1. Spirit Fanfics >
  2. Ultraviolence >
  3. Capítulo II

História Ultraviolence - Capítulo 2


Escrita por:


Notas do Autor


Hoje é dia de Ultraviolence! 🎊🎉

Vamos de capítulo novo e boa leitura 😘

Capítulo 2 - Capítulo II


Fanfic / Fanfiction Ultraviolence - Capítulo 2 - Capítulo II

Ásia, 1305

 

Prezado, Im Chang Hyuk

Escrevo essa carta com meu coração em profunda agonia. 

Minha tinta e minha pena se encontram gastas, e só elas podem lhe testemunhar as tantas formas diferentes que busquei para lhe informar estas novas. 

É com muito pesar, que comunico o falecimento de sua tão amada esposa Eun Moon Hye. 

A jovem expirou depois de horas de um parto complicado. Preciso dizer que todos os meios possíveis e conhecidos pela medicina moderna, foram exaustivamente usados com o intuito de salvá-la. Contudo, os espíritos que tudo sabem, julgaram por bem recolher nossa querida sacerdotisa.

Sabemos que, quanto aos espíritos ancestrais, a mão que nos pune é a mesma que nos traz alento, por isso, como uma forma de lhe aliviar a alma, ao menos a criança que ela trazia no ventre, não teve o mesmo destino. Para alegria de todos no Coven, nasceu com boa saúde e está aos cuidados da Bruxa Maior. Me alegro em dizer que é um menino e lhe demos o nome de Im Chang Kyun, 

Com isso, concluo minha carta. Imagino que se apressará em voltar para as nossas terras e é compreensível que assim o faça. 

Aguardo respostas suas e lhe desejo os nossos mais sinceros sentimentos. 

Soo Jinkun

 

 

 II

Era o único acordado no andar. Do corredor, era possível escutar o som da água corrente vinda da torneira do banheiro e os que dormiam, sequer podiam imaginar que o vizinho de quarto limpava naquele instante a pequena machadinha que usou a pouco para cortar um braço humano. 

A pia entupida pela terra barrenta, acumulava a água vermelha e ali estava o sangue da última vítima de Kihyun.

 Changkyun levou a machadinha até próximo dos olhos. Analisou se havia deixado alguma mancha nela e ao constatar que estava limpa como nova, a deixou de lado para pegar o tênis de Kihyun. O calçado daria mais trabalho para limpar, pois estava muito sujo e enquanto esfregava o sangue que teimava em não sair, ainda sentia aquele fluido entrar em suas unhas. Por fim, deixou os objetos secando ao ar livre.

O sol dava seus primeiros sinais no horizonte e Chang, sempre desperto por conta da insônia, se via admirando o nascer dele em um céu que aos poucos tomava cores alaranjadas e vermelhas. 

Kihyun se aproximou em silêncio o abraçando por trás, nu como de costume, com as asas exageradas abertas e os pequeno chifre que adornava a testa. Era o máximo que permitia que Changkyun visse de sua forma original e aquela era a primeira, depois de muitos séculos com ele, que uma de suas reencarnações o via assim. 

— Sabe o que é mais bonito nessa imagem? — Changkyun perguntava a Kihyun sem olhar para ele. 

O Incubus negou com a cabeça. 

— As cores. O tom de laranja e vermelho que o céu revela com a chegada do sol. — apoiou os braços na janela e continuou. — Mas o que eu mais gosto nisso tudo, é que esse tom de vermelho só é possível de se ver, por conta da poluição no ar. — sorriu pelo canto da boca. 

— Uma beleza trágica. — o incubus comentou sobre a imagem. 

— Sim. Existe beleza na tragédia, Kihyun. — se virou para ele e esticou os dedos até seu rosto. — Existe poesia na morte. 

Em meio às divagações mórbidas de Chang, Kihyun se permitiu chegar mais perto do amante, oferecendo os lábios pequenos que foram beijados com carinho. 

— Se existe poesia na morte, eu sou a sua musa e você é o meu poeta, Changkyun. 

