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História Três Escolhas ou Um Novo Desfecho - Capítulo 1


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Notas do Autor


Por se tratar da continuação da fanfiction "Três Chances ou O Terceiro em Discórdia", é imprescindível que se leia antes essa fanfic, que se encontra aqui: https://www.spiritfanfiction.com/historia/tres-chances-ou-o-terceiro-em-discordia-3515095

Capítulo 1 - Prólogo


Era pouco mais de meia-noite.

Hyoga despertou. Estava tendo um sono agitado.

Era sempre assim. Nas noites em que não dormia acompanhado de Ikki, costumava dormir muito mal.

Não é que tivesse pesadelos. Esses, felizmente, não tinham voltado a acontecer.

Desde que fizeram aquela última viagem ao passado, o cavaleiro de Cisne nunca mais tinha sofrido com esses terríveis episódios de se recordar, contra sua vontade, de suas vidas passadas como Helena e Heitor.

Entretanto, o rapaz russo às vezes era acometido por noites de sono bastante instáveis. Simplesmente acordava agitado, sem motivo aparente.

As noites insones ocorriam quando Ikki precisava viajar a trabalho. As fotos que produzia como freelancer estavam sendo amplamente reconhecidas e, eventualmente, isso levava o antigo cavaleiro de Fênix a viajar para cumprir uma agenda de trabalho que se tornava cada vez mais cheia.

Hyoga se orgulhava de Ikki e torcia pelo sucesso do homem que amava. Ele mesmo tinha também muito trabalho a fazer todos os dias, já que, junto a Shiryu, era responsável pela administração da Fundação Kido. Saori confiava cegamente no Cisne e no Dragão, por saber que os dois combinavam muito bem inteligência, sabedoria, equilíbrio e frieza para tomarem as decisões mais acertadas para o legado deixado à jovem por seu avô. Assim, seus dias eram bastante ocupados e o russo sabia perfeitamente que não vivia um relacionamento de dependência emocional, que o levasse a necessitar de Ikki sempre consigo. Era claro e óbvio que ambos se amavam, e muito, mas isso não queria dizer que precisavam ficar juntos o tempo inteiro.

Por esse motivo, Hyoga se repreendia quando acordava dessa forma nas noites em que Ikki não compartilhava de sua cama. Odiava a ideia de ser tão dependente a ponto de não conseguir dormir tranquilo uma noite inteira sem a companhia do amante...

Porém, lá no fundo, o russo sabia que não era por isso que despertava dessa forma nessas noites mais solitárias. Havia... algo mais. O loiro, no entanto, preferia não pensar demais nisso. Talvez estivesse traumatizado por conta do que ocorreu da última vez; o fato é que ele simplesmente concluía que dormia mal quando Ikki não estava com ele e ponto final. Não se aprofundava demais na causa disso.

Como sabia que dificilmente conseguiria pegar no sono outra vez, o antigo cavaleiro de Cisne deixava sua cama nessas situações e se encaminhava para a cozinha da mansão Kido, porque normalmente acordava faminto.

Hyoga ainda morava na mansão Kido, assim como Shun, Seiya e Shiryu. Contudo, Ikki já havia lhe chamado para morar consigo em seu apartamento por mais de uma vez. O moreno sempre gostou de ter sua privacidade e por isso sempre teve seu próprio espaço. O loiro sabia muito bem que Ikki ficou um pouco frustrado quando ele negou o convite. Hyoga deu justificativas plausíveis, como o fato de ser mais prático morar na mansão Kido por poder contar com os automóveis da Fundação para uso pessoal, além de que, por morar no mesmo lugar que Shiryu, seu trabalho era muito facilitado assim.

