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História Última Canção - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Diga NÃO ao plágio! Acredite, saberei se você plagiar de mim, e pode apostar que vou atrás de você feito cão raivoso por isso! >:D
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A imagem é meramente ilustrativa. Serve somente como mera representação física (realista) dos personagens. Nenhuma destas pessoas possui vínculo algum com o texto.
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A fic será SasuxSaku.
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A fic está sendo publicada no Anime Spirit, em meu perfil.
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Essa fanfic foi baseada no filme "Violet and Daisy". Eu quis fazer algo diferente, espero que gostem.
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Divirtam-se.

Capítulo 1 - Capítulo Único


Última Canção

Por Amanur

...

Capítulo Único

...

 

 

Sasuke corria pelas calçadas, se esgueirando entre as sombras para passar despercebido. Como era noite, ficava mais fácil para ele se camuflar. Pegou o caminho mais longo até sua casa, com aquela sensação de que estava sendo seguido, com medo de sua própria sombra.

Mas depois de muito correr, seu fôlego não aguentava mais, e seus pulmões reclamavam da faltar de oxigênio. Ele precisava fazer breves paradas para o descanso, mas toda vez que parava, as imagens das cenas anteriores lhe atormentavam, e ele olhava para as próprias mãos num misto de alívio, conforto e dor.

 

Ao se certificar de que não havia ninguém por perto, finalmente entrou em seu prédio. Subiu correndo as escadas até o seu apartamento, se jogou em sua cadeira, e, com as mãos trêmulas, se pôs a escrever com a certeza de que logo não lhe restaria mais tempo.

 

Enquanto isso, em alguma parte da cidade, um homem conversava com Sakura ao telefone.

 

—... E ele mora sozinho. — a rouca voz masculina dizia.

— Tem certeza? — ela perguntou.

— Absoluta. Acha que consegue? — ele perguntou.

— Claro. Tão fácil quanto tirar doce de criança. — ela respondeu, após estourar uma bolha da sua goma de mascar. E encerrou a ligação.

 

Duas horas depois, no endereço em que o homem havia antes lhe entregado, a moça entrava num prédio tão velho que poderia estar abandonado. As escadas rangiam aos seus passos, enquanto ela cantarolava uma música e mascava o seu chiclete de sabor morango. De repente, como num estalo, ela teve a brilhante ideia de tirar os seus tênis dos pés para fazerem menos barulho, e os deixou no canto das escadas atrás de um vaso velho de plantas murchas.

 

Com o grampo de cabelo que prendia uma mecha sua, dando um jeitinho aqui, outro alí, conseguiu destrancar a velha porta do apartamento 207. Com cuidado, para não chamar atenção, ela foi entrando no apartamento enquanto uma melodia de piano ia penetrando em seus ouvidos.

 

O lugar era pequeno, atulhado de móveis e objetos espalhados por todos os lados numa tremenda bagunça. Havia ferramentas, papéis, jornais, roupas... Esses pequenos detalhes diziam muito à garota. Como, por exemplo, revelava que se tratava de alguém desorganizado, com problemas de autoestima, e talvez um pouco depressivo. Provavelmente, o cara fosse um velho gordo preguiçoso, sem muitas ambições na vida. Talvez, até mesmo, sua visita fosse um favor a ele.

 

Mas mais um passo adiante, dentro daquela bagunça, ela encontra um homem de porte físico atlético sentado de frente a uma escrivaninha, na sala. Pelo contrário do que havia imaginado, ele não era velho. E vestia uma camisa regata branca e calça jeans. Estava descalço, como ela, com os cabelos bagunçados, sim, confirmando o seu relaxamento. Ao lado dele, havia um aparelho de som tocando a música clássica, uma melodia triste. E ele parecia concentrado, encurvado sobre a escrivaninha, escrevendo algo num papel.

 

Lentamente, ela foi se aproximando do homem, que batia impacientemente a caneta sobre a mesa, meio reflexivo, sem se dar conta de sua presença.