O amante deu aquele sorriso perturbador e as analogias que o outro fazia sobre a morte, o que para ele era como uma arte, foram se perdendo conforme ele beijava o demônio com desejo. A boca fez uma pequena ferida com a mordida que Kihyun lhe deu nos lábios e quando se afastaram, o amante passou a língua no local, sentindo o gosto metalizado do próprio sangue. 

— Não faça mais o que fez ontem. — Chang disse, deslizando os dedos pelo rosto de Kihyun. — Não se alimente sem mim. Você é descuidado e não podemos correr o risco de sermos descobertos agora que acabamos de voltar para a cidade. 

— Eu sei. — deu as costas para Chang e recolheu as asas. — Eu só precisava sair daquele lugar. — se jogou na poltrona e os chifres já não estavam mais lá. — Tem alguma coisa estranha ali, Changkyun. 

O rapaz se encostou na janela cruzando os braços. Encarava a forma humana completa de Kihyun com olhos curiosos mas nada dizia sobre isso. 

— Eu sinto naquela academia a mesma energia que sinto em templos religiosos. — dizia com um semblante reflexivo. — Existe algo espiritual ali mas eu não sei o que é. 

— Então foi por isso que estava distraído minutos antes de eu me apresentar?

— Sim. — voltou a atenção para o amante. — Esse nome… Moon Hye.

— Até onde sei, é o nome da dona do lugar. Você a viu. Era aquela senhora com uma bengala de marfim. Se chama Sun Moon Hye, ou seja, é um nome de família. 

Kihyun roeu a unha do polegar e balançava a cabeça negando, como se não desse muito crédito às palavras do amante. 

— Não sinto que seja essa a resposta que procuro. — olhou para Chang. 

Um suspiro e chegando perto dele, Changkyun disse: 

— Você sabe que não posso…

— Eu jamais te pediria isso, bebê. Não deve deixar a companhia de dança por minha causa. — dizia olhando para cima. 

Changkyun estava agora diante dele, acariciando seu rosto sem defeitos. 

— Ser bailarino é o que mantém a minha identidade segura. Estar ali, naquela academia de prestígio vai me ajudar a continuar suprindo a minha necessidade e você sempre estará bem alimentado. 

Passou os dedos pelos traços perfeitos de Kihyun e o olhava de cima. Era como se o dominasse, como se estivesse acima dele. Gostava dessa sensação que distorcia a realidade e o levava a ignorar o fato de que não era ele o ser imortal. 

— Eu te amo, Changkyun. — disse, se levantando.  

As mãos desceram pelo corpo nu do Incubus e quando chegaram a bunda, Changkyun apertou as duas bandas com força. Sentiu a ereção do outro e sorriu enquanto ainda o beijava. 

— Guarde essa energia para quando eu voltar. — ele disse grave, na boca de Kihyun.

— Caso não se lembre, a classe de demônios a qual eu faço parte, existe apenas para o sexo. — dizia, mordendo o queixo dele. — Esse tipo de recomendação é desnecessária. Mas… para onde você vai? 

Changkyun deu um beijo estalado em seu demônio e se afastou repentino, pegando a carteira em cima da mesa. 

— Visitar os meus pais. — disse jogando o capuz do casaco sobre a cabeça. — Não parece, mas eu tenho uma família. 

Saiu do quarto, fechando a porta, mas antes, pôde ver de relance a nuvem negra que Kihyun deixou no lugar assim que desapareceu no ar. 

*

Entrou na antiga casa encontrando silêncio, mas para ele, já era esperado que todos ainda estivessem dormindo. A casa era simples, com poucos móveis e apesar de ter morado ali a vida toda e estar há cinco anos longe daquele lugar, Changkyun não sentiu aquela saudade melancólica que as memórias de infância costumavam trazer. 

A imagem dele surgiu aos poucos no começo do corredor e a sombra tomava a dianteira, se projetando na entrada dos quartos. Andou até o seu antigo e pouca coisa havia mudado, assim como ele. Fez o caminho de volta sem fazer barulho, o que para ele era algo fácil. Acabou na cozinha e se aproximando da pia, encontrou uma pequena louça que de imediato começou a lavar.

