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História Ugly Heart - Capítulo 2


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Notas do Autor


♛ todos os capítulos vão oscilar entre a Andy e o Jeonghan. boa leitura, anjos!

Capítulo 2 - Capítulo 1: Os dias de cão acabaram


Fanfic / Fanfiction Ugly Heart - Capítulo 2 - Capítulo 1: Os dias de cão acabaram

── 1 ── 

Os dias de cão acabaram, e os cavalos estão chegando

É melhor você correr. Corra rápido pela sua mãe, corra rápido pelo seu pai

Corra rápido pelos seus irmãos, deixe todo o amor para trás

Você não pode levar consigo se você quiser sobreviver 

Os dias de cão acabaram e os cavalos estão chegando 

Você consegue ouvi-los? 

── DOG DAYS ARE OVER - Florence + The Machine 

 

 — Você só pode estar brincando comigo.

Eu arranco o papel muito bem depositado no para-brisa do meu carro e releio mais uma vez. Tudo nesse simples pedaço de papel já diz muito bem com o tipo de pessoa que estou lidando: para começar, o papel foi colado com dois pedaços perfeitamente cortados de fita adesiva e posicionado de forma reta bem no canto do para-brisa do meu carro. No lugar onde os carros costumam receber multas, como se essa mensagem fosse uma espécie de uma. Sem nenhuma, sem nenhuma linha torta, sem qualquer região manchada de tinta preta; o papel não é arrancado porcamente de um caderno, na verdade, é um papal perfeitamente quadrado sem nenhum amasso. Estou lidando com um sociopata, é a única explicação. 

Para começar, quem carrega consigo um rolo de fita adesiva? Se não estou lidando com um dono de papelaria ou um empresário articulado e organizado, então quem em sã consciência traz em seus bolsos uma caixa de papéis quadrados em forma de post-it (observação: obviamente não é um post-it), e rolos de fita adesiva? Eu olho ao redor, tão desconfiada como se estivesse prestes a encontrar um vendedor de drogas secreto, mas é apenas para ter certeza de que não estou naqueles tipos de pegadinha de TV à tarde. No processo, acabo descobrindo que também não há nenhuma papelaria por perto. Como disse, um sociopata. 

— Foi o que eu disse! 

Riley diz à guisa do cumprimento. Estou dizendo cumprimento porque estou admitindo silenciosamente que não prestei atenção nenhuma no que essa garota de um metro e setenta e cinco está dizendo nas passadas meia hora. Seu cabelo loiro natural vai até a sua bunda, seu nariz com rinoplastia consegue refletir um raio solar que esbanjava no céu. A modelo está evidentemente frustrada, posso ver isso, mas não há ninguém mais irritada aqui do que eu. 

Quem essa mulher Wen Junhui pensa que é para me fazer tirar o meu carro? Gostaria que ela estivesse aqui para dizer com o peito cheio de ar que eu não preciso retirar o carro, porque tudo o que vim fazer aqui já deu errado de qualquer forma. Não preciso mais tentar entrar na empresa Yoon Industries porque fui informada que a sessão de fotos será realizada em outro lugar e esqueceram de me avisar. Esqueceram de me avisar, a nova quase dona da Clemonte's Agência, a nova quase falida agência de modelos do país. Não que eu me orgulhe de dizer isso, na verdade, neste momento, não estou me orgulhando de nada. Mesmo assim, gostaria de pegar essa caligrafia afeminada dessa mulher e enfiar goela abaixo. 

É a droga de uma vaga no estacionamento, eu cheguei primeiro e estacionei no único lugar com sombra. E daí? Eu fiquei exatos oito minutos lá dentro tentando conversar com a minha modelo e secretárias arrogantes, e ainda recebi esse bilhete idiota dizendo para tirar o carro da vaga porque era vaga exclusiva para afiliados da empresa.

