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História Um Amor Proibido - Gumlee - Capítulo 53


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Notas do Autor


[...] Muitas vezes nos permitimos sentir uma dor que não desejamos pelo simples vislumbre da razão. [...]

Capítulo 53 - Tempos Difíceis


Fanfic / Fanfiction Um Amor Proibido - Gumlee - Capítulo 53 - Tempos Difíceis

POV Flame

Voltar para casa no carro da mamãe não me trazia boas lembranças. Sendo bem sincero aquilo me lembrava o fundamental quando quase todo dia ela fazia visitas constantes ao coroa do Simon. Em outro momento eu estaria rindo daquilo ou mesmo com a testa tão franzida a ponto de formar rugas. A falta de sorte é que aquela não era a ocasião. As reclamações dela ecoavam no fundo enquanto minha atenção, evasiva como era, deslizava nos pensamentos. Na verdade, parte desse devaneio tinha a ver com aquela caneta no meu bolso.

— Flame! Flame, você tá me ouvindo?

— O-Oi. Ah sim, com certeza. – Soei como se tivesse entendido uma palavra do que ela tinha dito.

— O que eu acabei de falar?

Eu não fazia a menor ideia. Tentei ser óbvio:

— Ah, mãe, você fala umas mil coisas como quer que eu lembre de tudo? Eu entendi, eu entendo. Você tem toda razão de estar brava comigo. – Fiz a linha condescendente.

— Sei... Você não me engana, Flame. Eu não nasci ontem. – Como ela amava ser irônica.

— Lá vem você...

— É lá vem eu mesmo, Flame. Eu me mato de falar: fique longe dessa gente, fique longe desse povo. No começo do ano eu mesma lhe sugeri: eu coloco você numa escola particular. Mas parece que...

— Ah então agora o problema é com “essa gente”? Até parece que há uns cinco anos atrás nós não éramos “essa gente”. – Fiz questão de interrompê-la e deixar bem claro as aspas.

— Você me entendeu! Toda essa vida, esse bairro, nossa casa, esses malditos guardas nos protegendo. Eles não tão aqui pra enfeite, Flame. Essa vida da gente exige essas coisas! Não quero nem olhar na cara do seu pai.

Eu até cogitei rebater aquilo, mas o pouco de maturidade que eu tinha construído até ali não deixava. Era inútil discutir com ela. E eu sabia disso mais do que qualquer um. Felizmente ou nem tanto assim a gente já estava quase em casa. Durante aquele trecho da estrada até os portões, ela não falou mais nenhum “a”. Continuei olhando de lado assim como antes. Ela só precisava estacionar aquele maldito Tesla que eu saltaria dali como se estivesse prestes a explodir.

— Você vai pra onde... – Fechei a maldita porta antes de escutar mais nada.

Deixei-a tentando estacionar aquilo e segui direto pela lateral. A última coisa que eu queria pensar em ver era o interior “chique” daquela casa. Sim eu estava com saudades da Bete. No entanto, não era o bastante para que os últimos neurônios ativos que eu tinha não estivessem totalmente focados em disparar mais e mais ódio na minha corrente sanguínea. Eu tinha que me acalmar. O jardim se mantinha impecável. Bete cuidava de cada narciso como se fossem suas filhas. Corri o mais distante que as folhagens e o gramado permitiam. Parei exatamente no banquinho.

O vento e o sombreado me trouxeram um pouco de paz. Por poucos segundos eu resolvi por em prática o mantra que tinha aprendido na época da reabilitação: inspira e expira. Aquele gesto singelo, apesar de bobo, funcionava. Com a mente mais calma, saquei o celular e enviei uma mensagem para a primeira pessoa que eu conseguia pensar naquela situação. Abri o chat com o Jason e enviei: “Eu preciso de você, de verdade (carinha de cabisbaixo)”. Como depois de tudo eu ainda tinha tempo suficiente para gastar procurando emoji? Eu tinha que ser internado, definitivamente.

Me arrependi daquilo, mas não ia apagar a mensagem por isso. A mensagem de fato era real. Eu não ia ficar naquela casa por nem mais uma hora. Só ia aproveitar que estava lá, escolher umas peças e tomar uma ducha demorada. Passei a mão sobre o jeans e senti a saliência do gravador. Logo veio à minha mente a injustiça que a detetive Norman tinha sofrido e continuava sofrendo. Apertei firme com ódio e logo soltei temendo que por bobagem eu estragasse a única prova concreta que existia contra o Justin. Ignorei de uma vez aquelas flores e segui perfumado, naturalmente, até a entrada lateral da sala.