Ikki alegou ter compreendido os motivos apresentados pelo namorado, mas Hyoga sabia muito bem que tinha deixado o irmão de Shun chateado. O antigo defensor da constelação de Fênix pensava que seu apartamento era simplório demais para o russo de gostos tão refinados. Ikki não duvidava do amor que existia entre eles – e nem poderia, depois de tudo pelo que tinham passado juntos – mas julgava que ainda havia alguns pequenos desafios que precisariam enfrentar nessa vida, para serem plenamente felizes. De todo modo, não era nada que não pudesse ser algum dia resolvido. E, até lá, Hyoga continuava morando na mansão Kido e Ikki, sempre que estava na cidade, compartilhava do quarto do loiro.

Hyoga, por sua vez, sabia que os motivos que enumerava para justificar sua permanência na mansão não eram realmente verdadeiros. Entretanto, o loiro acreditava que se mudar para o apartamento de Ikki era um passo grande. Do que tinha receio exatamente ele não sabia. Acreditava apenas que, se não era uma certeza de que esse era o caminho a ser tomado no momento, preferia não dar tal passo.

Racionalmente, o loiro sabia muito bem que não deveria temer pelo seu relacionamento. Ikki e ele estavam destinados a ficar juntos. Eram almas gêmeas.

Seus sentimentos, todavia, traziam algumas inseguranças vez ou outra. Afinal, mesmo sendo almas gêmeas, ele e Ikki tinham sido separados em outras duas vezes. Ou seja, erros poderiam ser cometidos e, dependendo de sua gravidade, eram pertinentes o bastante para separá-los em definitivo.

Obviamente, o russo não procurava perder-se nesses sentimentos. Conseguia ignorá-los a maior parte do tempo, especialmente se estivesse na companhia de Ikki.

Mas nas noites em que não estavam juntos... Ah, nessas noites...

Hyoga bufou, zangado consigo mesmo.

Repreendia-se.

Detestava sentir que não estava sendo forte o suficiente.

- Recomponha-se, Hyoga. – disse o russo, para si mesmo. Levantou-se de sua cama e vestiu suas calças jeans, calçou os tênis brancos e vestiu uma camisa de manga longa azul, para dirigir-se à cozinha da mansão.

Estava tudo no mais completo silêncio, como costumava ser. Seguiu seu caminho suavemente pelos corredores da mansão, para que ninguém pudesse ouvi-lo. De fato, ninguém sabia dessas noites insones do loiro.

Nem mesmo Ikki. Hyoga não o queria preocupar com o que julgava ser uma bobagem sua. Afinal, tudo já havia sido resolvido, não é mesmo? Compreendeu o que se passara em suas vidas passadas, todos esses mistérios foram esclarecidos, tanto que os pesadelos que o atormentaram naquele período cessaram... Então, estava tudo bem... não estava?

Hyoga entrou na cozinha e foi direto à geladeira. Tirou dali uma garrafa d’água e bebeu o seu conteúdo de uma única vez. Depois, pegou uma maçã da fruteira que ficava sobre uma bancada e, depois de algumas mordidas olhando através da janela, fitando as brilhantes estrelas lá fora, resolveu sair para o jardim. Espairecer sentindo o sereno da noite envolvê-lo parecia uma boa ideia.

Finalizou a maçã rapidamente e saiu para o jardim. De fato, tão logo inspirou um pouco daquele ar noturno, o loiro sentiu-se bem. Começou a caminhar a esmo, sem rumo definido, apenas deixando que suas pernas o levassem para onde quisessem. O propósito ali era simplesmente se cansar para poder voltar a seu quarto e tentar pegar no sono novamente.

Acabou seguindo para uma parte do jardim que reconhecia como sendo uma de suas preferidas. Era onde ficavam belíssimas rosas que, Hyoga sabia, lembravam-no um pouco algumas sensações de sua vida como Helena.

Sensações ligadas ao general Ian... uma das vidas passadas de Ikki.

Naquela noite em especial, algo parecia lhe atrair para aquele lugar. E Hyoga não demorou a entender por quê.

Próximo a uma árvore ali perto, havia um vulto.

Hyoga não se sobressaltou ao se dar conta da figura ali presente, uma vez que rapidamente compreendeu de quem se tratava:

- Senhor Carl. – Hyoga disse, chamando a atenção do vulto que então caminhou em sua direção, saindo das sombras e sendo iluminado pela luz do luar.

