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História Triplex - Capítulo 52


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Capítulo 52 - Capítulo 51 - A primeira impressão é a que fica?


O telefone de Nichkhun ficou conectado ao de Victoria por cerca de dois minutos e não houve muito o que se ver ou ouvir a não ser música, vozes altas e pessoas, homens e mulheres em trajes de banho. Para a coreógrafa foi o suficiente ver que o rapaz estava dando uma festa e desligou para não se torturar mais tentando interpretar imagens cortadas. Bem, a intenção era não se torturar, mas os hormônios da gravidez já a estavam deixando sensível demais e considerando que ela já era sensível sem essa ajudinha biológica o que se seguiu foi uma meia hora, olhando para a tela do próprio celular tentando decidir se ignorava ou mandava alguma mensagem. Uma “sub paranóia” também ficou em sua cabeça: se decidisse por enviar uma mensagem, qual seria o conteúdo? Fingir de desentendida e perguntar se ele precisava de alguma coisa, como sempre fazia, ou ser dramática e exigir uma explicação do que estava acontecendo? Óbvio que ela optou por ser dramática.

Vic Noona: Foi para isso que você me ligou? O que pretendia me mostrando que você estava de farra? Podia ter só me dito que estava dando uma festa e desligado como uma pessoa normal.

Porém, isso foi bem pior porque ele não pode responder imediatamente, primeiro porque não sabia onde tinha deixado cair o celular, e segundo porque estava fazendo sala, melhor, piscina, para os convidados. 

 

  — Ah por que eu fiz isso? — Victoria falou em voz alta, embora estivesse sozinha no quarto de hotel. — Eu já sei que seu pai é um idiota. — ela falava com a própria barriga. — Me desculpe por falar mal do seu pai, mas é verdade. Bem, considerando que você ainda não me escuta e nem me entende, então eu posso ainda posso afirmar categoricamente, sim, ele é um perfeito idiota. Não acredito que atendi aquela chamada porque estava com saudades dele, e ele lá se divertindo. Sabe de uma coisa? Se você me permitir sair desse quarto sem me causar uma pirotecnia estomacal também vou me divertir. — Victoria se levantou e esperou, mas não sentiu náusea nem tontura. — Muito obrigada meu amor.

 

  Ela pegou a bolsa e saiu.

  Para a festa Junsu tomou o cuidado de convidar apenas os mais íntimos Junho e Siwon e mais alguns amigos mais antigos com quem organizava os luais nas praias nos tempos de trainee. Nesse grupo razoavelmente seleto estavam Jang Wooyoung, Ok Taecyeon, Hwang Chansung que tocavam com ele e Junsu, Im Seulong, um rapaz forte, alto e bronzeado e Lee Changmin, um rapaz um pouco mais velho e mais baixo, ambos treinavam com Nichkhun na academia da agência. Claro, que mesmo dizendo que era para ser uma festinha íntima, os rapazes convidados acabaram levando algumas garotas como companhia, a maioria delas o anfitrião já tinha visto de relance em programas de TV ou festivais musicais, a maioria era cantoras ou backdancers, Nichkhun não se lembrava bem do nome delas, mas as cumprimentou cordialmente. As que ele de fato conhecia eram Nana, Krystal, Jaekyung e Sohee.

 

  Nichkhun na verdade nem chegou a entrar na piscina, mesmo todos insistindo em que ele trocasse de roupa. Ele trocou para uma bermuda e uma regata e foi isso, ficou numa mesa misturando bebidas e conversando com os rapazes que não estavam 100% do tempo atrás das garotas. 

 

  — Ei Khun, qual é a da barba? — Ok Taecyeon perguntou quando foi buscar um copo no bar. 

  — Ah, esse é o novo conceito do meu novo trabalho. — Nichkhun respondeu com humor.

  — Vai fazer comeback com conceito de Papai Noel? Está meio cedo, não?

  — Não, não, esse é o conceito “trabalhando feito um burro sem tempo irmão para cuidar do visual”. — ele respondeu rindo.

  — E está funcionando com as garotas? — o rapaz forte perguntou.

  — Não sei, como eu disse estou sem tempo.

  — Duvido, você nunca precisou ir atrás  de nenhuma garota. O normal era te ver organizando a agenda para atender todas elas.

  — Os tempos são outros. — Nichkhun respondeu com bom humor enquanto bebericava num copo de suco de abacaxi.

  — Sei, então aquelas mulheres que apareceram dizendo que eram mães de filhos seus…

  — Eram de outros tempos.

 

  A conversa foi seguindo esse rumo, enquanto em outra parte da festa Nana, Krystal, Jaekyung e Sohee colocavam o papo em dia.

 

  — Não é chato para vocês duas ficarem numa festa com seus ex cercados dessas garotas? — Jaekyung perguntou quando Siwon lhe deu uma folga e foi interagir com os outros rapazes.

  — Está mesmo fazendo essa pergunta para a Nana? — Sohee disse. — Tipo, ela dividia o namorado com a Victoria, não é novidade nenhuma.

  — Sim, mas nesse caso era diferente, Victoria e Nana são amigas. Aliás, falando nela, onde foi que ela foi parar, vocês já sabem?

  — Onde ela está agora não temos certeza, mas parece que ela vai para Paris para um workshop de dança, como convidada. — Krystal comentou.

  — Como ficam sabendo dessas coisas? Ninguém mais sabe disso, sabe? O Nichkhun sabe? — Sohee quis saber.

  — Não, ele não sabe. — Nana respondeu. — E não vamos contar a ele agora, porque vai querer ir atrás dela e não vai dar certo. Victoria está fugindo dele, e ela precisa desse tempo.

  — O que Nichkhun menos tem no momento é tempo. — Jaekyung comentou.

  — Bom, então acho melhor ele fazer alguma coisa a respeito porque que eu saiba até agora ele só pisou na bola com ela. — Krystal disse.

  — Afinal, vocês três estão brigados, é isso? 

  — Não Jaekye, pelo menos não eu e o Khun. Mas com a Vic foi diferente, parece que ela se declarou para ele e… — Krystal disse, mas foi interrompida.

  — Você diz tipo, ela disse que o amava? Digo, com todas as letras? — Jaekye perguntou, surpresa.

  — Ao que parece sim, e claro, o bocó do Nichkhun não disse nada, praticamente fingiu que não aconteceu.

  — Como sabe que foi isso Krystal? — Sohee perguntou.

  — Se tivesse sido de outro jeito ou eles estariam juntos ou Nichkhun nem a estaria procurando. 

  — Vocês tem que levar em conta que quando isso aconteceu eu tinha acabado de terminar com ele, mesmo que ele a ame agora, o que eu tenho certeza de que é o caso, naquele dia o Khun não tinha ideia disso. — Nana disse com surpreendente naturalidade.

  — E você acha que ainda gosta dele? — Jaekyung quis saber.

  — Difícil dizer, talvez eu só esteja me sentindo conectada a ele porque tipo, ele foi meu único relacionamento, não tem antes nem tem depois dele ainda.

  — Por que você quer assim. — Krystal comentou.

  — Krys não começa, se você ainda está chateada com o término com o Junho eu também posso estar.

  — Só que no caso quem levou o pé na bunda fui eu, você escolheu terminar.

  — Espera um minuto, então quer dizer que  se a Nana quisesse já teria outro cara nessa história? — Sohee disse sugestivamente.

  — Eu deveria saber quem é esse? — Jaekyung perguntou.

  — Ah, não posso dizer, posso? Mas totalmente vale a pena conhecer. — Sohee disse rindo.

  — Não precisa desse mistério, falando no bonitão, digo, no diabo… Quem o convidou? — Krystal disse apontando para um trio que havia acabado de chegar na festa. Eram Suzy, Fei e Yunho que haviam acabado de subir por coincidência juntos.

  — Ai não, esse cara chato. — Nana resmungou e se encolheu debaixo do próprio chapéu.

  — Chato? Você quis dizer gato. — Jaekyung comentou, rindo.

  — Acho que foi o Junsu quem o convidou, os dois andam mantendo contato por causa de Park Junjin.

  — Mas Jung Yunho está de férias… — Nana comentou.

  — E você como sabe disso? — Jaekyung perguntou, rindo.

  — Encontrei com ele casualmente no shopping há algumas semanas e ele me disse.

 — Vocês tipo, trombaram por acaso no shopping ou se encontraram casualmente intencionalmente? Porque tem muita diferença nisso aí. — Sohee comentou.

  — Ele trombou comigo no shopping e ficou puxando papo. Eu não entendo esse cara, ele claramente não simpatizou comigo de início, mas não pode me ver que não sai mais do meu pé.

  — Eu acho que ele está no seu sistema. — Krystal comentou, rindo.

  — Assim como você está no dele. — Nana se defendeu.

  — Eu só estou no sistema dele porque tenho ficha criminal. — a garota disse com uma risada tensa.

  — Você não é rica? Por que ainda não limparam sua ficha? — Jaekyung perguntou.

  — Meus pais são ricos, eu não. E não dá para ter ficha limpa se você continua cometendo delitos. Mas devo dizer orgulhosamente que há dois meses eu não cometo delito algum.

  — Isso porque você não foi pega. — Nana disse.

 — Não, isso é porque você anda me bancando, então eu não preciso mais tomar medidas drásticas.

  — Bom, se eu estou pagando pela sua amizade, sua missão hoje é não deixar brecha alguma para o Yunho ficar no meu pé.

  — Enquanto você estiver perto de mim você está segura, porque eu quero distância de tiras, mesmo ele sendo assim bonitão.

  Suzy e Fei apareceram para se juntarem ao grupo nas espreguiçadeiras.

  — Quais as novas? — Suzy cumprimentou.

  — Nenhuma, foram vocês que chegaram com o bonitão. — Jaekyung comentou.

 — Bonitão? O rapaz que subiu com a gente? — Fei respondeu quase com indiferença. — Não sabemos direito quem é, nem reparei que era bonito porque…

  — Porque veio com a Suzy, já sabemos suas melosas. — Krystal disse jogando um mini guarda-chuva na direção das duas que riram.

  — Foi coincidência ele ter aparecido justo quando nós duas chegamos. Uma pena ter gente de fora nessa festinha.

  — Pena nada, imagina ver vocês duas ficarem de melação o resto do dia.

  — Está precisando de um namorado Krystal? — Suzy perguntou, rindo.

  — Sou adulta, não preciso de um namorado propriamente dito, preciso de alguém que satisfaça minhas necessidades.

  — Lê-se comida e um lugar para dormir quando você escapa do dormitório. — Sohee explicou. — Isso você já tem com a Nana.

  — Tem razão, quem precisa de homem? — Krystal concordou.

  — É, quem precisa de homem? — Suzy e Fei repetiram rindo.

