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História Um caminho para dois - Capítulo 12


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Notas do Autor


Obrigada a quem comentou no capítulo 11. Fiquei tão feliz com os comentários que recebi que arranjei um momento pra revisar este capítulo pra postar hoje.

O próximo sai sábado, se tudo der certo ;)

Comentem e me digam o que acharam. Se considerarem digno de um comentário, ficarei feliz em receber um.

Capítulo 12 - O caminho entre Tokyo e Nagoya


Governanta de uma casa enorme, madrinha de Sesshoumaru e prima da mãe do afilhado e de Inuyasha, a senhora Kaede, ou Kaede-baa-chan como o mais novo a chamava, descia lentamente as escadas da mansão da família Taisho para se dirigir à cozinha.

Tinha por hábito, desde que perdera a visão do olho direito, de usar a roupa da mesma cor do tapa-olho. Naquele dia, como esperado, tinha escolhido um quimono azul escuro com obi branco, tapa-olho combinando com as vestes.

Iria organizar o desjejum para os três homens da casa, porque certamente eles morreriam de fome se tivessem que preparar alguma coisa. Era um costume naquela família que provavelmente não mudaria se casassem.

Todos os dias, nos últimos anos, era daquele jeito. A prima havia falecido e a ela restou a tarefa de cuidar dos filhos e do sogro, algo que fazia de bom grado, sem se aborrecer. Fazer comida, preparar algumas coisas de casa, jogar go com o patriarca... Sim, ela não tinha aborrecimentos ou sustos.

Naquele dia, no entanto, ao entrar na cozinha, sufocou um grito ao encontrar Sesshoumaru parado na frente dela, quase bloqueando a entrada.

–Que susto! – ela o repreendeu, uma das mãos em cima do coração – Você se perdeu na casa? O que faz aqui?

–Preciso que prepare um bentô e um café da manhã para dois. Sem carne. – ele pediu com toda a seriedade típica dele.

–Você não vai comer aqui? – ela franziu a testa – É a primeira vez que isso acontece.

O rapaz nada comentou.

–Bem, vou preparar o café para todo mundo e fazer o seu.

Sesshoumaru olhou o relógio.

–Não vai dar tempo. – ele franziu a testa enquanto calculava o horário que tinha que fazer uma refeição decente e levar Rin para a estação – Vou sair então e comprar algo no caminho.

Ao se virar para ir embora, ouviu a voz de Kaede.

–Espere.

Olhou-a por cima do ombro. Ela ajeitava o avental branco e limpo na frente do corpo, amarrando as pontas atrás do pescoço.

–Quanto tempo?

–Meia hora. – ele respondeu.

–Meia hora. – ela repetiu – Muito bem.

Kaede pôs-se a preparar um café da manhã para dois reforçado: tsukemono, sopa missô, arroz, nattokobachi...

Enquanto cortava cebolas, sentiu a presença do rapaz como um cão de guarda olhando o que ela fazia por cima do ombro.

–O que foi?

–Não tem mesmo carne nisso aí, não?

–Claro que não. – ela bufou e depois misturou a cebola com outros legumes e verduras para preparar o kobachi.

Ficaram em silêncio, ele ainda olhando por cima do ombro dela.

–Você vai tomar café com alguém? - ela perguntou suavemente.

–Sim. – foi tudo o que ele respondeu.

–É a primeira vez que faz isso.

Escutaram a voz de Inuyasha reclamando de alguma coisa. Segundos depois o mais novo, ainda de roupão por cima da roupa de dormir, entrava na cozinha para dar um grito de susto ao se deparar com Sesshoumaru de braços cruzados ao lado de Kaede.

–Caramba, que susto! – ele colocou a mão em cima do coração acelerado – O que tá fazendo aqui? Tá perdido?

–Por que todos me perguntam isso agora? – Sesshoumaru franziu a testa, realmente confuso com a situação – Eu moro aqui.

–O que você quer, Inuyasha? – Kaede não parou o que fazia para dar atenção ao rapaz.

–Cadê o café da manhã? – ele reclamou, depois fez uma cara de desgosto ao sentir o cheiro de algo que o desagradava – Ugh. Cebolas.

–Vai demorar um pouco. – ela avisou – Estou preparando algo para o seu irmão.

