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História Trupe dos Cuecas Pretas - Capítulo 2


Escrita por: e _shu


Notas do Autor


#ANNILLIEImmaKickItLikeBruceLee: e hoje também é outro O Grande Dia!! Dia de capítulo dois, apresentação de personagens e ainda mais comédia ainda mais radioativa.
Hoje também é dia de dizer que nós (provavelmente) decidimos a @sexta-feira como o dia oficial de postagens, então regulem seus coração toda quinta à noite.



E com um banner digno de capa de DVD falso da feirinha de rua, vocês ficam agora com o capítulo dois >.>

Capítulo 2 - EP2: A entrada triunfante das caipiras


Fanfic / Fanfiction Trupe dos Cuecas Pretas - Capítulo 2 - EP2: A entrada triunfante das caipiras

Com um suor nervoso escorrendo atrás da orelha e o peito subindo e descendo da cobrança do sedentarismo pelo mínimo exercício físico que era se divertir numa dança inocente, as texanas sentiram o coração nos ouvidos quando, depois de alguns bons minutos de curtição na casa nova, viraram-se para fazer um passinho em conjunto da coreografia e enxergaram aqueles dez olhos puxados que sequer piscavam, encarando-as de volta.

Elas poderiam ter tomado um momento para analisar as figuras masculinas altas e desconhecidas, mas um dos elementos abriu a boca para perguntar algo em uma voz assustada, esganiçada, algo que elas não conseguiram entender.

A verdade é que cada uma delas engoliu em seco, porque, nesta história mal contada, as assustadas eram elas.

Annie puxou os dedos para dentro das mangas do casaco denso de frio e Allie sentiu todo o pescoço arder em vergonha, perguntando-se há quanto tempo estavam sendo observadas.

— Bem, hmm... — Trocou um olhar com a mais nova, que parecia petrificada — Kudasai?

Eram cinco garotos, mas só quatro expressaram algum som de desentendimento após a fala da texana, porque o outro, com uma careta amedrontadora, encarava diretamente a ponta do nariz de Allie, ela podia jurar. 

Sentindo o incômodo da melhor amiga viajar em ondas até seu corpo, Annie, com dedos dos pés se enrolando dentro das botas altas e queixo se erguendo pouco a pouco numa tentativa de mostrar que estava ali para ficar, pigarreou tão alto quanto podia.

— Alguém aqui fala inglês?

O esguio — e por isso aparentemente baixote —, de cabelo espetado em um topete, quem estava encostado na parede contrária a das garotas, deu um passo à frente.

— Quem são vocês?

Por baixo das sobrancelhas carregadas de seriedade, da boca apertada numa linha fina e dos braços retorcidos em uma pose máscula, Allie quase viu um lampejo de contornos infantis no rosto do rapaz.

Annie, pelo contrário, assistiu uma série de cenas de sua vida passando bem em frente aos seus olhos; se algum dia já havia visto pessoas mais assustadoras, tentava se lembrar. O máximo de adrenalina que já tinha sentido até aquele exato momento era fugir de uma manada correndo livre e sem controle pelas ruas da pacata cidade onde viviam, ou talvez vigiar uma das inúmeras serpentes que invadiam a casa de sua avó até que o xerife chegasse. Nada, em qualquer ocasião que buscasse, jamais a tinha dado tantos avisos de "Tiro no próprio pé!!!" quanto falar seus nomes para aqueles cães raivosos.

Mas Allie não parecia compartilhar a mesma sensação.

A mais velha bateu a ponta da bota num gesto de cumprimento — um costume das bandas de onde tinha saído —, apertou os olhos miúdos em conjunto a um sorriso gentil e estendeu ambas as mãos cobertas por luvas para aquele que continuava encarando a ponta do seu nariz. Algo naquele olhar inexpressivo a dava a impressão de que ganhar o respeito do rapaz era ganhar o respeito do todos os outros.

— Olá! Sou Allie Kim e essa aqui é minha confidente, Annie Go. Qual o seu nome?

E todo mundo esperou.

Esperou.

Esperou.