 

  Enquanto isso na conversa dos homens, Yunho tentava se enturmar ainda sem entender a linguagem daquela turma, todos eles eram artistas menos ele. Os rapazes evitavam dar muitos detalhes com relação aos relacionamentos de Nichkhun, embora disso Yunho já entendesse boa parte, só não entendia a cronologia mesmo. 

 

  — Então quer dizer que Nichkhun está aposentado? — Ok Taecyeon perguntou, depois de voltar molhado da piscina, onde havia ficado algum tempo dando atenção para um trio de garotas que tinha vindo com ele. 

  — Da carreira musical? Não, só estou em hiatus. 

 — Não se faça de tonto, estou falando da gandaia, do harém que você provavelmente mantinha aqui nesse mesmo super apartamento.

  — Meio cedo para aposentadoria, não? — Hwang Chansung disse. — Não fizemos nem uma despedida de solteiro. Aliás, para quando é o casório?

  — Do que estamos falando? — Nichkhun fez-se de desentendido.

  — Até onde sabemos você estava à procura de uma noiva.

  — No momento não há ninguém… — Nichkhun respondeu timidamente, e isso era tão incomum que os rapazes, que já o conheciam faz tempo, ficaram um tanto chocados.

  — Você pode não estar com ela, mas está de olho, ela está aqui? — Ok, Taecyeon perguntou, olhando para os lados. — Não é a Nana, também não é aquela trainee que não sai do lado dela, é?

  — Não vai querer saber dessa confusão cara. — Junsu comentou, tentando mudar de assunto vendo que Nichkhun estava visivelmente constrangido. — Essa coisa toda da herança tem dado tanta dor de cabeça, é por isso que eu resolvi dar essa festa, para o Khun ter um momento para respirar.

  — Bom, eu estou aposentado como jogador, mas ainda aprecio companhia feminina, vocês ainda podem ir lá conversar com as garotas que vocês trouxeram, não precisam ficar me dando a atenção exclusiva de vocês. — Nichkhun rapidamente dispensou os rapazes, porque aquela conversa tinha lhe lembrado do que estava fazendo antes da festa começar. Não sabia onde tinha deixado o celular e queria procurá-lo discretamente. 

 — Junsu, você sabe onde eu deixei meu celular? Eu o  estava usando antes de vocês aparecerem…

  — Aproveite a festa Khun, eu não sei onde seu celular está, mas tenho certeza de que vai encontrá-lo até o final da noite.

 

*******

 

  A medida que foi anoitecendo, porque a festa havia começado na segunda metade da tarde, os grupos de rapazes e garotas foram se dispersando e se tornando no máximo um trio aqui, um casal ali de conversa, ao som de música mais relaxante. Yunho estava mais deslocado que nunca, pois Junsu, que o havia convidado, conversava com a noiva, Sohee, Nichkhun conversava com Junho, Siwon e Jaekyung tinham ido embora porque o médico tinha trabalho a fazer, Taecyeon, Wooyoung, Changsung e Seulong  bebiam com um grupo de garotas, Suzy e Fei nadavam, e ele se sentiu intimidado de se intrometer na conversa entre Krystal e Nana, pois as duas o evitaram todo o tempo desde que chegou. Ele foi no banheiro no primeiro andar, pois não sabia onde ficavam os outros banheiros e tinha visto um na sala quando entrou no apartamento, ficou lá enrolando e mexendo no celular durante algum tempo tentando se decidir se ia embora ou ficava mais um pouco, afinal, estava de férias.

 

  Krystal recebeu uma chamada do manager pedindo para que voltasse logo para o dormitório, por coincidência Junho também tinha que voltar mais cedo porque tinha ensaios na manhã seguinte. Os dois aguardaram o elevador juntos, e Krystal não pode se negar a satisfação de vê-lo voltar sem outra companhia.

 

  — Você está bem? — Junho iniciou uma conversa para quebrar o silêncio da espera do elevador.

  — Sim, por que não estaria? — Krystal respondeu sem tirar os olhos da numeração que indicava quantos andares faltavam para o elevador parar no andar em que estavam.

  — Não sei, faz tempo que eu não te vejo. Nem na agência.

  — Tenho ensaiado muito, e imagino que você também, já que a temporada de festivais de verão está chegando.

  — Você tem ensaiado?

  — Não me lembro de ter te visto ensaiar mais do que três vezes numa semana. — Junho disse rindo.

  — Isso é porque eu te ocupava ensaiando outras coisas. — Krystal disse sem reservas.

  — Certo… — Junho disse meio sem graça, não pode deixar de notar a insinuação por trás da frase. O elevador chegou nesse momento, para o rapaz seria uma longa descida. — Você primeiro.

  — Engraçado como isso não te incomoda agora…

  — Isso o que?

  — Eu ser a primeira. — Krystal obviamente não falava de entrar no elevador, mas do fato que levou ao término dos dois, ela ter mentido sobre a primeira vez do rapaz também ter sido a primeira vez dela.

  — Olha, eu sei que eu fui um tanto dramático quando você me disse a verdade. Talvez eu devesse ter ficado feliz em saber…

  — Era o que eu esperava por ter me aberto com você, mas veja só, falar a verdade nem sempre é uma boa coisa.

  — É sim, eu deveria ter te escutado melhor.

  — Eu é que nunca deveria ter mentido, mas é o que as pessoas já esperam de mim, então faço sem pensar. E o que eu ia dizer se eu menti mesmo? — Krystal disse um tanto amargamente, mas com convicção, ela nunca foi do tipo que não assume o que faz.

  — Por que mentiu?

  — Eu não sei, isso é o que eu faço de melhor, talvez…

  — Você sabe que isso não é verdade. Você faz um monte de coisas muito bem.

  — É bom ouvir isso para variar. Ei, porque está indo embora tão cedo?

  — Temporada de festivais, tenho ensaio amanhã cedo até sabe-se lá que horas. E você? Pensei que fosse ficar com a Nana, vocês duas andam bem amigas ultimamente.

  — Esse debut que não chega nunca, também tenho ensaio amanhã e a Nana está fazendo questão de me vigiar para eu não fazer nenhuma besteira na ausência da Victoria.

  — Ela faz bem em te ajudar com isso, a essa altura acho que todo mundo está torcendo para você debutar logo. — Junho disse rindo, e Krystal também riu. — Estamos de boas então?

  — Sim, claro, eu não estava mal com você, só estava, triste.

  — Muito bem. Te vejo na agência então.

  — Sim, claro. — Krystal não esperava uma despedida tão civilizada e ficou alguns segundos paralisada antes de decidir que queria que aquela conversa terminasse daquele jeito.

 

  E os dois saíram do prédio separadamente.


 

******

 Ainda no último andar do prédio, Nana não sabia dizer o que ainda estava fazendo na festa, já que sua atual melhor amiga já tinha ido embora, Nichkhun estava discretamente procurando seu celular sem deixar os convidados de lado, e em geral o restante do pessoal estava em casais. Ela só não se lembrou de que Yunho tinha sido convidado e sumiu por algum tempo até trombar com ele a caminho da cozinha quando foi buscar água para beber porque não queria ficar bêbada e na festa só tinha restado bebidas alcoólicas.

  — Ah, oi, me desculpe, não tinha te visto. — o rapaz disse depois de se certificar que não a tinha machucado com o trombão.

  — Tudo bem, eu não sabia que você ainda estava por aqui, pensei que não tivesse ninguém aqui embaixo.

  — Desceu escondida, é?

  — Eu não preciso me esconder, eu já morei aqui e ainda sou amiga do dono do apartamento, então acho que posso andar livremente. — Nana disse já na defensiva.

  — Calma, só pensei que você talvez estivesse fugindo daquele tanto de casais, pensei que essa festa fosse para solteiros…

  — Não tem ninguém casado nessa festa, mas, porque pensou isso?

  — Bem, eu sei que Nichkhun é um solteirão então pensei que já que estou de férias eu poderia aproveitar para conhecer pessoas novas.

  — Não vai conhecer ninguém ficando aqui embaixo. — Nana comentou.

  — Tem razão, mas eu fiquei meio sem graça. E você, por que está aqui embaixo também?

  — Vim buscar um jarro de água. — Nana se desviou e começou a andar em direção à cozinha, e o rapaz foi atrás.

  — Posso ajudar em alguma coisa? — ele se ofereceu.

  — Acho que não, lá em cima já tem copos, eu só vim buscar água mesmo, levaram só bebidas alcoólicas lá para cima, é nisso que dá deixar esse tipo de responsabilidade para homens. — Nana disse brincando, mas era o que ela achava mesmo.

  — Você não bebe?

  — Sim, mas geralmente evito quando estou tensa. — ela disse sob o olhar atento de Yunho enquanto abria a geladeira para pegar o jarro, ela notou que seu olhar a estava seguindo, mas não se deu ao trabalho de fechar o robe de seda floral azul e branco que ela usava por cima do biquíni azul royal.

  — Que estranho, normalmente as pessoas bebem para relaxar.

  — Acho que já te disse isso antes, mas se não, bem, eu não sou uma pessoa comum, longe disso. Se pensa isso de todo mundo, então posso deduzir que você não bebeu.

  — Por que diz isso?

  — É o único rapaz na festa que ainda está de camiseta, bem, e de calça. — Nana disse rindo, apontando para o conjunto casual de calça de sarja cinza, camiseta branca e tênis preto que ele usava. 

  — Ah, sim, acho que por isso eu fiquei deslocado, não é? — Ele concordou rindo.

  — Sim, você não sabia que era uma festa na piscina?

  — Eu sabia, mas como não sei os costumes de vocês, achei que ia ser mais uma daquelas festas onde era para todo mundo estar com medo de ser fotografado de roupas de banho.

  — Você não está errado, realmente isso acontece em festas com gente famosa, mas estamos todos entre amigos hoje e bem, eu não tenho problemas com o meu corpo. — Nana disse com humor.

  — E não tem mesmo motivos. — Yunho deixou escapar o elogio e Nana foi pega de surpresa, não porque não tivesse o costume de ouvir elogios, mas porque o rapaz não havia se rendido a isso ainda. — Bem, é, então o que eu faço para parecer mais relaxado, alguma dica?

  — Sei lá, desengoma esse cabelo, e, tira a camisa, você não veio de calção por baixo, não é?

 

 — Na verdade, sim, eu vim com um calção, um short por baixo na calça. — Yunho disse  passando os dedos entre os cabelos e os desarrumou um pouco, e Nana tinha razão, ficava bem melhor arrepiado. Depois ele tirou a camisa, e para isso Nana não estava preparada, aliás, ela deveria ter imaginado que alguém da força policial teria que manter o corpo em forma, sabia disso porque seu pai era militar. Yunho tinha o corpo definido, mas não era muito musculoso porque era alto, mais alto do que Nichkhun até. — E agora os shorts, não é?

 

  — Oi? — Nana respondeu distraída. — Ah sim, claro,os shorts, tem que dar um mergulho numa festa na piscina, não é?

