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História Tríbido: A Chave para a Aliança - Capítulo 2


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Capítulo 2 - Capítulo 01 - Descoberta


Ele tinha sorte de conseguir, facilmente, se passar por um adolescente. O seu protegido era um estudante do ensino médio, portanto seria difícil encontrar o mesmo em outro lugar além do colégio. A rainha das bruxas também o entregara o endereço da casa do garoto, mas Ben, em dois dias, notara que ele quase não parava em casa, então o jeito seria se passar por um estudante transferido, o que, graças à hipnose - uma habilidade que praticamente todo vampiro tinha -, foi tão fácil de conseguir quanto seria roubar doce de uma criança.

O colégio era grande, haviam cinco prédios em um. Três possuíam três andares, já os dois menores possuiam apenas dois. No prédio central era onde ficava a entrada, sendo que uma enorme passarela se fazia presente para a chegada dos estudantes. Ao lado da passarela era vista um grande jardim, sendo que nele haviam algumas árvores e flores decorativas. Caso chegasse mais perto do prédio, era perceptível que havia um ponto em que já não havia mais o gramado, apenas carros estacionados. Ali era o estacionamento do colégio.

A maioria dos estudantes conversavam do lado de fora, embora muitos também estivessem na entrada, afinal, ali era onde ficavam os armários. Muitos do lado direito, e muitos outros do lado esquerdo. O tamanho de todos eram congruentes, sendo que as cores também não mudava de um para o outro. Todos possuíam a tonalidade de um azul mórbido. O corredor era extremamente liso, sendo que, caso alguém passasse por ali correndo, definitivamente correria. Após os armários, o colégio virava um labirinto; entradas aqui, ali, portas em diferentes locais e por aí vai. Benjamin estava definitivamente perdido, ao seu ver. Bom, ele de fato estaria, caso um garoto de cabelos negros, sardas nas bochechas e olhos azuis não tivesse o tocado no ombro..

— Nunca te vi por aqui, é novato? — Indagou com a tonalidade de voz suave, não parecendo se abalar com o fato de que as garotas em volta começaram a suspirar com a chegada dele. Benjamin não julgava elas, afinal, o menor de fato era um gato. Ben apenas assentiu diante à pergunta do mais novo. — Bem, o pessoal daqui não costuma ser muito gentil com quem entra, mas vou estar ocupado até o final da aula. Se encontrar a quadra de Lacrosse, me espera lá depois do sinal do fim da aula, tenho treino e depois te mostro o colégio, o que acha?

— Parece bom. — O loiro concordou com a cabeça, parecendo vidrado nos olhos azuis do estudante. Ele então sorriu, assentiu e se virou de costas para sair. Benjamin não havia escutado o sinal, que acabara de tocar, mas negou com a cabeça e pareceu ter voltado a realidade, chamando a atenção do menor antes que ele sumisse de vista. — Espera, qual o seu nome?

— Pode me chamar de Alex. Alex Collins. — Se apresentou, então voltando a caminhar apressado para a sua sala. Benjamin não pôde evitar soltar um sorriso quando escutou o nome. O mundo era realmente pequeno; ou talvez a sorte apenas estivesse ao seu favor.

Alex Collins, também conhecido como o tríbido de demônio, anjo e bruxo. Pelos olhos azuis, Ben se perguntou se ele não seria um bruxo da água, mas como o garoto era diferente do comum, seria possível ele não ter olhos da cor fixa de sua natureza, que no caso, é como era com os outros bruxos. Apesar da sua enorme curiosidade pelo garoto, teve que ir para a sua sala, para que não levantasse suspeitas. Faltar no primeiro dia de aula era pedir para ser investigado; pelo menos em sua visão. Mas bem, era apenas exagero dele, já que Benjamin era muito conhecido por ser demasiadamente previnido - às vezes até demais.