Esperou.

Até que a resposta veio:

— Hm? — Seguida de um franzir de cenho e um aperto de duas mãos bem mais rude do que o esperado.

Allie achou o garoto muitíssimo bem educado e apertou de volta as mãos dele, que claramente segurou um gemido de desconforto.

— O nome seu, uai! Como se chama?

O mais à esquerda, aquele mesmo topetudo, deu outro passo à frente.

— Acho melhor falar comigo. — Ele disse, misterioso.

— Por quê? — Annie quis saber. Estava exaustivamente tentando conversar com Allie por telepatia. Se aquele lugar não tratasse de parecer um tiquinho mais aconchegante, convenceria a amiga de que ficariam bem melhores dormindo no banco de uma praça.

— É que talvez vocês não tenham se tocado, mas estamos no Japão. Nem todo mundo sabe falar inglês.

— Mas você sabe?

— Eu sei.

— E eles não sabem?

— Sabem um pouco, mas com esse sotaque horroroso de vocês...

As duas garotas respiraram fundo, olhando uma para outra numa espécie de lamentação pelo insulto ao seu modo de falar.

— O que vocês estão fazendo aqui?

— Espere aí, espere aí, é a sua vez de fazer as apresentações. — O garoto tentou um olhar mortal, mas cedeu ao encarar o sorriso bobo que ainda pendia dos lábios da tal de Allie Kim.

— Tudo bem — suspirou. — Eu sou o Mark. Esses são Yuta, Taeyong, Doyoung e Donghyuck. — Ele apontou respectivamente para os que se seguiam ao lado.

Olhando dali, Allie percebeu, aquela posição parecia pose de heróis de anime shounen.

Os ouvidos da mais nova coçaram ao ouvir o nome Donghyuck e se lembrar do alerta da mulher de mais cedo. Se quisesse um pouco de paz — e alguns bons dias sem estar bem próxima de um surto —, sentiu que precisava se manter longe do garoto. Se analisasse por um segundo, perceberia como o danado tinha olhos de gato.

E Annie odiava gatos.

Eram péssimas as experiências que tinha com aqueles bichos terríveis, desde arranhões nas canelas até seríssimas crises de alergia.

De uma forma ou de outra, preferia se manter longe — dos animais e do menino.

— É um prazer conhecer vocês. — Do pouco que conheciam sobre a cultura dos ancestrais orientais, as garotas ofereceram uma curvatura de meio corpo.

O companheiro Mark não ofereceu educação nenhuma, só voltou a perguntar:

— O que vocês estão fazendo aqui?

— Câmbio internacional.

— É, Intercâmbio. Somos do Texas. — Allie corrigiu a amiga, compreensiva. Essas palavras mais chiques não eram usadas com muita frequência no Texas, então era difícil de as manter frescas na ponta da língua.

— Viemos terminar o Ensino médio.

— E conhecer Hokkaido.

— É, e conhecer Hokkaido.

— É uma história muito engraçada, sabe? A gente achou que nunca teria a oportunidade de vir para o lado de cá do globo e quase não acreditamos quando recebemos essa proposta tão, tão, tããããão boa. — Allie riu.

— Sim, ficamos três semanas tentando entender tudo o que estava acontecendo antes de assinar o acordo que oficializava nossa pousada aqui.

— É.

Mark voltou a cruzar os braços, inclinando o corpo para frente para se divertir com o vislumbre de desentendimento no olhar de cada um dos colegas de clube.

— Mas o que estão fazendo na casa?

— É outra história muito engraçada, sabe? — Dessa vez foi Annie quem começou, um tanto mais habituada com o ambiente depois de começar a ignorar os rapazes que continuavam calados. — A gente não tinha dinheiro para pagar o táxi, porque a gente tinha gastado tudo pagando o avião, a canoa e o ônibus.

— E porque a gente comprou comida japonesa.

— É, yakisoba é uma coisa muito rara de se conseguir!

— Yakisoba? — O rapaz logo ao lado, de cabelo metade preso num rabo de pônei torto e metade jogado no rosto, fez uma expressão muito engraçada. Seu nome era Yuta, se bem se lembravam.

