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História Um Amor de Carnaval - Capítulo 26


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Notas do Autor


~Olá!
E aí, como vocês estão?
Bom, não tenho muito pra dizer, estou feliz de estar voltando e espero que gostem do capítulo novo ^^

Boa leitura! ♡

Capítulo 26 - Il vero volto del "destino" (Especial)


Jaejoong sabia reconhecer perfeitamente a dor da culpa, mesmo que não a sentisse com frequência. Era aquele peso estranho comprimindo seu peito, um incômodo no fundo de sua mente lhe impedindo de descansar. Odiava aquilo; significava que sua consciência não estava conseguindo lidar com o resultado de seus fracassos, e não gostava de admitir que havia fracassado.

Puxando o cabelo para trás com a ajuda de um pente, franziu o cenho quando o objeto deslizou sobre a ferida na lateral da cabeça. A dor o fez se lembrar do momento em que Donghae lhe atingira com um lampadário, e junto à memória sentiu uma raiva tão densa que fez seu coração acelerar no mesmo segundo. Não deveria ter deixado aquele rapaz insolente escapar.

Terminou de arrumar as mechas douradas com as próprias mãos. Alisou a camisa de seda - apreciando o tom de vermelho vibrante que ressaltava sua aparência - e sorriu para o espelho. Através do reflexo, avistou Yunho sentado na beirada do colchão, com os ombros caídos e o olhar perdido. Qualquer satisfação que viesse da vaidade desapareceu, dando lugar à angústia em seu estado mais puro.

Virou-se e caminhou até a cama, se ajoelhando diante do moreno. Ele não fazia qualquer som, mas grossas lágrimas deslizavam pelas cicatrizes em seu rosto. Inclinado, entrelaçava os dedos com muita força enquanto apoiava os cotovelos nas pernas.

Jaejoong não suportava ver seu amado daquele jeito, mas sabia que era indiretamente responsável, e isso fazia a culpa em seu coração pesar o dobro. Segurando as mãos dele entre as suas, separou um dedo de cada vez, acariciando cada articulação com delicadeza.

– Yunnie… estou aqui. – sussurrou, sem ideia do que fazer – Sempre vou estar.

Não se incomodou quando não houve resposta, pois sequer precisava de uma. A forte conexão que possuíam ia além de qualquer diálogo e, ao fitar aqueles olhos vazios - ao mesmo tempo preenchidos por uma tristeza profunda -, soube exatamente o que ele precisava.

Acomodando-se entre as coxas do moreno, Jaejoong envolveu a cintura dele com os braços, apoiando a cabeça em seu peito. Quando o abraço foi retribuído de imediato, com força e certa dose de desespero, sentiu vontade de chorar também. Não esperava que tudo desse tão errado. Estava sendo consumido pelo remorso e não podia compartilhar aquilo com mais ninguém.

– Isso não está certo. Não devia ser assim. – Yunho murmurou, escondendo o rosto na curva de seu pescoço – Não é justo.

– Não é. Eu sei. – concordou, mas sentindo-se mal por esconder a verdade.

– Se um dia eu colocar as mãos em quem fez essa merda, Jae, juro pela minha vida que-

– Não adianta, e você sabe. Isso não vai trazê-lo de volta.

O silêncio recaiu sobre o quarto. Jaejoong ouvia a respiração falha de seu amado sem conseguir fazer nada para confortá-lo; seu coração parecia um amontoado de estilhaços afiados que pressionavam o esterno ao menor sinal de movimento. Sentiu os olhos arderem quando os dedos de Yunho passearam por seu cabelo carinhosamente, evitando de propósito o machucado na raiz - assim como evitava tocar no curativo um pouco abaixo de suas costelas quando passavam a noite juntos.

Ele não havia demonstrado interesse em nenhum dos dois, e não perguntaria sobre eles tão cedo; estava oferecendo tempo e espaço até que o assunto surgisse de maneira espontânea. Aquele era um dos motivos que fazia o loiro amá-lo tanto - a forma como respeitava seus segredos. Respeitava suas mentiras.

