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História Trivian: Ordem em Colapso - Capítulo 5


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Capítulo 5 - O Peso em Seus Ombros - Eleonora


Levantou e vestiu seu vestido marrom usual, prendeu seu cinto de couro e ajeitou o cabelo. Usava-o solto, partido no meio e preso atrás das orelhas. Sua aparência sempre fora indiferente para ela, encontrava-se verdadeiramente em seu arco e flecha, em sua caçada íntima e silenciosa. Além disso também também tinha outro divertimento pessoal que se resumia a alguns poucos livros com os quais aprendeu a ler e que guardava em baixo de sua cama, tão preciosos quanto ouro ou safira por mais destruídos que estivessem.

Não fora fácil para sua família chegar até aquele lugar perdido. Um vilarejo qualquer perto de uma floresta qualquer, era o que precisavam. Era o que ela precisava para deixar o passado para trás. Ou tentar. Enquanto arrumava as flechas na aljava pensava sobre o quão livre se sentia em perambular por aí com seus pensamentos perdidos, seus sonhos quebrados. Neles moravam seus demônios e teve de aprender a conviver com eles.

Ainda serei tão fraca agora como era antes?

Seus pais já eram velhos e estavam cansados. Ela só podia desejar que tivessem finalmente encontrado paz ali, um lugar que pudessem descansar depois de fugirem por tanto tempo. Mas sua mãe estava debilitada fazia alguns dias, não segurava as refeições no estômago e a boca vivia seca e rachada, também mal conseguia se levantar da cama.

A cabana de pedra era fria apesar do calor que fazia do lado de fora, ainda que com o sol no seu ponto mais alto parecia que moravam em criptas enterradas no gelo. As terras por ali eram difíceis de se cultivar, a plantação crescia fraca e deformada na maior parte das vezes. Apesar disso ainda assim dispunham de algum plantio considerável ali levando em conta que a vila mais próxima ficava a quilômetros de distância mesmo à cavalo.

– A colheita tem sido uma vergonha. – disse amarrando suas botas. – Vou sair e caçar algo melhor para vocês. Não podem só viver de caldos ralos.

– Eleonora. – seu pai falava com dificuldade. – Estamos bem. Não se arrisque por aí, temos tudo do que precisamos aqui. Não mendigamos mais finalmente.
Poderíamos ter tido muito mais e a culpa é minha se não temos nada.

– Eu só quero arranjar uma boa janta, pelo menos por hoje. – Chegou para perto de seu pai e segurou-lhe as mãos. – Confie em mim. Eu posso fazer isso. Eu preciso.

Seu pai a olhou carinhosamente e a abraçou. Era sua única filha.

– Você não fez nada de errado. Não se cobre, não nos veja como um peso nos seus ombros, minha querida.

Eu sou o peso nos seus ombros, pai. E no meu próprio.

A menina soltou suas mãos e foi em direção à cama de sua mãe. Ajoelhou-se e alisou o rosto sereno.

– Quero ser forte como você, mãe. – A menina olhou-a com carinho e esperou.

A mulher não esboçou reação. Estava num sono profundo há algum tempo, só sua respiração sinalizava que ainda vivia. Eleonora suspirou e limpou uma lágrima solitária que escorria. Se levantou, deu um abraço forte em seu pai.

– Não demorarei mais do que o necessário. – disse e saiu.

O calor do lado de fora fazia sua pele suar, seu cabelo grudava em sua testa, seu pescoço pingava. Apesar do desconforto que sentia sabia que bons dias de caça eram dias como aquele. Mesmo que tenha chegado naquele lugar a pouco tempo já aprendera a reconhecer algumas trilhas da floresta.

O vento está a meu favor. Não será muito difícil conseguir algo hoje.

Tinha aprendido a manejar o arco desde pequena. Saia nos primeiros sinais do amanhecer para lançar algumas flechas em maçãs e quando já era fácil demais começou sua caça por pequenos animais. Para isso também teve que aprender a deslizar com suas botas, deslizar para que não fosse ouvida e surpreende-se sua presa deixando-a sem escapatória. Anos de prática a levaram a quase perfeição. Quando ainda acreditava em sonhos sonhava em fazer parte do exército particular de algum senhor e se aventurar em guerras onde pudesse provar seu valor. Porém tudo isso fora brutalmente arrancado de seu coração e então teve de fugir e esquecer.

