História Um conto de Alice - Capítulo 24


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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Bishoujo, Bishounen, Comédia, Drama (Tragédia), Ecchi, Fantasia, Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Científica, Harem, Hentai, Lemon, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Seinen, Shoujo (Romântico), Shounen, Sobrenatural, Suspense, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


E aí pessoinhas! Desculpa a demora para postar, mas eu tive alguns problemas sérios na minha família para resolver e quando finalmente pude sentar para terminar o capítulo, vi que o bloco de notas do celular não tinha salvo nada do que eu tinha escrito e acabei tendo que reescrever tudo de novo! Peço desculpas mais uma vez! Então sem mais delongas, fiquem com o capítulo!

Capítulo 24 - Reversos - Parte 2


Fanfic / Fanfiction Um conto de Alice - Capítulo 24 - Reversos - Parte 2

- Alícia...?! Você voltou...?!- Insistiu o vampiro ainda surpreso, e os outros dois pareciam estar bastante surpresos também.

Como sou burra! Como não percebi isso antes?! Estava na minha cara o tempo todo! Escondido, atrás da gola levantada do Will Reverso, uma tatuagem com o meu nome escrito. Alícia...

Era tão óbvio! A nossa história já aconteceu antes! Não aqui no presente, mas no passado! Se isso for mesmo verdade, então talvez eu ainda tenha uma chance de contornar essa situação! Ou ao menos foi o que pensei, antes da expressão de espanto no rosto dele ser substituída por uma raivosa e impiedosa.

- Essa não é a Alícia!- Disse ele enfurecido.- É uma farsante! Está tentando copiar a minha Alícia! Matem ela! Quero que desapareça da minha frente!

Assim que ele ordenou, eu ainda tentei correr, mas fui brutalmente puxada para trás por Vinnie e jogada no chão.

- Não...- Resmunguei, mas o lobisomem veio para cima de mim e começou a apertar-me o pescoço e o ar logo começou a tornar-se raro para mim.- Pare...! Eu não sei de quem vocês estão falando...!

- Quanta petulância, sua invasora desgraçada!- Rosnou o vampiro, sinalizando para que Vinnie não continuasse a me apertar.- Como ousa falar isso?! Eu mesmo deveria acabar com você! Por fingir ser a minha Alícia!

- A sua Alícia...?! Olha, eu posso não ser a Alícia que você pensa que eu sou... Mas eu definitivamente sou a Alícia!

Ele ficou me olhando em silêncio, com o mesmo olhar enfurecido de antes. Depois ordenou para que Vinnie me soltasse e assim ele o fez. Eu me levantei tossindo, enquanto recuperava o fôlego. Mas tinha de ser cautelosa, já que ele mantinha o olhar fixo em mim.

- Você não deveria ter vindo aqui!- Disse ele por final.- Volte para a sua dimensão, para o seu mundo enquanto ainda tem tempo!

Eu o olhei surpresa, mas ele falava sério.

- O que você está querendo dizer?- Perguntei, e ele tornou a ficar em silêncio mais um pouco antes de me responder e sair andando em seguida junto dos outros dois.

- Me siga!

- Hã?! Ei, me esperem!- Pedi, e tive de correr para alcançá-los.- Aonde estamos indo? Você não respondeu a minha pergunta!

- Cala a boca e anda!

- S-Seu grosseiro!

Eu os segui até o portão dos fundos da escola, que dava para a floresta, e ali me recusei a sair. Mas impacientemente, Vinnie pegou-me pelo pulso e saiu me puxando a força. Eu acabei parando de resistir depois de um tempo, ele era muito mais forte do que eu, então não iria adiantar nada insistir.

Fomos entrando cada vez mais na floresta. E paramos perto de uma enorme árvore com uma abertura em seu caule. Havia uma tábua de pedra presa ali, era uma sepultura. A minha sepultura! Com o meu nome talhado na tábua e várias flores ao redor. Nesta realidade, nesse presente, eu já estou morta!

O Will Reverso andou ao redor da árvore e arrancou de um dos galhos mais altos uma flor vermelha, que a colocou com cuidado sobre a sepultura.

- A Alícia se foi...- Disse ele com amargura.- E eu não pude fazer nada para impedir!

Ele parecia estar prestes a chorar, mas tinha certeza que o seu orgulho não iria permitir que isso acontecesse. Eu me soltei das garras de Vinnie, e me aproximei devagar. Abaixei-me perto dele, e fiquei encarando a sepultura e a lápide com meu nome.

- O Will vem aqui sempre!- Contou-me o fantasma.- Todos os dias, pela manhã, depois do almoço, e ao entardecer! Quando chove, ele trás uma manta térmica, e quando está muito Sol, irriga a terra com água fresca.

- Às vezes ele mata as aulas só para vir até aqui!- Completou o lobo.- E também colhe as flores e tira as ervas daninhas quando crescem.

Eu os ouvia, mas realmente não tinha nada que se podia fazer! Mortos não podem voltar a viver, pelo menos não como antes de sua morte.

- Como foi que isso aconteceu?- Perguntei, e eles hesitaram em me responder.- Como foi que ela morreu?!

- No parto!- Berrou Will inconformado, com a voz tornando-se trêmula.- Ela morreu no parto! No parto do nosso filho!

Filho... Filho... Filho?! Não pode ser! Eu e o Will... Tivemos um filho?! Bem, não fui eu exatamente, mas... Caramba! O que a minha outra eu estava pensando?! É lógico que isso não daria certo! Uma humana e um vampiro juntos assim...

- Ela não resistiu à dor. E nem ao tanto de sangue que perdeu!- Continuou Will ao se levantar.- Mas lutou até o final! E eu... Só pude ficar sentado e assistindo à tudo sem poder fazer absolutamente nada!

- Mas e a criança?!- Insisti, me levantando também.- O que aconteceu com o bebê?! Não me diga que nasceu morto...!

- Não. Era muito saudável! Até demais, na verdade. Mas não viveu por muito tempo!

