História Trono de Sangue - Capítulo 33


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Categorias Histórias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Ação, Drama, Ficção Histórica, Medieval, Princesa, Rainha, Rei, Romance
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Ficção, Romance e Novela, Violência
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 33 - Capítulo 27


 

Ílac estava de luto, a rainha havia decretado no instante que a mãe havia saído do seu quarto. A madrugada parecia ter ficado ainda mais fria depois dos relatos da noite, como se a natureza pudesse sentir a dor das perdas e refletisse o coração do povo quebrantado.

O choro dos entes queridos e de todos que se compadeciam aos guerreiros perdidos na batalha ecoavam pela terra, adentrando pelas paredes do palácio. As roupas negras cobriam os serviçais, que tremiam e ficavam em silêncio durante os seus afazeres.

A derrota doía e, junto a ela, o medo os cercava.

A rainha já não era tão imponente, a fortaleza de Ílac já não era vista como tão segura quanto antes e os soldados, agora eram falhos.

Nos corredores vazios, o vento gelado tocava e arrepiava a pele de Sarah enquanto ela voltava para o seu quarto carregando a sua vela em um pequeno candelabro. Empurrou a porta com cuidado para não derrubar o utensílio e assustou-se ao notar alguém sentado em sua cama, quase derrubando o artefato em suas mãos.

― Acalme-se, sou eu – a voz soou, levantando-se.

No mesmo instante Sarah soube que era o seu marido, colocou o candelabro sobre a estante e correu para abraçá-lo, passando os braços por suas costas com força.

― Oh meu Deus, você está bem? – A mulher afastou-se um pouco, pousando a sua mão na bochecha de Cameron.

― Sim, com vida pelo menos. Não posso dizer de muitos outros. Foi horrível, Sarah.

― Oh, Cameron – ela lamentou com lágrimas nos olhos e alisou o rosto dele. ― Fico feliz que esteja aqui. Posso estar soando egoísta, mas... – começou a falar, porém, parou e engoliu em seco.

Cameron puxou-a para seus braços e a abraçou.

― Não precisa pensar nisso agora. Estou seguro e você também.

― Tinha medo que não chegasse, assustei-me ao vê-lo aqui. Agora eu vivo com medo, como antes...

Cameron enrugou a testa, segurou os ombros da Sarah e a afastou um pouco.

― Não ouviu a movimentação do castelo ao chegarmos? Até estranhei por não ver-te aqui. Está tarde, onde estavas?

Os olhos de Sarah arregalaram-se levemente, porém, logo não hesitou em responder.

― Com o príncipe. Não consegui dormir bem e fui ver como ele estava, você sabe que na ausência da rainha quem cuida dele sou eu.

Cameron acenou com a cabeça e voltou a sentar-se na cama, fitando a sua esposa.

― Não necessita mais se preocupar. Eu estou de volta, Sarah, continue comigo e nada irá lhe acontecer. Eu te protegi antes, não foi?

― Sim.

― Então venha cá. Deite-se e descanse. – Estendeu a mão para a mulher e guiou-a de volta para cama, aconchegando-a em seu peito enquanto a respiração de ambos, aos poucos, voltava a se regularizar.

 

*

 

Os dias passavam e Ílac mantinha-se de luto, nos corredores o silêncio ainda predominava e as pessoas apenas murmuravam uma para as outras, receosas com o que estava por vir. A população já sabia da grande lástima, haviam perdido a sua princesa para Medroc. Um ataque profundo na alma do povo de Ílac, que temia perder suas vidas também.

Evelyn precisou se recompor, estava destruída, queria rasgar as suas vestes e gritar por ter perdido sua menina ou por imaginar toda atrocidade que ela vinha sofrendo por lá. Contudo, ficar parada não salvaria a sua filha e nem o povo. Reuniu-se por dias com os melhores dos seus espiões, mas nenhum deles lhe trazia respostas. O silêncio de Garret a corroía e a deixava incerta de como proceder. Não poderia mais ser impulsiva, suas mãos já carregavam o sangue de muitos inocentes.

O rei de Medroc havia declarado a guerra, feito-lhe uma emboscada e... mais nada. Nenhum recado, nenhum ultimato. Não pediu nada em troca pela menina, mas também não explicou o que queria. Era provável que estivesse esperando que Evelyn o atacasse novamente. Precisaria ser esperta para poder planejar o seu próximo passo. Precisava dos melhores homens que possuía, precisava do General de Ílac naquele instante.