— Espere aí, vocês gastaram dinheiro comprando yakisoba na primeira oportunidade que tiveram só porque no Texas não tem esse tipo de coisa?

— Sim. — Annie riu, feliz pela comida do almoço.

— Mas vocês estão no Japão. — Mark voltou a intervir, descrente. — Vocês poderiam comprar yakisoba em qualquer outro momento depois de pagar o táxi.

Foi um silêncio constrangedor que se instalou por ali, parte porque metade das pessoas nem sabia o que se passava e parte porque as garotas estavam meio envergonhadas, agora que tinham parado para pensar.

— Bem, se a gente não tivesse gastado o dinheiro, a gente não estaria aqui agora mesmo. — Allie tentou argumentar — Como a gente não tinha dinheiro, o homem do táxi falou que tinha um lugar para nós ficarmos.

— E vocês aceitaram?! — Sim, Mark queria, sim, bater a cabeça na parede, obrigado por perguntar!

— Aceitamos, ora! O que mais a gente ia fazer?

E então elas soltaram algumas risadinhas nervosas, meio desesperadas, porque, de repente, parando para pensar um pouco, seria horrível se seus pais recebessem uma ligação afirmando que as filhas haviam desaparecido logo no primeiro dia de estadia num país tão distante.

O topetudo esfregou as têmporas.

— Olha, eu não sei quem autorizou vocês a ficarem e nem como vocês não precisaram prestar algum boletim de ocorrência do Texas até aqui, mas precisamos resolver alguns problemas agora mesmo. Só esperem um minuto.

Com suas mãos fazendo uma série de movimentos que pareciam algum tipo de chamado secreto, Mark, Yuta e os outros três garotos de nomes complicados se enfiaram todos para além de uma das três únicas portas visíveis da sala.

As garotas se olharam, o suor frio voltando a dar as caras.

Moveram-se com cautela, desta vez. Nada de passos de dança ou música alta antes de analisarem milimetricamente cada uma das tábuas de madeira do chão, que pareciam tão velhas e podres quanto o tecido do sofá onde se sentaram, ambas com a busanfa apoiada na beirada, porque tinham um medo louco de que fossem engolidas pela mancha verde e escura que tinha no encosto.

Trocaram mais um olhar antes de, como se fosse combinado, andarem nas pontas dos pés até a porta que os garotos tinham acabado de fechar. Colaram os ouvidos na madeira, ouvindo um monte de chiado e alguém fazendo rap. Só esperavam que aquele não fosse o idioma local, porque era rápido demais.

Com receio de serem pegas, logo voltaram a ocupar o sofá imundo.

— Você acha que a gente devia fugir? — Annie perguntou, apertando os dedos ainda escondidos dentro da manga do casaco.

— Sinceramente? — A outra balançou a cabeça repetidas vezes em concordância. — Acho que vai dar tudo certo.

Sorriram uma para a outra. Tinham um lema desde criança que dizia que, se estivesse juntas, poderiam passar por cima de qualquer coisa.

O lema, entretanto, foi por água abaixo assim que os cinco moradores voltaram para a sala, todos enfileirados à frente, na mesma ordem de antes, o que quase confirmava a teoria de que era uma pose de heróis de anime shounen.

— Precisamos dividir os quartos.

— Nós duas dormimos no mesmo cômodo — disseram juntas.

— Não são vocês que decidem isso. — Mark piscou o olho como um lunático.

E então os cinco fizeram biquinho e começaram a papear de novo, sem nem se importarem em esconder algo das garotas. Era para lá de óbvio que elas não entenderiam nada, na verdade.

Incomodada com a possibilidade de se separar da melhor amiga,  Kim Allie se prontificou à distração, espiando a casa por cima dos ombros. Dali do sofá-podridão, sua visão era atacada pelo mofo que subia até o teto no canto direito da sala, bem atrás da televisão de última geração e perto do balcão que dividia o cômodo da cozinha americana. Além do mofo atual e das manchas enormes de mofos passados, a tinta da parede estava craquelando, e Allie tinha certeza que precisariam manter as janelas fechadas ou a menor brisa poderia fazer aquele cinza-vômito esfarelar até o chão e deixar o gesso da parede todo à mostra. Resolveu rolar os olhos para outro canto.