Jaejoong afastou-se com relutância, reafirmando através de um olhar que sempre estaria ali. Desenhando os traços marcados do moreno com a ponta dos dedos, contornou cada detalhe: as cicatrizes finas e injustas, o sinal logo acima da boca, os lábios bem desenhados. Não pela primeira vez, chegou à conclusão de que não conseguiria seguir em frente caso algo acontecesse com Yunho. Precisava protegê-lo dos próprios erros.

– Já perdemos muito tempo aqui. – avisou, enfim se levantando – Vamos, Changmin está nos esperando lá embaixo.

Caminhando até a cômoda na parede à esquerda, abriu a primeira gaveta procurando por suas luvas. Um calafrio percorreu sua espinha ao perceber que, sob uma calça dobrada de maneira cuidadosa, a ponta daquela maldita máscara branca estava exposta. As esmeraldas e cravos delicados em tinta verde lhe encaravam de volta, acusadores. Havia pensado em descartá-la, mas depois do que aconteceu, decidiu mantê-la como um lembrete cruel. Jamais confie em intuição ou suposições. Por tanto tempo, as duas coisas pareceram infalíveis, no entanto…

Empurrou a máscara debaixo de outras roupas, suprimindo o poder que o simples objeto exercia sobre si. Quando terminou de vestir as luvas negras, virou-se para encontrar o moreno de pé, pronto para sair. Ele havia jogado um casaco preto sobre os ombros, completando o figurino impecável - perfeito às suas medidas. A mão direita apoiava-se na cabeça da víbora decorada com pedras cintilantes, e o costumeiro brilho de superioridade voltara aos seus olhos. Qualquer indício de sofrimento era escondido sob a máscara de arrogância cobrindo seu semblante.

Satisfeito com a capacidade do outro de se adaptar às próprias emoções e dominá-las quando necessário, Jaejoong sorriu. Entrelaçando seus dedos à mão livre dele, fez um sinal suave em direção à porta e ambos deixaram o cômodo, descendo as escadas juntos.


》 》 》


Passando pelo portão de ferro adornado com desenhos graciosos, Jaejoong atravessou um dos arcos na entrada da ilha, descendo a breve sequência de três degraus. Diante de si estendia-se um caminho estreito, bifurcado em vários pontos, pavimentado de pedras cinzas e cercado por altos ciprestes. Com Yunho à sua esquerda e Changmin à direita, avançaram em silêncio pelo local aberto.

Apesar da quietude externa, os pensamentos do loiro se tornavam mais turbulentos a cada segundo; enroscavam-se, mudavam com velocidade, tomavam ramificações inesperadas e às vezes se prendiam no mesmo acontecimento por vários minutos. Enquanto fitava a camada translúcida de neblina serpenteando entre as árvores, não conseguia parar de pensar naquela manhã específica onde tudo deu errado.

Para começar, Jaejoong sabia que não deveria ter agido sozinho pois nada bom poderia resultar disso, mas não teve ninguém com quem pudesse contar. Yunho e Changmin estavam acomodados demais, preocupados com coisas menos importantes, e não levaram a traição de Yoochun a sério. Aquilo não podia permanecer assim. O acordo havia se quebrado há pelo menos um mês, e era muito arriscado ter um Deus do Leste por aí fazendo o que bem entendesse, favorecendo ambos os lados. Ele precisava de uma lição.

Quando encontrou dois delinquentes nas docas do Cannaregio que aceitaram - por um determinado preço - o papel de cúmplices, imaginou que tivesse tudo sob controle; eles eram um pouco amadores, mas serviriam como substitutos. Nada que uma estratégia bem elaborada não compensasse.

E mesmo com alguns imprevistos, a resposta não foi diferente da que esperava. Após deixar o La Gran Scena, planejava contar aos outros qual havia sido a escolha de Yoochun; pediria desculpas e provaria que não se precipitara em vão, pois novamente o moreno havia deixado seu próprio grupo de lado.