— Eu tenho certeza que eles não tiveram nada a ver com o artigo que falou mal de mim, e sim com o boicote dessa empresa decadente. Fala sério, eles ainda me deram uma segunda chance! — Riley senta no banco do passageiro sem notar que passei um minuto inteiro encarando esse bilhete com os olhos flamejantes o suficiente para entrar em contato com o sol e pegar fogo o estacionamento inteiro.

Viro-me para trás e, como bem pensei, há uma limusine parada bem na frente do estacionamento, como se estivesse me encarando. Eu encaro a limusine de volta. É como se ela estivesse me dizendo: Não vai tirar o carro, vagabunda? 

Eu grunho, e mesmo sem poder ver através dos vidros escuros, ergo o meu lindo dedo do meio e direciono até a limusine. Esse veículo pode ser do dono da Yoon Industries, eu não me importo, minha agência de modelos está falindo de qualquer maneira; posso pelo menos mandar todos ali irem para o inferno.

Entro no carro e enfio o bilhete dessa secretária idiota bem no fundo do compartilhamento do carro. Estou com os nervos aflorados, e não posso xingar a modelo que estou levando comigo, por mais que eu queira. Posso não prestar atenção na sua exegese, mas posso ter certeza que ela está falando mal da minha agência. Mais uma vez, o que posso fazer? Depois de dois meses tentando incansavelmente, consegui agendar um book com a empresa Yoon Industries e agora eles estão brincando comigo como se fosse um peão no meio dessa indústria. 

Mas acho que Riley não dá a mínima para isso, ela está mastigando um trident de morango, - um que eu nem sabia que existia - e está xingando minha agência olhando com esses grandes olhos azuis para suas unhas enormes e bem feitas. Se existe um fiapo de consciência dentro de sua cabeça, eu não sei, mas se houvesse, ela poderia compartilhar um pouco dessa fúria que estou sentindo. 

Ligo o carro enquanto articuladamente vou colocando o endereço que me passaram do novo local de fotos. Não posso disfarçar a aversão que estampa o meu rosto, tampouco posso ser desdenhosa com uma garota que é minha cliente; o que me resta apenas respirar fundo e me agarrar a ideia de que a Revista Lifestyle vai ficar feliz com essa sessão de fotos e vai pagar remunerado o dinheiro que preciso se quero fazer a agência de modelos do meu pai dar certo. A modelo tira fotos, a Revista Lifestyle publica sua matéria, a postagem é um sucesso, modelos buscam a Clemonte's e a agência do meu pai volta a ativa. O mundo e todos os seus polos retornam aos seus devidos eixos. Não estou falida.

Quero desatar quando o pessimismo atravessa a minha cabeça como um raio, todos os meus sentidos gritam que essa filosofia de vida é simplesmente inviável. Ainda estou no meu carro apertado, um pouco fedido, com uma modelo tão preciosa quanto uma boneca de cera ao meu lado, indo para uma oportunidade cerimonialmente importante. Em todos os olhos, essa chance é uma droga, mas é a única que tenho. E se eu quero xingar Yoon e seu filho ridiculamente milionário, eu preciso pelo menos tentar.

— Sinto tanto, Riley — vou dizendo conforme vou dirigindo, ignorando o calor que alastra em meu corpo como brasa. Estou deixando o único buraco de ventilação do carro na direção de Riley por motivos óbvios. — As coisas andam devagar na agência.

Ela me lança um olhar glacial, como se quisesse me enforcar gritando: ANDAM DEVAGAR? Certo, minha agência está enterrada até o joelho na merda. Mas estou fazendo tudo o que posso. Será que alguém vai anotar isso? Não preciso pegar meu celular apitando no bolso traseiro para saber que é meu pai me enviando a vigésima mensagem me obrigando a andar logo com isso. Ok, ninguém vai notar meu esforço. Mas se eu morrer jovem, quero pelo menos tentar colocar fogo nessa porcaria de Yoon Industries que provavelmente está rindo da minha cara agora.

