História Três vidas e um destino - Capítulo 20


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Crime, João Pessoa, Mistério, Morte, Policial, Romance, Romance Policial
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Palavras 1.505
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Mistério, Policial, Romance e Novela, Suspense, Violência
Avisos: Bissexualidade, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 20 - As investigações - 1.7


1.7

Estava aceitando bem o fato de ter aids. 

Foi ruim no começo. Eu me sentia terrível por ter aquele vírus em mim, mas após hoje eu estava mais segura. 

Mesmo com o desconforto que o Doutor passava, ele me acalmou e me deixou mais suscetível a aceitar que agora, ou melhor, sempre, eu sou soro positivo, e que tinha que conviver com isso. 

Acho até que as mudanças e descobertas eram algo ao qual eu estava habituada.

Descobrir que eu sou soro positivo não foi nada comparado a descobrir que sou trans. Mesmo que ambas as coisas fossem motivo pra sofrimento. Não exatamente um sofrimento que eu sentia comigo, mas um sofrimento provocado pelas outras pessoas. 

Os outros eram o problema. Ninguém teria medo de admitir quem é não fosse a tal da intolerância absurda que ainda persiste entre as pessoas. Sei disso muito bem. 

Pensando nas pessoas, eu me lembrei de uma em especial a qual eu tinha tristemente ignorado. 

Peguei a nota que ainda se mantinha perdida nas profundezas de minha bolsa e disquei o número no telefone fixo de lá de casa (sabia que algum dia ele seria útil). 

Não sabia bem o que dizer quando ele atendesse. 

Pra falar a verdade não tive uma boa impressão dele, do qual eu apenas lembrava que o nome começava com a. 

Quando ele atendeu o meu coração disparou. 

- Não estou interessado em nenhum de seu serviços ou produtos - Falou ele, provavelmente estranhando o número fixo. 

- Sou eu - Falei. - Úrsula, da sorveteira. 

Senti a felicidade se espalhar por ele quando suspirou. 

- Ah, desculpa - Disse ele. - Tava ansioso por sua ligação. Não larguei do celular desde aquele dia. 

- Olha, não quero te deixar com esperança. E pra falar a verdade não tive uma boa impressão de você. 

- Úrsula, me desculpa pela maneira como me aproximei de você, sei que não foi nada convencional, mas eu quero te conhecer melhor. Me dá uma chance. 

Pensei um tanto e relembrei o meu desastre amoroso do dia do crime. Eu temia muito que a reação dele fosse semelhante à última. Não queria me decepcionar ainda mais. 

- Tem uma coisa que eu tenho de te contar - Falei. - Mas não dá pra ser por telefone, tá. Podemos marcar em algum lugar? 

Ele se animou apenas pelo fato de termos um "encontro", e sugeriu que fôssemos na mesma sorveteira de antes. 

- Tudo bem - Disse eu. - Mas tem que ser hoje mesmo - Queria esclarecer as coisas de uma vez, ver se estava disposto. Ou ele entrava na minha vida ou não. - Às três, pode ser? 

- Bom, eu tinha umas coisas pra fazer mas eu acho que vou conseguir ir. Não perderia isso por nada. 

Desliguei com um simples tchau e pensei em como iria dar-lhe a notícia. Não era algo fácil de lidar. 

Comecei a lembrar de meu último encontro e aí a tristeza me tomou. 

Eu me recordei do que ocorrera. Eu havia dito na lata que era trans e ele achou que era brincadeira. Quando disse que não era, pude ver a raiva e a decepção no olhar dele. 

- Eu queria namorar contigo e você me manda uma merda dessas - Disse ele vociferando como um leão. - Não acredito. Você é uma... É um cara! Não pedi à um cara pra sair comigo. 

- E o que isso muda no que eu fui pra você? - Falei tentando convencê-lo. - Não sou a mesma pessoa? 

- Não, isso... - Ele interrompia à si próprio enquanto falava. - Você mentiu pra mim. 

- Porque sabia que isso ia acontecer.

- Não importa mais - Ele se ergueu da cadeira. - Não quero olhar na sua cara nunca mais a partir de hoje. Você é uma coisa desfigurada, estranha. Não quero ficar perto de você. 

Bastava ele dizer que não queria de um modo menos ofensivo. Ou pelo menos ter fingido por um tempo e depois terminado. Mas não, ele me humilhou. 

Fiquei contida no mesmo lugar onde estava por vários minutos. 

As pessoas ao meu redor me olhavam e nada diziam. Elas podiam perguntar se eu estava bem, se queriam fazer algo de útil, mas só ficaram olhando e falando com a mão a encobrir a boca. 