Ele havia protegido um idiota metido a ator e um nobrezinho mimado sem pensar duas vezes, colocando-se na linha de frente para que eles pudessem fugir; sem contar os outros dias… os encontros indiscretos com o membro do Spectrum e as informações que muito provavelmente havia  deixado “escapar”. Planejava contar com detalhes sobre como ele havia sido ingrato e desleal mesmo com tudo que os Deuses do Leste lhe ofereceram através dos anos.

Mas agora que Yoochun estava morto, não poderia fazer isso.

Eles não entenderiam. Não acreditariam se contasse que nunca esteve em seus planos tirar a vida do outro, ou se contasse que foi um acidente infeliz.


Jaejoong fitou o horizonte, suspirando, e mesmo sob a neblina pôde enxergar os muros extensos que cercavam San Michele. Fora do caminho de pedras cercado por ciprestes, pela grama que se estendia por onde a visão alcançava e além, havia muitas flores. De todas as cores, espécies e nos mais variados arranjos; o ambiente poderia ser confundido com um jardim se não fossem as lápides, cruzes e estátuas de mármore demarcando cada túmulo.

Outra onda de remorso lhe atravessou, seguida pela indignação. Quando acertou Yoochun com o punhal durante a luta no corredor, estava praticamente se defendendo. Sentiu muita raiva devido às circunstâncias, e no calor do momento quis machucá-lo de verdade, mas também soube manter o controle. Sabia que o corte não havia sido profundo a ponto de se tornar urgente, ele só precisava ser tratado e tudo ficaria bem. Foi somente por isso que o abandonou lá, sangrando daquele jeito. “Imaginou” que ele procuraria alguém tão logo fosse embora; era o mais sensato e óbvio a se fazer. Confiou em uma mera suposição, e como resultado, perdeu um amigo.

Yunho tinha razão, afinal. Não deveria ser assim, não era justo.

A frustração fez lágrimas sutis acumularem-se no canto de seus olhos. O arranjo de rosas vermelhas que segurava nos braços parecia mais pesado que o normal, como se sua culpa também estivesse alojada entre os espinhos, o papel de seda e as fitas de cetim preto.

Alguns metros adiante, o percurso estreito se abriu para um espaço maior com uma larga fonte de pedra no centro, escurecida em toda a sua circunferência; antiga, pacífica e entregue às mãos do tempo como tudo naquela ilha. Dali, três caminhos parecidos com o primeiro guiavam em direções diferentes, ladeados por ciprestes tão altos e próximos que assemelhavam-se a muralhas verdes. Como um labirinto.

O trio seguiu para a direita, cercados pelo mesmo silêncio melancólico e denso que não parecia disposto a deixá-los tão cedo. Imersos em divagações, se arrastaram pela neblina, passando por anjos de pedra, capelas e claustros sem notá-los realmente. Após breves minutos que pareceram eternos, deixaram o cascalho que rangia sob suas botas e passaram entre duas árvores, alcançando a grama macia de um verde forte - que era ressecada em alguns pontos, com falhas em sua coloração.

Caminharam devagar entre as fileiras organizadas de lápides, e quando enfim encontraram seu destino, Jaejoong acabou interrompendo os próprios passos antes dos outros. Aquilo não parecia real. Não importava quantas vezes repetisse para si mesmo que Yoochun estava morto, ainda era assustador pensar que jamais o veria outra vez. Jamais discutiriam, beberiam juntos ou conversariam; nunca mais teria contato com o primeiro Deus do Leste a entrar em sua vida quando esse nome sequer existia.

“O. que. foi. que. eu. fiz.” - sua consciência gritava cada palavra em um tom desesperado. Se aproximou com dificuldade e fitou a superfície límpida do mármore negro. O nome dele estava gravado em letras douradas. Havia também o epitáfio - da mesma cor - e floreios delicados nas bordas retangulares. Nenhuma das datas marcadas ali eram exatas.