- O que aconteceu com ele?! Não, você não...

- Sim. Eu o matei! Na mesma madrugada em que a Alícia se foi!

A minha raiva e frustração foram tão grandes nesse momento, tão descontroláveis, que não me contive em dar-lhe um tapa em seu rosto. Forte o bastante para causar eco por entre as árvores ao nosso redor e fazer arder a palma de minha mão. Pensei que ele revidaria de alguma forma, mas ele apenas virou a cabeça novamente e voltou a me olhar.

- Covarde.- Pronunciei, ainda tomada pela raiva.- Covarde! De seu irmão tira a fala, e de seu filho a própria vida?!

- Eu não podia cuidar dele sozinho!

- E por que não?! O seu próprio filho... O filho que essa Alícia tanto se esforçou e sofreu para ter!

- Ela também não o queria! Foi um acidente!

- Ah, entendi! Fazer sexo é um "acidente" para você!

- Você não entende. Eu não sei cuidar de uma criança, não podia dar conta! Olha bem para mim, garota! Acha mesmo que eu conseguiria cuidar e educar uma criança sozinho?! Nem se eu quisesse iria conseguir! Ele seria infeliz se ficasse ao meu lado.

- Não, não seria! Por que ao contrário de você, tenho certeza de que ele o amaria! Mesmo você não passando de um covarde, falso e mentiroso! Enganando aquelas criaturas na escola e mostrando o que você não é, e nunca será!

- Você não sabe tudo o que eu passei pra chegar até aqui! Desde os meus cinco anos vivi preso naquele internato para crianças deficientes! E só consegui sair há três anos, na época em que conheci a Alícia... Aturei tudo o que aqueles desgraçados faziam sem poder fazer nada para impedir isso, por que minha mãe não estava simplesmente nem aí para o que acontecesse comigo! Essa é a criação que eu tive, é a que eu conheço! Se eu convivo com a dor e o arrependimento de ter matado nosso filho? Sim, eu convivo! Mas me sinto aliviado por tê-lo livrado desse mundo!

- Você é ridículo! Só está usando o seu passado como desculpa, para esconder o seu medo! Medo de que todos descubram quem você é de verdade, medo de ser abandonado por essas falsas amizades que você nutre... Talvez até tenha sido bom a Alícia e o bebê terem morrido. Você não conseguiria proteger eles mesmo!

Ele ergueu a mão dele rapidamente, como se fosse revidar o tapa que eu havia lhe dado. Mas parou antes de acertar meu rosto, que eu mantive firme e pronto para receber o impacto.

- Tudo bem.- Disse o vampiro calmamente, abaixando a mão em seguida.- Eu tive medo, muito medo! Medo de talvez não ser bom o bastante para cuidar do nosso filho! Era isso o que você queria ouvir?!

Eu não respondi, continuei olhando para ele com um ar sério e sem acreditar.

- Isso é idiotice. Vamos embora!- Ordenou, por final, e saiu andando de volta para escola.

Vinnie me arrastou novamente até o quarto deles, para evitar que eu tentasse fugir ou coisa do tipo. Eu sabia de muita coisa, e eles não iriam me deixar ir embora assim tão facilmente. Quando chegamos no quarto, o Will Reverso foi para o banheiro lavar o rosto, então tive de ficar com os outros dois.

Dimmy flutuou até a cama que estava suspensa, presa perto do teto, e deitou-se nela sem deixar de me olhar. Percebi, nesse momento, que em seu pulso esquerdo havia uma pulseira de pano com as cores do arco-íris em sua essência. Era o símbolo LGBT!

- Você não é como a Alícia que conhecemos!- Comentou o fantasma, virando-se de bruço na cama e balançando um pouco as pernas.- A outra era muito mais assustadora do que você!

- Você é gay?- Perguntei ao ignorá-lo, e ele deu uma risada em resposta.

- Eu sou o que você quiser que eu seja! Esse é o meu trabalho, afinal!

- Então você se prostitui só para ganhar dinheiro?! Eu não sei se as mulheres gostam desse tipo de homem!

- E quem disse que faço sexo só com mulheres?! Eu sou meio Pansexual, fofinha! Gênero e sexo dos outros são irrelevantes para mim! Farei sexo com qualquer um, seja homem, mulher, gay, lésbica, travesti... Se me pagar, eu faço! Simples assim!

- Se duvidar até um tronco de árvore entra nele sem fazer estrago!- Disse o lobisomem rindo e o fantasma riu também, mas sem discordar.

- Não vejo a menor graça nisso!- Falei rapidamente.- E se você pegar alguma doença nesse processo?! Não tem medo de que isso possa acontecer?!

Ele riu novamente.

- Ah, minha querida! Eu sou um fantasma! E nós somos como mosquitos irritantes, se pegarmos uma doença, a iremos passar à frente na próxima!

- Tá dizendo que não se importa nem um pouco de passar doenças contagiosas feito louco para outras criaturas só porque elas não fazem tanto efeito em você?!

- É, é isso aí! Acertou na mosca, fofinha!- Disse, virando-se novamente de barriga para cima e arrastando um palito por entre seus dentes.

- Não me chame de fofinha!- Falei em tom alto, mas ele me ignorou e virou para a parede, ficando de costas para mim.

- Não adianta querer dar ordens ao Dimmy!- Sugeriu Vinnie.- Ele nunca nos escuta! Mas isso até que é compreensivo, afinal depois de tantos tratamentos de choque já era de se esperar que alguns neurônios parassem de funcionar! O Will também passou algumas vezes por esses tratamentos, mas o cérebro dele se regenerava a cada vez então acabaram desistindo de puni-lo desse jeito.

Dimmy começou a dar gargalhadas nesse momento, olhando para o teto branco e encostando o pé no mesmo.

- Tá rindo do quê, doido?!- Perguntou Vinnie rindo dele também e balançando a cabeça em negação.- Eu disse que ele não batia bem!