  — Sim… — ele disse enquanto tirava os tênis e baixava as calças. Ele estava usando um short preto estampado estrelas minúsculas na cor branca, Nana achou engraçadinho, mas não comentou. Ele dobrou as roupas com cuidado e pôs em cima do balcão. — Eu não te vi dar um mergulho ainda, está animada?

  — Nem um pouco, acho que só entrei nessa piscina umas duas vezes, não curto água gelada. — Nana disse rindo.

  — Mas então, o que vamos fazer?

  — Você pode ir dar seu mergulho, eu observo, se você se afogar tenho certeza de alguém te ajuda.

  — Na verdade… — Yunho se aproximou de Nana de repente sem necessariamente invadir seu espaço pessoal e se apoiou com o cotovelo sob o balcão. — Eu não vim por causa da piscina, vim porque achei que talvez pudesse te encontrar aqui.

  — Ah é?

  — Sim, nós começamos meio que com o pé esquerdo e eu tenho tentado me aproximar sem sucesso. E como não queria forçar minha presença, achei que...

  — Vir à festa seria uma boa ideia. Sutil.

  — Foi?

  — Não muito porque você ainda não é amigo de ninguém aqui, mas melhor que me seguir no shopping.

  — Bom, já é um recomeço. — Yunho se aproximou devagar, quase imperceptivelmente, mas o suficiente para ficar dentro do espaço pessoal de Nana, que não recuou. Ele entendeu como um consentimento. — Posso te beijar?

  — Oi? — Nana fez-se de desentendida, mas seus olhos foram direto para os lábios do rapaz e ele não perdeu tempo, encostou a boca nos lábios dela de leve e aguardou por uns dois segundos. 

 

  Nana correspondeu, para a surpresa do rapaz, e o que era para ser um beijinho inocente virou logo um beijão, ele a puxou para perto pela cintura e ela o enlaçou pelo pescoço. Para cada um deles o beijo era uma coisa diferente, para o rapaz era a realização de um desejo que ele vinha guardando desde que pôs os olhos em Nana, e para ela era mais um reflexo do costume com intimidade que ela tinha adquirido do relacionamento com Nichkhun, afinal o relacionamento tinha durado um ano, era bastante tempo. Talvez por esse motivo ela tenha puxado o rapaz em direção ao quarto mais próximo, que era o que Victoria ocupava antes. Tudo havia sido deixado como se ela tivesse estado no quarto apenas horas antes, e não dois meses. Nana fechou a porta atrás de si e se deixou cair na cama com o rapaz. Ela achou que o contato físico com outro homem, que não seu ex-namorado e único amante, era bom e se deixou levar. Yunho era um tanto ansioso, suas mãos não paravam em um só lugar, viajavam de suas pernas até sua cintura como se ele não se decidisse por onde queria começar. Nana tirou com muito custo o robe que usava por cima do biquíni, mas a sensação de exposição foi arrebatadora, principalmente porque o rapaz estava entre suas pernas, havia baixado os shorts e ela pode ver que ele usava uma cueca branca, tipo sunga, como havia comentado com Krystal logo depois do encontro no shopping. Nana riu e sentiu o rosto queimar de vergonha, pensou que a partir de agora não haveria contexto inocente para explicar como ela sabia que ele usava esse tipo de roupa de baixo. Yunho não pareceu se afetar com a risada da garota e a abafou com um beijo. Contudo, o beijo, ao invés de satisfatório ligou um alerta na cabeça de Nana, não que ela não estivesse gostando das carícias, do atrito do corpo do rapaz sobre o seu, só que não era nada familiar e essa falta de familiaridade a deixou bem pouco à vontade.

 

  A princípio, Nana achou que podia lidar com isso, porque não tinha motivo óbvio para não dormir com Yunho, porque ele estava sendo um cara legal, era atraente, então ela deixou até que ele deslizasse a alça de seu biquíni pelos seus ombros, deixou que ele a beijasse dali até o peito. Porém, quando as coisas começaram a ficar quentes demais, com Yunho pressionando o quadril entre as pernas dela é que ela se deu conta de que não ia conseguir fazer nada. Um turbilhão de lembranças com Nichkhun, alertas de responsabilidade e talvez culpa invadiram a mente da modelo. 

  — Espera, espera, espera. — Ela disse quando ele tentou desamarrar a parte debaixo da peça.

  — Que foi? — Yunho perguntou um pouco ofegante.

  — Não dá, não posso fazer isso…

  — Eu trouxe proteção, mas está na calça que eu deixei no balcão cozinha. — Ele se ajoelhou no colchão e se equilibrou segurando-se nas pernas flexionadas de Nana.

  — Não, não, não precisa. Eu só… — Nana disse confusa, com dificuldade se cobrir de novo com o robe. — Não consigo fazer isso...agora, desculpe.

  — Tudo bem — Yunho disse, meio nervoso, procurando os shorts que tinha deixado cair em algum lugar. — Eu também não estou acostumado a fazer essas coisas, assim, desse jeito, digo, você já fez… né? 

  — Sim, sim, já, mas, não assim, eu… Você pode me deixar sozinha, por favor? — Nana disse se encolhendo para terminar de cobrir o corpo já que não estava mais confortável com a semi nudez.

  — Sim, claro. É… conversamos depois então. — ele disse terminando de vestir os shorts.

  — E… — Nana acrescentou e e Yunho parou no meio do caminho. — Pode não contar isso para ninguém, por favor?

  — Naturalmente. — Yunho se virou e respondeu, terminando com uma piscada de olho depois saiu do quarto fechando a porta.

 

  Nana suspirou  bastante frustrada consigo mesma, mas ao mesmo tempo aliviada, entendendo que  tinha sido a melhor escolha já que não se sentia preparada. Ao menos estava respeitando seus próprios limites.

******

 Nichkhun finalmente achou seu celular por volta das duas da manhã quando todo mundo finalmente foi embora. Não que ele não tivesse se divertido com a visita dos amigos, mas ele realmente estava exausto, e aguentar todas as provocações a respeito de ele não estar dormindo com mulher alguma foi no mínimo perturbador. Era uma mudança e tanto em seu estilo de vida, e ele não tinha tido tempo nem cabeça para sentir falta, mas a verdade é que quando deitou em sua cama pensando em Victoria com o celular na mão é que se deu conta de como o corpo não estava só cansado, mas também cheio de vontades as quais não tinha dado atenção. Há mais de um mês ele não se exercitava, não comia direito, não cuidava da aparência como gostaria e não fazia nada remotamente sexual há mais tempo ainda. A verdade é que dessa parte ele não queria nem lembrar porque desde o escândalo dos bebês e da possibilidade de perder Victoria isso estava longe de ser uma preocupação, mas não era bom ficar pensando nisso, muito menos com os rapazes botando pressão por ele estar mudando de vida. Colocou uma nota mental para usar o tempo livre no dia seguinte para jogar fora qualquer coisa remotamente indecente de dentro de casa e reservar um par de horas para se exercitar e gastar a energia como o corpo pedia.

 

  Mas isso eram planos para o dia seguinte, no momento Nichkhun estava desesperado para falar com Victoria, e pelas suas contas ela ainda devia estar há pelo menos 6 horas de diferença com relação a ele, o que significaria mais ou menos 8 da noite onde quer que ela estivesse. Foi então que ele viu a mensagem que ela enviou logo depois do início da festa na piscina. 

Vic Noona: Foi para isso que você me ligou? O que pretendia me mostrando que você está dando uma festa? Podia ter só me dito que estava dando uma festa e desligado como uma pessoa normal.

 

  De início ele não entendeu do que se tratava, mas quando conferiu o histórico de chamadas viu que havia uma chamada de vídeo de 2 minutos e então concluiu que ela deve ter visto quando Junsu chegou com os rapazes e as garotas de biquíni. Então ele respondeu meio desesperado.

 

Babbo Nichkhun: Oh minha linda, Junsu e uns amigos organizaram uma festa surpresa para mim para comemorar a vitória na audiência que eu tive hoje com o juiz. Eu juro que me comportei. A Krystal e a Nana estavam aqui também…

 

  Nichkhun fez questão de mencionar Junsu porque sabia que Victoria confiava no caráter dele, ao menos um pouco. E mencionou Nana e Krystal porque sabia que as duas o sabotariam se pensasse em fazer alguma coisa com alguma convidada. Ele se arrependeu depois por ter dado esse tipo de detalhe, pois a chinesa provavelmente ia pensar que ele só não fez nada porque as duas amigas estavam lá também. Apesar de o celular estar online, Victoria não visualizou e nem respondeu mensagem alguma. Nichkhun tentou ligar, mas a chamada foi recusada. Foi então que teve a ideia de olhar em suas redes sociais, mesmo sem muita chance de ver alguma coisa porque já fazia meses que ela não postava. Coincidência ou não, havia uma foto nova dela na página, Victoria estava em um salão cheio de gente, luzes, caixas de som. Não era bem uma boate, era mais uma enorme sala de dança, mas definitivamente era uma festa, um rapaz magrelo e tatuado a abraçava pela cintura e os dois sorriam espontaneamente para a câmera, é certo que haviam outras pessoas próximas na foto, mas Nichkhun pareceu ignorar o fato. 

 

Babbo Nichkhun: Me desculpe, acho que você está ocupada se divertindo com seus amigos, ligo depois. 

Nichkhun tomou outro banho e quando voltou para o quarto já eram quase 4 horas da manhã, bebeu sozinho quase uma garrafa de vinho que tinha guardado no frigobar e adormeceu bêbado e bastante triste.

 

*****

  Krystal havia voltado para o apartamento de Nana como haviam combinado, mas adormeceu antes de ela voltar para casa, o que nunca aconteceu, então quando acordou e viu que a modelo não estava ligou para ela imediatamente.

 

  — Onde foi que você dormiu sua vadia? — Krystal disse para a tela do celular vendo Nana debaixo de edredons.

  — Desculpe, esqueci de avisar, dormi no triplex mesmo.

  — COM O NICHKHUN???

  — Não, com o Nichkhun não. — Nana respondeu, meio sonolenta ainda.

 — Ah tá, ei, espera, dormiu com quem então? Para não ter voltado para casa, alguém te entreteve a noite inteira.

  — Antes que comece a pensar mais besteira... — Nana filmou o quarto inteiro. — Não tem ninguém aqui além de mim.

  — Isso não quer dizer nada, ele pode ter ido embora antes do amanhecer.

  — Se me conhecesse intimamente saberia que isso é impossível de acontecer. — Nana disse rindo. 

  — Ai ai tá bom viu oh atleta de alcova. Por que dormiu aí então?

  — Bem, suas suspeitas não estavam de tudo erradas, eu de fato quase dormi com alguém ontem, mas perdi a coragem.

 — WHAT? — Krystal estava tão chocada. — Yunho! Por favor me diz que foi com o Yunho! Vocês ficaram?

  — Para de surtar, a gente se pegou por uns, quinze minutos? Não sei, mas eu não transei com ele não.