- Boa noite, senhor Hyoga. – o velho senhor cumprimentou o loiro.

Nenhum dos dois usou um tom de cumprimento mais caloroso.

Era como se ambos soubessem que aquele encontro não era casual.

E, de fato, ambos sabiam disso.

A alguma distância, Hyoga fitava o senhor do Tempo. Com as mãos nos bolsos de suas calças, mantinha uma expressão fria em seu rosto, muito embora sentisse um nervosismo crescente que já começava a tomar conta de si.

- Então eu vou precisar enfrentar? É isso? – Hyoga perguntou, com um tom até mesmo ríspido.

- Eu não vim aqui para lhe dizer o que fazer, senhor Hyoga. – Carl retirou seus óculos para limpar suas lentes.

- Então veio fazer o quê?

- Vim lhe trazer possibilidades. E isso não é novidade alguma para você, senhor Hyoga. Sabe muito bem disso.

O tom de voz de Carl era calmo, tranquilo. Mas essa serenidade estava longe de acalmar o loiro que, no entanto, também não se deixava exceder no nervosismo óbvio que sentia. De certa forma, lá no fundo, havia uma forte resignação no russo.

Por mais que ele tentasse ignorar, por mais que quisesse justificar para si mesmo que essas noites insones não significassem nada, Hyoga sempre soube que aquilo não teria como ser irrelevante.

Não queria passar por situações tão traumáticas como da outra vez, mas... por outro lado... perguntava-se se teria escolha. O russo sentia-se um tanto impotente e, por receio ou talvez comodismo, o outrora protetor da constelação de Cisne tinha decidido, em um grau quase inconsciente, ignorar todos os sinais que essas noites mal-dormidas apontavam e esperava pelo momento em que fosse necessário confrontar o que lhe estava tirando o sono.

Era possível que, como forma de autopreservação, Hyoga tivesse optado por não buscar aquilo que, em algum momento, teria de enfrentar.

Agora, diante de Carl, compreendia que esse momento havia chegado.

- Possibilidades... – Hyoga repetiu, reflexivo – Fala como se eu tivesse algum poder de escolha aqui, senhor Carl. – suspirou o russo, imaginando se o que viria pela frente seria tão horrível quanto da última vez.

- O senhor tem escolha, senhor Hyoga. – Carl respondeu, voltando a colocar seus óculos – Não vim aqui para lhe impor nada. Na verdade, estou vindo aqui para responder a um chamado seu.

- Chamado meu? – Hyoga franziu o cenho – Eu não o chamei. Ainda mais que você deveria estar no meio de sua peregrinação junto de Shun e Simon... Eu não iria interrompê-los por algo à toa.

- Em primeiro lugar, senhor Hyoga... Não está interrompendo nossa peregrinação. Pelo contrário; pode ser que me ajude a complementá-la. Faz nove meses desde que parti com Shun e Simon em uma viagem pelo mundo, buscando auxiliá-los em uma jornada de autoconhecimento. E isso, de fato, vinha ocorrendo conforme o esperando. Porém... Há algum tempo comecei a sentir seu chamado. Eu não o compreendi em um primeiro momento, mas depois fui juntando as peças. Meu tempo com o Shun e Simon me ajudaram nesse sentido. O que eles foram descobrindo a respeito deles mesmos, assim como sobre suas vidas passadas, foi de muita utilidade para que eu pudesse esclarecer uma última peça desse quebra-cabeças. Esse momento coincidiu com esses últimos tempos em que seu chamado se tornou mais forte. Refleti bastante e cheguei à conclusão de que deveria atendê-lo.

Hyoga não respondeu nada. Apenas cruzou os braços sobre o peito, pensativo.

- O senhor sabe por que está com dificuldades para dormir. Ou melhor, o senhor sente, mas talvez não tenha pensado a respeito para conseguir de fato entender o porquê disso, não é?