 A esponja perfilava cada espaço do garfo. Changkyun tomava uma colher nas mãos e quando lavava, encarava o próprio reflexo no utensílio. Os pratos e tigelas eram higienizados com todo o cuidado e ao final, assim como fazia com os instrumentos transgressores que sempre andava com ele, avaliava se algum resquício de sujeira teria ficado nos utensílios. 

— Eu sabia que era você. — a voz madura se fez ouvir. — É o único com disposição para lavar qualquer coisa a essa hora da manhã. 

A mãe lhe acariciou as costas, recebendo de volta um beijo na testa. Com um sorriso satisfeito em ver o filho de volta a casa, desconhecia que os seus cuidados excessivos com limpeza tinham motivações muito mais obscuras do que uma simples mania. 

Quando pôs o último prato no escorredor, ouviu um gemido conhecido em um dos quartos. A mãe o abraçou e disse com sua voz amável:

— Se importa de me ajudar? — apertou o corpo dele contra o seu. — Como nos velhos tempos. 

Changkyun se viu de repente dentro de um dos quartos e diante de uma idosa sorridente que deitada em um colchão, estendia os braços flácidos para ele. 

— Pee Wee. — ela dizia fraco com a boca sem dentes. 

— Olá, vovó. — respondeu com um meio sorriso, descendo até a esteira onde ela estava.

— Fico feliz que ela ainda se lembre do seu apelido de infância. — a mãe falou. — Me ajude a colocá-la na cadeira de rodas. 

Enquanto a mãe suspendia o tronco da idosa, Changkyun se movia para trás dela e com a força que tinha nos braços, a pegou no colo para colocá-la sentada na cadeira. O corpo da avó era pesado, mas nada comparado aos muitos outros corpos que carregava pelo meio de florestas e matagais. 

Pee Wee. 

A mão senil formou uma concha em cada extremo do rosto de Changkyun assim que ele parou na frente dela. A voz fraca e rouca da avó trazia alguma memória familiar e ele se lembrava de ter escutado ela o chamar assim muitas vezes quando criança. Ficou por um instante encarando aqueles olhos apertados da avó e quase não era possível ver o seu globo ocular, mas imaginava pela forma como ela o tratava, que  ela ainda o via como a criança inteligente e calada de sempre. 

A mãe de Changkyun empurrou a cadeira e o rapaz apenas a seguiu até o banheiro. Após ajudar a colocar a avó na banheira, se limitou a ficar na porta de braços cruzados, assistindo o cuidado que a mãe tinha com ela.  

Uma verdade sobre a mãe, era que talvez fosse uma das mulheres mais amáveis que ele conheceu. Reconhecia nela essa qualidade tão valorizada pela sociedade, embora ele não fosse capaz de assimilar a utilidade disso. 

Alí, parado naquele portal, vendo a mãe lavar a avó enquanto cantava uma canção, o fazia pensar sobre como ela reagiria se soubesse sobre tudo o que ele vinha fazendo desde a adolescência. Ao mesmo tempo, se questionava sobre como ela nunca percebeu que ele sempre foi diferente. Nunca percebeu as suas tendências homicidas ou que desde muito tempo ele era um celerado. Teve seus pensamentos interrompidos por mais outro pedido de ajuda. 

A idosa foi deixada na sala em frente a tv, encarando as imagens coloridas e inconstantes na tela, ainda que não fosse capaz de assimilar nada.

— Em algum momento, serei eu ali. — a mãe de Chang disse. 

Ela observou a idosa da porta da sala em um silêncio reflexivo e depois seguiu para a cozinha.

— Ficará para o café da manhã, certo? 

— Não. Na verdade, eu só esperei que terminasse com ela para poder ir embora.  

— Tão rápido. 

— Eu sei, mas vim apenas para ver como estava. Tenho muitas coisas para resolver ainda. Os ensaios na companhia de dança começam amanhã.

— Eu sequer te parabenizei por isso. Me desculpe. De qualquer maneira, sabe que estou orgulhosa de você. — dizia, arrumando a mesa. 

O cansaço era perceptível no rosto. O corpo também denunciava a fadiga em forma de uma magreza atípica e vendo a mãe naquele estado, Changkyun não sabia exatamente como se sentir a respeito. 