  — Mas você disse que quase, vai me diz o que aconteceu!

  — Bem, eu trombei com ele quando fui pegar uma jarra de água na cozinha, fui zuar porque ele era o único vestido numa festa na piscina e o convenci de ficar de roupa de banho, só que o tiro saiu pela culatra e acabou que ele é mais gostoso do que a gente pensava. — Nana disparou a falar.

 — Eu sempre achei ele gostoso, era você quem negava. Mas me conta, por que não fizeram nada?

  — Foi quase mesmo, ele me pediu um beijo e eu dei, depois disso só lembro que fomos para o quarto que era da Victoria, mas ele me deu tempo para pensar na bobagem que eu estava fazendo…

  — Calma a, como foi que ele te deu tempo para pensar? Estou aqui imaginando o delegado falando “A senhorita gostaria de um tempo para pensar se vai colaborar com a força policial?”.

  — Não, sua idiota. É que ele deixou a carteira com preservativo no bolso da calça no balcão da cozinha…

  — Vocês ficaram nus na cozinha?! Meu Deus, por que eu nunca me lembro de não comer nessa casa?!

  — Não, eu disse que o convenci de ficar de roupa de banho, ele estava com um calção por baixo da calça.

  — E por baixo do calção? — Krystal disse, rindo.

  — Cueca branca, tipo sunga.

  — Droga, eu jurava que seriam boxers…

  — Errou feio, errou rude, você não sabe do que está falando.

  — E sem cueca, você viu? — Krystal insistiu, rindo a altos pulmões, a essa altura Nana também estava se divertindo com a conversa.

  — Já disse que não chegamos nos finalmentes, mas deu para ter uma boa ideia…

  — Boa ideia?

  — Razoável.

  — Era de se imaginar que você não ficaria impressionada, o Nichkhun estragou toda a sua experiência, aquele anormal…

  — Cala a boca sua pervertida. Me deixa terminar a história! — Nana disse e Krystal se aquietou, estava comendo enquanto aguardava ela terminar. — Bem, eu entrei em pânico quando tive um tempinho para pensar, que foi quando ele falou que ia buscar o preservativo…

  — Mas tem isso escondido por todo o triplex… — Krystal comentou.

  — Graças a Deus ele não sabia disso. Bem, eu disse que não dava mais e pedi para ele ir embora.

  — Mas por que você deu para trás? Já tava com o bonitão lá, qual o problema?

  — Péssimo timing, não sei, ele é gostoso e tals, mas não foi suficiente para mim. Não que eu esteja querendo replicar alguma coisa, mas não era só isso que eu tinha com o Nichkhun.

  — Se você for mesmo comparar as coisas aí não tinha como o Yunho competir mesmo.

  — Você não entendeu, eu não queria mesmo, não tinha nada a ver com o fato de ser o Yunho ou de não ser o Nichkhun. Não quero sair dormindo com ninguém assim, do nada, ainda mais que até ontem a tarde eu tinha implicância com o cara.

  — E não tem mais?

  — Acho que não, tipo, eu fiquei com ele né? E até que ele foi bem compreensivo quando eu não quis mais.

  — Não fez mais que a obrigação, você não era obrigada a nada. Mas e agora?

  — Agora nada, vida que segue. Vou morrer de vergonha se o vir de novo, espero que ele não apareça mais na minha frente ou…

  — Ou você  pode acabar caindo de boca no bonitão. — Krystal disse rindo. — Meu manager chegou para me levar para o ensaio. Até mais tarde, vê se sai discretamente do triplex para não ter que dar explicações. 

  — Acho que não tem mais ninguém aqui além do Nichkhun, eu ouvi o pessoal indo embora no meio da noite. 

  — Então cuidado com o Nichkhun. — Krystal disse rindo.

  — Pode deixar. — Nana disse ajeitando os cabelos para se levantar. — Ensaia direito, não enrola, e não saia de lá até o trabalho estar feito.

  — Ok ok. Estou descendo já. Ah, antes que eu me esqueça, dá uma olhada na rede da Vic, acho que ela já está em Paris.

  — Sério? Vou conferir, te ligo depois se já tiver decidido se vamos para lá ver como ela está.

  — Aguardo ansiosíssima.

 

  Krystal desligou e Nana começou a se preparar para levantar, primeiro tinha que se lembrar onde tinha deixado sua bolsa com suas roupas, havia dormido só com o robe e o conjunto de biquíni da noite anterior. Lembrou-se de que a bolsa  ainda estava na cobertura, então ela subiu para o terceiro andar em silêncio, se certificando de que não tinha ninguém nos outros quartos. Haviam duas entradas para o terraço, uma delas era no quarto de Nichkhun e a outra do outro lado no mesmo andar. Quando chegou na porta viu que estava trancada.

 

 — Aish, não tem que ser fácil, não é? Vou mesmo ter passar pelo quarto do Khun. — Nana disse suspirando em frustração.

 

  Então ela cruzou novamente o apartamento em direção ao quarto do rapaz, ele dormia sozinho, deitado de barriga para baixo usando apenas uma toalha branca. Havia uma mancha de vinho no lençol e a garrafa estava vazia  logo ao lado. Ele não dormia um sono pesado, apesar ter bebido logo antes de dormir, Nana achou que ele parecia estar tendo algum sonho bem intenso porque apertava o corpo contra o travesseiro que estava debaixo dele quase que com força. Ela passou discretamente pelo quarto e subiu a escada que dava para a piscina, pegou a bolsa em cima de uma espreguiçadeira e desceu. Ela estava certa sobre Nichkhun não estar tendo um sono pesado, porque mesmo não fazendo barulho algum, assim que pôs o pé de volta no quarto o rapaz acordou num salto, como quem sonha que está caindo da cama. Nana também se assustou com o movimento brusco.

 

 — Nana? — Nichkhun perguntou parecendo confuso e assustado, claramente ainda meio bêbado.

  — Feliz em me ver? — Nana respondeu sorrindo, fingindo que não olhava para o rapaz nu em cima da cama, a toalha havia se desamarrado com o salto. 

  — O que? Ah, me desculpe — ele respondeu voltando a se cobrir. — está cedo, não é?

  — Não se preocupe, nada que eu não já tenha visto antes.

  — Aliás, me ajuda a lembrar, nós não…

  — Nós mal nos falamos ontem, como é que teríamos dormido juntos?

  — Isso nunca foi empecilho antes…

  — Antes, o que foi que você bebeu afinal? Não está falando nada com nada. 

  — É que eu esqueci de comer ontem e bebi uma garrafa inteira de vinho no meio da noite, ainda estou um pouco bêbado.

  — Eu notei, mas você se lembraria mesmo assim se tivéssemos feito alguma coisa. — Nana disse piscando um dos olhos.

  — Tem razão… — Nichkhun disse rindo, esfregando a têmpora, parecendo aliviado e desapontado ao mesmo tempo..

  — O que foi? Você parece mal.

  — Os últimos meses tem sido bem difíceis, trabalho o tempo todo com algo que eu nem entendo bem, não tenho tempo nem para comer e a Vic só briga comigo…

  — Vocês se falaram?  — Nana disse surpresa. 

  — Há mais de uma semana, mas eu tentei fazer uma chamada de vídeo com ela ontem ela atendeu justo na hora que o Junsu chegou com aquele tanto de mulheres em roupas de baixo, ela deve ter visto e interpretado mal, pela mensagem que ela me mandou depois…

  — Tem razão, se eu conheço bem a Victoria ela provavelmente pensou que estava rolando uma orgia aqui. — Nana disse rindo.

  — Orgia? — Nichkhun disse rindo, mas sem muito humor. — Eu não sei o que é sexo há dois meses! Isso é algum record pessoal!

 

  Nana riu alto.

 

  — Isso é bom, não? Record são bons.

  — Assim? Me diz você, porque eu não vejo nada de bom nisso.

  — Como é que vou saber uma coisa dessas? — Nana perguntou.

  — Hmm, foi o que eu imaginei.

  — Eeeei, que insinuação foi essa? Eu não andei fazendo nada… — ela disse um pouco confusa.

  — Não precisa me explicar, você é adulta e nós não estamos mais juntos.

  — Não sei do que está falando.

  — Pensei ter te visto aos beijos com o Jung Yunho, indo para o quarto da Victoria ontem, mas pode ter sido a bebida, se bem que, eu só bebi quando todo mundo foi embora.

 

  Nana arregalou os olhos, surpresa, também ficou bem vermelha,o que era incomum, fazia tempos que ela não ficava envergonhada daquele jeito.

 

  — Nós não… Eu não fiz nada, eu não, bem, tudo que tem para saber é que eu fui impulsiva, mas me arrependi a tempo.

  — Qual o problema? Digo, é normal, somos jovens, gente jovem faz isso de vez em quando. Eu fazia de vez em sempre, mas agora…

  — Sabe que eu não sou assim.

  — Eu sei? Não, tudo o que eu si é que você foi a causadora da minha primeira e única falha técnica.  — Nichkhun disse rindo.  — Por exaustão.

  — Eu? Você tinha DUAS namoradas!  — Nana disse indignada. — Eu sou no máximo trinta e três por cento da falha técnica! Faça sua matemática!

  — Ok, você tem razão. Mas saiba que eu não vejo problema nisso, a não ser que você ainda goste de mim.  — Nichkhun disse com receio. 

  —  Já estou resolvida, o que eu sinto não é tão importante agora. — Nana desconversou, era óbvio que ela não tinha tirado Nichkhun da cabeça totalmente, mas estava claro que ela não pretendia nada com ele. — Mas me diz uma coisa, você teria dormido com alguém dessa festa? Digo, não está comprometido com ninguém, não é? Qual o problema?

  — Eu não conseguiria…

  — Bingo! Sabe me dizer o por quê?

  — Com certeza não é porque meu corpo não responde, como você pôde ver há alguns minutos. — Nichkhun disse brincando, e Nana riu como de costume. — Mas não quero cometer mais nenhuma bobagem, por esse lado trabalhar tanto está me mantendo focado.

  — Queria que a Vic te ouvisse falando isso.

  — Ultimamente ela só tem me ouvido falar idiotices, mas eu juro que não estou me esforçando para isso. — Nichkhun disse com a cabeça baixa. — Tudo bem falar dela?

  — Sim, prefiro que fale dela do que de qualquer outra mulher, não foi para ficar gandaiando que eu terminei com você. — Nana confessou. — Juro, fiquei possessa quando apareceram aquelas impostoras mês passado.

  — Eu sei, e nem te agradeci o suficiente pela sua ajuda esse tempo todo. Mas, fazia muito tempo que eu tinha me envolvido com elas, ainda nem nos conhecíamos.