- Mas eu não entendo, como vocês foram parar lá?! Como acabaram desse jeito...?!

- Chega de perguntas!- Ordenou Will ao se aproximar da gente.- Vocês dois vão pra aula! Eu tenho que falar em particular com a Alícia!

- Tsc. Tá bom!- Os outros resmungaram, mas obedeceram sem grande resistência.

Will foi até as prateleiras, encostou as costas nela e olhou para mim com atenção. Parecia me analisar, me devorava com os olhos e eu sentia minhas bochechas enrubecerem cada vez mais.

- Ahf.- Ele respirou fundo, em desistência, e desviou o olhar para a janela, na direção da floresta.- Você é exatamente como ela! Bom, tem algumas diferenças, mas as semelhanças suprem todas elas!

- Não mude de assunto, por favor!- Disse firmemente.- Você sabe de alguma coisa, não sabe?! Então me conta! Eu quero saber... E quem sabe evitar que alguma coisa aconteça!

Isso o chamou a atenção novamente para mim.

- Muito bem.- Balbuciou.- Vou te contar tudo o que quer saber! E tudo o que deve saber!

***

Rock estava voltando para o quarto onde os outros estavam, já havia descoberto tudo o que queria, mesmo que talvez tivesse sido melhor não! Aqui, sem a Assombrosa para causar a sua ida para o mundo humano, e posteriormente o seu acidente, a sua outra versão conseguiu entrar para a Liga Júnior, ascendido como um grande atleta e seguia uma carreira próspera, com muitos patrocinadores. Sua mãe, Melissa Burnier, vivia em perfeitas condições apesar da saúde frágil, continuando os serviços de casa e trabalhando em alguns bicos de estilista em concursos de moda. Por ter ficado um tanto solitária depois que seu filho tinha entrado para a Liga, ela decidiu ter outro bebê para ocupar o seu tempo e assim, Noah e Nowak nasceram.

Era a sua vida perfeita! A que desejou por anos e anos, ela realmente existia, mas não para ele que jamais poderia usufruir desse luxo. Sentia uma ponta de inveja de sua outra versão, o fato do outro Rock nunca ter passado por tudo o que ele passou, por toda a dor e humilhação que ele aguentou! O outro tivera uma vida ganha facilmente, e ele?! Condenado à viver sob o chão, apenas, e pouco lhe importava ter ou não as asas nessas condições. Mas também compreendia que nada poderia fazer para mudar isso, que deveria aceitar a vida que lhe foi dada sem reclamar.

Assim que entrou no quarto, queria se distrair, e questionou aos meninos sobre a minha ausência ao dar falta de mim.

- Pensamos que ela estivesse com você!- Afirmou Dimmy, começando a se desesperar.

- Mas se ela não está aqui e nem com o Rock, então onde ela está?- Questionou Vinnie, e Will levantou da cadeira em que estava sentado e concluiu rapidamente:

- Nossas outras versões!

- O que tem eles?

- Estão com ela, tenho certeza!

- E se for verdade, o que vamos fazer? Eles são muito mais fortes do que a gente!- Lamentou o fantasma.

- Sim, eles são. Mas nem por isso vamos desistir! Salvaremos a Alícia nem que seja na força bruta! Não concordarm comigo?

- Tá bem, você tem razão! Vamos fazer isso logo e sair deste lugar!- Assentiram os outros três.

Nesse momento, Assombrosa e as versões reversas de Fang e Paris entraram no quarto, e paralisaram ao ouvir a conversa dos maiores.

- Vocês já estão indo embora?!- Perguntou Assombrosa com aflição.- Por favor, fiquem mais um pouco! Não gostaram da gente, é isso?! Olha, se acharam as acomodações pequenas, nós podemos pedir para a diretora um quarto maior! Mas, por favor, não vão embora.

Dimmy a olhou, com um sorriso gentil em seu rosto, e segurou as mãos dela para que ela olhasse em seus olhos, da mesma forma que fez comigo quando cheguei àquele mundo.

- Fique calma.- Pediu com mansidão.- Não vamos ir embora por causa de vocês, na verdade já pretendíamos não passar mais do que um dia aqui.

Assombrosa continuou o olhando, fungou o nariz enquanto tentava não chorar, então balançou a cabeça e forçou um sorriso afável.

- Você se aparecesse com alguém que eu conheço.- Falou, e Dimmy desviou o olhar para Will e Rock, que acenaram para que ele contasse logo toda a verdade. Então ele sorriu, voltou-se novamente para ela e contou-lhe tudo. Contou que ele e os outros tinham vindo de um lugar distante, e aos poucos foi explicando o conceito das realidades paralelas, até que revelou o que desde o início não tentou esconder.

- E de certa forma... Eu sou meio que seu irmão!

- Sério?!- A fantasma abriu um enorme sorriso.- Não acredito! Isso é tão maravilhoso!

- Acredite, é verdade! Ah, mais uma coisa!- Dimmy andou até uma das prateleiras da escrivaninha e tirou de trás de alguns livros a coelha de pelúcia já totalmente consertada.

- Mila! Você a deixou como nova! Como sabia como ela era antes do remendo que fiz?!

- É que eu também tinha um coelho de pelúcia quando era pequeno, mas a minha irmã mais velha jogou ele no triturador de alimentos! Eu acabei preferindo não fazer outro para evitar que ela fizesse isso de novo.

A Assombrosa Reversa entristeceu-se por um momento, se aproximou do fantasma e o abraçou ao dizer:

- Desculpa. Sinto muito por isso... Se eu estivesse no lugar dela, prometo que jamais faria uma coisa dessas!

- Sim, eu acredito em você!

Enquanto os dois fantasmas se abraçavam, com o impossível desejo de serem então, em outra realidade, irmãos de verdade do jeito em que eram agora, os outros dois pares de irmãos que haviam no quarto também se identificavam e de repente aquele sentimento de vingança que perdurou em seus corações por tanto tempo já estava a desaparecer. Afinal, a vingança só os iria igualar, e não iria trazer benefício nenhum para suas vidas.

