha falecido em um acidente de carro. Ela bateu em uma árvore e a pancada foi tão forte que seu corpo foi arremessado pelo vidro. - seu choro doloroso se misturou com as palavras emboladas.
- Shawn, eu… - a esse ponto, meu choro era quase tão compulsivo quanto o dele.
- Quando peguei meu celular e vi as mensagens descobri que tinha me ligado apenas pra buscar ela. Ela dizia que não se sentia bem pra dirigir porque tinha bebido demais. E eu ignorei, S/n… - um soluço cortou sua voz lastimosa. - Eu podia ter impedido essa merda de acontecer. Era só eu ter deixado o orgulho de lado e ter atendido a merda do celular.
- Shawn. Porque você se sente culpado, não significa que você é. Não tinha como você saber que…
- Então porque eu sinto o sangue em minhas mãos todos os dias? Porque a culpa aperta meu peito todas as noites? Porque Ava e toda sua família me culpam? Ela estava bebendo por causa da nossa briga estúpida, afinal.
Mendes mal terminou de falar e o choro copioso fez seu corpo tremer. E eu não estava muito diferente. Sem pensar, avancei em sua direção e abracei seu corpo frágil, desejando tomar para mim toda a dor que ele sentia. Queria, de alguma forma, anestesiar seu corpo e fazê-lo esquecer tudo aquilo.
Eu sempre achei que problemas não são comparáveis. Cada um conhece sua dor e seus limites o suficiente para saber o que lhe faz sofrer. Ainda assim, achei todos meus dramas tão pequenos perto de tudo o que Shawn havia passado.
Seu pai.
Sua irmã.
As brigas.
E agora Stacy.
E mesmo com todas essas feridas ainda a curar, ele havia conseguido abrir um espaço e obter coragem para se arriscar por mim.
Eu, obviamente, não o considerava culpado. Mas culpa era um assunto que eu entendia bem, e tinha a plena consciência que ninguém além dele mesmo conseguiria o livrar daquele sentimento ácido.
Mesmo assim, me vi querendo, ao menos, ser seu amparo.
- Eu me fechei pro mundo depois disso. - em meio aos soluços, sua voz ressurgiu levemente mais calma. - Pra tudo o que era bom, ruim, pra dor, pro amor… até não sobrar nada. Então você apareceu e foi o mais perto que cheguei de sentir algo quando tudo dentro de mim parecia deserto. Você me fez sentir alguma coisa. Eu não sabia o que era. Talvez um senso de proteção, um jeito de compensar o heroísmo que havia me faltado antes. E eu não queria me apaixonar. Mas então você sorriu pra mim e… porra. Já não tinha mais o que fazer.
O sorriso citado por ele quase se arriscou a desenhar meus lábios levemente.
- Era sim uma má ideia. Eu não devo ficar longe de você. - apoiei os dedos levemente em seu queixo, erguendo o rosto molhado pelas lágrimas em minha direção. - Você não teve culpa. Pode não adiantar nada eu dizer isso, mas você não teve, Shawn. E você se culpar por isso diz muito mais sobre você do que o que aconteceu. Eu sei que é difícil não se torturar quando a gente passa uma vida inteira ensaiando para isso, mas… eu estou aqui pra tentar aliviar sua dor e te lembrar o quão incrível você é. Diariamente.
Embora seus olhos ainda estivessem carregados de dor, um sorriso tímido tomou conta de seus lábios.
- Você não se acha boa o suficiente pro amor, mas eu insisto em dizer que todo o amor do mundo que não é bom o suficiente pra você. - suas palavras calmas e gentis atingiram diretamente meu coração indefeso. - Eu sei que não sou a pessoa mais fácil de lidar, e que toda a bagagem que eu carrego pode ser demais, mas… obrigado. Acho que eu nunca disse isso, mas sou grato por ter conhecido você.
Senti algo parecido com cócegas na boca do meu estômago. Estar sob o efeito das palavras de Shawn era o mesmo que tomar três taças de vinho. Minhas bochechas se coloriam de rosa e eu podia quase sentir o gosto das palavras que meu coração insistia em bombardear para o fundo de minha garganta.
Respirei fundo antes de me desvencilhar do abraço apertado que dividiamos há alguns minutos, tomando o aconchegante e conhecido lugar em seu colo. Minhas mãos passaram por seu pescoço, enquanto as dele esculpiam minha cintura.
Não tinha caminho de volta. Shawn havia me acertado em cheio, como uma tempestade; rápida e brutalmente. Eu mal sabia que era capaz de sentir todas as coisas que ele me proporcionava.
Eu estava atraída demais pelo seu toque, fascinada demais pelos seus olhos e apaixonada demais pelo seu ser.
Isso mesmo. Apaixonada.
E, dessa vez, quando meu coração deu o comando, eu não sufoquei minha garganta. E nem aguardei a desculpa da embriaguez.
Era apenas eu, crua e vulnerável, dizendo ao garoto em minha frente o que eu sentia de verdade.
- Shawn Mendes, eu estou apaixonada por você.
Um sorriso sincero iluminou seu rosto. Suas mãos deslizaram pelo meu corpo até chegar em minhas bochechas, apenas para me cativar com uma carícia delicada.
- Eu estou apaixonado por você desde o dia em que te vi de calcinha azul de corações pela primeira vez.
Soltei uma gargalhada alta com a lembrança vergonhosa.
- Isso é deprimente. Eu queria poder voltar no tempo e fazer com que nosso primeiro beijo acontecesse de outra forma. - praguejei ao limpar os rastros de lágrimas no rosto de Shawn.
- Eu também. - ele sussurrou ao aproximar lentamente nossos lábios. Nossas respirações quentes e quase ofegantes se misturaram e me vi refém da saudade que estava do toque de sua boca, ansiando para sentir seu sabor. - Eu queria ter sido capaz de prever o futuro para saber quem você se tornaria pra mim, pra aproveitar o pequeno espaço de tempo entre o momento que olhei em seus olhos e te beijei pela primeira vez. - ele se aproximou um pouco mais, dessa vez o suficiente para que nossos lábios roçassem ao menor movimento. - Queria sentir que a única coisa entre nós é a antecipação de descobrir seu gosto e revelar seu toque. Queria saber que aquele momento seria tão intenso e tão perfeito. E que, quando chegou ao fim, nem nos demos conta de que era só o começo…
E então mergulhei em seus lábios. Pela milésima vez, mas com a sensação de que era a primeira. Senti a maciez de seu toque pela primeira vez após conhecer todo o mistério que o envolvia. Nossas línguas se acariciaram pela primeira vez após eu ser sincera sobre o que sentia.
Era um beijo de saudade, perdão, descobertas e recomeços.
As mãos de Shawn, firmes em minha cintura, me fizeram esquecer de todo medo que eu já senti de me entregar.
Eu não estava assustada. Estava, finalmente, entregue a algo incrível.
Quando nossos lábios se separam, encostei a testa na dele e encarei seus olhos. Sua íris cintilava ao me olhar de volta, me dizendo que ele estava tão envolto em nosso novo pequeno universo de felicidade e sinceridade quanto eu, e me proporcionando a coragem necessária para sussurrar:
- Eu sei que você não se vê como eu vejo, e que provavelmente vai discutir pra sempre quando eu disser que você é muito mais do que pensa. Mas só quero que você saiba que todas essas coisas que você não gosta sobre si mesmo são as mesmas coisas que me fazem gostar imensamente de você. Quer dizer, olha por tudo que você passou. Você é incrivelmente forte, Shawn. Eu não poderia admirar mais quem você se tornou depois de tudo o que aconteceu na sua vida.



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