História Traição - Capítulo 4


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Categorias Sou Luna
Personagens Ámbar Benson, Emília, Simón
Tags Simbar
Visualizações 126
Palavras 5.179
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Adultério, Álcool, Heterossexualidade, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 4 - Desconfiança


Fanfic / Fanfiction Traição - Capítulo 4 - Desconfiança

NA MANHÃ seguinte,  Ámbar se encontrava sentada em frente a  Simón , que a observava tomar o desjejum. Ele anuiu em aprovação quando a viu terminar de comer a omelete que lhe preparara e a estimulou a tomar o copo de suco que pousara diante dela.

A despeito da ansiedade e da insegurança,  Ámbar se sentia bem sendo cuidada por aquele homem, mesmo não tendo certeza de seu lugar no mundo de  Simón . Embora solícito, lhe parecia distante.  Ámbar não sabia dizer se aquilo era uma deferência à sua amnésia, por não querer assustá-la, ou se o relacionamento dos dois era assim mesmo.

 Ámbar prendeu o lábio inferior entre os dentes e o mordeu distraidamente. A ideia de que aquilo poderia ser comum entre os dois a incomodava. Certamente não desejara se casar com alguém que a tratava de maneira tão educada, como se estivesse lidando com uma estranha.

E ainda assim, para todos os propósitos, os dois não passavam de estranhos. Ao menos  Simón  era um estranho para ela. Uma onda de compaixão a atingiu. Como deveria ter sido terrível para ele saber que a noiva, a mulher que amava e com quem planejara se casar, simplesmente o esquecera como se ele nunca existisse. Não podia se imaginar no lugar dele.

 Simón  a observara atentamente durante todo o desjejum e ela sabia que devia estar deixando transparecer todo seu constrangimento, mas ele não disse nada até retirar a mesa e levá-la para a sala de estar. Em seguida, acomodou-a no sofá e se sentou ao lado dela, observando-a com olhar especulativo.

- O que a está preocupando esta manhã? – perguntou. Os olhos âmbar a estudando, e a expressão do belo rosto a deixando levemente ofegante.
- Estava apenas pensando no quanto toda essa situação deve ser terrível para você.

Uma das sobrancelhas espessas se ergueu enquanto ele inclinava a cabeça para o lado com expressão questionadora.  Simón  parecia surpreso, como se aquela fosse a última coisa que esperasse ouvir dela.

- O que quer dizer com isso? –  Ámbar baixou o olhar, sentindo-se de repente tímida e ainda mais insegura. Ele esticou a mão e lhe tocou o queixo, erguendo-o e a forçando a encará-lo. – Diga-me por que as coisas são tão terríveis para mim.

Quando dito daquela forma, soava ridículo.  Simón  era um homem que podia ter, e provavelmente tinha, qualquer coisa que desejasse. Poder, riqueza, respeito. E ainda assim, ela presumira que era uma catástrofe o fato de a insípida noiva não se lembrar dele. Aquilo teria sido o suficiente para fazê-la gargalhar se não estivesse se sentindo tão angustiada.

- Estava tentando me colocar em seu lugar – disse ela melancólica. – Como seria a sensação de ser esquecida por alguém a quem se ama. – O polegar longo lhe roçou os lábios, fazendo um arrepio peculiar percorrer a espinha de  Ámbar . – Acho que me sentiria… rejeitada.
- Está preocupada que eu esteja me sentindo rejeitado? – Um discreto brilho divertido bailou nos olhos âmbar, e a insinuação de um sorriso fez curvar os cantos dos lábios de  Simón .
- Não está? – perguntou ela. E aquilo tinha alguma importância?  Ámbar detestava aquela falta de confiança. Não só as lembranças daquele homem lhe haviam sido sequestradas como também qualquer segurança do papel que representava para ele. Odiava a ideia de não conseguir discutir o relacionamento dos dois por medo de tirar conclusões erradas e fazer papel de boba.

A vergonha estampou um rubor nas maçãs do rosto de  Ámbar enquanto ele continuava a observá-la.

- Não teve culpa do que lhe aconteceu,  Ámbar . Não a culpo e também não nutro nenhum ressentimento. Seria mesquinho de minha parte.