Elijah, porém, não estava disponível. Desde a morte de Hector ele havia se trancado em seu aposento e mal comia ou bebia. Ninguém entrava lá e nem mesmo os criados tinham notícias. Às vezes algum vinho era levado até a porta, nada mais do que isso.

Evelyn havia dado uma semana de luto, esperando que ele se recompusesse. Mas Elijah mantinha-se prostrado e ela não poderia mais permitir isso. Ela tentara o procurar por várias vezes, mas ele negou recebê-la. Provavelmente estava odiando-a, por culpa dela o guerreiro havia perdido o que lhe era mais próximo de um familiar. No entanto, já havia esperado demais, precisava dele agora. Elijah teria que engolir a sua própria dor, assim como ela estava fazendo.

― Alguma notícia? – a rainha perguntou ao criado que havia incumbido por ficar de olho em Elijah.

― Sinto muito, Majestade. Mas ele ainda não saiu do aposento. Ouvi dizer que estava à espreita no dia das cinzas do ex-general, no entanto, não temos mais notícia alguma além disso.

― Obrigada. Tragam-me a chave do aposento e dois dos meus soldados. Ele me atenderá, quer queira ou não – a rainha deu a ordem e, ainda que o criado houvesse arregalado os olhos com o mandato, ele prontamente a obedeceu.

Evelyn caminhou em direção ao quarto onde sabia que o encontraria. Parecia que todos os seus encontros com Elijah eram como um vendaval de confusões. Em uma eles haviam feito amor e em outra, acabado de chegar da batalha. Ambas ela havia destruído o seu coração, como sempre. Até parecia que a sua principal missão nessa vida era estraçalhá-lo. Se pudesse, deixá-lo-ia em paz, como já havia feito quando era uma menina, mas agora não havia escolha. Não podia deixá-lo partir.

Que ironia a vida. Antes havia o rechaçado da maneira mais extrema, porém, agora teria que fazer de tudo para que ele permanecesse. Ainda que tivesse aberto mão do homem Elijah, ela precisava trazer de volta o General Graeff, e para isso ela iria até as últimas consequências.

Chegou até a porta dele e bateu-a, não ouvindo resposta do outro lado. Com apenas um aceno de cabeça dela, o soldado a compreendeu e partiu para tentar destrancar o quarto. Evelyn agradeceu aos céus quando o fecho fez um clique, indicando que a porta estava agora aberta e que Elijah não havia feito nada para impedir mais ainda a entrada e ela não precisaria dos soldados para derrubá-la.

A rainha balançou a mão e dispensou os seus homens, entrando no quarto em seguida. O odor de álcool e suor inundou as suas narinas, além do podre da sujeira espalhada. Evelyn deu um passo a frente e notou os cacos dos vasos espalhados pelo tapete, os quadros quebrados e a cama desforrada, os lençóis e travesseiros arrancados completavam uma bagunça inigualável. Vários pratos intocados de comida também estavam por sobre a pequena mesa, o verde do mofo cobrindo os alimentos pelos dias que estavam ali parados, e apenas as garrafas do vinho estavam vazias e espalhadas pelo quarto.

Varreu o seu olhar por todo o aposento sentindo o seu coração pesar, mas nada havia a preparado para quando seus olhos pousassem em Elijah. Ela ainda não via o seu rosto, estava de costas virado para a janela, seus ombros curvados e as mãos enfiada em seus cabelos. Sentava sem camisa em um pequeno banco, mostrando suas costas douradas e o cabelo pregado em sua nuca.

Evelyn deu mais alguns passos, aproximando-se cautelosamente, sem saber ainda como abordá-lo. Não precisava ver o rosto dele para compreender que o Grande Rochedo estava, na verdade, despedaçado. A sua postura, o ambiente, a reclusão, todos eram sinais suficientes, e Evelyn não sabia o que esperar do embate que viria a seguir, mas estava disposta a usar tudo o que fosse possível.

― O que quer de mim, Evelyn? – a voz dele soou fraca e não precisou olhar para trás para saber que era ela.

A rainha viu as costas dele se moverem para cima e para baixo quando deu um grande suspiro. As mãos dela fecharam-se em punho, enquanto escolhia como abordá-lo. Fazia tempo que havia perdido a habilidade com as palavras, não sabia ser delicada ou compreensiva, isso sempre foi uma qualidade dele e não dela. Sabia dar ordens, mas isso não funcionaria com Elijah.