O loiro permaneceu calado. O senhor do Tempo então suavizou a expressão, em um quase condescendente sorriso:

- Entretanto, dentro de si, o senhor conhece essa resposta, não conhece, senhor Hyoga? Sabe muito bem que isso ainda está se relacionando a seu passado como Helena.

Hyoga suspirou profundamente.

Sentiu um leve tremor em suas pernas ao ouvir o velho homem falar daquele jeito. Não apenas por todas as lembranças desse período, mas principalmente porque soube que ele estava certo assim que ouviu aquelas palavras.

- Eu apenas... não consigo entender o porquê disso. – Hyoga sequer se deu ao trabalho de contestar Carl. Reconhecia a verdade no que ele dizia, apesar de isso não lhe fazer ainda qualquer sentido – Não foi tudo esclarecido? Eu entendo de onde veio minha culpa. Conheci meu passado, descobri que... – Hyoga precisou fazer uma pausa. Essa parte sempre lhe pesava reconhecer – Descobri que fui, em grande parte, responsável pelo terrível desfecho na vida de Seth... Trouxe profunda dor a Ian...

- Exatamente. – respondeu Carl, com um semblante sereno.

- Então eu já me entendi com meu passado. Posso não gostar dele, mas sei o que fiz e tudo já foi esclarecido. Por que então preciso voltar a ele uma vez mais? – agora a voz do russo não era mais tão fria. Sentia-se um fio de angústia ali.

- Esse é o ponto, senhor Hyoga. Não precisa voltar a seu passado, se não quiser.

Hyoga riu de leve, sarcástico:

- Ah, claro. Como da outra vez, que eu também não era obrigado a mergulhar mais profundamente nos meus sonhos, se eu não quisesse, não é? O problema era que, se eu não fizesse isso, nunca mais teria paz e seria eternamente assombrado por um passado desconhecido. Ou seja, não é como se eu realmente tivesse uma escolha, senhor Carl.

- Na verdade, senhor Hyoga, estamos realmente em uma situação distinta. Não estou falando por enigmas nem deixando qualquer palavra nas entrelinhas. Estou lhe dizendo que, se não quiser voltar a esse passado, não precisará fazê-lo.

- Claro. – Hyoga replicou, muito irônico – E o preço pago por não querer encarar meu passado outra vez é nunca mais conseguir dormir tranquilamente? É isso?

- Senhor Hyoga, esses problemas de insônia que vêm tendo são por conta do chamado que estava me fazendo. O senhor estava direcionando sua energia para mim, chamando por mim. Mesmo que não estivesse ciente disso, era o que estava fazendo. Entretanto, posso lhe garantir uma coisa. Se decidir que não quer seguir o caminho que venho lhe oferecer agora, não terá mais problemas com essas noites insones.

- Como assim?

- Depois dessa noite, se escolher que não quer mais qualquer vínculo com esse passado de sua vida como Helena... Seu desejo será atendido. Esse último vínculo pode se encerrar hoje, se for essa a sua escolha. E, depois disso, não terá mais problemas para dormir como vem ocorrendo.

Hyoga estreitou os olhos claros para Carl, demonstrando alguma confusão.

- Senhor Hyoga... É muito simples. O senhor sente que há um assunto inacabado em sua vida como Helena. Um assunto que o incomoda mais do que deveria. Eu mesmo não deveria me preocupar com isso. Afinal, é um fato que todas as pessoas cometem erros em suas vidas e, infelizmente, nem sempre é possível reparar todos eles em uma vida. Para isso há a reencarnação; é a possibilidade de crescimento, de tentar corrigir o que não se pôde na vida passada... Enfim; o fato de você ter um assunto inacabado como Helena não deveria ser nada de mais... Porém...