Não. Não conseguia vê-lo como uma pessoa mesquinha. Perigoso. Um tanto assustador. Mas não mesquinho. Tinha medo daquele homem?  Ámbar estremeceu de leve. Não. Não era a ele que temia, mas a ideia de que pudesse ter sido tão íntima de um homem como aquele e não conseguir se lembrar. Não conseguia se imaginar esquecendo tal experiência.

- O que aconteceu comigo? – Uma nota de súplica transpareceu em sua voz. As mãos de Ámbar tremiam, e ela as entrelaçou com força para disfarçar a inquietação.

 Simón  suspirou.

- Você teve… um acidente, pedhaki mou. O médico me assegurou de que sua amnésia é apenas temporária e que é indispensável que você não sobrecarregue a mente.
- Sofri um acidente de carro? – Mesmo enquanto perguntava,  Ámbar baixou o olhar a opróprio corpo, procurando por ferimentos ou hematomas. Mas não sentia nenhuma dor muscular ou rigidez. Apenas uma imensa fadiga e a sensação de desconfiança que não sabia explicar.

Por um breve instante, os olhos âmbar se desviaram.

 - Sim.
- Oh! Foi algo sério? –  Ámbar levou uma das mãos à cabeça, tateando por algum ferimento. Simón  lhe segurou a mão gentilmente e a pousou no colo de  Ámbar , mas não a soltou.
- Não. Não foi nada sério.
- Então por que… como perdi minha memória? Sofri uma concussão? Minha cabeça não dói.
- Fico feliz por sua cabeça não doer, mas não foi uma batida na cabeça que causou a amnésia.

 Ámbar inclinou a cabeça para o lado e o observou, perplexa.

- Então, como?
O médico explicou que essa é uma forma que você encontrou de lidar com o trauma deseu acidente. Um instinto protetor para poupá-la de lembranças dolorosas.

As sobrancelhas de  Ámbar se aproximaram quando franziu a testa. Lutou, tentando romper a névoa preta e espessa que lhe embotava a mente. Certamente devia haver algo, algum lampejo de lembrança.

- Mas ainda assim não sofri nenhum ferimento – disse ela incrédula.
= Algo pelo qual sou muito grato – disse  Simón . – Ainda assim, deve ter sido muito assustador.

Um pensamento repentino lhe invadiu a mente, fazendo-a puxar a mão, alarmada.

- Alguém mais se feriu?

Mais uma vez os olhos de  Simón  se desviaram apenas por um segundo. Ele esticou o braço e lhe recapturou a mão, levando-a aos lábios. Um ofego suave escapou dos lábios de  Ámbar quando ele pressionou um beijo na palma da mão macia.

- Não.

 Ámbar deixou escapar um suspiro de alívio.

Gostaria de poder me lembrar. Fico pensando que se me esforçar um pouco mais, tudo voltará, mas, quando tento me focar no passado, minha cabeça começa a latejar.

 Simón  franziu a testa.

- Exatamente por isso não gosto de discutir o acidente com você. O médico me preveniu para não lhe causar nenhum aborrecimento ou estresse. Deve esquecer esse acidente e se focar em recuperar as forças. – Ele pousou a outra mão sobre o abdome abaulado de maneira protetora. – Esse tipo de estresse não faz bem para nosso bebê. Você já passou por uma situação ruim o suficiente para o meu gosto.

 Ámbar soltou a mão que ele segurava e pousou as duas sobre a que  Simón  mantinha em seu abdome. Sob os dedos longos, o bebê se mexeu. Ele retirou a mão rapidamente, com uma expressão perplexa a lhe iluminar o rosto.

 Ámbar franziu a testa enquanto o observava curiosa. Ele voltou a espalmar a mão sobre seu abdome, e, mais uma vez, o bebê se mexeu.

- Isso é incrível! –  Simón  exclamou.

Ao vê-lo tão atônito,  Ámbar não pôde conter um sorriso. Mas, no rastro daquele sorriso, seguiu-se a incerteza. Ele agia como se nunca tivesse experimentado aquilo.

Umedecendo os lábios, ela praguejou contra o fato de não conseguir se lembrar de nada.

- Certamente já o sentiu antes.

 Simón  não interrompeu a exploração suave do abdome abaulado. Passou-se um longo instante até que ele respondesse.