  — Eu sei, mas terminar com você foi uma boa ação que eu fiz em favor de você e da Victoria, fiquei imaginando que eu sacrifiquei algo bom que eu tinha com você para simplesmente vir alguém inesperado e deixar os três infelizes. Porque sim, você ia acabar miserável, a Vic nunca ia admitir ficar com você se você tivesse que cuidar de um bebê e da mãe dele por causa da herança, nunca que ela ia interferir nisso.

  — A Vic não está interferindo em nada na verdade, está me evitando o máximo que pode, e quando me dá uma chance eu acabo estragando tudo.

  — E você sabe porque está estragando tudo?

  — Sei, mas não sei se consigo resolver.

  — Ah, mas vai conseguir, sim! Não sei porquê tem tanta dificuldade em expressar o que você sente Nichkhun!

  — Não gosto de me sentir vulnerável…

  — Quer mais vulnerável do que eu admitir que terminei nosso relacionamento ainda gostando muito de você, só para que você — Nana deu ênfase na palavra. — e a Vic pudessem ser felizes?

  — Eu entendo.

  — Não, não entende ainda. Mas você está me vendo apavorada, ou sei lá, morrendo por dentro? — Nana perguntou e ele fez que não. — Aliás, isso nem seria um problema de verdade, porque é normal.

  — Não sei direito o que acontece, talvez eu precise estar com ela de verdade para fazer a coisa certa.

  — Não acho que saiba ainda qual é a coisa certa a se fazer, por isso não vou te dizer onde a Victoria está.

  — Você sabe onde ela está?! 

  — Não sei se eu deveria ficar ofendida com a sua surpresa, é claro que sei onde ela está, mas ela não sabe que eu sei. Bem, não sei exatamente os detalhes, só sei que não é endereço fixo, vai ficar lá por pouco tempo. Krystal e eu não queremos espantá-la, por isso ainda nem ligamos para ela.

  — Eu quero ir atrás dela, mas não posso sair do país agora, porque preciso trabalhar. Vi que ela estava numa festa com uns rapazes.  — Nichkhun disse e Nana reparou que ele falava das fotos no perfil, mas ela não quis comentar o assunto porque era engraçado ver que ele estava com ciúmes e não sabia.

  — Difícil a Victoria estar numa festa em um lugar em que ela não tem amigos e estar cercada de mulheres, ela é uma mulher bonita, o normal é estar cercada de rapazes mesmo.

  — É, mas se sou eu que saio em foto assim…

 — Você não tem do que reclamar, sabe que não é a mesma coisa e que a Victoria provavelmente estava posando com alunos.

  — Verdade, na última vez que conversamos ela me disse que não estava mais de férias.

  — Viu só? Nada com que se preocupar seu idiota, mas você tem que fazer sua parte.  — Nana disse dando-lhe um tapa na cabeça.  — Falando em trabalhar, eu tenho que ir.

  — Não vai vem tomar café? Já que está aqui…

  — Não vamos abusar da sorte, melhor mantermos uma distância segura, acabei de falar que só terminei com você por uma causa nobre e você acabou de me dizer que está em período de abstinência. É uma péssima combinação e eu já fiz muita besteira num período curto de doze horas.

  — Só para você saber, eu disse que não me importaria se você tivesse dormido com o Yunho, mas isso não é porque deixei de gostar de você da noite para o dia, é porque você merece ser feliz. 

  — Khun, ia ser só sexo, eu não gosto do Yunho, só acho ele atraente, como qualquer mulher normal acharia.

  — Você está longe de ser normal, ou comum… Mesmo assim, se tiver que fazer essa escolha de novo, não se prenda por minha causa.  — Nichkhun disse pegando uma das mãos de Nana e apertando carinhosamente entre as suas. 

  — Vamos trabalhar? Acho que você também tem o que fazer e ficar chorando as pitangas de ressaca não vai ajudar.

  — Certo, então estamos bem?

  — Sempre.  — Nana respondeu e saiu do quarto levando a bolsa.

 

*****

  Mais tarde naquele mesmo dia Krystal e Nana estavam conferindo fotos e vídeos do evento onde Victoria estava trabalhando para se informar de quanto tempo ela ficaria em Paris, havia um vídeo postado há poucos minutos em que vários jovens apresentavam em grupo o trecho de uma coreografia conhecida feita por ela há alguns anos. Mais para o final do vídeo Victoria aparecia fazendo a rotina junto com os alunos, mas o vídeo aparentemente foi cortado. 

 

  — Poxa, que pena que cortaram, a Vic é realmente uma das melhores coreógrafas que esse país já viu.  — Krystal comentou, sendo totalmente sincera. 

  — Ela é boa mesmo, mas por que cortaram o vídeo justo na parte em que ela dança?

  — Achei estranho, é o oficial do evento, não é? Consegue entender os comentários? Estão em francês…

  — Talvez, meu francês não é bom, o tempo que passei em Paris foi bem curto, mas deixa eu ver.  — Nana comentou, passando os olhos rapidamente pela tela do laptop.  — Tem alguns elogios, e, aqui tem que dizendo que ela desmaiou no final?

  — Como assim desmaiou, tipo, de cansaço por que a coreografia é pesada?

  — Talvez, só diz aqui que ela desmaiou. Veja, apareceu mais um falando a mesma coisa.!

 — Será que ela está bem? Tipo, eu sei que ela costuma esquecer de comer quando está trabalhando ou quando está triste, nesse caso, não duvido que seja as duas coisas.

  — Vamos ligar para ela para conferir?  — Nana sugeriu já pegando no telefone para fazer a chamada, mas sem resposta.  — Nada, se isso é de hoje mesmo então provavelmente ele ainda está se recuperando, ainda está de dia em Paris. Consegue matar ensaio amanhã e na sexta?

  — Não sei, acho que sim, talvez.

  — Não quero que mate ensaio para ir comigo para Paris.  — Nana disse um tanto desapontada. 

  — Você prometeu!  — Krystal disse com olhos pidões.

 — Sim, mas a Victoria ficaria furiosa se soubesse que eu te levei para lá de forma tão irresponsável. Vamos fazer o seguinte, ligamos de novo para ela e se ela não atender nós viajamos.

  — Feito, melhor você não atender Song Qian.  — Krystal disse brincando e cruzando os dedos, mas para seu azar, a chinesa atendeu a chamada de vídeo.  — Aff, Victoria estragou meu passeio!

  — Esse é o cumprimento que eu queria escutar hoje.  — Victoria disse rindo, do outro lado da linha.  — Do que eu sou culpada hoje?

  — Eu disse à Krystal que se você não atendesse a chamada íamos atrás de você em Paris.

  — Como sabem que estou em Paris?

 — G.O disse que você iria para lá no fim do mês, e acabamos de ver um vídeo seu confirmando…  — Nana respondeu, mas Victoria a interrompeu logo que processou o nome que tinha ouvido.

  — Vocês recorreram ao G.O para descobrir onde estou?!

  — Está nos acusando de que? Sabemos que você só está aí porque ele mexeu os pauzinhos dele.  — Krystal disse.

  — Mexeu nada, eu liguei para ele perguntando sobre ingressos, mas ele obviamente não tinha os contatos que disse que tinha, de qualquer forma eu fui convidada.

  — Aquele farsante… Bom, pelo menos ele nos deu a pista certa.  — Nana comentou.  — Só que agora estamos devendo a ele.

  — Não devem nada, ele ainda está me pagando, se cobrar qualquer coisa de vocês eu dou um jeito.

  — Não precisa, ele pareceu bem simpático comigo quando eu o vi.  — Nana comentou.

  — Sério? Taí algo inesperado.  — Victoria comentou.

  — Falando em coisas inesperadas, por que é que você está trancafiada num quarto de hotel em Paris durante o dia?  — Krystal jogou verde, porque pela aparência da amiga, ainda não estava se sentindo bem do desmaio, que devia ter acontecido há menos de duas horas.

  — Minha aula já acabou e eu vim para o quarto descansar.  — Victoria respondeu e as duas garotas viram uma pessoa passando no fundo, mas não puderam entender o que disse e nem ver bem quem era.  — It’s ok, I’ve just eaten, see?  — ela respondeu a pessoa em inglês, para surpresa de Krystal, que sabia que a amiga não se sentia confortável falando o idioma.  A pessoa que estava com ela respondeu sem aparecer na filmagem.

  — Sure? Just an apple? Gonna get you some croissants in a sec.

  — No need.  — Victoria respondeu.

  — No negotiation queen! Gonna get’em anyways.

— Queen?  — Nana e Krystal cochicharam juntas, mas Victoria não chegou a escutar, elas acharam estro o apelido, ainda mais porque não identificaram a voz que o pronunciou.

 — Desculpem é só alguém que está dividindo o quarto comigo aqui no evento. Vocês duas estão se comportando?

  — Nós?  — Nana e Krystal disseram juntas ainda chocadas, e fingiram limpar a garganta para disfarçar o estranhamento. 

  — Tudo normal por aqui, nenhum crime.  — Krystal respondeu.

  — Ninguém novo…  — Nana disse vagamente.

  — Isso é uma mentira descarada!  — Krystal disse de repente e Nana a acotovelou achando que ela falava do acompanhante de Victoria, mas não era a isso que Krystal se referia.  — Nana pegou o delegado Jung Yunho ontem!

  — Que?!

  — Eeeei você prometeu não contar!

 — Estamos entre amigas, e você disse que o Nichkhun viu, de quem mais está tentando esconder isso?

  — Espera aí,volta a fita, Nana dormiu com o Yunho e o Nichkhun viu os dois?  — Victoria quis saber.

  — Não, está louca, eu fiquei com ele, não transei com ele não, foi só uns beijinhos. 

  — Que mané beijinho! De biquíni, deitadinhos num colchão, Nana sabe até a cor da cueca que ele estava usando!

 — Você estava sóbria? Não que precise estar bêbada para pegar o Yunho, mas isso foi tão aleatório e repentino.  — Victoria comentou, rindo.

 — Estava lucidíssima, até a parte em que ela entrou em pânico e deixou o cara na mão, provavelmente literalmente.  — Krystal disse rindo, mas levou um tapa na parte de trás da cabeça que a fez se calar imediatamente.

  — Bom, eu não tenho mais o que contar, já que a Soojung já disse tudo.

  — Eu não disse tudo, esqueci de contar que só deu tempo de chegar no seu quarto…  — Krystal disse e levou outro tapa.

  — No meu quarto?  — Victoria repetiu, confusa.

  — Nenhuma de nós tem quarto no triplex mais.  — Nana se defendeu.

  — Sim, mas no quarto que era meu? Não podia ter usado outro, tipo, tem mais uns cinco quartos vagos naquele apartamento… O que aconteceu nessa festa afinal, alguma orgia?

 — Sabia que você ia dizer isso. Para de neurose, ninguém transou naquela festa, eu acho… Enfim, não tem nada de mais interessante para contar. Foi uma festinha inocente, tanto é que eu não dormi com ninguém, foi só isso, Yunho foi embora e pronto.  — Nana disse um pouco envergonhada.

  — Você dormiu no triplex? 