–Pode preparar à vontade – ele levou o braço ao nariz para tapá-lo com a manga do quimono, em uma tentativa de impedir o cheiro de chegar até ele como se fosse algo venenoso – Pode encher de cebola isso aí e não deixar nenhuma aqui em casa.

–Você deveria comer também. Faz bem pra saúde. – ela avisou.

–Ugh... – ele ignorou a fala dela com um aceno, o braço ainda o protegendo – Vou esperar então meu café da manhã sem cebolas.

–Sai, sai. – ela o espantou com a mão como se fosse um cachorro.

O rapaz foi embora da cozinha, deixando-os novamente à sós.

Kaede continuou preparando dois vasilhames de tamanho médio do café da manhã, juntando um em cima do outro.

–Você acha que ela gosta de ovos? – ela perguntou ao começar a preparar o bentô.

Sesshoumaru franziu a testa.

–Como sabe que é "ela"?

Kaede olhou por cima do ombro.

–A pessoa, Sesshoumaru. A pessoa gosta de ovos?

Houve um momento de silêncio entre os dois.

–Nada de origem animal, por favor. – ele pediu, olhando novamente o relógio.

–Certo, certo... nada de animal. – ela murmurou enquanto preparava uma porção de salada de batata.

Mais alguns segundos se passaram. Ele continuava olhando por cima do ombro dela.

–É para aquela jovem que passou a noite aqui? – ela perguntou.

Sesshoumaru ponderou se deveria responder honestamente ou simplesmente ignorar.

–Sim. – ele optou pela verdade.

–Inuyasha me falou sobre ela. – ela continuou – Que ela não é daqui.

O bentô estava quase pronto. Ela terminou de cortar tomate cereja e o temperou com vinagre de arroz.

–Eu a vi de longe. Ela é bem bonita.

Três bolinhos de arroz recheados com ameixa japonesa, salada de batata com pepino, brócolis e arroz e tomates formaram o bentô que seria para Rin almoçar.

–Aqui. – ela separou três pares de hashi, tampou a vasilha de plástico, colocando-a em cima dos outros vasilhames para cobri-los com um pano branco. Por fim, deu um nó nas pontas – Tudo pronto.

–Obrigado. – ele pegou todo o monte com a mão esquerda para testar o peso. Não haveria problema em carregar e parecia bem amarrado e protegido.

–Espero que ela goste. – ela comentou, já começando a preparar o café da manhã da casa. Propositalmente havia separado uma cebola e começou a cortá-la para colocar na comida de Inuyasha – Você volta para almoçar?

–Sim. – ele respondeu, preparando-se para ir embora – Até mais tarde.

Quando a cozinha ficou em silêncio, ela olhou para trás apenas para se certificar de que não havia mais ninguém ali.

–Como se ninguém fosse saber para quem era...

o-o-o-o-o

Rin se olhou de novo no espelho pela terceira vez desde que acordara, procurando inutilmente por algum sinal que indicasse se estava com um aspecto ruim. Qualquer sinal. O irmão faria questão de perguntar até o que eram aquelas enormes olheiras.

Sim, olheiras. Maiores e mais escuras que nos dias anteriores.

O irmão perguntaria, e, claro, teria que responder da melhor forma, dizer que foram três dias infernais na faculdade e que não teve tempo de dormir direito. Hakudoushi faria o possível para tirá-la da capital ao menor sinal de que Rin estaria sofrendo.

E a desculpa dela era verdadeira.

Passou o creme facial no rosto lentamente, massageando as maçãs, o queixo, a testa, até que a pele absorveu completamente a substância. Era uma loção anti-brilho bastante refrescante da Shiseido, a marca favorita dela.

Sorriu ao perceber, pelo espelho, que apenas aquilo parecia deixá-la com uma aparência mais saudável.

Penteou o cabelo, armou um rabo de cavalo com um laço que combinava com o vestido azul claro que escolheu pra viagem – por cima tinha um cinto preto que marcava a cintura. Aquilo parecia ser moda, então se chegasse daquela forma e se o primo estilista aparecesse em casa sem avisar, já estaria preparada. Ele não teria surtos por vê-la em trajes e acessórios descombinados.