Era um saco. Logo de começo o loiro teve aula dupla de matemática, ou seja, duas horas naquele inferno. Sério, quem gosta de números? Ben nunca havia sido fã, já que sua praia não era exatas. Ele até dormiu um pouquinho, mas não é como se fosse admitir isso. Ficar carregando o material de sala em sala era outra coisa que irritava o híbrido em colégios; era difícil deixar os alunos quietinhos durante o tempo das aulas? Céus, quantas vezes ele havia entrado na sala errada só aquele dia? Teria sido mais fácil se o loiro tivesse resolvido simplesmente sequestrar o tríbido, mas aí não teria passado uma boa primeira impressão para o mesmo.

Havia sobrevivido oito horas naquele maldito colégio. Durante o intervalo foi dar uma volta, já que Alex parecia concentrado e ocupado demais escrevendo alguma coisa. Decidiu deixá-lo terminar o que tinha que fazer, para conversar com ele quando o mesmo estivesse desocupado, afinal, precisava de sua total atenção. Agora o problema seria encontrar a quadra de Lacrosse, já que não conhecia direito o colégio. Como estava sem paciência, usou a sua hipnose em um estudante qualquer para que ele lhe mostrasse, sendo que ficou nas arquibancadas para ver o jogo.

Um dos times estava sem camisa, e, para provar que Ben estava com sorte, Alex retirou a sua. O corpo do acastanhado era completamente definido, sendo que haviam garotas ali nas arquibancadas praticamente babando nele. Benjamin poderia estar começando a duvidar de sua sexualidade se já não soubesse que tinha atração tanto por garotas quanto por garotos. O triste era que protetores não deveriam se envolver com seus protegidos - não que o loiro já não tivesse quebrado a regra antes, e diversas vezes. Mas, se teve algo que chamara a atenção do loiro, foram as diversas cicatrizes espalhadas pelo corpo do mais novo, algumas maiores do que outras. Ele ficou tão ocupado se perguntando de onde elas surgiram que sequer viu o jogo passar.

Lacrosse era mesmo um jogo violento. Ben não sabia porque os humanos gostavam daquilo, considerando que eram seres frágeis que se machucavam com facilidade. Alex mesmo havia levado diversas pancadas, sendo que o garoto era marcado a todo momento. Ele tinha grande habilidade com o jogo, sendo que o colocaram como titular mesmo ele sendo do primeiro ano do ensino médio. Normalmente apenas os jogadores do terceiro ano eram titulares. Quando o jogo acabou, os meninos foram para os vestiários, sendo que não demorou para que Alex saísse de lá, já arrumado, e avistasse Benjamin. Acenou para o loiro, caminhando até ele.

— Te fiz esperar muito? — O tom de voz do castanho era suave, sendo praticamente música para os ouvidos de Benjamin. Ele apenas negou com a cabeça. — Bom, espero que você tenha se dado bem hoje, sei que aqui é bem grande, e provavelmente um inferno para novatos. Eu estudo aqui desde o ensino fundamental, então já sou acostumado.

— Eu me dei bem. Fora o fato de que cheguei atrasado em umas três aulas, errei a sala de umas quatro e coisas do gênero. — Respondeu em um tom irônico, dando de ombros em seguida. O comentário fez com que Alex soltasse uma risada. O loiro, tentando não deixar transparecer o fato de achar aquele garoto uma fofura, prosseguiu com a sua fala. — Sabe, eu estava querendo conversar com você. Tudo bem se formos para algum lugar depois daqui?

— Só se for na minha casa. Eu tenho que fazer algumas coisas lá antes de entrar no trabalho, então se eu passar em outro lugar não vou ter tempo. — Disse tranquilamente, se virando de costas e fazendo um sinal para que o mais velho o seguisse. Já havia passado da hora de mostrar o colégio para ele. — Aliás, eu não perguntei antes. Qual o seu nome?

— Ben. Bom, na verdade é Benjamin, mas prefiro Ben. Acho que seja esse o caso de Alex também. — Respondeu tranquilamente, sendo que o outro garoto sorriu e assentiu. O nome dele era Alexander, mas sempre se apresentava como Alex. — Inclusive, você é muito ingênuo, sabia? Eu poderia estar querendo te roubar, e aí você me leva pra sua casa?. 