Mais desconfortável do que acreditava ser possível, o loiro abaixou-se, apoiando seu peso em um dos joelhos. Sentia que não deveria estar fazendo aquilo, não deveria estar ali. O aroma das rosas lhe deixava enjoado e a neblina somada ao clima frio eram deprimentes. Ansioso para que a visita terminasse logo, se inclinou e deixou o arranjo de flores sobre a pedra escura, ajeitando as lâminas entremeadas nas pétalas. Havia escolhido os canivetes favoritos da coleção do moreno para complementar o “presente”.

Por que escolheu isso? – sussurrou para o amigo que já não podia lhe ouvir – Você estava enfrentando algo mais… e não percebemos? Ou fez isso por vingança, para que eu tivesse de viver com a culpa de todas aquelas discussões?

Também era assustador pensar que não receberia uma resposta para nenhuma das indagações. Não ouviria a voz dele, nem veria o costumeiro sorriso de escárnio. O único lugar onde poderia reencontrá-lo seria na sua memória, em uma versão mais ríspida e inflexível. A imagem mais recente que tinha de Yoochun eram seus olhos sombrios e o tom alterado da última briga que tiveram.

– Eu não queria que terminasse assim. Nunca quis fazer mal a você. – continuou o mais baixo possível para os outros não escutarem – Sinto muito, de verdade.

Sabia que, àquela altura, qualquer coisa que deixasse seus lábios seria inútil. A raiva mesclada à indignação tomou conta de seu peito outra vez, e sua mente o levou de volta para cada desavença que teve com o moreno. Lembrou da maneira como ele havia lhe acusado de ser egoísta, de ter esquecido que os Deuses do Leste eram uma família e que deveriam estar em primeiro lugar sempre.

Entre as várias barbaridades que fizera questão de jogar em sua cara, Yoochun lhe culpara de estar pensando apenas em si mesmo desde o carnaval, de estar obcecado com o Spectrum. E com tudo o que aconteceu… foi como se provasse que ele tinha razão.

Mas não era justo, não era justo mesmo.

Aquilo não era verdade. Cada decisão que tomava, cada ação, era sempre voltada para o bem de seus companheiros. Se em algumas ocasiões havia errado, foi somente por tentar protegê-los. Naquela manhã no La Gran Scena, por exemplo, estava tentando trazer o amigo de volta à realidade; mostrar que ele teria de escolher um lado, o lado certo. Virar as costas para quem lhe acolhera nunca deveria ter sido uma opção.

Jaejoong cerrou os punhos, respirando mais rápido de forma involuntária. Seu coração batia violentamente e parecia prestes a quebrar sua caixa torácica. Como Yoochun tivera coragem de dizer que estava tomado pelo egoísmo? Que esquecera a própria família? Não era verdade!

Sua vida toda foi dedicada a eles, desde os tempos em Macerata. Quando o maldito Spectrum apareceu da primeira vez, roubando o espaço e o público que haviam ganhado com tanto esforço, sabia que seus amigos não mostrariam resistência - e foi o que aconteceu. Yunho, Changmin e Yoochun simplesmente desistiram, decidindo se apresentar em outro lugar, mas não pôde permitir. Não entregaria suas conquistas na mão de novatos que invadiram seu território. Resolveu fazer de tudo para recuperar cada sonho perdido, mesmo que no fim não tenha adiantado.

Como poderia não se importar com os Deuses do Leste, se havia dedicado tanto tempo descobrindo os locais que o Spectrum estaria, para garantir que estivessem lá também? Como poderia ser egoísta, se havia provocado tantos encontros entre os grupos para dar aos seus amigos várias oportunidades de confrontar os supostos “artistas”? Obcecado pelos adversários? Era rídiculo ser chamado assim. Queria apenas se livrar deles, e se precisasse influenciar as escolhas do trio ou levar todos ao limite para que as coisas voltassem a ser como eram antes, então o faria.