 

“Queridos pais,

Gostaria de ter tido uma oportunidade melhor para me despedir de vocês. Sei que não fui o filho que vocês sonharam em ter e, sinceramente, não sei como as coisas chegaram a esse ponto. Fui forçado a fazer coisas que não queria, a dizer coisas que não devia. Fui forçado pelas consequências da situação em que a vida me impôs.”

 

Em seu apartamento, Sasuke estava sentado na cadeira da sala, onde havia a sua mesa, ao lado da pequena lareira, escrevendo aquela carta para os seus pais. Mas aquelas poucas linhas foram tudo o que havia conseguido extrair de sua mente, quando, de repente percebeu uma estranha sombra encobrir o papel a sua frente.

 

Foi assim que ele soube.

Havia alguém atrás de si.

 

— Você sabe para quê serve a vida? — de repente, ela perguntou, como se imediatamente tivesse percebido que ele havia a notado.

 

Mas, sem prestar atenção em sua voz, por uma fração de segundos, ele a imaginou como uma mulher alta, forte, de presença marcante, robusta, talvez morena, muito séria, madura e cheia de ódio nos olhos. Calmamente, ele soltou a caneta sobre a mesa, colocou as mãos sobre as suas pernas, e girou a cadeira em direção a ela.

 

Seus olhos percorreram por todo o rosto da menina, até parar na altura das mãos dela. E ele pensou em como ela era completamente diferente do que havia imaginado. Pois, à sua frente, estava uma figura delicada, pequena, de feições meio infantis, completamente despreocupada.

 

— Que pergunta engraçada, vindo de você. — comentou, esboçando um sorriso sem humor.

— Por quê? — ela parecia igualmente confusa. Então, ele deu de ombros.

— Nunca pensei que alguém que lidasse com a morte diariamente se importasse com esse tipo de questão.

— Ah, pelo contrário. Talvez eu me importe mais do que qualquer um. — ela responde, meio pensativa.

— Você tem um trabalho duro, não é mesmo? — ele perguntou, e ela deu de ombros como se aquilo não fosse nada demais, e ele sorriu pela bravura da moça.

 

E ele a observou mais analiticamente, também. Ele achava estranho notar como ela não aparentava nem um pouco de nervosismo, ansiedade ou impaciência. Simplesmente, não havia emoção alguma em seus delicados olhos verdes. Talvez, realmente, aquilo não fosse nada demais!, ele refletiu.

 

— E então, qual é a sua teoria? — ele perguntou.

— A minha? — indagou surpresa pela curiosidade do homem a sua frente — Ah, eu acho que estamos todos mortos.

— É mesmo? — ele perguntou com algum interesse.

— Sim. E a morte é apenas a liberação do espirito para a verdadeira vida. A vida começa quando você morre, sabe?!

— Como se isso tudo aqui fosse apenas um teste?

— Isso! Exatamente isso. É aqui que você prova se está capacitado para viver no mesmo plano que Deus.

— É um ponto de vista interessante. — Sasuke ponderou.

—Ah, é mais do que um ponto de vista! — ela afirmou.

— É a sua expectativa?

— É uma certeza! — ela diz, convicta.

 

Ele sorri novamente, sem humor.

 

— Então essa é a sua desculpa? — pergunta, melancolicamente.

— Ué?! As pessoas precisam se agarrar a alguma coisa para não enlouquecerem, não é mesmo? — o engraçado mesmo é a maneira meio infantil com que ela dizia aquelas palavras — Mas e você, para quê serve a vida? — tornou a perguntar.

— Acho que ninguém tem uma resposta concreta para isso. — ele disse.

— Mas você acredita em alguma coisa, não acredita?

— Pensando bem, isso até que é engraçado, por que eu costumava dizer que eu não acreditava em nada. — ele fez uma pausa dramática, pensando naquele momento, no que realmente sentia — Mas acho que acredito que temos um propósito a preencher, antes de morrer.

— Ahahaha! — ela riu tão cheia de vida e abertamente, que o surpreendeu. Não de um modo positivo, por que ele não esperava que ela fosse rir dele — Isso é tão clichê! — ela finaliza.