— Quando tiver um daqueles recitais, me avise que eu irei assistir. 

— Mãe, a Moon Hye é uma companhia de dança famosa. — ele riu. — Se quiser assistir a um espetáculo terá que pagar pelo ingresso. 

— Era mais fácil quando você era criança. — ela disse, dando um sorriso sem vontade. 

Ficaram em silêncio por alguns momentos e se não fosse o bule anunciando que a água já estava quente no fogão, talvez permaneceriam calados. 

— Sabe, seu irmão está namorando. — disse, preparando um chá e arrastando a xícara na mesa até chegar em Changkyun. 

— Mãe, eu preciso realmente ir.

— Tome um chá comigo. — disse olhando para a própria xícara. — Por favor. — suspirou. — Seu pai trabalha o dia inteiro, seu irmão é um adolescente de cabeça avoada e a minha única companhia é a sua avó que não compreende uma só palavra do que eu digo. 

Chang não se moveu do lugar e deixou que as palavras da mãe sumissem no ar. 

— Eu prometo voltar outro dia. — ele disse grave. 

— Certo. — não insistiu. — Apareça ao menos na igreja mais tarde. Farão uma missa para Bae JinDo, se lembra dela? 

Não respondeu. Sentiu apenas o incômodo de sempre toda vez que aquele nome era citado. 

— É claro que se lembra. Ela era sua amiga. 

— Não éramos amigos. 

— Como não? Você vivia atrás dela. 

— Mãe, nós não éramos amigos. Pare de dizer essas coisas. 

O nervosismo era visível e Changkyun aos poucos se via perdendo o controle. 

— Tudo bem, eu não vou tocar nesse assunto. — andou devagar até ele e fez um leve carinho no rosto. — Sei que é um tema sensível para você. De qualquer forma, seria educado aparecer na missa ao menos em sinal de apoio a namorada do seu irmão. 

— Como assim? — franziu o cenho. — Por que eu apoiaria alguém que sequer conheço? 

— Porque ela é a irmã mais nova de Bae JinDo. 

Dentro da boca, Changkyun cerrou os dentes. A mãe que o via de frente não percebeu a mudança no semblante, visto que para ele era muito fácil dissimular seus sentimentos. Tinha o total controle das próprias emoções e manteve o rosto sereno, embora por dentro sentisse como se pudesse gritar.  

— Que curiosa coincidência. — respondeu seco. — Felicidades para o jovem casal. Eu realmente preciso ir embora. 

Fez menção de sair dali quando ouviu da sala a avó aos risos.

— O que está acontecendo? Por que ela está rindo? — a mãe de Changkyun disse indo para sala. 

A idosa ria de forma divertida, olhando para um ponto isolado do cômodo. Também falava algumas palavras que pouco se entendia, como se conversasse com alguém. 

— Deve estar viajando no mundinho dela.— a mulher disse.  — Vou buscar o remédio. 

Changkyun concordou em silêncio e voltou a olhar para dentro do cômodo. 

No canto da sala, sorrindo para a avó e fazendo ela lhe sorrir de volta estava o seu adorável demônio.

*

No metrô, de volta para o hotel, as luzes do vagão falhavam e por um momento era como se visse a imagem de Bae JinDo se aproximando a cada vez que as luzes acendiam. Não se movia do lugar, pois sabia que se tratava apenas de uma ilusão. 

Em seu ombro, Kihyun repousava a cabeça, encarando a criança no assento da frente que vestido de cowboy, apontava uma arma de brinquedo para Changkyun. O menino apertava sucessivas vezes o gatilho de plástico, fazendo eco na cabeça do amante.

— Quer que eu o faça parar? — Kihyun perguntou sem se mexer da posição que estava. 

— Não. — respondeu, olhando o menino. — Deixe que ele se divirta. 

*

No que restou do dia, passou na cama do quarto de hotel com Kihyun. Tinha naquele instante a boca dele chupando o seu pau e os fios de cabelo vermelho estavam presos entre seus dedos.  

— Ahh… Kihyun. — gemia, enquanto olhava para baixo. — Que boca gostosa.

