História Um amor pra recordar Adaptação - Capítulo 2


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Categorias Um Amor para Recordar
Tags Espiritualidade, Romance
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Palavras 2.781
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Ficção Adolescente, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Spoilers
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Vou dividir cada capítulo em dois para que a leitura não seja cansativa. Espero que gostem.

Capítulo 2 - Capítulo 1.1



CAPÍTULO 1

   Em 1958, Beaufort, na Carolina do Norte, situada na costa perto de Morehead City, era
uma pequena cidade, igual a tantas outras do Sul. Era o gênero de lugar onde a humidade
subia tanto no verão que sair de casa para ir buscar o correio nos dava logo vontade de tomar
uma ducha, e as crianças andavam descalças de Abril até Outubro sob os carvalhos ornados de barbas-de-velho. As pessoas acenavam de dentro dos carros sempre que viam alguém na
rua, quer conhecessem ou não, e o ar cheirava a pinheiros, sal e mar, um aroma único das
Carolinas. Para muitas daquelas pessoas, pescar no Pamlico Sound ou apanhar caranguejos no
rio Nele era um modo de vida, e ao longo de toda a Intercostal Waterway viam-se barcos
atracados. A televisão transmitia apenas em três canais, mas a televisão nunca fora importante
para os que ali cresceram. As nossas vidas centravam-se, em vez disso, à volta das igrejas,
que só dentro dos limites da cidade eram dezoito.
   Tinham nomes como Igreja Cristã da
Assembléia da Amizade, Igreja do Povo Perdoado, Igreja da Expiação de Domingo e depois, claro, havia as igrejas batistas. Na minha juventude, a Igreja Batista era de longe a
congregação mais popular das redondezas e havia igrejas batistas praticamente em cada
esquina da cidade, cada uma delas considerando-se superior às outras. Havia igrejas batistas
de todas as variedades - Batistas da Livre Vontade, Batistas do Sul, Batistas
Congregacionistas, Batistas Missionários, Batistas Independentes... bem, já devem ter
ficado com uma idéia.
   Naquele tempo, o grande acontecimento do ano era promovido pela igreja batista do
centro da cidade - a Sulista - juntamente com a escola secundária local. Todos os anos
encenavam uma peça de Natal na Beaufort Playhouse, que na verdade, era uma peça escrita
por William Forbes, um pastor que pertencia àquela igreja desde que Moisés abriu o mar
Vermelho. Está bem, talvez não fosse assim tão velho, mas era tão velho que quase se podia
ver através da sua pele. Tinha a pele sempre meio pegajosa e translúcida - as crianças
juravam que conseguiam mesmo ver o sangue a correr nas suas veias e o seu cabelo era tão
branco como os coelhinhos que se vêem nas lojas de animais por altura da Páscoa.
   Pois bem, ele escreveu uma peça chamada O Anjo de Natal, porque não queria continuar a
encenar aquele velho clássico de Charles Dickens, Cântico de Natal. Na sua opinião, Scrooge
era um pagão que alcançou a sua redenção apenas por ter visto fantasmas, não anjos e, de
qualquer maneira, quem poderia garantir que eles tivessem sido enviados por Deus? E se os
fantasmas não tinham sido enviados diretamente do céu, quem poderia dizer que Scrooge não
iria voltar à sua conduta pecaminosa? A peça não o dizia propriamente no final de certa
maneira, falava-se da fé e tudo isso mas William não confiava em fantasmas se eles não
fossem de fato enviados por Deus e tal não era explicado numa linguagem clara. Esse era o
grande problema da peça. Alguns anos antes, ele tinha alterado o final, fazendo a sua própria
versão, com o velho Scrooge a transformar-se em padre e tudo, partindo para Jerusalém a fim
de encontrar o lugar onde Jesus em tempos ensinara os escribas. Não foi muito bem recebida
nem sequer pela comunidade de fiéis, sentados na platéia assistindo ao espetáculo com os
olhos arregalados e o jornal local disse coisas do gênero: "Embora, sem dúvida, interessante,
não é exatamente aquela peça que todos nós aprendemos a conhecer e a amar...".
   William decidiu então tentar escrever a sua própria peça. Tinha escrito sermões a vida inteira,
e alguns deles, tínhamos de admitir, eram realmente interessantes, especialmente quando