Subi as escadas antes que qualquer um me chamasse a atenção. Sequer cumprimentei Bete, não queria ter que explicar nada. Antes de desaparecer no andar de cima eu notei que minha mãe se afundava no uísque. Era a única forma que ela tinha de lidar com os problemas. Revirei os olhos em desacordo completo com aquela atitude dela e segui desenfreado direto para o meu quarto. Talvez eu tenha batido a porta um pouco forte demais, até eu percebi. Larguei no chão aquelas peças de roupa como se não aguentasse mais nenhuma delas no meu corpo.

Só de cueca lembrei que aquela calça e camiseta tinham sido os trapos que Jason tinha feito questão de dobrar atentamente pela manhã. Esses detalhes de atenção me marcam com voracidade. Saquei com cuidado a caneta do bolso e deixei em cima da pia, longe o bastante do chuveiro e protegida pelo primeiro tecido macio que eu vi - uma toalha de rosto. Um banho gelado era o que eu precisava. Os minutos seguintes foram a segunda parte mais reconfortante do dia. Não preciso nem dizer que a primeira envolvia um bad-boy marrento. Até sorri enquanto me ensaboava. Quando minha pele já tinha se acostumado com o frio eu sabia que era hora de sair, afinal eu tinha que cumprir com a minha promessa do jardim.

Saí enrolado e ao invés de sair procurando uma peça na frente daquele closet, infinito e fatídico, fui até a varanda. O vento ameno contra minha pele molhada trazia um vigor livre de qualquer explicação. Mas, era bem verdade que a paz andava de mãos dada com a confusão. Assim que olhei ao longe vislumbrei a infeliz carranca do meu pai enquanto fechava a porta de seu inseparável Rolls-Royce. Pensar nisso me fez lembrar do meu carro. Olhei preocupado para ele e fui de encontro ao meu celular no mesmo instante. Enviei uma mensagem para o Marshall deixando claro que tinha que pegar meu bebê de volta.

Nos minutos seguintes não tive sequer o trabalho da dúvida. Aquela noite no apartamento do Jason tinha me influenciado escancaradamente. Fui direto de encontro ao meu moletom preto da Vans e saquei do cabide um jeans branco e rasgado. Já pronto só tive o trabalho de calçar meus tênis pretos all-star. Assim que dei o último laço nos cadarços ouvi algo bater na porta. Pela força e impaciência eu já sabia quem era. Sabendo no que podia dar eu corri direto para o banheiro e guardei o gravador no bolso de novo. Na cama eu notei que o Marshall tinha mandado um áudio. Abri a porta receoso.

— Por que demorou tanto?

Nem parecia o psicopata estressado que batia na minha porta. Aquela facilidade de ele transitar entre bonzinho e maníaco me deixava todo arrepiado.

— E-Eu não sei... Eu tava me trocando. Você quer entrar? – Fiz ala com uma das mãos.

Ele sorriu.

— Eu não preciso da sua permissão. – O coroa entrou no quarto e trancou a porta atrás de si.

O silêncio entre a gente apesar de uma boa barreira não era exatamente o que eu queria. O coroa logo retrucou:

— Como anda nossa casa de praia? – O sorriso no rosto dele era amedrontador.

— Você já...

— É claro que eu sei. – Manteve uma pausa longa. – Flame, tudo, absolutamente tudo que acontece dentro e fora dessa casa com a “minha” família é de “minha” extrema responsabilidade.

— Pai, me desculpa. – Meus olhos já ansiavam por liberar toda aquela tensão.

— Eu sei de você e do seu namoradinho. E tá tudo bem, calma, eu sou evoluído o bastante pra querer o bem do meu filho. – Ele juntou o rosto bem próximo do meu me encurralando contra o closet. - Você é feliz com esse tal de...

— Jason. – Cortei-o ainda com as lágrimas querendo saltar de medo e ódio.

Todo mundo dizia que meu pavio curto tinha sido herdado da mamãe. Eu costumava concordar porque não adiantava dar detalhes da minha vida para os outros, mas no fim das contas eu sabia quem era a pessoa mais perigosa da família. Ele não era demasiadamente malhado e nem nada, usava aqueles óculos de gerente de banco, às vezes. Era o melhor amigo que você podia ter – fora de casa – isso tem que ser salientado. No entanto, eu e minhas irmãs sabíamos quem era o S. Flama dentro de casa. Ele demorava ter essas conversas com a gente, mas quando as tinham eram de ficar na memória. Alguém bateu na porta naquele momento.

— Flame, o que tá acontecendo? – A mamãe sabia o que acontecia quando nós dois “conversávamos” a sós.

— Cala a boca! Eu tô conversando com o caralho do nosso filho! – Essa alternância me deixava nos nervos. – Onde estávamos? Ah sim, você é feliz?

— Sou! E muito. – Minha voz já sai meio trêmula.

— Por que tá com medo? Não precisa ficar assim, você é meu filho querido. – O coroa tirou um fio de cabelo que atrapalhava minha testa.