Não pode ser isso, não é?, ela pensou, mas, sim, era, era isso mesmo: um cueca preta pendurada no cabideiro ao lado porta. Não tinha reparado antes quando entrou no apartamento, mas agora, virando o rosto para outro lado na tentativa de não invadir a privacidade dos garotos, porque Eles moravam sozinhos, afinal. Não posso cobrar nada, percebeu que aquelas coisas estavam por todos os lados. Tinha uma cueca no mármore da cozinha, logo ao lado da pia; cueca no criado-mudo ao lado da televisão; cueca bem ali, debaixo da mesa de centro, pertinho das suas botas; cueca pendurada na maçaneta de uma das portas.

Balançou a cabeça várias vezes, tentando dispersar todos os cenários agoniantes que sua imaginação tentava oferecer, onde se via dormindo numa cama cheia de cuecas ou achando cuecas dentro da geladeira, do vaso do banheiro, das malas de viagem…

Ouvindo um estalar de dedos, concentrou-se em Mark, que tinha as sobrancelhas quase em pé.

— Nós dividimos os quartos — avisou.

— E como ficamos? — Annie perguntou, não sabendo se ficava nervosa ou esperançosa.

— Antes de qualquer coisa, vocês precisam saber que nunca, em hipótese alguma, vocês devem entrar no quarto do nosso líder, Taeyong.

— Líder? — Elas perguntaram em uníssono.

— Nunca! — Taeyong falou.

— Nunca! — Os outros quatro repetiram.

— Estamos entendidos? — Não é como se Mark tivesse paciência para esperar uma resposta. — Vocês estão vendo que tem três portas, não é? Na do meio, Annie vai dormir. Naquela última, perto da cozinha, é onde a Allie vai ficar. Se vocês colocarem os pés perto da primeira porta, vamos ter problemas sérios. — E ele dizia isso com um olhar de gente perigosa.

As garotas não se deram o trabalho de ouvir a última parte.

— Que gentil! — A mais velha sorriu — Mas e vocês, onde vão dormir?

Mark riu.

— Como assim? — E um segundo de silêncio se passou antes que ele estalasse os dedos uma outra vez. — Vocês estão achando que vão ficar com um quarto só para vocês?

— E não é isso? — Annie se lembrava do aviso da dona da casa, que havia dito que teriam que dividir quarto com outras pessoas, mas pensou que, talvez…

— Óbvio que não. Foi uma decisão muito difícil, mas, Allie, você vai dividir quarto com o Yuta. O Taeyong continua com o quarto dele e o restante continua no quarto do meio. Não tem nada demais.

E quando Allie tentou pegar suas malas, Yuta resolveu intervir. Ela não entendeu nada do que ele tinha dito — talvez fosse ele o tal rapper —, só deixou que ele pegasse as bagagens por ela, ignorando as lufadas de ar que o garoto soltou por não esperar que fossem tão pesadas. De fato, Allie não conseguiria prestar atenção em qualquer outra coisa que não fosse a única cama de casal logo no meio do quarto. 

— Lasqueira...

Ela deu algumas voltas ao redor da cama, conferindo se não tinha nenhuma passagem para algum subsolo ou sótão, porque, bem, ela estava acostumada a dormir com os irmãos, mas ela não podia dividir a cama com um cara desconhecido, não é? E se ele babasse no travesseiro? Se ele se mexesse, chutasse suas pernas, roubasse o cobertor? E se ele tivesse pulgas? O que ela faria com as pulgas??? No Texas tinha bastante piolho de cobra, mas nada pulgas!

 

Céus, e se fosse um pervertido?

 

A garota passou como um foguete pelo rapaz que ainda lutava para arrastar as malas para dentro do quarto, quase marchando até Mark, que ainda estava no mesmo lugar.

