História Tragédia Grega - Capítulo 4


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Kim Taehyung (V)
Tags Bottom!jk, Taekook, Top!taehyung, Vkook
Visualizações 197
Palavras 3.557
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Romance e Novela, Yaoi (Gay)
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Quem tá sempre correndo pra responder os comentários do capítulo anterior? Eu mesma.
Hoje tenho avisos hein, gente
+ acertei o dia de postagem, sempre aos domingos agora. Matte & Glossy que segue um cronograma diferente (com base em inspiração mesmo, porque no momento minha cabeça tá focada nas intrigas dessa aqui);
+ o nome dos capítulos deve tá bizarro pra caralho, mas são expressões do teatro;
+ reparem nos detalhes;
+ queria muito fazer uma playlist pra essa fic, mas posso ir adiantando que Undisclosed Desires, Muse, é inspiração fortíssima.
Acho que por hoje é isso ai. AAAAAAAAAAAAAAAA LEMBREI
++++++ (atenção leigos em omegaverse) supressores são tipo pílulas anticoncepcionais, que também acabam com os efeitos do cio.

Capítulo 4 - III. Engolir em cena


Fanfic / Fanfiction Tragédia Grega - Capítulo 4 - III. Engolir em cena

“Engolir um ator em cena: diz-se que um ator engoliu o outro em cena quando se destaca mais ao ponto de tornar-se mais marcante. Um ator mais experiente que interpreta um papel secundário, por exemplo, tende a engolir os outros inconscientemente.”

 

Acordar com batidas insistentes à porta não era, nem de longe, o seu jeito preferido de começar o dia. Taehyung abriu os olhos bem devagar, ainda processando o conjunto sonoro formado pelas batidas e berros de Seokjin. O seu estado de letargia impediu que se movesse de imediato, considerando simplesmente virar para o outro lado e voltar a dormir.  

Descartou a opção algum tempo depois, fazendo uma careta ao tocar a ponta dos pés descalços no piso frio. Coçou a cabeça, arrastando-se preguiçosamente até a porta. Quando enfim a abriu, a expressão de seu irmão não parecia satisfeita. Jin se recompôs rapidamente, ajeitando a gravata listrada no pescoço pálido.

— Pensei que estivesse morto. — ele resmungou. Taehyung reparou na suspeita marca arroxeada na região da gola da camisa social, mas não disse nada a respeito. O alfa era bem bonito e, embora não falassem sobre o assunto, sabia que ele devia aliviar o estresse de alguma maneira. — Sorte a sua que sou bem insistente, ou o nosso pai seria a primeira pessoa que você veria hoje. Antes das nove, vale ressaltar. — abriu um sorriso simpático que, outra vez, não alcançou os olhos.

Desde seu retorno à Coréia Taehyung não conseguia se lembrar de ter visto nem mesmo um único sorriso verdadeiro no rosto do irmão. Ele parecia mais dissimulado agora, menos otimista. Talvez estivesse se tornando tão estoico quanto o seu pai.

— Eu devia te agradecer por isso? — não impediu a si mesmo de ser ácido.

— Quando vai me perdoar?

A pergunta pegou o ômega de surpresa. Em especial por ter sido feita em um tom vulnerável que poucas vezes Taehyung havia presenciado um alfa usar em sua família. O sobrenome Kim carregava esse peso. Engoliu em seco, desviando os olhos para qualquer outro ponto que não o seu irmão mais velho.

— Em algum momento. — disse bem baixo, ciente de que o outro o ouviria mesmo assim. — Tenho um mau pressentimento sobre a sua presença. Se fosse algo simples você teria dito por mensagem. O que Kim Taewoo quer dessa vez?

Seokjin trocou o peso de uma perna para a outra, denunciando parte da sua agitação. Ele pediu passagem fisicamente apenas, colocando um pé para dentro do quarto, não obtendo resistência por parte do irmão mais novo. O cômodo permaneceu intocado durante cinco anos, o tempo que Taehyung se ausentou no exterior. A decoração adolescente não fazia muito sentido agora.