― Até quando planeja ficar aqui?

A pergunta ficou no ar por alguns segundos, até a voz rouca do guerreiro ecoar e encher o quarto.

― Não se preocupe, não tardarei a ir embora do seu precioso castelo, Majestade – ressoou, erguendo um pouco a cabeça para olhar janela a fora, ainda de costas para ela.

― Não me refiro a isso. Não estou te expulsando daqui – respirou fundo –, não dessa vez... – completou baixinho, não querendo que as lembranças voltassem e piorassem a situação.

― Oh! – Elijah deu uma risada cheia de escárnio. ― Obrigado pela sua hospitalidade, Majestade. – O guerreiro balançou a cabeça, incrédulo.

― Preciso que retome o seu posto como General. Eu o perdoarei pelo desrespeito que teve para comigo se voltar a liderar os homens para a guerra.

― Não.

― Elijah... – Evelyn encorpou mais a voz e deu um passo para frente, respirando fundo e tentando manter a calma. ― Ílac precisa de você, eu preciso de você... – confessou, tentando não mostrar toda a sua vulnerabilidade com a situação.

Elijah virou o rosto imediatamente, seus olhos faiscavam com a raiva que apoderou sobre ele. Fuzilava Evelyn, mas tudo o que ela conseguia ver, era o semblante destruído, as bolsas roxas sob os olhos, as linhas tensas da sua pele e a tristeza exposta por todo o seu ser.

Aquela visão quebrou-a. A culpa invadindo o seu ser novamente. Todos os martírios da vida de Elijah tinham sido causados por ela, Evelyn o despedaçava, era a única capaz de destruir a fortaleza que ele tinha, e não de uma forma boa.

― Você precisa de mim? – o guerreiro indagou lentamente, passando palavra por palavra por sua língua, quase como se não acreditasse no que tinha ouvido. ― Agora você precisa de mim?! – A curva do seu lábio ergueu-se em um sorriso sombrio. ― Mas você não precisou quando decidiu guiar os homens ao ataque suicida, nem mesmo quando tomou a sua decisão sozinha. Não... Você não precisa de mim, só quando eu te apeteço de alguma forma, quando te agrado ou sigo as suas ordens como um maldito cachorro. Você precisa de mim quando quer usufruir do meu corpo, como fez não uma, mas duas vezes após me expulsar daqui. Eu lembro daquela nossa vez na cabana... Ah, como eu me lembro. Fora isso... Pouco lhe importa a minha vida. Sempre foi assim, não é? Um objeto para o bel prazer da Vossa Majestade. Aí depois de tudo você ainda tem coragem de chegar aqui e dizer que precisa de mim? – cuspiu o discurso com rancor, a carne tremendo diante dela.

As palavras dele iam como lanças perfurando a pele de Evelyn. Ela pensava se era isso que ele havia sentido toda vez que ela tentou o manter longe e o afastar. A rainha sabia que Elijah não compreendia nem um terço da história, mas doía, machucava como quando teve seus dedos penetrados pela mãe, no entanto, ainda que ele não segurasse adagas ou pregos, Evelyn sentia uma dor alastrante lhe invadir.

― Nunca foi isso... – murmurou para ele, contendo a vontade de se abraçar e proteger-se da fúria de Elijah.

― Ah, não? Engraçado... Não é o que parece. – O guerreiro voltou o seu olhar para a janela, deixando o silêncio amortecedor pairar no ambiente.

Nenhum dos dois se atrevia a dizer nada, a mulher continuava parada diante das costas do guerreiro, que queria focar a sua atenção em qualquer coisa que a paisagem pudesse mostrar, menos na pessoa atrás de si.

― Vá embora, Evelyn – pediu com a voz arrastada, após não aguentar mais a pressão do ambiente.

― O que quer para retomar o seu posto? Eu faço qualquer coisa – pediu, tentando unir forças para o que havia vindo fazer ali. ― Esqueça que sou eu a rainha, olhe para o povo, eles precisam de você, Elijah.

― Há outros homens competentes no exército.

― Nenhum igual a você – respondeu, prontamente. ― Você quer que eu implore? Me humilhe? Pague penitências pelo o que eu te fiz? É isso? O que quer, Elijah? Diga-me que eu faço – sucumbiu, sabendo que suas alternativas estavam se esgotando.