Deu-se conta que precisava se apressar: tirou os fios que insistiam em cair no rosto e atrapalhar a visão, ajeitou a roupa, conferiu de novo as olheiras e... sorriu de novo.

Olhou a palma da mão. Parecia sentir um calor emanando dela. A lembrança de ter os lábios de Sesshoumaru tocando aquilo por mais de cinco segundos preencheu a mente por parte da noite. Só um ato tão simples para fazê-la se sentir bem daquele jeito.

ele estava quase para chegar... rumou à sala, onde a mala grande estava pronta, o casaco dobrado em cima de uma caixa, a bolsa transversal em cima do sofá. Se pudesse, levava tudo o que trouxe a mais de uma vez para Nagoya, inclusive as roupas que o primo dera para ela. Aliás, aquela mala enorme era culpa dele.

Escutou uma batida suave na porta e olhou o relógio. Estava na hora. Como será que ele entrou?

Tomou cuidado para não cair ao andar na ponta dos pés até a porta. Abriu, e lá estava ele, calmo, tranquilo, segurando um embrulho com o que parecia ser a refeição deles em uma única mão.

–Bom dia. – ela murmurou e deu passagem. Ele apenas assentiu com a cabeça, num cumprimento silencioso, e entrou. Educadamente ela pegou as marmitas enquanto ele tirava os sapatos com os próprios pés para entrar.

–Achei que Kaede não fosse terminar de aprontar isso a tempo. – ele se desculpou, deixando que ela fechasse a porta.

–Kaede?

–Pensei que tivesse conhecido. – ele comentou, colocando os sapatos num canto, observando os detalhes da roupa. Nos últimos dias ela estava usando roupas mais... apropriadas para o verão, e parecia se sentir perfeitamente confortável com elas – Ela mora conosco.

–Ah... Eu não a conheci.

Ficaram parados, a porta fechada, trocando olhares.

Percebendo o estranhamento, ela deu passagem a ele:

–Você disse que a gente iria sair pra tomar café... Só tem o sofá pra sentar. – ela deu um sorriso sem graça – Tudo bem pra você? Posso aproximar a mesinha do sofá. A outra está ocupada com meus livros.

–Sem problema. É bom para conversar. – apontou para as marmitas – Totalmente vegetariano. Kaede também gostou de preparar. Ainda falou para Inuyasha que ele não deveria deixar de comer cebola.

Rin abafou uma risada e deixou que ele se sentasse primeiro, no mesmo lugar da noite anterior. Também assumiu o lugar dela, desfazendo o nó e sorriu satisfeita ao sentir o cheiro.

–Tem um bentô aqui...? – ela franziu a testa.

–É para o seu almoço. Ela disse que espera que você goste. – ele falou antes de ela abrir o bento dela.

–Ah... pode falar que só pelo cheiro já gostei. Obrigada. – ela sorriu. Não chegou a ser apresentada a Kaede-san, mas acreditava ser ela uma pessoa importante para Sesshoumaru... Se ela fez aquilo a pedido dele, então deveriam os dois ter um relacionamento próximo.

–Bom apetite. – falaram ao mesmo tempo, típico hábito japonês.

Começaram a comer em silêncio confortável, mas que não durou muito: ele sabia que Rin não conseguia se manter calada por muito tempo.

–Você conseguiu planejar sua vingança? – foi a pergunta dela.

hashi com arroz parou a centímetros dos lábios dele.

–Sim. Consegui. – ele respondeu com calma, prestando atenção no rosto dela: ela sorria como se achasse que ele não falava sério – Ele vai sofrer assim que você estiver descansando em Nagoya.

–Oh. – ela se fez de surpresa, arqueando bastante as sobrancelhas – E como vai ser isso?

Sesshoumaru não respondeu, limitando-se a mastigar a refeição enquanto ela fazia beicinho de derrota por não conseguir arrancar uma resposta dele.

Para mudar de assunto e ignorar aquela absurda expressão no rosto dela, ele perguntou:

–Nervosa para rever a família?

–Sim. – ela murmurou, suavizando as linhas do rosto – Meu irmão vai me buscar na estação. Eu brinquei que ele ficaria me esperando lá vinte e quatro horas antes.