— Podemos redecorar se você quiser. — Jin comentou parado ao centro do quarto, gesticulando distraidamente para as paredes e os móveis. Nessa posição ele não podia ver a expressão blasé de Taehyung. — Hoseok não se importaria de te levar até uma loja. Acho que pode trocar esses pôsteres de banda, e essa cama de solteiro pode se tornar —

— Não começa. — o interrompeu. Deixou o corpo tombar até estar sentado na beira da cama, uma perna cruzada por cima da outra. — Eu não quero ficar muito tempo aqui. Sabe que odeio esse lugar.

— Você passou cinco anos longe. Não pode passar alguns meses em casa como uma pessoa normal? A nossa mãe viveu aqui, nós fomos criados aqui, então qual a droga do problema desse apartamento?

Nem mesmo a mágoa nas entrelinhas foi capaz de abalar o ômega. — Você sabe muito bem qual é o problema. Odeio esse lugar quase tanto quanto odeio a nossa família. Só vá direto ao ponto, Jin, eu planejei dormir até o meio dia.

— Os seus supressores... —  a sentença sequer chegou a ser finalizada. Taehyung não precisou disso, já havia compreendido tudo. Seus olhos se arregalaram em choque. — Tae, eu tentei, juro, mas —

— Eu voltei ontem com ele! — acusou exasperado, de repente bem mais acordado do que antes. O sono havia se esvaído num estalar de dedos. Se colocou de pé num salto. — Consegui o seu maldito número, ficou mais do que claro que Jeon Jeongguk ficou interessado, então por que infernos precisamos descer tão baixo?! Aquele velho filho da puta quer um relatório? Eu faço com prazer.

— Taehyung, é só para garantir. Não temos muito mais tempo até a empresa quebrar de vez. É preciso injetar uma boa quantia de dinheiro pra ontem. Nós dois não teremos nada, entende? O dinheiro vai acabar, e nós vivemos de dinheiro já faz muitos, muitos anos. Sabe o que vai acontecer, não sabe? Primeiro os funcionários perdem seus empregos, gente que precisa deles de verdade, e então nós vamos declarar falência e dever à essas pessoas por tempo indeterminado, sem dinheiro nem mesmo para pagar as indenizações que merecem.

Era de conhecimento geral que Kim Seokjin fazia o tipo político da boa vizinhança. Ele frequentava jantares da empresa com funcionários de nível inferior, sem distinção, e sabia pequenos detalhes sobre os colegas de trabalho mesmo sem obrigação alguma. Quantos filhos a sua secretária tinha em casa, em qual casamento o diretor de finanças estava, a doença complicada do porteiro. Como o filho herdeiro do CEO, Jin era um deus que sentia satisfação ao caminhar por entre os meros mortais.

Característica que Taehyung admitia admirar nele. — E se ele não quiser passar o cio comigo? — perguntou em uma última tentativa de sair pela tangente. — Sabe como é doloroso passar um cio sozinho?

— Você parecia bem confiante ainda agora. Se está tudo caminhando bem, então essa possibilidade é quase nula.

— Posso ser atacado na rua. O cheiro fica muito forte.

— Eu não permitiria algo assim.

Você já permitiu. — a acusação pegou Seokjin de surpresa. Taehyung acompanhou a reação do alfa; os olhos se enchendo de culpa. Em seu interior se sentia tão culpado quanto ele por atingi-lo emocionalmente. Mas estava no seu direito. — Aquele desgraçado — praguejou entredentes — se ele acha que esse é um jogo para um só, está muito enganado.

Todas as suas ações seguintes foram impensadas. Desde ir até a sua mala, esta posicionada no canto do quarto, e retirar de lá a cartela de supressores, atirando-a contra Jin, até pegar o celular ainda carregando no criado-mudo. Sob o olhar preocupado do alfa selecionou o contato recém-salvo de Jeon Jeongguk, deixando o quarto com o aparelho apoiado entre o ombro e a orelha.