Elijah virou-se novamente, observando-a. Franziu a testa, porém, não disse nada, mas podia ver a apreensão dela.

― Pare com isso, é patético – retrucou e Evelyn empertigou seu corpo para trás como se houvesse recebido um tapa.

― E você é um covarde – rangeu entre dentes. ― Pelo menos eu estou colocando-me à disposição do meu povo, e você? Está aqui jogado sem fazer absolutamente nada. Bebendo e choramingando como se fosse o único em luto nesse momento, como se fosse o único com direito de sofrer! Quem está sendo patético? – sua voz alterou um tom, deixando a fúria exalar por suas narinas.

Elijah ergueu-se do banco em um ímpeto furioso, fazendo-o cair atrás dele, andou em passos rápidos até encarar a rainha de frente.

― Seu povo? Até onde eu sei você estava sendo uma maldita egoísta que pensou apenas em si, caso contrário teria me ouvido. Você não pensou no povo quando colocou os homens para morrer na armadilha de Medroc. Suas mãos estão com o sangue de muitos homens, incluindo o de Hector, que mesmo sabendo que era suicídio, foi apenas para atender a ordem da Grande Soberana Evelyn Kreigh – zombou e a mulher ergueu a mão para lhe dar um tapa, mas dessa vez, Elijah foi mais rápido e segurou o pulso dela antes que o atingisse.

― Eu sei o preço que paguei e vou carregar esse fardo até o túmulo, mas isso não justifica os seus atos – retrucou com a respiração descompassada, puxando a mão de volta para soltar-se do aperto dele. ― Me redimirei como puder, por isso estou aqui. Ou você acha que eu me rebaixaria a troco de nada? Eu me apresentei disposta até dar-te a vingança pelo que te fiz, desde que não me mate, pode fazer o que quiser, desde que volte ao seu posto e me ajude a salvar o povo de Ílac.

Elijah não sabia a profundidade das palavras de Evelyn, mas a rainha sim, ela sabia do que já havia sido capaz de se submeter para manter a paz até onde foi possível. E, ainda que imaginasse que Elijah jamais lhe pediria o mesmo que Jeffrey, para ela, que havia perdido tudo, nada mais lhe importava.

― Eu não vou tocar em você, Evelyn, isso é ridículo. Ainda que eu esteja te odiando nesse momento, jamais te machucaria, você sabe disso. – Deu um passo para trás, afastando-se dela, sentindo-se ultrajado por ela pensar que ele poderia querer operar qualquer vingança física contra ela.

A mulher sentiu sua bile se retorcer e seus olhos encheram-se de água, ainda que ela não ousasse derrubá-las.

Como queria que tudo na sua vida tivesse sido diferente. Como seria se fosse Elijah o seu companheiro? Se não tivesse Jeffrey ou mesmo Medroc entrado em seu caminho?

O guerreiro passou a mão por seu próprio rosto e olhou para Evelyn, notando uma mulher mais profunda que ele poderia imaginar, no entanto, ele não estava mais disposto a lidar com ela, havia chegado ao seu limite.

― Eu só quero ir embora – suspirou. ― Deixe-me em paz, Evelyn, por favor... Apenas deixe-me. Eu só quero sumir e esquecer que você existiu na minha vida. Eu não posso mais fazer isso.

O guerreiro passou por ela e caminhou até a porta, abrindo-a para que a rainha pudesse sair. Contudo, Evelyn apenas virou o seu corpo na direção dele, permanecendo no mesmo lugar.

― Eu não posso permitir isso – disse com a voz fraca, quase não sentindo suas próprias pernas. ― Ainda que você quisesse, é impossível, estamos ligados até o resto de nossas vidas.

Elijah colocou a mão na testa e respirou fundo, sem conseguir compreender as palavras dela ou mesmo entender a sua teimosia. Fechou a porta novamente para que ninguém pudesse passar e vê-los lá dentro, e caminhou até ela, ao ponto de arrastá-la, se possível, até que pudesse sair dali.

― Lamento, Evelyn, mas creio que está equivocada. Isso termina aqui. – Ergueu a mão para tocá-la, mas antes que o fizesse, a rainha o interrompeu, dando um passo para trás.

― Não posso fazer isso antes de te contar uma história.