Permaneci calado. Uma lágrima também escorreu.

— Eu só te peço “uma” coisa. Eu te dou “uma” restrição. Eu sempre deixo claro pra todos vocês! Não interfiram na porra dos meus negócios! – Ele afastou e virou de costas.

— Se fossem legais não teria... – Eu sabia que ia me arrepender de dizer aquilo.

Antes de terminar a frase o infeliz virou e me deu uma tapa firme no rosto. O gosto de ferro espalhando na boca era a gota d’água que faltava. Logo em seguida ele me segurou pelo pescoço e me elevou um pouco do chão. Minha garganta fechada pela pressão não me deixava respirar. Não conseguia entender de onde via toda aquela força. Por mais que eu tentasse não conseguia me soltar. No instante que o desgraçado percebeu o roxo se espalhando pelo meu pescoço ele largou. Cai no chão com a única missão de recuperar o ar, além disso não preciso nem explicar meu ódio. Antes fosse o bastante o velho se agachou e disse bem próximo de meus ouvidos:

— Esses negócios “ilegais” que você tanto fala, são o que compram essa blusa cara, seu tão querido carro, ah e todas essas festas que você faz enquanto estamos fora.

— Como você...

— Ah você achou que eu não sabia? Em que mundo você acha que a gente vive hoje, Flame? Tudo o que eu preciso está aqui. – O coroa mostrou o celular pelas pontas dos dedos.

Toquei meus lábios e percebi que ainda sangravam. No geral qualquer um estaria se perguntando: por que você não revidou ou não fez isso ou aquilo? Não sei. Não faço a menor ideia. Não é tão simples, mesmo que à distância pareça o contrário.

— Você é fraco, Flame. E os negócios da família Flama não admitem essa atitude. Agora se me permite eu vou tentar resolver sua bagunça com os Gray. Se eu fosse você teria cuidado antes de qualquer novidade.

O coroa saiu do quarto e no instante que a porta se abriu pude notar a mamãe mais uma vez submissa às atitudes dele. Não a repudio, eu tinha acabado de fazer o mesmo. Aquelas palavras só me faziam pensar no objeto que pairava em meu bolso. Levantei limpando o pouco de sangue que escorria. Eu tinha que sair dali. Chequei o celular em meu bolso e abri no chat com o Jason. Ele já tinha respondido as mensagens que eu tinha feito no jardim. Com a feição inexpressiva enviei: “Eu não posso mais ficar aqui. Preciso da sua ajuda”.

***

POV Marshall

Como tinha planejado, nada no mundo nos separaria. Larguei-o apenas quando nossas mãos pareciam velhas de tanto tempo no mar. Gumball emanava felicidade. No caminho entre as águas e a areia, aproveitei para vê-lo como um fotógrafo analisa seu trabalho. Me perguntava todos os dias se merecia aquele doce na minha vida. Tudo nele ela lindo, o jeito como parecia sorrir mesmo com os olhos fechados, um corpo de dar inveja, um par de nádegas perfeitas. Sorri bobo quando notei que o analisava demasiado. Finalmente saímos e sentamos à margem.

O sol não se punha. E eu odiei o fato de não poder fazer parte de mais um conto clichê. Era um sol das dezesseis horas, bastante calmo, mas não se punha. Nos escoramos apoiados pelas palmas das mãos, e sabíamos que iam sujar e no fim íamos ter que voltar na água. Nada disso importava.

— Você tá tão perto e ao mesmo tempo tão longe. – Fiz bico.

— Qual é, a gente não tem nem um braço de distância. – Ele tinha razão.

Apenas ri. Gargalhei talvez fosse a melhor palavra. Depois de convencê-lo a rir comigo o toque no celular nos roubou aquele momento. Ele puxou o aparelho naquele emaranhado de camisetas e olhou por instantes. Parecia indeciso então ajudei-o:

— Você precisa mesmo atender? Não quero pensar em nada, mas na última vez nos separamos por ele.

O rosado olhou atento para mim e se dando por vencido juntou o celular de novo à pilha.

— Tem razão. Seja quem for, nada vai atrapalhar esse momento.

— Então por que não desencana e acaba com essa distância de um braço? Eu não vou suportar. – Fiz drama.

Gummy deu um giro na areia e se pôs sobre mim. Tinha areia por todo fio rosa dele e eu queria rir, mas o que vinha depois era mais interessante do que simplesmente rir. Nos beijamos mesmo sem um astro atrás da gente descendo nas águas. Isso é bobagem, o importante da cena eram nossos lábios se juntando como mágica. 


Notas Finais


Optar pela dor nem sempre é uma decisão do destino. Às vezes, e quase sempre, nós mesmos podemos decidir.


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