— Não é questão de ser ingênuo, Ben. — Afirmou, mantendo o seu sorriso. Benjamin não podia negar que havia amado aquele sorriso nos lábios do menor, mas o fato dele estar quase sempre presente, de certa forma, o irritava. O irritava porque ele percebia que a maioria daqueles sorrisos não eram verdadeiros, eram apenas feitos por questão de gentileza. Alex parecia se esconder em uma máscara, mas não conseguiria se esconder de alguém tão observador como Benjamin. — É questão de perceber de longe quando alguém é bom ou quando alguém não é.

Se fosse no mínimo sentimental, o loiro poderia ter se desmontado com aquelas palavras gentis do moreno, mas apenas assentiu e deixou um sorriso escapar. Também não era um sorriso genuíno, afinal, Alex não fazia ideia do que Benjamin já fizera. Na opinião dele, ele definitivamente não era uma boa pessoa. O sorriso foi mais irônico do que tudo. Ambos ficaram em silêncio após aquilo, sendo que a única coisa que quebrava o silêncio era quando Alexander iria apresentar algum lugar para Ben, falando sobre ele e coisas do gênero. O loiro chegou a conclusão de que levaria tempos para decorar tudo; mas felizmente não planejava ficar muito tempo ali.

— Então, acho que é isso. Eu até daria mais voltas com você para se acostumar, mas não posso me atrasar. — Alexander se pronunciou quando já havia apresentado o colégio inteiro, observando o relógio em seu pulso e olhando o horário. — A minha casa fica aqui perto, à umas duas quadras. Dá para ir andando, já que você queria falar comigo. Bem que podia ter dito aqui mesmo, mas… acho que isso iria te desconcentrar, né?

— Quero conversar com você em um momento que você estiver quieto. Se mexendo desse jeito, não vai prestar atenção no que eu tenho que falar. — O loiro respondera sinceramente, fazendo com que o mais novo arqueasse a sobrancelha e o fitasse confuso. Benjamin apenas deu de ombros e mudou de assunto - não podia assustar o rapaz sem sequer ter falado o que queria. — Mudando de assunto, estou curioso. Achei que esse colégio fosse para riquinhos, e normalmente riquinhos são sustentados pelos pais, em vez de perder seus tempos trabalhando. 

— Eu sou bolsista. — Revelou da forma mais natural do mundo, dando de ombros. Logo começara a caminhar até à saída do colégio, com Ben atrás dele. O loiro não pôde evitar ficar surpreso; conseguir uma bolsa em um colégio famoso daqueles era algo extremamente difícil. Você tinha que ser um gênio, isso que, em certas ocasiões, nem mesmo os gênios conseguiam. — Eu prefiro o colégio público, se quer saber. Gosto mais das companhias, e o estudo mais fraco não me atrapalharia em uma faculdade. Mas nesse colégio em específico, o Lacrosse é mais valorizado, e eu sempre quis jogar com um time bom de verdade. Aqui tive a oportunidade.

— Gosta mesmo de Lacrosse, não é? Afinal, estuda por um período, trabalha por meio e ainda assim arruma tempo para um clube? Tem mesmo que gostar, ao menos que você seja doido. — Comentou, fazendo o outro soltar uma risada e negar com a cabeça. Claro que era corrido. Tinha no máximo duas horas livres em casa, já que chegava do trabalho e  ia direto para o banho, depois para a cama. Inclusive, não dormia muito bem por conta de dormir tarde e ter de acordar cedo; mas Alex honestamente preferia ficar ocupado, para não pensar em coisas desnecessárias. 

Seguiram o resto do caminho em silêncio. Ben observava tudo o que estava em sua volta, para variar. Bom, não dava para culpá-lo; mesmo sendo um protetor por tanto tempo, fazia tempo que não era de alguém que morasse na Califórnia, principalmente se tratando de uma cidade tão bonita quanto Los Angeles. Haviam árvores em ambos os lados da rua, logo em frente as casas. O clima era mais fresco graças à isso; embora não tão fresco quanto o de Malesilvânia. Haviam muitos carros estacionados também. Alex parecia morar em um bairro movimentado. 