- Estou sempre viajando a negócios – justificou, com uma nota de desânimo na voz. – Havia acabado de retornar quando soube de seu acidente. Fazia algum tempo que… não nos víamos.

 Ámbar soltou o ar que estava prendendo, o alívio lhe suavizando a preocupação. O fato de estarem separados por algum tempo explicava muita coisa.

- Acho que não foi a volta ao lar que esperava – disse ela tristonha. – Deixou uma mulher que o conhecia, que estava grávida de um filho seu e com quem planejava se casar e quando voltou, se deparou com uma que o trata como um estranho. – Em um gesto automático, baixou o olhar aos próprios dedos enquanto falava. Não havia nenhum anel ou aliança. Franziu de leve a testa, antes de voltar a erguer o olhar, tentando fazer a inquietação desparecer uma vez mais.
- Fiquei feliz com o fato de você e o bebê terem se salvado – retrucou ele, mudando deposição de modo a colocar mais distância entre os dois. O olhar ainda se fixando no abdome proeminente, como se estivesse fascinado com o pequeno ser se fazendo presente ali.

Um telefone tocou, e  Simón  se encaminhou ao interfone fixado na parede.  Ámbar se esforçou para ouvir quem estava falando, mas captou apenas a ordem de  Simón  para que a pessoa subisse.

Em seguida, ele retornou e se sentou, tomando-lhe as mãos nas dele.

- É a enfermeira que contratei para cuidar de você. Tenho uma reunião à qual não possodeixar de comparecer dentro de uma hora.

Os olhos de  Ámbar se arregalaram.

- Mas,  Simón , não preciso de uma enfermeira. Sou perfeitamente capaz de permaneceraqui enquanto você cuida de seus negócios.

As mãos longas apertaram as dela com mais força.

- Faça isso por mim, pedhaki mou. Sinto-me melhor sabendo que estou deixando você em mãos capazes. Não gosto de pensar que você possa ter alguma necessidade insatisfeita em minha ausência.

Um sorriso curvou os lábios de  Ámbar diante daquela insistência.

- Por quanto tempo ficará ausente? – perguntou ela, detestando o tom esperançoso, quasepesaroso da própria voz. Soava patética.

 Simón  se ergueu ao ouvir as portas do elevador se abrirem.

- Fique aqui. Voltarei com a enfermeira.

 Ámbar relaxou contra o encosto do sofá e aguardou pelo retorno dele. Toda aquela atenção de  Simón  era adorável, mesmo que desnecessária.

- Instantes depois, ele retornou com uma mulher sorridente que trajava calça comprida e um suéter. Dirigiu um sorriso luminoso a  Ámbar quando estacou a alguns centímetros do sofá.

- Você deve ser  Ámbar . É um grande prazer conhecê-la. Sou a srta. Cahill, mas, por favor,me chame de Patrice. –  Ámbar não pôde evitar retribuir o sorriso da mulher. – O sr. Alvarez  já me orientou sobre o que quer que eu faça e me esforçarei ao máximo para garantir seus cuidados.

 Ámbar focou um olhar expressivo em  Simón .

- Ah, ele fez isso, certo? Posso perguntar quais foram as instruções que lhe deu?

 Simón  conferiu a hora no relógio de pulso com um gesto teatral.

- As instruções foram para garantir que você descanse. Agora, desculpe-me, mas terei deme ausentar por um tempo. Voltarei a tempo de almoçarmos juntos.
- Gostaria disso – retrucou  Ámbar com voz suave.

 Simón  se inclinou e lhe depositou um beijo suave na testa, antes de virar e se afastar.

Os olhos de  Ámbar o acompanharam enquanto imaginava como devia parecer pegajosa.

Com muito esforço, conseguiu arrastar o olhar de  Simón  para Patrice.

- Estou me sentindo bem – explicou ela. –  Simón  faz parecer que estou uma completainválida.

Patrice sorriu e lhe deu uma piscadela.

- Ele é homem. Eles são famosos por se comportarem dessa maneira. Ainda assim, umpouco de descanso não faz mal algum, certo? Vou acompanhá-la até a cama e depois prepararei uma bela xícara de chá para tomarmos quando você acordar.