  — Foi só isso que você ouviu de tudo o que eu falei Vic?  — Nana disse um pouco ofendida.

  — Reflexo. Mas porque dormiu no triplex?

  — Porque eu bebi depois disse e não queria chamar um táxi, senão ia ter que deixar meu carro para trás. Satisfeita? Acho que está preocupada com o que Nichkhun fez e não quer perguntar, eu falei com ele de manhã e ele estava sozinho.

  — Eu não perguntei sobre ele…  —  Victoria desconversou.

  — Chega de falar de mim então, ligamos para você para saber se está bem.

  — E por que eu não estaria? Estou numa das cidades mais lindas do mundo.

  — Sabemos que você desmaiou no evento hoje.  — Krystal foi direta dessa vez.

  — Quem disse isso, JiA? — Victoria quis saber.

  — Algumas pessoas comentaram no vídeo que a produção postou há uma hora. Faz um tempo que não falo com a JiA, você contou do desmaio para ela? — Nana respondeu no lugar de Krystal.

  — Estava usando minha prima para saber sobre mim não é? 

  — E ela sabia disso, então não há com o que se preocupar. — Nana se defendeu. — Para de rodear e responde logo sobre o desmaio!

  — Provavelmente cansaço do jet lag, eu cheguei ontem de madrugada em Paris e já trabalhei hoje.

  — Conta outra Song Qian, de Moscou a Paris dão umas três horas de diferença só. Você não está comendo direito de novo, ouvimos sua conversa com quem quer que estava no quarto com você. — Krystal deu a bronca.

 — Como sabe que estive em Moscou?

 — G.O deu essa dica. — Nana respondeu. — Mas não desconversa, se explique logo Victoria.

 — Está bem se isso tranquiliza vocês eu vou comer assim que chegarem com a minha comida, mas podem parar  de se preocupar comigo, eu já sou adulta.

 — Não parece, aliás, você e Nichkhun parecem dois bebês, poderiam nos poupar dessa trabalheira toda de ficar cuidando de vocês. — Nana comentou, citando o nome o rapaz propositalmente para ver a quantas andava o relacionamento dos dois. Percebeu a amiga ficando inquieta só com a menção do nome, ela parecia um tanto irritada. — É um que tem que costurar os lábios para parar de falar idiotices, a outra que não para de fugir…

 — Não estou fugindo, estou viajando a trabalho. 

 — Quem viaja a trabalho não fica sem dar notícias. — Krystal disse. — Ele te mandou alguma mensagem sobre a foto que você postou nas redes não é?

 — Na verdade ele não mandou nada de mais, só disse que ia me deixar me divertir com meus amigos.

 — Ele disse “deixar”? — Nana perguntou, virando os olhos em desaprovação.

 — Que foi? — Victoria perguntou sem entender a expressão que a modelo fez. 

 — Esse é um dos motivos porque você está irritadinha. — Nana riu ironicamente. — Só não vou brigar com você por essa bobagem que obviamente tem a ver com a festinha de ontem porque você não parece estar se sentindo bem, então vou te poupar o sermão.

 — Mas está merecendo pelo drama. — Krystal disse. — Está gastando sua energia a toa,eu estava na festa e Nichkhun parecia mais deslocado que o tiozão do pavê, literalmente com aquela barba…

 — Ou mais deslocado que o Yunho de roupa numa festa na piscina. — Nana completou rindo.

 — Pensei que não íamos mais tocar nesse assunto, ênfase em tocar no assunto. — Krystal comentou olhando divertidamente para Victoria na tela do aparelho. — Um desperdício se quer saber.

 — Toca você se está tão interessada. — Nana dispensou.

 — Para ser presa por assédio? Só me faltava essa para a ficha criminal ficar completa.

 — Já matou alguém? — Nana perguntou.

 — Também não, mas motivos não faltam, só não fiz ainda porque tenho medo do CSI. 

 — Vocês duas são muito bobas, fico feliz que estejam cuidando uma da outra desse jeito. — Victoria comentou enquanto assistia ao espetáculo de provocações. — Aliás, para resolver a história do policial bonitão, porque não dividem?

 — Está louca Victoria? — Nana disse indignada.

 — Credo, sua egoísta. — Krystal brincou. — Também não entendi qual é a da indignação, não seria a primeira vez. — ela completou a piada e levou um terceiro tapa na parte de trás da cabeça. — E que fique claro que eu só te deixo me bater porque você é minha nova amiga rica. Falando em amiga rica, e voltando para dona Song Qian, quando é que você volta hein?

 — Ainda não sei, a agência me deu passe livre para estudar e participar de eventos pelo tempo que eu achar necessário e eu pretendo aproveitar porque não é todo dia que eles nos dão liberdade.

 — Eu que o diga, e olha que depois que eu debutar vai ser bem pior. 

 

  A pessoa que estava com Victoria no quarto antes voltou trazendo um saco grande de papel com a logo de uma confeitaria, deixou no colo dela e aparentemente lhe deu um aperto no ombro e um beijo no topo da cabeça e saiu discretamente, sem dizer nada. Mas Krystal e Nana ouviram ela dizer “thank you” em troca do favor. 

 

 — Viram só? Eu vou comer. — disse dando uma mordida no croissant e bebendo de um copo de suco de laranja que veio junto no pacote. 

 — Só vou ficar tranquila quando você fizer isso sem que alguém tenha que te ameaçar. — Krystal disse. 

 — É Victoria, será que você e o Khun não podem nos dar um tempo não? — Nana disse.

 — É o que estamos fazendo, dando um tempo… — Victoria desconversou.

 — Aish, odeio quando você se faz de tonta. — Nana respondeu. — Estou falando sério, poxa vida, vocês dois estão exaustos disso! 

 — E nós também. — Krystal completou.

 

  Victoria largou a comida de lado de repente, visivelmente irritada, para surpresa de Krystal, que jamais tinha visto a amiga demonstrar uma gama tão variada de emoções numa só chamada de vídeo.

 

 — Escuta aqui, eu sei que vocês acham que sabe o que está acontecendo, mas não sabem nem a metade. Nem a metade. O motivo de eu estar afastada não é só o Nichkhun, e ele não foi o único que fez besteira. Eu mesma fui irresponsável…

 — Do que está falando? — Nana perguntou, confusa.

 — Nada, eu quis dizer que fui responsável por parte dessa confusão entre mim e ele. E que tem o meu pai também, nós brigamos e eu não queria que ele soubesse onde eu estou.

 — Para quem quer sair do radar, você não está mais tão discreta. Por que postou fotos nas redes sociais então? — Krystal quis saber.

 — Meu pai jamais saberia onde estou só olhando para aquela foto, vocês descobriram porque tiveram alguém para informar. Não estou entendendo o motivo do interrogatório.

 — Ok, Victoria, você ainda quer um tempo, já entendemos. Só que tem gente que não pode ficar esperando você superar esse seu orgulho, tem problemas de gente grande com as quais lidar. — Nana disse.

 — Você só é grande em tamanho Nana.

 — Ah é mesmo? Pelo menos eu não estou sendo egoísta e orgulhosa.

 — Vai me dizer que você não terminou com o Nichkhun porque não quer ter um filho agora? Você não queria assumir uma responsabilidade assim e pulou fora. Por que você pode fazer isso e eu não?

 — Então você não se importaria de eu voltar para ele? — Nana disse, mas para Krystal era bem óbvio que ela estava jogando verde. — É um caso de urgência, olhando por esse lado, não pode ser tão má ideia...

 — Você não se atreveria, ele não se atreveria… — Victoria parecia em um conflito tão grande que parecia não saber distinguir se Nana falava sério ou não. — Está falando sério?!

 — Chega vocês duas!Vocês não vão brigar por conta de homem não!  — Krystal interviu sabendo que a coisa estava para ficar séria. — Victoria, relaxa, a Nana não pretende voltar para o Nichkhun, ela já está bem entretida, assim como você como pudemos ver, mas vai chegar a hora de você voltar para a realidade. Você sabe muito bem que só você pode resolver isso, para que ficar adiando? A situação é bem séria e pode piorar.

  — A Krystal está certa, não é só o Nichkhun que tem pressa. O advogado lá, do tio dele, é um bandido que está tentando passar a perna no juiz, acho que ninguém te contou isso, mas sabemos que ele pagou aquelas mulheres para mentirem sobre os bebês. Se a Krystal não tivesse intervido um daqueles exames teria dado positivo…

 — Que absurdo é esse que você está dizendo Nana?

 — Foi o que aconteceu. — Krystal disse. — Uma daquelas mulheres estava em posse e uma amostra de DNA do Nichkhun e ia usar para reclamar a paternidade do filho.

 — Mas o que Park Junjin ganharia com isso? Digo, ele perderia a posse da herança com um resultado positivo.

 — Ele contava que Nichkhun pedisse a contra prova, o plano todo era para fazer com que ele parecesse um irresponsável mulherengo… — Krystal explicou.

  — E cadê a mentira nisso? — Victoria disse ironicamente.

  — Se desse mais de um resultado positivo o juiz poderia prever uma disputa judicial pesada das mães contra Nichkhun, e isso acabaria por deixar Park Junjin responsável pela administração dos bens, e claro, ele iria usar esse privilégio para roubar. Aquele mau caráter. — Krystal disse em disparada, quase sem respirar. — Enfim, entende a urgência em colocar essa fortuna de uma vez nas mãos de Nichkhun?

 — Eu não estava sabendo desses pormenores, mas ouvi que ele está se virando muito bem, ganhou a primeira audiência, ele mesmo me disse.

 — Só que o juiz avisou que não está sendo suficiente para sustentar as fábricas, nem somando os rendimentos dele e do advogado. — Nana explicou.

 — Escutem, vocês já me chamaram de tudo quanto é coisa hoje, acham que estou sendo egoísta não é mesmo? Confiem em mim quando eu digo que Nichkhun consegue sair dessa. Ele já poderia ter resolvido isso antes se fosse um pouco menos idiota.

 — Já sabemos disso. — Nana e Krystal disseram juntas. 

 — Então, deixem que ele resolva, vai ficar tudo bem. 

 — Por que está sendo tão otimista, só um filho para resolver isso logo! — Nana disse impacientemente. 

  — Nichkhun ainda tem mais duas tentativas, dois meses, para ficar com a posse provisória dessa fortuna, fazer um filho demora bem menos que isso. — Victoria disse com uma tranquilidade que espantou as duas amigas.

 — Como pode dizer isso assim tão…

 — Nana, quem quer faz acontecer. Foi para isso mesmo que vocês me ligaram? — Victoria perguntou, cortando o assunto, ela parecia cansada e indisposta, mesmo depois de comer direito.

 — Have you eaten queen? — ouviu-se de longe no quarto.

 — Yes sir! — Victoria respondeu com um grito, livre do tom de impaciência de segundos atrás.