E fez, continuava fazendo, mas nada nunca voltou ao normal. Talvez fosse impossível.

Yunho e Changmin não tinham ideia de suas pequenas interferências, provavelmente Yoochun também não; eles acreditavam em algo banal como "destino" ou coincidências, e era melhor assim. Não achava que aceitariam a verdade da maneira que era. Eles não entenderiam o quão longe estava disposto a chegar para protegê-los, por amar as únicas pessoas que sempre estiveram ao seu lado.


Jaejoong foi arrastado de volta ao momento presente por um som dilacerante. Yunho estava chorando de novo. O moreno cobria os olhos com uma das mãos, em meio a tentativas fracassadas de conter os soluços angustiados. As lamentações dele chegavam aos seus ouvidos em forma de tortura; não conseguia pensar em nada que pudesse aliviar aquela dor e sequer possuía esse direito. Mesmo contra sua vontade, notou que precisava deixá-lo sozinho.

Incomodado, levantou-se evitando olhar para Yunho, sentindo a vergonha e o arrependimento alojados em seus ombros. Virou as costas sem oferecer qualquer aviso, se afastando da sepultura em silêncio. Um suave farfalhar na grama indicou que, como se lesse seus pensamentos, Changmin havia decidido sair dali também. Então sem que planejassem, ambos passaram a caminhar juntos através da neblina.

Ninguém disse nada. Para o loiro, aquilo era esperado e ao mesmo tempo preocupante. Não ouvia a voz de Changmin desde que a notícia sobre a morte de Yoochun chegou ao sobrado. Quando Yunho surgiu de madrugada, com as mãos tremendo e mal conseguindo explicar onde encontrara o corpo, o relojoeiro não demonstrou reação. Na manhã do funeral, também não falou coisa alguma. Às vezes Jaejoong podia ouvi-lo chorar, resmungar ou soltar breves lamentos enquanto subia as escadas, mas nunca lhe dirigia a palavra diretamente.

Talvez fosse apenas um efeito colateral da culpa em sua alma, mas achava que ele poderia desconfiar de algo. O mais novo sempre fora mais difícil de manipular; sua inteligência e personalidade observadora costumavam ser obstáculos irritantes quando precisava mentir.

– É um momento tão difícil… eu não sei o que fazer. – comentou despretensiosamente, tentando incentivá-lo a conversar – De tudo que já passamos… nunca houve tamanho infortúnio.

Changmin olhou para trás durante alguns segundos, analisando o líder que chorava com sua postura majestosa em ruínas. Abaixando a cabeça, por fim murmurou:

– É uma das piores perdas que já sofri na vida… mas, sabe, não acho que infortúnio seja a palavra certa. "Infortúnio" está muito relacionado a “destino”, e não foi o destino que tirou Yoochun de nós. Foi alguém.

Jaejoong não pôde controlar o calafrio que embrulhou seu estômago. Desviou o olhar, fitando os vasos de cerâmica com flores em diferentes estágios de decomposição.

– É um pouco estranho, na verdade. Não acha, Jaejoong? – o relojoeiro continuou em um tom calmo, tão melancólico quanto a sombra que cobria seus orbes escuros – Ele desaparece após cometer um erro, e na próxima vez que o encontramos…algo horrível e sem explicação aconteceu. 

– Não foi apenas um erro. Foi traição. E em várias ocasiões. – o loiro deixou escapar, tomado pela súbita urgência de esclarecer os fatos.

– Isso importa mesmo?

– Só fiz uma observação, Minnie.

– Bom… enfim. Não saber o que houve machuca muito. Não saber o que ele fez nos últimos dias, onde esteve… pesa em meu peito. Temos controle sobre nossos inimigos, não entendo como alguém conseguiu fazer isso… – um sentimento forte ardia nos olhos do moreno, e era mais parecido com raiva do que tristeza – Dói pensar que nosso convívio, nossa amizade… foi interrompida de maneira tão brusca. Por causa de… não sei. Simplesmente não sei por quê.