Antes que  Ámbar se desse conta do que estava acontecendo, a enfermeira a estava guiando em direção ao quarto. Ela piscou várias vezes, quando Patrice a acomodou na cama e arrumou as cobertas em torno de seu corpo.

- Você é muito hábil nisso – disse  Ámbar .

Patrice deixou escapar uma risada baixa.

- Conseguir que meus pacientes façam o que não querem faz parte do meu trabalho. Agoradescanse um pouco para que seu noivo fique feliz comigo e com você quando retornar.

 Ámbar ouviu os sons suaves dos sapatos de Patrice se afastarem do quarto. Quando o ruído se dissipou, relanceou o olhar à lareira na parede oposta da cama.  Simón  acendera o fogo na noite anterior, mais para tornar o ambiente aconchegante do que de fato aquecê-lo, porque o apartamento não era frio. Até mesmo o assoalho era aquecido, o que  Ámbar amava, porque detestava usar calçados dentro de casa.

O pensamento a atingiu ao mesmo tempo em que uma onda de excitação a engolfou. O que mais podia se lembrar de si mesma? Concentrou-se com afinco, mas o esforço lhe fez a cabeça voltar a doer.

O bebê se remexeu e ela baixou a mão para tocar o abdome. O movimento abrandou o desconforto em sua cabeça e a fez sorrir. Apesar da perda temporária de memória, tinha um futuro no horizonte. O casamento e um filho. Desejava apenas lembrar como chegara àquele ponto. Com um suspiro, resignou-se a viver o momento presente. Esperava que suas lembranças retornassem e preenchessem todas aquelas lacunas.

 Ámbar cochilou e, quando despertou, conferiu a hora no relógio sobre o criado mudo, constatando que havia se passado uma hora. Sentindo-se revigorada, atirou as cobertas para o lado, desejando de levantar e andar pela casa. O repouso constante a estava deixando impaciente.

Embora estivesse vestindo um pijama macio, esticou a mão para o robe de seda pousado na extremidade da cama. Envolvendo o corpo com o traje, saiu do quarto e entrou na sala de estar, onde encontrou Patrice.

Sorriu para a enfermeira e lhe assegurou que estava se sentindo bem quando foi questionada. Patrice anuiu em aprovação e, como se pressentisse que  Ámbar precisava ficar sozinha, se desculpou e se retirou.

 Ámbar aproveitou a oportunidade para explorar a espaçosa cobertura. Caminhou de um cômodo para outro, familiarizando-se com a própria casa. Mas não a sentia como seu lar. Podia ver  Simón  refletido naquele estilo e nas estruturas da decoração e da mobília, mas não conseguia reconhecer nada que tivesse sua marca naquele apartamento. Por alguma razão, aquilo a frustrou. Sentia-se como uma convidada intrometida onde não pertencia.

Quando entrou na suíte principal, as linhas que lhe vincavam a testa se aprofundaram.  Simón  a acomodara no que aparentava ser o quarto de hóspedes. Não pensara sobre aquilo quando ele a pousara na cama e a cercara de confortos no quarto extra. Na ocasião, se encontrava muito abalada e focada em tentar processar tudo que estava acontecendo.

 Ámbar se retirou, incapaz de rechaçar o pensamento de que estava sendo inconveniente. Ao lado da suíte principal, ficava o amplo escritório. Obviamente o lugar onde  Simón  trabalhava. Os móveis eram escuros e masculinos. Estantes de livros adornavam a parede dos fundos e uma enorme mesa de mogno se encontrava postada alguns centímetros à frente delas. Os pés de  Ámbar eram acariciados pelo carpete felpudo, à medida que penetrava no interior do cômodo.

Um laptop descansava sobre a mesa, e  Ámbar se sentou na cadeira de couro, na intenção de navegar na internet. Esperava apenas que  Simón  possuísse uma conexão sem fio, já que não conseguia ver nenhum cabo conectado ao computador.

Tocou o teclado, e o monitor se iluminou. Ao menos ela não era um vegetal inútil e retivera as noções básicas de informática. Por mais frustrante que fosse sua amnésia, sentia-se aliviada em saber que a falta de memória se limitava à sua vida pessoal e não ao mundo contemporâneo.