E Sesshoumaru a atrasaria por mais vinte e quatro horas só para que o outro continuasse esperando por ela. Aliás, esse rapaz deve ter algum tipo de obsessão pela irmã. Só isso explicaria a fixação por querer tê-la apenas perto dele.

–Conseguiu dormir bem aqui? – ele quis saber.

–Oh... – ela murmurou, olhando alguns pontos do apartamento – Eu coloquei um amuleto na porta do quarto e outro ali perto da varanda. Deu tudo incrivelmente bem hoje. Dormi como uma criança. Tenho que agradecer mais uma vez a Kagome-chan. Não sei o que poderia acontecer se ela não tivesse me ajudado com isso aqui.

De repente, ele se lembrou de perguntar uma coisa:

–Por que você decidiu vir para Tokyo? – era algo que sempre teve que esperar pela oportunidade para saber.

–Como assim?

–Quando você decidiu ir embora da sua cidade, poderia ir a qualquer outra do país... Por que quis Tokyo? Você não tinha ninguém aqui.

–Hmm... – ela murmurou enquanto comia uma pequena porção de natto – Na verdade, eu pedi transferência pra todas as universidades fora de Nagoya. E a Toudai mandou a resposta primeiro.

Para uma pessoa ser aprovada para estudar melhor universidade do país significava algo valioso.

Rin era valiosa, concluiu.

–Você conhece Nagoya? – ela perguntou, pegando mais uma porção para comer.

–Não. – ele confessou. As experiências dele em viagens eram bastante limitadas.

–Se fosse pra lá, eu iria mostrar a cidade a você.

Sesshoumaru ergueu a sobrancelha diante do comentário. Eram planos que poderiam se concretizar? Ele não tinha o menor interesse de conhecer... Mas com Rin como uma boa companhia...

–E poderia ser agora, se eu pegasse um trem pra lá? – perguntou.

Os olhos de Rin se arregalaram. Por que ele iria querer viajar com ela?

–Acho que não seria possível agora. – ela riu, escondendo a boca com a mão direita – Minha família já tem tudo programado para todas as semanas de férias. Mas qualquer outra vez, quando eu não estiver correndo de um lado pra outro lá.

A informação pareceu acender outro problema.

–E o que mais fará? – ele tentou manter a conversa enquanto processava a informação.

Parecia agora certeza de que Rin não ficaria em Tokyo depois que se formasse. O apego dela pela família parecia bem mais forte do que a que sentia pela dele. Ela não tinha planos de ficar na capital depois da formatura.

E isso seria em pelo menos oito meses.

–Hmm... Minha família costuma fazer reuniões com todos os parentes, tem sempre muita comida e conversa. – a voz dela o trouxe de volta ao presente enquanto a mente dele refletia sobre o futuro – É um dos únicos dias em que meu irmão não fica mal-humorado. Meus primos costumam contar todos os acontecimentos da família. É quase como um Gossip Cop dos Nozomu.

–Você vai contar sobre o que aconteceu com a sua mão? – ele perguntou.

Rin pausou e o encarou.

–Não... E nunca vou contar, já falei isso. – falou determinada – Meu irmão vai matar o responsável se souber.

–Eu não vejo nenhum problema nisso. – Sesshoumaru ergueu uma sobrancelha.

Rin deu uma risada alta.

–Vocês dois são parecidos.

–Somos?

–Sim. Além de treinarem kendo, são superprotetores.

Protetor? Ele? Novamente ergueu uma sobrancelha.

–Rin, eu acho melhor nos apressarmos. – ele olhou o relógio no pulso – Estamos conversando demais.

–Você é impaciente.

–E você fala demais.

–E você gosta disso.

Outra vez ele ergueu uma sobrancelha.

Outra gargalhada veio por parte de Rin.

–Vamos acabar primeiro... Seu apressado.

Sesshoumaru se limitou a arquear uma sobrancelha.

o-o-o-o-o

–Tem certeza que a plataforma é nessa direção? – Sesshoumaru perguntou, enquanto Rin andava calmamente empurrando a mala de quatro rodas na direção sul da estação para pegar o Shinkansen, o trem-bala, ignorando a pressa dele.