Podia sentir o bolo na garganta. Tinha vontade de chorar, gritar, externar toda a sua frustração. Ainda no corredor pegou o vaso ornamental que foi um presente de seu tio, o modelo chinês de porcelana caríssimo, um dos objetos preferidos de seu pai. O segurou com uma das mãos apenas, apesar do peso, ao passo em que, do outro lado da linha, sua ligação foi aceita.

“Alô?”  O tom de Jeongguk parecia incerto. Taehyung quase podia imaginá-lo com uma expressão confusa, ainda se arrumando para o trabalho. Tentou se concentrar na vontade de chorar ao responde-lo. — Jeongguk-ssi, — o tom embargado foi bem sucedido. Passou pelos arcos que levavam até a sala de jantar momentos depois. — eu sinto muito por estar ligando essa hora, mas eu não tenho a quem recorrer nesse momento e —

A pausa dramática também foi premeditada. Assim que pôs os olhos na maldita mesa de jantar de vidro, Taehyung atirou contra ela o vaso chinês com toda a sua força, assistindo os objetos entrarem em colisão num estrondo que ecoou por todo o apartamento silencioso. A mesa não se estilhaçou inteira como gostaria que tivesse acontecido, mas todo o centro dela foi ao chão em cacos.

“Taehyung-ssi!” O chamado na linha soou desesperado até. “O que está acontecendo?!”

Jin o encarava estupefato a poucos passos de distância. Taehyung se manteve firme ao sustentar o olhar, desafiando-o a fazer algo a respeito do seu ato de rebeldia.

— Por favor, me busque onde me deixou ontem à noite. Preciso ir embora desse lugar o quanto antes. — a última frase direcionou ao irmão mais velho. — Acha que pode fazer isso por mim?

“Chego ai em meia hora.”

Quando encerrou a chamada, passou por Jin sem lhe dirigir a palavra, retornando até o próprio quarto para arrumar suas coisas. Felizmente não havia desfeito as malas ainda, de maneira que só precisaria enfiar alguns objetos pessoais nos compartimentos externos. Se tivesse sorte, não bloqueariam o seu cartão até a semana seguinte. Tinha dinheiro o suficiente para pagar um aluguel durante dois ou três meses.

Ouviu o som dos passos se aproximando, o som característico dos sapatos sociais  pelos quais tinha aversão. Antes que Jin pudesse dizer qualquer coisa, virou o corpo de modo a encará-lo de frente, o dedo indicador apontando em direção ao peito do alfa. — Eu vou continuar seguindo o planejado de vocês, não precisa se preocupar. Mas também tenho as minhas regras. Se bloquearem o meu dinheiro, podem esquecer essa merda toda.

— Nos mantenha atualizados. — era uma condição, embora o tom de alfa não tivesse sido usado. Seokjin raramente o colocava em prática. — Se não quer falar comigo, então faça isso através de Hoseok. Só não suma, ok? Eu prometo que não vai acontecer de novo. Esse é o último favor.

 

[...]

 

Com suas três malas imensas já devidamente colocadas no bagageiro do carro, sentado no banco do carona com os olhos em qualquer outro ponto que não Jeon Jeongguk, Taehyung começava a se perguntar se tinha tomado a melhor decisão. Sabia que o alfa era educado o bastante para não cobrar uma explicação detalhada, mas ainda assim devia a ele alguma explicação.

O silêncio tenso que preenchia o veículo fazia o espaço parecer menor, sufocante até. Taehyung levou os dedos até o botão do ar-condicionado, tomando a liberdade de diminuir a temperatura. Podia sentir os olhos de Jeongguk queimando em si.

— Está tudo bem comigo. — murmurou por fim, tomando coragem de fazer contato visual. Ergueu a mão de modo a exibir os dois dedos machucados da noite anterior, estes ainda cobertos de curativos da Hello Kitty. — Esse é o único machucado que tive. Me desculpe ter te ligado, sei que é bastante ocupado, mas eu não tinha mesmo outra pessoa pra pedir ajuda. Todo o resto não hesitaria em me delatar.