 Ámbar fez um movimento negativo com a cabeça, aborrecida com o disparate daquela situação. Durante a primeira meia hora, realizou incontáveis pesquisas sobre a perda de memória, mas vagar pelo turbilhão de opiniões conflitantes apenas lhe auferiu uma forte dor de cabeça. Portanto, se concentrou em procurar por informações sobre  Simón .

Era um pouco assustador constatar o quanto aquele homem era rico e poderoso. Ele e os dois irmãos eram figuras determinantes no ramo da hotelaria. Não havia muitas informações pessoais, pelas quais  Ámbar ansiava.

Recostou-se para trás na cadeira, irritada com a própria covardia. Tudo que precisava era questionar  Simón  sobre a informação que quisesse. Pelo amor de Deus! Aquele homem era seu noivo, seu amante. Geraram um bebê juntos, e ele a pedira em casamento. Se ao menos pudesse se lembrar daqueles momentos, ficaria mais segura de si mesma. – O que está fazendo?

A voz de  Simón  a atingiu como um chicote, fazendo-a se sobressaltar de medo e surpresa. Ela ergueu o olhar para encontrá-lo parado à soleira da porta. A raiva e a desconfiança fazendo faiscar os olhos cor âmbar. Os lábios sensuais apertados em uma linha fina. Ele se aproximou pisando duro, antes que  Ámbar pudesse formular uma resposta.

- Você me assustou. – Ela levou a mão ao peito na tentativa de acalmar as batidas descompassadas do próprio coração.
Perguntei o que estava fazendo – repetiu  Simón  com um tom de voz frio enquanto contornava a mesa para se posicionar ao lado dela.

A mágoa e a incompreensão a inundaram.

- Estava apenas navegando na internet. Achei que não se incomodaria se eu usasse seu laptop.
- Prefiro que não mexa nas coisas que estão em meu escritório – retrucou ele de forma concisa enquanto esticava o braço para fechar o computador.

Lágrimas queimavam os cantos dos olhos de  Ámbar . Ele a encarava com tanta… aversão. Um arrepio lhe percorreu todo o corpo, fazendo-a desejar apenas se afastar daquele homem o máximo possível.

- Desculpe. –  Ámbar conseguiu dizer por fim. – Estava apenas tentando descobrir alguma coisa sobre mim… você… e essa terrível amnésia – explicou, virando-se em seguida e desaparecendo do escritório antes que envergonhasse a si mesma cedendo ao pranto.

 Simón  a observou se afastar, com um xingamento baixo. Em seguida, passou uma das mãos pelos cabelos, antes de se sentar e reabrir o laptop. Uma rápida pesquisa no histórico do navegador da internet mostrou que ela não fizera nada além de pesquisar sobre amnésia e alguns artigos sobre sua empresa. Outra verificação nos próprios arquivos indicou que nenhum dos documentos da empresa fora acessado.

 Simón  praguejou mais uma vez. Tivera uma péssima reação, mas vê-la utilizando o computador o deixara imediatamente em alerta. Naquele momento, imaginara se a amnésia de  Ámbar não seria uma farsa e se ela não estaria tramando traí-lo outra vez .

Apoiou os cotovelos no tampo da mesa e segurou a cabeça com as mãos. A reunião com o detetive encarregado da investigação sobre o sequestro de  Ámbar fora um exercício de frustração.

A polícia tinha pouca informação para seguir adiante, e a única pessoa que poderia fornecêla não se lembrava de nada.

 Ámbar não fora resgatada como as notícias levaram os telespectadores a pensar. Em vez disso, fora abandonada por seus sequestradores, e um telefonema anônimo alertou a polícia para a presença dela em um prédio de apartamentos em estado precário. Quando lá chegaram, os policiais encontraram uma mulher grávida em evidente estado de choque. Ao despertar, no hospital, ela não se lembrava de nada. Na essência, a vida de  Ámbar começara naquele dia.

Tantas perguntas, tantos fatos desconhecidos!

Entretanto, o que ficara claro para  Simón  era que não podia arriscar a segurança de  Ámbar . Qualquer que fosse a ameaça contra ela ainda persistia e seria execrado se deixasse alguém se aproximar o suficiente para causar algum mal a ela ou à criança. Esperara que as autoridades discordassem quando lhes disse que a estava levando para fora do país. Não que aquilo fosse impedi-lo, porque o bem-estar de  Ámbar figurava no topo de suas prioridades e faria o que fosse preciso para garanti-la.