— Encontramos um problema. — Ela relatou, penosa.

— Encontramos um problema assim que vocês duas pisaram nesta casa, mas, fala aí, o que é?

Ela fingiu que não ouviu a primeira parte quando disse:

— Tem uma cama de casal no quarto.

— E daí?

— Eu não posso dividir a cama com um garoto.

— E o que você quer que nós façamos a respeito disso? — Ele inclinou o corpo para frente, erguendo as sobrancelhas. Ela arqueou as sobrancelhas de volta, quase fazendo com que elas chegassem à linha do cabelo.

— Talvez… vocês tenham um colchonete?

— É, talvez… — Ele jogou o corpo para trás e Allie prestou muitíssima atenção, tentando perceber se a mancha verde do encosto engoliria o rapaz ou estava tudo bem em encostar nela.

Enquanto isso, no cômodo ao lado, Annie sentia o coração disparar.

— Onde eu durmo? — Ela perguntou pela décima terceira vez, alto e devagar. Com Mark não presente, dois dos garotos com quem dividiria o quarto, incluindo o indesejável Donghyuck, apenas a olhavam das botas até o cabelo desordenado, fazendo caretas sérias e intimidadoras.

Dos dois beliches do quarto, o mais atrativo parecia ser dormir no chão. Primeiro que o chão parecia muito mais bem arejado do que os colchões, e já paramos por aí, porque a garota tinha uma rinite alérgica que atacava por qualquer motivo e em qualquer lugar.

Segundo, ela só não queria encarar, mas a única cama que não parecia estar sendo ocupada era uma da parte de cima, sem lençol, sem travesseiro, sem cobertor.

Sua cara desapontada e desesperada denunciava o quanto ela queria sua cama, no seu quarto, na sua casa, no Texas.

Quando ia desistir e colocar suas malas em cima do colchão habitado por um punhado de ácaros, Mark entrou no quarto com uma cara de poucos amigos e chamou um dos garotos. De um minuto para o outro, tiraram o beliche desnudo e levaram para fora do quarto, preenchendo o lugar vazio com uma cama de casal que tiraram de algum lugar.

Piorou foi tudo, foi o que ela pensou, analisando o rosto de todos os presentes e percebendo que ela não era a única que não esperava por aquilo.

— Onde eu durmo? — Voltou a perguntar, cada vez mais lento e alto.

Como se de repente tivessem entendido o que ela disse, os garotos se viraram um para o outro e não saíram de lá até alguém perder no jokenpô. Choramingando, o mais alto saiu do quarto e voltou com um par de cobertores, lençóis e travesseiros, jogando tudo na cama de casal e se jogando em seguida. O mais baixo, meio pulando, meio rindo, ia se jogar no beliche de baixo se Mark não tivesse voltado e puxado sua orelha.

No fim, depois de um monte de coisas que Annie não tentou mais entender, ela sentia um frio na barriga por estar ali, deitada na cama de cima do beliche, logo acima do único garoto que entendia algo do que ela falava mas que parecia sempre de mau humor, encarando, do outro lado do cômodo, os outros dois companheiro de quarto, que se batiam em cima da cama de casal. Não devia nem passar das oito, mas se todos estavam indo se deitar, ela também iria. Logo, tirou as botas, pendurou o casaco pesado na cabeceira da cama e se ajeitou no colchão.

Quando fechou os olhos e virou para o lado, experimentando o travesseiro murcho e com cheiro de poeira, sentiu algo cutucando suas pernas. Sentiu o corpo inteiro arrepiar e se inclinou mais para perto da parede, tentando ignorar os cabelinhos eriçados. Queria esconder os tornozelos debaixo de uma colcha bem grossa e párea aos ataques de espíritos malignos, mas a única coisa que a tinha sido oferecida era o travesseiro, onde, agora, afundava o rosto.

E então, para piorar, sentiu uma mão puxando seu calcanhar.

Foi inevitável soltar um grito esganiçado, principalmente quando olhou para os próprios pés e tudo que viu — culpa da visão meio embaçada que sempre teve (uma frescura, se quer saber, mas alguns chamam de miopia) — foi um vulto a fitando.