Por um momento, penso que Riley realmente vai me enforcar, mas ela apenas se empertiga no banco e cruza os braços, olhando para a estrada. Sua voz fica mais aguçada quando ela está irritada, e tenho que fazer um esforço para meus tímpanos não estourarem. 

— Faz três anos que estou nessa piada dessa sua agência! — Ela volta a se aprumar, dessa vez me encarando mais uma vez. há mágoa em seus olhos, e me sinto culpada por isso, mas me sinto ainda mais desesperada em chegar logo no lugar marcado. — A única exposição grande que vocês me colocaram foi um comercial de pílulas de diarreia! 

E o comercial ainda foi uma porcaria. Eu respiro fundo e olho-a de esguelha.

— Escuta, Riley, vou fazer isso valer a pena. Essa oportunidade com a Yoon Industries é a melhor que a gente tem agora, tenho certeza que vai dar certo — digo, mas a esperança não alcança nenhuma das minhas palavras.

Será que é culpa minha, afinal das contas? Desde que papai sofreu de acidente encefálico vascular, tenho tentado tudo o que posso para não sujar o nome da nossa família e perdurar um bem valioso trabalho de gerações em gerações. Tranquei minha faculdade de advocacia, terminei com Wonwoo, me mudei para um apartamento minúsculo apenas para pagar menos aluguel e investir tudo o que posso na Clemonte's Agency. Apesar de que, até agora, nada disso pareceu surtir efeito, e estou começando a sentir mais forte as pancadas das consequências.

Estou tentando ser o mais pragmática que posso. Eu acho. Ainda quero afogar todos da Yoon Industries em uma privada de posto.

Meu pai não podia lidar com as notícias da falência de sua Agência. Uma agência que, uma vez,  teve seus dias de ouro. O mundo de Hollywood é sem escrúpulos, há de ser rico, influente e enganoso para se manter no topo da cadeia alimentar do entretenimento. Mas meu pai não teve nada. Ele fez o melhor que podia, mas eventualmente atingiu o seu limite, então ele me deixou para cuidar da agência, afundando profundamente. 

Lembrando disso, deixo toda a raiva pulsante para trás. Não há margem para erros, é preciso que isso dê certo de uma maneira ou de outra.

Então, se preciso lidar com um filhinho de papai mimado e milionário, minhas mãos agarram o volante e acelero essa droga de carro.

♛♛♛

JEONGHAN

Ela está começando a me irritar.

Irritar é eufemismo, tudo nela está me incomodando como se ela fosse uma pequena sujeirinha na minha visão que não quer sair. É a trigésima vez que encontro o olhar com ela e encaro a porta do carro, em um claro sinal de que quero que ela saia, mas ela parece ser mais lenta do que as outras. Volto a tentar a tática de ignorar, e dedilho mais rápido na tela do meu celular depositando toda a minha frustração; e, nem assim, essa ruiva sai da limusine.

Quando minha paciência se esgota, deixo o meu celular de lado e passo a observá-la mais uma vez. Assim que ela nota, seu sorriso se abre de orelha à orelha. Correspondi com um sorriso lânguido. 

— Olha, acho que você não escutou da primeira vez, mas eu disse que há uma estação de metrô virando duas esquinas à direita — eu sinalizo com o celular para a janela.

A mulher concorda e continua me encarando vitreamente. Meus músculos se resetam em tensão quando sinto algo gelado percorrer o meu braço, é só olhando para baixo, percebo que ela está me tocando. Retraio-me como se tivesse tocado sem querer em resto de comida molhada na pia; imediatamente me arrependo, porque também não quero que ela pense que tenho nojo dela, principalmente depois de ontem à noite. Expulso seu toque com mais um sorriso forçado.

— Escuta, qual foi a parte do ‘Ontem à noite foi divertido’ você não entendeu? Tem como você ir embora, senhorita… — paro no mesmo instante quando noto que não lembro o nome dela.