Em vez disso, eles concordaram que era a melhor opção e o aconselharam a reforçar sua segurança. Queriam ser notificados no instante em que ela recuperasse a memória para que pudessem interrogá-la.  Simón  lhes forneceu seus contatos e avisou que estaria partindo com ela no dia seguinte.

Havia muitas providências a tomar para preparar aquela viagem. Alertara sua equipe de segurança, tanto de Nova York quanto da ilha. Os preparativos estavam em andamento, mas  Simón  ainda tinha vários telefonemas a dar. Ainda assim, a visão das lágrimas de  Ámbar e a mágoa em seu tom de voz o fez parar para refletir. Devia deixar aquilo de lado e dar prosseguimento a seus planos. A segurança de  Ámbar era o mais importante. Quer ela estivesse aborrecida ou não. Embora pensasse daquela forma,  Simón  se descobriu levantando da cadeira e indo ao encontro dela.

 ÁMBAR SE encontrava parada em frente ao closet do quarto que ele lhe designara, observando com olhar vazio a fileira de roupas penduradas à sua frente. Limpou as lágrimas com o dorso de uma das mãos e se concentrou no que vestir.

Vasculhou entre os vários modelos, mas nenhum se parecia com ela. Com a testa franzida em uma expressão tristonha, virou-se na direção da fileira de prateleiras que preenchiam a parte direita do closet e viu uma pilha de jeans desbotados próxima de algumas camisetas dobradas com perfeição.

Esticou a mão para uma das calças jeans, certa de que era naquele traje que se sentia confortável. Porém, quando a desdobrou, constatou que não se tratava de roupas de gestante. Uma rápida procura na pilha restante produziu o mesmo resultado.

 Ámbar procurou entre as outras roupas penduradas no armário e verificou que aquelas também não eram roupas adequadas a uma mulher em um estágio mais avançado de gravidez. Por que não tinha nada para vestir? Baixou o olhar à protuberância do próprio abdome. Embora não estivesse gorda, as cinturas das roupas que lotavam o closet eram muito estreitas para uma mulher com cinco meses de gravidez.

 Ámbar lhe sentiu a presença antes que ele fizesse qualquer ruído. Lentamente, ela girou para se deparar com  Simón  parado à soleira da porta do closet. A expressão se suavizando quando ela limpou as lágrimas do rosto e tornou a virar-se rapidamente. Aproximando-se alguns passos, ele lhe segurou a cintura com as mãos.

- Desculpe.

 Ámbar enrijeceu o corpo e ergueu o queixo até lhe encontrar o olhar.

- Não deveria ter tomado a liberdade de mexer em seus pertences. – Ela ergueu uma das mãos e gesticulou para o closet repleto de roupas. – É óbvio que mantemos um estilo de vida bastante segregado. Terá de me perdoar enquanto reaprendo as regras.

Vincos profundos se formaram na testa de  Simón  enquanto ele a encarava com expressão confusa.

- Do que está falando? Não há segregação em nossa convivência.

 Ámbar deu de ombros, indiferente.

- A evidência está aqui. Não precisa ser muito inteligente para perceber. Você me acomodou em meu quarto. Minhas roupas estão separadas das suas. Nossas coisas são separadas. Nossas camas são separadas. É de se admirar que eu tenha engravidado – acrescentou ela, engolindo em seco, e prosseguiu fazendo a pergunta que lhe queimava a mente. – Por que está se casando comigo? Minha gravidez foi um acidente de percurso? Por acaso sou alguma vadia que lhe preparou uma armadilha para obrigá-lo a se casar?

 Ámbar soube que soava histérica no instante em que as palavras lhe escaparam dos lábios, mas a dor a estava roendo por dentro. Precisava se certificar, ter algum sinal de que a vida que  Simón  alegava ser dela era feliz e não algo sombrio, repleto de lacunas como os buracos em sua memória.

- Theos! Venha comigo.

Antes que ela pudesse protestar,  Simón  a estava arrastando do closet e a guiando na direção da cama, onde a sentou e se acomodou ao lado dela.

 Ámbar olhou ao redor incomodada.