Taehyung podia sentir as dúvidas irradiando dele. Imaginou que teria de responder ao menos algumas delas, uma vez que Jeongguk era tímido demais para vocalizar todas, mas, surpreendendo a si, o que ele perguntou primeiro foi:

— E pra onde você vai agora?

Por um momento considerou que o jovem empresário fosse de fato muito ocupado, e estivesse tentando se livrar logo daquela responsabilidade que sequer o pertencia. Como se lesse seus pensamentos, Jeongguk tratou de acrescentar:

— Posso cancelar meus compromissos de hoje, está tudo bem. Hoje não tinha nenhuma reunião importante e, sinceramente, o dia começou uma grande droga. Não é só você que tem problemas com irmãos.

Ah, Taehyung ligou os pontos. Depois da cena que causou no evento da noite anterior, Jeongguk devia estar deduzindo que o seu problema era com Seokjin apenas. Em especial quando Taehyung fez questão de dizer que o irmão era a última pessoa que queria ver.

Mais confortável após a declaração do Jeon, Taehyung remexeu o interior de sua bolsa carteiro Gucci, retirando de lá um iPad. Desbloqueou a tela sob o olhar atento de Jeongguk, abrindo uma guia do navegador para buscar “apartamentos para alugar em Seul”. Clicou no primeiro site de anúncios, posicionando o aparelho de modo que o mais novo pudesse ver também.

Com o passar das horas as opções de apartamento iam diminuindo consideravelmente. O grande problema era que Taehyung precisava de um imóvel onde pudesse ingressar naquele mesmo dia, não semanas depois, de modo que aguardar pela saída do inquilino atual estava fora de questão. Isso reduziu bastante a lista.

Os aluguéis em Gangnam e Cheongdam, ambos bairros luxuosos aos quais estava habituado, haviam sido riscados também. Não que Seokjin ou Taewoo fossem limitar os seus gastos — Taehyung tinha certeza de que seria o oposto disso, depois do seu escândalo —, e sim porque precisava de verossimilhança na sua história triste. Jeongguk tinha de acreditar que Taehyung estava com problemas de verdade, ao ponto de querer se enfiar em qualquer buraco para fugir da própria família.

Para a sua sorte, o empresário não parecia incomodado em dirigir por toda a cidade, mesmo em distritos nos quais o seu carro de modelo novo e caríssimo se destacava nas ruas. Com o rádio ligado em uma estação qualquer, o silêncio entre os dois era quase confortável, isso até o fatídico momento em que a barriga de Jeongguk roncou alto demais, ao ponto de nem mesmo a música abafar o som. As bochechas pálidas do Jeon ficaram vermelhas de imediato, o volante sendo segurado com força.

— Jeongguk-ssi, — o tom de Taehyung nem mesmo disfarçava a óbvia vontade de rir — estou com saudades de Nova Iorque. Acha que pode almoçar hambúrguer, já que acabei com toda a sua rotina mesmo?

Jeongguk piscou algumas vezes, parando o carro no sinal vermelho. A informação nova o pegou de surpresa, assim como Taehyung previu que aconteceria quando a deixou escapar.  — É por isso que nunca te vi antes? Você morava no exterior?

— É, mais ou menos. Fiquei cinco anos nos Estados Unidos. Quatro deles fazendo faculdade, e consegui o visto por um pouco mais de tempo por ter arranjado um emprego. Não é como se fosse difícil para o meu pai conseguir esse tipo de coisa. — fez um gesto de descaso com a mão.

Jeongguk assentiu, acelerando quando o sinal abriu. Outra vez Taehyung teve a impressão de que ele tinha mil perguntas a fazer, incapaz de externa-las por pura timidez ou falta de coragem. Talvez não quisesse soar invasivo demais.

Cerca de meia hora depois já estavam com os pedidos sendo acomodados por todo o interior do carro. Os copos descartáveis de refrigerante encaixados no porta-copos entre os dois bancos; o porta-luvas servindo de apoio para as duas porções de fritas grandes; os hambúrgueres imensos em mãos. Taehyung gostou do fato de que Jeongguk não era o tipo de babaca que se importava com sujeira no carro. Isso dizia muito sobre alguém.