A Assombrosa Reversa, agora sentada em sua cama enquanto apreciava sua pelúcia, teve então uma brilhante ideia:

- Nós podemos ajudar a resgatar sua amiga! Podemos ensinar a vocês tudo o que precisam saber!

- Ah, Às...- Lamentou Dimmy um pouco prostrado.- O que precisamos aprender não tem como vocês nos ensinarem. Veja-me, por exemplo! Não sei nem atrevessar uma simples parede!

Assombrosa deu uma risada e se levantou em um pulo, puxando Dimmy até perto da porta.

- Não deve começar pelo mais difícil, tenta com algo mais fácil e não tão rígido.- Disse a fantasma, mas ele continuou com a mesma expressão de antes.

- Não se acanhe, meu irmão! Eu posso ensiná-lo, e vai ver que não é tão difícil quanto parece!

- Se é o que está dizendo, então vou acreditar...

***

A minha conversa com o Will Reverso foi mais tranquila do que eu imaginava. Ele me contou algumas coisas e respondeu as minhas perguntas o máximo que pôde, algumas no entanto apenas da forma mais breve possível.

Neste lugar, por exemplo, a Selkie e o Sean nunca namoraram, muito menos se conheceram! Sean só estudou aqui durante três meses, e depois retornou para o mundo humano para ficar perto dos seus pais, já que ele não tinha se adaptada às "regras" daqui. Já a Selkie teve a sua matrícula cancelada por ela não ter aparecido em sequer uma aula desde o início do ano.

O vampiro perguntou-me se eu já havia descoberto sobre a Roxie, e eu falei sobre a foto que vi escondida em um dos quartos na casa de Rock. Tentei perguntar se teria algo a mais que eu tivesse que saber, mas ele simplesmente disse que eu devia ir até a abandonada Cidade dos Gárgulas quando me convidassem, e mudou de assunto depois disso.

Pouco antes de eu sair, afinal já estava demorando demais para voltar, ele ainda me disse mais uma coisa. A mais importante dentre todas as outras até agora:

- No dia 17 de Outubro.- Disse ele.- No meu aniversário de 17 anos, por volta das sete horas da noite, vou me suicidar! Ou ao menos tentar, já que pelo menos aqui você conseguiu me impedir a tempo.

Aquilo me fez congelar. Eu sei que o Will já tentou fazer isso uma vez, e o Vinnie conseguiu o impedir na época, mas agora... É muita responsabilidade! Mas se tem que ser eu a fazer isso, pois então que seja! Farei com que ele não pense uma vez sequer nisso até lá!

- Tá, eu entendi. Vou fazer o máximo possível!- Respondi convicta.

- Agradeço.

Quando eu já estava parada em frente à forta, com a mão na maçaneta e prestes a ir embora, virei-me novamente na direção dele. Ele estava virado para as prateleiras, olhando calorosamente para uma pulseira idêntica à que eu estava usando em meu braço. Fui até ele, de forma cautelosa, mas ele permaneceu com o olhar fixo naquela pulseira.

- Ela era mesmo muito importante pra você, não era?- Comentei, ao parar devagar do seu lado.

- Você não faz ideia... Nós costumávamos fazer tudo juntos, desde de manhã até a noite! Eram dias maravilhosos.

- Por que você fez isso, Will? Por que colocou tudo a perder por um motivo tão fútil? Poderia ter sido feliz junto da criança!

- Você realmente não entende, não é?! Eu não tinha capacidades para cuidar de um bebê! Hoje eu vejo que isso era besteira, mas naquela época eu estava desesperado! Para mim, ser pai era um mundo completamente estranho e difícil, mas agora eu sei que não é tudo isso... E infelizmente não tenho como voltar atrás e consertar tudo.

- Talvez se você não fosse tão orgulhoso e tivesse cuidado direito do seu irmão teria percebido isso antes!

- O que está insinuando?- Perguntou-me um pouco ríspido, então o respondi no mesmo tom:

- Exatamente o que parece! Se não fosse tão fresco e mimado não teria feito o que fez com o seu irmão! Fala sério, tirar o direito da fala só porquê ele estava chorando?! Isso é ridículo! "Ah, desculpa vossa alteza, estou incomodando com o meu choro? Lamento eu ser apenas um bebê"!

Ele me olhou furioso, mas virou a cara para tentar disfarçar, e então sussurrou em um suspiro melancólico:

- Não fui eu quem fez aquilo com o Paris.

Eu parei de falar, acho que talvez eu tenha passado dos limites um pouco. Então abaixei meu tom de voz e tentei reatar ao clima de antes.

- Mas falaram que tinha sido você.

- Não, não fui eu.

- Então quem foi que fez aquilo com ele?

- A minha mãe.- Ele olhou para mim, no fundo de meus olhos, e eu fiz o mesmo. Não parecia ser mentira, realmente estava contando a verdade!

- Quando a minha mãe percebeu que eu tinha visto tudo, ela me agarrou pelas roupas e falou que se eu contasse para o meu pai, ela iria me colocar no internato para crianças deficientes.

- O ICDM...- Sussurrei para mim mesma e ele prosseguiu:

- Mas se eu dissesse que tinha sido eu, ela iria me dar qualquer coisa que eu quisesse não importando o valor. Logo depois o meu pai chegou do trabalho, e eu contei tudo pra ele! No dia seguinte, enquanto ele dormia, ela me levou até a sede do tal internato, e nunca mais voltou. Ela e o meu pai se separaram, mas o novo marido dela acabou o matando só para que eles pudessem pegar a tutela do Paris e assim não teriam mais que gastar dinheiro com a pensão dele.

- Mas você está aqui agora, não está?

- Não graças à ela! Se eu estou aqui, e sobrevivi para contar a história, foi porque consegui fugir daquele lugar e começar uma vida nova! O Vinnie e o Dimmy vieram comigo nessa doidera, e demos sorte pelo menos.