–Absoluta. – ela dedicou um sorriso ao rapaz – Ele sempre sai dali.

Sesshoumaru nada comentou. Rin parou de andar e começou a correr em círculos ao redor dele, fazendo aquele irritante barulho ao puxar a maleta de rodas.

–Admita que nunca viajou num trem. – ela o desafiou – Aí eu paro com o barulho. Eu sei que você detesta isso.

Imóvel no meio do círculo que ela criou, Sesshoumaru parou a roda com um pé, e Rin quase caiu no chão ao tropeçar. Ele a segurou nos braços e sentiu o quão envergonhada ela ficou apenas de olhar a posição do corpo: ombros curvados, cabeça baixa, rosto escondido. Ele sentiu-a tremer como se quisesse conter um acesso de risadas.

–Não, eu nunca viajei mesmo. – ele admitiu, vendo-a erguer a face excessivamente vermelha numa expressão curiosa. Ela parecia com raiva por estar naquela posição, mas também divertindo-se com a cena – Eu tenho quase tudo aqui em Tokyo.

Ajudou-a ficar em pé e manteve-se numa distância amigável, as mãos nos bolsos enquanto a observava ajeitar o cabelo, suavizar as linhas do rosto e morder os lábios como se quisesse abafar uma risada.

–Aposto que nunca andou de metrô também. – ela ajeitou a alça do vestido no ombro e a bolsa transversal – Você deveria tentar fazer essas coisas simples da vida.

–E seu irmão deixa você andar de metrô? – ele perguntou meio surpreso. Era sabido do caso de superlotação e os constantes assédios e casos de violência sexual contra as mulheres nos vagões.

Desta vez, ela riu alto, chamando a atenção de outros passantes da plataforma.

–Realmente, acho que ele só me deixou andar de metrô quando criaram as linhas especiais para mulheres... e eu já tinha dezoito anos nessa época. – ela franziu a testa depois – Acho que foi bom ele fazer isso, no final das contas.

Pararam em frente à plataforma onde o rapaz leu Toukaidou Shinkansen e reconheceu a logomarca da Central Japan Railway Company num trem parado nos trilhos, já à espera dos passageiros. Alguns passavam pela catraca e procuravam pelo vagão onde sentariam.

Rin tirou a passagem dela da bolsa e preparou-se para posicioná-la em frente a um leitor magnético.

Antes de fazer aquilo, porém, ela se virou para o rapaz com um sorriso.

–Obrigada pela companhia ontem... e hoje. E pela refeição também. Estava ótima. – ela não escondia a sinceridade das palavras.

Sem dizer mais nada, ela deu um beijo num lado do rosto dele, que permaneceu impassível por alguns segundos, até que ela viu discretamente os cantos dos lábios dele se elevarem.

–Vou trazer uma daquelas lembranças típicas de turistas pra você. – ela olhava ora para ele, ora para trás para ver se o trem dava sinal de partida – Um copo ou um daqueles globos com neve falsa sobre um castelinho da região.

Ficaram em silêncio. Perto dele, uma voz anunciava seguidamente a partida do trem em cinco minutos.

–Preciso ir. – ela falou.

–Você precisa ir.

Rin moveu a cabeça num lento "sim". Depois virou-se para o leitor e posicionou a tarja magnética da passagem em frente a ele, que deu um sinal positivo antes de abrir a catraca.

–Até a volta! – ela acenou antes de entrar na plataforma e procurar um vagão.

Sesshoumaru a viu entrar numa das portas que indicava a primeira classe, depois de entregar a passagem a um controlador.

Ficou parado até o trem sumir da estação. Colocando as mãos no bolso do casaco, ele deu as costas e foi embora.

o-o-o-o-o

Já era início da noite no quarto de Sesshoumaru quando o celular começou a tocar. Ele, que tirava um cochilo depois de estudar para a prova da Ordem durante a tarde, tentou ignorar os toques. Um. Depois dois, três, quatro vezes... Até que finalmente precisou atender um número desconhecido.

–Sim? – falou numa voz que tentava disfarçar a sonolência.

Sesshoumaru, é Kagura. – a voz dela soou alegremente do outro lado – Que milagre se dispor a me atender.

–Até mais.– ele fez menção de desligar, mas a voz estridente dela o impediu.