– Todos nós temos segredos, e Yoochun não era exceção. – Jaejoong cruzou os braços enquanto caminhava, buscando passar tranquilidade ao mesmo tempo em que escolhia as palavras com cuidado – Assim como ele falhou conosco… pode ser que tenha feito outras vezes, entende? Talvez tenha cometido imprudências, se envolvido com as pessoas erradas…

– Mas nada que o fizesse merecer a morte, tenho certeza. Não importa o que tenha feito… não é justo, é… desproporcional.

“Acabou assim porque ele quis! Eu dei uma chance, e ele jogou fora!” - o loiro sentiu vontade de gritar, intimidado pelos comentários do outro. Apenas soltou um suspiro, lembrando a si mesmo que precisava manter o controle ou acabaria se entregando.

– Nunca saberemos, Minnie. – foi a resposta que escolheu, tomando o assunto por encerrado – A única pessoa que poderia nos contar a verdade sobre o que aconteceu… não está aqui. Então você não pode ficar preso nesse tipo de questionamento, ou vai enlouquecer.

Ambos interromperam a caminhada ao mesmo tempo, parando no limite do gramado entre dois ciprestes. Jaejoong analisou o olhar baixo do outro, notando que conseguira convencê-lo (pelo menos por enquanto), e se sentiu mal por isso. Não queria aproveitar do momento de fragilidade do amigo para distraí-lo com mentiras; era jogar sujo demais e ultrapassava seus próprios limites. Mas não via outra opção.

Ao perceber o quão desolado ele parecia, tentou abraçá-lo por ser a demonstração de conforto mais honesta que conseguia oferecer no momento. Em um dia qualquer, seria ignorado ou repelido com alguma desculpa, talvez até repreendido pelo afeto exagerado. Como não se tratava de um dia qualquer, o gesto foi recíproco.

– Eu prometo que tudo isso vai acabar em breve. – garantiu, acariciando as mechas castanho-avermelhadas do rapaz enquanto apoiava o queixo em seu ombro – Nunca mais teremos de nos preocupar com essa rivalidade, nem com seus efeitos colaterais, porque logo ela não existirá. Apenas seja paciente.

Pela primeira vez nos últimos dias, o loiro não estava distorcendo as palavras para se encaixarem em sua narrativa ou usando-as de forma vazia; estava sendo sincero. Não deixaria que um mero conflito prejudicasse ainda mais o que restou de sua família.

– Jae, eu… acho que também preciso ficar um pouco sozinho. – Changmin proferiu em um tom muito baixo, se afastando do abraço. Seus olhos, que normalmente oscilavam entre adoráveis e maliciosos, transbordavam tristeza.

– Certo. Bem… verei como o Yunnie está, talvez ele precise de mim. Você nos alcança depois?

– Claro.

Sem mais nada que o prendesse ali, Jaejoong deixou os ciprestes frondosos e caminhou sozinho na direção de seu amado; ele ainda chorava, mas de forma contida. Tentando ignorar aquela visão que lhe machucava tanto, desviou seus pensamentos para algo mais importante, mais urgente. Havia muito o que fazer.

Se quisesse cumprir sua promessa e fazer aquilo acabar, precisaria agir o mais cedo possível. Yunho e Changmin estavam muito abalados, com razão, mas esse sofrimento apenas atrapalharia; talvez tivesse de esperar alguns dias antes de conversar sobre novas estratégias com eles. Seria obrigado a deixar a culpa e o próprio luto em segundo plano para priorizar o que realmente importava. Precisava pensar pelos três.

Começaria alterando o plano no qual vinham trabalhando desde o fim do carnaval, mesmo que faltasse poucos dias para colocá-lo em prática. Todos os passos deveriam ser revisados, adaptados para uma nova realidade em que somente três pessoas eram capazes de cumpri-lo. Por que Yoochun teve de estragar tudo, e tão em cima da hora?