- Eles já estavam lá quando você chegou?

- O Vinnie chegou no mesmo dia que eu, depois que a família adotiva dele teve filhotes decidiram que ele não era mais necessário para suprir essa falta, então eles o trouxeram para aquela escola e o deserdaram. E pensar que a família biológica dele morreu em um incêndio na própria fábrica que tinham!

- Pobre Vinnie. Parece que as coisas não foram tão diferentes assim... Pelo menos ele pôde conhecer a família biológica e tê-la nas lembranças. Mas e quanto ao Dimmy? Ainda não consigo acreditar que ele tenha acabado desse jeito!

- O Dimmy, bem... Eu não sei quando exatamente ele chegou. Os funcionários daquele internato o deixaram por muito tempo em quarentena e só depois que ele se juntou à gente. Dizem que os pais dele o abandonaram lá por que tinham medo que ele os matasse ou acabasse matando a Assombrosa, que era só um bebê na época.

- M-Matar é uma acusação meio forte, não é?! O Vinnie disse que ele ficou assim depois de ter entrado naquele lugar, então antes ele deveria ser apenas uma criança normal, certo?!

- Mais ou menos... É que, na verdade, quando ele tinha uns quatro, talvez cinco anos, ele assassinou um dos vizinhos com uma facada no peito e outra no pescoço. Aparentemente esse vizinho abusava dele quando não tinha ninguém em casa, então isso foi apenas o seu modo de defesa!

- O que não deixa de ser errado...- Retruquei rapidamente, mas Will fingiu não me ouvir e voltou a olhar para a pulseira.

- Eu entendo perfeitamente o lado de vocês, mas não acho que devam punir os seus irmãos por causa disso tudo que aconteceu. Eles não têm culpa!

- Por que deveríamos nos importar com eles? Se nem eles lembraram da gente durante todo esse tempo! Nós chegamos primeiro, somos os primogênitos, mas mesmo assim é como se não fôssemos nada para eles e nem para ninguém de nossas famílias. Apenas estamos nos vingando, nada mais do que isso! Além disso, ano que vem vamos dar o fora daqui, e graças aos céus não precisaremos mais olhar na cara desses traidores desgraçados.

Eu queria falar alguma coisa, qualquer coisa que servisse para que ele não ficasse desse jeito, mas não tinha nem ideia do tamanho da dor que ele deveria estar sentindo. Ficar tantos anos preso em um lugar horrível, sofrendo todo tipo de tortura e obrigação, e ainda perder alguém que amava de uma maneira tão impactante.

- Você não precisa se culpar tanto.- Disse em um tom mais meigo.- Ela não iria gostar se soubesse que está triste!

- Se ela soubesse a falta que me faz... Lembro que às vezes eu ficava olhando escondido pela abertura da porta do quarto dela enquanto ela penteava o cabelo. A forma delicada e tão charmosa com que ela passava a mão pelos seus fios loiros para ver se ainda tinha algum nó... Era tão linda! Pouco antes dela morrer, ela fez uma tatuagem no braço falando que pertencia à um amor vampiro, e veio toda contente me mostrar. E quando ela vinha chorando até o meu quarto de madrugada porquê tinha tido algum pesadelo, era tão angelical a forma doce como se aconchegava em meus braços para se sentir segura. Ela dizia que este mundo dava-lhe muitos pesadelos. Ahf... Que saudade dela!

- Eu sinto muito por tudo isso que você está passando. Mas não acha que está na hora de seguir em frente? De ir atrás de uma nova felicidade, um novo sonho para conquistar! Quero dizer, a Sarah ainda deve estar por aqui, não é?!

- Sarah? A colega de turma do meu irmão? Não, eu não poderia fazer mais isso com ele... Não, estou bem assim! Eu só amo a Alícia, e nenhuma outra no mundo poderá substituí-la!

- Isso é muito lindo de se dizer, Will!

Ele ficou em silêncio por um momento, apenas olhando para a pulseira.

- Bom, é melhor eu ir. Os meninos já devem estar preocupados comigo!

- Não, espera.- Falou o vampiro rapidamente, puxando-me para perto dele. Eu estava corada, e nossos olhares não desviavam um do outro. Ele me acariciou o cabelo. Senti sua mão passear levemente pelo meu pescoço, e depois foi subindo pela minha nuca. Ele estava tão perto de mim, e a parede às minhas costas já se fazia presente.

- Will...- Sussurrei como um gemido, em resposta ao beijo que ele havia me dado no pescoço e que me fez arrepiar todo o corpo.

- O que foi? Você não está gostando?- Perguntou com voz rouca ao meu ouvido, descendo suas mãos pelo meu corpo e arrastando as presas no meu pescoço, onde tornou a beijar-me e lamber-me com desejo.

- Pare... Você não pode fazer isso!

- E por que não?! Você ainda não percebeu, Alícia? O universo te trouxe até mim, para suprir a dor e a falta que ela me faz!

- Isso é um absurdo, eu não estou aqui por causa de você! Então, por favor, me solte! Ou vou gritar até que alguém apareça!

- Você pode gritar o quanto quiser, mas ninguém vai te ouvir daqui. Eu gostei de você ter vindo até aqui, fez reacender em meu coração a chama que eu sentia toda vez quando estava junto de você.

- Não, aquela não sou eu! Isso tudo está confundindo a sua mente, você precisa superar isso de uma vez por todas!- Eu implorava, mas ele continuava a me ignorar e suas carícias se intensificavam.

- Alícia...- Chamou-me, tentando me beijar. Eu virei o rosto.

- Will, não. Eu não posso fazer isso!

- E por que não?- Ele estava começando a perder a paciência.- Você fazia de tudo com aquele seu irmão de consideração, não é?! Então por que não pode fazer isso comigo agora?!