- Porém...? – Hyoga indagou, aflito. Sim, ele sabia, sempre soube; no fundo, ele nunca conseguiu aceitar plenamente todo o ocorrido nesse seu passado. Todo aquele desfecho era injusto demais. E nem tanto por Helena ter perdido sua vida da forma como ocorreu, mas porque com a morte do príncipe Seth, o duque de Filles venceu e Ian sofreu amargamente até o último dia de sua vida. Era isso que Hyoga nunca pôde aceitar. O general Ian nunca soube que o duque de Filles tinha sido responsável direto pelas mortes de Helena e Seth... E, não sabendo disso e por ser extremamente honrado, Ian terminou servindo ao duque de Filles, acreditando que assim estaria se mantendo leal ao seu antigo príncipe.

Por mais que tudo isso fizesse parte do passado, Hyoga simplesmente não aceitava que o duque de Filles não tivesse sido punido. Para o russo, era inaceitável pensar que um homem tão bom e honrado como Ian tivesse servido até o fim de seus dias a um homem tão vil e inescrupuloso quanto aquele cruel duque...

Contudo, o que Hyoga poderia fazer? Aquilo estava no passado. Não poderia mudar o passado. Estava feito. Restava a ele apenas remoer um passado distante, tentando ao máximo não deixar que isso atrapalhasse tanto seu presente.

- Porém, às vezes, ocorrem exceções. E seu passado como Helena e os assuntos inacabados deixados por ela configuram um exemplo de exceção, senhor Hyoga.

- O que está querendo dizer, senhor Carl?... – Hyoga perguntou, cauteloso. Começava a entender o que o senhor do Tempo lhe dizia, mas tinha medo de estar compreendendo errado.

- Estou dizendo que, por motivos que não posso lhe confidenciar agora, venho oferecer uma chance única, senhor Hyoga...

O antigo cavaleiro de Cisne engoliu em seco.

- A chance de voltar a esse passado para resolver as pendência que ficaram após a morte de Helena.

Hyoga não dizia nada. Esperava para ouvir tudo, antes de se apegar a qualquer expectativa que poderia ser logo frustrada em seguida.

- Isso quer dizer que, se assim desejar, poderá regressar a esse passado, senhor Hyoga. Poderá fazer algumas mudanças necessárias, resolvendo as pendências que permaneceram após a morte da senhorita Helena e do príncipe Seth.

- E como eu faria isso? Quero dizer... Como posso mudar algo? Nessas viagens ao passado, nós não somos apenas meros espectadores?? – o russo tinha a voz trêmula, denotando toda a sua aflição – Sempre que Ikki e eu visitamos esses passados, pudemos somente assistir a tudo o que se passou, sem nos intrometer em nada...

- Eu sei. Foi exatamente o que aconteceu daquela vez. Mas agora... será diferente. Estou lhe oferecendo a chance única de fazer algo diferente, senhor Hyoga. Algo que... quase nunca é permitido que ocorra.

O loiro sentiu o coração bater aceleradamente em seu peito. Batia tão forte que não era capaz de ouvir seus próprios pensamentos.

- Mudar o passado? Mas... quais são as implicações disso, senhor Carl? Porque haverá implicações, certamente! Não é? – questionou, em tom de urgência.

- Haverá, obviamente. – a reencarnação de Cronos se limitou a responder – Mas que implicações serão essas o senhor apenas terá conhecimento se seguir esse caminho que lhe ofereço agora.

- Isso pode ser perigoso. Já li muitos livros em que histórias com viagem no tempo trazem problemas...

Carl nada respondeu. Olhava para Hyoga com uma expressão indecifrável.

- E por que justo agora? Por que não me trouxe essa possibilidade antes?

- Por uma convergência de fatores. Tem a ver com a peregrinação de Shun e Simon... tem a ver com chamado que o senhor me fez, mesmo sem saber, por tantas noites... Tem a ver com algumas reflexões que fiz e à conclusão a que cheguei... Resumindo, senhor Hyoga... Tem a ver com uma série de motivos que não irei explicar agora. Vou apenas lhe dizer que o momento de lhe fazer essa oferta é hoje e apenas agora. Nem um dia a mais, nem a menos. Há um momento certo para o que estou fazendo e esse momento é agora. Então... – Carl retira um relógio de bolso de seu colete, para então fitá-lo analiticamente – O momento é esse. Agora ou nunca. O que me diz, meu rapaz?...