Empalideço no mesmo instante em que seus olhos vão de sugestivos, para confusos, reflexivos… e então, resignados. Geralmente estou acostumado com garotas furiosas em cima de mim, mas dessa vez, estamos dentro da minha limusine e tive a empatia de deixar ela sentar no meu banco trocado ao meu lado. Quero me aprumar e bater na poltrona do motorista, sinalizando para ele meter o pé dali, mas não posso fazer isso porque essa garota não quer sair do meu lado.

— Você ao menos se lembra do meu nome? — Ela pergunta, lasciva. 

Não consigo disfarçar meu estado aturdido, quase catatônico. Pareceu ser resposta o suficiente para ela, porque petulantemente, ela abre a porta do carro. Sei que ela quer que eu preste atenção em sua saída dramática, mas só consigo reparar na sua rasteirinha raspando no banco novo do meu carro. Depois de muito insistir ao meu pai, consegui fazer com que ele deixasse essa limusine só para mim, então pedi para trocarem todos os bancos, pneus, e toda lataria antiga de dois anos atrás. Essa rasteirinha acabou de fazer um rastro quase imperceptível no processo de sair. Ela fecha a porta do carro com tudo e praguejo mais uma vez mentalmente, torcendo para que nada fique fora do lugar.

Após trocar de lugar no assento e passar a mão várias vezes no arranhão fraco até sumir do meu banco, dou algumas batidinhas na divisória do limusine.

— Vamos. — respiro fundo ao ver que a linha saiu.

Mal termino de ordenar quando a divisória se abaixa e o garoto alto de cabelos castanhos aparece sentado no banco do motorista.

— Quantas vezes eu vou ter que te dizer que não sou a droga do seu motorista? — Junhui salienta, me lançando um olhar reprovador.

Esboço um sorriso sincero, dando de ombros. 

— O que você está fazendo aí sentado, então, campeão? — Começo a dobrar mais uma vez as mangas do meu terno Modern high elegance Paris 2020. Toda essa confusão de fazer a garota sair da mina limusine me custou amassar as minhas mangas preciosas. 

Vejo pelo canto periférico do olho Junhui grunhir e, depois, vociferar, com as mãos para cima:

— Você demitiu o motorista porque ele estacionou torto há… — ele verifica o relógio novo que dei a ele. — 24 horas atrás.

Se eu estou mesmo deixando parte da minha herança para meus funcionários, pelo menos, eu exijo que eles façam um bom trabalho. Então, não, se o motorista que contrato não estaciona direito, o que mais ele pode fazer? É imprescindível. 

— E ainda me fez dirigir até a empresa, parar no meio do caminho para deixar um bilhete para um carro que estacionou na sua vaga preferida, e agora estou sendo obrigado a esperar você largar uma garota no meio do caminho — Jun olha a garota se afastar e, gradativamente, desaparecer do nosso campo de visão.

Solto o ar que prendia nos pulmões e relaxo no banco traseiro da limusine, apoiando a minha perna direita em cima da outra. Os pequenos diamantes que adornam o fecho do meu sapato reluzem enquanto respondo:

— Você deveria estar me agradecendo por aumentar uma quantia generosa no seu salário, Wen — passo um olhar para o relógio. — Vamos, então?

Jun me observa por um instante, depois volta a engatar o carro por volta do estacionamento. Acho que escutei ele dizer: “Aquele dedo do meio magoou” mas não tenho certeza de que escutei certo, então fiquei em silêncio verificando se há algo de errado na limusine. Quando concluo que está tudo certo, presto atenção nele dizendo, dessa vez, mais alto:

— Nós poderíamos pelo menos ter deixado ela na porta da estação — ele está se preparando para estacionar na minha vaga.