- Não acredito que disse uma coisa dessas... Não me ofenda desse jeito, eu nunca fiz com o Maiko por prazer! Era por medo, eu era obrigada a obedecê-lo! Pare com isso já! Está sendo ridículo!

Eu suplicava, mas ele insistia cada vez mais. Então prensou meu corpo contra parede, e segurou minha cabeça firmemente.

- Se tentar me beijar à força... Eu vou mordê-lo!

- Você não ousaria.

- Quer apostar?

Ele estava hesitando, sabia do que eu era capaz de fazer e o quão séria estava falando. E mesmo assim ainda tentou forçar seus lábios sobre os meus, mas rapidamente os afastou com um gemido de dor. Escorreu um pouco de sangue de seu lábio inferior, e o arranhão que lhe causei logo desapareceu.

- Cadela...- Disse-me, sorrindo ainda mais perveso, e limpou o sangue na gola de minha blusa.

- Não foi por falta de aviso.

Mas ele não pretendia desistir, voltando a beijar-me pelo pescoço, sempre arrastando suas presas nele nos intervalos de tempo. Tomado pelo desejo, pela dor e o orgulho ferido que a outra Alícia lhe havia causado, e já possesso de tanto esperar, falou-me impaciente:

- Você será minha, não importa o que faça! Beije-me agora, Alícia! Isso é uma ordem!

- Nunca!

- Por que?! Por que está sendo tão teimosa em resistir à mim?!

- Porque... Porque você não é o meu Will! E nunca irá substituí-lo!

Ele me olhou surpreso,  e decepcionado. 

- E eu não sou a sua Alícia, àquelas memórias não foram feitas comigo.- Continuei, mesmo que ele já soubesse o que eu iria dizer adiante.- E nada, nem ninguém, pode fazer com que elas voltem. A Alícia se foi, ela está morta, mas se continuar a amá-la, ela ainda pode continuar viva no seu coração!

Porém antes mesmo que ele me respondesse, e que eu precisasse o bater com a barra de ferro que encontrei escondida atrás do armário ao meu lado, veio à mim meu talismã, minha sina, que brutalmente abriu a porta e deu-lhe um soco no rosto enquanto gritava:

- Tire suas mãos dela, seu desgraçado!

O Will Reverso se afastou, esfregando a bochecha levemente machucada sem deixar de sorrir da mesma forma que antes, e o Will que lhe havia batido mantinha-se agora na minha frente. E logo os outros também apareceram e ficaram ao meu redor para me proteger. O pequeno trio reverso não estava com eles.

- Eu costumava bater mais forte do que isso!- Afirmou o vampiro Reverso, provocando-nos, e Will não se conteve para atirar-se novamente sobre ele e tentar socar-lhe novamente, mas o outro foi mais rápido e se desviou.

- Muito lento!- Alegou o maior, dando um mata-leão em Will.

- Me solta...! Maldito!

- Solta ele agora!- Os meninos tentaram ir para cima do Will Reverso, mas suas outras versões surgiram nesse mesmo momento e os impediram de se aproximarem.

O Dimmy Reverso apareceu saindo da parede à nossa esquerda, e o Vinnie Reverso entrou pela porta à direita, e por um momento nós já estávamos cercados.

- Voltamos.- Anunciou o fantasma em uma melodia, com um enorme sorriso louco em sua face.- Ora, novos amigos pra brincar?!

- Não acredito que esse cara é mesmo uma outra versão de mim.- Sussurrou o fantasma ao meu lado e nos juntamos ainda mais.

Will conseguiu se soltar e tentou socar outra vez o outro vampiro, mas ele novamente se desviou e deu um gancho de direita em seu queixo em resposta, o empurrando para a janela aberta.

- Will!- Clamei, como se o meu pedido tivesse a força necessária para impedir que ele caísse daquela janela. E o outro Will logo atirou-se sobre ele, fazendo-os ambos irem para fora da mesma. Se não fosse a habilidade de se transformar em morcego, teriam caído e se espatifado lá embaixo!

O Will Reverso, depois de voar de volta para dentro do quarto, transformou-se de volta rapidamente e agarrou Will com força antes que se transformasse também. Apertando tanto o corpo dele em sua mão, e o fazendo farfalhar tão alto, que todos pudemos ouvir quando o osso de seu ombro saiu do lugar.

Vinnie gritou para que ele o soltasse, e ainda tentou pular em cima dele, mas o Dimmy Reverso utilizou a mesma habilidade que havia usado comigo anteriormente e o fez se ajoelhar no chão por conta da dor intensa.

- M-Maldito...- Rosnou o lobo caído, tentando ainda morder a perna do fantasma, mas que conseguiu desviar enquanto ria. E quando Rock tentou avançar para cima dele, o Vinnie Reverso o deteve e eles dois logo começaram a se golpear em uma disputa de força bruta.

Will se transformou de volta, socando novamente o rosto de seu reverso para afastá-lo e caiu ajoelhado pressionando seu ombro deslocado, que ao juntar forças o empurrou para o lugar em um grito de dor.

- Dimmy...- Suplicou ofegante, se levantando e pondo-se na nossa frente, para evitar que os outros se aproximassem.- Leva a Alícia de volta ao ponto de partida! Nos restam menos de 10 minutos e se não voltarmos a tempo... Bom, você já sabe o que acontece!

- Mas o Rock e o outro Vinnie estão na frente da porta, se a gente for por ali a Alícia pode acabar se machucando!- Respondeu Dimmy com aflição.

- Lembra do que a Assombrosa Reversa te ensinou! Você conseguiu passar pela porta do quarto, então se esforce mais um pouco e vai conseguir passar pela parede que está atrás de vocês também!

- É completamente diferente, eu não vou conseguir! Aquela porta era de madeira e oca por dentro, e não de concreto como essa parede! E se eu acabar não conseguindo no meio do caminho? A Alícia seria esmagada por causa disso!