NÃO, NÃO! NÃO DESLIGUE, POR FAVOR! Eu só posso dar esse telefonema... Por favor, não desligue...

–O que houve? – ele perguntou, começando a se preocupar com o tom de voz angustiado e a suspeitar o motivo de ela dizer que só podia dar um telefonema.

Eu me envolvi numa confusão esta tarde... Com Bankotsu. – ela começou, nervosa – Estou presa. Estamos presos na verdade... Mas Bankotsu vai sair daqui a pouco e não queria chamar meus pais... Pode vir aqui pagar minha fiança? Eu prometo me acertar ainda hoje com você.

–Mas o que você fez para...?

Por favor, por favor, por favor! – Kagura implorou numa voz lamuriosa, interrompendo-o – Eu não aguento mais ficar aqui. 

–Em qual distrito você está?

Na delegacia do quinto. – ela tomou fôlego – Vai me tirar daqui?

–Estou indo aí. Não faça confusão, mulher.

Obrigada...

Olhando para o aparelho como se pudesse ver o rosto dela, ele podia jurar que ela estava chorando.

Vou ficar quietinha até você chegar. – ela prometeu – Estão me mandando desligar agora... Então até...

Sesshoumaru desligou antes que ela pudesse terminar de falar. Se estivesse na delegacia, ele a veria bufar de raiva.

Antes de procurar o endereço num aplicativo, ele leu algumas mensagens que havia recebido: Gossip Cop, Kawashima perguntando sobre Rin, o irmão perguntando se queria ver um filme como se morassem muito longe um do outro.

Depois viu uma de um número desconhecido.

Cheguei bem. Obrigada pela companhia. Rin.

Aquele era o número dela? Será que poderia ligar para saber como havia sido a viagem?

Balançou a cabeça ao lembrar que deveria resolver um problema antes. Abriu o aplicativo de mapas e procurou o nome da rua onde se localizava a delegacia do distrito indicado. Descobriu que ficava próximo ao prédio onde Rin morava, e se deu ao trabalho de parar alguns minutos para pensar na garota que agora estava longe, a quase três horas de distância de Tokyo.

Olhando de novo para o guia, Sesshoumaru lembrou-se em procurar a delegacia que tinha naquela região. Encontrou o endereço e anotou o número e o endereço dela para colocar no GPS do carro, fechando o livro. Arrumou-se e verificou a temperatura, decidindo pegar um casaco tanto para ele quanto Kagura, pois duvidava que ela tivesse um na delegacia.

Desceu rapidamente as escadas e encontrou Inuyasha na sala de estar com Kagome, os dois sentados no sofá assistindo ao filme.

–Eu mandei mensagem perguntando se queria ver alguma coisa... Vai sair agora? – o irmão franziu a testa, estranhando a pressa dele em se arrumar.

–Kagura se meteu numa confusão com aquele namorado dela. Eles estão presos agora e ela me ligou para tirá-la de lá. – ele separou um casaco para a outra garota e pegou no armário do corredor o dele.

–Pelos deuses... – Kagome murmurou – Mas... você só vai tirar Kagura, não é?

Era óbvio que ela queria dizer que Sesshoumaru não ia lá também por causa do ex-namorado de Kagura, Bankotsu, uma das figuras mais desagradáveis da família Shinichitai. O relacionamento conturbado entre ambos durou pouco tempo, mas ficou bastante conhecido entre as famílias e amigos próximos.

-Sim. – ele respondeu, secamente – Boa noite para vocês.

Assim que ficaram a sós, Inuyasha comentou.

–É tão estranho ele se importar com outros. Os meus olhos ainda nem conseguem piscar de espanto. Sabia que ele pediu pra Kaede preparar comida pra ela levar na viagem?

–Inuyasha! – Kagome deu um puxão repreensivo na orelha dele, o que o deixou muito irritado – Eles já foram namorados... E o seu irmão não é tão insensível assim.

Inuyasha continuava olhando incrédulo para ela.

–Vê só como ele trata a Rin-chan. Estou torcendo tanto pelos dois. – Kagome tinha os olhos brilhando de tão sonhadora.

–Espero que não tenha sido por isso que deu pra ela aqueles amuletos feitos pelo seu avô trambiqueiro.