falavam da "ira de Deus caindo sobre os fornicadores" e desse gênero de coisas. É que lhe
fazia mesmo o sangue ferver, digo-vos, quando falava dos fornicadores. Essa era a sua
verdadeira paixão. Quando éramos mais novos, eu e os meus amigos escondíamo-nos atrás
das árvores e
gritávamos "O William é um fornicador!" quando o víamos descer a rua. Ríamo-nos como
idiotas, como se fôssemos as criaturas mais espirituosas que já tinham habitado o planeta.
O velho William parava de repente, as suas orelhas levantavam-se - juro por Deus, elas
mexiam-se mesmo - e o seu rosto ganhava um tom vivo de vermelho, como se tivesse acabado
de beber gasolina, e as veias grandes e verdes do pescoço começavam a dilatar-se, como o
rio Amazonas naqueles mapas da National Geographic. Olhava de um lado para o outro, os olhos muito cerrados tentando descobrir-nos e, em seguida, de modo igualmente repentino,
começava a ficar pálido novamente, voltando àquela pele de peixe, mesmo diante dos nossos
olhos. Bem, era digno de ser visto, disso não há dúvida.
Então ficávamos escondidos atrás de uma árvore e William (mas quem são os pais que
dão o nome de William a um filho?) permanecia ali à espera que nos rendêssemos, como se
achasse que éramos assim tão estúpidos. Tapávamos a boca com as mãos para evitar rir alto,
mas, de alguma maneira, ele conseguia sempre perceber quem éramos. Ficava a olhar de um
lado para o outro e, de repente, parava, os olhos pequenos e brilhantes apontados na nossa
direção, atravessando diretamente a árvore. "Sei que é você Stefan Salvatore", dizia, "e Deus
também o sabe." Deixava que pensássemos nisso durante um minuto ou dois e, por fim, seguia
o seu caminho. Durante o sermão desse fim-de-semana, fixava-nos com o olhar e dizia
qualquer coisa como "Deus é misericordioso com as crianças, mas as crianças também têm de
ser merecedoras da sua misericórdia". E nós encolhíamo-nos nos bancos, não por vergonha,
mas para esconder um novo ataque de riso. William simplesmente não nos compreendia, o que
era muito estranho, uma vez que ele até tinha uma criança. Mas era uma menina. Sobre isso,
porém, falaremos mais tarde.
   Como já disse, houve um ano em que William escreveu O Anjo de Natal e decidiu
encenar essa peça em vez da outra. Na verdade, a peça em si não era má, o que surpreendeu
todo mundo no primeiro ano em que foi representada. Era, basicamente, a história de um
homem que tinha perdido a mulher há alguns anos. Esse homem, Tom Thornton, era muito
religioso, mas teve uma crise de fé depois da mulher ter morrido ao dar à luz. Tom Thornton
acaba por cuidar da filha sozinho, mas não é o melhor dos pais. Surge um Natal em que o que
a menina quer mesmo é uma caixinha de música especial com um anjo gravado na tampa, que
ela vira num velho catálogo e cuja fotografia havia recortado. Durante muito tempo, o homem
procura o presente por todo o lado, mas não o consegue encontrar em lugar algum. Chega
então a véspera de Natal e ele continua à procura, e enquanto está na rua a olhar para as lojas
depara com uma mulher estranha que nunca tinha visto e que promete ajudá-lo a encontrar o
presente para a filha. Primeiro, porém, ajudam um sem-teto (naquela altura chamávamos-
lhes vagabundos), depois passam por um orfanato para visitar algumas crianças, em seguida
visitam uma mulher velha e sozinha que queria apenas alguma companhia na véspera do Natal.
Nesse ponto da história, a mulher misteriosa pergunta a Tom Thornton o que deseja para o
Natal e ele responde-lhe que quer a sua mulher de volta. Ela leva-o ao chafariz da cidade e
diz-lhe que olhe para a água, pois ali encontrará aquilo que procura. Quando ele olha para a
água, vê o rosto da sua filhinha e desata a chorar ali mesmo. Enquanto isso, a mulher
misteriosa desaparece e Tom Thornton procura-a mas não a consegue encontrar. Por fim,
dirige-se a casa. As lições que aprendera durante o dia davam-lhe voltas à cabeça. Entra no
quarto da filha e a sua figura adormecida o faz perceber que ela é tudo o que lhe resta da
mulher. Começa a chorar de novo, pois sabe que não tem sido um bom pai. Na manhã seguinte,
como por magia, a caixinha de música surge debaixo da árvore de Natal e o anjo gravado na