Todas as residências aparentavam ter um tamanho agradável, sendo que os prédios eram modernos e consideravelmente chamativos. O céu estava limpo aquele dia, nenhuma nuvem era vista. O problema era o sol; estava tão calor que chegava a queimar a pele. Benjamin não pôde parar de pensar no fato de que os Bruxos do Sol, provavelmente, pirariam ao ver um lugar daqueles - considerando que o clima de Malesilvânia era sempre relativamente moderado. O mais engraçado era o que o loiro escutava de cinco em cinco segundos; Alexander cumprimentava praticamente todo mundo que passava na rua. Ele parecia ser popular na cidade. 

— Já tentou se candidatar para vereador? — Ben indagou em um tom de piada, fazendo com que o mais novo o olhasse confuso por alguns segundos. No entanto, um tempo depois, ele se tocou do que se tratava e soltou uma risada breve, negando com a cabeça.

— Eu não tenho idade para isso. O mínimo pra ser vereador é dezoito anos, eu ainda estou com dezessete. Mas quem sabe no futuro. — Revelou no mesmo tom de brincadeira, embora tivesse parecido perder a postura quando percebeu Benjamin o olhando curioso. O garoto entendeu o motivo daquela olhada logo de primeira. Alex estava com dezessete anos, e no primeiro ano do ensino médio. Naturalmente, com aquela idade, era para estar no segundo. — É uma longa história… prefiro não tocar no assunto, se estiver tudo bem por você.

— Claro, sem problemas. — Concordou em um fraco sorriso, voltando a olhar para frente enquanto caminhava. Alexander havia aparentado ter ficado realmente afetado com a curiosidade do loiro, fazendo com que ele se culpasse o resto do caminho. Benjamin não queria ter tocado em um assunto delicado para o menor; não pensou que fosse ser algo sério. Mas bem, o loiro nunca pensava; não quando se tratava dos sentimentos de outras pessoas.

Eles pararam de andar quando Alexander começou a procurar as chaves no bolso. Quando a encontrou, já começara a abrir o portão. Benjamin, inevitavelmente, começou a observar a casa a qual o garoto morava. Não era lá uma mansão, mas era consideravelmente luxuosa - bem, de  qualquer forma, a maioria das casas de Los Angeles eram luxuosas, sendo as poucas as quais eram consideradas como pequenas. Os muros eram cercados por vegetações, sendo que, logo na entrada, já era possível ser vista uma piscina: nem grande demais, nem pequena demais. Haviam cadeiras de banho ao lado, sendo que na frente era a casa em si. Dois andares; três portas embaixo e uma em cima, todas com janela. A de cima possuía uma sacada de frente para a piscina. Duas pequenas mesinhas se encontravam entre as três portas, sendo que Alex novamente usou a sua chave, dessa vez para abrir a porta do meio.

Do lado de dentro, logo após a porta, havia duas pequenas poltronas azuis, uma do lado da outra, e um sofázinho preto em frente elas. No centro, entre o sofá e as poltronas, havia uma mesinha com um pote de vidro e alguns livros em cima. Na parede esquerda, havia uma cortina branca, enquanto na direita tinham algumas fotografias coladas à parede. Em algumas delas, Alex estava; em outras não. Do lado esquerdo havia uma escada que subia para o lado direito, sendo que embaixo dessa escada tinha a entrada para a cozinha, esta que era vinculada à sala de estar, e no corredor entre ambos os cômodos, havia uma porta que levava ao banheiro. Ben não teve a chance de ver muito bem o que tinha ali além dos três últimos fatos, já que Alexander subiu diretamente às escadas. Imaginou que uma olhada rápida estaria bom para o loiro. 