— E você esperava que eu dissesse outra coisa?

 

Ela ficou durante longos minutos olhando para ele, olhos nos olhos, mascando o seu chiclete. Ela pensava, analisava, observava o indivíduo a sua frente. Ele não parecia tolo, pelo contrário. Havia experiência naquele olhar melancólico, que tenta aparentar serenidade. E, meio irritada, percebeu que ele continuava a olhar o tempo todo para o que ela tinha em mãos, discretamente. Ele olhava num misto de curiosidade e ansiedade que não fazia sentido, por que, ao mesmo tempo, ele parecia tranquilo. Estranhamente tranquilo. Então, finalmente, ela explode uma bolha com a sua goma de mascar, puxa com a sua língua tudo de volta para a sua boca, suspira, e dá de ombros.

 

— É frustrante, mas a verdade é que sempre colocamos as nossas expectativas nas pessoas. Acho que faz parte do ser humano.

— E você se considera um ser humano? — ele indaga. Mas não havia pretensão alguma em sua dúvida. Era apenas uma questão, como outra qualquer e ela compreendeu.

— Mas esta é outra pergunta cretina, não acha? Por que, afinal, o que é ser um ser humano? Apenas o fato de eu andar com os pés me caracteriza como um? O fato de eu sentir dor, talvez? Me comunicar com outro da minha espécie? Ter sentimentos? Por que também já vi monstros vestidos de pessoas* andarem por aí, me entende?

— Entendo. — ele concorda.

—Às vezes gosto de pensar que não sou desse mundo!

— Quer saber o que eu acho?

— Claro. — ela deu de ombros outra vez, sem muito se importar com aquilo, na verdade.

— É, eu acho que você é um ser humano.

— Por que acha isso? — ela perguntou, puxando uma poltrona de couro para se sentar de frente para ele.

— Por que você ainda se pergunta sobre o que deve ou não fazer, não é mesmo? Você não é um animal que age por puro instinto. Você pensa antes de agir. Acho que todo o conjunto é o que te caracteriza como um humano. —afinal, para quê ela lhe fazia todas aquelas perguntas, se não tivesse dúvidas sobre nada?, perguntava-se em silêncio.

 

Outra pausa.

Ela continuava a mascar a sua goma enquanto olhava nos olhos daquele homem. De repente, ela se sentiu confusa, como se nada daquilo mais fizesse sentido. Era isso mesmo o que ela sentia?, perguntou-se. Por que ele diria uma coisa daquelas? Afinal, ela tinha certeza das suas tarefas, do que tinha que ser feito. Ela não tinha dúvida nenhuma!

 

— Está com fome? — de repente ele pergunta se levantando da sua cadeira — Acho que ainda tenho um pedaço de torta de maçã na geladeira.

— Não acho que você deveria me oferecer alguma coisa! — ela ponderou, estranhando a reação dele.

— Ora, não seja boba. É só um lanche.

 

Curiosa e desconfiada, ela o observou dar a volta pela sala, e desaparecer na entrada ao lado.

 

— Não estou com fome. Obrigada. — ela disse, sem ter certeza se deveria mesmo agradecer ou não.

— Tem certeza? Está muito boa. — ele disse da cozinha — Não fui eu quem fez, comprei na padaria da esquina. Os doces deles são muito bons.

— Você não sabe cozinhar?

— Apenas o básico... Arroz, massa, bifes, ovos... — disse, enquanto puxava um vasilhame da geladeira.

 

Ela permaneceu sentada na poltrona, se perguntando como alguém como ele conseguiu sobreviver sozinho. Ela reparou como ele não tinha marca de aliança no dedo, e reparou como não havia fotografias nenhuma pela sala. E ficou olhando para o papel que ele deixou sobre a escrivaninha, enquanto ele se servia na cozinha. Leu o conteúdo daquela carta, e ficou olhando para aquela caligrafia meio trêmula antes de colocá-la de volta no lugar, ao ver que ele retornava.