— Ok, Vic, você deve estar querendo descansar e aproveitar a companhia dos seus amigos. — Nana disse, meio derrotada.

 — Que? — ela respondeu com uma pergunta porque não tinha prestado atenção no tom de insinuação da modelo.

 — Deixa para lá, está ficando tarde aqui e amanhã Krystal e eu temos que trabalhar. Mas pensa bem no que conversamos, está bem?

 — Conversou a mesma coisa com ele?

 — Song Qian, não começa, vamos terminar a ligação com uma despedida civilizada, por favor? — Krystal disse.

 — Ok, se cuidem vocês duas. — Victoria se despediu soando exausta.

 

  Nana desligou sem se estender na despedida, só deu tempo de Krystal mandar um beijo e Victoria piscar o olho para ela.

 

 — Queen? — as duas disseram juntas assim que chamada se encerrou?

 — Você conseguiu ver quem estava com ela no quarto? — Nana perguntou.

 — Não deu para ver, a pessoa estava toda de preto, a câmera só mostrou dos ombros para baixo. Não estou com cabeça para teorizar em cima disso, digo, é normal dividir quartos nesse tipo de evento.

 — Sim, mas tive a impressão de que era um homem.

 — Tive a mesma impressão só que o que a gente tem com isso? Não é como se ela tivesse escolha de com quem vai dividir o quarto, é tipo eu com as meninas do dormitório. Além do mais eu confio na Victoria, ela pediu para confiarmos nela, e acho que ela sabe o que está fazendo. Ela tem razão sobre Nichkhun ter tempo, e sobre ele já poder ter resolvido as coisas com ela antes.

 — Conversei com ele sobre isso hoje cedo, ele simplesmente não consegue ainda, não está preparado.

 — Então é melhor que ele se prepare, não podemos culpar a Victoria se ele está demorando a virar homem de verdade. — Krystal concluiu.

 — É, não podemos. Vamos ver como eles se dão de agora para frente, acho que ela vai manter o telefone ligado, espero que Victoria pare de criancice atenda.

 — Ela estava diferente, não é?

 — O que quis dizer Krys?

 — Sei lá, a Victoria não é tão explosiva assim, ou sei lá… Não sei, me pareceu estranha.

 — Não sei dizer o que achei diferente. Mas vamos aguardar, eu sei que ela não é uma pessoa egoísta e se que vai fazer a coisa certa. Quero dizer, se eu fiz, por que ela não faria? — Nana disse rindo.

*******

Babbo Nichkhun: Oi, como está?

Vic noona: Bem, bem ocupada. E você?

Babbo Nichkhun: Bem, bem ocupado também. Mas consigo trocar mensagens enquanto trabalho, e você?

Vic noona: Não consigo dançar e mexer no celular.

Babbo Nichkhun: Vi alguns vídeos novos seus, estão ótimos! Sinto falta de dançar T_T

Vic noona: Tão difícil assim?

Babbo Nichkhun: Quase impossível. Mas também não tem graça dançar sozinho, a agência suspendeu minha presença por lá desde a última confusão com os trainees. E dizem que gente rica tem vida boa.

Vic noona: Parece que você já teve sua cota de vida boa.

Babbo Nichkhun: Parece que já passou mesmo essa fase. Então não vamos nos ver?

Vic Noona: Preciso voltar para a aula, vá dormir.

Babbo Nichkhun: Tudo bem, bom trabalho Vic…

Vic Noona: Boa noite.

As conversas dos dois se limitaram a mensagens assim, diárias, o que já era uma evolução, mas sem muita profundidade durante o período de uma semana, e depois tornaram-se mais escassas porque aparentemente Victoria estava novamente em outro fuso horário. Nichkhun testou várias vezes encontrar o melhor horário para fazer uma chamada e só acertou na terceira semana, quase no dia da segunda audiência, ele estava mais nervoso que nunca porque os rendimentos não estavam subindo, principalmente porque uma inesperada temporada de chuvas atingiu a Coreia em plena pré-temporada de verão e os investimentos que ele fez em músicas da estação ficaram abaixo do esperado. Então foi um presente para Nichkhun conseguir falar com ela por uma chamada de vídeo.

 

  — Finalmente! Nem acredito que estou conseguindo falar com você. — Nichkhun disse sorrindo como nunca nas últimas semanas, ele até sentiu que os músculos do rosto estranharam o movimento.

 — Eu notei que você tem tentado me ligar, mas nunca num bom horário. — Victoria comentou, para ela eram 7 da manhã e para ele já era noite.

 — Tudo bem esse horário? — ele perguntou preocupado.

 — Tudo bem, está cedo ainda, mas eu não estou trabalhando tanto mais, aliás hoje estou de folga. — Victoria voltou a deitar-se na cama, não tinha muito tempo que tinha acordado, mas finalmente estava se sentindo disposta nesse período do dia. Estava no meio do terceiro mês de gravidez e já a alguns dias que não tinha enjoo e já conseguia comer normalmente, mais do que de costume.

 — Ei, você ganhou peso de novo. — Nichkhun disse brincando, mas não estava de todo errado.

 — E você ganhou mais barba. — Victoria retrucou fingindo estar ofendida com o comentário. — Está fora de controle isso. — ela acrescentou sobre o fato de que a barba já chegava a 2cm de comprimento.

 — Isso está sendo realmente útil, não sei mais o que é ser seguido na rua, aparentemente as ssaessangs não gostam de tiozões barbudos.

  — Isso é ótimo. — Victoria comentou. — Talvez consiga algumas fans ajuhmas.

 — Sabe que eu até tenho sentido alguns olhares das senhoras quando vou ao mercado? — Nichkhun disse rindo. — Talvez eu deva gravar alguma canção mais tradicional.

   — Está certo, tem que aproveitar. 

  — O que você tem feito aí onde está? — Nichkhun perguntou, tomando cuidado para não ser invasivo.

  — Trabalhando um pouco, estudando mais um pouco. Mas já faz uns dias que estou bem a toa. E você?

  — De casa para o do trabalho, do trabalho para casa. E como eu disse, as vezes preciso ir ao mercado comprar comida.

  — Ninguém vai aí cuidar das coisas de casa para você?

  — Não, eu tenho feito tudo sozinho. Até a limpeza, estou mantendo a cabeça ocupada para o coração não devorar a razão.

  — Como é? — Victoria perguntou, não porque não tinha entendido, mas porque ficou surpresa.

  — Você sabe, se fosse escutar meu coração eu já tinha largado tudo isso e estava pelo mundo com você.

 — Ah sim, — ela desconversou, visivelmente desconfortável. — e você já terminou aquela canção que estava escrevendo semanas atrás?

  — Terminei, na verdade eu escrevi outras, estou pensando em lançar um EP, sem muita pretensão claro. Ah, eu não te contei, já que eu estou cuidando do triplex todo sozinho, transformei um dos quartos em um estúdio caseiro.

  — Legal! Então você já gravou as canções? 

  — Sim, falta mixar, eu não entendo tanto disso mas estou aprendendo. Ah, eu finalmente terminei de montar nossa academia. — Nichkhun disse empolgado, a Victoria notou o jeito com que ele disse “nossa”, porque era algo que os dois planejaram e foram adiando por vários motivos, acabando por não terminarem coisa alguma. — Já faz um mês que estou malhando todos os dias. Olha só. — ele estava com um roupão vermelho e preto, e antes que Victoria pudesse entender o que ele estava fazendo, ele já havia tirado os braços da peça, formando uma espécie de saia em volta do quadril. Victoria ficou bastante chocada em ver que o rapaz estava com o corpo super definido, um pouco mais volumoso do que havia visto por último, no mês anterior. Ela se permitiu admirar por alguns segundos enquanto ele ficava mudando o ângulo da câmera para se mostrar.

  — Uau, está parecendo um lenhador escocês. — Victoria disse rindo quando conseguiu se auto dominar. 

  — Lenhador escocês? Como assim?

  — Ué, eu poderia ter dito Papai Noel versão gogo boy, mas pelo menos escolhi uma metáfora decente.

 — Certo. — Nichkhun disse rindo e sentando-se de volta na cama. — É só isso? Nenhum elogiozinho?

 — Seria melhor se o elogio fosse espontâneo, não?

 — Me contento com qualquer palavra doce hoje, eu, eu tenho uma audiência com o juiz essa semana. Te liguei para acalmar os nervos. 

  — Se é assim então acho que posso fazer essa boa ação. —  Victoria disse rindo. — Está gostoso. — Ela acrescentou com a voz bem mais baixa, quase sussurrando, como se estivesse com vergonha ou não querendo ser escutada.

 —  Obrigado, me sinto bem melhor assim. —  Nichkhun disse brincando.

  — Ouvi dizer que você foi bem na última, por que está preocupado assim?

 — Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, não é? E esse mês não foi tão bom, o investimento que Junsu e eu fizemos era arriscado, mas tinha mais chances de ser rentável que o investimento que Park Junjin fez no primeiro mês. Acredita que ele me acusou de ter trapaceado?

 — Como você trapacearia se tem que declarar tudo o que faz com o dinheiro?

 — Ele disse que eu usei minha fortuna pessoal para levantar mais recursos. Mas o juiz disse que isso seria o de menos, já que estamos meio que competindo ainda para ajudar outras pessoas.

 — Não se preocupe com isso, suas intenções são boas e você está fazendo tudo o que está a seu alcance. 

 — I’m gonna grab us breakfast, want something different, queen? — alguém disse sem aparecer totalmente em vídeo. Victoria olhou para cima e sorriu antes de responder.

  — Whatever you have I’ll have too, don’t worry.

  — Nunca te vi falando inglês antes. — Nichkhun comentou, tentando disfarçar o desconforto.

  — Como eu disse, eu andei estudando, e não foi só dança.  

  — Com quem estava falando? — Nichkhun quis saber, mesmo arriscando passar do limite não mencionado de perguntas pessoais.

  — Somos colegas de apartamento. — Victoria respondeu vagamente, ganhando tempo para avaliar se a reação de Nichkhun era curiosidade ou se tinha algum sinal de ciúmes. — É a única pessoa que eu conheço por aqui, e não é bom morar sozinha numa cidade tão grande.

 —  Entendo. Cidades grandes são perigosas, principalmente no ocidente. É bom ter um homem por perto… —  Nichkhun comentou por reflexo, obviamente jogando verde com relação à pessoa com quem Victoria tinha perguntado há pouco. 

 —  Moro sem família desde os onze anos de idade, lembra? Foi quando eu fui para Pequim. Não preciso de homem para isso. 

 — Mas é diferente no ocidente… Que bom que você tem companhia.

 

  Victoria estreitou os olhos pegando o sarcasmo entre as entrelinhas, Nichkhun pareceu baixar a guarda só com o olhar dela.  Ele queria fazer dezenas de perguntas, mas estava certo de que Victoria ia se irritar se ele as fizesse, então optou por concordar com a cabeça e mudar de assunto, queria ganhar mais tempo com ela.