Elijah respirou fundo, mas, antes que abrisse a boca, a rainha ergueu a palma da mão, que tremia, em sua direção e começou a falar:

― Uma tarde em uma tenda, dois corpos que se amavam e haviam sofrido uma terrível separação, sucumbiram a um momento de amor – iniciou, clamando com os olhos para que ele não a interrompesse. ― Era o amor mais belo que poderiam ter e por ser tão especial, ele não poderia acabar, ainda que estivessem afastados. Por isso a natureza tratou de fazer por eles o que não podiam, gerando um ser ainda mais especial e lindo, o fruto do amor mais genuíno que esses dois poderiam ter na vida. – Evelyn sentiu seu corpo desfalecendo a medida que narrava.

O coração de Elijah batia forte enquanto atentava-se as palavras da mulher e via os olhos dela inundarem de lágrimas.

― Mas era um segredo que nunca poderia ser descoberto. Aquilo que era lindo poderia ser visto como o terror aos olhos dos reinos, por isso ela soube que precisaria esconder essa verdade magnífica. Houve mentiras e enganos, mas tudo necessário para manter a salvo o fruto que crescia em seu ventre. – Tocou a sua barriga, vendo o rosto de Elijah ficar cada vez mais pálido. ― Muitos caminhos tortuosos foram necessários para guardar o presente que o céu havia lhe dado, mas tudo ficou bem, e ela se tornou uma moça linda e preciosa – completou com um sorriso nostálgico, mas ao mesmo tempo triste, piscando e deixando que as lágrimas rolassem por seus olhos, impossível de serem impedidas.

― O que você quer dizer, Evelyn? – a voz de Elijah estava rouca e enfraquecida, seu punho fechado, as unhas quase tirando sangue da sua palma.

Evelyn inspirou, sem tirar os olhos dele, e finalmente, jogou a verdade tão profundamente escondida.

― Alyssa é sua filha.

O guerreiro cambaleou e deu um passo para trás, enquanto piscava, como se tivesse levado um tiro. Tudo ficou mudo naquele momento, não sentia os seus braços e pernas e precisou se arrastar até a cama para sentar-se antes que sucumbisse ao chão.

― Isso não pode ser...

― Eu não mentiria para você – Evelyn afirmou, sem saber o que esperar agora.

O guerreiro sentia um reboliço dentro do seu corpo, um frio percorria pelas suas veias levando um sangue gelado da cabeça aos pés. Suas mãos tremiam e ele precisou abrir e fechar a mão várias vezes, tentando obter o controle sobre si.

Não podia ser...

Uma filha?

Ele não sabia o que pensar. Era uma informação muito abrupta para conseguir lidar, só conseguia ver as lágrimas descerem pelo rosto de Evelyn, ainda que ela mantivesse a sua pose altiva, como se não estivesse quebrada ali.

Não estava sozinho... Achou que estava tudo acabado, mas tinha uma filha, Alyssa... Como não notou? Mas também... Como notaria? Jamais imaginaria. Ela tinha alguns dos seus traços, a menina tão doce que ele havia dançado e conversado...

Quase curvou a boca para rir ao lembrar do jeito que a garota tinha e dos conselhos que ele havia lhe dado. Ele havia sentido uma conexão com a menina, mas nunca pensaria...

E agora ela estava em Medroc.

O pensamento fez seu estômago embrulhar. Não teve tempo de ficar alegre com a informação, pois logo lembrou-se que a princesa estava nas mãos de Garret. Sua menina, sua filha...

Mirou o chão enquanto a quantidade absurda de informações vinha como choque em sua cabeça. Seu coração acelerava e sentia-se impotente diante daquela descoberta. Ergueu um pouco a cabeça para Evelyn, experimentando uma raiva incomum percorrer sobre ele, ainda maior do que ele sentiu ao saber que Hector havia falecido.

Ele tinha uma filha e foi lhe tirado qualquer chance e oportunidade de ser um pai.

Ela poderia estar morta nessa hora e só o pensamento disso fez com que tivesse vontade de vomitar.

― Você mentiu para mim. – Elijah cravou suas unhas no colchão, segurando-se para não perder a calma.

― Foi necessário – Evelyn respondeu firme, sabendo que não poderia desvanecer diante dele.

― Se tudo isso não tivesse acontecido você algum dia me contaria? – o guerreiro perguntou, recebendo um silêncio em resposta. ― Você é inacreditável. Eu não posso acreditar nisso! – Passou a mão furiosa por seu rosto e depois por seus cabelos.

― Elijah, entenda... – Evelyn deu um passo para frente, mas o guerreiro ergueu-se com ódio e em alta voz.