 

— Ei, você acha que já preencheu o seu objetivo? — de repente ela pergunta, encolhendo as pernas na poltrona, se acomodando melhor.

 

Instantes depois, ele volta com uma bandeja com dois pires com pequenos pedaços de torta e duas xícaras de porcelana com leite puro. Ele deu a ela um dos pires, e uma xícara, dizendo que ela precisava provar aquilo, por que tinha certeza de que ela nunca tinha comido nada igual como aquelas tortas.

 

—... Mas respondendo à sua pergunta, acho que sim. Acho que cumpri o meu papel aqui. — ele disse, depois de beber um gole do seu leite.

 

Ela, no entanto, ficou um tempo olhando para aquela comida, na sua frente, hesitante.

 

— Você colocou alguma coisa aqui? — finalmente perguntou.

— Hehe. — ele riu, pela terceira vez, sem humor — Se quiser, posso beber um gole do seu leite, e morder um pedaço da sua torta.

 

Ela mascou mais um pouco a sua goma, olhando nos olhos dele com aquela mesma expressão sem emoção como se buscasse a verdade neles. Ainda havia um pouco do sabor de morango no seu chiclete, mas ela o cuspiu em sua mão, e o colou embaixo da poltrona em que estava sentada. Bebeu metade da sua xícara, e mordeu a fatia de torta sem tirar seus olhos dos dele.

 

Sasuke mastigava a sua fatia, se divertindo com o jeito estranho dela. Quanto mais ela mastigava, mais ela abria o sorriso de lábios colados, saboreando sua torta.

 

— Você é estranho. — ela disse, sorrindo de canto, meio tímida.

 

Agora, ele riu com mais vontade àquela ironia, ao pensar que o ponto de vista dela sobre si poderia ser o mesmo que o seu.

 

— Hahaha! Saiba que eu estava pensando a mesma coisa sobre você! — ele confessou.

— Então, me diga, qual foi a sua missão? — ela perguntou, curiosa e divertida.

— Bem, você sabe... — naturalmente, ele deu de ombros, tomando mais um gole do seu leite sem se importar que ele manchasse o seu bigode por fazer — Minha missão foi evitar que um homem mal continuasse a fazer as suas maldades neste mundo.

 

Mas ela não gostou da resposta dele, e sua expressão divertida foi se fechando até encará-lo com mais seriedade, se parecendo um pouco mais com aquele mulherão que ele havia imaginado anteriormente.

 

— Que pena. Eu gostei de você. — ela murmura, olhando para os farelos que haviam restado de sua torta de maçã, enquanto lambia os dedos como uma criança — Você é diferente dos outros...

— Quer saber de uma coisa? Eu gostei de você também. — ele disse, colocando de lado o seu pires e xícara vazios.

 

Eles trocaram olhares por longos segundos, em silêncio, num entendimento mutuo como se comunicassem um com o outro apenas com seus olhares. Ambos desejando que tivessem se conhecido sob outras circunstâncias.

 

— Você não medo da morte? — de repente, Sakura perguntou.

— Não... — murmurou, com um leve sorriso nos lábios.

— É isso o que eu não entendo. As pessoas dizem que não temem a morte, mas na hora “H”, quando estão cara-a-cara com ela, eles choram, pedem perdão, tentam fugir da morte a todo custo até mesmo usando a boa e velha desculpa de que têm uma família para cuidar.

— Eu não tenho ninguém.

— Certo...

— Sinceramente? Você não é nada parecida com o que eu imaginava, mas me surpreendeu de um modo bom. — ele confessa. Ela parecia ser mais gentil e inteligente do que aparentava ser, e isso era bom.

 

E ela piscou um olho para ele, divertida outra vez com seu comentário, pois, como uma criança, adorava receber elogios.

 

— Você estava me esperando? — ela quis saber.

— Acho que posso dizer que estive a tua espera desde o dia em que nasci, não é mesmo? — ele sorriu meio torto, com aquela ironia do acaso, enquanto pensava em como a vida era engraçada mesmo.