 

  — O que vai fazer hoje?

  — Espero que absolutamente nada. — Victoria disse rindo. — Mas não, provavelmente vou sair para fazer umas comprinhas.

  — Como vai trazer tudo de volta sozinha? Você e a Nana compram uma loja inteira quando saem.

 — Eu sempre posso me livrar de algumas coisas no meio do caminho, e a maioria das coisas não serão minhas. 

 — Vai ter algum presentinho para mim? — Nichkhun disse brincando, mas com um fiozinho de esperança.

 — Você nem imagina o tamanho do presente. — Victoria disse misteriosamente e o rapaz ficou espantado.

 — Sério? Eu estava brincando, não precisa me dar nada não.

 — Tarde demais. — ela disse piscando um dos olhos e sorrindo. 

 — Se é assim, quando é que eu vou ganhar meu presente? — Nichkhun disse sinceramente ansioso.

 — Daqui alguns meses. — ela respondeu, se divertindo em torturá-lo de curiosidade.

 — Meses?! Viiiiic! Não. Poxa vida. — ele disse bagunçando os cabelos impacientemente.

 — Sinto muito. 

 — Sente nada.

 — Eu diria para você mesmo vir buscar, mas é impossível agora. 

 — Sabe que se eu pudesse eu já teria ido atrás de você, não sabe? — Nichkhun provocou.

 — Não deu certo da primeira vez que você tentou. — Victoria disse rindo.

 — Só que dessa vez não vai ter o seu pai para me fazer de saco de pancadas, até hoje eu não entendi porque ele me bateu, afinal, o que ele sabe sobre nós dois?

 — O suficiente para ficar irritado comigo, nunca vou superar o fato de que ele te bateu por minha causa. 

 — Por sua causa?

 — Longa história Nichkhun, melhor não falar sobre isso, um dia eu te conto o que aconteceu de verdade. 

 — Você está tão misteriosa…

 — Eu literalmente estou me escondendo há três meses e só agora você notou?

 — Eu sou meio lento para notar as coisas, você sabe.

 — Sei perfeitamente. — Nesse momento o estômago de Victoria roncou tão alto que foi possível escutar  através da chamada. 

 — Uau! O que foi isso? — Nichkhun disse impressionado, e Victoria riu, escondendo o rosto de vergonha.

 — Minha ferinha interior. Preciso comer.

 — Vai lá linda, alimente essa fera antes que ela te devore por dentro. — Nichkhun fez piada sem saber como raspava na realidade.

 — Hey queen! Food is ready, come eat! — disse a voz que vinha do outro cômodo.

 — I’m coming! — Victoria respondeu com um grito. — Tchau Khun.

 — Tchau. Come direitinho. Te ligo amanhã para contar como foi a audiência. 

 — Boa sorte lá.

******

O dia da audiência foi o que alguns podem chamar de mau agouro, o dia amanheceu completamente negro, chuvoso e com direito a trovoadas de tremer as janelas do triplex. Nichkhun não tinha a menor vontade de se levantar, mas tinha que fazer o esforço. Ele se levantou quatro horas antes da audiência, se esforçou para comer e se exercitou. Havia uma mensagem de Victoria no celular dizendo breves palavras: “Boa sorte lenhador kkkkkkk Vai dar tudo certo, se não der, bem, ainda tem mais um mês. Não se preocupe.”. Nichkhun achou a mensagem fofa, embora ainda não entendesse o otimismo incomum da moça. Contudo, isso deu um ânimo diferente ao rapaz. Ele aparou as laterais dos cabelos com uma máquina caseira, não estavam perfeitos, mas dava para domar a bagunça que tinha virado, a barba é que estava mesmo meio fora de controle, mas ele a manteve porque estava se agarrando a qualquer detalhe que Victoria gostasse, embora a reação dela tenha sido discreta. Vestiu uma camisa branca, um conjunto de terno de linho rústico grafite, uma gravata no mesmo tom e calçou uma bota de bico quadrado. O visual tinha sido feito para quando ele estava mais magro, mas serviu como uma luva agora que estava um pouco mais musculoso, o paletó estava mais justo nos ombros e a calça bem mais justa nos quadris, mas ele não notou isso obviamente.

  Jung Jihoon, seu advogado, e Junsu o esperavam na entrada do fórum, da outra vez estavam mais otimistas, por isso não o acompanharam. Porém a realidade desse mês era outra. Os fotógrafos também o esperavam debaixo de guarda chuvas enormes e atentos até à forma em que ele piscava os olhos. E pareciam particularmente interessados em seu visual, alguns repórteres fizeram perguntas à respeito, e até pediram para que ele posasse, mas ele só os cumprimentou e entrou no prédio. 

 

  — Vai casar hoje cara? — Junsu disse, impressionado com o cuidado que o amigo teve ao se vestir para a audiência.

  — Eu preferia estar fazendo isso mesmo. — Nichkhun disse, suspirando, o semblante sério.

  — Não fala uma coisa dessas sem avisar cara, nós não estávamos gravando. — Junsu disse sorrindo, mas não conseguiu arrancar nenhuma reação do amigo. A verdade é que ele também estava nervoso.

  Park Junjin entrou logo depois, em seu habitual terno branco posando para fotos como se ele fosse o famosos na história. 

 — Está indo fazer exame de fezes senhor Horvejkul? — Park Junjin passou dizendo isso sorrindo, e fazendo um sinal em cumprimento, mas saindo rápido de vista. 

 

  Nichkhun só rangeu os dentes e entrou na sala com os dois amigos, o outro advogado já estava acomodado à mesa e nem olhava para a pilha de papéis que trouxe consigo, mais confiante que nunca. O juiz entrou e sentou-se, fez sinal para o escrivão começar o trabalho de registrar a ata. Jung Sooman obviamente já havia lido todos os documentos e comprovantes de antemão, a audiência era para avaliar eventuais correções monetárias de última hora e anunciar os resultados.

 

 — Muito bem senhores, estamos aqui para anunciar o resultado do trabalho árduo que os senhores têm feito até agora. Gostaria de parabenizá-los, aparentemente o clima de competição os fez render ainda mais, e por consequência cobrir o déficit do mês passado, embora deva avisá-los que vocês tem um problema para o próximo mês já que não houve excedentes para o mesmo. — o juiz fez uma pausa para verificar se os dois interessados entenderam o que ele havia dito, Nichkhun não esboçou muita reação, e Park Junjin apenas assentiu. — Pois bem, vamos aos resultados. Park Junjin subiu os rendimentos em 10 por cento em relação ao mês anterior, endossado por mais 5% de novos investimentos em fazendas de arroz. 

 

 — Fazendas de arroz? — Nichkhun disse baixo.

  — As chuvas… O cara foi genial dessa vez. — Junsu disse, sem poder conter a admiração. — E em parceria com as redes de supermercado.

 — Foi uma boa ideia. — Jung Jihoon concordou.

 

  O juiz não pareceu escutar os comentários e continuou.

 

  — Deduzindo os impostos essa porcentagem cai para treze por cento. Quanto ao senhor Horvejkul, rendeu abaixo do mês anterior, não houve novos investimentos, com as deduções rendeu dez por cento. Os dois encontram-se empatados, portanto ainda não posso tomar a decisão de posse provisória dos recursos.

 

  Nichkhun pareceu extremamente desapontado, queria ter ganhado a causa nesse mês, e então poderia ir atrás de Victoria onde quer que ela estivesse, mas resultou que ele teria que trabalhar ainda mais que antes para então ter tempo para resolver as coisas com a moça. A ordem de prioridades não estava nem um pouco a favor. Park Junjin sorria de orelha a orelha do outro lado da sala.

 

 — Devo reforçar que o que estão fazendo não é suficiente ainda, é necessário que tomem cuidados e invistam mais conscientemente. Há vidas em jogo enquanto vocês trabalham. Nos reuniremos novamente dentro de trinta dias e espero ter uma decisão acertada até lá. Boa tarde a todos. A sessão está encerrada.

 

  Park Junjin saiu assim que as portas foram abertas pelos fiscais. Nichkhun se levantou de cabeça baixa, preocupado com o que viria nas próximas semanas.

 

 — Me desculpe cara, esse mês não demos muita sorte, mas vamos estudar novos investimentos, prometo que mês que vem isso tudo acaba. — Junsu prometeu segurando o amigo pelo ombro. 

  — Você ouviu o que o juiz disse, parece que acha que o que nós dois estamos fazendo é alguma brincadeira, que não estamos levando a sério.

  — Isso já é um preconceito dele, entretenimento é uma das coisas mais rentáveis desse país, e é natural que você sendo artista vá investir nisso, porque é o que você conhece. Eu continuo apostando em nós, só precisamos nos reprogramar.

  — Está bem, amanhã vemos isso, não estou com energia para estudar nada agora. — O rapaz se despediu e saiu do prédio, sem nem se lembrar de que era esperado por dezenas de pessoas do lado de fora.

  — Eu te disse, veio com a roupa apropriada para disfarçar a merda de investimento que tem feito. — Park Junjin debochou, tentando bloquear sua passagem parcialmente, mas Nichkhun apenas esticou o braço para tirá-lo do caminho. Como estava mais forte o movimento foi suficiente para deslocar o outro homem uns dois metros. Os fotógrafos dispararam os flashes crentes de que seria o início de uma briga. Porém, Nichkhun apenas continuou andando sem responder nenhuma pergunta, saiu na chuva mesmo pois havia esquecido o guarda- chuvas com Junsu. Chegou no carro completamente encharcado, para seu azar um dos pneus estava furado.

 

 — Mas que mer.... — Nichkhun gritou, abafado pela chuva forte e alguns trovões. Ele se sentou na calçada por alguns instantes rindo da própria desgraça, mas foi um riso que logo foi silenciado por algumas lágrimas quentes, a tensão da audiência se dissipando aos poucos. Ele tirou o paletó que estava começando a ficar pesado, mas sua carteira caiu do bolso espalhando parte do conteúdo, que eram algumas notas, cartões, e uma foto, que era de Victoria e Nana juntas, posando com poses exageradas, ele não carregava fotos individuais das duas por causa do risco de cair em mãos erradas. Ele pegou a foto no chão e olhou tristonho durante algum tempo. Por fim abriu o porta-malas do carro para pegar o step e trocar o pneu. Demorou mais ou menos uns quinze minutos para fazer tudo, mas ele sujou a camisa, precisou tirar o cinto para conseguir de agachar sem rasgar a calça. Enfim, aquela série de pequenos desastres não passou longe das câmeras dos fotógrafos de plantão, mas o rapaz não estava nem um pouco atento ao fato de que estava dando um espetáculo público. 

 

  Ele acabou de guardar o pneu furado e o macaco mecânico, entrou no carro e foi embora, as fotos estariam na internet até o fim do dia, com alguma versão no mínima diluída da realidade ou distorcida como de costume.

******

 

 

 

 



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