Do lado de cima, haviam três portas, que provavelmente eram três quartos. No entanto, Alex não mostrara nenhum além de seu próprio. O quarto dele era simples e organizado. Logo após à porta, havia um tapete marrom. Na parede do lado direito havia um closet; nada muito grande ou com muitas roupas. Já na do lado esquerdo estava uma cama de casal, juntamente da janela e da cortina. Em frente à cama e de forma organizada com a janela e closet, havia uma grande mesa para colocar computador, embora também estivesse com várias prateleiras. 

No local para colocar computador em si estava um notebook, um vaso de flor e alguns lembretes pregados à parede, sendo que nas pequenas prateleiras em volta haviam papéis, cadernos, CD’s, filmes e fotografias espalhadas. A cadeira, obviamente, estava em frente à essa parte da “mesa”, no entanto, ainda havia a parte do lado esquerdo, esta que haviam prateleiras maiores. Nas quatro de cima - duas de um lado e duas de outro -. não havia nada além de livros. Já nas quatro de baixo, uma estava vazia e nas outras só haviam mais algumas fotografias de decoração. Aquela mesa de computador dava certo brilho ao quarto, devido à sua chamatica cor azul neon.

— E então, o que achou da casa? — Alexander finalmente quebrou o silêncio, tirando Benjamin de sua transe. O garoto pareceu confuso por um tempo, até que conseguiu juntar as palavras para entendê-las. Alex, percebendo isso, sorriu de canto e não conseguiu evitar de fazer um comentário. — Então, você é do tipo observador, não é?

— Não vou negar isso. — Afirmou devolvendo o sorriso, prosseguindo em seguida. — Mas sim, a casa é bonita. Nem é tão grande, mas é tão organizada que dá a impressão de que é. Bom… se você morar sozinho, aí sim ela é grande. Quer dizer, eu vi muitas fotografias, mas ninguém além...

— É temporário. — Respondera antes que Benjamin pudesse terminar de falar. Em seguida, se sentou na cama e apontou para o seu lado, sendo que o loiro se sentou ali sem ao menos pensar. — Eu preciso trabalhar, por conta de uma longa história. Se eu não resolver essa história, não posso largar o emprego. Mas também não posso largar os estudos. Por causa disso, minha irmã mais nova, que morava comigo, ficava sozinha o tempo inteiro. Ela sabe se cuidar sozinha, mas mesmo assim eu não achava justo ela ficar sem ninguém quando temos alguns familiares por aí.

— Então você a deixou morando com um desses familiares, temporariamente. — Ben concluiu, sendo que Alexander assentiu em seguida. O loiro estava curioso sobre os pais do rapaz, mas não queria entrar em assuntos delicados para ele; afinal, se Alex não havia os citado, era porque provavelmente já não estavam mais vivos, caso contrário, estariam morando naquela casa. — Você é um bom irmão, sabia? Imagino que preferiria ter ela morando com você.

— Claro que sim, mas não podia ser egoísta a esse ponto. — Afirmou em um dar de ombros. Benjamin estava, de certa forma, surpreso. Nunca havia conhecido alguém como Alex: ele falava sobre si na maior facilidade, sem ao menos conhecer o loiro direito. Claro que o menor havia ocultado algumas coisas, mas ainda assim, ele falava demais e confiava demais. Ben teria trabalho com ele, já que, daquele jeito, ele caíria nos joguinhos de qualquer demônio ou de  qualquer anjo. — Mas então, sobre o que você queria falar?

— Lacrosse é um jogo violento, não é? Quer dizer, você vive se machucando com as pancadas que leva e tal. — Alex ficara curioso sobre o motivo do loiro ter entrado naquele assunto tão repentinamente, mas apenas deu de ombros ao responder.

— Isso é verdade, mas o Lacrosse tem pontos bons, como… — Benjamin não se importava, impedindo assim Alexander de prosseguir com a sua resposta.

— Se é verdade, onde estão os roxos das pancadas que você levou? — O questionamento foi feito em um tom tão suave e tranquilo que assustou Alex. A calma do mais velho era surpreendente, mesmo para uma pergunta tão estranha quanta aquela. O moreno pareceu incomodado, fechando a cara repentinamente. Desviou olhar e abriu a boca para responder, mas não respondeu. — Não sabe me responder isso, não é? Quanto tempo faz que você despertou?