Se permitiu observar o alfa por um pouco mais de tempo. O modo como seus dentes de coelho mordiam o hambúrguer com vontade, sujando o canto dos lábios, e como a sua mão parecia atraente de uma maneira estranha, quase magnética. Desceu os olhos até o corpo acentuado na calça social preta e na blusa de botão branca, o paletó cinza pendurado nas costas do banco.

— Quando não está usando roupa social — a voz grave de Taehyung deu fim ao silêncio, atraindo a atenção de Jeongguk para si outra vez — o que você usa? É difícil imaginar algo diferente.

— Botas Timberland caramelo.

A resposta fez o ômega rir, genuinamente surpreso. — Isso é bastante específico.

Pegou o seu copo de refrigerante no apoio, sugando o líquido através do canudo vermelho. Observou o pequeno furo na orelha de Jeongguk, indicando que ele utilizava brincos quando fora do horário de trabalho.

Levou a mão até uma das pequenas argolas prateadas que estava usando, retirando-a com cuidado. Quando o alfa notou a sua aproximação, Taehyung já estava inclinado em sua direção, passando a argola pelo furo de sua orelha sem pedir permissão. Teve o braço segurado para que não se afastasse, e o Kim abriu um sorriso divertido ao notar o rubor nas bochechas de Jeongguk.

— Pronto. — se afastou após encaixar o brinco. — Queria ver como ficava. É assim que você é casualmente? Botas Timberland caramelo e argolas nas orelhas?

— Com o plus de tirando foto de tudo e todos, esse sou eu. — a timidez em seus movimentos foi perceptível. Ocupou a boca bem rápido com um pedaço generoso de hambúrguer, desviando os olhos para a janela. Adorável, Taehyung não se cansava de admitir. Dessa vez sem o efeito do champanhe.

Terminaram de comer pouco tempo depois. No bloco de notas restavam apenas duas opções de apartamentos decentes e, já considerando passar a noite num hotel, Taehyung se surpreendeu quando encontraram a proprietária do imóvel na esquina do prédio anunciado.

— Você deu sorte — a mulher na casa dos cinquenta disse cheia de certeza, estreitando os olhos de Jeongguk para Taehyung — mas, bom, é pequeno. E simples. — enfatizou a última parte como se os dois fossem desistir. De fato a dupla contrastava com o bairro residencial. — Bem simples mesmo.

— Simples é o novo preto. — Taehyung garantiu, arrancando uma risada baixinha de Jeongguk. Descobriu um prazer estranho em fazer o alfa rir. Era um papel que desempenhava com frequência em rodas de amigos, de maneira que nem mesmo era um desafio para si.

A proprietária estava certa. O apartamento era bem pequeno para os padrões de ambos os filhos de chaebol presentes no recinto. Mesmo o elevador parecia apertado demais, sem parede espelhada, além de fazer um som estranho, do tipo que poderia despencar a qualquer instante. Era, entretanto, tudo muito limpo, com diversos vasos de planta espalhados pelo corredor do terceiro andar.

A porta do 303 tinha fechadura digital, e a mulher garantiu que poderiam trocar a combinação assim que pagassem metade do aluguel. Ela os deixou à vontade para avaliarem o apartamento, aguardando do lado de fora.

— Só tem um quarto. — Taehyung comentou em um tom que forçou casualidade. Sua real vontade era ter uma crise digna de um filme adolescente americano. Nem mesmo nos EUA teve de viver em um espaço tão limitado. A expressão no rosto de Jeongguk revelava que ele também não. — A cozinha e a sala nem tem separação.

O quarto tinha uma decoração bem cafona, com papel de parede estampado de triângulos, e uma cama de casal de aparência desconfortável no centro. Os dois trocaram um olhar significativo antes de rirem.

— Como é o nome daquele filme? Presas no Subúrbio?