Não havia espaço para falhas ou remorso. Aquela seria a última chance, pois assim que os dois lados se chocassem, apenas um deles sairia intacto. E os Deuses do Leste não podiam perecer. 

Colocaria em jogo qualquer vantagem que tivesse em mãos; poderia usar a tristeza e frustração dos amigos a seu favor, transformar tais fraquezas em motivação para uma ofensiva. Apostaria qualquer coisa pelo fim do Spectrum, se pudesse fazer justiça pela dor de cabeça e pelo tempo que perdeu com eles. Justiça, não vingança. Jaejoong estava certo de que não era vingativo.

Havia outro obstáculo com o qual precisava lidar, em um nível um pouco mais pessoal. Não contaria aos outros sobre ele, nem discutiria formas de tirá-lo do seu caminho. Gostaria de fazer isso por conta própria: ser responsável pela queda de Lee Donghae. Pouco importavam os meios, desde que nunca mais encontrasse aquele rapaz insuportável em Veneza.

A existência de Donghae lhe incomodava desde o começo, desde que amanhecera após o carnaval e ele ainda estava vivo. Todas as memórias com ele despertavam repulsa em seu coração - as visitas inoportunas à relojoaria como o bom intrometido que era, o desespero por atenção ao dançar com outro homem na festa de Kyuhyun, a audácia de apontar uma adaga para Yunho e lhe chantagear. Também não compreendia como aquele nobre, no auge de sua mediocridade, conseguira levar Hyukjae a quebrar o acordo na primeira noite em que se conheceram… era ridículo.

Qualquer tolerância que ainda tivesse em relação a Donghae desapareceu no momento em que o rapaz lhe desequilibrou com uma rasteira, enfiou uma flecha de metal sob suas costelas e o acertou com um lampadário perigosamente decorado. Como aquele desgraçado ousava lhe atacar daquele jeito?

Sempre que pensava naquilo, na dor que ainda sentia em cada ponto atingido, se arrependia por não ter usado mais força. Por não ter batido nele a ponto de deixá-lo inconsciente. Mas na próxima vez que o encontrasse… teria o cuidado de garantir que fosse a última.

Percebendo que tamanho ódio em seu peito não era adequado para a ocasião, Jaejoong se forçou a esquecer todas aquelas preocupações. Aproximando-se de Yunho, evitou olhar para o nome gravado em letras douradas no mármore à sua frente. Conhecendo o poder que o silêncio possuía, apenas encostou a cabeça no ombro de seu amado e assim ficou.

Gostaria de contar a ele sobre seus esforços, sobre a forma como sempre buscou protegê-lo e cuidar de tudo que construíram juntos, sobre o quão longe havia chegado e ainda poderia chegar por amá-lo, mas não valia a pena. Seriam só palavras afinal, e gestos que demonstrassem seu significado eram muito mais preciosos.



.¤.¤.¤.


Quase fundindo-se à paisagem sombria, Changmin continuou parado no mesmo lugar, envolto pela neblina e pelo sussurro do vento. Observou o loiro se afastar a passos lentos até alcançar Yunho. Continuou analisando a dupla por um tempo indefinido, estudando seus gestos e a maneira que conversavam, aguardando com paciência. Quando ambos enfim se afastaram de mãos dadas, vagando pela grama rumo ao próximo caminho de pedras, se permitiu relaxar.

Não suportava estar perto deles, principalmente de Jaejoong, com aquela camisa de um escarlate vibrante e aquele olhar dissimulado. A julgar pelo comportamento estranho, era provável que ele estivesse escondendo alguma coisa, e não tinha certeza se gostaria de saber o que era.

Virando as costas para o casal e para a sepultura de seu amigo, Changmin cruzou os braços, fitando o lado oposto da fileira de ciprestes. Os arranjos de flores cobriam a base das lápides e os pés delicados de querubins; a neblina parecia mais dispersa, fina como teias de aranha serpenteando no ar. A solidão que pairava no ambiente era mais familiar do que gostaria.