Não me incomodo por não ter sido sensível a esse ponto. Já fiz o suficiente, nenhuma mulher, além da minha querida mãe, sentou nessa limusine. Ela deveria sair daqui como uma vencedora, mas se essa não foi a reação, não é culpa minha. Também tive que fazer sacrifícios, como deixar a paranóia me dominar no percurso inteiro até a empresa. Ela nunca saberá o quão difícil foi sentir a tensão e o medo de sujar ou arranhar meus bancos novos.

Meu assistente de anos, e também o meu melhor amigo, Jun, estaciona a limusine e, em um pulo, se espreita até o banco de trás. Rosno, em advertência, mas felizmente, ele não arranha nada, apenas deixa seu terno terrivelmente bagunçado. Meu melhor amigo é um cara bonito, devo confessar, por isso não pego em seu pé enquanto a se vestir bem, embora ele sempre vista seus ternos de modo desajeitado. Algumas vezes tenho que dizer para ele repetir minha agenda do dia, porque estava prestando em outras questões da empresa, mas apenas estava profundamente irritado com os alinhamentos tortos. 

Ajeito o meu terno apenas por mais uma precaução enquanto ele pega o tablet no compartilhamento do lado e desbloqueia.

— Devo entrar em contato com um florista e mandar flores para casa dela? — Demoro um tempo para lembrar que estávamos falando daquela garota.

Recuso gentilmente com um gesto indiferente com a mão.

— Tanto faz, desde que ela não volte atrás de mim. 

Odeio usar o pretexto de trabalho para rejeitar as garotas com que termino de sair, mas na maioria das vezes, é preciso. Além do mais, eu ainda sou um cara muito ocupado, e eu não minto, eu apenas tenho o péssimo hábito de decidir as coisas de última hora. herdo do meu pai do bom e o do melhor, mas uma coisa que não trouxe comigo para as indústrias Yoon, é o planejamento antecipado.

Como sempre, Jun lê a minha mente, comentando:

— Aliás, o que foi isso de esquecer de avisar aquela agência de última hora que o local de fotos foi trocado? — Observo ele checar rapidamente o seu celular. — Me falaram que a dona da agência deu um show e tanto reclamando da nossa falta de profissionalismo.

Meu pai provavelmente irá reclamar disso depois, mas novamente, não me incomoda. Sem essa agência, a minha indústria continua a ser a melhor do ramo. Sem a minha indústria, essa agência provavelmente não seria nada. Não é difícil de presumir. Estou no meu terceiro ano seguido da lista Forbes 50, e com quase sessenta ligações de patrocinadores e clientes por dia. Gosto de lembrar disso quando meu pai me repreende por estar saindo demais da linha. O que poderia dar errado?

Tudo sempre esteve, e sempre estará, na palma das minhas mãos.

— Já disse que não quero lidar com agências de modelos. Nada me interessa lá — além das modelos, claro.

Jun continua lendo a agenda do dia no tablet, e uma erguida no canto de seus lábios denuncia que ele parece pesaroso ao ler algo na tela. Estou prestes a perguntar o que há, quando ele mesmo diz, irrompendo minha linha de raciocínio:

— Algo me diz que precisamos estar lá durante a sessão de fotos — ele bloqueia o tablet e deixa de lado. Coçando o queixo, ele reflete: — Pelo visto, há apenas uma pessoa e uma modelo. A revista insiste que estejamos lá para monitorar a sessão.

Um simples comentário acabou de acabar todo o meu clima benevolente, e estou de volta frustrado. Tenho muito o que fazer… eu só não sei o quê ainda, mas Jun sabe e ele me falaria. Além disso, não fui eu, e muito menos o meu pai, quem criou essa droga de revista. Tenho certeza que tenho questões muito mais importantes para resolver do que lidar com revistas e agências de moda feminina.