A voz era só um sussurro grave que estimulava Kihyun a engolir o pau de Chang com mais vontade. A cabeça do Incubus no meio de suas pernas, subia e descia com velocidade e toda vez que ele tirava da boca, um som estalado dominava o ambiente. 

A saliva escorria da boca para o queixo de Kihyun e na boca ele já podia sentir o gosto do gozo de Changkyun. Adorava aquele sabor. Era o seu principal alimento. Passava a ponta da língua na cabeça babada e vez ou outra descia até às bolas inchadas. Com a boca de volta ao pênis, masturbava ao mesmo tempo em que chupava e foi vendo o pau de seu amante pulsar, que o corpo dele se arqueou na cama.

— Porra… — xingou no instante em que sentiu o gozo ir direto para a boca pequena de Kihyun. 

Ofegava, com as mãos no rosto e jogava os cabelos para trás. 

Kihyun subiu pelo corpo de Changkyun beijando cada parte dele. Parou no pescoço, dando beijos na região e finalizou as carícias passando a língua em sua  orelha. Aos poucos, foi se aninhando ao peito do amante, acarinhando o tórax que ainda arfava pelo orgasmo recente. 

— Caralho… eu só queria poder fumar agora. — Chang disse. 

O Incubus sorriu no peito dele e deu uma leve mordida. 

— Não nesta vida. — disse para o amante. 

Changkyun pegou o canudo do refrigerante que estava em cima da mesinha ao lado da cama e pôs na boca. 

— Assim bom pra você? — falava embolado por conta do canudo. 

Os dois começaram a rir e era curioso como conseguiam por vezes, ignorar a realidade e simplesmente se divertirem. O sexo depois de um momento de extremo estresse, sempre proporcionava a eles aquele efeito relaxante. Havia aquela aura de felicidade que era tão honesta quanto estranha. Sorriam enquanto outros choravam e dormiam depois de tirar o sono de muitos. Mas, apesar disso, sentiam prazer naquela ideia distorcida de vida. 

Changkyun viu o demônio dormir em seu peito e apesar da chupada ter feito com que se esquecesse por um momento sobre o assunto da nova cunhada, agora que o efeito do tesão havia passado, a mente fervilhava em pensamentos e paranóias. 

Abraçou o Incubus e tentou dormir, mas continuava pensando sobre ela. Pensava sobre a namorada do irmão, a jovem irmã da famosa garota morta há cinco anos. 

— Merda! — disse entre os dentes, vendo Kihyun se mexer. 

Aproveitou o embalo para colocá-lo em seu lado da cama e se levantou nu. Andou até a janela e encarando o céu estrelado, pensava sobre como o seu passado voltava para ele de repente como uma carta, cujo o remetente não especificou o destino. Tinha certeza que as memórias da existência de Bae JinDo haviam sido enviadas para longe, mas por alguma razão, o destino fazia questão de trazer a garota de volta.  

Olhou para a cama e viu Kihyun ressonar tranquilo. Catou as roupas jogadas pelo chão e vestiu apressado, considerando por fim, o convite que a mãe fez mais cedo.  

No momento em que a porta fechou, os olhos de Kihyun se abriram. Ainda que estivesse curioso sobre para onde Chang iria aquela hora, uma outra questão lhe despertava maior interesse. Em razão disso, dissimulou o sono pois para aquela noite, o Incubus tinha os seus próprios planos. 

*

A escuridão o escondia e ela era como uma grande parceira nesta vida que ele levava. Se manteve do outro lado da rua observando as pessoas que saíam da missa, entre eles, sua mãe e o irmão. 

O cigarro se acendia no breu conforme ele o tragava em silêncio. Kihyun o mataria se o visse fumando agora, mas estava nervoso demais e era natural que sentisse essa necessidade quando se via em um estado de tensão ou euforia.  

A jovem cunhada não estava ao lado do irmão ou em qualquer outra parte. A igreja, que já era conhecida por ele, tinha um cemitério pequeno logo atrás, por isso, arriscou ir até lá. Deu a volta, lançando o resto do cigarro em um cinzeiro qualquer enquanto ouvia cada vez mais distante as vozes dos que ali estavam. 