 

Ela sorriu, concordando com ele. Em seguida, Sakura puxou um pirulito do bolso da sua calça jeans. Rasgou o invólucro do doce, o jogou no chão, e colocou o pirulito na boca. Depois de algumas chupadas, ofereceu a ele como forma de agradecimento pelo lanche, enquanto Sasuke a observava com atenção e interesse.

 

— Quer saber? Aceito uma chupada. — pegou o doce da mão dela, deu algumas chupadas do pirulito que tinha sabor de uva, e o devolveu a ela.

 

Ele ainda a observou colocá-lo de volta na sua boca carnuda, e chupá-lo com mais intensidade. Ele sorriu. E ficaram trocando chupadas do pirulito (um observando os lábios do outro) até ele acabar, restando apenas o pauzinho de plástico que o sustentava.

 

— Quantos anos você tem? — perguntou. Ela tinha carinha de anjo, maneiras de uma adolescente rebelde, olhos inocentes como uma criança, mas obrigações de um adulto muito experiente.

— Vinte e oito. — ela respondeu.

— Menos quanto?

 

Ela sorriu, dando de ombros.

 

— Menos cinco, menos sete, menos dez... Talvez eu realmente tenha vinte e oito, talvez eu tenha mais. Que importância isso tem? Por que as pessoas tem essa urgência em saber mais sobre os outros? Por que não podem simplesmente aceitar o que veem na sua frente, sem interesses? — perguntou, indignada.

— Por que as aparências enganam, ora essa! — ele responde, como se aquilo fosse algo tão óbvio quando a chuva que começava a cair do lado de fora — Eu tenho um guarda-chuva atrás da porta, se você não trouxe o seu.

— Obrigada. — ela murmurou, olhando novamente para aquele papel na mesa dele — Mas por que você acha que eu estou enganando você? — perguntou, desinteressada na chuva.

— Bom, você invadiu o meu apartamento com algumas intenções, não foi mesmo? — ele respondeu, com um sorriso torto, que ela julgou ficar muito melhor no rosto dele.

— O que aconteceu com os seus pais?

— Ahh, então você quer saber mais sobre mim? — ele perguntou, provocativamente.

 

Ela revirou os olhos, colocando o seu pires e xícara no chão, ao lado da poltrona em que estava, por cima do pedaço de papel que ela havia jogado. E tornou a encará-lo, esperando pela sua resposta, enquanto chupava o seu pirulito.

 

Ela era realmente linda, ele percebeu. Mesmo naquele jeito estranho de ser, com os cabelos pintados de rosa, lisos e soltos sobre os ombros delicados, numa mistura de rebeldia e infantilidade, que apenas agregavam mais força à sua identidade. E ela era sexy num jeito esquisito, com aquelas calças jeans meio folgadas e a blusa cinza justa no corpo e decotada no busto, enfatizando suas curvas, além do pirulito na boca (que agora ela apenas mordia a haste branca de plástico) e os pequenos pés inquietos em sua poltrona. Mas era tudo parte do figurino, ele suspeitava. Com certeza, ela havia pensado em tudo nos mínimos detalhes.

 

Sasuke suspirou, afastando aqueles pensamentos.

 

— Tive uma briga muito feia com eles, quando fiz vinte anos, por que eles queriam que eu fosse para a faculdade, mas eu queria seguir o meu próprio caminho com os meus pés.  Como todo adolescente sonha, eu suponho. — respondeu, se sentindo nostálgico daquela época.

— E o que você queria fazer, exatamente?

— Você vai rir de mim.

— Conta, conta, conta! — ela até bateu palmas, de repente animada demais como uma criança interessada num segredo — Prometo que não vou rir!

— Eu queria ser chefe de cozinha. — disse.

— Mentira!

— Juro!

— Mas você nem sabe fazer uma torta de maçã!

— Pois é.

 

Ela estreitou os olhos, desconfiada.

 

— Você não pode estar falando sério!