— Eu não faço ideia do que você está falando. Você viu no jogo as cicatrizes, aposto que deve ter visto os roxos também, é claro que eu… — Novamente interrompido.

— As cicatrizes foram feitas há algum tempo, não foram? Imagino que, quando você despertou, os ferimentos curados foram apenas os que teve desde então. É por isso que eu vi as cicatrizes, e não os roxos. — Ele era direto demais; de fato, não sabia lidar com pessoas. Alexander estava ficando assustado com o loiro, mesmo que a voz dele se mantesse calma. — Responde a minha pergunta, Alex. Quanto tempo faz que você despertou?

— Eu juro pra você… juro que não sei do que está falando. — Afirmou em um sussurro, mordendo o seu lábio inferior com força. — Tem coisas estranhas acontecendo comigo, mas Ben, eu não sei o que são. Queria muito saber, mas não sei. Infelizmente, eu…

— Tudo bem, Alex, eu acredito em você. — Amenizando o clima, Benjamin deixara um sorriso calmo se formar em seus lábios. Alexander, que parecia estar tenso, pareceu ter se tranquilizado. Com isso, o loiro prosseguiu. — Irei esclarecer as suas dúvidas, vou te explicar tudo o que está acontecendo com você. Então, Alex, ouça com atenção a história que irei te contar.

“Era uma vez, uma história nunca antes contada no mundo mundano. Uma história ocorrida no século XIII, apagada nas memórias de todos os seres humanos. A história que não será contada para ninguém além de você, Alex. Peço que mantenha segredo, pois a revelação do passado causaria um caos para o seu mundo. Um caos que será impossível de evitar.

Você já ouviu sobre as bruxas, não ouviu? Geralmente são vistas como mulheres antiguadas, com narizes grandes e encarquilhadas, exímias e contumaz manipuladoras de Magia Negra, além de dotadas de uma gargalhada terrível. De acordo com os mundanos, eram seres ruins, e por isso as queimaram em fogueiras, sem compaixão alguma. Existem explicações históricas sobre como surgiu de fato a ideia de bruxaria, e foi graças à essas explicações que as bruxas se transformaram em meros contos de fantasia. Mas como vocês, mundanos, podem ter tanta certeza de que não foram manipulados por histórias fictícias? Como sabem que o que está nos livros de história foi de fato escrito por alguém de sua raça? A raça humana é uma raça frágil e manipulável, Alex, por isso estou aqui para lhe contar a verdadeira história.

Os bruxos e humanos eram um só naquele tempo. Eles viviam no mesmo mundo, sem quaisqueres distinções entre eles. Os bruxos eram admirados pelos humanos, e os humanos eram admirados pelos bruxos. Eles saíam juntos, tinham filhos juntos, moravam juntos. Um mundano não se importava com o poder possuído por um bruxo, e um bruxo não se importava com a fraqueza possuída por um mundano. A convivência era harmoniosa, e continuaria sendo, se não estivesse ocorrendo um caos entre o céu e o submundo.

Sobre os demônios você já ouviu também, não é? Eles são exatamente como é descrito nos livros de ficção, embora não exista nenhum Rei do Inferno ou algo do tipo. Um inferno, de fato, existe, mas não é como acha a imaginação humana. O inferno é um lugar feito para dar segundas chances, em vez de condenar as almas. Para os que ainda querem salvação, existem vários testes para provar o arrependimento deles. Mas para os que já estão, de fato, condenados, possuem a consciência desligada, e talvez renasçam em outros corpos, mas isso não foi provado.

O que eu quero dizer é que os demônios de fato existem, e a crença do cristianismo não está errada. Eles eram anjos que se rebelaram contra Deus e passaram a lutar pela perdição da humanidade. Mas, na verdade, no começo do século XII, eles queriam viver de forma harmoniosa com os humanos, assim como os bruxos faziam. Mas, devido à ambição mundana, muitos foram traídos e passaram a viver no inferno: um local chamado como “nada” para eles. É como um vácuo escuro, sem começo ou fim. Eles perderam as esperanças, e foi mas para o fim desse século que começaram a combater, de fato, à favor da perdição humana.