― Entender o quê?! Eu sempre preciso te entender, mas dessa vez você passou dos limites, Evelyn. Não se trata só da minha pessoa, trata-se de uma outra vida que faz parte de mim e eu tinha o direito de saber! Eu poderia ter feito tanta coisa... Oh, céus, eu poderia ter a protegido. – Fechou a mão em punho e seus olhos encheram-se de água, dando um passo em falso para trás.

― E você queria o quê? – Evelyn exasperou. ― Eu estava prometida a Henrique, ia me casar com ele. Queria que eu fosse correndo atrás de você?! O que poderia fazer? Queria que fugíssemos como dois amantes? Fazer com que dois reinos pagassem por um erro que só cabia a nós! – Ergueu os braços e Elijah avançou furiosamente, seus narizes quase se tocando e o rosto vermelho de raiva.

― Nunca mais chame a minha filha de erro – rugiu lentamente diante dela e depois se afastou.

― Não é o que eu quis dizer, Elijah – Evelyn explicou-se, sem baixar a cabeça nenhuma só vez e contendo a emoção de ouvir pela primeira vez Elijah verbalizar aquelas palavras.

"Minha filha"

Quantas vezes sonhou que estivessem em um outro universo e ele falaria isso em um contexto bem diferente.

― O ponto que eu quero chegar é... – Pigarreou e prosseguiu. ― Nós sabíamos que não deveríamos nos envolver, mas ainda assim o fizemos. Fomos cuidadosos até aquele dia. Não me arrependo, Elijah, mas até o fruto mais bonito dessa terra tem consequências.

― Mas eu fui o único a pagar por elas. Eu e a minha filha – o guerreiro completou.

― Nossa – corrigiu-o.

Como era saboroso essa palavra, mas ao mesmo tempo avassalador.

― Eu só descobri depois e eu jamais a tiraria. – Evelyn espremeu os olhos, como se até a mísera possibilidade lhe doesse a alma. ― Preferi lidar com as consequências. Tive dizer a todos que era de Henrique, apesar dele nunca ter me tocado. Como ele morreu, Jeffrey assumiu-a e casei-me com ele para manter a aliança.

Elijah não sabia como aquelas informações poderiam cravar uma ferida tão profunda em sua alma. Alyssa era dele, mas para todos, ela carregaria qualquer sobrenome, menos o do pobre órfão que entrara no exército. Aquilo lhe dava nojo, todas as mentiras, tudo o que tinha que se submeter e que haviam lhe arrancado.

― Diga-me, Elijah, o que eu poderia fazer? Lhe contar só causaria mais sofrimentos, se alguém descobrisse, seria a morte de todos nós. Quem me garantiria que você aguentaria vê-la de longe, deixar outro homem assumir um papel que deveria ser seu?

― Não sei, Evelyn, você não me deu a oportunidade, como eu poderia saber?! – cuspiu contra ela, agarrando o próprio cabelo e puxando-o para trás.

Aquela era a pior ferida que a mulher a sua frente poderia causar-lhe. E quando ele pensava que ela não podia machucá-lo mais, Evelyn provava o contrário.

― Eu não podia arriscar! – Evelyn exclamou quase gritando, os olhos embargados.

― Ainda assim... – Elijah franziu o cenho, descrente. ― Você teve todas as oportunidades... Todas! Jeffrey morreu, eu estava aqui, haviam ameaças, ela foi levada... Ainda assim você não me contou – recitou os pontos lentamente com sua voz grave.

― Achei que poderia ficar contra mim, abandonar o posto e a guerra, eu não poderia adicionar complicações. Eu precisava de você inteiro para a função que tinha que exercer.

― E ainda assim, aqui estamos nós, não é? – Elijah ergueu a sobrancelha, a boca tremendo e as lágrimas quase caindo por imaginar o que a menina poderia estar passando em Medroc. ― Como eu lhe disse antes.... – Elijah pigarreou, tentando se recompor. ― Eu sempre fui apenas um objeto usado por você.

― Elijah, não... – Evelyn deu um passo temeroso, as lágrimas voltando a escorrer por sua face.