A floresta era densa, escura e o ar era mais frio. Seus pés não faziam quase nenhum som e a única coisa que ouvia eram os grilos e sapos que cantarolavam com fervor e o farfalhar de folhas a sua volta. Imaginava quais eram os segredos que poderia guardar, quantas histórias de doçura e violência se acumularam durante os séculos naquela terra assombrada. Histórias que nenhum livro nunca poderia contar. Nem ninguém jamais saberia que um dia aconteceram. Perdidas para sempre.

Empunhou seu arco e flecha e fez silêncio, nem seus pensamentos ousavam quebrá-lo. Tomava cuidado para que não pisasse em um galho ou pedras para que sua presença não fosse notada por nenhuma criatura viva. E então andou atenta até ouvir ao longe algo se mover ligeiro e incessante. Logo o som se duplicou e oito patas rápidas corriam por ali. Escondeu-se atrás de um arbusto com sua arma preparada e esperou. Dois coelhos passaram rente onde estava e aí soube que era hora de atacar. Se posicionou de maneira firme, mirou e soltou. O coelho caiu com a flecha cravada em suas costelas. Não havia mais o que fazer. O segundo tomou dianteira e se afastou, mas Eleonora tinha pernas fortes e corpo atlético o que lhe dava boas condições para manter uma perseguição.

Puxou uma segunda flecha e correu. O animal pulava em linha reta com rapidez, ansioso para encontrar alguma toca e se livrar de sua carrasca. Eleonora então colocou toda sua força no braço para que a flecha voasse o mais longe possível. E disparou. O segundo caiu com mais impacto do que o primeiro. Guardou sua arma com cuidado, recolheu os dois animais e prendeu-os em seu cinto, feliz por seu desempenho. Dali a alguns metros corria um rio, o qual já podia ouvir seu som e seguiu pra lá. Lavou seu rosto na água gelada e se sentiu descansada.

Gostaria de passar mais tempo aqui, mas disse que não demoraria.

Seguiu sorrateira como costumava e então viu ao longe um garoto nas águas. Aproximou-se com cautela e o observou.

Parece bonito.

Procurou com os olhos onde suas roupas poderiam estar e quando as encontrou esgueirou-se com cuidado até elas. Havia um machado de lenhador e também o pegou, deixando o nadador sem defesas. Observou a floresta atrás de si e procurou sinal do sol. Não sabia dizer quão cedo ou tarde era e então apressou-se em se armar novamente e aproximou-se do rapaz permitindo que visse sua figura. Ele estava em posição de defesa, apesar de sua nudez exposta. Eleonora esboçou um leve e solene riso quando o viu tão alheio a ela quanto estiveram os coelhos pendurados em seu cinto.

– Eleonora? – ele dissera com espanto cobrindo suas partes íntimas.

A menina o reconheceu, era o aprendiz do ferreiro do vilarejo.

– Sim, sou eu. E você é o garoto ratazana?
            – Do que está falando?

Eleonora analisou-o. Tinha um corpo bonito e forte. E era robusto apesar de tão jovem quanto ela. Uma marca de queimadura que deformara seu braço completava a aparência atraente do rapaz.

É bonito, de fato.

Devolveu suas roupas, conversaram um pouco e descobriu que se chamava Deggen. Gostou do seu nome.

A tarde estava por acabar e voltaram juntos pelas trilhas encobertas. As folhas secas formavam imagens no ar. Imagens marrons, vermelhas e amarelas.

Chegando no vilarejo as folhas foram substituídas por cinzas, o cheiro de mato dava lugar a fumaça que queimava as narinas. Uma multidão se agrupava na frente de uma casa que ardia como uma grande fogueira viva.

Por favor, que não seja verdade.

Eleonora então chegou mais perto e gritou. Gritou e caiu de joelhos. As imagens vieram tão rápidos quanto suas flechas em sua mente. Viu seu pai e sua mãe, viu a menina que fora, viu seu primeiro beijo, viu seus demônios.

Suas pernas estavam moles, imóveis. Queria andar, mas não podia. Não queria. As lágrimas eram como rios em seu rosto e a encharcaram como chuva. Os sons eram confusos e abafados. Não faziam sentido. Apertou suas orelhas até que fossem esmagadas o suficiente para estar surda. Seus olhos se fecharam com tanta força que suas pálpebras, sobrancelhas e testa doiam intensamente.

Então alguém a ergueu.

– Estou aqui.



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