Os anjos não gostaram nada disso. Para começar, os demônios nem deviam ter dado as caras para os mundanos, já que desde o começo era óbvio que não daria certo. O lugar deles era no inferno, e a ideia deles estarem no mundo humano, os convertendo, era inaceitável. Os avisos dos anjos para os demônios foram ignorados, causando assim um ódio imutável nos anjos. Os mais fortes foram enviados para a terra, com o objetivo de julgar os responsáveis por tamanha desobediência. Um dos líderes se chamava Lúcifer, talvez seja por isso que ele foi conhecido como rei do inferno para os mundanos. Mas não; ele era apenas mais um demônio qualquer.

Uma guerra entre os demônios e os anjos no mundo humano se estabeleceu ali, mas é óbvio que os bruxos não ficariam parados vendo os mundanos serem mortos devido a algo que nem era da conta deles. Mas, se formos considerar, os humanos foram sim a principal causa da guerra, e mesmo assim os bruxos se negavam à abandoná-los. Eles eram os únicos que ainda tinham esperança na humanidade, e não podiam permitir a continuidade da guerra.

Com isso, um grupo de exatamente dez bruxos poderosíssimos se juntou após as ordens de um bruxo supremo, sendo que outros dessa classe são conhecidos também como bruxos dourados. Cada um havia uma classe, sendo elas: água, fogo, terra, vento, natureza, luz, escuridão, amor, sol e lua. Usando seus poderes mágicos em conjunto, criaram seres nunca vistos antes. Fadas, psíquicos, vampiros, lobisomens, banshees, kitsunes… todos esses outros seres tão conhecidos nas histórias dos mundanos… todos foram criados pelos bruxos para a proteção humana. 

A questão é que tais seres sobrenaturais não eram capazes de derrotar anjos e demônios por conta da força absurda possuída por eles, e a grande maioria foi morta rapidamente. Os bruxos então tiveram a ideia de juntar seus poderes, e assim foram se surgindo os híbridos, protetores da humanidade. Vampiros e lobisomens não se davam bem, e, como os bruxos ficaram com medo de acabarem criando híbridos que possuíssem duas personalidades distintas, acabaram criando pouquíssimos; hoje em dia mesmo, eles estão quase instintos.

Finalmente os bruxos tinham o poder necessário para entrar na briga: além das magias poderosas possuídas, também haviam protetores do lado deles. Mas, mesmo assim, foram os anjos quem obtiveram vitória, sendo que apagaram da existência os principais causadores da guerra. Líderes, como Lúcifer, já não mais existem. No caso dos bruxos, a maioria dos líderes eram os dourados, portanto eles quase foram extintos; hoje em dia, existem pouquíssimos deles.

Por anos a humanidade se lembrou daquela história, e culpavam os bruxos pelas mortes de milhares de mundanos, afinal, eram eles quem deveriam protegê-los, e nem isso haviam conseguido. Mas, o que os humanos não levaram em conta é que se não fossem os bruxos, eles estariam instintos, e não simplesmente com algumas mortes na consciência. Foi aí, agora já no século XIV, que começou a caçada as bruxas. Houve uma grande história sobre isso até o século XVII, onde as coisas estavam mais quentes e com muitos bruxos morrendo. 

Os anjos não planejavam a extinção dos bruxos, e foi por esse motivo que criaram um novo mundo apenas para eles. Usaram as habilidades dos dez maiores, os que criaram os protetores, para fazerem um mundo de seu modo. Eles usam o comunismo, mas ao contrário da Terra, levam a sério. Os bruxos são totalmente distintos dos mundanos, e é por isso que aquilo dá certo lá, mas não aqui. Os protetores continuaram a viver no mundo humano, mas foram proíbidos pelos anjos a usarem os poderes de forma a serem descobertas pelos mundanos.