— Hahahah. — ele riu — Ok, a verdade é que eu queria ser músico. — confessou — Mas, no fim, acabei de tornando um mero concertador de ar condicionados.

— Sério?

 

Ele mostrou as mãos cheias de calos, e algumas manchas de graxa na camisa. Em seguida, apontou para um ponto da sala.

 

— Tem um velho violão atrás de você. — ele disse.

 

Imediata e ansiosamente, ela se vira. O violão estava mesmo lá, num canto da parede, ao lado de uma mesinha cheia de revistas velhas.

 

Ela olhou novamente para ele, com aqueles olhos grandes e esverdeados.

 

— Posso te pedir para tocar alguma coisa? — ela perguntou.

— Ainda temos tempo?

— Temos. — respondeu, depois de olhar seu relógio de pulso.

— Ok.

 

Ele se levantou, foi até a mesinha, pegou o violão, e voltou para a sua cadeira. Ele perguntou o que ela queria que ele tocasse, mas a garota não conhecia nenhuma música por nome, então, disse que ele poderia escolher tocar o que quisesse. Ela apenas tinha curiosidade por ver um músico de verdade tocando para ela por que nunca tinha ido a um show, e nunca conheceu alguém que soubesse tocar alguma coisa.

 

Então, Sasuke pensou bem no que poderia tocar, naquela ocasião. Ele poderia tocar algo sobre o fim, sobre um adeus, sobre perdão, sobre sonhos perdidos, sonhos alcançados, sobre um amor incompreendido, sobre saudades e esperanças. Havia uma infinidade de assunto do qual ele poderia tocar para ela, naquele momento. Mas ele olhou novamente para a garota a sua frente, tão frágil, tão inocente, tão delicada, e pensou em como ao mesmo tempo ela parecia tão perturbada. E sorriu com a música ideal para ela.

 

— Vou dedicar essa para você. — ele disse.

 

Ela sorriu com todos os dentes, feliz pela dedicatória, e bateu palmas sem encostar as mãos uma na outra.

 

Com a música em mente, Sasuke estalou os dedos das mãos, posicionou o violão entre seus braços e as pernas, e começou a tocar.

 

Para a surpresa dela, ele não apenas tocava como também cantava. E tinha uma bela voz.

 

“Quando se sentir completamente só
E que o mundo virou as costas pra você
Dê-me um momento, por favor
Para domar o teu coração selvagem

Eu sei como é sentir como se as paredes estivessem se fechando sobre você
É difícil encontrar conforto e as pessoas podem ser tão frias
Quando a escuridão está na tua porta
E você sente como se não pudesse mais aguentar

 

Deixe-me ser aquele que você chama
Se saltar eu vou parar sua queda
Te levantarei e voarei pra longe com você dentro da noite
Se tu precisar se desmoronar
Eu posso reparar um coração partido
Se precisar quebrar então quebre e queime
Você não está só...”

 

Quando ele terminou sua performance, se surpreendeu por vê-la com lágrimas nos olhos, com aquela expressão de dor, e sorriu.

 

— Posso perguntar qual é a sua história? — ele quis saber — Sei que isso não vai mudar nada, mas acho quer seria legal saber um pouco mais sobre você.

 

Ela mordeu o lábio inferior, estreitando os olhos, se perguntando se deveria mesmo ou não contar a ele. Mas como não havia nada a perder, Sakura chegou à conclusão de que não faria mal algum dizer a ele um pouco sobre si.

 

— Eu fui sequestrada, quando pequena, por um velho tarado.

— Oh. — foi tudo o que ele disse, tentando imaginar o restante da história.

— Ele me ensinou tudo o que sei. — ela deu de ombros.

— Onde ele está agora?

— Embaixo da terra. O filho dele toma conta de mim, agora.

 

Eles se encararam por mais alguns segundos.

Os olhos dele não diziam nada.

Os olhos dela diziam tudo; diziam tudo aquilo que ela não conseguia pronunciar com os lábios.