— Faça um favor para nós dois e repasse essa responsabilidade para minha querida madrasta. Ela  quem criou em abrir uma magazine só porque suas amigas estavam abrindo também e ela não quis se afundar em um desastroso artigo de boicote da indústria — consigo sentir a acidez da amargura na ponta da minha língua. Depois eu ainda sou chato em querer ficar comprando limusines e roupas de grife. Pelo menos, não vou criando magazines e gestões dentro da empresa do nada.

Quero olhar para meu melhor amigo e esperar que ele concorde comigo, como sempre, mas ele enrubesce e começa a coçar a sua nuca, sem jeito. Temo que estou com a aparência fúnebre, porque fiquei mais meia hora da minha manhã ajeitando meu cabelo e meu terno novo. Por isso, respiro fundo, esmaecido.

— O que foi agora?

Jun diz tudo de uma vez:

— Seu pai insiste com que lidemos com essa situação. 

Não quero perguntar em que momento do dia ele entrou contato com meu pai, aliás, quando meu pai entrou em contato com ele, porque sei que, ao virar as costas, meu pai está fazendo Jun de meu abutre. Preciso do meu melhor amigo acima do meu assistente, e não quero ser hostil com ele porque meu pai está fazendo sua cabeça. Desde que mais da metade das ações da empresa foram passadas ao meu nome, meu pai está se mostrando um grande controlador. A princípio, não poderia culpá-lo, ele passou anos na empresa, engatando ela ao sucesso. Agora, sou um jovem na casa dos vintes preparado para botar a mão em tudo o que ele suou para conquistar.

Passei intensos meses tentando convencer que efetivamente eu só estaria aqui para melhorar nossa imagem, mas não é o que está acontecendo… pelo menos, não muito bem. Nos meus primeiros três meses como chefe, sem querer, acabei envolvendo em cinco notícias polêmicas envolvendo garotas e alguns gastos a mais com grife e automóveis.

Ok. Não estou sendo um bom empresário e meu pai está furioso querendo que eu entre na linha. mas já estou decidido que farei de tudo para ser o melhor chefe da empresa e deixar meu pai e a mídia orgulhosos do meu trabalho, antes que qualquer um deles inventa alguma ideia estúpida e idiota.

Roubo o rablet de Jun e desbloqueio, olhando as informações da sessão de fotos.

CLEMONTE’S AGENCY: Andy Comello.

Enrijeço e devolvo o aparelho para ele.

Os dias de cão acabaram.

— Que seja. — O lanço um olhar mortal. — Me leve até ela.

♛♛♛

A primeira coisa que me acostumei com a fama foi a insistência da mídia. Até agora, não fui enervado pela enxurrada de flashes e pedidos de fotos e autógrafos; eu gosto disso, da atenção. Eu mereço isso. Eu sou um cara bonito, milionário, agora dono de uma das três melhores empresas. Quem não gostaria de seguir um cara como eu? Mas eu sou generoso e atencioso. Só essa semana fiz dois follows spree no Twitter e segui uma porrada de gente. Sempre paro para tirar fotos e sorrio em todas, além de usar minha caneta extremamente permanente em meus autógrafos.

De nada.

Com o passar do tempo, os olhares e os cochichos se tornaram algo como um zunido no canto dos meus ouvidos. Alguns precisam de meditação, de chá, de terapia, de música… eu preciso da atenção. É o que me mantém equilibrado e inspirado. O único problema é que, devido as últimas manchetes polêmicas, estou me encontrando com dificuldades em direcionar elas ao meu favor. 

Para não me estressar mais do que já estou, caminho até a área da piscina do local onde a sessão de fotos está sendo conduzida pensando apenas nas coisas boas. Eles estão falando que sou lindo, estão falando o quanto tenho dinheiro, estão desejando ser tão poderosos como eu. Não tenho nada com o que me preocupar, toda mancha ruim ao meu respeito vai simplesmente esvoaçar.

Também tento prestar atenção em Jun.