- Ei, olha pra mim!- Mandei, o virando na minha direção para que me encarasse.- Você vai conseguir sim! Eu acredito em você! E além disso, é a nossa única solução! Não tem que se preocupar comigo.

- Não é tão simples assim para mim, Alícia! Se não consigo atravessar nem a mísera porta de metal dos armários, quem dirá uma parede!

- Você consegue, você consegue! Quero que acredite em mim do mesmo jeito que acredito em você! Se deixar seus medos te dominarem, estará seguindo para um caminho sem volta! Então não pense que não vai conseguir, mantenha o foco e se jogue nessa parede com toda força que tiver!

- Eu vou tentar...

Eu olhei para Will, que se mantinha firme empurrando seu reverso para longe de nós. Então eu sorri, peguei Dimmy pela mão e nos afastei da parede.

Com a adrenalina solta pelas veias, e todos se esbufetando ao nosso redor para criar uma abertura de nossa fuga, o pequeno fantasma saiu em disparada rumo ao concreto. Fechamos os olhos, nos preparando para o impacto, e de repente senti como se uma onda do mar tivesse passado sobre nossos corpos. Por um momento eu duvidei da capacidade do Dimmy, e pensei que realmente bateríamos de cara na parede, mas eu me enganei. E ele conseguiu fazer com que nós dois passassemos em segurança pela parede.

Era uma vitória, não só para ele, mas para todos nós de certa forma. Mas por ordens do outro Will, o Dimmy Reverso estava vindo atrás de nós, então não tivemos tempo para parar e apenas continuamos a correr. Correr, e atravessar paredes, continuar correndo e atravessar mais paredes. Passaram-se uma, duas, três, quatro... Tentávamos despistá-lo, mas ele continuava no nosso pé. Na sétima parede atravessada, assim que saímos dela, Dimmy caiu no chão vomitando um pouco de sangue.

- Dimmy! Por que não me disse que não estava mais aguentando?! Está se forçando demais!- Eu me ajoelhei ao lado dele, mas ele tomou-me novamente pela mão e prosseguiu correndo por mais duas paredes, e acabou caindo novamente.

- Já chega! Você já fez o bastante, tenho certeza que já conseguimos despistá-lo!

- Não, ele está se aproximando. Tenho que te levar daqui, antes que o nosso tempo se esgote!

- Por que? O que vai acontecer se não voltarmos a tempo?!

- Não podem existir duas versões de si mesmo dentro de uma mesma realidade, então quando nosso tempo acabar, vamos nos fundir às versões daqui! E pra você significaria que...

- Eu iria morrer... Não, isso não pode acontecer!

- Exatamente!

O Dimmy Reverso saiu da parede que havíamos acabado de atravessar e veio voraz para cima de nós. Dimmy levantou-se rapidamente, e se jogou junto de mim para outra parede, e a atravessamos novamente. Ele vomitou mais uma quantidade considerada de sangue, mas ainda assim se mantinha disposto a continuar se necessário. E não hesitou em agarrar a sua outra versão só para que eu pudesse sair correndo daquele quarto.

- Me solta!- Berrou o maior, e começou a rir em seguida.- Temos muito o que brincar com ela ainda!

- Você é louco! Não vou deixar que se aproxime dela de novo!

- Não, você está errado, pequeno eu. Nós somos loucos! Você é como eu, e um dia também vai ceder aos seus desejos e instintos assim como eu para poder sobreviver! No fundo, você sabe que eu sou o seu futuro! Não fomos feitos para nos misturar, e sim para dominar tudo e todos que se opuserem à nossa vontade!

- Não escuta ele!- Alertou Assombrosa Reversa, entrando no quarto e acertando a cabeça de seu irmão com uma pá e o fazendo gritar de dor.- Ele é um baita manipulador! Se acreditar nele, aí sim estará fadado à se tornar alguém como ele!

- Às... O que está fazendo aqui? Ele vai te bater se continuar fazendo isso!- Disse Dimmy já sem forças, e Assombrosa o segurou e o apoiou em seus ombros, o ajudando a sair de lá e seguindo o mais rápido possível para o quartinho no porão.

- Não ligue para o que vai acontecer comigo depois! O mais importante é levar vocês de volta! O Fang e o Paris também já foram lá ajudar.

E isso era verdade. Enquanto o Fang Reverso tentava segurar o outro Vinnie com todas as suas forças, o Paris Reverso distraía o outro Will e tentava segurá-lo também, mesmo que acabassem apanhando depois eles não iriam desistir.

Até que quando chegamos no corredor que daria para o porão, todos acabamos nos encontrando.

- Peguem eles!- Ordenou o Will Reverso e os seus capachos correram desembestados atrás de nós. Por sorte conseguimos chegar antes deles no pequeno laboratório e nos trancamos lá dentro.

Eles ficaram gritando xingamentos e ofensas, e batendo na porta com força para tentar arrombá-la. Perguntei se o Dimmy Reverso não teria como atravessar por aquela porta, e a Assombrosa Reversa explicou que fantasmas não conseguem atravessar por coisas enfeitiçadas, ou poderiam queimar-se vivos. Mas a tranca da porta não aguentaria muito mais as pancadas violentas que os maiores davam nela.

- Vocês não têm muito mais tempo, é melhor irem logo! Deixem o restante com a gente!- Afirmou Fang convicto, e Paris apontou para cinco frascos com poção dentro que estavam sobre a mesa ao nosso lado.

- Não podemos deixar vocês aqui...- Vinnie disse ao se aproximar dele, e o pequeno lobisomem o abraçou por um instante, mas logo voltou a pressionar a porta.

- Nós vamos ficar bem! Mas nunca nos perdoaríamos se vocês acabassem se juntando à esses monstros!

Paris reverso se aproximou de Will e gesticulou algumas palavras também. Will sorriu um pouco sem graça e se abaixou para ficar da altura dele.

- Eu não entendo o que você está dizendo, mas sei que deve ter sido algo muito lindo!

O pequeno vampiro abraçou Will com força, e ainda tentou controlar um pouco suas lágrimas.