Já se sentia desolado desde o momento em que Kyuhyun, a pessoa mais importante de sua vida, lhe proibiu de se aproximar. Sem ele, seguiu através dos dias como pôde, mas com a nova perda… simplesmente não sabia o que fazer, ou como tolerar o próprio sofrimento. Então apenas convivia com ele, sozinho e em silêncio.

Permaneceu ali por muitos minutos - até que os pés doessem, a angústia transbordasse de seu peito na forma de lágrimas e a percepção do tempo ficasse confusa. Espreitando por trás de cada emoção que ousava surgir, havia aquele mesmo sentimento enraizado: raiva. Muita raiva, profunda e com várias origens, preenchendo suas veias e obscurecendo seus pensamentos. Deixou-a consumir cada parte de si, sentindo o coração se agitar e um desejo bizarro de descontar em alguém tomar forma.

Quando sentiu que estava pronto para recolocar sua máscara de serenidade, respirou fundo e virou-se novamente, olhando ao redor. Encontrou seus companheiros ao longe, vagando pelo cemitério feito almas perdidas; Jaejoong não passava de um ponto vermelho sob a neblina. Decidiu alcançá-los pelo caminho mais longo e demorado que houvesse, não sem antes aproveitar do momento de privacidade para se despedir de maneira correta.

Arrastando as botas pela vegetação falha, voltou a estar diante da lápide de mármore. Não conseguia olhar para ela, pois não queria encarar a realidade nos escritos dourados; preferiu fitar os botões do próprio casaco enquanto dizia um adeus apropriado ao amigo. Pediu desculpas várias vezes, lamentou por não insistir em procurá-lo durante os dias de afastamento, prometeu que encontraria o culpado mesmo que nada fosse mudar. Disse tudo o que gostaria, o que pensava e o que planejava; desabafou sem receio pois o amigo sempre fora um bom ouvinte.

Ao fazer menção de deixar o local, um detalhe incomum chamou sua atenção. Franzindo o cenho, Changmin se abaixou e moveu o arranjo de rosas vermelhas para o lado, tomando cuidado para não desmanchar a disposição delicada dos canivetes. Dois objetos repousavam escondidos sob o papel de seda: um par de luvas negras e uma fita de cetim azul. Nesta última havia um símbolo familiar bordado em prata: a marca dos Deuses do Leste.

Os dedos do moreno se fecharam em torno do acessório para cabelo. Sabia que as duas coisas pertenciam a Yoochun, e sabia que nenhuma delas estava ali antes. Virando a cabeça em todas as direções, procurou por qualquer indício de um visitante. Com exceção de Yunho, Jaejoong e a folhagem das árvores, nada mais em San Michele se movia.

Ainda que não encontrasse evidências, tinha certeza que alguém havia estado ali por tempo suficiente para deixar as duas “lembranças”. Alguém que se importava o bastante a ponto de fazer isso. Alguém que, para possuir aqueles objetos, provavelmente estivera com Yoochun nos últimos dias - ou em seus últimos momentos.

Alguém que talvez soubesse o que aconteceu de verdade.

Changmin estremeceu, culpando o sopro de vento frio que chegou sem aviso e bagunçou seus cabelos castanho-avermelhados. Desconfiava que talvez fosse o momento de reconsiderar algumas convicções e pessoas nas quais sempre acreditara.




Notas Finais


Detalhes da ilha de San Michele: https://www.instagram.com/p/CNQsHmMBqza/?igshid=1szatczetxb73

Jaejoong falsiane, maquinando tudo pelas costas dos outros esse tempo todo, tsc tsc tsc.... mas o Changmin claramente não nasceu ontem, veremos até onde isso vai💀

Por hoje é só, espero que tenham curtido o capítulo ^^ observações, teorias, reclamações, surtos e etc podem deixar aí embaixo! E pra quem ta com saudade do famoso Eunhae, se atentem pq vem aí!

Se cuidem, view em house party e até a próxima! ♡


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