— Reunião às quatro com os patrocinadores daquela marca, buscar a Fifi na veterinária e comprar mais um shampoo cachorro para ela… caramelo e limão? Credo, que nojo — ele comenta baixinho, então prossegue: — Tirar uma foto para a lista dos mais ricos do ano… 

Vasculho o local à procura das modelos, mas tudo o que encontro é um fotógrafo tirando fotos de apenas uma garota. A piscina está vazia, e o som está baixo demais, o clima parece deprimente. Mas, pelo menos, está acontecendo. Quero dar meia volta e dizer que já lidei com tudo, mas algo me chama atenção.

A modelo vira o rosto e sorri.

Então eu paro.

O mundo ao meu redor para. 

E tudo o que acontece é ela.

É como se eu já estivesse a aguardando em algum lugar do meu subconsciente, porque a sensação é de uma familiaridade excitante e reconfortante ao mesmo tempo… isso existe? Espero que sim. Dentro da minha caixa torácica, meu coração bate tão rápido que dói, uma dor tão alucinante que adormece meus músculos e meus ossos tirintam ao ponto de perder o meu próprio equilíbrio.

Sinto o aperto de Jun no meu braço me ajudar a ficar em pé, até que percebo que não é apenas uma metáfora, eu realmente estava caindo. Ignorando as perguntas se estava bem, e os flashes nada discretos de funcionários distantes em minha direção, eu apenas olho para ela.

Ela não é alta, não tem o cabelo liso, não é magra. Mas ela está vestindo um biquini e está sorrindo lindamente para a câmera, como se fosse grande amiga dela. Não preciso pegar essa câmera e constatar que ela é simplesmente fotogênica. 

Seu cabelo é enrolado em mechas grossas, longo, escuro e claro, é como se ela fosse tão indecisa que até seu cabelo não toma uma decisão entre ser enrolado e liso, claro ou escuro. Seu nariz é muito redondo, meio cheio. Ela é muito baixinha, o fotógrafo tem que lembrá-la de colocar-se na ponta dos pés para se enquadrar inteiramente na lente. Ela tem seios muito fartos, ela é um pouco acima do peso. Tem algumas tatuagens, sardas muito fortes no rosto e espalhadas em volta do corpo. Mas seus cílios são grandes, seus olhos são de oliva impressionante. Suas sobrancelhas são muito grossas, mas muito bem definidas. E seu sorriso é de outro mundo.

Ela tem tudo o que uma agência de modelos recusaria. Ela é rejeitada e fora do padrão. Ela não seria bem-vinda.

Mas ela está tirando fotos e sorrindo. Sorrindo. Ela não para de sorrir. Estou começando a me sentir tonto. Preciso desviar a minha atenção.

Olho para o lado, atrás do fotógrafo. Tem outra garota. Ela é alta, suas pernas são longas e tão branca que reflete a luz do ginásio. Seus cabelos são loiros e tudo nela grita, plastificado, comprado, cirúrgico. Ela não é nada natural, mas é linda. É a visão da sociedade. É a modelo. 

Volto atenção a morena. Não consigo parar de olhar para ela. Como isso foi acontecer? A modelo claramente é a garota sentada, entediada, olhando para o seu celular, provavelmente esperando um uber. 

Devo interferir? Devo exigir que a modelo tire as fotos? Devo expulsar essa mulher?

Não consigo. 

Ela é linda.

Preciso ver essas fotos, e preciso que ela continue as tirando. Preciso que ela fique nesse exato lugar e continue sorrindo. Só preciso que ela continue sorrindo. O dia inteiro. Até o resto da minha vida. Preciso que ela fique na minha frente para que possa ficar olhando para ela até que uma força maior nos separe. Até que eu termine de perder todos os meus sentidos.

Mas quando vou andar para frente, e ir até ela, ela não me obedece. Ela sai do lugar.

Ela escorrega e cai na piscina. 

E eu pulo atrás para pegá-la. 


Notas Finais




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