― Você é tão egoísta. Sempre tentou fazer as coisas sozinha, nunca me deu a oportunidade, você só veio até aqui porque era a sua última instancia, não tem mais ninguém! Sabe que eu sou a única pessoa confiável perto de você, nunca foi por mim. Que se dane se eu tinha uma filha no mundo, dane-se que eu talvez nunca soubesse dela, não é? Mas você precisava dos meus serviços, então, aqui estamos... Eu fui tão estúpido! – Elijah tampou os olhos com as mãos. ― Quer saber, Evelyn? Você pode ser a pessoa mais forte que eu conheço, mas ninguém é imbatível, até as maiores pessoas precisam de ajuda e apoio de vez em quando. Você não é autossuficiente, eu estava do seu lado o tempo todo, mas você não quis. Você preferiu agir só. Agora vai ter que lidar com as consequências disso.

Evelyn passou a mão por suas bochechas, respirando fundo e enxugando as lágrimas, recriminando-se por ter se mostrado tão frágil diante dele, mas era impossível tocar nessa ferida tão profunda sem quebrar de alguma forma.

― Elijah, você não vai fazer nada? Vai abandonar esse barco, deixar Ílac só e Alyssa lá? Pouco me importo se me odeie, faça o que quiser, mas não posso acreditar que depois de tudo você vá simplesmente embora! – falou, ainda que fosse uma frase carregada de mentiras.

Claro que ela se importava, nunca gostou de carregar o ódio de Elijah, sentia falta da época que recebia unicamente amor dos seus braços.

Elijah caminhou até a cômoda ao lado da sua cama e pegou a sua espada que estava ali em cima. Olhou para ela por alguns instantes e depois virou-se para Evelyn com os olhos escuros e frios.

― Diga aos homens que o General Graeff está de volta. Marque uma reunião daqui uma hora, precisamos montar os planos de ataque. – Colocou a espada de volta a cômoda. ― Eu vou trazer a minha filha de volta e depois acabou. Você é a Rainha Evelyn Kreigh para mim e eu o General Graeff para você. Eu vou matar todos aqueles que tocarem num mísero fio de cabelo da minha filha, trazê-la a salvo e depois, é o fim. Eu não quero mais falar com você, nem mesmo respirar o mesmo ar. Eu te odeio Evelyn, como nunca pensei que pudesse odiar alguém. Farei o que deve ser feito, mas não espere mais nada de mim – falou enquanto seu peito subia e descia freneticamente.

Evelyn travou seu maxilar e apertou as mãos em punho ao lado do seu corpo, balançando a cabeça em concordância.

― Já pode ir, Majestade.

Evelyn deu as costas para Elijah, abriu a porta com força e deixou-a bater atrás de si, encostando as suas costas nela em seguida. As últimas lágrimas que havia segurado, desceram como uma torrente de águas quentes por suas bochechas e a única coisa que ela conseguiu sibilar com um movimento de boca foi: "Me perdoe".


Notas Finais


Gente, só eu que tô sem ar aqui???

Vocês não tem ideia de quanto tempo eu escrevi isso e tive que ficar segurando porque não chegava nunca o capítulo que ele devia ser postado? hahaha

Eu não sei explicar para vocês como foi escrever essa cena, os personagens me tomaram por completo e eu não conseguia controlar as emoções de nenhum dos dois.

Esse momento foi O momento mais esperado da história até aqui, e por mais que eu entenda a Evelyn, eu também não tinha como podar toda a revolta que o Elijah sente dela nesse momento. Porque, colocando na situação dele, que não sabe merda nenhuma do que aconteceu, não tinha como ele agir diferente.

Ele não sabe que a Evelyn expulsou ele para o proteger, ele não sabe tudo que ela teve que passar nesses anos distantes para esconder o segredo e para tentar manter a paz por Medroc. E ainda que hoje Elijah esteja na vida dela novamente, foram 18 anos né mores? 18 anos que a Evelyn teve que lidar com tudo isso sozinha, 18 anos que ela não via Elijah mais e nem sabe como é esse novo homem que está de volta na vida dela. Não dava para ela simplesmente chegar e contar uma bomba dessa, sem pensar nos riscos da revelação.

Uma situação difícil porque eu defendo os dois e dou razão para os dois kkkk Porque se for para escrever sobre situação fácil, a gente nem escreve kkk

Próximo capítulo vai estar mais tranquilo, teremos uma pré-preparação para a grande batalha. A Guerra final está vindo e será só tiro, porrada e bomba! Ou melhor, espada, porrada e bomba kkk

Aguardem!

E não deixe de me dizer o que acharam porque a autora aqui tá se coçando por feedbacks! hahaha

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