 

— Estou feliz por ser você. — de repente ele diz, colocando seu violão de lado. E ela ficou olhando para aquele instrumento por alguns segundos, deixando sua mente divagar em algum lugar, quando resolveu tornar a falar.

— Você não acha estranho como nós nascemos, — ela muda de assunto, propositalmente — crescemos cheios de sonhos e esperanças e expectativas sobre um futuro, achando que tudo será maravilhoso para você, que tudo dará certo, para no fim, você olhar para trás e se dar conta de que nada daquilo tornou-se realidade? — ela indagou.

— Faz parte da natureza humana, sabe?! Mudar quem você é... Como se fôssemos grande camaleões. E, quer saber de uma coisa? Sua vinda aqui, já mudou um monte de coisas em mim.

— Por que você fez aquilo? — a voz dela saiu rouca, quase inaudível, de repente embargada na sua tristeza.

 

Antes de responder, Sasuke olhou para ela como se sentisse o peso da melancolia que ela carregava no peito. Sentia como ela suportava toda a incompreensão e pecados das pessoas, quase como um anjo deveria.

 

— Ele matou meu irmão. Eu tinha que vingá-lo.

— O que o seu irmão fez, para ser morto? — ela quis saber.

— Sinceramente? Não faço a menor ideia. Mas eu acredito que ele era uma boa pessoa.

— Mas você mesmo disse que as aparências enganam! — ela disse, sem compreender os motivos dele.

— É verdade. — ele concordou, esboçando outro sorriso sem humor — Mas ele era da minha família. E quando se trata de família, a gente a ama mesmo quando eles fazem coisas erradas.

 

Eles fizeram outra pausa daquelas, em que apenas os olhares falavam.

 

— E como você sabe que ama alguém?

— Bom, quando você se magoa quando essa pessoa faz algo ruim para você, e mesmo assim você sente a falta desse alguém e fica pensando nessa pessoa, é por que você ama essa pessoa.

— Huuumm. — ela murmurou, pensativa — E agora eu estou aqui. — por fim, ela disse, com um suspiro.

— E você tem que vingá-lo...

— Ahh, não! Eu não quero fazer isso!— ela diz, balançando sua cabeça de um lado para o outro, deixando seu cabelo rosado esvoaçar em volta do seu rosto, num gesto meio infantil.

— Se você não fizer, outra pessoa fará. E eu quero que você faça isso!

 

Outra pausa para os olhares.

 

— Por que você não atirou em mim assim que entrou aqui? — ele finalmente perguntou a dúvida que não queria calar em sua mente, por que a arma que ela carregava continuava ali, em uma das mãos delicadas da garota, apontada para ele o tempo todo.

— Gosto de falar com as pessoas antes de sair atirando em sua cara. Preciso saber que tipo de pessoas são.

— E isso faz alguma diferença na sua decisão?

— Não, não faz. Só me faz me sentir um pouco mais em paz comigo mesma. Por saber que eu não estou dando a vida a alguém que não a merece. 

— E que tipo de pessoa você acha que eu sou? — ele quis saber.

— Você é o tipo de pessoa que eu gosto. — ela sorriu. Mas logo aquele sorriso se desfez dando lugar a uma expressão mais séria — Mas esse tipo de pessoa é do pior tipo!

— É mesmo? Por que você acha isso? — ele quis saber.

— Por que eles sempre me deixam sozinha. — ela respondeu, erguendo sua arma, no tom de voz mais triste que já emitiu.

 

Fim


Notas Finais


Para quem se interessar, vejam esse vídeo (https://www.youtube.com/watch?v=trqe8ernE8o) Essa seria a voz que imaginei para o Sasuke. Além de ter gostado da voz desse japinha (apesar de achar que ele tem um pequeno problema com o fôlego — que parece acabar antes do tempo), gostei que ele só toca a música com o violão também.

E essa é a letra da música, com sua tradução, onde vocês podem ouvir a versão original também.
(http://letras.mus.br/savage-garden/35142/traducao.html)

*”monstros vestidos de pessoas” — essa expressão é do Shingeki no Kyojin. <3


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