tampa parece exatamente a mulher que ele vira na noite anterior.
   Assim, de fato, a peça não era tão má. Para dizer a verdade, as pessoas vertiam rios de
lágrimas sempre que a viam. Esgotava todos os anos em que era levada à cena e, devido à sua popularidade, William acabou por ter de transferi-la da igreja para a Beaufort Playhouse, que
tinha muito mais lugares. No meu último ano de escola secundária, faziam-se já dois
espetáculos com casas cheias, o que, para aqueles que interpretavam a peça, era já por si um
grande acontecimento.
É que William queria que fossem jovens a representá-la - os alunos do último ano, não o
grupo de teatro. Suponho que ele julgava que era uma boa experiência de aprendizagem antes
de os alunos seguirem para a universidade e se defrontarem com todos os fornicadores. Ele
era esse gênero de pessoa, querendo sempre salvar-nos da tentação. Queria que soubéssemos
que Deus estava sempre a vigiar-nos, mesmo quando estávamos longe de casa e que, se
confiássemos Nele, tudo acabaria bem. Foi uma lição que, por fim, aprendi, embora não
tivesse sido William a ensiná-la.
   Como já disse, Beaufort era bastante típica como cidade do Sul, embora tivesse uma
história interessante. O pirata Blackbeard teve ali em tempos uma casa, e diz-se que o seu
navio, o Queen Anne's Revenge, se encontra enterrado algures na areia ao largo da costa.
Recentemente, uns arqueólogos, ou oceanógrafos, ou quem anda à procura de coisas desse
gênero, disseram que o tinham localizado, mas no momento ninguém tem ainda a certeza, uma
vez que se afundou há mais de duzentos e cinqüenta anos e não há documentos que possam
servir como provas de ser esse barco. Beaufort mudou muito desde os anos 50, embora ainda
não seja exatamente uma grande metrópole. Beaufort era, e sempre será, uma comunidade
pequena, mas quando eu era ainda criança mal justificava um lugar no mapa. Para melhor se
perceber, o distrito que incluía Beaufort abrangia toda a parte oriental do estado - alguns
cinqüenta mil quilômetros quadrados - e não tinha uma única cidade com mais de vinte e cinco
mil habitantes. Mesmo comparada a essas cidades, Beaufort era considerada pequena. Toda a
zona a leste de Raleigh e a norte de Wilmington, até à fronteira com a Virgínia, fazia parte do
distrito que o meu pai representava.
   Suponho que já tenham ouvido falar dele. Ainda agora ele é uma espécie de lenda.
Chamava-se Giuseppe Salvatore, e foi membro do Congresso durante quase trinta anos. A sua
palavra de ordem, ano sim ano não, durante a época das eleições era "Giuseppe Salvatore representa..."e a pessoa devia preencher o nome da cidade onde vivesse. Lembro-me que durante as
viagens que fazíamos, quando eu e a minha mãe tínhamos de aparecer em público para mostrar
às pessoas que ele era um verdadeiro chefe de família, costumávamos ver esses autocolantes
preenchidos a stencil com nomes como Otway, Chocawinity e Seven Springs. Hoje em dia,
essas coisas já não resultariam, mas naqueles tempos era uma forma de publicidade
razoavelmente sofisticada. Imagino que, se ele fizesse isso agora, os seus adversários
introduziriam todo o tipo de palavrões no espaço em branco, mas nós nunca vimos isso. Bem,
talvez uma vez. Um agricultor de Dupím County escreveu a palavra merda no espaço em
branco, e quando a minha mãe a viu, tapou-me os olhos e disse uma prece pedindo perdão
para aquele pobre e ignorante patife. Ela não proferiu exatamente essas palavras, mas eu
percebi o sentido.
Portanto o meu pai, o Sr. Congressista, era o manda-chuva local, e todos, mas todos,
sabiam isso, incluindo o velho William. Pois bem, os dois não se davam lá muito bem, não se
entendiam de todo, apesar de o meu pai visitar a igreja de William sempre que ia à cidade, o
que, para ser franco, não acontecia assim com muita freqüência. William, para além de pensar
que os fornicadores estavam destinados a limpar os urinóis no Inferno, também acreditava que
o comunismo era "uma doença que condenava a humanidade ao heregismo". Apesar de
heregismo não existir como palavra - não
consigo encontrá-la em dicionário algum - os fiéis sabiam o que ele queria dizer. Sabiam
também que dirigia aquelas palavras em particular ao meu pai, sentado de olhos fechados e