Os olhos do senhor do Tempo não deixavam qualquer dúvida. Hyoga realmente não teria outra chance como essa. Carl não estava blefando.

Ao mesmo tempo, o loiro se perguntava se poderia responder assim, sem ponderar exatamente tudo o que sua decisão poderia trazer.

- O senhor me disse que, se eu optar por enterrar esse passado hoje e não querer mais voltar a ele... Se essa for minha decisão, então vou conseguir voltar a dormir? Essas noites de insônia terão um fim?

- Sim, elas cessarão. Seus pensamentos angustiados a respeito desses assuntos inacabados em seu passado como Helena continuarão, é claro, mas isso não irá mais tirar seu sono. Então, se escolher não retornar a esse passado, você poderá continuar com sua vida aqui, sem mais noites insones. No entanto, talvez precise buscar um terapeuta que o ajude a lidar melhor com essas questões inacabadas, para poder aceitá-las... Mas enfim... pode funcionar também. – a fala de Carl era perfeitamente neutra. Ele não parecia querer induzir Hyoga a uma decisão. Era apenas muito claro em tudo o que dizia ao loiro.

- Hoje então é um ponto decisivo nisso tudo? Mas... por quê?

- Porque, se for para mudar algo nesse passado... Hoje é o dia-limite para que alguma mudança significativa possa ser empreendida. É uma questão de tempo, senhor Hyoga. E disso eu entendo. Portanto, confie em mim quando digo que hoje é sua última chance de mudar algo, se assim quiser, no passado que ficou de Helena... Se, no entanto, você abrir mão disso, não haverá mais motivo para você fazer qualquer chamado para mim, pois nada mais poderá ser feito. Sua insônia era fruto desses chamados que me fazia. Então, se não houver mais chamados, não haverá mais insônia. E não haverá mais chamados se não houver mais possibilidade de mudança. E a possibilidade de mudança só vai até hoje. Você, em seu íntimo, já sabia disso antes que eu mesmo lhe dissesse. Por isso os chamados estavam ficando mais intensos. Tudo convergiu para hoje, aqui, agora, neste momento. – Carl respirou fundo – Então, senhor Hyoga... Preciso que me diga qual será sua decisão.

Hyoga olhou para trás, para a mansão Kido.

Daqui a algumas horas, iria amanhecer.

E Ikki regressaria de sua viagem.

O russo estava morto de saudades do homem que tanto amava.

Queria vê-lo desesperadamente, apesar de terem se visto há cinco dias...

E havia a incógnita a respeito das consequências de uma viagem no tempo.

Mudar o passado traria consequências... Quais seriam elas?

Realmente, eram muitos bons motivos para Hyoga recusar a oferta de Carl.

Então por que o loiro sentia, com cada fibra de seu ser, que precisava aceitar tal oferta?

- Quando você diz que poderei mudar o passado... Resolver as pendências que ficaram após a morte da Helena e do Seth... Isso quer dizer que você vai mesmo me levar a esse passado? Eu, Hyoga, poderei então... interagir com esse passado? Com as pessoas desse passado?... – Hyoga perguntou, transformando em palavras o que gostaria mesmo de saber.

- Sim, senhor Hyoga. O senhor poderá interagir com Ian. – Carl respondeu de forma clara, objetiva e direta, por saber que era exatamente isso o que o loiro precisava ouvir.

- Então... – Hyoga sabia perfeitamente que não estava tomando essa decisão baseado na razão. E, mesmo assim... não conseguia se arrepender disso. Simplesmente, ele sentia... Tinha de ser assim – Eu aceito. Eu quero voltar a esse passado, senhor Carl.