— Se isso foi uma tentativa de citar um filme onde a protagonista rica vai parar no interior para passar por um período de autorreflexão, sinto em dizer que falhou miseravelmente. Podia ter dito Hannah Montana. — Taehyung rolou os olhos. — Erraram feio ao introduzir você na cultura pop, Jeongguk-ssi. Eu posso ver as lacunas em branco. Como se já não bastasse ter chamado a Hello Kitty de gatinhos.

— Você é bastante expressivo. — o alfa disse de repente, pegando Taehyung desprevenido. — Quer dizer, quando fala... faz bastante gestos e caretas.

Entendeu o que ele quis dizer. Na realidade em que viviam, ser tão energético não era recomendado. Expressões sérias e rígidas combinavam com empresários; passar uma imagem respeitável era essencial. Para Jeongguk, sendo este um alfa, a pressão devia ser um pouco pior.

Seu irmão também dividia da preocupação. Para Seokjin devia ser um esforço extremo, uma vez que era adepto de piadas horríveis e risadas ridículas, ao menos na concepção de Taewoo. Taehyung costumava gostar de ouvi-lo rir. Se perguntou se ele ainda o fazia nos jantares da empresa que frequentava, ou se mantinha a postura mesmo quando na ausência do pai.

— Eu atuava. Ainda atuo, na verdade. — recostou-se no batente da porta. — Em musicais na maior parte do tempo. Fiz faculdade de artes cênicas em São Francisco, me formei, e então arranjei um papel em NY. Acharam que eu tinha uma voz boa para o papel de vilão e, bom, já ouviu falar da expressão "engolir em cena"?

Recebeu um aceno negativo de resposta.

— Foi o que eu fiz com o protagonista. Acabei conhecendo bastante gente, atraindo atenção, esse tipo de coisa.

O assunto se encerrou ali. Antes que Jeongguk pudesse fazer mais perguntas, a proprietária bateu à porta, querendo saber se ficariam com o apartamento. Taehyung decidiu fechar contrato ao menos até o mês seguinte, quando teria mais tempo de se reorganizar. Subir com as malas no elevador minúsculo exigiu uma logística de espaçamento complicada, embora não impossível.

Jeongguk apoiou duas da malas bem perto da porta, esperando por outra ordem de Taehyung quando seu celular passou a tocar desesperadamente. O ômega fez um sinal para que o outro atendesse, e ele assim o fez, deixando o apartamento durante alguns instantes. Podia ouvi-lo combinando novos horários com alguém que devia ser o seu secretário.

Quando retornou, o alfa mantinha uma careta insatisfeita no rosto bonito. — Preciso ir. Surgiu algo importante na empresa.

— Certo.

Jeongguk parecia mais tenso do que o normal, as mãos inquietas ao lado do corpo. A indecisão em sua linguagem corporal era óbvia demais. Taehyung conteve um sorriso, os pensamentos maliciosos tomando forma conforme avançava a distância até o alfa. Podia sentir o cheiro amadeirado que ele exalava, de repente consciente demais de suas naturezas. Aquele era um jogo antigo para si, um no qual Jeongguk não teria chance alguma.

A diferença de altura quase inexistente tornou tudo mais fácil. Notou quando o corpo do mais novo enrijeceu, tocando-o nos ombros para em seguida levar os lábios até o lóbulo de sua orelha. Envolveu a região com a boca, a língua atrevida tocando em pontos estratégicos no que durou poucos segundos. Ao se afastar notou a expressão de choque no rosto do alfa, o rosto infantil corado.

Abriu um sorriso divertido, colocando a língua para fora da boca e exibindo a pequena argola de prata que havia emprestado horas antes. — Peguei de volta. — explicou vagamente, empurrando-o em direção à porta. — Obrigado por hoje, Jeongguk-ssi. — riu ao notar que o outro permanecia em um estado de transe. — Agora é a sua vez de me procurar, espero que saiba. 


Notas Finais


Amo esse Taehyung e vou defendê-lo. (com ou sem mullet).
Se gostarem, me deixem saber.
Campanha alguém viu Julian? Se estiver lendo isso, coisa, aparece <3
Obrigada por ler antes de todo mundo, Victória, não canso de te agradecer.


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