–Eles trazem boa proteção, tá? – ela bufou e cruzou os braços em protesto – Para afastar espíritos ruins. Ela gostou muito de receber.

Inuyasha passou um braço pelo ombro dela e a aproximou para encostar-se novamente nele.

–Eles dão certo, tá? – ela parecia extremamente aborrecida. Depois esticou o braço e pegou a bolsa em cima da mesinha e tirou um pedaço de papel semelhante ao usado na fabricação de selos xintoístas de lá – Tome. Faça um pedido.

Inuyasha pegou o papel e ficou olhando para ele como se nunca tivesse visto um antes.

–É pra escrever aqui, ó! – ela apontou para um dos lados e deu uma caneta para ele – Faça um pedido e guarde.

Kagome viu o namorado escrever algo e guardar o selo no bolso.

–Você quer voltar pro templo? – ele perguntou.

–Hmm... – ela verificou o relógio no celular e sorriu – Pode ser. Não gostei muito do filme. Por que esse cara fica enrolando pra decidir se fica com a menina que vem de longe e a ex-namorada que quer matá-lo? Não faz o menor sentido isso.

De repente, a garota parou ao sentir os braços dele a segurar com força na cintura e a respiração quente dele na base do pescoço dela.

–Inu... Inuyasha...?

–Avise a sua mãe... – ele começou, sussurrando – que vai... passar... a noite aqui.

Kagome arregalou os olhos e tocou um dos braços, murmurando o nome dele numa voz surda. Ele a abraçou com mais força e encostou a testa na nuca dela. O único som que se escutava naquele ali era o das batidas do coração de ambos.

–... comigo – ele completou.

Inuyasha esperava por uma resposta dela, mas quando a viu libertar-se dos braços dele e virar-se para abraçá-lo e beijá-lo, ele percebeu que não era preciso responder ao pedido dele.

o-o-o-o-o

Quase dez da noite, depois de quase uma hora resolvendo o problema de Kagura, finalmente Sesshoumaru tinha conseguido pagar a fiança e conseguido a liberação dela. Depois de saírem dali, ele a levou para a casa, evitando conversar com ela sobre os motivos que a levaram a ser detida. Kagura percebeu isso e esperou pacientemente pelo momento certo para falar o que queria.

Quando chegaram ao conjunto onde ela morava, o mesmo de Sango, a garota, vestindo o casaco que ele trouxera para ela, pediu para acompanhá-la até a entrada do prédio. Ele, com muita relutância e praticamente puxado pelo braço, aceitou.

Os dois caminhavam devagar pelo jardim, parando ao lado da piscina para olhar o céu estrelado.

–E então? – ela começou – Você já ligou pra ela?

Sesshoumaru a olhou indiferente.

–Sabe de quem estou falando, né? Já ligou pra ela?

–Não. – ele respondeu, secamente.

–Será que ela tem outra pessoa lá, por isso quer voltar tanto?

–Por que você insiste em falar sobre isso quando amanhã todo mundo vai comentar sobre sua estadia no quinto distrito? – ele voltou-se para encará-la – Ou acha que aqueles desocupados do Gossip Cop perderam isso?

Kagura fez um biquinho com os lábios enquanto deixava o silêncio se tornar constrangedor para ela.

–Desculpe... – ela murmurou – Eu sei que não está interessado em falar nela agora.

Não estava interessado? Ele sempre podia falar a respeito de Rin se quisesse, mas aquele não era o caso. Kagura não falou o motivo da prisão. Bankotsu já não estava mais lá quando ele chegou, e ela não quis conversar a respeito no carro.

–Bankotsu e eu... brigamos.

–É bastante óbvio isso, mas quero saber o motivo que levou alguém a chamar a polícia para deter um casal brigando. 

Kagura mordeu o lábio e mergulhou em silêncio. Sesshoumaru respirou fundo.

–Bem...? – ele a incentivou. Ambos continuavam perto da piscina. Kagura se virou para o lado da água e ficou observando o reflexo fraco e trêmulo da lua.

–Eu estou grávida.

Da distância em que estavam, ela pôde ouvi-lo prender rudemente a respiração. Ele esperava qualquer frase, qualquer justificativa, menos aquela.