A construção em estilo gótico da igreja não era muito diferente de várias outras que se encontravam por aí. Chegou ao cemitério e andou entre as lápides espalhadas pelo lugar. Caminhou até o túmulo já conhecido e como esperado, lá estava uma jovem ajoelhada diante da cripta. Via apenas os cabelos negros e longos que chegavam até a cintura. De costas era como se visse Bae JinDo e percebeu a carne tremer com a imagem. 

Seguiu seu caminho até a moça que ignorava o espectro negro que aumentava atrás de dela. Changkyun dava passos cuidados e silenciosos, embora nem mesmo ele tivesse ideia do que faria quando chegasse perto dela. A imagem ficava cada vez mais próxima e a moça estava tão distraída diante do túmulo da irmã que não ouvia o assassino chegando.

 Fazendo uma prece silenciosa pela alma da irmã, a jovem balbuciava algumas palavras ininteligíveis com as mãos unidas. Não sabia por quanto tempo estava ali, mas quase não sentia as pernas por conta da dormência. Ainda ficaria por mais algum tempo se não tivesse escutado de repente o som de alguns passos atrás de si. Virou a cabeça de forma abruta e os cabelos cobriram o rosto. 

Uma silhueta disforme apareceu, levando a moça a se levantar aos tropeços e aos gritos.  Foi quando um homem surgiu no meio da escuridão lhe tapando a boca. 

— Calma! — a voz baixa dizia. — Você não vai querer perturbar o descanso dos mortos. Vai? 

A menina negou com a cabeça, trazendo no rosto um semblante assustado. Aos poucos, a imagem oculta do homem que tapava a sua boca veio até a luz.  

— Padre… Padre Jooheon? — disse, tentando retomar o fôlego. — Você me assustou. 

— Uma jovem que se esgueira pelas tumbas de um cemitério a noite, não deveria sentir medo tão facilmente. 

A moça abaixou a cabeça envergonhada. 

— Seus pais estão te procurando por toda a parte. — Jooheon dizia. 

— Eu sinto muito, Padre. — uma lágrima solitária desceu pela bochecha. — Eu queria apenas homenagear a minha irmã de forma adequada. 

O Padre franziu o cenho. 

— Desde que o caso da unnie se tornou público, estamos sempre rodeados pela imprensa, ou policiais e ainda tem os desconhecidos que choram por ela sem realmente conhecê-la. Eu era muito nova quando tudo aconteceu, mas às vezes queria apenas poder chorar sozinha no túmulo dela, como faço agora. 

— Eu entendo. — se aproximou e tocou no ombro da moça. — Acho que é justo ter esses sentimentos. Ela era importante para você, não era? 

— Muito. — a voz embargou.

— Pense que agora ela é importante para muita gente. — sorriu caridoso. 

A menina balançou a cabeça concordando com as palavras e ao ver as mãos do Padre se estendendo em direção dela, segurou em uma delas e foi com ele para fora do cemitério. 

Agradecidos ao padre, a família entrou no carro. 

Jooheon acenou da escadaria com um sorriso simpático e conforme a lanterna se distanciava, o sorriso forçado foi se desfazendo junto com a mão que se abaixava. 

— Achei que nunca fossem embora. — disse para si. 

Deu uma volta completa e começou a subir as escadas de volta para a igreja. Colocou a mão dentro da batina e da altura do peito, tirou uma carteira prateada de cigarro. Dentro dela, havia apenas dois, pegou um deles e pendurou na boca resmungando que deveria ter se lembrado de comprar mais antes que acabasse. Tateou os bolsos, procurando um isqueiro e quando finalmente encontrou, acendeu resmungando um pouco mais sobre o fato de nunca se lembrar onde deixava o isqueiro. 

— Um sacerdote fumante...

Jooheon ouviu a voz em suas costas e segurou o cigarro entre os dedos, lançando a fumaça densa no ar. 

— Aquele que não tiver pecado, que atire a primeira pedra. — respondeu irônico. 

Se virou afim de saber a quem pertencia a voz grave e debochada e ao se deparar com a imagem familiar ao pé da escada, balançou as mãos diante dos olhos para afastar a fumaça que cobria parcialmente a figura do outro. 