- Onde está Patrice? – Não queria ter uma discussão na frente de terceiros.
- Eu a dispensei quando cheguei – respondeu ele impaciente. – Ela só ficará aqui quando eu não puder estar, até a nossa partida para a Grécia. Patrice permanecerá na ilha conosco pelo tempo que você precisar dela.

 Ámbar não pôde disfarçar o desapontamento.

- Mas eu não preciso dela e pensei que ficaríamos sozinhos quando chegássemos à ilha.

O semblante de  Simón  deixava claro que aquela era a última coisa que desejava. Mais uma vez a mágoa a atingiu em cheio diante da aparente rejeição do noivo.

- Pode pensar que os serviços de Patrice não são necessários, mas não arriscarei sua recuperação. Sua saúde é importante para mim. – A voz grave se suavizou, e os olhos âmbar perderam um pouco da severidade. – Você está grávida e passou por uma situação muito estressante. É natural que eu queira que tenha os melhores cuidados possíveis. –  Ámbar engoliu em seco e anuiu lentamente com a cabeça.  Simón  a observou com olhar penetrante. – Agora, quanto à minha rudeza de agora há pouco… peço-lhe desculpas. Não tinha direito de falar com você daquela maneira.

 Ámbar resfolegou, fazendo-o arquear as sobrancelhas.

- Acho que rudeza não define o que fez. Agiu como um verdadeiro idiota.

Um rubor se espalhou pelo rosto de  Simón  enquanto ele engolia em seco.

- Sim, tem razão, e lhe peço desculpas por isso. Não tenho nenhuma justificativa. Estiveocupado tomando providências para nossa viagem e descarreguei minhas frustrações em você.

- Isso é imperdoável, mas peço que me perdoe mesmo assim.

- Aceito suas desculpas – retrucou ela em tom de voz seco.
- E quanto às suas outras afirmações. –  Simón  afastou uma das mãos que seguravam as dela e a passou pelos cabelos negros. – Não vivemos vidas separadas. Nem viveremos. Você não me preparou nenhuma armadilha para que a pedisse em casamento e não quero que repita isso. – Ele fez uma pausa e suspirou. – Coloquei-a neste quarto em respeito à sua condição. Não achei justo obrigá-la a dividir um quarto e uma cama com um homem que não passa de um estranho para você. Não quis pressioná-la a esse ponto.

À luz daquela explicação, a preocupação de  Ámbar pareceu tola. O que ela havia interpretado como desprezo, na verdade fora um ato zeloso da parte de  Simón . Os ombros de  Ámbar se curvaram quando um profundo suspiro lhe escapou dos lábios.

- Pensei…
- O que pensou, pedhaki mou?
- Pensei que me rejeitasse – respondeu  Ámbar tímida.

 Simón  praguejou em tom de voz baixo e lhe segurou a rosto entre as mãos. Por um longo instante, se limitou a olhá-la nos olhos. Labaredas se refletiam nos olhos dourados. E então, ele inclinou a cabeça na direção dela. A respiração de  Ámbar ficou presa na garganta quando os lábios sensuais pairaram sobre os dela.

Um desejo feroz se acendeu dentro dela e de repente tudo que  Ámbar desejava era aquela boca explorando a dela. Quando os lábios dos dois se encontraram, um raio carregado de eletricidade lhe perpassou a espinha e ricocheteou, se espalhando por seu corpo como uma conflagração.

Em um gesto instintivo,  Ámbar arqueou as costas na direção dele, amoldando-se ao casulo quente do corpo musculoso, enquanto os dedos longos lhe acariciavam o rosto e ele aprofundava o beijo. Os seios sensíveis intumesceram à medida que o desejo crescia. O peito largo lhe roçou os mamilos enrijecidos, fazendo-a se contrair em reação.

 Ámbar envolveu o pescoço largo com os braços e enterrou os dedos nos cabelos da nuca de  Simón . Uma paz avassaladora a envolveu. Uma sensação de perfeição, que não experimentara desde que acordara naquela cama de hospital, se alojou em sua mente.

Um gemido baixo escapou da garganta de  Simón  enquanto ele recuava. A respiração alterada e os olhos faiscando com a evidente excitação.

