História Transcendente - Capítulo 1


Escrita por: e beomi

Postado
Categorias Loona
Personagens JinSoul, Kim Lip
Tags Femmeslash, Gglibrary, Kimsoul, Lipsoul, Loona
Visualizações 106
Palavras 2.037
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Fantasia, LGBT, Magia, Misticismo
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


depois de muita ansiedade pelo meu debut no gglibrary, finalmente chegou o dia!! espero que gostem dessa fantasy!au lipsoul que fiz com muito amor ♡ obrigada à capista incrível, @harmonix, e à beta mais fofinha, @yyoongih, pelos trabalhos incríveis ♡

boa leitura!

Capítulo 1 - Único, como o nosso amor sempre será


Em nossas tardes outonais, mamãe e eu gostávamos de preparar café com leite e canela juntas – minha parte da ajuda estando mais vinculada com bagunçar os armários da cozinha em busca dos ingredientes do que com, de fato, o preparo das bebidas. Com as xícaras em mãos e acomodadas sobre o cobertor felpudo, em frente à modesta lareira, mamãe contava-me diversas estórias místicas que faziam-me apertar a porcelana em meus dedos com mais força, extasiada com a quantidade de perigos, afinal, considerava a mim mesma como uma grande aventureira.

 

— Então ela conseguiu escapar, certo? — questionou meu eu de dez anos, sorrindo com os dentes banguelas, ansiando pelo fim.

 

— Sim, Jung Jinsoul, — riu a mais velha por conta de minha inquietação; as unhas neste ponto completamente roídas. — A natureza deu à pequena Handong forças suficientes para libertar-se.

 

E, assim, eu aplaudia fervorosamente; apesar de almejar por contos banhados em riscos e terror, os que possuíam um final feliz ainda eram meus favoritos. Até hoje são. Contudo, nos dias atuais não existem epílogos exultantes como nas fantasias que tanto cobiçava. Agora, preciso aceitar o fato de que minha mãe foi caçada e assassinada ao ser condenada por bruxaria; necessito lidar com o adoecimento de meu último relativo vivo, vovó Soyeon. Porém, sobretudo, devo abraçar meu destino; aceitar que o sangue que bombeia nessas veias é wiccano.

 

Esta foi a súplica de minha avó, em seu leito de morte.

 

De forma alguma planejara eu renegar minhas origens, no entanto, após o óbito de minha mãe, a feitiçaria tornou-se meu alvo de cólera; algo cujo eu poderia culpar indubitavelmente para superar a dor instalada neste coração solitário. Com o pedido de vovó, todavia, não poderia permanecer mais tempo calando os sussurros de minhas ancestrais.

 

No primeiro dia de inverno, trajando roupas quentes e encapuzada, despedi-me de Soyeon ao depositar um beijo em sua testa enrugada e rumei para o chalé abscôndito entre os pinheiros espaçados; a trilha guiava o caminho até um certo ponto, antes de desembocar em um matagal que fui somente capaz de sair com as direções e sabedoria de minha avó que, por sorte, ainda lembrava-se do trajeto inoportuno.

 

Como em uma das estórias de mamãe, o casebre possuía aparência puída e estarrecedora, convidando a quem estivesse do lado de fora a correr na direção oposta de imediato. Eu, porém, transformei os ventos lancinantes em coragem através de meus pulmões, ousando bater na porta de madeira lascada com meus nós trêmulos.

 

A figura de olhos felinos, cabelos loiros e opacos e rosto juvenil, contudo, não era o que eu esperava encontrar.

 

— Você é Kim Areun? — indaguei, pressionando a lã de meu casaco contra meu corpo gélido e tremelicante.

 

A mão direita repleta de anéis e pequenas cicatrizes segurou a porta entreaberta com mais pressão, demonstrando a afetação causada por meu questionamento.

 

— Quem quer saber? — respondeu fria e entredentes.

 

— Sou neta de Jung Soyeon; ela disse a mim que Areun poderia ensinar-me sobre o misticismo de nossa linhagem. — expliquei com certa hesitação, temendo o comportamento alheio.

 

— Chegou tarde, garota. — suas íris cortantes carregavam certa suavidade, apesar de sua voz soar intimidadora. — Areun foi morta pelos caçadores há dois meses.

 

Surpreendida pela notícia, meus lábios comprimiram-se numa tênue linha, engolindo as palavras que repousavam em minha língua. Incerta do que dizer, meneei com a cabeça, em um ato de respeito.

 

— Meus pêsames. Desculpe incomoda-la; estarei indo agora…

 

Com uma reverência curta, dei-lhe as costas, observando o cenário concentradamente para guiar-me corretamente até minha casa. Missão fracassada.

 

— Ei, garota! — chamou-me novamente, divergindo minha atenção da floresta. — Por que não aprende vossos dogmas com sua mãe?