Carl assentiu com a cabeça. Aproximou-se mais de Hyoga, antes de lhe dizer:

- Muito bem, senhor Hyoga. Antes, porém, preciso que preste muita atenção ao que vou lhe dizer agora. Essa viagem no tempo irá levá-lo para nove meses depois da morte de Helena e Seth. As coisas por lá estarão um pouco diferentes do que viu pela última vez que visitou esse tempo. Além disso, haverá um prazo para que possa modificar o passado. O senhor terá, no máximo, três meses para dar um desfecho a esses assuntos inacabados. E... por fim, mas não menos relevante... Saiba que, nessa viagem ao passado, o senhor terá de fazer três grandes, importantes e difíceis escolhas. A primeira escolha é justamente esta: decidir se quer mesmo partir nesta viagem... ou não.

- E quais são as outras duas escolhas?

- Não posso revelá-las agora. Elas se apresentarão para o senhor em momento oportuno. Não se preocupe; o senhor saberá reconhecê-las quando elas se colocarem diante de si. – finalizou Carl.

- E... há uma escolha correta a se fazer? Se eu fizer a escolha errada, o que pode acontecer?...

- Não existe uma escolha certa ou uma escolha errada, senhor Hyoga. Existem apenas escolhas. Cada uma trará consequências, como tudo na vida. E isso é tudo o que posso lhe informar agora.

Hyoga olhou para trás, avistando novamente a mansão.

- Se... eu desejar retornar antes de os três meses se passarem... É possível?

- Sim. Basta que você diga, em voz alta, que deseja retornar para o seu presente.

A resposta de Carl tranquilizou Hyoga.

O loiro tinha já certeza do que faria. Mesmo assim, resolveu arriscar uma última pergunta:

- Serei enviado para esse passado...  e terei alguma coisa para me ajudar por lá?

- Além do seu conhecimento de tudo o que se passou? Não. – Carl respondeu categórico – Terá de se virar. E não adianta pensar em levar qualquer coisa daqui. O senhor não pode carregar nada consigo em uma viagem como essa. Então, se escolher partir... Estará por conta própria, senhor Hyoga.

Em vez de essa ressalva assustá-lo, Hyoga apenas teve a confirmação do que queria fazer, pois mesmo sabendo que não terá muito a seu favor nesse passado distante, a certeza de que deveria partir nessa viagem continuava firme dentro de si.

Precisava ir.

Simples assim.

- Uma última pergunta. Como ficarão as coisas por aqui enquanto eu estiver... “fora”?

- Não se preocupe quanto a isso. Eu cuidarei dessa parte por aqui.

- Ikki ficará preocupado se não me encontrar aqui amanhã... – o loiro voltou seu olhar celeste para a mansão, uma última vez.

- Não estou aqui lhe propondo algo que não foi profundamente pensado, senhor Hyoga. E posso lhe dizer que não precisará se preocupar em como ficará tudo por aqui. Quanto a isso, fique tranquilo. Estará tudo sob controle. E isso é o máximo que posso lhe dizer agora.

Hyoga suspirou. As palavras de Cronos vinham carregadas de uma confiança inspiradora.

- Está bem, senhor Carl. Tomei minha decisão. Eu... Escolho partir.

- Perfeito. – Carl sorriu, enigmático – Essa foi sua primeira escolha. Seja sábio nas próximas, senhor Hyoga...

Um grande clarão então se fez.

E, quando a escuridão voltou a reinar, o jardim da mansão Kido estava completamente vazio.

Enquanto isso, em um tempo muito distante, um rapaz loiro, vestindo calças jeans, tênis brancos e uma camisa azul surgia em um belíssimo campo de rosas, que ficava próximo a um grande e imponente castelo...

 

Continua...

 


Notas Finais


A fanfic surgiu de um surto. Estou assistindo – e adorando – a uma série chamada “Outlander”. Enquanto os capítulos iam passando, fui tendo ideias que cresceram de uma tal forma, que não teve jeito: precisei colocar no papel. Espero que curtam meu surto junto comigo!
Beijos!
Lua.


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