fingindo não ouvir. O meu pai pertencia a uma das comissões da Câmara dos Representantes
que estudava o "perigo vermelho" que, supostamente se estava a infiltrar em todas as esferas
do país, incluindo a defesa nacional, o ensino superior e até a cultura do tabaco. Não se
esqueçam que isto se passou durante a Guerra Fria; as tensões estavam ao rubro, e nós, os da
Carolina do Norte, precisávamos de alguma coisa que trouxesse tudo aquilo para um nível
mais quotidiano. O meu pai, de forma coerente, tentava procurar fatos, os quais eram
irrelevantes para pessoas como William.
Depois, quando chegava a casa após a missa, dizia qualquer coisa como "O reverendo
Forbes esteve muito bem hoje. Espero que tenhas prestado atenção àquela parte do
Evangelho em que Jesus fala dos pobres...".
   — Sim, claro, pai...
   O meu pai tentava relativizar as situações sempre que possível. Penso que foi por isso que se
manteve no Congresso durante tanto tempo. Ele podia beijar os bebês mais feios à face da
terra e ainda inventar algo de simpático para lhes dizer. "Que criança tão amorosa",
comentava, quando o bebê tinha uma cabeça gigantesca, ou "Aposto que é a menina mais
querida deste mundo", se a bebê tivesse uma marca de nascença que lhe cobria o rosto inteiro.
Uma vez apareceu uma mulher com uma criança numa cadeira de rodas. O meu pai olhou para
ele e disse: "Aposto dez contra um em como és o melhor aluno da tua turma." E era! Pois é, o
meu pai era o máximo neste gênero de coisas. Estava à altura dos melhores, disso não há
dúvida. E não era assim tão mau, na verdade, especialmente levando em conta que não me
batia, nem nada disso.
Mas não esteve presente durante a minha infância. Detesto dizer isto, porque hoje em dia as
pessoas falam muito dessas coisas, mesmo quando os pais estiveram de fato presentes, e
usam-nas como desculpa para o seu comportamento. "O meu pai... não me amava... foi por isso
que me tornei numa stripper e apareci no Jerry Springer Show..." Não estou a usar isto para
desculpar a pessoa em que me tornei, estou apenas a constatá-lo como um fato. O meu pai
estava ausente nove meses durante o ano, vivendo num apartamento em Washington, D.C., a
quase quinhentos quilômetros de distância. A minha mãe não ia com ele, porque ambos
queriam que eu crescesse "da mesma maneira que eles tinham crescido".
Claro, o pai do meu pai levava-o a caçar e a pescar, ensinou-o a jogar à bola, aparecia nas festas de aniversário, aquelas pequenas coisas que, todas juntas, são muito importantes antes
de nos tornarmos adultos. O meu pai, pelo contrário, era um estranho, alguém que eu mal
conhecia. Durante os primeiros cinco anos de vida pensei que todos os pais vivessem fora de
casa num outro lugar qualquer. Foi só quando o meu melhor amigo, o Klaus Mikaelson, me
perguntou no jardim de infância quem era aquele homem que aparecera em minha casa na noite
anterior que percebi que havia algo de errado naquela situação.
   — É o meu pai — respondi, orgulhoso.
   — Ah — disse Klaus, vasculhando na minha lancheira, à procura do meu Milky Way. — Não sabia
que você tinha pai.
   Foi como se me tivessem dado um estalo na cara.
De maneira que cresci sob os cuidados da minha mãe, uma senhora simpática, meiga e gentil,
o gênero de mãe com quem a maioria das pessoas sonha. Mas ela não foi, nem podia ter sido,
uma influência masculina na minha vida e, esse fato, juntamente com a desilusão crescente em
relação ao meu pai, fez com que me tornasse meio rebelde, mesmo quando era ainda muito
novo. Não um rebelde dos maus, atenção. Eu e os meus amigos podíamos sair às escondidas
de casa à noite e ensaboar os vidros de automóveis de vez em quando, ou comer amendoins
cozidos no cemitério por trás da igreja, mas nos anos cinqüenta eram coisas que levavam os
pais a abanar a cabeça e a sussurrar para os filhos: "Não queiram ser como o filho dos Salvatore.
Não tarda nada, vai parar na prisão."
Eu. Um badboy. Por comer amendoins no cemitério, imaginem.
 

                                    [...] 


Notas Finais


Serão dois capítulos por semana, considerando que vou dividir eles. Por hoje já ser sexta, o próximo sai em 24 horas.


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