 

A pergunta era, de fato, válida. Em nossa cultura, segundo o quê vovó disse-me, a mãe era responsável pela educação de seus filhos em todos os aspectos, até mesmo no bruxismo. Aos dez anos, as crianças deveriam ser apresentadas ao universo wicca e, aos trezes anos, a prática de feitiços tinha início. As estórias – reveladas, na verdade, histórias – eram a forma que minha mãe encontrara para propagar os aspectos de nosso mundo para o meu pequeno ser imaturo.

 

— Não acho que possa me ajudar. Ela está morta.

 

Minha resposta pareceu ter impacto estrondoso sobre a jovem, que, após alguns segundos de puro silêncio e contato visual, abriu a porta por inteiro, acenando com o braço para que eu adentrasse.

 

— Entre logo. — ordenou, imponente. Meu corpo se voltou completamente para a direção de sua voz e meus passos foram cuidados, tementes por um ataque inesperado da garota de aparência meticulosa. — Não sou tão boa quanto minha mãe, mas presumo que possa te ajudar em algo.

 

Esbocei um sorriso singelo e agradecido, erguendo a mão de maneira educada.

 

— Sou Jung Jinsoul.

 

Aparentando descaso, simplesmente tomou meu cumprimento com a sua destra.

 

Kim Jungeun.

 

Após quatro completos meses de ensinamentos e treinamentos de feitiços, ficou claro como a água do rio que cortava nossa miúda cidade que Jungeun era um reflexo perfeito de sua moradia; ambas eram aterrorizantes no exterior, com placas invisíveis que gritavam “Saia daqui!”, porém o interior era reconfortante e acolhedor, daqueles que faz você querer passar a noite e, em seguida, uma longa temporada.

 

No entanto, distintivamente da casa, Kim Jungeun não permitia fácil acesso ao seu interior.

 

Nas primeiras semanas, jogava-me livros e mais livros – a maioria com suas redondas quinhentas páginas – para que eu lesse dentro de cinco horas, quando, então, ela me faria perguntas e se minhas incertas respostas estivessem erradas – sempre estavam por eu ser uma leitora medíocre –, ela me designava tarefas domésticas como punição.

 

— Apresse-se, garota. — ela bradava da sala enquanto eu limpava a cozinha, borbulhante de raiva. — Irá lavar o banheiro ainda hoje.

 

Felizmente essa fase terrível teve fim quando Jungeun passou a ensinar-me feitiços. Começamos pelos básicos, obviamente, como o de conjurar tempestades; os que envolviam o controle do clima deveriam ser, teoricamente, mais fáceis. Todavia, minha memória possui apenas registro de uma furiosa bruxa sendo ensopada por uma nuvem particular, assim como eu.

 

Após o incidente que alagou sua casa – que eu, evidentemente, tive que secar gota por gota –, Jungeun decidiu que praticaríamos magia somente dentro da imensidão arbórea.

 

A proposição foi, de certo, a melhor, uma vez que o ambiente florestal aumentava minha concentração e, como bônus, anulava qualquer perigo de enfrentar a zanga alheia novamente.

 

No terceiro mês, entretanto, enquanto centralizava minhas energias no local pacífico e com som tranquilizante dos bichos, a mão de Jungeun arrancando-me da terra desestabilizou por completo meu progresso no feitiço em andamento.

 

— Jinsoul, volte já para o chalé — decretou, empurrando-me para a trilha demarcada por nossos pés. — Estou os escutando; sinto suas auras pútridas.

 

Arregalei meus olhos de imediato, meu corpo sendo arrebatado por adrenalina e, sobretudo, ódio – mesmo que estivesse tremendo pelo medo.

 

— Temos que sair daqui — disse, enfatizando o plural do verbo não mencionado por Jungeun. — Precisamos voltar, Jungeun.

 

— Eu estarei logo atrás, Jinsoul — respondeu-me, enquanto retirava nossos materiais – como trevos e amuletos – do solo. — Vá agora, preciso apagar os rastros de que estivemos aqui ou eles nos acharão e nossa fuga será inútil. Vá!

 

Fitando seus olhos suplicantes e com resquício de preocupação, forcei minhas pernas a correrem de volta para a casa – ainda que meu coração tivesse permanecido com Jungeun, no centro daquela maldita floresta.

 

Aquela foi, seguramente, a espera mais agonizante de toda a minha vida. Por quinze longos minutos, andei em círculos por todo o espaço da sala, alternando somente em roer as unhas e enfiá-las nas palmas de minhas mãos, impaciente e terrivelmente atormentada.

 

Quando as lágrimas estavam à beira de minhas córneas, a bruxa cruzou a porta, ofegante. Impensadamente, meus membros possuídos tomaram suas ações, permitindo ocorrer os seguintes acontecimentos – meus calcanhares doloridos levaram-me até Jungeun, meus músculos aliviados envolveram seu pescoço e, meus lábios nervosos selaram os dela.

 

Meu corpo tencionou por inteiro quando a realização me arrebatou. Eu havia atacado Kim Jungeun.