— Vocês não tomam banho no Texas?

Era Mark, ela constatou depois de alguns outros instantes de pânico genuíno. Soltando um suspiro baixo de alívio, ela se sentou, bagunçada e com cara de susto.

— Banho? — Ela repetiu, tentando raciocinar.

— Meu Deus — Ele franziu a testa. —, vou morar com porcos.

— Não é isso! — Ela resmungou, passando a mão nos olhos — É que eu esqueci onde fica o banheiro e vocês já estavam indo dormir.

— Indo dormir? Até parece. — O garoto soltou algo que parecia uma risada debochada, Annie não saberia afirmar. — O banheiro é ali, naquela porta.

— Ah… — Foi tudo o que ela conseguiu falar, observando enquanto o topete do rapaz sumia para fora do quarto.

Ela suspirou de novo, desceu de onde estava e arrastou a mala para dentro do semi-desconhecido banheiro.

Era um cômodo grande, precisava reconhecer. Quando o tinha visto mais cedo, não havia reparado muito, mas agora era como se um aviso da Organização Mundial da Saúde dissesse: "NÃO SE APROXIME! PERIGO DE LEPTOSPIROSE IMINENTE!". 

Seu cérebro absorvia cada informação, mesmo que nem todas fossem agradáveis, como, por exemplo, o buraco na parede bem no lugar onde deveria existir um chuveiro. Ao invés de tomar um banho rápido, ela seria obrigada a tomar um banho naquela banheira enorme, amarelada e com arranhões que pareciam ter sido feitos por animais, embora ela não tivesse visto bicho nenhum até aquele momento. O vaso sanitário não tinha tampa, assim como o armário embutido onde ficavam as escovas de dente, o que significava que milhares de milhões de materiais fecais e bactérias voavam direto para os objetos de higiene bucal a cada descarga dada.

Ugh. 

Ela sentiu um calafrio subindo sua espinha.

Deixou a mala no canto da porta e ia começar a tirar a roupa quando uma lâmpada vermelha iluminou sua cabeça. Começou a trancar porta por porta. Na última, entretanto, sentiu a madeira batendo direto na testa.

— Ai! Merda!

— Annie?!

— Allie?!

As duas tomaram um momento para se encararem antes da mais velha correr para dentro do cômodo e trancar a porta atrás de si.

— Meu Deus…

— É…

Elas não falaram mais nada; não precisavam falar, afinal. Encheram a banheira, tiraram a roupa e ficaram com medo daquela água quase radioativa em contato direto com suas peles, mas sorriram por não sentir os joelhos se esbarrando.

— Você ainda ter certeza de que vai dar tudo certo? — Annie afundou mais ainda na água, sentindo um desconforto ao imaginar que haviam cinco pessoas atrás daquelas portas que podiam ou não estar tentando espiar o banho delas.

— Provavelmente? — Allie sentiu uma ligeira vontade de experimentar aquela água, um costume vindo do interior, onde se prova tudo que não se conhece, mas achou melhor não. — Se prestar bastante atenção, tudo deu certo.

— Eu estou dormindo num beliche bem em cima de um cara que eu não conheço.

— Eu vou dividir o quarto com um garoto que de tudo o que a gente falou só entendeu yakisoba. Escute, vamos ficar bem, sim?

— Hm…

As duas suspiraram, se jogando contra as bordas da banheira. Depois de alguns minutos de mais silêncio, já estavam prontas, de cabelo seco e roupa quente, principalmente agora, à noite, quando o termômetro batia nos temerosos vinte e cinco graus. Cada uma saindo do seu respectivo quarto, acabaram na sala, onde os cinco garotos comiam alguma coisa extremamente cheirosa, todos sentados na mesa de jantar.

Donghyuck — Allie se esforçou para lembrar  nome — não disse nada, só apontou para a cozinha. As garotas ainda não tinham noção, mas a cozinha não tinha um fogão, e sim um fogareiro de duas bocas. Sobre o fogareiro, uma panela cheia de yakisoba. Elas se entreolharam, felizes, mas toda essa comoção se esvaiu quando não encontraram pratos.