— Chan... Changkyun? — apertou os olhos em uma tentativa de reconhecimento. — Im Changkyun?

Jooheon desceu os degraus segurando levemente a batina para que não tropeçasse. Chegou ao final da escada mais rápido do que esperava e trazia no rosto uma expressão incrédula. 

— Isso é algum tipo de visão? —  se questionou, olhando para o céu. 

— E você acredita nessas coisas agora? 

— Eu não preciso acreditar, basta fazer com que os párocos acreditem. — disse, puxando Changkyun para um abraço. — Eu mal posso crer no que meus olhos vêem. 

— Eu pretendia dizer o mesmo sobre você. 

— Quando voltou para a cidade? — afastou o abraço, mantendo as mãos nos ombros de Chang. 

— Ontem. 

— E o que faz aqui? Veio para a missa? Eu não te vi entre os fiéis. 

— E se visse, perderia a concentração na hora. — sorriu de canto. 

— Não conte com isso. — sorriu, puxando uma tragada. — Já faz muito tempo e agora eu sou casado com Ele. — apontou para o céu. 

A ironia nas palavras do jovem Padre mostravam que ele não havia mudado. Ainda era o mesmo cara despreocupado e sujo que Changkyun conheceu na adolescência só que agora, vestido em uma respeitosa batina. 

— Não se sente como um tremendo filho da puta, falando e fazendo coisas desse tipo? — se divertia, Changkyun.

— Meus párocos me amam. — disse, lançando o resto de seu cigarro no chão. — Além disso, o que os olhos não vêem, o coração não sente. Isso tá escrito em algum lugar lá nas sagradas escrituras. 

— Na verdade, não não. 

Jooheon pareceu pensar por uns instantes, colocando o dedo no queixo. 

— Ah foda-se. Não estou aqui para fazer um maldito sermão, de qualquer maneira. — o Padre disse, o abraçando. — Aqui fora está frio. Vamos para dentro e lá poderemos conversar. Foi para isso que veio não foi? 

Changkyun se deu um tempo até finalmente dar a resposta que Jooheon esperava ouvir. Balançou a cabeça devagar e sorriu. Subiram juntos até a entrada da igreja e Chang ainda conseguiu ver o momento em que as portas foram fechadas pelo amigo, fazendo o lado de fora sumir aos poucos.

A verdade, era que queria mais informações sobre como estavam as coisas na cidade a respeito da morte de Bae JinDo. Tinha uma noção de como o país lidava através dos jornais, mas Jooheon, em especial, era alguém familiar que poderia lhe dar informações mais específicas. 

Não pretendia chegar tão perto do passado como fazia agora, mas quando estava a ponto de se aproximar da moça no cemitério, ouviu a porta velha do lugar ranger, o que deu a ele o tempo necessário para se esconder atrás de uma das sepulturas. Ao perceber que se tratava do Padre local e que este Padre era ninguém menos que um de seus antigos casos, se retirar dali para mais tarde falar com Jooheon, pareceu ser a opção mais inteligente. 

*

 

 — Fechou a porta dos fundos? — Sun Moon Hye perguntava a uma funcionária. 

— Sim, senhora. 

— Certo. Eu já estou indo. — disse se levantando da cadeira com o auxílio da bengala. — Acione o alarme quando sair. Meu carro está perto de chegar.

Saiu pelas portas da academia de dança e mesmo que a funcionária se oferecesse para ajudá-la a descer, se recusou, fazendo o trajeto sozinha. Com dificuldade, descia devagar e ainda ousou olhar para trás, fazendo sinal para que a jovem que a vigiava com preocupação, saísse dali para acionar o alarme. Quando voltou a olhar para a frente, a bengala lhe escapou da mão com o susto que levou. Diante dela, a imagem de um jovem que não estava lá há poucos segundos surgiu como por encanto. Se desequilibrou, sendo amparada por ele, que a  segurando pelos ombros, dizia: 

— Nem pense em morrer, velha imunda. 

— Q-quem é você? — ela perguntava com olhos assustados. 

— Esqueceu meu nome, não é? Talvez porque estivesse ocupada demais gravando o nome de Im Changkyun, para dar a ele a vaga que por direito deveria ser minha. 