 

Tentando desesperadamente formular desculpas com qualquer estória que atravessasse meus neurônios paralisados, preparei-me para cessar o contato íntimo. Minha mente, porém, nublou inteiramente quando Jungeun levou suas mãos à minha cintura, aprofundando o beijo que, sem meu próprio conhecimento e consentimento, meu corpo clamava.

 

Os dias que prosseguiram o incidente foram, para a minha surpresa, confortáveis e sossegados; Jungeun não parecia incomodada com a minha presença, porém estava mais quieta que o normal, seus olhos fitando-me de soslaio enquanto seus devaneios permaneciam reclusos para si mesma.

 

Uma semana depois, quando passei a acreditar que havia sido apenas um evento isolado, que Jungeun tomou a chance somente por sua carência, a jovem bruxa provou-me, novamente, errada.

 

Estávamos praticando o feitiço de limpeza de chacras, desta vez no pequeno chalé, por conta do aumento de número de caçadores dentro da mata. Por sorte – ou prática, como Jungeun havia argumentado –, consegui realizar o encanto em minha primeira tentativa e em tempo recorde. Meu sorriso orgulhoso apenas foi removido de meu rosto quando tive os lábios alheios, de novo, sobre os meus, relembrando a melhor sensação que havia provado em meus vinte anos.

 

Os dias, então, pareciam voar ao lado da feiticeira. Quando dei por mim, a magia agora tinha gosto doce – tão doce quanto o gloss de uva de Jungeun – e deixou de ser um fardo sobre meus ombros. Os olhos de vovó emanavam felicidade quando viam-me devota, praticando o que me fora anteriormente ensinado, em nossa casa; vê-la um pouco menos catatônica, de fato, aquecia meu coração, certa de que havia feito a melhor escolha.

 

No quarto mês, todavia, a situação de Soyeon piorou; cuspia sangue e não tinha forças para comer, permanecendo em estado de dormência durante quase vinte e quatro horas.

 

Decidi então, numa terça-feira, trazer Jungeun até em casa, somente para que ela conhecesse meu último resquício de família antes que vovó desfalecesse – era fato, eu estava apaixonada pela bruxa.

 

Despedi-me de Soyeon, cuidadosa e suplicante para que ela aguentasse um pouco mais, apenas para ver a garota que atacava meu coração na mesma intensidade que eu havia atacado os lábios dela em nosso primeiro beijo – impiedosa e furiosamente.

 

Com os pés quase fora da floresta tão familiar, o sorriso afeiçoado que carregava em meu rosto morreu; meus olhos fizeram jus às cheias de nosso rio e transbordaram. Meus joelhos rasgaram com o impacto que caíram ao solo repleto de galhos e pedras, o sangue fluindo com minhas lágrimas.

 

Diante de mim, Jungeun.

 

Amarrada em pedaços de madeira, Jungeun.

 

Queimando, Jungeun.

 

Os caçadores, vestidos em seus trajes pretos habituais, circulavam-na, aguardando o fogo esvanecer para garantir a morte da bruxa. Sufocando meus murmúrios e soluços com a destra, permaneci fitando a crueldade diante de mim, incapaz de realizar qualquer ação que não fosse simplesmente chorar – e, também, não havia nada que eu pudesse fazer; Jungeun já não emitia qualquer som, evidenciando seu estado.

 

“Se eu houvesse insistido um pouco mais...”, culpei-me internamente, reprisando o pequeno diálogo que tivemos há pouco menos de uma semana, quase como se fosse uma premeditação minha.

 

— O que faremos sobre os caçadores? — perguntei, um tanto insegura com a presença incessante deles em nossa floresta, enfiando-me ainda mais dentro de seus braços aconchegantes.

 

— Não faremos nada — respondeu, seus olhos voltando-se para minha expressão confusa. — “Tudo o que fizeres retornará triplicado”. Sei que se lembra perfeitamente de nossos mandamentos wiccanos. Além do mais, não praticamos magia para machucar ninguém, por mais que mereçam.

 

Bufei sob sua repreensão, concordando com a cabeça, mas, em seguida, teimando novamente: — E se algo acontecer, Jungeun? E se nos acharem?

 

A loira manteve-se calada por instantes e sorriu sem mostrar os dentes, numa tentativa de me reconfortar, mas os olhos dela sempre a entregavam, como verdadeiros espelhos de sua alma e pensamentos.

 

— Não reflita muito sobre isso. Somos seres transcendentes, Jinsoul; aqui, agora, estamos junto à natureza, mas, no fim, lidaremos com o metafísico.

 

— Espero que nosso amor seja transcendente também, assim você poderá me encher de beijos em outros planos — retruquei, travessa e brincalhona, vendo as bochechas da bruxa corarem seguida de uma falsa tosse.

 

— V-vamos voltar a praticar, anda! Já passou muito tempo relaxando! — disparou a ordenar, arrancando meu riso; não havia nada melhor do que uma envergonhada e nervosa Jungeun. Isto era fato.

 

E sempre seria. Nem que, agora, em outras realidades.



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