- Ele disse que iremos sentir falta de vocês...- Traduziu Assombrosa, voltando-se em seguida para Dimmy.- E isso é mesmo verdade! Eu trouxe um presente pra você!

A fantasma andou até a mesa e tirou debaixo dela uma caixa, e de dentro dela, pegou Mila no colo e passou para o colo de Dimmy em seguida.

- Acho que você precisa dela mais do que eu! E eu... Sinto muito pelo o que a minha outra eu fez, mas saiba que se dependesse de mim tudo seria diferente!

Dimmy sorriu gentilmente, mas devolveu Mila para Assombrosa.

- Eu vou ficar bem.- Disse.- Além disso, a Mila ficaria triste sem você para cuidar dela!

- Sim... Obrigada!- Ela o abraçou apertado, chorando, e só o soltou para secar as lágrimas.- Você foi o melhor irmão que eu poderia desejar, mesmo tendo sido só por quatro horas da minha vida. Nunca vamos esquecer vocês! Mas agora é melhor vocês irem, o tempo urge depressa!

- Sim, tem razão!

Nós pegamos as poções, e as bebemos com a mesma repugnância de antes. E a tontura logo veio nos dominar, assim como a terrível ardência em meu corpo.

Rock foi o último a beber, já que esteve esse tempo todo desde que entramos, olhando para o alto do prédio ao lado, que tinha visão direta para onde estávamos. Lá em cima, observando-nos, estava a sua outra versão, o Rock Reverso, acompanhado pela Savannah Reversa, sua noiva.

- Vamos, Rock.- Pediu ela um tanto séria, com a mão sobre seu ventre levemente acrescido.- Estou um pouco enjoada!

O gárgula continuou olhando por mais alguns segundos para onde estávamos, mas suspirou em desistência e abraçou Savannah, a guiando para uma escada para descerem dali sem que ela tivesse que se esforçar.

- Era quem você achou que fosse?- Perguntou ela ainda.- A tal garota loira...

- Talvez. Mas agora tenho outras preocupações. Nós dois temos!

Fomos adormecendo aos poucos, e pouco antes de eu adormecer junto dos outros, já deitada no chão e com a visão turva, vi um portal ser aberto na minha frente, e de lá pude ver os pés da Dandara saindo do mesmo.

***

Acordamos, no mesmo chão de antes, porém na realidade normal deles. E eu espero nunca mais ter que ver aquelas versões malvadas e loucas deles de novo! Não, estou feliz com estas daqui! Por que sei o quão bons e puros eles são!

- Ai, minhas costas!- Resmungou Vinnie ao levantar.

- Meu corpo todo dói...!- Comentou Dimmy deitado sem se mexer, fazendo os outros rirem, mas resmungarem de dor em seguida.

Dandara estava ali, como eu imaginei. Levantei-me a encarando, e esperei que todos saíssem para que eu pudesse questioná-la.

- Você não vai sair, Alícia? Eu tenho que fechar a sala.- Disse a bruxa, parada já à porta.

- Por que mentiu para a gente?

- Do que você está falando?

- Não se faça de idiota!- Falei autoritária.- Eu sei que aquela porcaria de poção não faz nada mais do que nos fazer dormir! Vi quando você saiu do portal para nos buscar.

- E o que você queria que eu fizesse? Que contasse à eles a verdade?! Não quero iludir eles com o pensamento de que posso te levar de volta para o seu mundo, sendo que isso não é possível!

- Então você pode mesmo abrir portais...

- Eu não abri aquele portal! Foi o Cupido, eu pedi à ele para que me ajudasse com isso. Precisava mostrar à eles o que se tornariam se não desistissem do pensamento egoísta de se vingarem.

- É?! Pois você conseguiu! Eles já não pensam mais nisso com tanto força quanto antes. Mas duvido que a Assombrosa, o Fang e o Paris daqui mudem os seus pensamentos!

- Por favor, não conte nada à eles! Sei o quanto eles ficariam felizes por você se conseguisse voltar para o seu mundo de uma forma tão simples! Mas infelizmente ela não é. Espero que entenda, por que só um portal criado de forma natural pode te levar de volta para onde você veio. Do contrário, ficará presa aqui para sempre!

- Eu compreendo... É uma pena não ter ninguém com a habilidade para me levar de volta para casa!

- Você ainda tem muito o que fazer aqui, é o que minhas visões me dizem! Eu até poderia pedir para o Zac tentar criar um portal, mas o poder de Blair é tão poderoso que se for usado de uma forma imprudente poderia acabar criando um buraco negro e destruindo toda a nossa dimensão.

- Tá, tudo bem. É melhor eu ir, antes que a diretora acabe aparecendo e descobrindo tudo o que você fez pela gente.

Eu saí do quarto, e segui atrás dos meninos tentando disfarçar a minha tristeza com um sorriso forçado. Levantei meu olhar para frente uma única vez, para olhar para o Will, que sorria enquanto conversava alguma coisa com o Vinnie e o Rock. Meu coração ficou apertado, o seu sorriso por mais lindo que fosse, estava me machucando... E a cada momento eu lembrava de toda a história, a minha sepultura, o bebê inocente que acabou sendo morto pelo próprio pai. Não quero que o destino do Will seja igual ao daquele, não quero que nada de ruim aconteça com ele, não quero que o seu coração se parta por minha causa. Acabar com esse sorriso seria o fim do mundo para mim. Então, talvez não sejamos mesmo feitos um para o outro. E por mais egoísta que isso possa ser, por mais que isso possa doer em mim, eu não vou me apaixonar por ele! E nem ele por mim...

Foi desse jeito desacreditado, aflito e angustiado, que passei a noite sob sonhos e pesadelos horríveis que envolviam não só à mim, mas também o Will e a Sarah.


Notas Finais


E é isso pessoas! Espero que tenham gostado, voltarei em breve com o próximo capítulo!! Até! <3


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