— Alguém pode me dizer onde ficam as louças?

— Ah, na verdade… — Annie conseguiu ver Mark engolindo um monte de macarrão de uma vez. — Vocês vão ter que comer na panela. Ninguém esperava a vinda de vocês. — Ele não pediu desculpas, a garota reparou.

E lá estavam elas, sentadas na ponta da mesa, as cadeiras coladas colocando ambas bem no centro do campo de visão de Taeyong, que não se importava em parar de comer por um instante se isso significasse que poderia colocar medo em menininhas estrangeiras.

O que ninguém esperava era que elas comessem toda a comida da panela. Bom, você aprende a se virar quando tem que dividir a refeição com todos os seus irmãos em um almoço de família.

Mais alguns minutos depois e estavam todos acomodados em seus quartos, os garotos meio alheios à presença das invasoras e as invasoras cautelosas e desconfiadas de qualquer movimento muito brusco. A verdade é que ali, deitada na parte de baixo do beliche que substituía a antiga cama de casal, Allie não conseguia dormir.

Na ponta dos pés descalços, impulsionou o corpo para fora da cama. Por cima dos ombros, observou o amontoado de cobertores no colchão que ficava abaixo do seu e se esforçou para fazer o mínimo barulho possível ao abrir a porta, visando não acordar o colega.

Caminhou silenciosa como o filhote de coiote que uma vez tentou adotar, avistando, mesmo na penumbra, a cabeleireira desordenada que Annie carregava na cabeça. Elas tinham aquele tipo de conexão inexplicável, como a sensação que as fazia se encontrarem no meio da noite sempre que a insônia batia. Allie se sentou no sofá, logo ao lado da amiga, que sorriu para ela. A mais nova até abriu a boca para falar algo, mas um ruído esquisito fez eco pelo apartamento.

— O que foi isso? — perguntou. Era a mais medrosa da cidade natal, todo mundo sabia.

— Eu não sei. — Mas não é como se Allie ficasse muito atrás.

Pé ante pé, ela se levantou e tateou todos os cantos das paredes, tentando achar qualquer interruptor que fosse. Quando finalmente uma luz se acendeu, a cozinha clareou e dois gritos agudos foram ouvidos por toda a cidade de Sapporo.

— Yuta?! — Foi tudo o que Allie conseguiu pronunciar antes dos orbes se arregalarem e suas mãos correrem para cobrir os olhos da amiga, que estava petrificada.

— Oi! — O rapaz cumprimentou, terminando de tomar o copo d'água como se não se incomodasse de estar completamente sem roupa na frente das novas moradoras.

— O que você está fazendo??? — Allie era pura tremedeira. Nunca imaginou que seus olhos perderiam a pureza numa ocasião daquelas.

— Eu costumo ficar com sede de madrugada. É uma coisa bem comum aqui no Japão, eu acho.

— Desde quando você entende o que a gente fala? — Annie perguntou, confusa e assustada e ainda sem enxergar nada com a amiga tapando sua visão.

— Eu sempre entendi. Aliás, vocês não deviam confiar muito no Mark. Ele é muito bom em mentir. — Aí ele piscou, enxaguou o copo na pia e voltou para o quarto, como se nada tivesse acontecido.

As meninas colocaram as mãos sobre os peitos ao mesmo tempo, sentindo o pulsar acelerado dos corações.

— Eu... acho que vou... dormir… — Annie levantou como um furacão e seguiu para o quarto, sem se tocar que a amiga nunca teria coragem o suficiente para voltar para o próprio dormitório quando sabia que tinha alguém nu lá dentro, e pior: que ela tinha visto a mencionada nudez.

A mais velha se acomodou no sofá, engoliu em seco, puxou as pernas para cima do estofado, ouvindo os comerciantes gritando do lado de fora. Naquela noite, dormiria na sala.

 


Notas Finais


até sexta-feira ÒwÓ


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