- Seu corpo se lembra de mim, pedhaki mou, mesmo que a sua mente não se recorde. – Um tom de pura satisfação masculina permeava aquelas palavras. Ele soava arrogante e seguro de si, mas ainda assim aquilo proporcionou a  Ámbar uma injeção de confiança e um muito necessário estímulo.  Simón  pareceu muito feliz com a ideia de ela o reconhecer, mesmo que apenas no nível físico.
- Não tenho nenhuma roupa que me sirva – disparou ela, corando em seguida diante do absurdo daquela frase. O cérebro se fundira no instante em que ele a beijara e agora ela lutava para disfarçar o embaraço. Uma das sobrancelhas de  Simón  se ergueu. – Por que não tenho roupas de gestante? – perguntou. – Não comprei nenhuma? –  Ámbar procurava por qualquer explicação plausível que justificasse o fato de ela não possuir nenhuma roupa apropriada dentre um closet abarrotado.

 Simón  franziu a testa.

- Desculpe-me, pedhaki mou. Não pensei nisso. Claro que não pode sair por aí vestindo seu jeans. – Os lábios sensuais se curvaram em um sorriso lento. – Mesmo que eu adore vê-la vestida com um deles. –  Ámbar inclinou a cabeça para o lado.  Simón  soltou uma risada abafada, e o som baixo e sexy reverberou em seu corpo hipersensível. – Você não gosta de usar esse tipo de roupa na minha presença. Acho que gosta de estar bem vestida quando estamos juntos, mas posso lhe garantir que a acharia linda em um saco de estopa se optasse por vestir um. – Um calor intenso subiu ao rosto de  Ámbar , mas ela sorriu diante do elogio.  Simón  fez um gesto negativo com a cabeça, com expressão tristonha. – Não estou fazendo um bom trabalho em tomar conta de você desde que saiu do hospital. Eu a aborreci e não providenciei as coisas de que necessitava. Isso é algo que posso corrigir imediatamente. Porém, admito que sua segurança e seu bem-estar foram minha prioridade.
- Não diga isso – protestou ela. – Tem sido maravilhoso. Bem, exceto naqueles breves instantes em que se comportou como um idiota. –  Ámbar exibiu um sorriso provocador enquanto falava. – Isso não deve ter sido fácil para você e, ainda assim, tem se mostrado incrivelmente paciente. Desculpe por ser tão rabugenta.

 Simón  tocou seu rosto e, por um instante,  Ámbar pensou que ele fosse beijá-la outra vez.

- Não permitirei que peça desculpas. Fica se preocupando com o quanto isso é difícil para mim enquanto foi você quem sofreu. –  Simón  afastou a mão e se levantou. – Agora tenho de dar alguns telefonemas para lhe providenciar roupas mais adequadas.

 Ámbar piscou várias vezes surpresa.

- Não podemos simplesmente sair para comprá-las?

 Simón  franziu a testa.

- Não está em condições de se lançar em uma maratona de compras. Quero que descanse.Estaremos partindo para a ilha amanhã, pela manhã, assim que você tiver uma consulta com o médico e ele a liberar para viajar.
- Amanhã? – repetiu ela. – Tão cedo?

 Simón  assentiu.

- -Agora sabe por que tenho de me apressar se quiser que suas roupas sejam entregues atempo.

 Ámbar ergueu as mãos em um gesto de rendição. O modo como  Simón  falava deixava claro que tinha muita experiência em fazer com que tudo saísse de acordo com sua vontade. Se ele era capaz de lhe providenciar roupas com tanta rapidez, quem era ela para discutir?

- Agora…

 Ámbar ergueu uma das mãos para silenciá-lo. Conhecia bem aquele semblante e o tom de voz para saber que uma ordem para que descansasse estava a caminho.

- Se me mandar descansar, sou capaz de gritar. – Os olhos âmbar se estreitaram, como se ele estivesse prestes a protestar. – Por favor,  Simón . Estou me sentindo bem. Cochilei enquanto você estava fora. Você prometeu que iríamos almoçar quando retornasse de sua reunião e de repente me descobri faminta. Podemos comer?

 Simón  praguejou mais uma vez cerrando os punhos.

- Claro que sim. Ao que parece, consigo ser negligente em todos os sentidos. Venha, sente-se. Providenciarei algo para comermos.



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