— Lee Minhyuk. 

— Viu? Até mesmo você reconhece que deveria ser eu a ocupar aquela vaga. 

Minhyuk a segurava com tanta força que suas mãos marcavam os braços flácidos da mulher. Os olhos estavam vermelhos e bolsas marrons se percebiam abaixo deles. O semblante raivoso poderia ser facilmente explicado pela noite em claro que passou remoendo a derrota injusta do dia anterior e depois de ouvir por diversas vezes a gravação que fez em seu celular da conversa onde a Sun Moon Hye dava a vitória para Changkyun, se encheu de coragem e movido pelo ódio, voltou a academia para aquele acerto de contas. 

— Você… você vai me matar? 

— Eu não vou te matar. Seria burrice. Mas eu poderia te prejudicar e muito. — Minhyuk disse encarando a mulher que tremia em suas mãos. — Se eu compartilhar essa conversa, a academia Moon Hye ficará em grande descrédito e uma velha manca e incapaz feito você jamais conseguiria se reerguer de novo. 

— Quanto você quer pela gravação? 

O bailarino sorriu nervoso, balançando a cabeça. As mãos se apertaram ainda mais nos braços dela e Minhyuk cerrava os dentes. De repente, todo o pelo do braço dele se arrepiou e uma sensação estranha o dominou. Olhou para trás e por cima dos ombros, tendo a ligeira impressão de que havia alguém no final da escada. Contudo, ao constatar que permanecia sozinho com a mulher assustada, percebeu que os olhos o traíram. 

As atenções voltaram para Moon Hye que esperava a resposta de sua proposta. No seu rosto se percebia o medo de estar nas mãos de um louco que agora, se distraia, olhando para todos os lados como se estivesse vendo algo. Se ela tivesse boa saúde, arriscaria chutar Minhyuk no meio das pernas para sair correndo dali, mas isso era impossível na sua atual condição. 

— Senhora, Moon Hye! — a funcionária gritou saindo do prédio. 

A mulher suspirou de alívio. Estava a salvo, agora que sua funcionária apareceu.

— O que está acontecendo aqui? — ela perguntou preocupada. 

Quando Moon Hye voltou a olhar para Minhyuk, o semblante dele já havia mudado. Os olhos de raiva ainda estavam lá, mas agora, ele parecia mais calmo e controlado.

— Ela estava a ponto de cair da escada. — Minhyuk dizia se mostrando gentil. — Não sei o que poderia ter acontecido se eu não tivesse chegado a tempo para ampará-la. 

A forma como ele mentia descaradamente para a funcionária e diante dela, mostrava o quanto aquele rapaz de rosto meigo e sorriso infantil era dissimulado e perigoso. Isso fez com que recuasse da ideia de desmentir a sua versão fantasiosa dos fatos e aceitando que estava encurralada com aquele estranho, ficou em silêncio o ouvindo falar.

 — Seja mais cuidadosa da próxima vez. — disse com olhos cândidos para a mulher. 

Moon Hye sentiu a pele arrepiar. Se perguntava de onde havia saído aquela criatura diabólica vestida sob a figura de um doce menino. 

Minhyuk pegou a bengala caída alguns degraus abaixo e entregou na mão da senhora que tremia. Sorriu de canto e fez uma pequena reverência para a funcionária ao lado, deixando a presença das duas lentamente. 

E no final da escada, Kihyun que foi até a Academia na intenção de obter informações sobre aquele lugar, viu ali muito mais do que pretendia encontrar. 


Notas Finais


Pois é, gente...eu deixei várias tretas em aberto aí.

Existe um motivo para o Kihyun está desconfiado do que rola na Academia e o fato da dona escolher o Chang não foi em vão.

O caso da jovem morta há cinco anos incomoda bastante o Changkyun e cinco anos é por sinal, o tempo que ele está fora do país...algum palpite sobre a razão dele perder o controle toda vez que algo relacionado a esse caso surge?

Enfim...fiquem calmos que a seu tempo, vamos todos descobrir os babados dessa história.

Até a próxima atualização no dia 23 😘


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...