–De Bankotsu. – ela continuou fragmentando a narrativa. Mas era uma informação a mais inútil, porque só podia ser do outro rapaz.

E ele nada comentou, preferindo o habitual silêncio.

–Nós brigamos porque ele não vai assumir. – ela engoliu em seco e continuou – Mas não achei que os vizinhos fossem chamar a polícia. Nem percebi que estávamos passando dos limites.

Kagura deu uma risada sem graça e ficou em silêncio, esperando pela reação de Sesshoumaru. Sentiu vontade de sacudi-lo pelos ombros para vê-lo reagir. Parecia até que o problema era com ele.

Felizmente ela não precisou fazer aquilo. Ele levou os dedos da mão direita até a ponte entre os olhos e apertou a região.

–E o que você decidiu fazer?

–Bem... Eu vou cuidar de mim, sem ajuda de Bankotsu.

–Ele precisa assumir a responsabilidade. – ele continuava sério, assumindo quase o mesmo tom que o avô usava para falar sobre assuntos importantes – Mesmo que não tenha o nome da família, ele precisa sustentar o que criou, não?

Kagura arqueou uma sobrancelha em desafio.

–Deveria se preocupar com a sua menina em Nagoya. Vai que ela encontra outra pessoa lá, e nem vamos poder saber porque lá não tem um sistema de informações tão eficiente quanto o nosso

–E você deveria se preocupar com você mesma a partir de agora.

Kagura piscou várias vezes depois de ouvi-lo falar. Ele realmente parecia mais preocupado com ela?

Ambos ficaram em silêncio por um longo tempo que nenhum dos dois pareceu perceber.

–Sesshoumaru... – Kagura finalmente falou.

–O quê? – ele falou sem tirar os olhos de algumas constelações que achava interessante. Mal percebeu quando Kagura o empurrou para dentro da piscina.

Kagura deu uma risada histérica que fez alguns vizinhos do condomínio abrirem as janelas para ver o que estava acontecendo. Ela se curvava e apertava a barriga para conter as risadas, que só pararam quando ela abriu os olhos e viu Sesshoumaru, roupas encharcadas e cabelo pingando, na frente dela extremamente sério.

Temendo que ele pudesse fazer algo, ela saiu correndo antes de ouvi-lo estalar os dedos.

o-o-o-o-o

Ao chegar em casa, Sesshoumaru, ainda com roupas e cabelo molhados e tremendo muito, ignorou o olhar de Jaken ao passar por ele antes de subir para o quarto. Trancando a porta, ele tirou a roupa rapidamente e vestiu um roupão que tinha à mão, rumando ao banheiro para tomar banho e tirar o cloro do corpo.

Meia hora depois, ele já estava com roupas de dormir, tentando ignorar um calafrio que percorria o corpo.

Sentou na beira da cama e deitou no colchão para olhar o teto do quarto, dando um suspiro cansado.

Dois dias muito intensos por causa de Rin. Não havia outra palavra para descrever.

O rosto virou para o lado e notou o celular perto. Havia tirado do bolso da calça e secado externamente, mas o estrago já estava feito. Tinha a tela completamente escura. Teria que providenciar o conserto dele ou a compra do outro no dia seguinte.

Lembrou-se da mensagem de Rin. Lamentavelmente não teria como respondê-la no momento.

Olhou o teto do quarto e deu um suspiro cansado. Parecia que ela havia providenciado um celular assim que chegou a Nagoya, afinal de contas. Haveria um momento para mandar uma ou duas mensagens, se conseguisse recuperar os dados.

De repente, veio um espirro. Depois outro. No terceiro, Sesshoumaru tentou se lembrar quando foi a última vez que havia ficado doente.

o-o-o-o-o

Na cidade de Nagoya, na estação principal da cidade, um dos trens, vindo da capital japonesa à tarde, parou e abriu as portas para que as pessoas descessem rapidamente antes da próxima viagem.

Nozomu Rin era um desses passageiros, empurrando a mala de quatro rodas que deslizavam suavemente pelo piso. O casaco estava em um braço, a bolsa transversal no corpo.

–Nagoya, estou de volta! – ela deu um largo sorriso ao reconhecer o lugar.



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