Quando saí estava tão mau que quase não conseguia andar. Nem sei de onde tirei forças pra me meter naquele crime. 

Sabia que havia grandes chances de desta vez ser como na outra. Talvez eles fossem todos iguais. Porém eu não podia desistir sem lhe dar uma chance, o que realmente podia me magoar, mas eu não podia ser tão sem ética ao ponto de ignorá-lo. 

Eu tinha que ir ao encontro. 

Logo estava pronta e então parti já com uma base de como diria a ele o que sou. 

Peguei o ônibus e desci à umas quatro esquinas da sorveteira.

Fui andando com um frio de nervosismo me tomando, quase igual a quando tive que distrair a recepcionista do hospital. 

Quando cheguei, ele já estava lá. Se levantou ao me ver e vinha me abraçar, porém o afastei um tanto e vi a incompreensão nele. 

- Não vai nem me cumprimentar? - Perguntou ele. 

- Senta - Ordenei completamente rígida. - Disse que tinha uma coisa pra te falar e quero dizer logo. 

Ele fez uma cara triste e eu me sentei rapidamente. Após isso ele também o fez. 

- Está mais amarga do que antes - Disse ele. O olhei meio torto por aquele comentário. - Ah, desculpa, eu não queria...

Interrompi sua fala com um gesto de mão. 

- Não tem problema - Disse ainda mais séria. - O que eu tenho pra te falar é muito sério. Da última vez que contei isso pra alguém as coisas não deram certo. 

Ele me olhava sem entender bem o que eu dizia. 

- Isso pode mudar tudo - Continuei. - Mas lá vai - Me preparei psicologicamente pra qualquer reação dele que pudesse vir. Vasculhei minha bolsa e tirei dela uma foto. Uma foto minha. - Sou eu quando tinha doze anos.

Lhe entreguei e foto e ele a pegou com cautela. 

Quando a olhou, ficou um tanto espantado e então direcionou os olhos para mim. Me preparei pro pior.

- Você era bonito - Disse ele. - Na verdade ainda é - Completou. 

Fiquei sem entender absolutamente nada. Estava totalmente perplexa por aquilo. Eu estava mais pronta pra uma reação negativa do que para aquilo. 

- Cê tá falando sério? - Perguntei com a testa franzida.

- É - Ele deu de ombros. - O que mais quer me contar? 

Dentre todas as pessoas que já souberam sobre mim, inclusive a Doutora Joana, a reação dele foi a mais desinteressada que já vi. 

- Eu sou trans - Eu disse ainda desacreditada. - Isso não é o suficiente pra você?!

Ele sorriu e desviou o olhar por um instante. 

- Você não é a mesma que conheci? - Perguntou ele voltando os olhos à mim. - Não posso me dar a ignorância de te odiar agora - Ele tocou minha mão. - Eu tô apaixonado por você, Úrsula. 

Por mais que quisesse, não consegui ficar feliz naquele instante. Foi um choque imenso. 

- Tenho de dizer que não esperava por isso - Falei quase chorando. 

As lágrimas estavam querendo saltar de meus olhos de uma vez, embora eu as prendesse ao máximo. 

- Sei como é ser desprezado e humilhado pelos outros - Falou ele. - Acredite que eu não vou fazer isso com você. 

Eu sorri, enfim. 

- É uma péssima hora pra dizer que esqueci seu nome? - Perguntei meio sem jeito. 

Ele quase engasgou de tanto rir e após me lembrar que se chamava Albiere, nos despedimos. 

Eu não acreditava ainda que ele realmente me amava, mau o conhecia, mas ouvir o que ele disse do modo que disse me deixou encantada. 

Me levantei para ir ao ponto de ônibus, mas Albiere ofereceu uma carona. Ele estava de carro. Bem, se é que se podia chamar aquilo de carro. Não me leve à mal, mas é que estava bem acabado mesmo. Ainda assim eu iria economizar uns trocados. 

Enquanto percorriamos o trajeto até o meu endereço, cujo o qual eu havia acabado de lhe dizer, olhei pela janela. Gosto muito de observar a rua e as pessoas. 

Vi vários tipos de gente, porém um me chamou a atenção. Era uma mulher muito bem vestida. Estava exageradamente maquiada e seus cabelos esvoaçantes me fizeram lembrar de Manuel quando estava vestido de Mel. 

Me lembrei do triste acontecimento que vi ocorrer com ele na rua e então essa lembrança se associou na minha cabeça à noite do crime. 

Um homem fora quase morto, e restava-nos descobrir as motivações do espancamento e quem exatamente ele era. 

Foi então que me passou algo terrível em mente, algo que parecia fazer todo o sentido, e eu tinha que contar o quanto antes aos outros. Isso podia nos guiar até uma solução. 




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