De qualquer forma, após a mudança dos bruxos, os anjos apagaram as memórias dos humanos em relação ao que haviam lido guerra. Alteraram os livros para meros contos mitológicos, esses que atiçaram os cérebros mundanos para criarem mais seres, como os zumbis, por exemplo. Eles nunca existiram, mas a criatividade humana é mesmo absurda. Muitas alterações foram causadas com o passar do anos, dando uma visão completamente distinta aos sobrenaturais. Tem sim algumas coisas certeiras nos livros, mas a maioria nem passa perto.

Enfim, hora de ir para o ponto principal. Como os protetores são seres artificiais, eles não podem ter filhos, embora sejam imortais e existam até os dias de hoje; em menor quantidade, obviamente. Seres de única raça, fora os bruxos, demônios e anjos, são na verdade os mais raros de serem encontrados, já que a maioria morreu antes do surgimento dos híbridos. De qualquer forma, era improvável existir um tríbido: um ser de três raças, considerando que todos os híbridos não podiam ter filhos devido à terem sido criados artificialmente pelos bruxos.

Até que, há quarenta anos atrás, houve o surgimento de um amor proíbido. Uma anja se apaixonou por um demônio. Eles fizeram coisas indevidas, e obviamente a mulher foi expulsa do céu ao ser descoberta, se tornando, assim como o homem, um demônio. Mas, antes de ter sido expulsa, ela já estava grávida de tal demônio. Nove meses depois, nasceu a primeira híbrida de demônio e anjo, mas os anjos não se importaram com ela, desde que a mesma não arrumasse encrenca no mundo dos mundanos. Caso arrumasse, obviamente seria morta.

Dessa forma, ela viveu a sua vida no inferno com os pais. Até que, há cerca de vinte anos, ela se cansou de viver presa. Foi para o mundo mundano, com a promessa de não arrumar encrenca, e logo nos primeiros meses ela começou a gostar de um cara. Eles namoraram por tempos, sendo que a descoberta do homem ser um bruxo foi uma surpresa para o jovem, mas nada ao ponto de se separarem. Dois anos depois, ela engravidou e eles se casaram. 

Os anjos sabiam da gravidez, mas não causaram discórdia por causa daquilo. Claro que o surgimento de um tríbido seria ruim, mas houveram outros casos parecidos com o da mulher e, em todos eles, o tríbido morria e matava a mãe lá pelo final da gravidez, portanto imaginaram que aconteceria o mesmo com a híbrida. Mas subestimaram o poder da mulher, que havia tanto sangue de demônio e de anjo, e subestimaram o poder do homem, que era na verdade o príncipe fugitivo de Malesilvânia, possuindo então a magia suprema e dominando todas as outras classes.

Ela conseguiu suportar até o parto, e ele manteve a criança viva após ele. A híbrida morreu, assim como imaginavam os anjos, e a criança também deveria ter morrido; deveria, se não fosse o pai. Além de ter usado da sua magia para mantê-lo respirando, ainda o escondeu com um feitiço da lua, quase inquebrável, enviando então o garoto para um orfanato mundano, considerando que sabia que o matariam caso descobrissem a sua existência. 

Dezessete anos depois, nos dias atuais, esse ser tão único foi parar em um colégio particular com uma bolsa. As garotas se matam por ele, e ele é o capitão do time de lacrosse. Graças ao feitiço do pai, nem mesmo o tríbido sabe de sua própria existência, pois os poderes estavam escondidos. Isso, até um caso inexplicável libertá-los: um acidente que quase causou a sua morte. A sua natureza o protegeu, Alex, mas também libertou algo que você não conseguirá controlar sozinho. Você precisa fazer escolhas, caso contrário será morto. A decisão sobre o que fará é toda sua, porque eu não o forçarei em nada. Mas é óbvio o que você precisa fazer: precisa aprender a se proteger sozinho, antes que os anjos e demônios venham atrás de você.”

 

E foi assim que o tríbido descobriu que era um tríbido.

 



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